
DICIONRIO de KANT

HOWARD CAYGILL




Traduo: LVARO CABRAL

Reviso Tcnica: VALERIO ROHDEN
Professor titular do Deptsde Filosofia
e do Programa de Ps-Graduao em Educao
da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA/RS)
Presidente da Sociedade Kant Brasileira

Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro

Ttulo original: A Kant Dictionary

Traduo autorizada da primeira edio inglesa
publicada em 1995 por Blackwell Publishers,
de Oxford, Inglaterra

Copyright (c) 1995, Howard Caygill
Copyright (c) 2000 da edio em lngua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda.

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Caygill, Howard
C378d
Dicionrio Kant/Howard Caygill
traduo, lvaro
Cabral; reviso tcnica, Valerio Rohden. - Rio de Janei-

1. Kant, Immanuel, 1724-1804 - cionrios. I. Ttulo. II. Srie.
Linguagem - Di-CDD 193
00-1153
CDU 1(43)




Sumrio
Prefcio e agradecimentos                                                                        vii
Introduo: Kant e a linguagem da filosofia                                              ix
Algumas observaes sobre esta traduo, por Valerio Rohden                 xi
Sistema de citaes e abreviaes                                                             xv
Kant e a "poca da Crtica"                                                                     xix
VERBETES DO DICIONRIO -r- A-Z                                                     1
Obras publicadas de Kant                                                                       321
Obras citadas no texto                                                                            331
Leituras adicionais recomendadas                                                           339
ndice de filsofos                                                                                  343
ndice de conceitos                                                                                 347




Um dicionrio comea quando passa a fornecer, em vez do significado de palavras, suas funes.
GEORGES BATAILLE




Prefcio e agradecimentos
A minha primeira experincia de leitura de Kant no foi inteiramente feliz. Eu estava perplexo com o seu uso da linguagem e perturbado pelo que me parecia ser um
desejo manaco de classificar e estabelecer sutis e interminveis distines. Afortunadamente, essa desorientao inicial no tardou em converter-se num duradouro 
fascnio - se bem que Kant jamais perdesse a sua capacidade de surpreender. O meu livro procura manter-se fiel a essa experincia, oferecendo uma orientao que 
no perde de vista o que permanece perturbador na filosofia de Kant. No procurei embalsamar Kant produzindo um coadjutor filologicamente correto para os scholars 
kantianos "profissionais", uma tarefa que suspeito estar alm dos poderes de qualquer indivduo finito - e por certo dos do presente autor - e a qual exigiria mais 
de um volume. Em vez djsso, preferi escrever para leitores atuais e potenciais de Kant interessados no s em filosofia mas tambm nas cincias humanas e sociais 
que so herdeiras da filosofia crtica.
 um prazer agradecer o apoio e o bom humor que me foram propiciados por minha famlia, amigos e colegas enquanto estive escrevendo este livro. Estou particularmente 
grato a minha irm Caroline por sua inabalvel jovialidade, a Greg Bright, que merece a palma de mrtir pela leitura de A a Z, a Onora 0'Neill por seus perspicazes 
comentrios crticos numa etapa inicial da composio, e a Jay Bernstein, Judith Mehta e Gilliam Rose por alimentarem e corroborarem a minha confiana no projeto. 
Auferi grandes benefcios de conversas sobre assuntos kantianos e no-kantianos com Richard Beardsworth, Sara Beardsworth, Monika Fludernik, David Owen e Alan Scott. 
Agradecimentos so tambm devidos a Blackwell Publishers por sua pacincia,  Academia Britnica por seu apoio numa viagem de pesquisa a Berlim em 1990, e  Universidade 
de East Anglia por me conceder uma licena especial de estudo no vero de 1992. Finalmente, desejo agradecer a assistncia para alm do tmulo de geraes passadas 
de lexicgrafos de Kant - sobretudo Mellin, Schmid e Eisler -, sem os quais eu no poderia ter sequer comeado.
Norwich, Inglaterra 12 de abril de 1994

Introduo: Kant e a linguagem da filosofia
A influncia da filosofia de Kant foi, e continua sendo, to profunda e to vasta a ponto de converter-se em algo imperceptvel. A investigao filosfica, no mbito 
das tradies "analtica" e "continental",  impensvel sem os recursos lexicais e conceituais legados por Kant. Mesmo fora da filosofia, nas humanidades, cincias 
sociais e cincias naturais, os conceitos e estruturas de argumentao kantianos so ubquos. Quem quer que exera a crtica literria ou social est contribuindo 
para a tradio kantiana; quem quer que reflita sobre as implicaes epistemolgicas de sua obra descobrir estar fazendo-o dentro dos parmetros estabelecidos por 
Kant. Com efeito, muitos debates contemporneos, em teoria esttica, literria ou poltica, mostram uma peculiar tendncia para converter-se em discusses em torno 
da exegese de Kant. Em suma, nos menos de 200 anos desde a morte de seu autor, a filosofia kantiana estabeleceu-se como indispensvel ponto de orientao intelectual.
Embora a influncia de Kant seja um fato que poucos se atreveriam a contestar, as opinies divergem amplamente, no entanto, a respeito de sua significao e convenincia, 
e em nenhuma esfera mais do que em suas inovaes a respeito da linguagem da filosofia.  sobejamente reconhecido que Kant transformou a linguagem filosfica, mas 
escassa  a concordncia sobre se isso foi uma boa coisa; Isaiah Berlin, por exemplo, acha que ele a "estragou." Seja qual for o veredicto final, o principal problema 
com que o lexicgrafo se defronta  de natureza mais tcnica, dizendo respeito, sobretudo, ao modo como Kant realizou essa transformao e, em menor extenso, aos 
seus motivos para assim proceder. Com efeito, Kant no s ampliou a traduo de Christian Wolff da terminologia filosfica latina para o vernculo mas tambm a cotejou 
com reas de experincia previamente excludas da filosofia. Reinventou a linguagem filosfica ao introduzir nela termos e conceitos oriundos de domnios estranhos 
 filosofia, assim como redefiniu deli-beradamente muitos dos tradicionais. A matriz dessa transformao lingstica e conceituai reside nas aulas que deu ao longo 
de mais de quatro dcadas sobre uma vasta gama de assuntos. Nelas explicou os conceitos filosficos tradicionais dos compndios oficialmente recomendados por meio 
de matrias extradas da cincia natural do seu tempo, jornais, romances e poesia, assim como de livros de medicina e de viagens.
A primeira gerao de lexicgrafos de Kant, com destaque para Mellin (1797) e Schmid (1798), teve-o em grande apreo por melhorar a exatido da linguagem filosfica, 
assim como por ampliar os seus limites. Ambos sublinharam a maior preciso filosfica permitida pelas inovaes lingsticas de Kant. Entretanto, de um extremo ao 
outro

x            Introduo: Kant e a linguagem da filosofia
de seus lxicos, h uma discernvel tenso entre a exatido decorrente dos aperfeioamentos introduzidos na linguagem e os efeitos perturbadores do seu enriquecimento 
da mesma. O monumental Kant-Lexikon (1930) de Eisler preservou uma ortodoxia acadmica que realou a exatido e fidelidade de Kant  tradio sobre a inovao. A 
sensibilidade ao carter radical da reinveno da linguagem filosfica, evidente nos primeiros lxicos, tinha-se dissipado quase por completo. Para Eisler, ao invs 
de Mellin e Schmid, a filosofia de Kant deixa de ser controversa; o seu texto  considerado um todo auto-suficiente e abordado por meio de uma estratgia lexicogrfica 
que enumera, de maneira indiscriminada, como um determinado termo foi usado em vrios pontos na obra. O lxico de Eisler nasceu do mesmo desejo monumental que presidiu 
 formulao da poltica editorial da Academia de Berlim para a edio cannica dos escritos de Kant.
Kant teria provavelmente ficado consternado em face do imponente edifcio criado em seu nome por editores e lexicgrafos subseqentes. Ele prprio adotou um critrio 
problemtico em relao  linguagem filosofante e filosfica e permitiu que esse enfoque informasse as suas inovaes lingsticas. Nos prprios termos de Kant, 
os conceitos filosficos eram acroamticos e no axiomticos, com o que pretendeu dizer que eram o resultado discursivo de um processo de reflexo sem limites previamente 
estabelecidos sobre problemas filosficos. Diferentemente dos axiomas geomtricos, os conceitos filosficos so, para Kant, menos os produtos indiscutveis de definio 
do que os resultados equvocos de um processo de apresentao indireta que assenta, em ltima instncia, na analogia. Kant discutiu esse processo de definio analgica 
na Critica da faculdade do juzo (59), onde o aplicou a conceitos filosficos tais como "substncia" e "fundamento", os quais transferem determinada relao entre 
um conjunto de termos para um outro. No s esses conceitos so descobertos no decorrer da reflexo sobre um problema ou uma dificuldade, mas sua "definio"  realizada 
mediante o relacionamento deles com outros termos. Substncia, por exemplo,  definida em oposio complementar a acidente, da mesma forma que conceito  intuio, 
matria  forma, e assim por diante. No s muitos termos so definidos disjuntivamente, mas tambm participam de uma rede de termos aparentados que enriquecem e 
complicam ainda mais os seus significados. Contm vestgios de problemas extintos, dos quais podem ser expurgados, como Kant mostra no caso do termo "abstrao," 
ou os quais ainda esto ativos de maneiras que devem ser respeitadas, como no caso de "absoluto".
Este dicionrio procura mapear os aspectos problemticos e relacionais do vocabulrio filosfico de Kant. Em vez de apresentar um conceito como um elemento fixo, 
axiomtico, da filosofia de Kant,  maneira de Eisler, os verbetes sublinham o carter problemtico, exploratrio, do seu mtodo de filosofar. Com esse propsito, 
um verbete recapitular a histria do problema para o qual o termo  uma resposta e mostrar a maneira como Kant tratou de definir o seu significado no decurso da 
reflexo. Alm disso, cada verbete ser precedido por uma lista de termos aparentados que formam a rede no seio da qual ele adquire seu pleno significado. Finalmente, 
os verbetes, sempre que apropriados, tambm consideraro o destino de conceitos depois de Kant, sublinhando assim a posio cardeal que sua obra ocupa entre a tradio 
e a modernidade filosficas. Espero que esta estratgia proporcione ao leitor uma noo clara do poder e alcance do filosofar de Kant e, atravs dela, algum discernimento 
sobre a razo para a sua enorme e aparentemente inexaurvel influncia sobre a cultura moderna.
Algumas observaes sobre esta traduo
1. A bem-sucedida traduo do ingls deste Dicionrio - feita por lvaro Cabral - contou com minha pronta colaborao em vista da importncia de sua iniciativa. 
Minha participao limitou-se a alguns cuidados complementares com a terminologia e a coerncia do pensamento kantiano. O Tradutor j se adiantara em diversas dessas 
tarefas, checando, por exemplo, a exatido das remisses do Autor s pginas dos principais textos de Kant e corrigindo algumas delas.
A importncia da manuteno da unidade terminolgica original de Kant deve-se a que Kant, de um lado, beneficiou-se diretamente das inovaes da terminologia filosfica 
introduzidas por Christian Wolff na lngua alem. Num papel semelhante ao de Ccero, que latinizou a terminologia filosfica grega, Wolff foi o pai da terminologia 
filosfica alem, traduzindo-a de suas fontes latinas: "Wolff fundou a terminologia filosfica alem, na qual introduziu termos como Bewusstsein [conscincia], Vorstellung 
[representao], Begrijf [conceito] e Wissenschaft [cincia]" (W. Weber, verbete "Wolff, Christian". In: Metzler Philosophen Lexikon. Sruttgart: J.B. Metzlersche, 
1989, p.824). De outro lado, porm, Kant deu um grande passo alm de Wolff, reintroduzindo na terminologia filosfica alem uma srie de palavras e conceitos gregos 
que haviam cado em desuso, como categoria, autonomia, antinomia etc. (ver sobre este assunto as consideraes do Autor na Introduo: "Kant e a linguagem filosfica"). 
J no curso do Dicionrio, ele faz uma observao que d a medida de todo o cuidado que devemos ter com as caractersticas especficas dessas inovaes lingsticas 
e filosficas: "A mais significativa inovao de Kant foi a traduo de temas e distines tradicionais para a terminologia moderna, reformulando o problema tradicional 
da relao entre ser e logos em termos de juzo" (p. 19), o que levou Kant, a partir dessa traduo, a distines entre Sein (ser), Wirklichkeit (efetividade) e 
Existenz (existncia).
2. Mesmo discordando de algumas das tradues terminolgicas do Autor, reproduzidas pelo Tradutor, foi respeitada sua opo, sempre que eventuais adaptaes  linguagem 
filosfica em formao entre ns implicassem alteraes de suas concepes ou de seu emprego. Isso ocorreu em relao a termos - s para dar alguns exemplos - como 
appea-rance para traduzir Erscheinung (aparncia/fenmeno); bem como mind para traduzir Gemt (mente/nimo). Embora este termo seja tomado tambm s vezes no sentido 
de "esprito", ele pode ser usado convenientemente sobretudo quando se refere a faculdades de conhecimento. Por outro lado, a lngua inglesa traduz mais corretamente 
que

Algumas observaes sobre esta traduo
ns Sitten ou Metaphysik der Sitten por "moral" ou "metafsica da moral", e no dos "costumes", uma vez que aquele termo no tem em Kant o mesmo sentido que toma 
em Hegel. A tendncia do Tradutor a traduzir synthetic apriorijudgment ora por juzo sinttico apriori, ora - seguindo seu instinto lingstico - por juzo apriori 
sinttico foi mantida. Tanto a gramtica como a Crtica da razo pura parecem apontar na direo da segunda forma. Na Introduo a essa obra, por exemplo,  clara 
a inteno de contrapor e acrescentar a uma forma consagrada de juzos apriori, os analticos, uma outra forma de juzos apriori, os sintticos. Em relao  ordem 
de traduo do termo "puro", em expresses como pur apriori intuitions (intuies apriori puras), isso fica ainda mais claro e justificado, pois "puro" remete a 
uma forma de a priori: o a priori tomado em sentido estrito e tambm originrio (cf. neste ltimo sentido CRP B 132). A traduo do Autor de LustlUnlust porpleasurelpain 
foi algumas vezes corrigida para prazer/despra-zer, j que o termo Schmerz (dor)  contraposto por Kant a uma forma especfica de prazer, o Vergngen, como prazer 
sensorial imediatamente ligado ao corpo. O Autor ingls tambm traduziu convenientemente Grundsatz porfundamentalproposition: "For Wolf-fians the two fundamental 
principies common to being and knowing were actually fundamental propositions (Grundstze)" (Para os wolffianos, os dois princpios bsicos comuns a ser e ao saber 
eram, na realidade, proposies fundamentais (Grundstze), (p.259). A respeito dessa contraposio cf. ainda CRP B 188,  qual Raymund Schmidt, no Vocabulrio de 
sua edio (1993) dessa obra, remeteu  seguinte observao: "Grundsatz (cf. tb. Prinzip): proposio que no est fundada em conhecimentos mais altos (apriori)" 
(p.819). A maneira de Kant, foi mantida a transliterao do termo grego singular e plural noumenonlnoumena, porque persistem controvrsias sobre seu correto aportuguesamento. 
O fato do aportuguesamento "fenmeno" no  razo suficiente para precipitar o aportuguesamento daquele seu termo-par. H termos usados tanto em sua forma aportuguesada, 
por exemplo "cnone", como em sua forma transliterada canon (sem acento). J o termo organon, ningum ousou ainda traduzir.
3. A principal limitao do manuseio do Dicionrio, para um leitor que no conta com a disponibilidade de grande parte das obras de Kant publicadas em lngua inglesa, 
reside em que muitas das referncias aos seus textos so feitas com base nas tradues a essa lngua. Em compensao, de um bom nmero dessas obras so referidas 
as pginas com base nas respectivas edies originais A, B etc, ou nas da Academia de Berlim.
4. O lanamento deste Dicionrio Kant vem ao encontro do atual desenvolvimento dos nossos estudos kantianos. No se trata de um dicionrio igual aos de seus antecessores, 
Chr. E. Schmid (1788), Mellin (1797-1803), G. Wegner (1893) e R. Eisler (1916). Em vrios aspectos  at melhor que eles. Na maior parte dos casos, ele contextualiza 
historicamente os termos de Kant, contribuindo por isso com informaes extremamente inovadoras a seu respeito. Vejam-se, por exemplo, tomados ao acaso, os termos 
correspondentes s trs Crticas, "cnone", "dever", "reflexo". O mais interessante, a propsito da forma cannica da lgica kantiana, mais distante neste sentido 
do Organon aristotlico,  que ela, segundo o Autor, foi concebida, principalmente na "Analtica transcendental", no "esprito do cnone de Epicuro [que tem uma 
"lgica" com esse nome] como um meio de distinguir entre juzos verdadeiros e falsos, "para ajuizar do uso
Algumas observaes sobre esta traduo          xiii
emprico do entendimento" (CRP A 63/B 88). "... A noo do cnone recebido de Epicuro pode ser ampliada a fim de caracterizar todo o empreendimento crtico" (Caygill, 
p.48-9). Pelo menos  o que certamente pode ser dito de sua aplicao, inclusive ao imperativo categrico moral. J em relao  noo de dever, Kant a teria herdado 
da crtica estica  tica clssica, com destaque para o De officiis de Ccero, mas nem sempre por via direta e sim atravs do movimento neo-estico, que se desenvolveu 
na Holanda a par-tir do sculo XVII (cf. Oestreich, 1982; Caygill, 1989, cap.IIl). Finalmente, o termo "reflexo"  um exemplo da capacidade de articular integralmente 
a filosofia de Kant. A partir dele, pode-se dizer, a filosofia de Kant descortina-se aos olhos do leitor como um cenrio genialmente articulado. Este mesmo papel 
desempenha analogamente o prprio dicionrio. De sua leitura, a obra de Kant emerge como um apurado concerto de faculdades, tanto em seu sentido musical quanto em 
sua capacidade de determinar dinamicamente os seus principais conceitos. Por essa articulao de conjunto da filosofia de Kant, esse Dicionrio nos ensina a resolver 
as tenses de suas partes. Sobretudo, ele desperta-nos para funes novas, no sentido da epgrafe de Georges Bataille, utilizada pelo Autor do modo mais apropriado.
Porto Alegre, 15 de dezembro de 1999 VALERIO ROHDEN

Sistema de citaes e abreviaes
Citaes de obras de Kant
A maioria das obras de Kant a que se faz referncia no texto  citada por abreviaes. Para encontrar o ttulo completo de qualquer obra, o leitor deve consultar 
primeiro a "Lista de abreviaes" abaixo fornecida. Para cada abreviao, a "Lista" d o ano de publicao e um ttulo reduzido. Para obter os ttulos completos 
em alemo, ingls [e portugus], o leitor deve depois recorrer  bibliografia intitulada "Obras publicadas de Kant" (p.321-30).
Citaes de sees especficas do texto de Kant indicam usualmente a unidade a que se referem (quer por pgina ou por seo, ). H uma importante exceo: as referncias 
 Crtica da razo pura. Kant produziu duas edies dessa obra: a primeira edio (publicada em 1781)  citada como CRP A, a segunda edio revista (publicada em 
1787) como CRP B. De acordo com a conveno, as citaes referem-se a uma ou a ambas as edies pela pgina, mas omitem "p." (por exemplo, CRP A 324/B 380).
Quando uma abreviao  seguida de dois nmeros de pginas (por exemplo, FMC p.25, p.33), a primeira refere-se  "Edio da Academia" alem, a segunda a uma traduo 
inglesa - ambas indicadas na bibliografia de "Obras publicadas de Kant."
Citaes de obras por outros autores
Obras por outros autores so citadas por referncia ao autor ou editor e ano de publicao. Para detalhes completos, o leitor deve procur-las sob o nome do autor 
na bibliografia intitulada "Obras citadas no texto" (p. 331-8).
A ateno do leitor  atrada para a citao de obras de Plato, Aristteles e Santo Toms de Aquino. As citaes de Plato so extradas da traduo inglesa de 
1961 dos Dilogos Completos e obedecem ao sistema clssico de referncia de acordo com a pagi-nao e as subdivises de pgina pertinentes a cada dilogo na edio 
de Henri Estienne de 1578 (como em Plato, 1961, Rep. 2.378a). As citaes de Aristteles so extradas da traduo inglesa de 1941 das Obras Completas e obedecem 
ao sistema de referncia de acordo com pgina, coluna (a/b) e linha da edio de 1831-70 de Immanuel Bekker (como em Aristteles, 1941,431b, 18). As citaes da 
Summa theologica de Aquino referem-se  traduo de 1952, e so organizadas em termos de parte, questo e artigo (como em Santo Toms de Aquino, 1952,1, 85, 1).

XVI
Sistema de citaes e abreviaes
Lista de abreviaes das obras publicadas de Kant
A
1798b
CF
1798a
CFI
1967
CHH
1786b
CJ
1790a
CRPT
1788b
CRP
A1781
CRP
B1787
DE
1768
Dl
1770
E
1924
FMC
1785e
FNM
1756d
FS
1762
FTF
1791a
FV
1747
GN
1763b
HGN
1755a
ICP
1764c
IHU
1784a
L
1800a
LFR
1817
MC
1797a
ND
1755c
NT
1758
OBS
1764a
OP
1936
P
1783a
PI
1790b
PM
1786a
PP
1795
R
1925-34
RL
1793a
RPE
1784b
SD
1790c
SOP
1786c
SV
1766
Antropologia de um ponto de vista pragmtico
O conflito das faculdades
Correspondncia filosfica
Conjeturas sobre o incio da histria humana
Crtica da faculdade do juzo
Crtica da razo prtica
Crtica da razo pura, Ia edio
Crtica da razo pura, 2- edio
Sobre o primeiro fundamento da distino de direes no espao
["Dissertao inaugural"] Sobre a forma e os princpios do mundo
sensvel e inteligvel
tica
Fundamentao da metafsica dos costumes
O emprego na filosofia natural da metafsica combinada com
a geometria, cujo espcime I contm a monadologia fsica
A falsa sutileza das quatro figuras silogsticas
"Sobre o fracasso de todos os ensaios filosficos na teodicia"
Idias para uma verdadeira avaliao das foras vivas
Ensaio para introduzir na filosofia o conceito de grandeza negativa
Histria geral da natureza e teoria do cu
Investigaes sobre a clareza dos princpios da teologia natural
e da moral
"Idia de uma histria universal de um ponto de vista cosmopolita"
Lgica
Lies de filosofia da religio
Metafsica dos costumes
[Nova dilucidatio] Nova elucidao dos primeiros princpios
do conhecimento metafsico
Nova teoria do movimento e do repouso
Observaes sobre o sentimento do belo e do sublime
Opus postumum
Prolegmenos a toda a metafsica futura que possa apresentar-se
como cincia
Primeira introduo  Crtica da faculdade do juzo
Primeiros princpios metafsicos da cincia natural
A paz perptua
Reflexes
A religio dentro dos limites da simples razo
"Resposta pergunta: 'O que  Esclarecimento?'"
Sobre uma descoberta, segundo a qual toda nova crtica da
razo pura  inutilizada por outra mais antiga
"O que significa orientar-se no pensamento?"
Sonhos de um visionrio explicados pelos sonhos da metafsica
Sistema de citaes e abreviaes           xvii
TN      1796a     "Sobre um ultimamente enaltecido tom nobre em filosofia" TP       1793b     "Sobre a expresso corrente: 'Isso pode ser correto em teoria,
mas nada vale na prtica'" UAP     1763a     O nico argumento possvel para uma demonstrao da
existncia de Deus VPM    1791b     Quais so os verdadeiros progressos da metafsica
desde os tempos de Leibniz e Wolff?

Kant e a "poca da Crtica"
de nobis ipsis silemus - sobre ns prprios silenciamos (epgrafe de Francis Bacon para a Critica da razo pura)
A biografia de Kant tem sido usada para exemplificar a completa submerso da vida de um filsofo em sua obra.1 Descrito por Elias Canetti como uma "cabea sem um 
mundo", dir-se-ia que, fora de seus escritos, Kant levava a mais inspida e apagada das existncias: dava aulas por muitas e longas horas semanais, jantava com amigos 
e dava seus regulares passeios vespertinos, famosos por sua neurtica pontualidade. Nas lembranas de seus contemporneos, os incidentes da vida quotidiana de Kant 
najda tinham de "ruidosos", porquanto a ao principal transcorria em seu gabinete de trabalho ou onde quer que estivesse a ler e escrever. A oposio entre a vida 
pacata de Kant e o seu pensamento explosivo, entre seu ambiente provinciano na cidade de Knigsberg, na Prssia Oriental, e o significado histrico-universal de 
seus escritos, tornou-se a substncia de uma lenda filosfica. Cumpre dizer, entretanto, que tal imagem de Kant est seriamente desvirtuada e dificulta uma apreciao 
de sua vida e sua obra.
Suponha-se que respeitamos a reticncia de Kant e olhamos unicamente para a sua obra; mesmo assim, a pura diversidade interna de sua oeuvre recomendaria cautela. 
Essa diversidade  evidente apesar dos melhores esforos dos responsveis pela monumental edio dos escritos de Kant pela Academia de Cincias de Berlim (Akademie-Ausgabe, 
agora em seu 29s volume) e do estreito enfoque de grande parte da erudio de Kant.2 Os volumes uniformemente encadernados da Edio da Academia do a impresso 
de um corpus monoltico, um macio conjunto de escritos separados das circunstncias de sua publicao original e habitando num Valhalla filosfico. Dada a consistncia 
sistemtica do tratamento editorial, no surpreende que a Edio da Academia tenha encorajado a proliferao de narrativas cujo desenvolvimento propiciou a ligao 
entre si das vrias "fases" da obra de Kant. Todos os textos de Kant parecem ser do mesmo status, com as diferenas entre eles marcadas em funo de cronologia e 
das referncias AK reguladoras; a edio transmite a impresso de um contnuo e harmnico desdobramento de um projeto intelectual independente de circunstncias 
- uma obra sem um mundo. Mas se dermos um passo atrs e reexaminarmos o monumento em suas partes constituintes, a pura heterogeneidade dos escritos de Kant  impressionante. 
E se olharmos alm da escrita filosfica para os detalhes de publicao dos textos individuais - por quem foram publicados e para quem - comeamos a adquirir uma 
apreciao complexa da diversida-

xx           Kant e a "poca da Crtica"
de interna da obra de Kant, uma apreciao que, ademais, nos permite situar sua autoria dentro das estruturas variantes da vida intelectual que caracterizaram o 
Iluminismo alemo.
Trabalhos recentes na histria social do Iluminismo alemo prepararam o terreno para uma reavaliao da vida e obra de Kant dentro de suas estruturas emergentes. 
Tal biografia - quando escrita - contribuiria para a interpretao do pensamento de Kant ao decompor o monoltico Texto kantiano em diversos textos Kantianos. Em 
vez de relacionar simplesmente os textos de Kant entre si em alguma narrativa teleolgica mais ou menos refinada de seu "desenvolvimento", eles seriam lidos em contraste 
com outros textos, eventos e processos de mudana institucional. Usando a prpria distino estabelecida por Kant, o seu pensamento seria ento estudado menos como 
um corpo definitivo de filosofia do que como um processo aberto de filosofar, no qual a tradio filosfica foi reinventada em face de mudanas nas estruturas da 
Universidade, Igreja e Estado, bem como na indstria editorial e no pblico leitor. Numa tal biografia, os escritos de Kant seriam interpretados como reaes desde 
dentro da tradio filosfica ao complexo conjunto de mudanas estruturais e desenvolvimentos culturais que tipificam a modernidade. Lamentavelmente, ainda no foi 
escrita semelhante biografia, embora algumas poucas indicaes preliminares do estreito relacionamento entre a obra de Kant e o seu mundo sejam possveis com base 
no material existente.
Um bom lugar para comear  com a definio dada por Kant para a sua prpria poca. No Prefcio da Ia edio da Crtica da razo pura (1781), escreve ele:
O nosso sculo , num grau especial, a poca da crtica, e  crtica deve tudo submeter-se. A religio, por sua santidade, e a lei, por sua majestade, podem desejar 
eximir-se-lhe. Mas nesse caso despertam justas desconfianas e no podem pretender o sincero respeito que a razo s concede ao que foi capaz de enfrentar a prova 
do exame livre e aberto. (CRP A xi)
A poca da crtica requer uma filosofia crtica, a que pressupe, na verdade exige a liberdade para examinar e criticar as instituies da Igreja e do Estado. Kant 
apresentou trs anos depois, em seu ensaio "Resposta  pergunta: 'O que  Esclarecimento?'", o que ele considerou serem as condies necessrias para tal filosofia. 
A, a "condio fundamental para a possibilidade" de uma poca da crtica  descrita como a "liberdade para - fazermos uso pblico da nossa razo em todos os assuntos", 
o que, para Kant, significa "aquele uso que qualquer pessoa pode fazer de sua razo como um intelectual [Gelehr-ter] dirigindo-se a todo o pblico leitor" (RPE p.37, 
p.55). Essa liberdade, por seu turno, requer no s a suspenso da censura estatal e eclesistica, mas tambm a existncia de uma indstria editorial capaz de suprir 
as necessidades de autores e de um pblico que l. Assim, para entender a contribuio de Kant para o esclarecimento, no podemos contentar-nos em prestar ateno 
somente ao que ele disse ao seu pblico; tambm devemos considerar como o disse e em que medida o dito foi determinado pelo modo de diz-lo. Em termos mais concretos, 
 necessrio atentar para as relaes entre o contedo da razo e as formas atravs das quais ela foi dirigida ao pblico leitor, mormente os meios de comunicao 
que Kant utilizou a fim de exercer o uso pblico de sua razo e, em particular, os canais de publicao abertos para ele e que o permitiam alcanar o(s) pblico(s)
Kant e a "poca da Crtica"           xxi
leitor(es). Alm disso, o prprio Kant deve ser considerado no s em sua qualidade de escritor mas tambm como leitor, ou como membro do pblico leitor visado por 
outros autores.
A relao entre o uso pblico da razo por Kant e os modos de se dirigir ao pblico leitor a que tinha acesso  complicada pela distino de Kant entre os usos privado 
e pblico da razo. De um modo que era, em certa medida, o oposto de sua intuio, ele descreveu o uso privado da razo como "aquilo de que uma pessoa pode fazer 
uso num posto ou cargo civil que lhe foi confiado" (RPE p.37, p.55), em contraste com o uso pblico da razo ao dirigir-se ao pblico leitor. O escritor habita em 
dois mundos, um em que atua passivamente "como parte da mquina" e o outro em que se dirige livremente, atravs de seus escritos, a "um pblico no mais autntico 
sentido da palavra" (RPE p.37, p.56).3 Os escritores ocupam aquele ambguo e vulnervel espao que lhes  permitido por "um governante que , ele prprio, esclarecido 
e no teme fantasmas, que tambm dispe, entretanto, de um disciplinado e numeroso exrcito para garantir a segurana pblica", e que pode "ousar dizer: Discutam 
tanto quanto seja de vosso agrado e sobre tudo o que quiserem, mas obedeam!" (RPE p.41, p.59). A aposta de Kant  que o hbito de pensar livremente traduzir-se-, 
de forma gradual, no hbito de agir livremente e acabar, assim, por superar a diviso entre os usos pblico e privado da razo. Mas "na idade do esclarecimento, 
no sculo de Frederico (RPE p.40, p.59), a liberdade para discutir mas sem deixar de obedecer era o menor dos males: embofa no fosse to desejvel quanto a liberdade 
de pensamento e de ao, era melhor do que a obedincia em ambas as esferas.
Os exemplos de Kant do uso privado da razo incluem o soldado que deve obedecer s ordens quando em servio, o cidado que deve pagar impostos e o clrigo que deve 
instruir a sua congregao na doutrina da igreja. Embora cada um eles esteja obrigado  obedincia no cumprimento de sua respectiva misso, tambm esto livres como 
escritores para dirigir-se ao pblico leitor e expor-lhe seus pensamentos sobre estratgia militar, tributao e religio.  impressionante que, quando analisa essa 
distino, Kant no se refere ao exemplo que lhe  mais familiar: a sua prpria profisso de professor universitrio. Em que sentido a distino entre o uso privado 
e pblico da razo  aplicvel a esses funcionrios do estado? Existe claramente uma tenso entre suas capacidades como intelectuais empregados do estado e as que 
exercem como intelectuais livres dirigindo-se a um pblico que estuda e l. Essa tenso  evidente em todos os escritos de Kant e requer que localizemos o uso pblico 
da razo expresso em seus escritos no s a respeito do pblico leitor mas tambm acerca do uso privado da razo em sua carreira acadmica.
O delicado equilbrio entre o uso privado e pblico da razo por Kant foi exposto aps a morte de Frederico, o Grande, em 1786.0 sucessor deste, Frederico Guilherme 
II, iniciou uma poltica de Contra-Iluminismo que procurou, por meio da censura, subjugar a liberdade de imprensa e ampliar a obedincia precisamente queles argumentos 
sobre a igreja e o estado cuja discusso fora permitida por seu predecessor. Aps a publicao de A religio dentro dos limites da simples razo (RL) em 1793, Kant 
recebeu uma Ordem do Gabinete de Frederico Guilherme II, na qual era repreendido por seu "mau uso da filosofia" para "distorcer e menosprezar muitos dos ensinamentos 
cardeais e bsicos das Sagradas Escrituras e do Cristianismo". Ordenou-lhe que fizesse um "exame consciencioso" de sua conduta e aplicasse sua autoridade e talentos 
" progressiva realizao de nossos

XXII
Kant e a "poca da Crtica"   x
paternais propsitos. Se assim no fizerdes, deveis esperar medidas desagradveis em face de vossa reiterada obstinao".4 Em resposta, Kant sustentou que, em seu 
uso privado da razo como professor e "mestre da juventude", nunca inseriu "qualquer apreciao das Sagradas Escrituras e do Cristianismo em suas lies" e meramente 
seguiu os textos de Baumgarten, "que so a base de minhas aulas".5 Alm disso, no tocante ao uso pblico da razo "como um mestre das pessoas", ele "no causou qualquer 
dano  religio pblica do pas", uma vez que "o livro em questo no  apropriado para o pblico em geral; para este,  um livro ininteligvel, hermtico, apenas 
um debate entre os eruditos do corpo docente, do qual o pblico nem toma conhecimento".6 O corpo docente, por sua vez, declara Kant, est autorizado pela Coroa a 
debater assuntos religiosos e a julgar publicamente todas as contribuies. A defesa por Kant do uso pblico de sua razo gira em torno de uma distino entre um 
pblico erudito, autorizado pelo estado a formular opinies e juzos esclarecidos, e um pblico leitor mais vasto para quem tais obras so inadequadas. Por outras 
palavras, o seu uso pblico da razo  defendido - de um modo autodestrutivo - como o uso privado da razo por um "membro erudito do corpo docente" publicamente 
autorizado.
Kant terminou a sua resposta ao monarca comprometendo-se "doravante a abster-se por completo de discorrer publicamente, em conferncias ou por escrito, sobre religio, 
seja a natural ou a revelada".7 Ao fazer esta promessa, ele reconhecia implicitamente o colapso da distino entre usos pblico e privado da razo, na qual sua obra 
se fundamentara. Isso foi reconhecido por J.E. Biester, o apreensivo editor do pr-Iluminismo Berlinische Monatsschrift, quando leu a resposta de Kant. Observou 
delicadamente numa carta a Kant datada de 17 de dezembro de 1794 que, com o seu compromisso, Kant preparou "um grande triunfo para os inimigos do Iluminismo, e a 
boa causa sofre uma grande perda". Acreditava ele que Kant no tinha por que silenciar suas crticas desse modo, em ateno  obedincia, e considerou que ele renunciara 
 luta em prol do Iluminismo, deixando para outros "continuarem a obra sobre o grande esclarecimento filosfico e teolgico que haveis to afortunadamente iniciado".8 
Embora Kant se considerasse liberado de sua promessa com a morte de Frederico Guilherme II em 1797,9 Biester estava certo em sua avaliao: Kant foi incapaz de superar 
a tenso entre a obedincia e a crtica que caracterizaram tanto a fredriciana "Era do Iluminismo" quanto a kantiana "poca da Crtica".
O episdio da Ordem do Gabinete imperial revela muitas das foras e tenses institucionais que se refletiram nos textos de Kant. Nelas se incluem os rgos de divulgao 
(livros e revistas) e os pblicos a que se destinavam, a universidade como local de ensino e pesquisa e o papel da censura acadmica, eclesistica e pblica. Esse 
episdio assinala ainda, sem ambigidade, a tenso entre ser um "mestre da juventude" e um "mestre das pessoas". Com efeito, a tenso entre o uso privado e pblico 
da razo era especialmente acentuada no caso de um professor universitrio, uma vez que as linhas de demarcao entre argumentar particularmente como professor e 
publicamente como autor no estavam traadas com total nitidez. Havia muitos pontos de interseo entre os dois usos da razo, com alguns textos, como RL, procurando 
servir a ambos os senhores.
Entretanto,  possvel, com certas reservas, distinguir na obra de Kant textos que representam os usos privado, semiprivado e pblico de sua razo! Os textos pertinentes 
ao uso privado da razo incluem aqueles que se destinavam a satisfazer os requisitos for-
Kant e a "poca da Crtica"           xxiii
mais de ingresso e progresso numa carreira acadmica, e os relacionados, de algum modo direto ou indireto, com o "ensino da juventude". Alguns textos, como veremos, 
formam uma vasta proporo da obra publicada de Kant. Com eles est um grupo adicional de textos semiprivados, os quais eram produzidos em resposta a circunstncias 
especficas (como as questes pblicas propostas pela Academia de Berlim) e nos quais Kant figura como um professor universitrio dirigindo-se a um pblico intelectual 
fora da universidade. Finalmente,  claro, h os livros que constituem o uso pblico da razo por Kant como autor. Esto a includos os livros que no se destinam 
diretamente a um pblico universitrio, assim como os artigos escritos para jornais e revistas, quer para pblicos locais, regionais ou nacionais.
Estas distines dentro da obra kantiana so melhor analisadas em termos do desenvolvimento da carreira de Kant como autor e como professor. Ele nasceu na cidade 
da Prssia Oriental de Knigsberg (agora Kaliningrado), s cinco horas da manh do dia 22 de abril de 1724, e permaneceu, ao contrrio de Descartes, um madrugador 
habitual. Era o quarto dos nove filhos (somente cinco sobreviveram) de Arma Regina e Johann Georg Kant, um fabricante de arreios para cavalgaduras. Passou a infncia 
num subrbio arte-sanal da cidade, crescendo num ambiente intensamente devoto. Sob muitos aspectos, a poca e as circunstncias do nascimento de Kant foram extremamente 
propcias  sua subseqente ascenso social e mobilidade profissional. A cidade de Knigsberg s tinha sido oficialmente fundada no prprio ano do nascimento de 
Knt, em conseqncia da fuso de trs grandes burgos agrupados em torno da foz do riotregel. Sua fundao recente era uma razo, mas no a mais importante, pela 
qual a cidade no possua a fechada e inacessvel elite urbana caracterstica da maioria das cidades alems do perodo. Era a segunda maior cidade da Prssia e certamente, 
do ponto de vista cultural e econmico, uma das mais dinmicas da Alemanha. A cidade conheceu um perodo de apogeu comercial durante o sculo xvm, exportando produtos 
agrcolas do seu hinterlandrural para os mercados da Inglaterra e Escandinvia, e importando deles metais, manufaturas e "produtos coloniais". Sua populao de 40.000 
habitantes em 1724 expandira-se para 50.000 em 1770, entre os quais havia numerosos comerciantes expatriados ingleses; dois deles, Joseph Green e Robert Motherby, 
tornaram-se os mais ntimos amigos de Kant e iniciaram-no na filosofia e literatura inglesas.10 A parte suas ligaes martimas com o resto da Europa e com o mundo, 
a cidade funcionava tambm como capital regional, abrigando uma universidade - a Albertina - fundada pelo prncipe Albrecht em 1544, e uma vibrante cultura provincial 
de jornais, revistas e livrarias bem ao corrente dos ltimos lanamentos das feiras do livro de Leipzig e Frankfurt.11
Embora Knigsberg possusse, por certo, o clima relativamente liberal e a abertura social caractersticos da maioria das principais cidades porturias, no foi s 
isso que permitiu a Kant prosseguir na carreira escolhida. Outros fatores mais especficos tambm contriburam; primordial entre eles foi a relativa fraqueza das 
elites patrcias locais em comparao com as que dominavam outras cidades alems.12 Isso se deveu muito menos  fundao recente da cidade, ou  influncia do comrcio 
- a elite patrcia manteve o controle de Hamburgo at ao final do sculo XIX13 -, do que  luta pelo domnio da cidade travada desde meados do sculo xvn entre os 
patrcios urbanos, a aristocracia rural local e o estado prussiano. A poca de Kant, o estado prussiano, entregue a um vasto processo de modernizao, sara folgadamente 
vitorioso do confronto com as outras for-

xxiv           Kant e a "poca da Crtica"
as, e servia como contrapeso para os particularismos das elites locais. Um fator adicional foi o declnio observado na trajetria das universidades alems desde 
o final do sculo XVII, o qual prosseguiu no sculo XVIII com a queda no nmero de matrculas e, por conseguinte, com a diminuio do prestgio e renda do professorado.14 
Isso tornou a profisso menos atraente para os concorrentes patrcios e aristocrticos, e mais acessvel ao talento oriundo do meio social de Kant. Um quarto e importante 
fator era o pietismo, o qual, na poca do nascimento de Kant, estava sofrendo a transio de uma devoo particular, apoltica, para tornar-se uma caracterstica 
primordial da estrutura institucional do estado prussiano. A esses fatores estruturais pode ser adicionado o impacto da administrao russa da cidade de janeiro 
de 1758 a agosto de 1762. Foi este um perodo de frivo-lidade e relaxamento de costumes, o que contribuiu imensamente para atenuar e minar qualquer das remanescentes 
e rgidas distines e disciplinas sociais da sociedade de Knigsberg.15
O desenvolvimento de instituies educacionais pietistas no comeo do sculo XVIII fornece o pano de fundo para a austera educao de Kant no Collegium Fridericia-num 
entre 1732 e 1740. A escola devia sua origem a uma fundao religiosa privada de 1698 que recebeu o alvar rgio em 1701. Recomendado e ajudado pelo pastor da famlia 
Kant, Franz Albert Schutz, que era tambm o diretor da escola, Immanuel cumpriu uma rigorosa e austera escolaridade em gramtica e filologia, acompanhada por um 
regime de inflexvel devoo. Embora Kant respeitasse a lembrana do pietismo domstico de seus pais, sentia o mais profundo desprezo pela verso oficial que encontrara 
na escola.16 O nico professor de Kant que o estimulava ao estudo, o mestre de latim Heydenreich, iniciou-o no amor  literatura latina clssica que o acompanharia 
pela vida inteira; infelizmente, nenhum dos seus colegas, recordou Kant mais tarde com o seu companheiro de sofrimento Johannes Cunde, foi capaz de "acender em ns 
a centelha do entusiasmo pelo estudo de filosofia ou matemtica", embora "certamente pudessem exasperar-nos".17 No obstante, aos 16 anos de idade, Kant estava mais 
do que capacitado para preencher todas as exigncias impostas pelo estado para a matrcula na universidade local.18
A Universidade de Knigsberg estava organizada em termos das quatro faculdades tradicionais,"as trs "faculdades superiores" de teologia, direito e medicina, e a 
quarta ou "faculdade inferior" de filosofia. Como Frederico Guilherme I considerava que a principal funo das universidades consistia em preparar servidores pblicos 
- sobretudo clrigos, advogados e clnicos -, ordenou que os estudantes fossem matriculados obrigatoriamente em uma das trs faculdades superiores. No se sabe em 
qual das faculdades Kant se matriculou; se, como  convencionalmente suposto, na faculdade de teologia ou na de medicina.19 Fosse qual fosse, e apesar de grande 
pobreza, Kant no se empenhou em obter a qualificao para um cargo burocrtico na administrao prussiana, mas optou por dedicar-se  "faculdade inferior" de filosofia. 
Durante a maior parte do sculo XVIII, a faculdade inferior de filosofia era a mais dinmica e inovadora na universidade. Como o seu currculo no estava adequado 
s exigncias de uma profisso, era possvel ampliar a gama de matrias de estudo cobertas pela filosofia, de modo a incluir no s matrias tais como fsica e geografia, 
as quais eram ignoradas pelas faculdades superiores, mas at mesmo a religio, jurisprudncia e medicina, que eram seus domnios protegidos.
Kant e a "poca da Crtica"           xxv
Foi o carter abrangente da educao fornecida na faculdade filosfica o que para ela atraiu Kant como estudante e o levou  dedicar sua vida  defesa e ampliao 
das reivindicaes da disciplina ainda em 1798 [a menos de seis anos de sua morte] com O conflito das faculdades (CF). Entretanto, o mais importante fator em seu 
entusiasmo pela filosofia foi a influncia de seu mestre, o professor Martin Knutzen.20 Knutzen nascera em Knigsberg em 1713 e fora nomeado professor extraordinrio 
de lgica e metafsica,21 um cargo que desempenhou com diligncia suicida at sua morte prematura aos 38 anos de idade. Representante da gerao de devotados wolffianos 
do final da dcada de 1730, Knutzen combinava em seu magistrio e na obra escrita interesses em filosofia, religio, matemtica e cincia natural. Ao longo de suas 
seis horas dirias de aulas e de seminrios adicionais e sesses particulares, Kant foi apresentado a uma vasta gama de material, incluindo Os princpios matemticos 
de filosofia natural, de Newton.
Tecnicamente, Kant permaneceu como estudante ou "candidato" na universidade at 1755, quando conquistou, em rpida sucesso, o grau de mestre (Magister) e sua ve-nia 
legendi ou licena para ensinar como Magister legens ou Privatdozent. Isso significou que a sua renda como professor dependia dos honorrios que lhe eram pagos por 
seus alunos; s 15 anos mais tarde, em 1770, ele passaria a receber o salrio pblico de um professor titular. A razo para o longo perodo de estudo (1740-1755) 
foi predominantemente econmica; as contas de Kant durante seus primeiros anos de estudante mostram que ele era pobre, seno indigente.22 Em 1747, deixou Knigsberg 
para ir trabalhar nos arredores da cidade como professor particular ou Hauslehrer.>Sua sada coincidiu com a demorada passagem do seu primeiro livro pela oficina 
tipogrfica, enquanto o seu regresso em 1754 foi marcado por uma pequena exploso de jornalismo, teses acadmicas e um livro - Histria geral da natureza e teoria 
do cu (HGN) -, com o que se manti-vera ocupado durante o seu perodo de exlio rural.
Kant resumiu os primrdios de sua carreira numa petio para a imperatriz da Rssia datada de 14 de dezembro de 1758, respaldando o seu requerimento de candidato 
 ctedra vacante de lgica e metafsica. Aps descrever como a lgica e a metafsica "foram sempre as reas especiais de meu estudo", ele continuou:
Desde que me tornei professor-assistente na dita universidade, tenho lecionado lgica e metafsica todos os semestres. Defendi publicamente duas dissertaes sobre 
essas matrias; alm disso, publiquei quatro ensaios na revista de cultura de Knigsberg, trs Programmata e trs outros artigos filosficos, os quais do uma idia 
do teor da minha investigao.23
A petio mostra como os usos particular e pblico da razo estavam inextricavel-mente ligados no caso de um professor universitrio.  bvio que Kant est recorrendo 
aos produtos de seu uso pblico da razo para justificar a sua candidatura a um cargo oficial. O que  mais significativo, porm,  o modo como ele classifica as 
suas 12 publicaes. Cinco delas dizem diretamente respeito ao preenchimento das exigncias de uma carreira acadmica, a saber, as duas dissertaes e os trs Programmata 
ou anncios dos cursos que se prope dar, essenciais para poder ganhar a vida como Privatdozent. Os textos restantes estavam divididos em colaboraes para uma revista 
dedicada a temas de interesse local e trs livros extremamente diversos, destinados a pblicos especficos.24

xxvi            Kant e a "poca da Crtica"
Kant preparou trs dissertaes em meados da dcada de 1750, mas s duas foram publicadas: todas as trs estavam escritas em latim. A primeira dissertao, no publicada 
- Esboo sucinto de algumas meditaes sobre o fogo - foi apresentada  faculdade de filosofia como tese de mestrado de Kant em 17 de abril de 1755 (ver 1755b em 
"Obras publicadas de Kant"). Era constituda de 12 pginas manuscritas e destinada a um pequeno grupo acadmico. A tese foi examinada em 13 de maio e em 12 de junho 
Kant foi admitido no grau de Mestre de Filosofia numa cerimnia formal. Trs meses depois, com o objetivo de obter a licenciatura (venia legendi), Kant apresentou 
uma segunda tese, a qual tinha de ser defendida em ato pblico. Tratava-se da notvel Nova elucidao dos primeiros princpios do conhecimento metafsico (ND), publicada 
por J.H. Hartung, o "impressor regiamente nomeado de livros da Corte e da Academia", em Knigsberg em 1755.25 A tese foi defendida no auditrio da faculdade de filosofia 
atravs de uma argi-o formal. Kant foi admitido no corpo docente da faculdade e recebeu a venia legendi que lhe permitia dar aulas na universidade e cobrar honorrios 
dos seus estudantes.
No ms de abril seguinte, Kant concorreu  ctedra extraordinria de filosofia, vaga desde a morte de Knutzen. De acordo com o regulamento publicado por Frederico 
li, um Privatdozent s podia ser promovido a uma ctedra como seu professor extraordinrio aps trs debates pblicos. Para cumprimento desse requisito, Kant j 
tinha apresentado em maro uma nova tese em latim, a Monadologia fsica (FNM), tambm publicada por Hartung, a qual foi debatida em abril com Borowski, que seria 
futuramente seu bigrafo, atuando como argente na banca examinadora. A petio para a ctedra deu em nada, visto que o posto foi abolido, mas deixou para a posteridade 
uma declarao de valor inestimvel dos primeiros pensamentos de Kant sobre as relaes entre a fsica e a metafsica.
A obra de Kant contm dois outros significativos trabalhos destinados exclusivamente a um pblico acadmico e que, em conjunto com as dissertaes acima e a resposta 
a uma dissertao (1777), formam a totalidade de sua autoria em latim. O primeiro desses trabalhos foi a tese que defendeu com vistas  sua promoo para a ctedra 
de lgica e metafsica em 1770: Sobre a forma e os princpios do mundo sensvel e inteligvel (DI). Em 1763, tinha sido oferecida a Kant a ctedra de poesia em Knigsberg, 
mas recusou-a, tal como recusaria as ofertas financeiramente mais atraentes das universidades de Erlangen (fins de 1769) e Iena (incio de 1770). Essas ofertas testemunhavam 
a crescente fama do Privatdozent e assinalavam a necessidade de o promover a uma ctedra plena. Uma oportunidade ocorreu com a morte de Langhansen, o professor de 
matemtica. Kant assinalou o falecimento do seu colega com uma elegia e uma carta para Berlim propondo que um ou outro de seus dois colegas, o professor de lgica 
e metafsica F. Johann Buck (que, com base na antigidade, tivera em 1758 a preferncia do Senado Acadmico para o cargo em vez de Kant), ou o professor de filosofia 
moral, Christiani, mudasse de lugar a fim de abrir espao para Kant ocupar a ctedra de lgica e metafsica. Quinze dias depois, Kant era nomeado para a cadeira 
por ordem regia, com um salrio anual de 166 talers e 60 groschen.
A fim de qualificar-se para a ctedra, Kant foi solicitado a apresentar uma nova tese a ser argida em ato pblico; escreveu-a durante as frias de vero e defendeu-a 
em 21 de agosto de 1770. Essa "Dissertao inaugural" [com o acima citado ttulo de Sobre a forma e os princpios do mundo sensvel e inteligvel]  uma obra fundamental, 
o mais
Kant e a "poca da Crtica"           xxvii
importante de todos os escritos de Kant antes das trs Crticas, e aquela que resume as realizaes das dcadas de 1750 e 1760, enquanto era preparado o terreno 
para a filosofia crtica da dcada de 1780. Foi publicada (ou, pelo menos, distribuda) pelo principal editor de Kant na dcada de 60, Johann Jacob Kanter (ver adiante), 
mas ocupa uma posio peculiar na histria editorial de suas obras, ao no ser simplesmente uma tese acadmica nem uma obra especificamente endereada ao pblico 
leitor. Diferente dos outros escritos principais de Kant, mas  semelhana da maioria das dissertaes acadmicas destinadas a debate na Universidade de Knigsberg, 
a "Dissertao inaugural" foi apressadamente impressa numa pequena grfica na prpria cidade. No foi anunciada no catlogo sumamente importante da feira do livro 
de Leipzig e parece ter sido distribuda fora de Knigsberg com demora e quase como uma deciso tomada de ltima hora.
Kant enviou exemplares da "Dissertao inaugural" a J.H. Lambert e M. Mendels-sohn em Berlim atravs de Marcus Herz, seu antigo aluno e argente na defesa da tese.26 
Na carta que acompanhou o envio do exemplar para Lambert, ele mencionou um plano para rever a obra, adicionando-lhe algumas pginas "antes de o editor a apresentar 
na prxima feira do livro", mas essa projetada reviso redundou numa obra inteiramente nova. Isso foi explicitamente mencionado pela primeira vez dois anos mais 
tarde, numa carta a Herz (21 de fevereiro de 1772), onde Kant cogita que a obra "talvez pudesse intitular-se 'Os limites dos sentidos e da razo'".27 Este comentrio 
 usualmente interpretado como assinalando o comeo da histria da composio da Crtica da razo pura.
A restante produo acadmica de Kant em latim  uma dissertao de importncia secundria, embora no por isso menos interessante, proferida em 1786 no final de 
um de seus perodos como reitor da Universidade: De medicina corporis, quaephilo-sophorum est [Sobre a medicina do corpo segundo os filsofos]. Esse trabalho encerra 
uma importante fase do uso privado da razo por Kant na universidade. Se bem que a forma e as ocasies para compor os escritos latinos fossem prescritas por exigncias 
universitrias oficiais, o formato das dissertaes e alocues acadmicas fornecia a Kant uma oportunidade para a reflexo exploratria e o estabelecimento de programas 
de pesquisa. Entretanto, as dissertaes latinas no esgotaram aquela parcela das publicaes de Kant que era dirigida quase exclusivamente a um pblico acadmico 
especifico da Universidade de Knigsberg. A petio de 1758  imperatriz Elisabeth refere-se tambm a trs Programmata. Estes constavam de escritos atravs dos quais 
os Privatdozenten, dependentes dos honorrios cobrados aos alunos que assistiam s suas aulas, anunciavam seus prximos programas de lies e forneciam aos estudantes 
uma idia de sua obra na forma de uma breve reflexo sobre determinado tema acadmico.28 Os Programmata consistiam, basicamente, em anncios para os estudantes e 
eram minuciosamente examinados pelo censor acadmico; eram com freqncia impressos s custas do prprio Privatdozent, em pequenas tiragens por uma grfica local.
Ao receber a licena para ensinar em 1755, Kant foi obrigado a divulgar um certo nmero de Programmata com o objetivo de marcar sua presena. A petio de 1758 menciona 
trs, datando de 1756,1757 e 1758; estes foram seguidos, aps a petio, por outros quatro Programmata de 1759, 1762, 1765 e 1775. Em conjunto, os sete Programmata 
constituem uma parte significativa, embora subestimada, da autoria de Kant. O primeiro veio a lume em 25 de abril de 1756, com um anncio das lies propostas por 
ele para o semestre estivai: Novas notas do M[agister] Kant para uma discusso da teo-

xxviii            Kant e a "poca da Crtica"
ria dos ventos, as quais contm ao mesmo tempo um convite para as suas lies. Fornece uma amostra do pensamento de Kant na forma de uma teoria que relaciona o vento 
com a rotao da Terra sobre o seu eixo. A inscrio "Impresso na Grfica com Privilgio Real de Driest, de Knigsberg" mostra que a sua publicao no foi financiada 
por um editor, mas impressa particularmente e destinada a um pblico estudantil local.29 Isso explica o impacto mnimo da obra fora de Knigsberg; foi escrita para 
impressionar estudantes locais e no os meteorologistas no pblico leitor em geral. Kant publicou os trs Program-mata seguintes da mesma forma, com Esboo e anncio 
por M. Kant de um curso sobre geografia fisica, juntamente com o Apndice de uma investigao sobre se os ventos de oeste em nossas regies so midos porque atravessaram 
um grande mar, anunciando as lies para o semestre do vero de 1757; Nova teoria do movimento e do repouso de M. Immanuel Kant e suas conseqncias para os fundamentos 
primrios da cincia natural, atravs da qual, ao mesmo tempo, suas lies para este meio ano so anunciadas, relativas ao semestre do vero de 1758; e Algumas reflexes 
sobre o otimismo por M. Immanuel Kant, contendo tambm um anncio de suas lies para o prximo semestre, relativas ao semestre do inverno de 1759-60.
Os dois Programmata seguintes, de 1762 e 1765-66, diferem dos quatro anteriores por j no serem impressos particularmente por Driest mas editados por Johann Jacob 
Kanter e anunciados para um pblico mais vasto no catlogo da feira do livro de Leipzig. Assim, o primeiro minimiza o seu carter como anncio de um programa de 
lies e intitula-se simplesmente A falsa sutileza das quatro figuras silogisticas demonstrada por M. Immanuel Kant, embora apresente nele a orientao que pretende 
imprimir ao seu "curso sobre lgica" no semestre de inverno. Este trabalho estava disponvel para venda em toda a Alemanha e rene, assim, os gneros de uma obra 
de edio independente e de um anncio universitrio para uso interno.30 O segundo Programma tambm foi publicado por Kanter e, desta vez, o seu ttulo no faz nenhuma 
tentativa para esconder sua funo pedaggica: Anncio por M. Immanuel Kant do programa de suas lies para o semestre de inverno de 1765-66. Entretanto, trata-se, 
de fato, de uma profunda meditao sobre o significado pblico da filosofia pela pena de um professor plenamente cns-cio do carter exemplar de sua profisso, e 
deve ser lida como uma contribuio para a redefinio do lugar da filosofia na universidade alem.3' Tambm representa a elevao do gnero do Programma de sua 
funo como parte do uso privado da razo dentro da universidade para um modo de praticar o uso pblico da razo em benefcio de um mais vasto pblico leitor. Nele, 
Kant defende o ensino de filosofia aos jovens e ao pblico em geral, como sendo o exemplo primordial do uso pblico da razo.
O ltimo dos Programmata de Kant  o texto Sobre as diferentes raas humanas, atravs do anncio das lies de geografia fisica para o semestre de vero de 1775. 
Quando publicou esse texto com G.L. Hartung, o editor acadmico oficial e filho de J.H. Hartung, com quem Kant editara a sua dissertao de 1750, este j era professor 
titular que percebia um salrio e, por conseguinte, no era obrigado a procurar estudantes  maneira de um Privatdozent. Suas razes para escrever esse trabalho 
no so inteiramente claras; talvez tivesse considerado o gnero condizente com a breve e especulativa explorao de um determinado tpico. Esta explicao  amparada 
no fato de Kant ter reelabo-rado o texto para voltar a public-lo dois anos mais tarde sem as referncias que acompanhavam suas lies. Com efeito, a prpria experincia 
editorial de Kant foi se-
Kant e a "poca da Crtica"           xxix
guida, nesse caso, por muitos dos seus subseqentes editores. Com raras excees, os textos que Kant escreveu nesse gnero so freqentemente publicados e lidos 
sem qualquer referncia  sua bsica funo publicitria, e tornou-se prtica editorial aceita eliminar de seus ttulos todas as referncias aos cursos originais.32 
Essa prtica serve tacitamente para converter as contribuies dadas ao uso particular da razo nas atividades docentes da universidade em usos pblicos da razo 
para um pblico mais vasto. O Programma de 1775 foi o ltimo do gnero para Kant; da em diante, desenvolveu outros canais para publicar breves ensaios especulativos 
que eram dedicados, de forma inequvoca, ao grande "pblico leitor", mas que se apoiavam na experincia que ele adquirira ao apresentar idias de um modo conciso 
e acessvel atravs da composio dos Programmata.
Diferentemente das dissertaes, que eram dirigidas ao corpo docente e ao senado da universidade e tinham por finalidade assegurar a passagem de Kant atravs da 
burocracia acadmica, os Programmata eram dirigidos aos estudantes e inseparveis das relaes particulares entre o Privatdozent e os seus alunos pagantes. Os Programmata 
assinalam, pois, um outro e importante elo entre o uso particular da razo como professor universitrio e o seu uso pblico da razo como autor. Contudo, eles no 
esgotam os modos diretos e indiretos como as atividades docentes e autorais de Kant estavam profundamente interligadas. Entretanto, para se entender por inteiro 
este relacionamento mtuo  necessrio observar mais de perto a atividade de Kant como professor e as enormes exigncias impostas ao seu tempo e energia.        
*
Numa carta a J.G. Lindner de 1759, h quatro anos em sua carreira como Privatdozent, Kant pinta um melanclico retrato de si mesmo trabalhando:
Sento-me  bigorna de meu atril e guio o pesado martelo de minhas montonas lies, martelando sempre o mesmo ritmo ... Nesta cidade onde me encontro e com os modestos 
bens que me permito nutrir a esperana de obter, contento-me finalmente com o aplauso que recebo e com os benefcios que da derivo, deixando que em sonhos minha 
vida se esvaia pouco a pouco. (CFI, p.4)
A primeira aula em 1755 foi um grande acontecimento, e foi dada na sala de aulas da casa do professor Kypke, onde ele estava alojado na poca.33 A sala estava superlotada 
de estudantes e membros da sociedade de Knigsberg curiosos por ouvir a tmida primeira aula dos muitos milhares de aulas que Kant daria nos prximos 41 anos. Dar 
aulas era a principal atividade de um professor universitrio nessa poca, suplementadas pelos Disputatoria34 regulamentares ou seminrios paralelos s aulas, os 
quais eram habitualmente oferecidos por Kant s quartas e sextas entre as oito e nove horas da manh. Alm disso, ele oferecia tambm sesses gratuitas para repetio 
de pontos e soluo de dificuldades que pudessem ter surgido para os estudantes durante as aulas e, como precep-tor, dava tambm lies particulares. Mais tarde, 
quando foi promovido  ctedra, aumentaram as exigncias de tempo para aulas porque lhe competia tambm dirigir os exames de matricula, assim como outros deveres 
universitrios.35
No surpreende que Kant estivesse deprimido pela pesada e montona rotina das aulas, dada a extenuante quantidade que tinha de cumprir para sobreviver como Privai-

XXX
Kant e a "poca da Crtica"
dozent?6 Dava regularmente suas aulas pela manh, com a mdia semanal mnima de 16 horas no atril. As matrias que lecionava eram extremamente diversas. No seu primeiro 
semestre de inverno de 1755, ofereceu cursos de lgica, metafsica e matemtica; acrescentou no vero seguinte um curso inovador de geografia fsica. No inverno 
seguinte acrescentou a tica, em 1759-60 oferecia tambm cursos de matemtica pura e cincias mecnicas, e em 1767 passou a dar ainda um curso de direito natural 
(Naturrechi), matria que estava ento em voga. Depois, em 1772, ministrou um curso introdutrio dedicado  Enciclopdia e filosofia da histria e, no mesmo ano, 
dividiu o seu curso de geografia fsica em cursos separados de geografia fsica e antropologia; dois anos mais tarde, comeou a dar aulas de teologia natural e, 
da em diante, em 1776-77, de pedagogia.37 Ao longo de toda a sua carreira, Kant lecionou 268 cursos: 54 de lgica, 49 de metafsica, 46 de geografia fsica, 28 
de tica, 24 de antropologia, 20 de fsica, 16 de matemtica, 12 de jurisprudncia, 11 de Enciclopdia e histria da filosofia, quatro de pedagogia, dois sobre mecnica 
e, sobre mineralogia e teologia, um curso em cada uma destas matrias. A maior freqncia de estudantes registrava-se nos cursos obrigatrios de lgica e metafsica: 
nas aulas de lgica, variava entre 45 (1775) e os 100 alunos do recorde pessoal de Kant em 1780, enquanto as de metafsica, que no comeo de sua carreira, eram assistidas 
por 20 a 30 alunos, subiram para 70 no final. A freqncia em cursos facultativos mas populares, como geografia fsica e antropologia, variavam entre 24 e 81 e de 
28 e 55, respectivamente.
De acordo com as regulamentaes governamentais, um curso numa universidade prussiana tinha de consistir na explicao de um texto autorizado ou compendium por um 
professor. Esta regra foi sacramentada pelo esclarecido ministro prussiano dos Negcios da Igreja e Educacionais, von Zedlitz, com a expressa exceo do "Professor 
Kant e seu curso de geografia fsica, para o qual  sabido no existir um compndio inteiramente adequado".38 Assim, no Programma para as suas aulas do semestre 
do inverno de 1765-66, Kant anuncia que as suas lies de metafsica guiar-se-o pel&Metaphysica (1739) de Alexander Gottlieb Baumgarten, as de lgica pelo Auszugaus 
der Venunfileh-re [Extrato da doutrina da razo] (1760), de Georg F. Meier, e as de tica pelos Initia philosophiae practicae primae [Princpios fundamentais de 
filosofia prtica elementar] (1760), de A.G. Baumgarten. A tcnica de Kant, quando baseava suas lies nesses e em outros compndios para os seus outros cursos, 
consistia em cobrir os seus textos com comentrios e em intercalar folhas repletas de notas, observaes adicionais e comentrios aos comentrios. Desse modo, suas 
lies transformavam esses compndios a tal ponto que, com freqncia, ficavam poucos vestgios dos textos originais. Esses esclios enchem agora muitos volumes 
da Edio da Academia de suas obras, formando o que Gulyga descreveu corretamente como um "dirio cientfico".39
As atividades docentes de Kant tinham um significativo impacto, direto e indireto, sobre a sua atividade como autor. O impacto direto mais bvio, independentemente, 
 claro, dos Programmata, consistiu na publicao de suas lies. Durante sua vida, houve considervel procura de cpias das lies de Kant, algumas das quais oferecem 
hoje valiosas informaes sobre o desenvolvimento do seu pensamento.40 Kant tentou satisfazer essa procura no final de sua carreira, produzindo verses autorizadas 
das lies, em especial as duas originalssimas sries sobre antropologia e geografia fsica. Ele s completou as lies de antropologia, as quais foram publicadas 
em 1798 como Antropologia
Kant e a "poca da Crtica"             xxxi
de um ponto de vista pragmtico (A), mas expressou dvidas sobre se qualquer outra pessoa estaria apta a ler suas notas a fim de preparar um compndio de geografia 
fsica. Entretanto, durante sua vida, foram publicadas verses de suas lies de lgica (1800), editadas por G.B. Jsche, de geografia fsica (1802), editadas por 
F.T. von Rink, e de pedagogia, tambm editadas por Rink. Aps sua morte, seguiram-se os textos sobre teologia filosfica (1817), editados por K.H.L. Plitz, e metafsica 
(1821), tambm por .Plitz.41 Isto sem mencionar,  claro, as publicaes programadas da Edio da Academia j no sculo xx.
A procura de apostilas e a publicao das lies de Kant mostram que estas foram consideradas parte integrante de sua obra, ainda durante sua vida. Entretanto, as 
lies tambm alimentaram indiretamente seus textos publicados. Localizar e descrever a influncia daquelas sobre estes ltimos  um ramo extremamente sutil dos 
estudos kantia-nos que seria inadequado procurar aprofundar neste ponto, embora as seguintes questes possam ser sucintamente abordadas. Em primeiro lugar, os compndios 
usados por Kant para servir de base s suas lies forneceram, com freqncia, a estrutura geral de suas obras ulteriores. , em particular, o caso da Crtica da 
razo pura, a qual transforma o objeto de estudo e a organizao da metafsica wolffiana geral e especial apresentada na Metaphysica de Baumgarten. Em segundo lugar, 
as notas marginais que Kant adicionou aos compndios surgiram de suas mais vastas leituras e pensamento, e apontam para como ele transformou e ampliou a tradio 
filosfica. Ele era famoso por inserir em suas lies interessantes exemplos extrados de uma vasta gama de fontes diversas. A esse respeito, as lies revelam o 
processo pelo qual Kant pde, embora trabalhando dentro da tradio filosfica, adaptar a tradio aos novos interesses da modernidade, quer os da cincia natural, 
poltica, arte e literatura, ou medicina. Suas lies fundiram as preocupaes e a linguagem tradicionais dos compndios filosficos com o novo material extrado 
dos jornais, revistas e livros que satisfaziam as exigncias de um novo pblico leitor.
Essa conjuno do uso particular da razo na sala de aula e do uso pblico da razo na pgina impressa conduz-nos s duas outras categorias bsicas do texto kantiano, 
suas publicaes em revistas e seus livros. Ambas as categorias so internamente diversas. Kant escreveu vrias espcies de artigos para revistas e livros destinados 
a pblicos distintos, geogrfica e socialmente determinados. Voltando  petio de 1748  imperatriz Elisabeth, afirmou Kant que tinha publicado "quatro ensaios 
na revista de cultura de K-nigsberg". Eles marcaram o incio de uma carreira distinta na rea do jornalismo de divulgao popular, que Kant manteve at o final 
de sua vida. Participou do surgimento de uma nova forma de publicao destinada a um numeroso e esclarecido pblico leitor.42
Os primeiros quatro escritos jornalsticos que Kant menciona foram publicados aps o seu regresso a Knigsberg em 1754, numa revista local intitulada Wochentliche 
Knigsbergische Frag- und Anzeigungs-Nachrichten. Q primeiro ensaio era uma resposta a uma questo proposta pela Academia de Berlim em 1752, "Investigao da questo 
sobre se a Terra em sua rotao ao redor do seu eixo, pela qual produz a mudana de dia e noite, sofreu quaisquer alteraes desde o tempo de sua origem". Este foi 
publicado. em duas partes semanais e no parece ter participado da competio da Academia. Marca o incio de um importante subgnero de escritos de Kant, a saber, 
o ensaio para competio. Sua tentativa seguinte para concorrer a uma medalha da Academia ocorreu em 1764 e, embora no tenha ganho a competio, foi julgada merecedora 
de publicao

xxxii           Kant e a "poca da Crtica"
pela Academia de Berlim. Trata-se das Investigaes sobre a clareza dos princpios da teologia natural e da moral. Uma resposta  questo que a Academia de Cincias 
de Berlim props para o ano de 1763. Foi este ensaio, mais do que qualquer outro, que atraiu para Kant as atenes do pblico esclarecido para alm dos limites de 
Knigsberg.43
Os trs ensaios seguintes na Wochentliche Knigsbergische Frag- und Anzei-gungs-Nachrichten foram "A questo sobre se a Terra est envelhecendo, considerada desde 
o ponto de vista de um fsico", que saiu em uma srie de quatro nmeros sucessivos durante o vero de 1754, e os dois ensaios sobre o terremoto de Lisboa, publicados 
em janeiro e abril de 1756. Entre estes dois ltimos, em maro, Kant publicou um livro de sucesso sobre o terremoto, editado por Hartung, coordenando assim as suas 
publicaes em revista e em livro. Publicou mais um artigo nessa revista 12 anos mais tarde, o importante ensaio intitulado "Sobre o primeiro fundamento da distino 
de direes no espao" (1768). Depois dos quatro ensaios de meados da dcada de 1750, Kant no publicou mais quaisquer obras curtas nessa forma at 1764, quando 
iniciou a publicao annima no Knigsbergsche Gelehrte und Politische Zeitungen. Essa revista, fundada em 1764 por Johann Jacob Kanter, o editor de Kant na dcada 
de 1760, foi dirigida por Hamann de acordo com o modelo das revistas literrias e polticas que ele tinha lido durante sua estada na Inglaterra.  um excelente exemplo 
da nova gerao de revistas que surgiram por toda a Alemanha durante as dcadas de 1750 e 1760. Embora se destinassem ainda a uma circulao local, essas revistas 
responderam - e em certa medida conduziram - a uma transio no interesse pblico dos temas cientficos para os literrios e polticos. No Knigsbergsche Gelehrte 
und Politische Zeitungen, Kant publicou anonimamente o "Ensaio sobre as doenas da mente" (1764), assim como as crticas de livros por Silberschlag e Moscati em 
1764 e 1771, os ensaios "Sobre a Academia Filantrpica de Dessau" em 1776 e 1777 e o "Informe para os mdicos", de 1782.
Depois de 1771, Kant deixou de publicar seus ensaios e comentrios crticos nas revistas locais. Aps um longo perodo de silncio, voltou com uma crtica no Raisonie-rendes 
Verzeichnis neuerBcher em 1783, seguida em 1784 por "Idia de uma histria universal de um ponto de vista cosmopolita" na Berlinische Monatsschrift. Foi esse o 
primeiro de uma extensa e notvel srie de ensaios para essa revista; de fato, com a exceo de alguns breves comentrios crticos para oAllgemeine Literatur Zeitung 
e o ensaio "Sobre o uso de princpios teleolgicos em filosofia" para Der Teutsche Merkur em 1788, todos os escritos mais curtos de Kant nas ltimas duas dcadas 
de sua vida foram publicados na Berlinische Monatsschrift.M Assim, quase todos os textos sobre a filosofia da histria e as contribuies para as controvrsias polticas, 
religiosas e cientficas do seu tempo, descritas por Jean-Franois Lyotard como a "quarta crtica" de Kant, vieram a lume somente nessa revista (ver, para detalhes 
completos, "Obras publicadas de Kant").
A Berlinische Monatsschrift  notvel no s por ter publicado muitos dos melhores e mais influentes trabalhos de Kant mas tambm por ser a face pblica de uma sociedade 
secreta do Iluminismo berlinense, aMittwochgesellschaft, um grupo de intelectuais e burocratas de alto nvel que se reuniam secretamente para discutir temas importantes 
para a filosofia e a sociedade prussiana da poca.45 O secretrio dessa sociedade que organizou a circulao de artigos e ensaios entre os seus membros era Johann 
Erich Bies-ter, secretrio do ministro von Zedlitz e editor da Berlinische Monatsschrift. A primeira
Kant e a "poca da Crtica"           xxxiii
edio de 1783 apresentou-se como um "Semanrio Moral", mas a revista assumiu depressa um programa social, poltico e cultural mais explicitamente pr-Iluminismo.46 
Por intermdio de Biester, a revista estava intimamente associada a von Zedlitz e aos crculos reformistas de Berlim, e dedicada  disseminao da causa iluminista 
em toda a Prssia. O fato de Kant publicar seus trabalhos nessa revista era uma clara afirmao de posio, como Biester sublinhou em seu convite a Kant, numa carta 
de 5 de junho de  1785, para "usar a nossa boca a fim de levar sua voz ao pblico". A Berlinische Monatsschrift foi um dos principais veculos por meio dos quais 
Kant conduziu o uso pblico da razo que recomendou em seu ensaio "Resposta  pergunta: 'O que  Esclarecimento?'" (RPE), publicado em suas pginas em 1784. Tambm 
continuou emprestando sua colaborao  revista de Biester aps a mudana no clima poltico com a elevao de Frederico Guilherme II ao trono em 1786, assim como 
depois do episdio com o censor que logrou sustar a publicao seriada de A religio dentro dos limites da simples razo em 1792.47
A forma final a que Kant recorreu para dirigir-se ao pblico leitor foi atravs dos seus livros, mas tambm neste caso o seu acesso aos meios de publicao mudou 
ao longo de sua carreira e est refletido no gnero de livros que escreveu. Na petio  imperatriz Elisabeth, Kant menciona "trs outros opsculos filosficos que 
fornecem uma certa noo sobre o sentido da minha investigao". O primeiro deles, Idias para uma verdadeira avaliao das foras vivas, foi publicado durante vrios 
anos (1747-49) a expensas do prprio Kant com o apoio financeiro de um parente, um sapateiro chamado Richter: por isso o livro traz somente o nome do impressor - 
Martin Eberhard Dorn - e no o de um editor. O prprio Kant observou que as circunstncias da publicao significaram que o seu livro no ingressou no comrcio livreiro 
e, por conseguinte, sua escassa circulao no causou praticamente qualquer impacto no pblico.48 Seu segundo empreendimento editorial foi igualmente insatisfatrio, 
a saber, a Histria geral da natureza e teoria do cu, de 1755, escrita durante a carreira de Kant como preceptor particular e editada anonimamente. O livro foi 
publicado por Johann Friedrich Petersen, de Knigsberg e Leipzig, que no tardou em falir. O estoque foi confiscado e s escaparam alguns exemplares. Assim, se bem 
que anunciado no crucial catlogo das feiras do livro de Frankfurt e Leipzig, no obteve ampla circulao, embora recebesse um comentrio crtico na revista de Hamburgo 
Freyen Urtheilen und Nachrichten. Reapareceu para venda um ano depois num anncio da Wochentlichen Knigsbergischen Frag- und Anzei-gungs-Nachrichten, intitulado 
"Coisas que podem ser compradas em Knigsberg" sob o nome de Kant e disponveis "na grfica de Herr Joh. Driest" - presumivelmente estoque pertencente  massa falida 
de Petersen e aceito por Driest em lugar do pagamento do trabalho de impresso do livro.49 O terceiro opsculo filosfico de Kant foi um caso inteiramente diferente. 
Publicada em maro de 1756 por Hartung, o livreiro oficial e acadmico, a Histria e descrio natural das mais notveis ocorrncias associadas ao terremoto que, 
no final de 1755, abalou uma grande parte do mundo respondeu ao interesse local despertado por um artigo sobre o terremoto [de Lisboa] que Kant publicara em janeiro. 
Esse texto  considerado nico na obra de Kant por ter sido impresso to depressa quanto foi escrito, embora parea ter sido tambm esse o caso das Observaes sobre 
o sentimento do belo e do sublime e da Crtica da faculdade do juzo. A Histria e

xxxiv           Kant e a "poca da Crtica"
descrio ... foi um xito local em Knigsberg mas no parece ter tido uma distribuio mais ampla.
Aps essas inauspiciosas estrias, as relaes de Kant com os seus editores assentaram num padro mais estvel, o qual pode ser cronologicamente apresentado. De 
1762 a 1770, Kant publicou com Johann Jacob Kanter, de Knigsberg, e depois, aps um intervalo de 11 anos (a "dcada silenciosa"), reatou suas atividades em 1781, 
quando suas obras passaram a ser editadas por Johann Friedrich Hartknoch, de Riga, com quem permaneceu at 1788. Em 1790, publicou a Crtica da faculdade do juzo 
com Lagarde e Friederich, de Berlim e Libau, e desde ento at sua morte os seus livros foram editados por Friedrich Nicolovius, de Knigsberg. Em cada caso, com 
a exceo de Lagarde e Friedrich, as relaes de Kant com o seu editor eram muito mais do que econmicas. Ele confiava nos editores no s para publicar e distribuir 
os livros, mas tambm para o manter abastecido com as obras editadas de outros: eles eram o seu elo para o exerccio pblico da razo, como autor e como leitor. 
Isso era devido, em grande parte,  estrutura do comrcio livreiro do sculo XVIII, no qual um livreiro tambm atuava como editor a fim de obter seu estoque por 
troca dos livros que produzia com os de outros editores, sobretudo na feira do livro de Leipzig. Esperava-se, como veremos, que os editores de Kant o mantivessem 
informado sobre publicaes recentes e lhas emprestassem quando entravam na livraria. Embora Kant no exigisse de seus editores50 vultosos honorrios em espcie, 
certamente esperava ser recompensado em metal sonante.
As estreitas relaes entre autor e editor so imediatamente evidentes no caso do editor de Kant durante a dcada de 1760, Johann Jacob Kanter (1738-86). Kanter 
publicou A falsa sutileza das quatro figuras silogsticas (FS) em 1762, O nico argumento possvel para uma demonstrao da existncia de Deus (UAP) e Ensaio para 
introduzir na filosofia o conceito de grandeza negativa (GN), ambos em 1763, Observaes sobre o sentimento do belo e do sublime (OBS) em 1764, os Programmata de 
1765, Sonhos de um visionrio explicados pelos sonhos da metafsica (sv) em 1766 e, por fim (embora isto no esteja inteiramente certo), a chama "Dissertao inaugural" 
(DI) em 1770. Kanter combinou os talentos de um empresrio dinmico e talentoso com o empenho em divulgar as idias do Iluminismo. Ingressou aos 22 anos de idade 
no negcio de livreiro em Knigsberg, em 1760, com estabelecimento na Langgasse, na cidade antiga, e com o xito mudou para o antigo edifcio da prefeitura em Lbnicht. 
Kanter desenvolveu o seu negcio em vrias direes, adotando uma estratgia de integrao vertical ao expandir-se da livraria para a edio de livros, a publicao 
dos Knigsbergsche Gelehrte undPoli-tische Zeitungen em 1764 e, por fim, a fundao de uma fbrica de papel; tambm diversificou na lucrativa esfera dos jogos de 
azar ao tomar-se o organizador de uma loteria.
Kanter no era apenas um ambicioso homem de negcios; estava tambm interessado em prestar um servio  comunidade intelectual de Knigsberg. Dirigiu a sua livraria 
de modo a faz-la em lugar de encontro para os intelectuais e estudantes de Knigsberg - o estabelecimento foi descrito por um contemporneo como a "Brsefr die 
Gelehrtenwelt der Stadt"51 (Bolsa para o mundo intelectual da cidade). Kant, entre muitos outros, inclua uma visita  livraria de Kanter como parte de sua rotina 
diria no incio da dcada de 1760, e a lia os jornais, tomava emprestados os livros mais recentes e discutia idias com os outros habitues, assim como seus prprios 
planos editoriais com Kanter. Em 1766, Kant mudou-se para o segundo andar da livraria, onde viveu e lecio-
Kant e a "poca da Crtica"          xxxv
nou at 1769 (quando se viu coagido a sair por causa do incessante cocoricar de um galo vizinho). Assim, Kant viveu e at ensinou nas instalaes do seu editor52, 
tendo livre acesso ao estoque de livros. Tambm usufrua das informaes sobre os desenvolvimentos intelectuais fora de Knigsberg, as quais lhe eram trazidas pelo 
peripattico Kanter. A livraria exemplificava a noo do pblico leitor que Kant evoca em "Resposta  pergunta: 'O que  Esclarecimento?'", onde leitores e autores 
se renem, argumentam e discutem entre si, independentemente de suas competncias oficiais.
Um fascinante vislumbre das relaes entre autor e editor  propiciado pela correspondncia de Kant com Lambert, a partir de meados da dcada de 1760. Lambert escreveu 
a Kant de Berlim, em 13 de novembro de 1765, lamentando as dificuldades que encontrava para publicar a sua Arquitetnica - se fosse um romance, "penso que j teria 
encontrado numerosos editores...". Lambert comenta que Kanter  "um homem que tambm publicar filosofia e obras de maior flego" e junta uma folha para que Kanter 
considere a possibilidade de publicao. Faz trs observaes acessrias que ponderam acerca das publicaes de filosofia durante esse perodo. A primeira  o seu 
interesse em que o livro seja impresso em Leipzig, o que seria melhor por vrias razes mas, sobretudo, por causa da "diferena de preos e de despesas de frete". 
Era, cada vez mais, o caso de livros publicados numa cidade como Knigsberg serem impressos em outro lugar, usualmente Leipzig, a fim de beneficiar-se de economias 
de escala na indstria grfica local, mas tambm por causa do papel-fundamental de sua feira do livro na distribuio e conseqente economia nos custos do transporte. 
Lambert mencionou ento que Kanter talvez desejasse publicar o livro a tempo de figurar na feira do livro da Pscoa, que era um dos principais eventos na programao 
do editor. Se um livro se destinava a mais do que um mercado local, ento tinha de ser anunciado no catlogo da feira de Leipzig e disponvel a para venda ou troca 
com livros de outros editores/livreiros de todas as regies da Alemanha. Finalmente, Lambert menciona possveis honorrios de cerca de 200 ta-lers, que ele considera 
moderados, "porque a obra criar necessariamente uma certa agitao".53 Isso indica que os autores eram pagos por um sistema de pagamento  vista, ou honorarium 
contra entrega dos manuscritos, e no por royalties sobre as vendas. Kant informou Kanter da proposta de Lambert e enviou uma carta de Kanter propondo um encontro 
em Berlim.
Outros detalhes do empreendimento editorial de Kanter surgem tambm de um estudo mais atento da histria da publicao das obras de Kant. Tudo indica que a maioria 
dos escritos de Kant para a editora de Kanter eram impressos em Knigsberg, o que sugere tiragens pequenas. Prova disso  a afirmao de Hamann, numa carta a Nicolai 
em 21 de dezembro de 1762, de que o UAP de Kant tinha acabado de sair do prelo em Knigsberg, assim como o episdio em torno da censura de Sonhos de um visionrio, 
de Kant. Kanter foi multado em 10 talers pelo senado da Universidade de Knigsberg por ter publicado esse livro sem a prvia aprovao do censor acadmico. Num apelo, 
Kanter observou que o manuscrito de Kant era quase ilegvel e fora enviado para a grfica em sucessivas parcelas. Isso significou que o autor corrigiu e reviu o 
texto durante o processo de produo e que, por conseguinte, no havia um s exemplar que pudesse ser submetido  censura antes da verso final impressa. Assim, 
Kanter imprimia em Knigsberg mas anunciava suas publicaes nos catlogos da feira do livro de Leipzig, para onde enviava amostras do seu produto. A impresso geral 
 de que o seu negcio era, em primei-

xxxvi           Kant e a "poca da Crtica"
ro lugar, uma livraria local, a qual era sustentada por meio de uma pequena editora local especializada.
Indcios de insatisfao com Kanter so discemveis na resposta de Kant a Lam-bert em 31 de dezembro de 1765, a qual tambm contm a primeira meno ao seu futuro 
editor, Johann Friedrich Hartknoch (1740-89). Quando se refere ao fato de Kanter estar "sobrecarregado com outros compromissos" (a loteria, talvez?), observa que 
"ele entrou em sociedade com seu antigo empregado, o Sr. Hartknoch, que geria at agora os seus negcios em Riga...".54 Um quase contemporneo de Kanter, Hartknoch 
administrou a expanso da livraria de Kanter primeiro em Mitau (1763) e logo em Riga (1764); passou a ser seu scio um ano depois, at ganhar sua independncia de 
Kanter. Hartknoch estudou teologia na Universidade de Knigsberg e foi um dos alunds de Kant. Sua empresa era mais eficientemente organizada, mais concentrada e 
mais ambiciosa do que a de Kanter, como  evidente no s pela gama e qualidade de autores que editava (Hamann e Herder, assim como Kant),55 mas tambm por seu domnio 
da produo internacional e distribuio de livros.
A publicao da Crtica da razo pura  um bom exemplo disso. Informado por Hamann em setembro de 1780 de que Kant tinha quase concludo essa obra, Hartknoch escreveu-lhe 
oferecendo os seus servios; produziria o livro de Kant com rapidez e gosto, e podia assumir o compromisso de que ele seria amplamente distribudo. O livro foi impresso 
em Halle pela grfica de Grunert, com a superviso da companhia livreira de Spener em Berlim. A impresso comeou no final de 1780, com Kant recebendo as primeiras 
29 folhas de prova em abril de 1781. A obra foi lanada na feira do livro da Pscoa desse mesmo ano, com Riga como o lugar de publicao.
Disposies semelhantes foram adotadas com os subseqentes livros de Kant publicados por Hartknoch, a saber, os Prolegmenos a toda a metafsica futura que possa 
se apresentar como cincia (P) de 1783, Fundamentao da metafsica dos costumes (FMC) de 1785, Primeiros princpios metafsicos da cincia natural (PM) de 1786 
e a Crtica da razo prtica (CRPr) de 1788. Todas estas obras foram impressas por Grunert em Halle, a quem Kant enviava diretamente seus manuscritos (mantendo Hartknoch 
informado toda a vez que procedia a tais envios) e eram distribudos na feira do livro. No que diz respeito aos Prolegmenos, a correspondncia de Hamann com Hartknoch 
menciona que Kant est trabalhando desde o vero de 1781 numa verso popular da primeira crtica, e tanto o editor quanto o seu informante consideravam claramente 
essa obra uma forma de compensao para o malogrado tomo que era "excessivamente abstrato e dispendioso para as massas". Ao publicar com Hartknoch, as obras de Kant 
estavam sem falta  disposio do grande pblico em toda a Alemanha, muito embora o seu local de publicao estivesse situado na periferia oriental da cultura alem. 
O seu pblico deixara de ser primordialmente local, como ainda era o caso quando Kanter editava suas obras. Entretanto, as relaes de Kant com o seu editor no 
eram, uma vez mais, exclusivamente econmicas:  sabido que Hartknoch fez pessoalmente a entrega a Kant dos primeiros exemplares da Fundamentao da metafsica dos 
costumes em abril de 1785,56 e que lhe enviava caviar de Riga.
Com a morte de Hartknoch em 1789, Kant deixou de publicar com a firma, embora tivesse feito ao filho de Hartknoch uma vaga promessa de publicar com ele a terceira 
crtica (CJ). Kant parece ter considerado que suas relaes com a firma de Hartknoch ti-
Kant e a "poca da Crtica"          xxxvi
nham cessado com a morte do pai e duvidado da capacidade do filho para efetuar a rpida e eficiente distribuio da terceira crtica. Estas ltimas consideraes 
tiveram muito peso quando ele se dirigiu, por intermdio de seu ex-aluno J.G. Kiesewetter, ao livreiro e editor berlinense de Ia Garde, em fins de 1789. Com a remessa 
da primeira parte do manuscrito, em 21 de janeiro de 1790, Kant especificou que "a primeira e mais importante condio" era que a obra fosse publicada a tempode 
ser exposta na feira do livro de Leipzig, na Pscoa. O restante do manuscrito foi remetido no comeo de maro, seguido rapidamente pelo Prefcio e a Introduo que, 
com correes mnimas, foram publicados a tempo. Entretanto, aps esse episdio com de Ia Garde, Kant retornou s suas relaes mais costumeiras com um editor, desta 
vez com o editor de Knigsberg, Friedrich Nico-lovius (1768-1836), com quem permaneceu pelo resto de sua vida.
Nicolovius, tal como Hartknoch, foi um dos alunos de Kant que se estabeleceu em Knigsberg como editor e livreiro em 1790. No mesmo ano, publicou o polmico Sobre 
uma descoberta, segundo a qual toda nova crtica da razo pura  inutilizada por outra mais antiga (SD), que figurou simultaneamente com a terceira crtica na mesma 
feira do livro da Pscoa em Leipzig. Depois dessa bem-sucedida primeira prova, Kant confiou os seus restantes livros a Nicolovius, a saber: A religio dentro dos 
limites da simples razo (RL) de 1793, Metafsica dos costumes (MC) de 1797, O conflito das faculdades (CF) de 1798, Antropologia de um ponto de vista pragmtico 
(A) de 1798 e, finalmente, as edies autorizadas da Lgica (L) e da Educao, publicadas por Rink. Nicolovius imprimiu os livros em Leipzig em grandes tiragens 
destinadas a um pblico nacional57 e, no entanto, continuou a servir Kant da mesma forma que Kanter tinha feito na dcada de 1760. Assim, Jachman relata em sua biografia 
que Nicolovius enviava a Kant o seu catlogo e que este ltimo mandava Lampe ir apanhar emprestados os livros com ttulos interessantes.58
As relaes de Kant com seus editores sublinham o carter diverso de seus textos e os diferentes pblicos a que estavam destinados. Mais trabalho de investigao 
sobre a iniciativa editorial de Kant esclareceria a natureza e a diversidade de seu modo de comunicao com o pblico leitor e apresentaria algumas importantes discriminaes 
entre suas obras. Tambm serviria para revelar as vrias retricas que empregou quando se dirigia a pblicos distintos. Entretanto, mesmo uma breve reflexo sobre 
suas relaes com os editores mostra que o seu relacionamento de autor com o pblico leitor estava longe de ser simples e direto. Mostra tambm a extenso em que 
a participao de Kant no pblico leitor, como autor e como leitor, era intermediada por seus editores. Estes no s disseminaram sua obra mas tambm lhe proporcionaram 
os meios de acesso aos desenvolvimentos intelectuais do seu tempo. Isso explica por que, embora um leitor voraz, Kant no possusse uma grande biblioteca particular. 
De acordo com um inventrio feito aps sua morte, Kant possua 450 volumes no encadernados, a maioria deles ofertas dos editores e no tidos em grande apreo pelo 
seu dono.59
A histria da iniciativa editorial de Kant mostra um firme e constante desenvolvimento desde que se dirigia, primeiro, a um pblico local, depois a um nacional e, 
por ltimo, a um internacional. Na dcada de 1780, j usufrua de uma slida reputao fora da Prssia, nos principados protestantes e catlicos alemes. Sua filosofia 
era conhecida e ensinada nas universidades e, como sua correspondncia testemunha, era'familiar e apreciada pelas pessoas excludas da universidade, como as mulheres. 
Na dcada de 1790,

xxxviii           Kant e a "poca da Crtica"
sua obra era conhecida e debatida na Inglaterra, Frana e Rssia. Entretanto, aps a sua morte, a obra de Kant estava sendo severamente criticada por uma gerao 
mais jovem de filsofos alemes, incluindo Fichte, Hegel e Schelling, que se mostravam impacientes com suas ambigidades. Suas considerveis diferenas filosficas 
refletiam-se na recusa em aceitarem que a "poca da crtica" pudesse estar contida nos parmetros da "era do Iluminismo" e do "sculo de Frederico".
Para os ps-kantianos, a crtica era revolucionria e no devia estar restrita a oposi-es tais como as de teoria e prtica ou de usos pblicos e privados da razo. 
Para esses pensadores, a vocao do filsofo consistia em dirigir-se aos "jovens" e "ao povo", enquanto a da filosofia era unir a crtica terica e prtica a fim 
de, nas palavras de um dos mais radicais dos kantianos, no s interpretar mas tambm mudar o mundo. Para o bem ou para o mal, esses desenvolvimentos no teriam 
sido possveis sem a obra de Kant que, paradoxalmente, eles ultrapassaram, por uma parte, e dela ficaram muito aqum, por outra: ao procurarem dar realidade  filosofia, 
fosse atravs da nao, do proletariado ou de um lder carismtico, os ps-kantianos transformaram o filosofar de Kant em filosofia. Entretanto, longe de superarem 
Kant, parece que, aps dois sculos revolucionrios, o "mal menor" da acomodao de Kant com o "sculo de Frederico" e as estudadas ambigidades e sensibilidade 
 aporia que caracterizam o seu filosofar ainda oferecem um futuro para o qual poderia valer a pena retornar.
Notas
1.  Assim, Gulyga escreve no prefcio de sua excelente biografia de Kant (1985, p.xi) que "Kant no tem nenhuma biografia que no seja a histria do seu pensamento."
2.  Para uma histria da Edio da Academia, ver o ensaio de Lehmann, "Zur Geschichte der Kantausgabe 1896-1955" em Lehmann, 1969.
3.  A distino entre aspectos passivos e ativos do autor  anloga a outras distines onipresentes na filosofia de Kant, por exemplo, aquela entre seres humanos 
como ocupantes dos domnios da liberdade inteligvel e da causalidade natural.
4.  Publicado subseqentemente com a resposta de Kant no Prefcio para O conflito das faculdades (CF), 1798, p.6, p.l 1.
5.  Ibid.,p.7,p.l3.
6.  Ibid., p.8, p. 15. Esta defesa foi inbil, porquanto RL destinava-se originalmente a ser seriada na revista Berlinische Monatsschrift, cujo nmero de leitores 
excedia de longe o da universidade. Com efeito, a primeira parte foi publicada na revista, tendo o resto do texto sido vtima da censura de Berlim.
7.  Ibid., p. 10, p.l9.
8.  CFI, p.220.
9.  A sua justificao algo jesutica dessa promessa perturbou alguns dos amigos e admiradores de Kant, mormente Borowski, que tentou justificar essa conduta em 
sua biografia do filsofo; ver Borowski e outros, 1912, p.67.
10.  O conhecimento de Kant de filsofos ingleses e escoceses, como Locke, Hume, Hut-cheson, Kames, Burke e Smith,  amplamente apreciado; menos conhecido  o seu 
gosto pela literatura inglesa, especialmente Hudibras, de Samuel Butler, e Tom Jones, de Henry Fielding; ver Malter, 1990, p.73.
11.  Ver Stavenhagen, 1949, p.8-10. O carter dinmico e cosmopolita freqentemente subestimado de Knigsberg foi expresso de forma primorosa pelo prprio Kant numa 
nota de rodap
Kant e a "poca da Crtica"
xxxix
da Introduo a A: "Uma grande cidade como Knigsberg sobre o rio Pregel, a capital de um estado, onde reside a representativa Assemblia Nacional do governo, uma 
cidade com uma universidade (para o cultivo das cincias), uma cidade tambm favorecida por sua localizao para o comrcio martimo, e a qual, atravs dos rios, 
tem as vantagens de comrcio com o interior do pas e com os pases vizinhos de diferentes lnguas e costumes, pode muito bem ser aceita como um lugar apropriado 
para ampliar-se o conhecimento das pessoas, assim como do mundo em geral, onde tal conhecimento pode ser adquirido mesmo sem necessidade de viajar" (p.120, p.4-5).
12.  VerWalker, 1971.
13. Ver Evans, 1987.
14.  Ver McClelland, 1980.
15.  Esse perodo da histria da cidade talvez esteja melhor retratado em OBS. de Kant, seu texto mais despreocupado e sistematicamente popular.
16.  Para as boas lembranas do pietismo cotidiano de seus pais, ver Vorlnder, 1911, p.4-5; para as ms lembranas do pietismo da escola, ibid., p.10-11.
17.  Ibid., p.l 1.
18.  A exigncia de matrcula foi estabelecida pelo espartano rei Frederico Guilherme I em 25 de outubro de 1735, e inclua a familiaridade com lnguas clssicas 
(latim, grego do Novo Testamento, hebraico), silogstica elementar e os fundamentos de histria, geografia e epistolografia. Para o texto integral da regulamentao, 
ver Vorlnder, 1911, p.l5.
19.  Como sugerido em Gulyga, 1985, p.l 1.
20.  O livro de Erdmann de 1876 sobre Knutzen, a despeito de sua idade, ainda  til por sua descrio das condies na Universidade de Knigsberg durante a primeira 
metade do sculo XVIII.                                                                                                                    *
21.  Existe alguma confuso em torno do ttulo da ctedra de Knutzen. Segundo Vorlnder, 1911, era de lgica e metafsica, ao passo que os redatores da Edio da 
Academia descrevem-na como sendo de matemtica e filosofia; Gulyga ignora prudentemente a contradio.
22.  Vorlnder, 1911, p.26-27.
23.  Citado na ntegra por Gulyga, 1985,p.34-35.
24.  Foi conservado nos arquivos da faculdade de filosofia e transferido para a biblioteca da universidade aps a morte de Kant. O texto foi publicado pela primeira 
vez na edio de Rosen-kranz e Schubert de 1839.
25.  O editor Johann Heinrich Hartung era tambm um livreiro cujo filho (que lhe sucedeu no negcio) era cunhado do bigrafo de Kant, Borowski. Kant, principalmente, 
publicou obras destinadas ao pblico acadmico com os Hartungs, que editaram as duas primeiras dissertaes e o ltimo dos Programmata, Sobre as diferentes raas 
humanas, em 1775. A nica exceo foi o seu mal alinhavado mistifrio cientfico de 1756 sobre o terremoto de Lisboa. Entretanto, parece ter estado em contato razoavelmente 
constante com a firma atravs de Borowski, usando mais tarde suas relaes com este ltimo para obter o interesse de Hartung em publicar o Ensaio de uma crtica 
de toda a revelao, de Fichte, em 1792. [A primeira edio, de 1792, veio a lume anonimamente, em conseqncia de problemas com a censura acadmica, mas a segunda, 
de 1793, j trazia o nome do autor. N.T.] Tambm sabemos, graas a um episdio envolvendo Lampe, o obtuso criado de Kant, que Hartung tambm publicava um jornal, 
do qual Kant era leitor regular h mais de 38 anos. Durante essas quatro dcadas, e para intensa irritao de Kant, Lampe chamou o Har-tungsche Zeitung de Hartmannsche 
Zeitung, ao que parece para no confundi-lo com o Hambur-ger Zeitung. A tarefa de Lampe consistia em ir apanhar o jornal na livraria de Hartung e depois devolv-lo 
quando Kant tivesse terminado a leitura, um detalhe acessrio que sugere a existncia de um acordo bastante formal de circulao para revistas e jornais.
26.  Ver CFI, p.58-70.
27.  Ibid., p.71.

xl            Kant e a "poca da Crtica"
28.  "Era habitual para um Privatdozent dessa poca imprimir breves ensaios programticos para atrair futuros alunos, fornecendo assim um exemplo do gnero de assuntos 
que poderiam ser versados na aula e a maneira como seriam tratados." Polonoff, 1973, p.67.
29.  Driest tambm imprimiu uma outra encomenda particular para Kant, desta vez um pequeno folheto (oito pginas) de 1760, Pensamentos sobre a morte prematura de 
Herr Johann Friedrich von Funk.
30.  Era assim anunciado para venda na revista Berlinische Nachrichten von Staats- und Ge-lehrten Sachen, de Berlim, em 7 de outubro de 1762, antes de receber a 
aprovao do censor acadmico em Knigsberg no dia 11.
31.  As universidades de Gttingen e Knigsberg foram pioneiras da mudana no status da faculdade de filosofia, de uma "antecmara para as faculdades superiores" 
para ser um curso que oferecia um amplo currculo onde, "alm do tradicional curso introdutrio de lgica, metafsica e tica... figuravam tambm aulas de 'psicologia 
emprica', direito natural, cincia poltica, fsica, histria natural, matemtica pura e aplicada (incluindo agrimensura, arquitetura civil e militar), histria 
e suas cincias "auxiliares", como geografia e diplomtica, cincia, artes, lnguas antigas e modernas" (McClelland, 1980, p.42-3). As principais foras para mudana 
na Universidade de Knigsberg foram Kant e seu colega e amigo Christian Jakob Kraus (1753-1807), um discpulo de Adam Smith formado pela Universidade de Gttingen.
32.  O editor da reedio de Esboo e anncio por M, Kant de um curso sobre geografia fsica, juntamente com o Apndice de uma investigao sobre se os ventos do 
oeste em nossas regies so midos porque atravessaram um grande mar em 1807 eliminou todas as referncias s origens do texto, e o reintitulou simplesmente como 
A questo sobre se os ventos do oeste so midos porque atravessaram um grande mar.
33.  Borowski, 1912, p.94-95, apresenta em sua biografia um valioso relato feito por uma testemunha ocular desse evento.
34.  Ver Vorlnder, 1911, p.41-42.
35. No semestre do inverno de 1777, Kant deu 28 horas de aula por semana. Seus estudiosos perguntaram-se com freqncia o que teria causado a "dcada silenciosa" 
de Kant nos anos 70; eles deviam dar uma olhada em sua carga de trabalho nas reas de ensino e de administrao durante esse perodo.
36.  Embora a renda de Kant fosse suficiente para manter um empregado em 1751 - o rude Lampe -, a maior parte do tempo como Privatdozent transcorreu em relativa 
pobreza. Sua renda de professor no era elevada e, mesmo assim, isentava com freqncia os alunos mais pobres do pagamento de seus honorrios, ao passo que a renda 
resultante de suas publicaes era insignificante. Na difcil dcada de 1760, as circunstncias foraram Kant a aceitar incumbncias adicionais, como a de subdiretor 
da Biblioteca Real no Castelo (1766-72) e de curador de uma coleo particular de histria natural. O primeiro destes cargos proporcionou a Kant, aos 41 anos de 
idade, o seu primeiro salrio anual regular de 62 talers e vrios pagamentos em espcie, como trigo, cerveja e lenha. (Kant, diga-se de passagem, tal como Nietzsche, 
preferia o vinho  cerveja, considerando a cerveja a receita mais eficaz para uma vida curta; como Hegel, porm, estava viciado em cafena.) Ele tambm reforou 
a sua renda durante esse perodo aceitando hspedes, e em meados da dcada de 60 vendeu at seus livros para cobrir todas as despesas domsticas. S em 1784 disps 
de recursos para comprar uma casa, trs anos aps a publicao da Crtica da razo pura e aos 60 anos de idade.
37.  Depois da obra de Emil Arnold, Kritische Excurse im Gebiet der Kantforschung, de 1894, tornou-se convencional dividir os cursos administrados por Kant em quatro 
grupos: (a) os cursos exigidos de lgica, metafsica e tica, alm de geografia fsica e antropologia; (b) os de enciclopdia filosfica, direito natural e pedagogia; 
(c) cincia natural e as matemticas; (d) aulas
Kant e a "poca da Crtica"           xli
particulares sobre arquitetura militar e fortificaes, ministradas aos oficiais russos durante a administrao russa. Ver tambm Lehmann, 1969, p.75.
38.  Vorlnder, 1911, p.43. Ver tambm "Einfhrung in Kants Vorlesungen" em Lehmann, 1969. Zedlitz foi o mais poderoso defensor do Iluminismo no governo prussiano 
e esteve no exerccio do seu cargo desde 1771 at ser substitudo pelo anti-Iluminista Wllner em 1778, dois anos aps a morte de Frederico I. Zedlitz interessou-se 
pessoalmente pela obra e carreira de Kant, assis-
. tindo em Berlim s aulas sobre sua filosofia dadas por Markus Herz, solicitando apostilas das lies de Kant e encorajando-o a mudar-se para um cargo mais influente 
e melhor situado em Halle. Kant reconheceu esse apoio ao dedicar-lhe a Crtica da razo pura. Biester, o secretrio de Zedlitz, desempenhou subseqentemente um importante 
papel na disseminao das idias de Kant, pondo  sua disposio as pginas da revista Berlinische Monatsschrift.
39.  Gulyga, 1985, p.59.
40.  No caso da lgica, por exemplo, possumos transcries das sries de lies de Kant durante trs dcadas: desde o comeo da dcada de 1770 (a "Lgica de Blomberg", 
assim chamada por ser esse o nome de um anterior dono da transcrio, e a "Lgica de Philippi"); as da dcada de 1780 (as Lgicas de "Viena", "Heschel" e "Plitz"); 
e a partir de 1792 (a "Lgica Doh-na-Wundlacken").
41.  Os complexos procedimentos editoriais adotados por esses editores ainda so imperfeitamente compreendidos. Para se ter uma idia do desafio que enfrentavam, 
ver a introduo de J.M. Young  traduo de 1992 de Lectures on Logic, de Kant, especialmente p.xvii-xviii.
42.  Para uma anlise da rpida expanso da publicao em revistas e seu lugar no Iluminismo alemo, ver de Hans Erich Bdeker,."Journals and Public Opinion: The 
Politicisation of the German Enlightenment in the second half of the Eighteenth Century", em Hellmuth, 1990, p.423-45.
43.  A francfona Academia de Berlim era distinta das universidades e das "sociedades esclarecidas" que se reuniam na capital para discutir questes filosficas 
e de reforma (ver Horst Mller, "Enlightened Societies in the Metropolis: The Case of Berlin", em Hellmuth, 1990, p.219-33). Ela forneceu, entretanto, um frum para 
a discusso e disseminao de idias do Iluminismo num pblico nacional e internacional. Quando a fama de Kant se espalhou durante a dcada de 1780, ele foi eleito 
scio efetivo da Academia de Berlim em 1786.0 ensaio de Kant, publicado a ttulo pstumo, Quais so os verdadeiros progressos da metafsica desde os tempos deLeibniz 
e Wolff?  o terceiro exemplo na obra de Kant de uma resposta a uma questo proposta pela Academia, desta vez em 1788.
44.  O ensaio "Sobre um suposto direito a mentir por amor  humanidade" foi publicado na Berlinische Bltter, a revista que sucedeu  Berlinische Monatsschrift, 
editada tambm por Johann Erich Biester (1749-1816).
45.  A histria de sociedades secretas e grupos de discusso no Iluminismo alemo  estudada por Im Hof, 1982, e Kosselek, 1959, ao passo que a histria da Mittwochgesellschaft 
 coberta por Mller em Hellmuth, 1990.
46.  Para os semanrios morais em geral, ver Martens, 1968; para a histria especfica da Berlinische Monatsschrift ver Weber, 1985.
47.   como se Kant e a Berlinische Monatsschrift servissem como provas de fora para a censura que se seguiu  promulgao em 1788 dos decretos religiosos e censrios 
de Wllner contra o Iluminismo. Os dois decretos representaram, entre eles, uma tentativa de encerramento do espao para o exerccio pblico da razo. O primeiro 
afirmou a "liberdade de conscincia" mas ordenou que os sditos "guardassem suas opinies para si mesmos", enquanto o segundo procurou refrear "os excessos dos chamados 
esclarecedores" e pr fim  liberdade de imprensa (ver Gulyga, 1985, p.201, e Weber, 1985, p.283-84). Esses decretos s entraram efetivamente em vigor a partir de 
1791 e foram ento rigorosamente aplicados no caso de Kant; pois se ele e a Berlinische Mo-

xlii          Kant e a "poca da Crtica"
natsschrift pudessem ser silenciados, isso enviaria uma clara mensagem a escritores e revistas de menor expresso. Foi por essa razo que Biester se mostrou to 
consternado pelo fato de Kant ter, por fim, concordado em ser aaimado a respeito da publicao de temas religiosos.
48.  Borowski, 1912, p.31-2.
49.  Borowski, 1912, menciona esse episdio e descreve o fracasso da HGN em obter a ateno tanto do "grande pblico" quanto de Frederico, o Grande, a quem a obra 
estava dedicada. Seu tradutor Jaki (1981, p.27) considera isso, de forma impiedosa mas no inteiramente implausvel, uma tentativa fracassada de "rpida ascenso 
na escada acadmica".
50.  Segundo Borowski, 1912, Kant no recebeu honorrios por seus primeiros escritos, e mesmo com suas obras ulteriores ganhou comparativamente pouco (p.73). Seus 
honorrios para a Crtica da razo pura, por exemplo, foram de quatro talers por folha para 55 folhas (220 talers), mais 10-12 exemplares grtis, um em papel de 
qualidade e encadernado para apresentao a Zed-litz. De qualquer modo, as fracas vendas do livro nos anos imediatamente seguintes  sua publicao levaram Hartknoch, 
segundo parece, a considerar a possibilidade de uma liquidao como papel a peso.
51.  Citado em Stavenhagen, 1949, p.46. O escritrio de Kanter era decorado com retratos de prussianos eminentes, aos quais ele adicionou, em 1768, um retrato de 
Kant por J.G. Becker.
52. Kanter tambm prestou um servio  comunidade estudantil ao permitir-lhe que duas vezes por semana lesse gratuitamente exemplares do acervo da livraria.
53. Todas as citaes de Lambert em PC, p.45.
54.  PC p.47. Uma outra nota crtica a respeito de Kanter figura tambm nessa carta, quando Kant observa que "o Sr. Kanter, no estilo de um autntico livreiro, no 
hesitou em anunciar o ttulo no catlogo de Leipzig quando ouviu de mim que eu talvez pudesse ter uma obra com esse ttulo ['sobre o mtodo adequado da metafsica'] 
pronta para a prxima feira da Pscoa" (p.48). Essa  uma das mais antigas referncias ao que viria a ser a Crtica da razo pura.
55.  Stavenhagen, 1949, p.31, observa que Hartknoch tambm publicou autores russos, comentando que "no melhor estilo, Kartknoch entendeu que a sua vocao de editor 
consistia em atuar como intermedirio entre o Ocidente e o Leste intelectualmente emergente."
56.  Carta de Hamann a Herder, 14 de abril de 1785, Immanuel Kant's gesammelte Schrif-ten, vol. IV, p.628.
57.  A sua forma ainda tinha 1.100 exemplares de O conflito das faculdades em estoque em 1832. Esse livro gerou um litgio em conseqncia de partes do mesmo terem 
sido editadas em outro lugar e marcou o incio das disputas em torno dos lucrativos direitos de publicao das obras de Kant, que afetaram tambm a edio de suas 
lies sobre geografia fsica.
58. Jachmann, em Borowski, 1912, p.147.
59.  Ver as observaes de Borowski e Wasianski em Borowski, 1912, p.79 e 277. Para detalhes do inventrio da biblioteca de Kant deixada aps sua morte para o Prof. 
Gensichen, ver War-da, 1922.
Nota da traduo
Alm da consulta  obra de Kant e de vrios pensadores citados, recorremos s seguintes fontes de apoio:
Grosses Philosophisches Wrterbuch, Georgi Schischkoffe Heinrich Schmidt. AlfredKr-ner Verlag, Stuttgart.
Dicionrio de filosofia, Ferrater Mora.
Vocabulaire technique de philosophie, de Andr Lalande.
Masterpieces of World Philosophy, de Frank N. Magill. George Allen & Unwin.
A
absoluto [absolutos, Absolut] ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; COSMOLOGIA; DEUS; LIBERDADE
"Absoluto"  o particpio passado de absolvere, "absolver, inocentar, isentar de dvida". O termo pode ser usado como adjetivo ou como substantivo; em qualquer dos 
casos, qualifica alguma coisa como livre de qualquer relao, condio ou limitao, ou designa aquilo que, portanto,  livre. O uso filosfico do termo  moderno, 
aparecendo pela primeira vez em Espinosa, onde faz eco a discusses polticas em torno da "soberania absoluta" e discusses teolgicas de Deus como absoluto. O uso 
do termo por Espinosa  adjetivai, como em "certeza absoluta", "movimento absoluto","(c) "domnio absoluto da mente sobre os afetos" (ver Deleuze, 1988, p.44). At 
Deus s  adjetivamente qualificado como absoluto, sendo definido na tica I def 6 (1677) como "um ente absolutamente infinito" (Espinosa, 1973, "Os Pensadores", 
Abril Cultural, vol.xvn, p.84. N.T.)
Kant emprega tambm o termo de modo adjetivo e, usualmente, em oposio a "relativo" e "comparativo". O seu mais antigo uso registrado aparece na distino entre 
posio absoluta e relativa em UAP. Na CRP, ele dedica mais de duas pginas ao esclarecimento de "uma expresso sem a qual no podemos passar e a qual, porm, devido 
a uma ambigidade que lhe est associada atravs de um mau uso de longa data, tampouco podemos empregar com segurana". (A 324/B 380). A ambigidade envolve duas 
acepes adjetivais de absoluto. A primeira refere-se  possibilidade interna-"quilo que  possvel em si mesmo", isto , a estrita possibilidade ou "o mnimo que 
pode ser dito de um objeto"; a segunda indica "que algo  vlido em todos os aspectos, sem limitao, por exemplo, o despotismo absoluto, e, neste sentido, o absolutamente 
possvel significaria que possvel em toda e qualquer relao (sob todo e qualquer aspecto) - o que  o mximo que pode ser dito da possibilidade de uma coisa" 
(A 324/B 381). Kant opta pela segunda e mais ampla acepo de absoluto, mas adverte que o termo deve ser usado com circunspeo.
Do comeo ao fim da filosofia crtica, Kant no poupa censuras s pretenses ilegtimas da razo pura a conhecer o absoluto. As idias cosmolgicas podem pretender 
representar a "integridade absoluta" na composio, diviso, origem e dependncia de aparncias (A 415/B 443), mas um minucioso exame crtico mostra-nos que elas 
geram as antinomias. De um modo geral, Kant abstm-se de dar ao absoluto qualquer contedo substantivo; no usa o termo para qualificar a coisa-em-si ou o imperativo 
categrico. Entretanto, refere-se enpassant  "atividade espontnea absoluta (liberdade)" (A 418/B

2            abstrao
446), quando sugere parenteticamente uma identificao substantiva do absoluto com liberdade.
O pensamento sugerido por esse parntese foi retomado por Fichte e Schelling ao desenvolverem filosofias do absoluto substantivo baseadas no "eu" do sujeito cognos-cente 
e atuante, e na "outra coisa" que  a natureza e a histria (ver Fichte, 1794, especialmente Parte I, 1; Schelling, 1856, especialmente "Die Naturphilosophie"). 
A filosofia de Hegel do esprito absoluto, pelo contrrio, rompe com a oposio de absoluto adjetivai e substantivo e repensa o absoluto como processual (Hegel, 
1807, especialmente "Prefcio" e "Introduo"; 1812, especialmente "Efetividade" e "A idia absoluta"). Contudo, esse desvio foi reduzido aos termos do absoluto 
substantivo por crticos seus contemporneos, como Schopenhauer (ver 1813, p.59-62), e nessa forma dominou o idealismo europeu e americano do sculo xix. As tentativas 
de Heidegger para desconstruir a oposio entre absolutos adjetivais e substantivos em suas leituras de Hegel e Schelling na dcada de 1930 (Heidegger, 1930,1936) 
contriburam para uma reavaliao contempornea do absoluto em filosofia, teologia e teoria social (ver Derrida, 1974; Rose, 1981; Milbank, 1990).
abstrao [aphairesis, abstrahere, Abstraktion] ver tambm CONCEITO; EMPRICO; INTUIO; REFLEXO
Kant refere-se em trs ocasies (Dl 6; SD p. 199, p. 117; L p.592-3) a uma "extrema ambigidade" no conceito de abstrao, [ambigidade essa] que " prefervel 
eliminar de antemo, para que no venha a desfigurar a nossa investigao sobre coisas do intelecto" (Dl 6). Ele distingue entre "abstrair alguma coisa de" (abstrahere 
aliquid) e "abstrair de alguma coisa" {abstrahere ab aliqu) (L p.592). Sustenta que "um conceito intelectual abstrai de tudo o que  sensvel, mas no  abstrado 
de coisas que so sensveis, e talvez fosse mais corretamente chamado abstrativo em vez de abstrato" (Dl 6). Um qumico abstrai no primeiro sentido quando isola 
um lquido da matria, ao passo que o filsofo "abstrai daquilo que ele, num certo uso do conceito, no deseja tomar em considerao" (SD, p.199, p.117). Kant ilustra 
a abstrao filosfica com o exemplo da cor: "Com um pano escarlate, por exemplo, se penso unicamente na cor vermelha, ento abstraio do pano" (L p.592); ele no 
abstrai uma qualidade "vermelho" do pano, mas considera-a em abstrao do pano.
Embora a questo da abstrao fosse, no incio, perifrica em relao  filosofia crtica, tornou-se uma questo importante em sua defesa contra objees empiristas. 
Kant usa-a para distinguir a sua explicao da origem de conceitos dos argumentos indutivos como os de Eberhardt (ver SD). Kant distingue entre dois sentidos de 
abstrao: (i) como uma explicao indutiva da gnese de conceitos a partir da experincia; (ii) como uma especificao do uso de conceitos. Ao formular essa distino, 
Kant reconhece sua dvida para com a filosofia medieval: "O abandono dessa distino escolstica falseia com freqncia o juzo a respeito do objeto" (SD p.199, 
p. 117), embora sua fonte prxima parea ter sido o debate entre Locke e Leibniz.
A ambigidade mencionada por Kant aparece pela primeira vez em Aristteles, em seus dois estudos contrastantes da abstrao nos Segundos analticos (Analytica pos-teriora) 
e no Tratado da alma (De anima). Ambos criticam Plato por ter separado as idias da matria, mas com pontos de nfase muito diferentes. O primeiro  uma explica-
abstrao             3
o indutiva da origem das idias na percepo sensorial (Aristteles, 1941,81 b, 1 -9), ao passo que o segundo se apoia no trabalho imaginativo do intelecto ativo 
(43 lb, 13-21) na separao das idias de seu contexto material.
Santo Toms de Aquino, ao comentar essa passagem de Aristteles, antecipa a distino kantiana entre a abstrao de particulares em busca de um gnero (entre gnero 
e espcie) e a abstrao indutiva de um gnero das coisas individuais (Santo Toms, 1951, p.451; ver tambm Santo Toms, 1952, i, 85, 1). Ele assinala, porm, que 
a caracterizao elptica de Aristteles do primeiro sentido de abstrao em termos de "a mente que est a pensar ativamente  os objetos que pensa" (Aristteles, 
1941,431b, 18) gera, em ltima instncia, uma aporia metafsica a respeito do starus dessas abstraes nem ideais nem materiais. Pois as espcies ou qualidades presentes 
na mente e das quais abstrai j so, elas prprias, o produto de uma abstrao primria.
A histria subseqente do conceito de abstrao caracteriza-se por vrias tentativas para esclarecer a ambigidade entre seus sentidos transcendental e indutivo, 
tendo atingido o seu ponto alto nas influentes teses de Francisco Surez em Disputas metafsicas (Disputationes metaphysica) de 1597 (Surez, 1976). Entretanto, 
no sculo XVII, primeiro com Hobbes e depois com Locke, prevaleceu a explicao indutiva da gnese de conceitos. Locke define a abstrao como o processo "pelo qual 
idias tomadas de determinados seres convertem-se em representantes gerais de todas as da mesma espcie" (1690). Leibniz criticou esse ponto de vista nos Novos ensaios 
sobre o entendimento humano, ao defender que o sentido transcendental de abstrao envolve "uma ascenso das espcies aos gneros, em vez dos indivduos para espcies" 
(Leibniz, 1765, p.289).
Kant acompanha Leibniz ao recusar-se a aceitar que a abstrao fornece uma explicao das origens indutivas de conceitos ou intuies. Espao e tempo so certamente 
abstrados da experincia, mas no no sentido de derivarem dela; so considerados, na medida do possvel, em abstrao ou "apartados" da experincia (CRP A 78). 
Da mesma forma, enquanto a lgica formal abstrai de todo o contedo do conhecimento, ela no  abstrada dele (A 13 l/B 170). Kant ilustra esse uso da abstrao 
com o exemplo do conceito de corpo. Qualidades tais como tamanho, cor, dureza e liquidez no so abstradas de corpos, embora o conceito de corpo possa ser considerado 
em abstrao delas (L p.593). No que se refere ao conceito de formao, a abstrao  apenas a "condio negativa", desempenhando a funo reguladora de estabelecer 
os limites de um conceito antes do trabalho das "condies positivas" constituintes da comparao e reflexo (L p.592).
Em GN e A, Kant descreve ainda a abstrao como a negao da ateno, ou separao considerada de uma impresso sensorial de todas as outras, o que ele ilustra com 
o exemplo de "fechar os olhos para os defeitos de outros" (A 3). Esta acepo  crucial na CJ, onde o juzo esttico deve abstrair do conceito e da matria de um 
objeto esttico. Isto no  para sugerir que tais objetos so, ou deviam ser, desprovidos de contedo conceituai ou material, mas que tal contedo deve ser desprezado, 
ou abstrado deles, ao realizar-se um juzo esttico.
As crticas empiristas de Kant recorreram muito a reformulaes de uma anterior explicao indutiva de abstrao, vista como fonte de formao de conceitos. Os sucessores 
imediatos de Kant responderam a essas criticas enfatizando o carter transcendental da abstrao. Isso acarretou a confuso adicional de abstrao e anlise, a qual 
ainda 

4            ao
evidente no comentrio de Paton (1936, p.250). Entretanto, Kant teve o cuidado de distinguir entre abstrao e anlise; a abstrao separa uma nica qualidade de 
um todo heterogneo, ao passo que a anlise distingue entre todas as qualidades presentes. Enquanto a anlise  crucial para a explicao de Kant da formao de 
conceito, a abstrao desempenha um papel secundrio.
No desenvolvimento de Fichte da filosofia crtica durante a dcada de 1790, a abstrao  elevada ao nvel de "um poder absoluto" igual  "prpria razo": "o mesmo 
poder de que Kant fez o objeto de sua investigao na Crtica da razo pura" (Fichte, 1794, p.216).  a abstrao que elimina todos os objetos da conscincia, deixando 
s o Ich [Eu] - o qual determina e  determinado por si mesmo - e o NichtJch [No-Eu]. Aqui, a abstrao torna-se o "ponto firme de distino entre objeto e sujeito" 
e o locus para a derivao dos conceitos da cincia terica e prtica do conhecimento.
Hegel criticou a elevao por Fichte da abstrao ao centro da filosofia por duas razes bsicas. A abstrao  obra da conscincia natural, em oposio ao pensamento 
concreto da conscincia filosfica. Representaes abstratas ordinrias, tais como "homem, casa, animal", "de todas as funes da noo retm somente a de universalidade, 
no levando em conta a particularidade e a individualidade" (Hegel, 1830, p.295; ver tambm p. 180). A explicao de abstrao por Fichte reflete essa represso 
no-filosfica da particularidade e individualidade em favor de universais abstratos. Hegel descreve as conseqncias polticas de tal abstrao no estudo do terror 
revolucionrio na Fenomenologia do esprito, onde a "abstrao suprema" s pode negar o concreto na "fria de destruio" (Hegel, 1807, p.359-62). A abstrao para 
Hegel nada mais  seno o momento negativo de pensar e no pode permitir-se-lhe que domine a formao de conceitos.
A sensibilidade de Kant para a "ambigidade" reconhecida da abstrao foi perdida, em grande parte, por seus sucessores, que usaram o conceito como um meio de combinar 
argumentos indutivos e transcendentais. Uma interessante exceo  Marx, que rigorosamente distingue os dois sentidos de abstrao. Na Contribuio  crtica da 
economia poltica, ele critica a economia poltica por converter abstraes indutivas, como "produo em geral", "populao" e "trabalho" em categorias transcendentais 
e, por conseguinte, trans-histricas. Na esteira de Kant e da tradio escolstica, Marx restringe o uso de abstraes  revelao de diferenas especficas atravs 
da comparao com "qualidades especficas comuns", no seu caso, aquelas entre diferentes formaes sociais e as qualidades especficas que parecem ter em comum (Marx, 
1859, p. 190-1, 206-10).
O papel desempenhado pela abstrao nas explicaes indutivas e psicologsticas da formao de conceitos no final do sculo XIX e comeos do xx redundou em seu descrdito. 
Husserl associa sistematicamente abstrao e induo, e distingue-a da "reduo fenomenolgica" (Husserl, 1913, p.8l, 141-1; 1948, p.345), muito embora a reduo 
se aproxime muito da definio no-indutiva de abstrao de Kant.
ao [ergon/poiesis/praxis, opere/factio/actio, Handlung] ver tambm AUTONOMIA; CAUSALIDADE; EFETIVIDADE; ESPONTANEIDADE; LEGISLAO; LIBERDADE; VONTADE A explicao 
de Kant de Handlung foi herdeira de uma tradio de estudo da teoria da ao que se originou em Aristteles e foi moldada pela introduo de perspectivas morais 
crists. Sua obra foi informada pelos equvocos dessa tradio, especialmente a respei-
ao            5
to da distino entre as vrias espcies de ao, o problema da inteno e a diferena entre ao moral e ao poltica.
Para Aristteles, o termo genrico para ao era ergon (atividade), do qual derivou energeia (Aristteles, 1941,1050a). Quando esta ltima era revelada em "coisas 
feitas" (poieton), o seu modo era potico (poiesis); quando revelada em "aes feitas" (prak-ton), o seu modo era prtico (praxis). Aristteles distingue rigorosamente 
entre poiesis e " praxis: a primeira dirige-se ao mundo de acordo com as regras da arte (techne), enquanto a segunda dirige-se  vida da polis de acordo com a phronesis 
(Aristteles, 1941,1140a; ver Riedel, 1975, p.99-101). A primeira  tcnica, produzindo de acordo com regras; a segunda  deliberativa e discursiva. Alm disso, 
a praxis est direcionada para o bem do indivduo e da polis; h poucos vestgios de Aristteles na distino ulterior entre ao moral e ao poltica.
O acolhimento cristo dispensado a Aristteles no sculo xm elaborou consideravelmente a sua explicao de ao, introduzindo novas distines ao mesmo tempo que 
dilua outras. Praxis ou actio deixa de equilibrar o bem do indivduo e da polis atravs da phronesis; em vez disso, a relao entre bens morais, legais e polticos 
torna-se indefinida e objeto de incmodo debate. Igualmente significativo  o colapso da distino entre poiesis epraxis, evidente na traduo de Santo Toms de 
Aquino epraxis como factio. "Aes realizadas" so cada vez mais pensadas em termos de "coisas feitas" ou do movimento por meio do qual uma coisa  produzida. Nas 
palavras da definio tcnica de Santo Toms, "ao no indica outra coisa seno ordem de origem, na medida em que a ao procede de alguma causa ou princpio para 
o que  uma decorrncia desse princpio" (Santo Toms de Aquino, 1952, i, 41, 1).
A ao  pensada em termos de techne, originando-se numa causa ou princpio, em vez de resultar de um processo de deliberao {phronesis). As conseqncias dessa 
mudana tornam-se evidentes nos problemas que Santo Toms enfrenta com a temporalida-de da ao: em vez de coexistncia de causa, ao e efeito no momento de deliberao, 
a ao deve ocorrer agora na presena da causa mas antes da presena do efeito (Santo Toms, 1952,1,42,2). Isso introduz dois hiatos na descrio da ao (entre 
causa e ao, e entre ao e efeito), o que, por sua vez, sublinha a distino escolstica entre ao interna e externa. A teoria da ao  subseqentemente dominada 
por uma explicao em trs etapas, a qual avana (i) da fonte de um ato na motivao ou inteno de um agente para (ii) sua produo ou manifestao, e termina em 
(iii) seus efeitos ou conseqncias. Esta tradio provou ser dotada de extrema elasticidade. Sobreviveu  ciso por Maquiavel entre motivao poltica e tica, 
a qual meramente inferiu as conseqncias anticrists da separao crist de tica e poltica. Tambm sobreviveu  igualmente ameaadora separao por Lutero entre 
inteno e manifestao, em sua rejeio da justificao por obras, sem falar do seu uso da distino entre motivao e aes externas em apoio da justificao pela 
f. Entretanto, como  evidente na tortuosa dialtica de Liberdade de um cristo (1520), de Lutero, as presses exercidas por (e sobre) esse modelo de ao geraram 
extraordinrias proezas de imaginativa argumentao prtica, no s no nvel ca-sustico da conduta cotidiana (Weber, 1904-5), mas tambm nas esferas mais elevadas 
da filosofia e da teologia.
A teoria kantiana da ao  o mais duradouro monumento ao esforo para manter a sntese crist/aristotlica em face das presses desencadeadas pela modernidade protes-

6            ao
tante. Em conformidade com a eliso recebida de poiesis e praxis, a ao para Kant  fundamental tanto para a razo terica quanto para a razo prtica (0'Neill, 
1989). As aes so produzidas de acordo com regras governadas por leis mais elevadas, de origem indeterminada. O entendimento, na razo terica, atua atravs de 
juzos que aplicam regras cuja necessidade final assenta em insondveis leis superiores. Na razo prtica, as aes so produzidas pela vontade que opera de acordo 
com uma mxima subjetiva, a qual, por sua vez,  policiada por uma lei superior.
O cerne da teoria da ao de Kant ser encontrado no tanto em suas exposies da razo prtica (CRPr, FMC) quanto na "Segunda analogia" da CRP, a qual diz respeito 
"ao nascimento ou morte da substncia" (B 233) ou, como no ttulo da edio de 1781 (CRP A), O "princpio de produo". Kant procura a uma soluo para os hiatos 
temporais que acompanham a diferenciao entre causa, ao e efeito. Sustenta ele, em primeiro lugar, que causa e efeito esto ordenados temporalmente - o efeito 
segue-se  causa - mesmo que no ocorra nenhum lapso de tempo entre ambos (A 203/B 248). Assim, a ordem ou relao define a ao: "Ao significa a relao do sujeito 
da causalidade com o seu efeito" (A 205/B 250). Mas, alm dessa relao que existe entre o sujeito da causalidade e o seu efeito, a ao tambm  descrita como "auto-revelao 
de substncia" atravs de "atividade e fora" {Ttigkeit undKraft) (A 204/B 249). Nessa concepo de ao como "a base inicial para toda a mudana de aparncias" 
(A 295/B 250), a fonte de ao na auto-revelao de substncia no se encontra ordenada de acordo com causa e efeito.
A questo transfere-se, portanto, para o carter da substncia que se revela atravs da ao. A causa da ao no pode estar ela prpria sujeita  ao mas deve, 
de um modo livre e incondicional, inici-la. Est fora da relao de causa, ao e efeito, fora da sucesso e coexistncia de aparncias, atravs das quais se revela. 
Assim, Kant justape duas explicaes de ao: uma relaciona o "sujeito de causalidade com o seu efeito", enquanto a outra, a auto-revelao de substncia, atua 
de forma espontnea a fim de produzir a ordem de causa-ao-efeito. A separao do que pode ser descrito como os aspectos executivo e legislativo da ao humana 
 uma conseqncia de se pensar a ao em termos de produo de efeitos a partir de princpios causais. Contrasta com a inseparabilidade desses aspectos no momento 
aphronesis, a qual combina aspectos legislativos e executivos de ao.
A distino entre ao espontnea, legislativa - autonomia - e ao sujeita  causalidade - heteronomia- ubqua na filosofia prtica de Kant. Neste ponto, a ao 
 vista como determinada, ou diretamente, atravs da inclinao heternoma da vontade [arbtrio/Willkr] para objetos (impulsos sensveis) como articulados em suas 
mximas, ou indiretamente, pela inquirio minuciosa da razo (atravs da vontade, Will) de tais mximas para comprovao de sua conformidade com a forma da lei 
suprema - a aptido da mxima para ser uma lei universal. Porque as mximas que governam a ao humana so passveis de influncia "externa", a inquirio minuciosa 
da razo s pode ser experimentada como uma ordem ou proibio. A vontade "age" legislativamente quando ordena ou probe a escolha de uma determinada mxima, enquanto 
Willkr produz a ao de acordo com mximas que combinam a causalidade da vontade e a causalidade de objetos. Essa teoria da ao de aspecto dual informa a distino 
adicional entre ao legal e ao moral. Na primeira, a prpria ao concorda com a lei, ao passo que na segunda esto em concordncia no s a ao mas tambm a 
mxima do agente.
acidente            7
Com essa explicao, Kant procurou evitar as implicaes tanto das teorias "racic-nalistas" da ao associadas  escola de Chrstian Wolff, quanto as "empiristas" 
de Shaf-tesbury, Hutcheson e Hume. As primeiras consideraram ser motivao suficiente para a ao a percepo de uma perfeio racional, ao passo que as ltimas 
enfatizaram os motivos sensveis para a ao. A teoria de Kant combina ambas as formas de motivao, embora dando-lhes um tom rousseauesco na distino entre a imperscrutvel 
vontade legislativa e os atos de vontades particulares concretas.
A teoria da ao de Kant estabeleceu a agenda para os subseqentes desenvolvimentos nesse ramo da filosofia. Muitos filsofos, como os neokantianos do final do sculo 
XIX e pensadores contemporneos como John Rawls, continuaram a trabalhar segundo um quadro de referncia kantiano. Outros preferiram destacar este ou aquele aspecto 
de sua teoria: Fichte, por exemplo, sublinhou a autonomia absoluta da ao humana, ao passo que a sociologia positivista desenvolvida por Auguste Comte acentuou 
a sua heteronomia ao enfatizar o elemento de "determinao social". Alguns tericos da ao volveram suas atenes para outras obras de Kant em busca de uma teoria 
alternativa de ao, com destaque para dois dos alunos de Heidegger: Hannah Arendt (1958, 1959) e Hans Georg Gadamer (1960), que leram e interpretaram a explicao 
kantiana do senso comum e do juzo reflexivo em CJ como uma reformulao moderna aphronesis clssica.
Outros tericos da ao desafiaram fundamentalmente a concepo kantiana de ao, embora permanecessem devedores de Kant por lhes ter propiciado um ponto de partida 
crtico para a explorao de novos caminhos. O primeiro deles foi Hegel, que contestou as oposies kantianas entre autonomia-heteronomia e moralidade-legalidade 
com uma tentativa fenomenolgica de "pensar o futuro como Sittlichkeit ou "vida tica". Uma noo da fecundidade da obra de Hegel sobre ao e das diversas respostas 
que ela provocou pode ser obtida por uma comparao de autores contemporneos como Derri-da (1974), Rose (1981) e Taylor (1975).
Um outro crtico influente da teoria kantiana da ao foi Nietzsche, que exps o seu carter antropocntrico e sua presuno de que o sujeito atuante deve ser detentor 
de uma identidade "humana" fixa. Essa crtica inspirou as teorias anti-humanistas da ao, as quais separam a teoria da ao dos problemas do sujeito atuante e sua 
motivao. Nessa tradio, a ao no  vista como resultante de um sujeito unificado, nem  motivada por um desejo articulado em mximas e dedicado  produo de 
aes. Filsofos que trabalham dentro dessa tradio extremamente diversa (muitas vezes incorretamente descrita como "ps-estruturalista" ou "ps-moderna"), que 
se apoia em Marx, Freud e Heidegger, incluem Deleuze e Guattari (1972), Levinas (1961) e Lyotard (1983).
acidente [symbebekos, accidens, Akzidens] ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; ESQUEMA(TISMO); ESSNCIA; "EU PENSO"; HIPOTIPOSE; SUJEITO Acidente  classicamente 
definido em oposio a substncia e figura na lgica escolsti-ca tardia e cartesiana como uma das cinco "idias universais", a par de gnero, espcie, diferena 
e propriedade. Desde Aristteles, o termo combinou sentidos lgicos e ontol-gicos: um acidente  aquilo que pode ser predicado de um sujeito e o que no pode existir 
sem um sujeito.  o inverso de substncia ou o que "no  predicvel de um sujeito nem est presente num sujeito" (Aristteles, 1941, 2a, 12). Seguindo Aristteles, 
Santo Toms de Aquino define um acidente como o que tem seu "ser em outro" [esse in alio]

g            acidente
(Santo Toms, 1975,1, 63, 3), acrescentando que "uma substncia no depende de um acidente, embora um acidente dependa de uma substncia" (ibid., i, 23,7). Acidentes 
podem acontecer a uma substncia, embora no sejam necessrios para a sua definio ou existncia. Descartes refina esse ponto, usando o exemplo de um tringulo 
para distinguir entre as cinco "idias universais": uma figura delimitada por trs linhas forma o gnero de tringulo; alguns so diferenados de outros pela posse 
de um ngulo reto, o que os distingue como uma espcie; esses ngulos retos possuem a propriedade de que a soma dos quadrados dos lados  igual ao quadrado da hipotenusa. 
Finalmente, alguns tringulos so movidos e outros permanecem imveis; o movimento, porm,  um acidente de maneira nenhuma essencial para a definio de tringulo 
(Descartes, 1644, p.26; ver tambm Arnauld, 1662, p.58).
Leibniz seguiu em grande parte Descartes, mas esclareceu o carter temporal de substncia e acidente. "Uma entidade ou  em si mesma [per se] ou acidental \per acci-dens]; 
ou, um termo ou  necessrio ou mutvel. Assim, "homem"  uma entidade per se mas "homem erudito" ou "rei" so entidades acidentais. Pois aquilo a que se d o nome 
de "um homem" no pode deixar de ser um homem, exceto por aniquilamento; mas algum pode comear a ser ou deixar de ser um rei, ou um erudito, embora continue a 
ser o mesmo" (Leibniz, 1966, p.47). Substncia  assim redefinida como o que pode perdurar ao longo do tempo, ao passo que acidentes so aquelas qualidades que podem 
mudar com o tempo sem aniquilar a substncia.
A tendncia de Hobbes, Locke e Hume foi para minimizar a distino de substncia e acidente. Observa Locke: "Aqueles que pela primeira vez se depararam com a noo 
de acidentes como uma espcie de seres reais que necessitavam de algo que lhes fosse inerente, viram-se forados a descobrir a palavra substncia para lhes servir 
de sus-tentculo" (Locke, 1690, p.86). Hume  ainda menos benvolo: "o mesmo hbito que nos faz inferir uma conexo entre causa e efeito leva-nos, neste caso, a 
inferir a dependncia de todas as qualidades da substncia desconhecida" (Hume, 1739, p.222). Mas assim como Kant procurou resgatar a categoria de causalidade do 
ceticismo de Hume, tambm defende a categoria relacionai de substncia e acidente, porm em sua forma leibniziana como um modo de temporalidade.
A discusso de Kant de substncia e acidentes apresenta muitas caractersticas interessantes: substantia et accidens compreende a primeira das categorias de relao 
(CRP A 80/B 230) mas  "designado um lugar entre as categorias de relao... mais como uma condio de relaes do que contendo em si uma relao" (A 187/B 230). 
Como observou Mellin, isso faz da categoria "a base de todas as outras" (Mellin, 1797, vol. 1, p.49). Kant observa tambm que a distino de acidentes e substncia 
tem sido, "em todas as pocas", reconhecida "no s por filsofos mas at pela compreenso comum," como "estando na base da experincia", e que "embora seja sentida 
a sua necessidade, ela prpria nunca foi provada" (CRP A 184-5/B 227-8).
Kant no conclui da ausncia de tal prova que deva seguir Hume e desfazer-se de acidentes e substncia, mas que, pelo contrrio, cumpria reconsiderar a prpria forma 
de prova (p 46). O discernimento de Kant quanto  futilidade de buscar a base de uma relao numa outra relao leva-o a desafiar a equivocao entre os aspectos 
lgicos e onto-lgicos de acidentes e substncia. A substncia no pode ser considerada como se fosse o sujeito de um juzo ou proposio, nem os acidentes como 
se fossem simplesmente pre-
acidente            9
dicados.  impossvel atingir o sujeito final - isto , a substncia-por meios discursivos, porquanto o pensamento discursivo tende para um retrocesso infinito no 
qual cada sujeito  revelado como no sendo mais do que o predicado de um outro sujeito. Kant conclui: "No devemos considerar nada que logramos alcanar como o 
ltimo sujeito, e aquela substncia mesma nunca pode ser pensada por nosso entendimento, por mais profunda que seja a penetrao, mesmo que a natureza lhe revelasse 
seus segredos (P 46). Menos que tudo - e  esta a lio dos paralogismos -, podemos seguir os cartesianos e considerar o sujeito pensante, ou o eu do cogito, como 
um sujeito absoluto ou substncia.
Entretanto, h necessidade de uma prova de acidentes/substncia, a qual s pode ser satisfeita por um argumento analgico do princpio de permanncia/alterao. 
Em vez de considerar a substncia como sujeito, como uma "coisa-em-si", da qual os acidentes podem ser predicados,  necessrio provar que o princpio anlogo de 
permanncia e alterao forma uma condio necessria para a experincia. Essa prova  apresentada na primeira analogia de experincia na CRP.
Com o argumento por analogia, Kant preserva a relao tradicional de acidente e substncia, ao mesmo tempo que a traduz para o moderno princpio de permanncia e 
alterao. Na traduo, acidente e substncia so liberados de sua dependncia da predica-o lgica e considerados em termos ontolgicos de existncia e tempo. 
Kant argumenta que a alterao - a coexistncia e sucesso de aparncias - depende da permanncia de um modo anlogo quele como os acidentes dependem da substncia. 
Ou seja, a alterao no pode ser experimentada, medida ou representada sem permanncia.
Kant no est dizendo, como sustentam alguns comentadores analticos, que a prpria permanncia no tempo torna-se substncia; o que ele diz, antes,  que a permanncia 
est para a alterao numa relao anloga  da substncia para os acidentes. E o "correlato permanente" de alterao. Pode ser pensado sem coisas alterveis, mas 
estas no podem ser pensadas sem ele. A relao de permanncia e alterao  anloga  de substncia e acidentes: "A substncia permanece ... s os acidentes mudam" 
(CRP A 184/B 227): "Um acidente [] simplesmente o modo como a existncia de uma substncia  positivamente determinada" (A 187/B 230).  ao que, na Crtica da faculdade 
do juzo (1790), Kant deu o nome de "hipotipose" ou "apresentao indireta" (CJ 59). Ele a cita diretamente Locke e o exemplo de substncia e acidente a fim de 
ilustrar a distino de smbolo e esquema, bem como os usos de raciocnio analgico (59). Neste caso, acidente e substncia oferecem um smbolo de relao, enquanto 
permanncia e alterao fornecem o seu esquema.
Uma vez que o entendimento s pode pensar substncia e acidentes sob a Categoria de relao, trata de separ-los artificialmente, em vez de os considerar inextricvel 
e mutuamente dependentes. De maneira anloga, o entendimento separa permanncia e alterao, preferindo ver a existncia como sofrendo alterao no tempo, em vez 
de discernir a inextricabilidade de permanncia e alterao. Entretanto,  precisamente essa dependncia que constitui o fundamento para a relao lgica e, portanto, 
para toda a sntese categorial, e oferece, "por conseguinte, o critrio de substancialidade das aparncias" (CRPA189/B232).
O uso por Kant de argumentao analgica no foi inteiramente reconhecido por seus sucessores: a maioria dos crticos e comentadores ou aceitou literalmente a sua 
explicao de substncia e acidentes, ou ignorou-a por completo. Em Sobre o conceito da

10            acroamas
doutrina-da-cincia, Fichte critica Kant por no explicar a relao entre substncia e seus acidentes (Fichte, 1794, p.23) e passa a faz-lo, convertendo a substncia 
no sujeito ou "postulando o eu" (Ibid., p. 185). Schopenhauer reivindica uma especiosa legitimao kantiana para a sua identificao de substncia com matria, e 
acidentes com modos de ao ou matria em movimento (Schopenhauer, 1813, p. 119). Nietzsche, no final do sculo XIX, critica Kant por ser conivente na tradicional 
eliso do sujeito lgico com a substncia ontolgica e converter assim aparncias em meras manifestaes de uma substncia incognoscvel (ver Nietzsche, 1901, 484-5). 
Trabalhos recentes levaram a um renovado entendimento de formas analgicas de argumento (ver Derrida, 1987, p. 75-6) e abriram o caminho para uma apreciao mais 
sutil do uso estratgico por Kant de termos clssicos tais como acidente e substncia.
acroamas [acroamatal/acroamtico (alguma coisa ouvida, lio oral) ver tambm CONSTRUO; PRINCPIO
Embora Kant s distinga explicitamente entre acroamas e axiomas em L, a distino est subentendida em toda a sua filosofia terica. Ambos so proposies fundamentais 
(Grundstze), mas os axiomas so expostos em intuio, ao passo que os acroamas so apresentados discursivamente (L p.606). A razo para a distino entre as duas 
espcies de proposio fundamental encontra-se na polmica de Kant contra a extenso  filosofia das formas matemticas de prova postulada por Wolff. Em ICP, Kant 
distingue entre os "princpios no analisveis" da matemtica e da filosofia, considerando os primeiros (axiomas) como figurais, os segundos (acroamas) como discursivos. 
Ao contrrio dos axiomas matemticos, os princpios filosficos "nada mais so do que palavras" (ICP, Parte I, 2).
Em CRP, a distino entre axiomas e princpios discursivos deixa de ser imediatamente lingstica, mas depende da condio da determinao temporal da experincia. 
Os acroamas so os 12 princpios do entendimento puro (axiomas de intuio, antecipaes de percepo, analogias de experincia, postulados de pensamento emprico). 
Esses princpios no so axiomticos mas discursivos; recebem sua autoridade atravs de um processo discursivo de legitimao ou prova. Essa prova  realizada atravs 
da reelabo-rao de termos filosficos tradicionais, tais como, no caso da primeira analogia, os de "substncia e acidente". Os acroamas esto abertos a constante 
desafio discursivo e so legitimados atravs da linguagem e da anlise da linguagem. O insight de Kant sobre o carter lingstico de princpios filosficos perdeu-se, 
em grande parte, antes do sculo xx e do surgimento de interpretaes informadas por filosofias hermenuticas e analticas da linguagem (ver, por exemplo, Bennett, 
1966, 1974; Gadamer, 1960; Heidegger, 1929; Strawson, 1966).
afeco ver AFETO
afeto \pathos, ajfectus, Affekt] ver tambm NIMO (GEMT); APARNCIA; ENTUSIASMO; IMAGINAO; PAIXO; PSICOLOGIA
A confuso criada em torno deste termo  agravada por tradutores de Kant que o interpretaram diversamente como "paixo", "emoo" e "afeco". Acompanhar a traduo 
de Strachey do termo de Freud Affekt como "affect" [afeto] ajuda a esclarecer o uso por Kant, embora o termo seja intrinsecamente ambguo. Sua ambigidade j era 
assinalada
afeto             11
por Santo Agostinho no sculo V. Observou ele em A cidade de Deus (426) que "essas agitaes da alma, a que os gregos chamam pathe [so descritas por] alguns dos 
nossos autores latinos, Ccero, por exemplo ... como distrbios [perturbationes], outros como afeces [affectiones] ou afetos [affectus], ou ainda como paixes 
[passiones]" (Santo Agostinho, 1972, Livro 10, captulo 4). Alm disso, o contraste assinalado por Santo Agostinho entre a noo platnica de que as paixes so 
restringidas pela razo e a doutrina estica de ataraxia (estado em que o indivduo est livre da paixo) ainda subestima os muitos significados conferidos apathos 
na filosofia grega clssica.
Aristteles usa o termo pathos em pelo menos trs sentidos complementares, mas distintos. Primeiro, o termo denota uma qualidade cuja causa no  constitutiva da 
definio do seu sujeito (ver Aristteles, 1941, 9b, 28); assim, mudana em qualidade ou "alterao"  definida na Metafsica como "mudana a respeito de uma afeco 
[pathos]" (Aristteles, 1941, 1069b, 12). Um segundo sentido se destaca na tica a Nicmaco, onde pathe so "os sentimentos acompanhados por prazer e dor" (Aristteles, 
1941, 1105b, 23) e que so distintos de faculdades e virtudes. O terceiro apresenta pathos, em De anima, como um certo "modo ou movimento do corpo" (Aristteles, 
1941,403a).
O estreitamento do significado de pathos de qualidade em geral para a qualidade especfica da alma apontada por Santo Agostinho persistiu at Descartes e Espinosa. 
Descartes distinguiu entre affectio, que para ele  sinnimo do primeiro sentido aristot-lico de pathos como uma qualidade, e affectus, que significa sentimento, 
emoo ou "paixo da alma". Espinosa reelabora essa distino na tica, passando de afeco como qualidade ou modo de substncia (como em Espinosa, 1985, Parte I, 
proposio 4) para afeto como sinnimo de emoo (commotionem, seu affectum, na Parte V, proposio 2). A transio  realizada na crucial Parte III, intitulada 
"Da origem e natureza das afeces", onde Espinosa naturaliza os afetos emocionais convertendo-os em afeces ou qualidades da natureza (ver Wolfson, 1962, vol.2, 
p. 193-5).
A superao racional por Espinosa da distino cartesiana entre afeto e afeco  adotada por Kant, que relaciona os dois termos atravs do poder da imaginao, 
uma soluo que no est, em absoluto, livre de ambigidade. Ele apresenta o afeto como um conceito da psicologia emprica, mas pressupe tratar-se sempre do resultado 
de um ser humano ser afetado por objetos e idias. De um modo anlogo, a discusso epistemol-gica da afeco em CRP parte do princpio de que ela envolve no s 
qualidade em geral, como no primeiro sentido de Aristteles, mas tambm um movimento do Gemt, por outras palavras, um afeto emocional.
Kant discute mais extensamente a psicologia emprica de afeto em A 73-8; CF Parte II, 6; MC XVli; CJ 29. Em cada caso, o afeto est aliado  paixo (Leidenschaff), 
na medida em que ambos "excluem a soberania da razo" (A 73) e "pertencem  sensibilidade (MC p.407, p.208) como "movimentos" do Gemt. Afeto difere de paixo por 
ser irrefletido;  um "inebriante", enquanto a paixo  refletida e sombria, uma "doena" (A 73). O afeto  "cego" em sua escolha de fins ou meios, e  um movimento 
impulsivo que torna impossvel a "livre deliberao" e a "autodeterminao" (CJ 29).
Esta caracterizao do afeto recorda o terceiro sentido aristotlico de pathos como um movimento do corpo, mas Kant amplia-o para incluir tambm o segundo sentido. 
Pois o afeto no  simples movimento como tal, mas um movimento que ultrapassa um obstculo "como gua que rompe uma represa" (A 74). Isso junta-se ao sentimento 
de

12            afeto
prazer e dor, e leva Kant a fazer uma distino crucial entre duas espcies de afeto. Em A, a distino  formulada em termos tomados de Elementa medicina (1780) 
pelo mdico escocs John Brown (1735-88). Os afetos ou so "estnicos" - "excitantes e freqentemente exaustivos"-ou "astnicos"-sedativos e relaxantes. Ambos so 
agradveis na medida em que "libertam de tudo o que refreia a vitalidade" (A 76), mas esse prazer pode adotar diferentes formas. Isso  evidente em CJ, onde Kant 
distingue entre "afetos estrnuos" e "lnguidos"; os primeiros so caracterizados como sublimes e excitam a "conscincia para superar toda e qualquer resistncia", 
ao passo que os segundos so belos conforme neutralizam o sentimento de resistncia (CJ 29).
A condenao do afeto  determinada mais proximamente na discusso de Kant do "entusiasmo" - a "participao afetiva no bem" (CF Parte n, 6). Esse afeto pode ser 
constitutivo, como no caso da revoluo do povo francs; no entanto, no pode ser totalmente apreciado, uma vez que os "afetos como tais merecem censura". No obstante, 
Kant desenvolve uma avaliao positiva de afeto atravs de sua distino entre o belo e o sublime. Se o entusiasmo fosse um belo afeto, ento estaria condenado como 
"uma momentnea apario cintilante que deixa uma pessoa lnguida" (MC p.409, p.209). Se for considerado um afeto sublime, ento torna-se formativo, um movimento 
do Gemt que "deixa para trs uma disposio de nimo [Gemtsstimmung] que, embora seja apenas indireta, exerce uma influncia sobre sua conscincia de sua prpria 
fora e resoluo". O afeto de entusiasmo  importante mas pode correr o risco de sucumbir ao derivar para a bela languidez ou para a paixo fantica.
A caracterizao por Kant do afeto como um movimento da alma (Gemtsbewe-gung) que combina aspectos sensuais e ideais, na medida em que evoca prazer e dor, identifica-o 
como a expresso da faculdade da imaginao (Einbildungskraft). E atravs dessa faculdade que Kant relaciona afeto e afeco, ou o modo ou qualificao da imaginao 
central para CRP.
A discusso de afeco na "Esttica transcendental" e na "Deduo" de CRP tem caractersticas que o prprio Kant descreve como paradoxais. A afeco  o modo como 
uma aparncia afeta o Gemt, uma proposio que s escapa  tautologia se for admitido que as formas de intuio que constituem aparncias so "o modo em que o nimo 
[Gemt],  afetado pela sua prpria atividade... e, assim,  afetado por si mesmo" (CRP B 67). Ao relacionar assim a afeco como uma qualidade aos afetos do Gemt, 
Kant suscita "problemas" e "dificuldades" que ele aborda na segunda deduo, no transcurso do que se tornou conhecido como o problema de "dupla-afeco".
O problema envolve a relao entre a psicologia emprica do afeto e a afeco da percepo, ou como o Gemt pode vir a afetar-se. A auto-afeco parece contraditria, 
uma vez que "teramos ento de estar numa relao passiva [de afeco ativa] para conosco" (CRP B 153). Uma resposta reside na dupla-afeco, em que o eu aperceptivo 
que pensa distingue-se do eu psicolgico que intui. Esta tese assenta numa distino implcita entre a afeco do eu aperceptivo, a qual condiciona as aparncias 
de acordo com a tbua de categorias, e o eu intuitivo, o qual  afetado tanto pelas categorias quanto pelos objetos de percepo. , pois, uma leitura cartesiana 
desse problema que insiste na separao de afeco e afeto.
O texto de Kant, com sua nfase sobre o papel da faculdade da imaginao, parece inclinar-se, porm, para uma fuso no-cartesiana de afeto e afeco. A imaginao
afinidade             13
comporta-se ativae passivamente; ela produz (CRP B 154) as categorias e sensaes que a afetam. Em termos de CJ, a imaginao  formativa, deixando traos de seus 
afetos que, por seu turno, a afetam ou convertem-se em afeces ou modos de aparecer. Essa interpretao aponta para um elo controvertido entre a primeira e a terceira 
crticas, o qual foi explorado na filosofia francesa recente inspirada pela definio psicanaltica de afeto. Informa, por exemplo, a mudana de Lyotard de uma freudiana 
"economia libidinal" "(1974) para um kantismo que sublinha o papel do entusiasmo e do senso comum (1988, 1991).
Depois de Kant, as discusses de afeto e afecco ramificaram-se em psicologia e epistemologia. Os psiclogos, de um modo geral, aceitaram o alinhamento de Kant 
do afeto com a atividade no-consciente, embora os naturalistas do final do sculo xix no aceitassem o seu postulado da alma. Provavelmente o mais influente emprego 
do termo no pensamento do sculo XX tenha sido o de Freud, que lhe atribuiu um lugar importante em sua explicao metapsicolgica da represso. Na epistemologia 
ps-kantiana, o estudo da afeco foi subordinado, em grande parte, aos mais vastos problemas da relao do sujeito cognoscente e do objeto conhecido, e repetiu 
o problema da dupla-afeco com filsofos defendendo um lado contra o outro. Entretanto, o prprio Kant parece ter optado por no resolver o problema e deix-lo, 
antes, em aberto como uma dificuldade inevitvel mas frtil ou "aporia".
afinidade [Affinitt, Verwandschaft] ver tambm APERCEPO; ASSOCIAO; DEDUO; HETEROGENEIDADE; IMAGINAO; SNTESE; UNIDADE Afinidade  um conceito enigmtico 
usado por Kant em vrios contextos a fim de relacionar elementos heterogneos sob muitos aspectos. Em CRP serve para relacionar a sensibilidade com o entendimento 
e o entendimento com a razo.  central para a "primeira deduo", onde forma o "terreno objetivo de toda a associao de aparncias". Dela so derivadas no s 
a "associao de aparncias" como "dados dos sentidos", mas tambm sua "reproduo de acordo com leis" e at a "prpria experincia" (CRP A 123). No "Apndice  
dialtica transcendental", apresenta-se como uma idia ou lei regulativa prescrita pela razo para o entendimento. Neste caso, a afinidade combina as leis de "homogeneidade 
genrica" e "heterogeneidade especfica" ao prescrever a continuidade entre gneros e espcies (CRP A 658-9/B 686-7).
Na "primeira deduo", a afinidade no s relaciona sensibilidade e entendimento mas tambm parece possuir caractersticas objetivas e subjetivas.  o "fundamento 
transcendental de unidade" que garante a validade objetiva de associaes entre fenmenos tais como causa e efeito. Mas enquanto a afinidade assim estabelece "a 
possibilidade da associao de muitos, desde que se situe no objeto (CRP A 113), ela prpria "no se encontra em parte nenhuma, salvo no princpio da unidade de 
apercepo" (A 122), e "s  possvel" por meio da "funo transcendental da imaginao" (A 123). Esta ltima  obra da "imaginao produtiva", garantindo a "necessria 
unidade na sntese do que  mltiplo em aparncia" (A 123). Essa afinidade de unidade do mltiplo criada pela imaginao produtiva  tratada, pois, como se residisse 
no objeto.
O argumento de Kant na "primeira deduo"  esclarecido por alguns comentrios casuais em A (31 c), os quais o mostram trabalhando com dois sentidos de afinidade, 
um genealgico, o outro produtivo. No primeiro, Kant define afinidade como "a unio esta-

14            afirmao
belecida pela derivao do mltiplo a partir da base ou fundamento singular"; no segundo -recorrendo a uma analogia qumica-define-a como uma interao "que liga 
dois elementos especificamente distintos entre si, mas que se afetam intimamente um ao outro, de tal modo que a combinao cria uma terceira entidade que tem propriedades 
que s podem ser produzidas pela unio de dois elementos heterogneos" (3 lc). Numa sugestiva nota de rodap, a extenso da analogia  ampliada da sntese qumica 
para a reproduo sexual, pois a natureza inorgnica e orgnica assim como corpo e alma esto "baseados na separao e unio dos dissemelhantes".
No que se refere  deduo, a afinidade pode ser lida, em termos genealgicos, como o "terreno transcendental" para a associao de aparncias e, em termos produtivos, 
como a obra da imaginao ao criar experincia a partir dos materiais heterogneos de sensibilidade e entendimento. Essa leitura  explicitamente corroborada pelo 
comentrio em A de que "a despeito de sua dissimilaridade, entendimento e sensibilidade formam por si mesmos uma estreita unio para produzir a nossa cognio, como 
se um fosse procriado pelo outro, ou como se ambos tivessem uma origem comum" (31c). Kant admite que a unio de afinidades genealgicas e produtivas  difcil de 
analisar, um ponto que  repetidas vezes mencionado em CRP. Essas admisses foram usadas no sculo XX para apoiar as leituras "antifundacionalistas" de Kant, as 
quais destacam o trabalho em curso da imaginao produtiva, contra as vises estticas que postulam a existncia de "fundamentos transcendentais" que servem como 
fundaes para o conhecimento e a ao (Deleuze e Guattari, 1984; Heidegger, 1929).
afirmao  ver NADA; NEGAO; REALIDADE; SER; TRANSCENDENTAL
agradvel [Angenehm] ver tambm AFETO; BELEZA; COMPLACNCIA; ESTTICA; GOSTO; PRAZER; SENTIMENTO
De um grupo de vocbulos presentes na esttica e filosofia prtica de Kant, "agradvel"  usado para descrever o sentimento de prazer. Apresenta-se como um termo 
numa oposio histrica que Kant repete a fim de definir a sua prpria posio. Associa-o aos escritos da escola britnica do "senso moral", que ele contrasta com 
a escola racional-per-feccionista alem de Christian Wolff e seus seguidores. Em FMC, o sentimento do agradvel "s influencia subjetivamente a vontade por intermdio 
da sensao" (FMC p.413, p.24) e  o oposto da determinao racional pura da vontade proposta pelos wolffianos. Kant situa-se entre os dois argumentos ao desenvolver 
o conceito de um imperativo, o qual tem caractersticas subjetivas e objetivas.
Uma forma anloga de argumentao  adotada em CJ 3-7, onde o contraste entre o agradvel (isto , a teoria britnica do "gosto") e o bom (ou seja, a teoria alem 
de "esttica")  usado para ressaltar a terceira posio do prprio Kant. O agradvel, o bom e o belo so espcies do gnero "prazer"*; cada uma constitui uma "modificao 
do sentimento de prazer e desprazer", assim como uma relao de uma representao com o seu objeto (CJ 3). Mas o prazer no agradvel consiste em que os "sentidos 
encontram prazer na sensao" (3) ou no sentimento de prazer evocado pela presena de um objeto de sensao. Inversamente, o bom envolve a presena de um conceito 
de entendimento. A noo de Kant da natureza do prazer no belo  definida negativamente contra essa oposi-
amizade             15
o, como no sendo sensvel nem racional, nem exigindo a presena de objeto ou conceito.
Para explorar a fundo o contraste entre agradvel e bom, Kant exagera as caractersticas infelizes do primeiro. Torna desnecessrio ou suprfluo um juzo e gratifica 
o desejo; e, como mero prazer, oferece um deleite "patologicamente condicionado (por estmulos)" (5). Pior ainda,  um fator significativo "at com animais irracionais", 
um * "sentimento privado" essencialmente associai. Essa forma de argumentao foi usada como exemplo dos efeitos deletrios sobre a anlise filosfica do pensamento 
expresso em funo de dicotomias. De fato, alguns autores vem o procedimento de Kant como partcipe numa srie de formulaes dicotmicas herdadas que caracterizam 
a filosofia ocidental, dicotomias que, entre outras coisas, privilegiam a razo em detrimento do corpo, o masculino sobre o feminino, o europeu sobre o no-europeu 
(ver Irigaray, 1974 e 1984). Contudo, o procedimento de Kant pode ser defendido como a descoberta de formulaes filosficas alternativas atravs da repetio de 
oposies culturalmente recebidas (ver Caygill, 1989).
ajuizamento [Beurteilung] ver tambm CNONE; JUZO; JUZO REFLEXIVO; SUBSUNO; VERDADE
Ajuizamento e subsuno so os dois modos de juzo reconhecidos por, Kant: o primeiro distingue "se uma coisa est ou no submetida a uma determinada regra," enquanto 
o segundo  "a faculdade de submeter a regras" (CRP A 132/B 171). O ajuizamento diz respeito ao uso cannico do juzo para distinguir entre verdadeiros e falsos 
juzos, ao passo que subsuno formula o juzo e  parte do seu organon. Kant estuda o uso estimativo do juzo no contexto de juzos tericos, prticos, estticos 
e teleolgicos, referindo-se ocasionalmente  "faculdade" ou "poder" de ajuizamento {Beurteilung) (um vocbulo sistematicamente mal traduzido como faculdade ou poder 
de julgar). Em FMC, Kant refere-se a um "princpio" que, embora no conhecido "abstratamente em sua forma universal", serve como "padro" ou "bssola" para distinguir 
entre boas e ms aes (p.404, p. 16) e que ainda no  to eficaz no caso de juzos tericos. Os juzos estimativos no requerem o conhecimento de uma regra, mas 
simplesmente a capacidade de discriminar; isso torna-a especialmente significativa para os juzos reflexivos estticos e teleolgicos, os quais so definidos pela 
ausncia de uma regra definida. Assim, a maioria dos juzos examinados em CJ so estimativos; os juzos estticos de 9, para dar um nico exemplo, so ajuizamentos 
de objetos de acordo com o livre jogo de imaginao e entendimento, ao passo que os juzos teleolgicos so ajuizamentos da natureza segundo a "analogia com a causalidade 
por fins" (CJ Parte li, Introduo).
O significado da distino de Kant entre ajuizamento e subsuno s recentemente comeou a ser apreciado em toda a sua plenitude. Isso , em grande parte, o resultado 
da nfase recente, na filosofia cultural e poltica, sobre diferena e juzo diferencial. As interpretaes do juzo reflexivo de Kant por Arendt (1989) e Lyotard 
(1983), por exemplo, exploram o juzo discriminativo para a ao poltica e para a prtica da crtica de arte e da crtica literria.
alma  ver NIMO (GEMT); EU; "EU PENSO"; IDENTIDADE; PARALOGISMOS; PSICOLOGIA
amizade [philia, amicitia, Freundschaft] ver tambm AFETO; AMOR; SOCIABILIDADE

16            amor
A amizade era central para a filosofia terica e prtica grega e romana, onde o seu significado ia do contraste metafsico de Empdocles entre amizade e conflito 
at ao elogio da amizade por Aristteles na tica a Nicmaco e a concepo estica romana de amizade para a raa humana. Na filosofia crist est em plano secundrio 
em relao s reflexes sobre o amor, mas volta a assumir, com Kant, um importante lugar na tica.
Kant considera a amizade um ideal definido como "a unio de duas pessoas atravs de igual amor e respeito mtuo" (MC p.469, p.261). A amizade consiste em realizar 
um equilbrio entre a atrao de amor e a repulso do respeito. Por essa razo, Kant considera extremamente difcil atingi-la e sustent-la. Estabelece uma distino 
entre amizade moral e esttica/amizade pragmtica: a primeira enfatiza o elemento de respeito e  definida como "a completa confiana de duas pessoas em revelarem 
mutuamente seus juzos e sentimentos mais secretos, na medida em que tais revelaes so compatveis com o respeito mtuo" (p.471, p.263), ao passo que a segunda 
reala o amor e baseia-se em sentimentos de benevolncia.
amor [eros/agape, amor, Liebe] ver tambm CASAMENTO; ESPERANA; F; RESPEITO;
SEXO
Como a terceira e maior das "virtudes teologais" medievais (ver Santo Toms de Aquino, 1952, II, i, 62), o conceito de amor teve uma longa e complexa histria que 
combinou elementos do eros filosfico grego, ou o desejo do outro baseado na carncia, com o agape cristo ou amor do prximo e at do inimigo (ver Nygren, 1982). 
Embora Kant no estivesse diretamente interessado no conceito de amor, e s tangencialmente o discutisse, o quadro de referncia de sua anlise combina, no obstante, 
aspectos erticos e agpicos.
Quando examina o amor como sentimento, seu discurso reflete usualmente uma tendncia ertica e trata das formas de disciplinar o instinto sexual. Em CHH, o adiamento 
de relaes sexuais  uma das quatro iniciativas por meio das quais a "razo" distinguiu os seres humanos dos animais: "A recusa foi o expediente pelo qual estmulos 
puramente sensuais foram investidos de uma qualidade ideal e que assinalou gradualmente o caminho do desejo puramente animal para o amor" (CHH p. 113, p.224). A 
caracterstica fundamental nessa transio consiste em impregnar o desejo sensual com as qualidades racionais de respeito. Essa combinao de amor e respeito informa 
tambm a descrio mais agpica de amor ao prximo em MC, onde o amor "atrai" seres humanos uns para os outros e o respeito os distancia: a realizao do dever de 
amor faz com que o outro se sinta "devedor de gratido" para comigo, enquanto o respeito coloca-me na obrigao de "me manter dentro dos meus prprios limites, de 
modo a no subtrair nada do valor que o outro, como ser humano,  autorizado a atribuir-lhes" (MC p.450, p.244).
A discusso do amor por Kant  caracteristicamente protestante em sua nfase sobre a inteno e a colocao da ao em segundo plano - os trs "deveres do amor" 
(benevolncia, gratido e simpatia) so, pois, estados de esprito e no aes concretas. Essa nfase tambm informa o seu comentrio sobre os dois mandamentos de 
Jesus para "amar a Deus" e "amar ao prximo como a ti mesmo" (Mateus 22: 37-39). O primeiro amor  traduzido em termos de motivao de uma ao: "No cumpras o teu 
dever por qualquer outro motivo seno o incondicional apreo pelo prprio dever, que  amar a Deus." O mesmo vale para o segundo: "Promove o bem-estar [do teu prximo] 
usando a tua boa vontade, que  imediata e no derivada de motivos egostas" (RL p. 160-1, p. 148).
anlise            17
Como acontece com tantos conceitos de Kant, os seus comentrios sobre o amor estimularam considervel soma de reflexes, muitas delas em oposio s suas idias. 
A gerao ps-kantiana imediata de filsofos alemes esteve profundamente interessada na filosofia do amor. Hegel, em seus Escritos teolgicos, esforou-se por unificar 
amor e respeito na noo de "reconhecimento mtuo". Novalis e Hlderlin tentaram fundir amor ertico e agpico, enquanto Friedrich Schlegel explorou aspectos do 
amor ertico ' em seu romance Lucinda. No obstante, nessas e em outras filosofias subseqentes de amor, a influncia de Kant foi mnima e indireta.
anlise [analusis] ver tambm ANALTICA; MATEMTICA; MTODO; SNTESE Kant combina dois sentidos de anlise em sua obra, um derivado da geometria grega, o outro da 
fsica e qumica modernas. Ambos permanecem prximos do sentido grego original de "soltar", "desatar" ou "liberar", mas cada um envereda por caminhos diferentes. 
O primeiro procede "lematicamente" [isto , de acordo com um lema, Lehnstze]: parte-se do pressuposto de que uma proposio  verdadeira e procura-se uma outra 
verdade conhecida, da qual essa proposio possa ser deduzida. O segundo procede decompondo totalidades complexas em seus elementos.
Digenes Larcio menciona que Plato foi "o primeiro a explicar a Leodmos de Tasos o mtodo de solucionar problemas por anlise" (1925, vol.i, p.299). Que isso 
no se refere ao mtodo platnico geral de diviso  sublinhado por Proclo em seu Comentrio sobre o primeiro livro dos elementos de Euclides, no qual  anlise 
 apresentada como um mtodo de investigao por meio de lemas (Proclo, 1970, p. 165). Esse mtodo de anlise geomtrica  apresentado com extrema clareza por Arnauld 
em A arte de pensar: os gemerras, quando se defrontam com um problema a solucionar, concedem a verdade da proposio e examinam as conseqncias desse pressuposto. 
Concluem que o que foi pressuposto  de fato verdadeiro se, no decorrer de seu exame, chegam a alguma verdade clara, da qual o pressuposto pode ser inferido como 
conseqncia necessria (Arnauld, 1662, p.308). A seguir  descoberta da "verdade clara", a prova da proposio pode ser ento sinteticamente reconstruda.
O mtodo de anlise geomtrica especfico atribudo a Plato teve um paralelo na explicao de natureza mais geral proveniente da fsica aristotlica. Em Da gerao 
e da decomposio, Aristteles descreve uma "anlise" (a qual atribui tambm a Plato) que se desenrola de complexos para os seus elementos: "ele transporta sua 
anlise dos 'elementos' - ainda que sejam slidos - de volta aos 'planos'" (Aristteles, 1941, 329a, 24). A tradio aristotlica enfatizou esse modo de anlise, 
usando-o para justificar a passagem da fsica para a metafsica. Santo Toms de Aquino, por exemplo, descreveu "o fim ltimo da anlise" como a "aquisio das mais 
elevadas e mais simples causas, as quais so as substncias separadas" ou, por outras palavras, "a observao atenta [consi-deratio] do ser e as propriedades do 
ser como ser" (Santo Toms de Aquino, 1986, p.72). Tambm neste caso a anlise  contrastada com a sntese, procedendo a anlise dos "efeitos para as causas", a 
sntese das "causas para os efeitos".
Descartes parece sugerir uma combinao dos sentidos geomtrico e redutor de anlise na "Resposta  segunda objeo". Escreve ele: "A anlise mostra o verdadeiro 
caminho, pelo qual uma coisa foi metodicamente descoberta [anlise geomtrica] e derivada, como se fosse o efeito da causa [anlise fsica]" (Descartes, 1968, vol.Il, 
p.48). Ele

1 g            anlise
tambm sugeriu que os antigos ocultaram seu mtodo de anlise por detrs de sua apresentao sinttica em termos de axiomas, postulados e definies. Diferentemente 
de Santo Toms de Aquino e da herana escolstica, Descartes no viu nenhuma transio fcil entre a anlise da fsica e a metafsica. As "noes primrias" desta 
ltima so "desmentidas" pelos sentidos e, portanto, s podem ser analisadas e no receber uma apresentao sinttica. Descartes comenta: "Por isso  que a minha 
obra adotou a forma de Meditaes em vez de Disputas Filosficas ou dos teoremas e problemas de um geme-tra", embora tenha-se provado que ele foi incoerente sobre 
esse ponto.
Depois de Descartes, a combinao de anlise geomtrica e fsica foi aceita como axiomtica, embora ocorressem novos desenvolvimentos. Espinosa, numa carta para 
Heinrich Oldenburg, menciona a anlise qumica do salitre [nitrato de potssio] por Boy-le, um experimento destinado no s a abalar as doutrinas escolsticas da 
substncia, mas tambm a introduzir a metfora da anlise qumica na filosofia. Newton e Leibniz tambm ampliaram o significado de anlise de modo a incluir nela 
o desenvolvimento do clculo infinitesimal. Nos Princpios matemticos da filosofia natural, Newton escondeu seu "mtodo [analtico] das fluxes" sob uma apresentao 
geomtrica, sinttica, ao passo que Leibniz tentou abertamente ampliar a "anlise" de modo a incluir a analysis si-tus, precursora da topologia (1976, p.254-9).
Embora todas essas mudanas no significado de anlise interfiram no uso do termo por Kant, este foi principalmente governado por uma eliso no s de anlise geomtrica 
e fsica, mas tambm dos mtodos de descoberta e apresentao. Em ICP, Kant distingue entre matemtica e filosofia em funo de seus mtodos de obteno de certezas; 
a matemtica emprega um mtodo sinttico, a filosofia um mtodo analtico (ICP p.276, p.248). A filosofia analisa conceitos "confusos ou insuficientemente determinados," 
e dedica-se, atravs dos dois estgios, primeiro, a esclarecer suas qualidades e, depois, a determinar a relao recproca dessas qualidades.
Nesta altura, Kant restringe a filosofia  anlise, criticando o uso por Wolff da forma geomtrica de apresentao sinttica. Embora abstendo-se de apresentao 
geomtrica, a anlise filosfica como mtodo de descoberta adota os procedimentos lemticos de anlise geomtrica. Kant ilustra o mtodo de anlise com o exemplo 
do tempo: "A idia de tempo tem de ser examinada em todas as espcies de relao se quisermos que seus traos caractersticos sejam descobertos por meio de anlise 
(clarificao): diferentes traos caractersticos que foram abstrados tm de ser combinados entre si para ver se, juntos, produzem um adequado conceito [determinao]" 
(ICP p.277, p.249). Ao elaborar exemplos, qualidades e combinaes hipotticos, Kant procura - como os geme-tras - descobrir os elementos essenciais. Usar qualquer 
outro procedimento  confiar no "afortunado acidente" de que as qualidades e determinaes dadas provem ser as certas.
Kant elucida a distino entre anlise geomtrica e fsica na Dl, alinhando a anlise filosfica com a redutiva. A anlise filosfica no procede somente dos efeitos 
para as causas mas, no seu lugar, explora as partes possveis de um dado conceito atravs de hipteses: "a anlise, tomada em seu primeiro sentido,  uma regresso 
daquilo que  fundamentado no fundamento, enquanto, em seu segundo sentido, ela  a regresso de um todo para as suas partes possveis ou mediatas" (pi 1). A anlise 
filosfica no parte para a busca de uma hierarquia de causas ou princpios mas procura, atravs de experimentos e hipteses, determinar qualidades elementares e 
suas possveis combinaes.
analtica             19
A CRP est profundamente imbuda de uma forma geomtrica de anlise, embora a sua presena tenha sido obscurecida pela distino de Kant em P entre formas sintticas 
e analticas de apresentao. Descreve a a CRP como "executada no estilo sinttico" e os p como "esboados segundo um mtodo analtico". Com efeito, os dois modos 
de apresentao caminham em direes diferentes: um avana dos "princpios para os conseqentes, ou do simples para o composto", ao passo que o outro "inicia com 
o condicionado e com o que est fundamentado e prossegue at aos princpios" (L p.639). A anlise como "o mtodo de descoberta" adota um procedimento diferente: 
assim como os gemetras gregos descobriram suas provas por meio de anlise mas apresentaram-nas sintetica-mente (SD p. 191, p. 111), tambm Kant faz suas descobertas 
atravs da anlise mas apresenta-as em forma sinttica.
Por conseguinte, a anlise  apresentada na CRP como um procedimento lemtico, pressupondo as formas de juzo e s ento determinando os elementos e combinaes 
que as tornam possveis. Assim, na "Introduo", a anlise  distinguida da "doutrina" (a qual seria uma forma de apresentao) e descrita como uma "crtica transcendental", 
uma "pedra de toque do valor, ou ausncia de valor, de todo o conhecimento aprior" (CRP A 12/B 26). A anlise procede formulando hipteses de qualidades e combinaes 
possveis para ver como se correspondem mutuamente.
Esse procedimento analtico  ilustrado pela deduo "B", a qual comea com a descoberta de que a "combinao" ou a qualidade de combinar conceito e intuio  fun-dafnental. 
Depois, Kant analisa a combinao e descobre nela 6 "ato de um sujeito" e uma unidade extracategorial. Aps a descoberta dessas qualidades, torna-se necessrio supor 
determinaes, ou relaes entre elas, para o que Kant segue a "pista" da tbua de juzos. Acrescenta um caracterstico toque adicional ao sustentar que se a anlise 
se analisasse a si mesma, descobrir-se-ia constituda por combinao, "uma vez que s tendo sido combinada pelo entendimento pode qualquer coisa que leva em conta 
a anlise ser dada  faculdade de representao" (CRP B 130).
O termo anlise tem sido amplamente empregado no sculo XX e, com freqncia, foi ilegitimamente remetido de volta a Kant. A maior parte do uso contemporneo, citando 
Wittgenstein, "oscila entre cincia natural e gramtica" (Wittgenstein, 1953, 392) e esquece quase sempre o mtodo geomtrico de anlise empregado por Kant. Freud, 
por exemplo, embora relacionando analogicamente o seu uso de "anlise" com a qumica, est como Kant em busca de "qualidades" clarificadas e suas "relaes determinadas": 
"Sublinhamos para o paciente esses motivos pulsionais, que esto presentes em seus sintomas e dos quais ele no tinha at ento conscincia - tal como um qumico 
isola a substncia fundamental, o 'elemento' qumico retirado do sal em que estivera combinado com outros elementos" (Laplanche e Pontalis, 1973, p.368). O influente 
programa de Wittgenstein de "investigao gramatical" analisa formas de expresso atravs de um processo "como o de desmanchar uma coisa" (Wittgenstein, 1953, 90), 
se bem que, diversamente de Kant e Freud, ele no esteja em busca de "qualidades" ou "sais" analgicos mas contenta-se em afirmar determinadas relaes. A anlise 
matemtica, entretanto (isto , o estudo das propriedades de funes contnuas), tem pouco a ver com Kant e traa a sua genealogia a partir da geometria de Descartes 
e do desenvolvimento do clculo infinitesimal.
analtica ver tambm ANLISE; DIALTICA; ONTOLOGIA; PRINCPIO; RAZO

20            analtica
A obra de Aristteles sobre o raciocnio demonstrativo ficou conhecida como Primeiros analticos, dedicados  anlise do silogismo, e Segundos analticos, onde se 
analisam as condies do conhecimento demonstrativo. Aos dois tratados em conjunto d-se o nome latino de Analtica e formam, a par de Categorias, Da interpretao, 
Tpicos e Refuta-es sofisticas, a influente coleo de tratados lgicos que ficaria tradicionalmente conhecida como o Organon ["instrumento"]. Eles foram objeto 
de intenso comentrio por Bocio no sculo VI da nossa era e foram redescobertos na Europa setentrional durante o sculo xiil. Sua influncia foi desafiada primeiro 
pelos humanistas da Renascena, depois por Ramus, no sculo XVI. Pretendeu Ramus quebrar a hegemonia do Organon e, para tanto, reorganizou a lgica na base da distino 
retrica entre a "inveno" [inven-tio] de argumentos e sua "disposio" [dispositio].
A distino de Ramus foi mantida at mesmo durante o reflorescimento aristotli-co alemo dos sculos xvn e xvm. A "inveno" foi reformulada em termos aristotli-cos 
como a "analtica", e a "disposio" como a "dialtica";  primeira atribua-se a tarefa de "descobrir" os elementos bsicos de um juzo, enquanto apresenta o seu 
uso em silogismos persuasivos mas no necessariamente vlidos. A extenso da eliso de Ramus e Aristteles  evidente na atribuio por Kant ao prprio Aristteles 
(L p.534) da distino entre a analtica e a dialtica. Kant passou a adotar esse quadro de referncia como a estrutura bsica para o contedo das trs crticas. 
A tarefa dos analticos crticos  "descobrir atravs da anlise todas as aes da razo que executamos em pensamento" (L p.531). Eles revelam na primeira crtica 
os "conceitos e princpios" da razo terica, na segunda crtica os princpios da "razo prtica pura" e, na terceira, os princpios das faculdades esttica e teleolgica 
do juzo.
A "Analtica transcendental" da CRP forma a primeira diviso da "Lgica transcendental". Decompe o "entendimento e a razo em seus elementos" e constitui um "cnone 
de juzo" ou a "pedra de toque negativa da verdade" (CRP A 60/B 85). Precede  segunda diviso da "Lgica transcendental" ou "Dialtica transcendental", que  uma 
"lgica de iluso" ou escrutnio da ilegtima ampliao do juzo para alm de seus objetos legtimos. A analtica  descrita como a "parte da lgica transcendental 
que trata dos elementos do conhecimento puro produzidos pelo entendimento, e dos princpios sem os quais nenhum objeto pode ser pensado (A 62/B 87), e est dividida, 
portanto, numa "analtica de conceitos" e numa "analtica de princpios". A primeira descobre, por meio de uma deduo, os conceitos que compem a totalidade do 
entendimento puro, ao passo que a segunda apresenta as condies ou "princpios" sob os quais os conceitos podem ser legitimamente relacionados com a "sensibilidade 
em geral". Como apresentao das "regras para a exposio de aparncias", a analtica transcendental toma o lugar de uma "ontologia que presumidamente pretende fornecer, 
em forma doutrinai sistemtica, o conhecimento sinttico apriori das coisas em geral" (A 247/B 303).
A "Analtica da razo prtica pura" em CRPr tambm oferece uma "analtica" ou "regra de verdade" para juzos prticos mas, neste caso, o quadro de referncia lgico 
no se ajusta ao contedo da filosofia moral. De maneira anloga, a "analtica" do juzo esttico e teleolgico em CJ contm material que excede, de forma patente, 
o quadro de referncia da analtica e da dialtica. Os insights da modernidade filosfica de Kant, por outras palavras, no podiam mais continuar a ser contidos 
no quadro de referncia tradicional de apresentao. Seus sucessores foram uniformemente crticos do seu uso desse quadro de referncia
analogia            21
e rejeitaram-no; no seu lugar desenvolveram a diversidade de apresentaes caracterstica da filosofia ps-kantiana. Com efeito, a forma historicamente especfica 
de apresentao em termos de analtica e dialtica morreu com Kant e sobrevive num limbo filolgico como algo que s tem de ser dominado a fim de que se entenda 
as trs crticas.
analtica transcendental ver ANALTICA; CATEGORIAS; CONCEITOS; JUZO; LGICA; ONTOLOGIA; PRINCPIO, VERDADE
analogia [analogon, proportio, ratio] ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; APRESENTAO, COMO-SE; ESQUEMA(TISMO); HIPOTIPOSE; PRINCPIOS E IDIAS REGULATIVOS; RAZO
Termo fundamental da filosofia, "analogia" tem uma histria contnua, ainda que subestimada, desde Pitgoras. Uma teoria geral da analogia foi desenvolvida primeiro 
por Eudoxo de Cnido (?406-?355 a.C.) em resposta  crise de propores (logoii) incomensu-rveis encontrada pelos pitagricos. A superao dessa crise precoce da 
razo (Jogos) grega est codificada nas definies de logos e anlogos no Livro V dos Elementos de Euclides. Elas situam a analogia em termos da similaridade entre 
as propores de diferentes grandezas, como na Definio 6: "Chamemos analgicas s grandezas que tm as mesmas propores" (Euclides, vol.li, p. 114). Euclides 
estabelece uma clara distino entre uma analogia de termos e uma de propores, concentrando a sua ateno nas ltimas. Por conseqncia, a sua descrio de analogia 
sublinha a similaridade na relao entre os termos antecedentes e conseqentes de, pelo menos, trs propores, e n qualquer similaridade entre os prprios termos.
Aristteles foi quem primeiro se deu conta das implicaes filosficas da similaridade analgica e mostra nos Tpicos como ela poderia ser usada para relacionar 
"coisas pertencentes a diferentes gneros, sendo a frmula 'A:B = C:D' (por exemplo, assim como o conhecimento est para o objeto de conhecimento, a sensao est 
relacionada com o objeto de sensao)" (Aristteles, 1941, 108a, 7-8). Trata, ento, de ampliar essa forma de raciocnio  metafsica (1017a), tica (1096b) e poltica 
(1296b).
As origens da analogia como um suplemento da razo tambm caracterizaram o seu subseqente desenvolvimento. Ela foi crucial, por exemplo, para a teologia filosfica 
de Santo Toms de Aquino, onde redime a incapacidade da razo humana para entender Deus. Embora a participao de Deus na criao no possa ser apreendida pelo logos 
humano, ela talvez possa ser entendida analogicamente em termos da relao entre conhecimento e ao humanos e divinos. Os escritos de Kant sobre o assunto da analogia 
envolvem, quase todos, semelhantes questes teolgicas e podem ser considerados como determinaes filosficas das formas de raciocnio apropriadas para pensar acerca 
do supersensvel.
Embora Kant no negue o valor do raciocnio analgico, est preocupado em confinar o seu uso dentro de limites corretamente definidos. A semelhana analgica  um 
importante complemento da identidade lgica, mas no deve ser sub-repticiamente empregada como seu substituto. Em P (57-8) e CJ (59) ele contrasta o juzo simblico/ 
analgico com o esquemtico/lgico. Os juzos lgicos envolvem a apresentao direta de um conceito a um objeto de intuio, ao passo que os juzos analgicos aplicam 
"a mera regra de reflexo sobre essa intuio a um outro objeto inteiramente diferente" (CJ

22            analogias da experincia
59). Essa  uma restrio clssica do mbito da analogia  relao entre termos e no aos prprios termos: para Kant, cognio por analogia "no significa (como 
 comumen-te entendido) uma similaridade imperfeita de duas coisas, mas uma perfeita similaridade de relaes entre duas coisas muito dissemelhantes" (P 58).
A analogia pode ser usada de forma legtima para adquirir um "conhecimento relacionai" mas no um conhecimento objetivo, e o principal objeto de tal conhecimento 
relacionai  Deus. S  legtimo raciocinar analogicamente sobre Deus - do mesmo modo "como se relaciona a promoo da felicidade das crianas (= a) com o amor dos 
pais (= b), como a prosperidade do gnero humano (= c) com o desconhecido em Deus (= x), o que denominamos amor - se admitirmos que este argumento permanece apenas 
"para ns, embora tenhamos deixado de lado tudo o que poderia determin-lo completamente e em si mesmo" (P 58). Em tal argumentao falamos do prprio objeto, mas 
somente de um modo em que ele possa tornar-se-nos compreensvel.
Kant desenvolve esse pensamento em RL eliminando a distino entre procedimentos de juzo simblico e esquemtico e considerando as determinaes objetivas e analgicas 
como formas de esquematismo. Embora seja permitido na passagem do sensvel para o supra-sensvel "esquematizar (isto , tornar um conceito inteligvel pela ajuda 
de uma analogia com algo sensvel), no nos  permitido, em nenhum caso, inferir" (RL p.65, p.59). No podemos inferir da analogia que nos torna inteligvel um conceito 
tal como o de Deus a concluso de que "esse esquema deve necessariamente pertencer ao objeto como seu predicado" (RL p.65, p.59).  legtimo empregar a analogia 
para falar do supra-sensvel, mas no us-la como se ela nos fornecesse um conhecimento objetivo; o seu uso  permitido como uma ajuda  autocompreenso humana, 
mas no como fonte de conhecimento objetivo de objetos tais como Deus, o Mundo e a Alma.
Kant tambm examina a analogia em L, distinguindo entre concluses indutivas e analgicas para juzos, embora neste ponto as suas consideraes sejam largamente 
derivativas de Baumgarten. Depois de Kant, a argumentao analgica parece ter sido confinada  teologia, com uma conseqente perda de sensibilidade, por parte da 
exegese kantiana, para o papel do argumento por analogia na filosofia crtica. H sinais, porm, de uma renovada sensibilidade para a questo nos escritos e nos 
comentrios sobre Kant de Derrida (1978) e Lyotard (1983). Dir-se-ia que uma apreciao maior do papel da argumentao analgica em Kant no s elucidaria alguns 
dos problemas da exegese de Kant-em particular o "objeto transcendental = x"-mas tambm aprofundaria o nosso entendimento da estrutura do "argumento kantiano".
analogias da experincia ver tambm ACIDENTE; ANALOGIA; APARNCIA; CATEGORIA; CAUSALIDADE; PRINCPIO; RELAO; TEMPO
As analogias da experincia so o grupo de trs princpios que servem como regras para o emprego objetivo das categorias de relao. Cada grupo de categorias tem 
seu correspondente grupo de princpios: os de quantidade, os "axiomas de intuio"; os de qualidade, as "antecipaes de percepo"; e os de modalidade, os "postulados 
de pensamento emprico". A funo geral dos princpios  determinar como as coisas devem parecer a seres finitos no tempo. No caso das analogias, eles devem determinar 
como as coisas parecem estar relacionadas no tempo. A nossa experincia dos modos como as coisas esto relacionadas entre si no  diretamente categorial - no vivenciamos 
as relaes entre
analogias da experincia            23
coisas diretamente em termos das categorias de substncia e acidente, causalidade e dependncia, e comunidade -, mas tampouco conhecemos suas relaes como se fossem 
simples e aleatrias coincidncias. As aparncias no tempo esto relacionadas em termos das trs analogias que contam com a intuio e com as categorias: elas "precedem" 
a cognio emprica de relao e constituem uma "regra para o emprego objetivo" das categorias relacionais.
O principal exame dedicado por Kant s analogias encontra-se em CRP (A 176-218/B 218-65), complementado por seus pensamentos adicionais em p. Esses e os outros princpios 
foram o fruto do trabalho da "dcada silenciosa" de 1770, durante a qual Kant procurou reformar a herana escolstica transformando as categorias da ontologia recebidas 
atravs da tradio wolffiana nas da analtica transcendental. Em lugar de tais relaes ontolgicas eternamente vlidas como substncia e acidente, causa e efeito, 
e comunidade, ele props princpios de relao temporariamente especficos. Eles assumem a forma de analogias temporais para os predicados ontolgicos, analogias 
que so apropriadas  experincia de um ser finito que s pode conhecer aparncias no espao e no tempo.
O princpio geral que informa as analogias sustenta que a experincia s  possvel "atravs da representao de uma necessria conexo de percepes" (CRP B 218). 
Isso requer que possa ser mostrado estarem as percepes de objetos no tempo necessariamente relacionadas entre si e, por certo, que essas relaes so "anteriores 
a toda a experincia e a tornam efetivamente possvel" (A 177/B 219). Para Consegui-lo,  preciso mostrar que as relaes entre aparncias so governadas pelos trs 
"modos" de tempo- durao, sucesso e coexistncia. Cada modo de tempo gera uma certa regra para relacionar aparncias; somadas, elas formam as analogias da experincia.
A primeira analogia  o "princpio da permanncia da substncia". Os detalhes da prova de Kant so internamente inconsistentes e variam entre as edies de 1781 
e 1787, mas a inteno geral  clara. Argumenta que, a fim de se experimentar a mudana ou a coexistncia no tempo,  necessrio postular uma permanncia subjacente 
das coisas no tempo: "Sem a permanncia no existe relao no tempo" (CRP A 183/B 226). Entretanto, ele contesta a afirmao da tradio filosfica de que o permanente 
 substncia.  desnecessrio considerar a permanncia como substncia; basta apontar o princpio de permanncia como "o modo em que ns representamos a existncia 
de coisas em [o campo da] aparncia" (A 186/B 229). A "permanncia da substncia" no se refere a um predicado ontolgico mas  prpria durao, ou ao modo em que 
"ns", como seres finitos, representamos as aparncias "para ns mesmos" no tempo.
A segunda analogia governa a relao de aparncias no tempo pensadas ao abrigo do modo de sucesso - ou seja, o princpio de que "todas as alteraes ocorrem em 
conformidade com a lei da conexo de causa e efeito" (B 232). Com este princpio, Kant enfrenta as objees de Hume ao princpio de causalidade ao demonstrar a necessidade 
de relaes causais. "Causalidade" ou "razo suficiente" so coisas que no existem, mas h uma determinada experincia de tempo - sua irreversibilidade - a qual 
requer que ordenemos as nossas experincias no tempo de acordo com a analogia de causa e efeito. A prova de Kant para esse princpio argumenta que as aparncias 
esto mutuamente relacionadas como sucessivas, e que essa sucesso  necessria, isto , que a ordem de aparncias no tempo no pode ser revertida. Kant relaciona 
essa propriedade do tempo com

24            andador
a irreversibilidade da cadeia causai, um modo necessrio de alterao de aparncias no
tempo.
A terceira analogia rege a coexistncia de aparncias de acordo com a "lei de reciprocidade ou comunidade" (A 21 l/B 256) e corresponde ao modo temporal de coexistncia. 
A relao de aparncias no tempo  pensada, neste caso, em termos de simultanei-dade: tudo o que coexiste existe ao mesmo tempo. Sem esse princpio, argumenta Kant, 
a experincia seria impossvel, porquanto seramos incapazes de relacionar entre si, com certeza, as coisas que parecem ocupar o mesmo espao e tempo. Essa coexistncia 
no  um predicado ontolgico, existente fora de seus relata, nem  uma propriedade das aparncias; , antes, uma condio para conhecer como simultnea a relao 
de aparncias
que so manifestas.
Em comum com os outros princpios, as analogias esto entre as mais difceis e desconcertantes caractersticas da filosofia de Kant. Elas so sumamente especficas 
para a sua filosofia terica e cruciais para o seu empreendimento crtico como um todo. Por essa razo, embora no tenham tido, de um modo geral, um amplo impacto 
filosfico, foram o tema de algumas das mais interessantes, ainda que opacas, obras de exegese de Kant. Para dois estudos contrastantes das analogias, ver Heidegger, 
1935, e Guyer, 1987.
andador [Gngelwagen] ver EXEMPLO
anfibologia ver tambm CONCEITOS DE REFLEXO; SENSIBILIDADE; ENTENDIMENTO Termo extrado da retrica clssica, anfibologia designa a ambigidade resultante da disposio 
dbia numa frase de vocbulos que, sob todos os demais aspectos, so inequvocos. Nas Refutaes sofisticas, de Aristteles,  uma das seis formas de falcia filosfica 
resultantes do mau emprego sofistico da linguagem (Aristteles, 1941,165b). Para Kant, a "anfibologia dos conceitos de reflexo" ocorre quando o uso emprico do 
entendimento  confundido com o transcendental, ou quando um conceito de reflexo apropriadamente aplicvel  sensibilidade ou ao entendimento  incorretamente aplicado 
ao outro termo ou a ambos (CRP A 260/B 316 e ss.).
A maior parte da argumentao de Kant em CRP  dirigida contra o uso anfibolgi-co de conceitos de reflexo, tais como identidade/ diferena, concordncia/oposio, 
de-terminvel/determinao (matria/ forma), interno/externo (CRP A 261/B 317). Estes so conceitos de orientao utilizados antes de "construir qualquer juzo objetivo" 
(A 262/ B 317). Kant argumenta que eles prprios devem ser adequadamente orientados atravs de reflexo transcendental: isso atribui cada uso de um conceito de reflexo 
 sua apropriada faculdade de conhecimento. Por exemplo, quando se fala de identidade e diferena  necessrio distinguir entre suas diferentes aplicaes conceituais 
e intuitivas, uma vez que as "condies de intuio sensvel... contm em si mesmas as suas prprias diferenas" (A 270/B 326). Assim, no distinguir entre os campos 
sensvel e inteligvel de aplicao resulta numa anfibologia transcendental que confunde "um objeto de entendimento puro com aparncia" e gera ilegtimos princpios 
sintticos de conhecimento.
Kant sustenta que as filosofias de Leibniz e Locke eram anfibolgicas. Leibniz aplicou  sensibilidade conceitos de reflexo prprios do entendimento e, portanto, 
"aparncias intelectualizadas", ao passo que Locke, em sua explicao de abstrao concei-
nimo            25
tual, "sensualizou todos os conceitos do entendimento" (A 27 l/B 327). Kant adota um difcil percurso entre essas duas posies ao sustentar que se deve fazer uma 
clara distino entre os conceitos prprios da sensibilidade e aqueles prprios do entendimento, embora aceite que o conhecimento resulta de sua legtima conjuno 
em princpios sintticos a priori adequadamente justificados. Toda a filosofia crtica assevera que tais princpios existem, no so anfibolgicos e respeitam as 
diferenas prprias do conceito e da intuio, ainda que possam apresentar-se em conjuno.
A anlise de Kant da anfibologia recebeu nova aceitao com respeito s "filosofias da diferena" do final do sculo xx, elaboradas, entre outros, por Deleuze (1968), 
Derrida (1967, 197) e Irigaray (1984). Os crticos desse movimento filosfico, como Rose (1984), consideram-no assente num uso anfibolgico de "diferena" que apaga 
distines historicamente fundadas entre conceito e intuio.
nimo [animus, Gemt] ver tambm AFETO; ALMA; CORPO; IDENTIDADE; PRAZER; REFLEXO; SENTIMENTO; SUJEITO; VIDA
A palavra alem Gemt  um termo essencial na filosofia de Kant e tem sido variamente traduzido como "nimo", "mente", "estado mental" e "alma", se bem que essas 
tradues no faam jus  significao do termo. No quer dizer "mente" ou "alma" no sentido cartesiano de uma substncia pensante, mas denota, em vez disso, uma 
conscincia corprea de sensao e auto-afeco.-Com efeito, num ponto da CRP, ele distingue explicitamente Gemt e Seele (A 22/B 37), uma diferenciao explicada 
em Zu Smmering ber das Organ der Seele [Para Smmering, sobre o rgo da alma, 1796] em termos da "capacidade para efetuar a unidade da apercepo emprica {animus) 
mas no de sua substncia {anima)" (1796c, p.256). Gemt no designa uma substncia (material ou ideal) mas a posio ou lugar das Gmtskrafte (as foras ou faculdades 
do Gemt) de sensibilidade, imaginao, entendimento e razo.
O uso de Gemt por Kant permanece prximo do significado que o termo possua na filosofia medieval e no misticismo, onde se referia  "disposio estvel da alma 
que condiciona o exerccio de todas as suas faculdades" (Gilson, 1955, p.444,758). Isso contrasta com a restrio que Leibniz faz ao termo, atribuindo-lhe o significado 
de "sentimento" em oposio a entendimento (Leibniz, 1976, p.428). Para Kant, "Gemt  a vida toda (o prprio princpio vital), e sua obstruo ou favorecimento 
tm de ser procurados fora dele mas, ainda assim, no prprio homem, por conseguinte em conexo com o seu corpo" (CJ 29). Com esta noo de Gemt, Kant procurou 
evitar muitos dos problemas das relaes mente-corpo legados pelo dualismo cartesiano, uma estratgia explicitamente enunciada de novo em Zu Smmering ber das Organ 
der Seele, mas insuficientemente apreciada por muitos de seus crticos ulteriores. Essa noo de Gemt fornece tambm um elo de ligao entre as trs sees-terica, 
prtica e esttica/teleolgica- da filosofia crtica, como foi uma vez mais explicitamente afirmado por Kant, porm agora numa variante de A 7 onde  descrita como 
a "essncia" [Inbegriff] de todas as representaes que, no mesmo lugar, ocupam uma esfera que inclui as trs faculdades bsicas de conhecimento, o sentimento de 
prazer e desprazer, e a faculdade de apetio...".
Em CRP, Kant localiza a origem do conhecimento em "duas fontes bsicas do Gemt: a primeira fonte  a de "recebimento de representaes (a receptividade de impresses)"; 
a segunda  a de "conhecimento de um objeto atravs dessas representaes

26            antecipaes da percepo
(espontaneidade de conceitos)" (A 50/B 74). Assim, Gemt pode manifestar-se passiva ou ativamente, no primeiro modo recebendo representaes, no segundo criando 
conceitos. O modo como aspectos passivos e ativos do Gemt se afetam mutuamente pode ser visto com toda a clareza no tratamento dado por Kant  intuio. No pargrafo 
inicial de CRP,  dito que os objetos s nos podem ser dados "na medida em que afetam o nimo [Gemt] de uma certa maneira" (A 19/B 33). Neste ponto, Gemt est 
em seu modo sensvel, receptivo, de "sentido externo", atravs do qual representamos objetos como exteriores a ns e no espao. Afora o fato de ser passivamente 
afetado por meio da sensibilidade externa, o nimo tambm pode, entretanto, ser ativamente afetado por meio da sensibilidade interna. Neste caso, "o Gemt intui-se 
ou intui sua condio interna", dando origem  "forma determinada" de tempo (A 23/B 37).
A afeco passiva do nimo por objetos externos e sua auto-afeco ativa tambm so cruciais para a tese de CJ, onde essa propriedade  descrita como o prprio "princpio 
vital" e a origem no s das faculdades de conhecimento e volicr mas tambm de prazer e dor. Em CJ  1, Kant distingue entre perceber um "edifcio regular e adequado 
a um fim" e estar consciente dessa representao com uma sensao de satisfao. Neste caso, o prazer envolvido surge da atividade receptiva e espontnea do Gemt. 
A percepo do edifcio  recebida e depois "totalmente vinculada ao sujeito, mais do que isso, ao seu prprio sentimento de vida". A satisfao resulta de o Gemt 
adquirir, atravs dessa representao, conscincia de sua condio ou "capacidade total de representao"; em outras palavras, converte-se num objeto de reflexo 
e encontra, pois, satisfao em suas prprias faculdades. Kant descreve essa reflexo em termos de uma harmonia entre as Gemtskrfte do entendimento e da imaginao, 
harmonia essa, diz ele, que ocasiona satisfao ao "estimular" ou "facilitar o jogo de ambas as faculdades do nimo [Gemtskrfte], a imaginao e o entendimento, 
animadas por uma harmonia recproca" (CJ 9).
Embora o estudo de Kant sobre o Gemt seja central para o seu entendimento da topografia mental e claramente significativo para as suas teorias do conhecimento, 
da ao e da esttica, ele nunca foi objeto de uma apurada e erudita investigao." A significao do conceito ainda era apreciada por Mellin em seu Encyclopdisches 
Wrterbuch der kritischen Philosophie, de 1797, mas depois desapareceu de vista. S viria a reaparecer, porm, com a obra de Heidegger e Derrida no contexto de reflexes 
sobre as noes de esprito e alma. Figura em Ser e tempo (Heidegger, 1927) como aquilo que no foi corretamente entendido pela metafsica subjetiva cartesiana; 
tambm foi investigado e recebeu uma genealogia histrica como o topos do esprito por Derrida em Do esprito (ver Derrida, 1987, p.78, 127). Mas esses novos insights 
ainda tero de ser sistematicamente empregados na interpretao do uso do termo por Kant.
antecipaes da percepo [Antizipationen der Wahrnehmung] ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; AXIOMAS DA INTUIO; POSTULADOS DO PENSAMENTO EMPRICO; PRINCPIO; 
REALIDADE
* Cf., no entanto, o ensaio de Valerio Rohden: "O sentido do termo Gemt em Kant", Analytica, vol. 1, n.l, Rio de Janeiro, UFRJ, p.61-75. (N.R.T.)
antecipaes da percepo            27
As antecipaes da percepo so os princpios correspondentes s categorias de qualidade. A par dos axiomas da intuio, correspondentes s categorias de quantidade, 
formam os dois conjuntos de "princpios matemticos" que so complementados pelos "princpios dinmicos" das analogias da experincia (correspondentes s categorias 
de relao) e pelos postulados do pensamento emprico (correspondentes s categorias de modalidade). Em seu conjunto, os princpios determinam como as aparncias 
manifes-tar-se-o  intuio sensvel de um ser finito sem a capacidade para a intuio categrica direta. As antecipaes da percepo determinam especificamente 
a qualidade das aparncias para um tal ser, a saber, sua realidade, negao e limitao no espao e no tempo.
Kant afirma que a qualidade das aparncias requer que elas possuam uma "grandeza intensiva": "Em todas as aparncias, o real que  um objeto de sensao tem uma 
grandeza intensiva, isto , um determinado grau" (CRP B 207). Na edio A de CRP, Kant especifica esse princpio como "antecipando todas as percepes" e descreve 
o "real" como aquilo que corresponde  sensao no objeto. Ambas as edies concordam em que o real que corresponde ao objeto de sensao possui grandeza intensiva: 
 impossvel percebermos aparncias a menos que elas tenham essa grandeza intensiva.
Kant usa o termo "antecipao" para traduzir o termo prolepsis de Epicuro, o qual designa uma preconcepo que permite a ocorrncia da percepo. Kant considera 
que o entendimento "atribui um grau a tudo o que  real em aparncias" (CRP A 175/B 217) e distingue entre as qualidades acidentais de um ato emprico de sensao 
- "cor, paladar etc."-e a antecipao de que toda sensao possuir um grau de realidade. Essa  a nica qualidade que pode ser suposta a priori e  base para a 
subseqente atribuio de quaisquer qualidades empricas. Kant ilustra o ponto com os exemplos das qualidades empricas de cor, calor e gravidade (A 169/B 211). 
 uma condio para perceber cada uma dessas qualidades que ela possua um certo grau de realidade, por mais infinitamente pequeno que possa tornar-se. No caso da 
cor, quando o vermelho se aproxima do ponto de realidade zero, permanece vermelho; mas quando chega ao grau zero de realidade, deixa de ser a qualidade "vermelho", 
porquanto essa qualidade no tem significado a menos que possa ser antecipado que encerra um certo grau de realidade.
A sensao, portanto, possui um grau de realidade e, como tal, tem grandeza. Mas no se trata da grandeza extensa dos axiomas da intuio que nasce das "sucessivas 
snteses" da imaginao no espao e no tempo, mas de uma sntese instantnea "gerada no ato de apreenso" (CRP A 1 67/B 209). Antecipa a sensao e  uma sntese 
intuitiva, espa-o-temporal.
Sem essa antecipao, poderia ser encarada a possibilidade de perceber objetos que no eram reais, percepes que Kant considerou inacessveis a um ser finito. Com 
efeito, para Kant, perceber a ausncia de realidade por meio da intuio sensvel era uma contradio em termos. Um objeto da intuio sensvel deve possuir um grau 
de realidade, pois sem isso no pode ser um objeto da intuio sensvel. Por outras palavras, e em conformidade com o "princpio geral" dos quatro grupos de princpios, 
uma condio da experincia  tambm uma condio para um objeto da experincia.
As antecipaes podem ser interpretadas como o mais fundamental dos princpios. Elas mapeiam o que  "dado" [givenness] do real antes mesmo das formas de intuio, 
uma vez que, nas palavras de P, a "sensao no  uma intuio que contenha espao ou tempo, apesar de colocar [setzt] em ambos o objeto que lhe corresponde" (P 
24). O pr-

28            antinomia da razo pura
prio Kant considerou desconcertante a idia de uma colocao pr-intuitiva: "ela deve parecer sempre um tanto estranha a quem est treinado em reflexo transcendental" 
(CRP A 175/B 217). Contudo, a anlise dessa colocao foi sistematicamente apreendida por Fichte, que tratou de estabelecer a cincia do conhecimento com base num 
ato primordial de colocao. Tambm foi levado em conta pela escola fenomenolgica, que atravs da reduo eidtica procurou descrever o dado dos fenmenos (ver 
Husserl, 1913, e a exegese fenomenolgica das antecipaes em Heidegger, 1935, p.206-14).
antinomia da razo pura ver tambm CAUSALIDADE; COSMOLOGIA; DIALTICA; LIBERDADE; IDEAL; INCONDICIONADO; INFERNCIA; NATUREZA; PARALOGISMOS Antinomia  uma forma 
retrica de apresentao citada por Quintiliano (35-100) em seu Institutio oratria de 92-5 (Livro vm, captulo 7), na qual argumentos opostos so apresentados lado 
a lado. A forma foi largamente usada na jurisprudncia do sculo XVII (como em De antinomiis de Eckolt, 1660) para assinalar as diferenas entre leis decorrentes 
de choques entre jurisdies legais. Kant usa a forma na "dialtica" de cada uma das trs crticas como parte essencial de sua anlise de "asseres dialticas". 
A forma  apropriada para esse fim, dado que pode mostrar a razo fazendo inferncias opostas mas, no entanto, igualmente justificveis. Kant afirma que tais inferncias 
assinalam uma ampliao ilegtima da razo humana finita para alm de sua verdadeira jurisdio.
Kant considerou a antinomia uma "tentativa decisiva que nos deve mostrar necessariamente uma inexatido, oculta nas pressuposies da razo" (p 52b). Ele considerou 
ser a descoberta da antinomia terica das idias cosmolgicas, a par do ceticismo de Hume, um dos choques que o despertaram da sonolncia dogmtica da filosofia 
especulativa (P 50). Na CRP, a forma de antinomia  usada na segunda das trs principais divises da "Dialtica transcendental". Kant mostra a como as trs disciplinas 
e objetos da metafsica tradicional, exemplificados por Wolff (1719), assentam em inferncias dialticas. "Os paralogismos da razo pura" mostram ser esse o caso 
para a cincia da psicologia e seu objeto, a alma humana; "A antmomia da razo pura" para a cosmologia e seu objeto, o mundo; "O ideal da razo pura" para a teologia 
e Deus.
A "antinomia da razo pura" forma, por si s, uma das maiores sees da CRP. Kant apresenta nela quatro conjuntos de inferncias dialticas sobre a natureza do mundo 
que correspondem aos quatro grupos de categorias. As categorias matemticas de quantidade e qualidade e as categorias dinmicas de relao e modalidade produzem 
as antinomias matemticas e dinmicas. Cada antinomia apresenta formalmente argumentos opostos sobre a natureza do mundo, extrados da histria da filosofia; Kant 
chega a referir-se-lhes em termos jurdicos como "partes" contrrias. A apresentao da antinomia consiste em dois argumentos supostamente antagnicos e, no entanto, 
igualmente convincentes, colocados lado a lado em pginas opostas (no na mesma pgina, como na traduo de Kamp Smith de 1929) como provas de tese e anttese.
A primeira antinomia, ou antinomia quantitativa, diz respeito aos limites do mundo. Ope  tese de que o "mundo tem um incio no tempo e tambm est limitado a respeito 
do espao" (CRP A 426/B 454) a afirmao antittica de que o mundo "no tem comeo nem limites no espao;  infinito no que se refere ao tempo e ao espao" (A 427/B 
455). A segunda antinomia, ou antinomia qualitativa, apresenta asseres opostas a respeito da constituio ou qualidade do mundo. A tese argumenta que "nada existe, 
em
antinomia da razo pura            29
qualquer parte, exceto o simples ou o que  composto do simples" (A 434/B 462), ao passo que a anttese afirma que "nada existe no mundo que seja simples" (A 435/B 
463). A terceira antinomia, ou antinomia relacionai, considera a natureza da relao causai no mundo, com a tese de que a causalidade est de acordo com as leis 
da natureza e a liberdade, oposta pela anttese de que "no existe liberdade; tudo acontece no mundo somente em concordncia com leis da natureza" (A 445/B 473). 
Finalmente, a antinomia modal * ope  tese de que "pertence ao mundo, ou como sua parte ou como sua causa, um ser que  absolutamente necessrio" (A 452/B 480) 
a anttese de que "em nenhum lugar do mundo existe um ser absolutamente necessrio, como tampouco existe fora do mundo como sua causa" (A 453/B 481).
Kant no apresenta os argumentos opostos a fim de provar que um  superior ao outro mas, antes, para mostrar que ambos so dialticos. A partir da experincia espa-o-temporal, 
eles pretendem oferecer uma viso imediata da "completude absoluta" da composio e diviso "do conjunto dado de todas as aparncias", assim como da completude absoluta 
do processo de "dar origem a uma aparncia", bem como da "dependncia da existncia do altervel em aparncia" (CRP A 415/B 443).  a busca de "completude absoluta" 
na base da experincia espacial e temporalmente limitada que conduz a razo para as antinomias. Kant considera "inevitvel" e "natural" que a razo assim proceda, 
mas ao apresentar a antinomia espera sacudir a razo ,sda sonolncia da convicoycjca" sem lan-la no "desespero cptico"- a ""euthanasia da razo pura" - ou 
lev-la  "morte da slida filosofia" no apego dogmtico *uma nica posio (A 407/B 434). As "solues" para as antinomias, desenvolvidas extensamente e com grande 
sutileza, consistem em mostrar como elas nascem do malogro da razo em compreender os seus prprios limites; ou seja, quando esta confunde as aparncias com as coisas 
em si. As solues so assim realizadas na base dos resultados da analtica, a qual limitou o conhecimento legtimo aos limites da experincia humana.
Kant usa tambm a forma antinmica na "Dialtica" das segunda e terceira crticas, a fim de apresentar posies opostas extradas da histria da tica e da esttica. 
A antinomia prtica consiste nas asseres opostas de que "o desejo de felicidade deve ser o motivo da mxima de virtude" e "a mxima de virtude deve ser a causa 
eficiente da felicidade" (CRPr p. 115, p. 119). Prova-se em seguida que ambas as afirmaes so insustentveis. Para a soluo crtica dessa antinomia, Kant recorre 
 terceira antinomia terica de liberdade e causao natural, e distingue entre liberdade como noumenon e causalidade natural no mundo sensvel.
Na terceira crtica, a antinomia do juzo esttico ope a afirmao de que "o juzo do gosto no  baseado em conceitos"  sua anttese de que "o juzo do gosto 
est baseado em conceitos". A antinomia resulta da oposio entre a teoria britnica do gosto e a esttica perfeccionista alem que inspira toda a crtica do juzo 
esttico. A soluo de Kant sugere, em termos gerais, que ambas as asseres pressupem uma definio estreita do "conceito", e que elas podem ser compatveis se 
o "conceito" em questo for definido como indeterminado. A soluo , portanto, aceita de modo controverso para assinalar a existncia de um "substrato supersensvel" 
comum ao sujeito e ao objeto, uma sugesto que provaria ser significativa para o desenvolvimento do idealismo alemo.
Na segunda parte de CJ sobre juzo teleolgico, Kant descreve a antinomia do juzo reflexivo. Neste caso, a antinomia consiste nas mximas opostas de reflexo - 
a tese

30           Antropologia de um ponto de vista pragmtico
diz: "Toda a produo de coisas materiais e de suas formas deve ser julgada como possvel segundo leis meramente mecnicas"; a anttese  que "Alguns produtos da 
natureza material no podem ser julgados como possveis somente na base de meras leis mecnicas" (70). Kant converte essas mximas de juzo reflexivo em princpios 
constitutivos de juzo determinante a fim de mostrar que somente no segundo caso elas formam uma verdadeira antinomia. Para o juzo reflexivo, a soluo para a "antinomia" 
 que as mximas opostas "no contm absolutamente nenhuma contradio"; so mximas comple-mentares para o exerccio do juzo reflexivo.
Depois de Kant, as antinomias foram reencarnadas na bizarra forma da esquemti-ca dialtica "marxista" de tese-anttese-sntese. Esse esquema resultou de uma interpretao 
equivocada da afirmao de Hegel na Enciclopdia das cincias filosficas (I- A cincia da lgica) de que "no  s nos quatro objetos particulares tomados da Cosmolo-gia 
que a antinomia se encontra, mas antes em todos os objetos de todos os gneros, em todas as representaes, conceitos e Idias" (Hegel, 1830, 48). Hegel desejou 
estender o alcance antidogmtico da formulao kantiana das antinomias da cosmologia a todas as reas do conhecimento; ironicamente, porm, tornou-se um novo dogmatismo 
esque-mtico. O carter antidogmtico da antinomia foi reexaminado na anlise de Lukcs do idealismo alemo em Histria e conscincia de classe (1922). Na seo 
intitulada "As antinomias do pensamento burgus", ele aponta a "estrutura coisificada da conscincia" que se concentra nos produtos da atividade humana, com excluso 
dessa mesma atividade em si. Na esteira de Lukcs, a forma antinmica de argumento foi ainda mais desenvolvida pelos filsofos "marxistas ocidentais", em particular 
T.W. Adorno.
Antropologia de um ponto de vista pragmtico Publicado em 1798, o manuscrito de Kant derivou das notas para uma srie de lies sobre antropologia por ele dada a 
partir do semestre do outono/inverno de 1772-73. As lies eram, por seu turno, um desenvolvimento das lies de geografia fsica que Kant vinha oferecendo desde 
1756. Numa nota da introduo do livro, Kant refere-se ao fato de, "durante cerca de 30 anos", ter realizado conferncias duas vezes por ano sobre "conhecimento 
do mundo", a saber, antropologia e geografia fsica, para um auditrio formado por estudantes e o grande pblico. Embora Kant afirme que o seu manuscrito para as 
lies de geografia fsica era ilegvel para qualquer pessoa que no ele prprio, um texto editorado por Friedrich Theodor Rink foi publicado em 1802 e pode ser 
proveitosamente lido a par de A. O texto de A, publicado de acordo com o manuscrito de Kant m 1798,  conhecido como a "edio A", ao passo que a verso publicada 
em 1800, incorporando revises e mudanas estilsticas de pouca monta,  conhecida como a "edio B". A maioria das edies e tradues modernas tende a seguir a 
"edio B", incorporando s vezes material extrado da "edio A".
Em sua introduo, Kant define a antropologia como uma "doutrina sistemtica que contm o nosso conhecimento do homem" e sugere que a esse conhecimento pode ser 
dada uma perspectiva fisiolgica ou pragmtica. A primeira envolve o conhecimento das coisas do mundo, ou o homem como um objeto da e na natureza; a segunda  o 
conhecimento do homem como "ser livremente atuante" ou "como cidado do mundo". A antropologia kantiana adere  perspectiva pragmtica e divide o seu material de 
acordo com a "Didtica antropolgica" e a "Caracterizao antropolgica". A primeira  descrita como a "arte de conhecer tanto o interior quanto o exterior do homem" 
e est subdividida em trs livros: (i)
aparncia             31
"Sobre a faculdade cognitiva"; (ii) "Sobre o sentimento de prazer e desprazer"; (iii) "Sobre a faculdade de apetio". Esses livros, que seguem a organizao das 
trs crticas, oferecem numerosas e caractersticas perspectivas sobre cognio, prazer e moralidade que tanto ampliam como ocasionalmente abalam as descries crticas 
dos mesmos fenmenos. Em contrapartida, "Caracterizao antropolgica"  dedicada a conhecer "o interior de um homem a partir do seu exterior" e consiste nas reflexes 
episdicas sobre caractersticas to salientes da espcie humana quanto personalidade, sexo, nacionalidade e raa. A antropologia de Kant foi objeto de crescente 
ateno, em especial nas leituras antifundacionalis-tas de sua obra (ver Heidegger, 1929). As leituras antifundacionalistas sublinham as caractersticas histricas 
e polticas da obra de Kant e deixam em segundo plano as estritamente lgicas, as quais eram o foco de interpretaes anteriores. A homologia entre a "Didtica antropolgica" 
e as trs crticas levou alguns scholars a explicarem estas por meio daquela. Um exemplo notvel  proporcionado por Heidegger, cuja explicao da obra de imaginao 
em CRP  sustentada por referncia a A. Para ele, as lies de antropologia, pr-datando a CRP em, pelo menos, uma dcada, "fornecem-nos informao sobre o terreno 
j preparado para a metafsica" (Heidegger, 1929, p.88), a qual pode ser usada para interpretar doutrinas crticas ulteriores.
aparncia [Erscheinung] ver tambm EFETIVIDADE; EXPERINCIA; FENMENO; FORMA; IDEAL; ILUSO; MATRIA; NQUMENON; SENSIBILIDADE; VERDADE Em CRP e P, Kant refina a 
tradicional explicao filosfica de aparncia ao estabelecer a distino entre aparncia, fenmeno e iluso. Ele insiste nessas distines a fim de redimir a aparncia 
da m reputao e descrdito que sofreu nas mos da tradio filosfica: no  simplesmente iluso - a semelhana enganadora da percepo sensvel - mas, antes, 
a experincia dentro dos limites de intuies humanas de espao e tempo. Entretanto, Kant manteve uma verso restrita da antiga distino entre aparncia e verdade 
- entre fenmenos e noumena - a par dos seus correlates de vir-a-ser e ser, o sensvel e o ideal, matria e forma. Por essa transigncia foi Kant criticado mais 
tarde, com extrema veemncia por Nietzsche, acusado de incoerncia e de abandono de seus insights sobre a inevitabilidade das aparncias.
Em Dl, Kant ainda est trabalhando dentro de uma oposio tradicional de aparncia e realidade. Aparncia  um objeto de conhecimento sensvel e ope-se ao conhecimento 
intelectual ou racional do intelecto. Os objetos de cada ramo de conhecimento, comenta Kant neutralmente, eram chamados "nas escolas dos antigos" (DI 3) fenmeno 
e noume-non. Alm disso, aparncia (aqui indistinguvel de fenmenos)  inequivocamente oposta a verdade e identificada com a matria da sensao como oposta  forma 
da inteligncia: "coisas que so pensadas sensivelmente so representaes de coisas como parecem, ao passo que as coisas que so intelectuais so representaes 
de coisas como so" (Dl 4). Apesar de declaraes to inequvocas, Kant j est, mesmo nesse texto, abalando essa oposio e com a CRP avanou consideravelmente 
no sentido de sua rejeio.
Em CRP, aparncia est dividida em matria e forma: sua matria  o que nela "corresponde  sensao", enquanto sua forma  aquilo "que determina de tal sorte a 
multiplicidade de aparncias que permite serem ordenadas em um certo nmero de relaes" (CRP A 20/B 34). A forma que ordena a sensao, afirma Kant, no pode ser 
ela prpria sensao, donde ele infere que se trata de uma forma apriori de intuio. Ele descobre

32            aparncia
duas de tais formas apriori de aparncia no espao e no tempo. Mostrar que no podemos ter conhecimento legtimo fora dessas formas de intuio e, por conseguinte, 
s nos  dado realmente conhecer aparncias no espao e no tempo. As aparncias no so, pois, impresses sensveis potencialmente enganadoras, porquanto possuem 
sua prpria ordem e organizao. Entretanto, essa ordem pode ser ainda mais articulada por conceitos apriori do entendimento ou "categorias". As aparncias que so 
assim "sintetizadas" convertem-se em fenmenos: "As aparncias, na medida em que so pensadas como objetos de acordo com a unidade das categorias, so denominadas/en/newas" 
(CRP A 249). Assim, os fenmenos so aparncias que foram organizadas dentro da estrutura unificadora das categorias.
A transio de aparncias para fenmenos  a ocasio para alguns dos mais complexos e intrincados argumentos em CRP. A complexidade deve-se, em grande parte,  relutncia 
de Kant em recorrer  tradicional oposio de verdade e aparncia que ainda caracterizava a sua posio em Dl. Embora s possamos ter conhecimento de aparncias, 
o nosso conhecimento no  exclusivamente extrado de aparncias. O entendimento organiza aparncias no espao e no tempo de acordo com conceitos apriori cuja origem 
no se situa na esfera das aparncias mas que no tm qualquer significado se so aplicados fora dela: "uma vez que o que no  aparncia no pode ser um obj eto 
de experincia, o entendimento nunca pode transcender aqueles limites de sensibilidade no mbito dos quais, e s nele, os objetos nos podem ser dados. Os seus princpios 
so meramente regras para a exposio de aparncias..." (CRP A 246/B 303).
As aparncias no so, portanto, arbitrrias impresses sensitivas, indistinguveis da iluso (Schein). Muito pelo contrrio, pois a iluso consiste em aceitar as 
aparncias como se fossem objetos em si mesmos: "na relao do objeto dado com o sujeito, tais propriedades dependem do modo de intuio do sujeito, esse objeto 
como aparncia tem de ser distinguido de si mesmo como objeto em si (CPR B 69). Pois a aparncia, especificou Kant numa nota de rodap,  "aquilo que, embora inseparvel 
da representao do objeto, no ser encontrado no objeto em si, mas sempre em relao com o sujeito" (B 70). Um juzo feito sem limitar-se a essa relao com o 
sujeito d origem  iluso.
A distino de Kant entre aparncia e iluso em termos da relao com o sujeito comporta a implicao adicional de uma relao com o "objeto-em-si". Essa implicao 
gerou muita controvrsia, pois ao admiti-la Kant parece restabelecer uma distino entre aparncia e verdade. Muitos crticos, de Nietzsche a Strawson, podem seguir 
Kant at aos limites dos sentidos, mas desanimam por causa da tendncia dele para apontar, para alm deles, um objeto ou coisa-em-si. De fato, como pode ele aceitar 
uma relao com o objeto em si, uma vez que insiste sistematicamente em que tais objetos no podem ser conhecidos? "O que os objetos podem ser em si mesmos, e excetuada 
toda essa receptividade por parte da nossa sensibilidade, continua nos sendo "completamente desconhecido" (CRP A 42/B 59). Se  desconhecido, em boa verdade, incognoscvel, 
por que insiste Kant em derivar aparncias no s de sua relao com um sujeito, mas tambm com um
objeto?
Kant enfatiza uma ou outra dessas relaes com o sujeito ou objeto de acordo com a posio que ele estiver criticando. Quando distingue a sua explicao de aparncia 
e intuio sensvel daquela de Leibniz e Wolff, esfora-se por minimizar a relao da aparncia com o objeto em si: "No  que por nossa sensibilidade no possamos 
conhecer a
apercepo            33
natureza de coisas em si mesmas, salvo de algum modo confuso;  que no podemos apreend-las, seja de que modo for" (CRP A 44/B 62). Inversamente, quando ele argumenta 
contra o empirismo ou o ceticismo, sublinha o fato de as aparncias estarem fundadas num "objeto transcendental", mesmo que incognoscvel: "Tanto o objeto transcendental 
que est subjacente nas aparncias exteriores como o que est subjacente em nossa intuio no constituem em si matria ou um ser pensante, mas to-s uma base 
(para ns desconhecida) das aparncias que nos fornecem o conceito emprico da primeira assim como o modo de existncia do segundo" (CRP A 380).
Kant parece adotar uma abordagem no-dogmtica e experimental para a questo das aparncias. Embora insistindo em que elas no so simplesmente ilusrias nem verdadeiras, 
recusa-se, no obstante, a assumir um compromisso com uma explicao exclusivamente subjetiva ou objetiva das aparncias. Usa o seu entendimento da aparncia para 
criticar as posies unilaterais e opostas sobre a questo que lhe foram legadas pela tradio filosfica. Lamentavelmente, muitos de seus sucessores voltaram a 
insistir no carter exclusivo de uma posio sobre a outra, chegando at a alegar ser essa a "verdadeira" posio assumida por Kant. Assim, Fichte insistiu sobre 
a relao exclusiva da aparncia com o sujeito, enquanto Schelling insistiu em sua relao com o objeto: ambos pretenderam ter em Kant a justificao para suas posies. 
Na esteira de ambos, Hegel (1807,1812) preferiu adotar como tema a oposio e fez das relaes subjetivas e objetivas momentos de uma dialtica.
apercepo ver tambm CONSCINCIA; DEDUO; ESPONTANEIDADE; "EU PENSO"; IDENTIDADE; LIGAO; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SABER; SNTESE; SUJEITO; TRANSCENDENTAL
Apercepo  um vocbulo criado por Leibniz nos Novos ensaios sobre o entendimento humano (17'65) a partir do francs s 'apercevoir de - aperceber-se de, dar-se 
conta de - que foi usado pelo tradutor de Locke, Pierre Coste, para traduzir "perceber" (Leibniz, 1976, p.553). Usou-a na Monadologia (escrita em 1714, publicada 
em 1720) para criticar o cogito cartesiano por desprezar as percepes inconscientes, ou "percepes ina-percebidas" (1720,  14). Ele define percepo como "o estado 
passageiro que envolve e representa a multiplicidade na unidade ou na substncia simples" (14) ou, do texto de 1714 de Os princpios de natureza e graa, como "o 
estado interno da mnada representando coisas externas" (1976, p.637). A apercepo " conscincia ou conhecimento reflexivo desse estado interior, e que no  dada 
a todas as almas ou a quaisquer almas o tempo todo" (p.637). O conceito desempenhou um papel central na filosofia terica de Kant e  uma das razes por que ele 
pde descrever a CRP como a "autntica defesa de Leibniz" contra os "seus partidrios" (SD p.250, p.160).
Kant adotou a distino de Leibniz entre percepo e apercepo, justapondo-a grosso modo  diferena entre intuio e entendimento. Mas ampliou de forma considervel 
a funo da apercepo, adaptando-a em muitos aspectos o cogito cartesiano, para o qual era originalmente uma resposta crtica. A apercepo leibniziana propriamente 
dita apresenta-se na CRP como "apercepo emprica" ou o "sentido interno" que  "conscincia de si mesmo de acordo com as determinaes do nosso estado em percepo 
interna" (CRP A 107). A apercepo emprica, tal como na verso leibniziana,  episdica e "em si mesma diversa e sem relao com a identidade do sujeito" (CRP B 
133).

32            aparncia
duas de tais formas apriori de aparncia no espao e no tempo. Mostrar que no podemos ter conhecimento legtimo fora dessas formas de intuio e, por conseguinte, 
s nos  dado realmente conhecer aparncias no espao e no tempo. As aparncias no so, pois, impresses sensveis potencialmente enganadora, porquanto possuem 
sua prpria ordem e organizao. Entretanto, essa ordem pode ser ainda mais articulada por conceitos apriori do entendimento ou "categorias". As aparncias que so 
assim "sintetizadas" convertem-se em fenmenos: "As aparncias, na medida em que so pensadas como objetos de acordo com a unidade das categorias, so detiominaasfenmenos" 
(CRP A 249). Assim, os fenmenos so aparncias que foram organizadas dentro da estrutura unificadora das categorias.
A transio de aparncias para fenmenos  a ocasio para alguns dos mais complexos e intrincados argumentos em CRP. A complexidade deve-se, em grande parte,  relutncia 
de Kant em recorrer  tradicional oposio de verdade e aparncia que ainda caracterizava a sua posio em DI. Embora s possamos ter conhecimento de aparncias, 
o nosso conhecimento no  exclusivamente extrado de aparncias. O entendimento organiza aparncias no espao e no tempo de acordo com conceitos apriori cuja origem 
no se situa na esfera das aparncias mas que no tm qualquer significado se so aplicados fora dela: "uma vez que o que no  aparncia no pode ser um objeto 
de experincia, o entendimento nunca pode transcender aqueles limites de sensibilidade no mbito dos quais, e s nele, os objetos nos podem ser dados. Os seus princpios 
so meramente regras para a exposio de aparncias..." (CRP A 246/B 303).
As aparncias no so, portanto, arbitrrias impresses sensitivas, indistinguveis da iluso (Schein). Muito pelo contrrio, pois a iluso consiste em aceitar as 
aparncias como se fossem objetos em si mesmos: "na relao do objeto dado com o sujeito, tais propriedades dependem do modo de intuio do sujeito, esse objeto 
como aparncia tem de ser distinguido de si mesmo como objeto em si (CPRB 69). Pois a aparncia, especificou Kant numa nota de rodap,  "aquilo que, embora inseparvel 
da representao do objeto, no ser encontrado no objeto em si, mas sempre em relao com o sujeito" (B 70). Um juzo feito sem limitar-se a essa relao com o 
sujeito d origem  iluso.
A distino de Kant entre aparncia e iluso em termos da relao com o sujeito comporta a implicao adicional de uma relao com o "objeto-em-si". Essa implicao 
gerou muita controvrsia, pois ao admiti-la Kant parece restabelecer uma distino entre aparncia e verdade. Muitos crticos, de Nietzsche a Strawson, podem seguir 
Kant at aos limites dos sentidos, mas desanimam por causa da tendncia dele para apontar, para alm deles, um objeto ou coisa-em-si. De fato, como pode ele aceitar 
uma relao com o objeto em si, uma vez que insiste sistematicamente em que tais objetos no podem ser conhecidos? "O que os objetos podem ser em si mesmos, e excetuada 
toda essa receptividade por parte da nossa sensibilidade, continua nos sendo "completamente desconhecido" (CRP A 42/B 59). Se  desconhecido, em boa verdade, incognoscvel, 
por que insiste Kant em derivar aparncias no s de sua relao com um sujeito, mas tambm com um objeto?
Kant enfatiza uma ou outra dessas relaes com o sujeito ou objeto de acordo com a posio que ele estiver criticando. Quando distingue a sua explicao de aparncia 
e intuio sensvel daquela de Leibniz e Wolff, esfora-se por minimizar a relao da aparncia com o objeto em si: "No  que por nossa sensibilidade no possamos 
conhecer a
apercepo            33
natureza de coisas em si mesmas, salvo de algum modo confuso;  que no podemos apreend-las, seja de que modo for" (CRP A 44/B 62). Inversamente, quando ele argumenta 
contra o empirismo ou o ceticismo, sublinha o fato de as aparncias estarem fundadas num "objeto transcendental", mesmo que incognoscvel: "Tanto o objeto transcendental 
que est subjacente nas aparncias exteriores como o que est subjacente em nossa intuio no constituem em si matria ou um ser pensante, mas to-s uma base (para 
ns desconhecida) das aparncias que nos fornecem o conceito emprico da primeira assim como o modo de existncia do segundo" (CRP A 380).
Kant parece adotar uma abordagem no-dogmtica e experimental para a questo das aparncias. Embora insistindo em que elas no so simplesmente ilusrias nem verdadeiras, 
recusa-se, no obstante, a assumir um compromisso com uma explicao exclusivamente subjetiva ou objetiva das aparncias. Usa o seu entendimento da aparncia para 
criticar as posies unilaterais e opostas sobre a questo que lhe foram legadas pela tradio filosfica. Lamentavelmente, muitos de seus sucessores voltaram a 
insistir no carter exclusivo de uma posio sobre a outra, chegando at a alegar ser essa a "verdadeira" posio assumida por Kant. Assim, Fichte insistiu sobre 
a relao exclusiva da aparncia com o sujeito, enquanto Schelling insistiu em sua relao com o objeto: ambos pretenderam ter em Kant a justificao para suas posies. 
Na esteira de ambos, Hegel (1807,1812) preferiu adotar como tema a oposio e fez das relaes subjetivas e objetivas momentos de uma dialtica.
apercepo ver tambm CONSCINCIA; DEDUO; ESPONTANEIDADE; "EU PENSO"; IDENTIDADE; LIGAO; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SABER; SNTESE; SUJEITO; TRANSCENDENTAL
Apercepo  um vocbulo criado por Leibniz nos Novos ensaios sobre o entendimento humano (1765) a partir do francs s 'apercevoir de - aperceber-se de, dar-se conta 
de - que foi usado pelo tradutor de Locke, Pierre Coste, para traduzir "perceber" (Leibniz, 1976, p.553). Usou-a na Monadologia (escrita em 1714, publicada em 1720) 
para criticar o cogito cartesiano por desprezar as percepes inconscientes, ou "percepes ina-percebidas" (1720,  14). Ele define percepo como "o estado passageiro 
que envolve e representa a multiplicidade na unidade ou na substncia simples" (14) ou, do texto de 1714 de Os princpios de natureza e graa, como "o estado interno 
da mnada representando coisas externas" (1976, p.637). A apercepo " conscincia ou conhecimento reflexivo desse estado interior, e que no  dada a todas as 
almas ou a quaisquer almas o tempo todo" (p.637). O conceito desempenhou um papel central na filosofia terica de Kant e  uma das razes por que ele pde descrever 
a CRP como a "autntica defesa de Leibniz" contra os "seus partidrios" (SD p.250, p.160).
Kant adotou a distino de Leibniz entre percepo e apercepo, justapondo-a grosso modo  diferena entre intuio e entendimento. Mas ampliou de forma considervel 
a funo da apercepo, adaptando-a em muitos aspectos o cogito cartesiano, para o qual era originalmente uma resposta crtica. A apercepo leibniziana propriamente 
dita apresenta-se na CRP como "apercepo emprica" ou o "sentido interno" que  "conscincia de si mesmo de acordo com as determinaes do nosso estado em percepo 
interna" (CRP A 107). A apercepo emprica, tal como na verso leibniziana,  episdica e "em si mesma diversa e sem relao com a identidade do sujeito" (CRP B 
133).

34            apercepo
Como tal, ela forma uma parte menor da psicologia, ao passo que a sua parceira, a "apercepo transcendental",  uma das pedras angulares da filosofia crtica, de 
especial significado para a deduo da universalidade e necessidade a priori das categorias.
J em 1762, Kant se referia ao "poder misterioso" que "torna possvel a faculdade de julgar" como "no sendo outra coisa seno a faculdade do sentido interno, quer 
dizer, a faculdade de fazermos de nossas prprias representaes o objeto de nosso pensamento" (FS p.60, p.104). Em CRP, o "poder misterioso"  revelado como "apercepo 
transcendental". A combinao de conceito e intuio no conhecimento requer uma unidade que no  conceituai, "a qual precede a priori todos os conceitos de combinao" 
(CRP B 130). A unidade que permite formular juzos tem de ser procurada "ainda mais acima", "naquilo que contm em si a base da unidade de diversos conceitos em 
juzo e, portanto, da possibilidade do entendimento, mesmo no que se refere ao seu emprego lgico" (B 131). Encontra-se na apercepo transcendental ou "o princpio 
supremo em toda a esfera do conhecimento humano" (B 135).
Kant abordou a apercepo transcendental de duas direes: (i) distinguindo-a da intuio; (ii) mostrando que ela est disposta de acordo com as categorias do entendimento. 
Intuio  a "representao que pode ser dada antes de todo pensamento", mas  destituda de sentido sem "uma relao necessria com o 'eu penso' no mesmo sujeito 
em que se encontra o [seu] mltiplo" (CRP B 132). Para que essa intuio seja a minha intuio, deve estar relacionada com um "eu penso" aperceptivo. O "eu penso", 
entretanto, " um ato de espontaneidade" que no se origina na sensibilidade nem lhe est vinculada.  o produto de uma apercepo "pura" ou "originria", a saber, 
"aquela autoconscincia que, embora gerando a representao "eu penso" ... "no pode ela prpria ser acompanhada por qualquer representao ulterior" (B 132). O 
"eu penso" da apercepo transcendental permite que as intuies sejam consideradas objetos prprios do conhecimento;  tambm a condio para sua sntese pelo entendimento.
O "eu penso" da apercepo transcendental permite que as intuies pertenam a um sujeito e lhe sejam proporcionadas para combinao atravs do juzo. Assim, nas 
palavras de FS, ela faz com que "as nossas prprias representaes se convertam em objetos de nossos pensamentos" (FS p.60, p. 104), mas s podem fazer isso de acordo 
com as categorias ou funes do juzo. Estas originam-se em apercepes transcendentais; na verdade, o entendimento "pode produzir uma unidade a priori de apercepo 
somente por intermdio de um certo nmero de categorias" (CRPB 145). A apercepo transcendental permite que as intuies pertenam a um sujeito e  distribuda 
de acordo com categorias;  tambm a base para a unidade de conceitos e intuies em juzos.
O estudo da apercepo provou ser crucial para o desenvolvimento do idealismo alemo. A nfase sobre a autoconscincia foi transformada no idealismo subjetivo de 
Fichte, no qual a autoconscincia subjetiva era o fundamento para a derivao das intuies, conceitos e idias na Doutrina da cincia (1794). Em Kant, porm, a 
apercepo serviu apenas como base para combinao em juzo: permitiu que intuies pertencessem ao sujeito e foi a fonte dos conceitos a priori do entendimento, 
embora fornecendo tambm a base para a sua combinao em juzo. No podia ser ainda mais determinada, embora Kant fosse extremamente cuidadoso em distinguir a apercepo 
de qualquer forma de intuio intelectual.
a priori/a posteriori            35
apodcticos, juzos ou proposies ver tambm ASSENTIMENTO; CATEGORIAS; CERTEZA; CONSCINCIA; EFETIVIDADE; JUZO; NECESSIDADE; SABER Juzos e proposies apodcticos 
so aqueles "que esto vinculados  conscincia de sua necessidade" (CRP B 41). Contrastam com juzos problemticos e assertricos, correspondendo todos os trs 
s categorias modais de possibilidade (problemtica), efetividade (assertrica) e necessidade (apodctica). Cada uma delas  caracterizada por um . distinto modo 
de anuncia subjetiva com a, ou "conscincia de", reivindicao de verdade ou "assentimento" (Frwahrhalten) de um juzo. Essa conscincia  necessria, assertrica 
ou problemtica: a primeira anui com a certeza de um juzo, a segunda com o seu status incerto mas subjetivamente suficiente, a terceira com o seu status incerto 
e objetivamente insuficiente. Certeza  o assentimento caracterstico do conhecimento universal e objetivo; gera um conhecimento apodicticamente certo. Acredita-se 
que a incerteza subjetivamente suficiente  verdadeira e gera a crena assertrica, ao passo que a incerteza insuficiente  problematicamente sustentada como verdadeira 
e s produz opinio.
apreenso ver SNTESE
apresentao [Darstellung] ver tambm ANALOGIA; CONSTRUO; BSQUEMA(TISMO); HIPOTIPOSE; JUZO; REPRESENTAO; SNTESE
Apresentao  uma funo especfica do juzo determinante, o qual consiste na apresentao (exhibitio) de uma intuio que corresponde a um dado conceito (ver CJ 
vm). A natureza da apresentao  ainda mais pormenorizada em PI, onde  situada em relao aos "trs atos da faculdade espontnea de cognio". O primeiro ato 
 a "apreenso (ap-prehensio) do mltiplo de intuio", a qual requer imaginao; o segundo  a sntese ou "a unidade sinttica da conscincia desse mltiplo no 
conceito de um objeto"; enquanto o terceiro ato  a "apresentao (exhibitio) na intuio do objeto correspondente a esse conceito" (p.220, p.24).  um dos grupos 
de termos que Kant usa para descrever as relaes extremamente complexas entre conceito e intuio, e que permite a realizao de sua sntese.
a priori/a posteriori ver tambm CONCEITO; DEDUO; EXPOSIO; INTUIO; JUZO; LGICA; METAFSICA; ONTOLOGIA; PURO; SABER; SNTESE
A distino entre a priori e a posteriori no sculo anterior a Kant era usada para distinguir entre modos de demonstrao lgica: "Quando a mente raciocina de causas 
para efeitos, a demonstrao  chamada a priori; quando de efeitos para causas, a demonstrao  chamada a posteriori" (Arnauld, 1662, p.301). De um modo geral, 
ainda era usada nesse sentido por Wolf e Baumgarten em meados do sculo XVIII, e foi esse o uso criticado por Hume no Tratado da natureza humana (1739). Kant ampliou 
consideravelmente a distino em CRP, onde a noo de a priori desempenha um papel fundamental. Ao passo que os dois termos se referiam tradicionalmente a formas 
de demonstrao e, de maneira adicional, na escola wolffiana, s espcies de conhecimento adquirido nessas demonstraes, Kant ampliou-lhes o mbito para alm das 
espcies de conhecimento, quando passaram a incluir tambm, primeiro, os juzos e depois, de um modo mais significativo, os prprios elementos do conhecimento (intuies 
e conceitos).

36           a prori/a posteriori
Para Kant, o conhecimento e os juzos a posteriori no apresentam qualquer problema para a filosofia. "A possibilidade de juzos sintticos a posteriori, daqueles 
que so colhidos da experincia, [como juzos analticos] tampouco requer explicao especial; pois a experincia nada mais  do que uma contnua juno (sntese) 
de percepes" (p 5). Tal conhecimento e seus elementos so derivados da experincia, assentando a sua sntese no "costume" ou "associao". Kant est preparado 
para aceitar as objees de Hume quanto  validade dessa forma de conhecimento, mas defende a validade do conhecimento a priori e seus juzos e elementos constituintes. 
Portanto, a maior parte da anlise de Kant da distino entre a posteriori e a priori concentra-se no carter do a priori. A escolha desse enfoque foi motivada pelo 
desejo de defender o carter sinttico a priori dos juzos que compem a metafsica.
O critrio tradicional para distinguir entre as duas formas de demonstrao segundo se desloquem de causa para efeito ou vice-versa deixou claramente de ser vlido 
para Kant. Assim, ele desenvolve novos critrios para um conhecimento a priori: este  (a) puro e (b) universal e necessrio. Os critrios so empregados separadamente 
mas  mais freqente serem-no juntos, com a adoo ocasional de um critrio a fim de sustentar, ile-gitimamente, um argumento favorvel ao outro.
O argumento para a pureza do conhecimento, juzos e elementos a priori sustenta que eles so modos "claros e certos" de conhecimento independente da experincia. 
"Surgiram de forma completamente apriorstica, sem levar em conta qualquer contribuio derivada da experincia," em contraste com os modos a posteriori do conhecimento, 
os quais "recorrem exclusivamente  experincia" (CRP A 2). So independentes da experincia na medida em que no contm qualquer "ingrediente" de sensibilidade 
e que no podem ser derivados dela. Kant argumenta ainda que no s so esplendidamente independentes da experincia - "conhecimento absolutamente independente de 
toda a experincia" (CRP B 3) - mas constituem at a condio de experincia.
A pureza dos elementos do conhecimento a priori  demonstrada por um processo de abstrao. As "formas puras de intuio sensvel em geral" - espao e tempo - so 
descobertas ao extrair-se da experincia "tudo o que o entendimento pensa atravs de seus conceitos", ao "isolar-se" assim a sensibilidade e "separar-se" tudo o 
que pertence  sensao, de tal maneira que nada mais reste seno a pura intuio e a mera forma de aparncias, que  tudo o que a sensibilidade pode fornecer a 
priori (CRP A 22/B 36). O mesmo vale para os conceitos ou "categorias" a priori que so "as condies a priori sobre as quais assenta a possibilidade de experincia, 
e as quais permanecem como suas bases subjacentes quando todas as coisas empricas so abstradas das aparncias" (A 96). Entretanto, estabelecer a pureza de princpios 
a priori requer um critrio, pois de que outra forma se pode saber que o processo de abstrao atingiu o seu trmino no a priori?
Os critrios de universalidade e necessidade so usados para registrar a chegada a um juzo ou elemento a priori. Se essa intuio ou conceito vale necessariamente 
para toda experincia, diz-se ento que  um a priori. Numa oportunidade, na "Segunda Introduo", Kant passa do conhecimento a priori para juzos, para conceitos, 
e termina com uma "faculdade de conhecimento a priori". Ele comea: "Necessidade e estrita universalidade so, assim, critrios seguros de um conhecimento a priori 
e so inseparveis um do outro" (CRP B 4). Depois declara: " fcil mostrar que existem realmente no conhecimento humano juzos que so necessrios e, no sentido 
mais estrito, universais, e que
a priori/a posteriori            37
so, portanto, juzos a priori puros" (CRP B 4), e cita o exemplo de proposies matemticas. Da anlise do conhecimento e juzos a priori, Kant passa rapidamente 
a tratar das provas da existncia de princpios a priori. A primeira prova recorre ao seu papel necessrio na experincia: " possvel mostrar que os princpios 
a priori puros so indispensveis para a possibilidade de experincia, e assim provam sua existncia a priori. Pois donde poderia a experincia derivar sua certeza, 
se todas as regras, de acordo com as quais ela progride, fossem sempre elas prprias empricas e, portanto, contingentes?" (CRP B 5). Neste caso, a pureza do a priori 
 usada para sustentar sua universalidade e necessidade. A segunda prova desenvolve-se por meio de abstrao. A prova de uma forma apriorstica de intuio extrai 
de um corpo emprico todas as suas qualidades at chegar ao espao como seu resduo inevitvel ou forma a priori de intuio. A prova de um conceito a priori extrai 
de um objeto "todas as propriedades que a experincia nos ensinou" a fim de chegar ao conceito ou categoria a priori de, neste caso, substncia (B 5-6).
 prova da pureza ou universalidade e necessidade de uma forma apriorstica de intuio d-se o nome de exposio, enquanto  de um conceito apriorstico de entendimento 
ou categoria chama-se uma deduo. Se princpios ou elementos a priori podem ser estabelecidos atravs de exposio e deduo, ento Kant pode reivindicar que no 
s estabeleceu a existncia de princpios a priori mas tambm determinou a sua importncia. Entretanto, os seus argumentos na "Doutrina transcendental dos elementos" 
provocaram um enorme debate que no mostra sinais de apaziguamento. Em jogo est uma explicao de conhecimento justificado que no  emprica nenridealista. Grande 
parte do debate envolveu a origem dos princpios a priori e sua universalidade e necessidade. A origem no reside na sensibilidade ou experincia (Locke), nem em 
Deus (Descartes e Malebranche), nem mesmo em idias "inatas" (Leibniz e Wolff).
Uma das principais razes para a longevidade do debate  a ambgua e, com freqncia, enigmtica explicao da origem da universalidade a priori que Kant oferece 
em seus escritos publicados. Entretanto, estes podem ser elucidados por consulta s suas notas e reflexes no publicadas. Em CRP, Kant relaciona a fonte da universalidade 
e necessidade a priori com a atividade espontnea do sujeito, mas suas notas inditas so menos inibidas: "Todas as nossas aes e as de outros seres so inevitveis, 
somente o entendimento (e a vontade, na medida em que pode ser determinada pelo entendimento)  livre e uma atividade espontnea pura que no  determinada por nenhuma 
coisa salvo por si prpria. Sem essa espontaneidade originria e imutvel, nada saberamos a priori..." (R 5441). Aqui, o problema terico do a priori est inequivocamente 
vinculado  espontaneidade e liberdade, e atravs destas  filosofia prtica. Assim, a questo do a priori ameaa dissolver a distino entre filosofia terica e 
prtica, um passo que foi dado por herdeiros idealistas imediatos de Kant.
Fichte localizou o a priori na atividade simultaneamente terica e prtica do sujeito. Sua tese teve um grande impacto no neokantismo de meados para final do sculo 
XIX, o qual estabeleceu, em grande parte, a agenda para a nfase dos estudos kantianos do sculo XX sobre os problemas da exposio e da deduo. O influente livro 
de Hermann Cohen, Kants Theorie der Erfahrung (1871) adotou como seu tpico programa provar "de novo a teoria de Kant de a prioridade". Isso fazia parte de uma tendncia 
geral para procurar novas fontes a priori de universalidade e necessidade, seja em psicologia, fisio-logia ou sociologia. Um influente desenvolvimento foi iniciado 
por Frege, que transferiu

38            aquisio
a nfase da origem da universalidade e necessidade a priori para a justificao de juzos apriorsticos. Ao proceder assim, Frege retornou inconscientemente ao problema 
original de Kant de estabelecer critrios para juzos a priori, um retorno sacramentado pela definio pr-kantiana de Wittgenstein de uma verdade a priori como 
sendo "uma cuja possibilidade garantiu sua verdade" (1922, 3.04).
aquisio [Erwerbung] ver tambm DEDUO; DIREITO; IDIAS INATAS; PROPRIEDADE; QUAESTIO QUID JRIS
Este termo, traduzido do direito privado romano, sofre uma metamorfose peculiar na filosofia de Kant. Ele traslada a exposio jurdica das formas como podem ser 
adquiridos os direitos em coisas e sobre pessoas - discutidos na seo de MC sobre "Direito privado" (especialmente  10) - para uma estrutura que lhe possibilita 
analisar a aquisio e justificao de conceitos tericos e prticos. A filosofia crtica  vazada como um "tribunal crtico que assegurar  razo suas reivindicaes 
legtimas e repelir todas as pretenses destitudas de fundamento" (CRP A xii), um tribunal que estabelecer um "inventrio de todas as nossas possesses atravs 
da razo pura" (A xx).
Em Dl, Kant distingue o seu ponto de vista sobre a aquisio de conceitos do adotado pela tradio empirista, declarando que "sem a menor dvida, cada um dos conceitos 
foi adquirido, no, na verdade, por abstrao de se sentir os objetos (pois a sensao fornece a matria e no a forma da cognio humana), mas pela prpria ao 
da mente, a qual coordena o que por ela  sentido, fazendo-o de acordo com leis permanentes" (Dl 15). Essa passagem focaliza igualmente as origens de conceitos 
atravs da atividade coordenadora da mente e & justificao de sua posse de acordo com "leis permanentes". Na "Deduo transcendental" de CRP, como um todo,  a 
segunda abordagem - a justificao da posse de conceitos - que predomina  guisa de deduo dos conceitos puros do entendimento.
Em CRP, Kant refere-se  distino jurdica entre a questo de direito (quidjris) e a questo de fato (quidfacti). O enunciado da "pretenso legal"  posse de um 
conceito - sua deduo -  complicado pelo interdito da filosofia crtica contra qualquer recurso ou apelo  experincia ou  razo. No se pode recorrer s origens 
de um conceito; por outras palavras, ao seu modo original - legtimo ou no - de aquisio. Entretanto, em face das crticas a respeito da origem de conceitos, Kant, 
na dcada de 1790, admite a considerao da aquisio de conceitos no mbito da deduo ou sua justificao.
Isso  de uma evidente clareza em SD, onde Kant nega a existncia de idias inatas ou divinamente implantadas e declara-se favorvel a considerar todas as representaes 
como adquiridas. Estas incluem as formas de intuio e as categorias puras do entendimento que so adquiridas num ato de "aquisio original (tal como os professores 
do direito natural o formulam)... daquilo que previamente no existia e, portanto, no pertencia a coisa alguma antes do ato" (SD, p. 221, p. 135). Esse ato de aquisio 
original, o qual distingue a concepo de Kant das origens de conceitos das explicaes empiris-tas e racionalistas, assenta o ato de aquisio em "uma base [Grundlage] 
no sujeito que torna possvel a essas representaes originarem-se dessa e no de qualquer outra maneira". Ele especifica a natureza dessa base ao distinguir entre 
formas de aquisio: as intui-es so aquisies originais cuja base  a receptividade; ao passo que os conceitos do entendimento so aquisies originais cuja 
base  "a espontaneidade de pensamento (de
arquitetnica            39
acordo com a unidade de apercepo) (SD, p.223, p. 136). Determinados conceitos, entretanto, so "aquisies derivadas" e pressupem as duas anteriores aquisies 
originais. Kant explora deliberadamente a "analogia entre a relao jurdica das aes humanas e a relao mecnica das foras motrizes" (p 58) e usa, nas palavras 
de Schopenhau-er, "expresses jurdicas latinas... para interpretar as mais secretas comoes do corao humano" (1841, p.105). Para Nietzsche, isso representou 
uma projeo antropomrfica das relaes legais humanas na natureza. Mais radicalmente, Rose argumentou que o enquadramento por Kant da natureza e da ao humana 
em termos do direito romano assinala a "fuso do dominium romano, da propriedade absoluta, com os modernos direitos subjetivos" numa noo usurpadora de liberdade 
(Rose, 1984, captulo 1).
arqutipo (archetypon, Urbild) ver tambm F; IDEAL; IDIA; IMITAO Para Kant, o arqutipo est para o ctipo como o original est para a cpia, ou como o possvel 
entendimento holstico de um intellectus archetypus para um "entendimento discursivo que tem necessidade de imagens {intellectus ectypus) (CJ 77). Entender essas 
distines  um compromisso crtico com o platonismo. Em CRP, Kant criticou a "deduo mstica" das "idias" por Plato, que, ao hipostasi-las, as converteu nos 
"arqutipos das prprias coisas" (CRP A 31 3/B 370). Kant afirma que a "fuga [de Plato] do modo ec-tpico de reflexo sobre a ordem do mundo fsico para o seu ordenamento 
arquetpico de acordo com determinados fins, isto , d acordo com idias" (CRP A 31 8/B 375), converte os "princpios regulativos" para a completude sistemtica 
do conHecimento em princpios constitutivos da origem das coisas. A crtica de Kant  filosofia prtica de Plato obedece a linhas semelhantes, ao argumentar a favor 
de uma idia do bem que serviria como princpio regulativo para "qualquer juzo quanto ao seu valor moral", mas que no seria ele prprio um arqutipo. Entretanto, 
esse princpio pode servir como arqutipo quando usado como um ideal para imitao. Em CRP, Kant descreve o homem sbio dos esticos como sendo apenas um tal arqutipo 
que serve "para a completa determinao da cpia; e no temos outro modelo para as nossas aes seno a conduta desse homem divino dentro de ns, com o qual nos 
comparamos e julgamos, e assim nos reformamos, embora jamais possamos chegar  perfeio prescrita desse modo" (CRP A 569/B 597). Em RL, o arqutipo estico foi 
substitudo por Cristo como o "arqutipo de humanidade que agrada a Deus" (p. 119, p. 109) e  nosso dever imitar. Esse entendimento do arqutipo como um ideal para 
imitao tambm se apresenta na esttica de Kant em CJ. A, ele usa a oposio de arqutipo e ctipo como um meio de distinguir entre escultura e pintura: a "base 
fundamental" de ambas  a idia esttica como "arqutipo" e seu modo de expresso como ctipo, seja na "extenso corporal" da escultura ou em sua "aparhcia quando 
projetada numa superfcie plana" caracterstica da pintura (CJ 51).
arquitetnica ver tambm FILOSOFIA; IDIA; SISTEMA; TCNICO/TCNICA A arquitetnica refere-se tanto  arte de construir um sistema de cincia baseado numa "idia 
do todo" da cincia quanto a essa mesma idia, ao seu "delineamento ou contorno geral" (L p.590). Assim, Kant combina a definio de Baumgarten de arquitetnica 
no 4 de sua Metaphysica (1739), onde ela designa a estrutura do conhecimento metafsico, com a abordagem mais metodolgica de Lambert em seu Architectonik (escuto 
em 1764, publicado em 1771), que ele v como a arte de estabelecimento de uma tal estrutura.

40            arte
Kant explora especificamente o sujeito da arquitetnica no terceiro captulo da "Doutrina transcendental do mtodo" da CRP, intitulado "A arquitetnica da razo 
pura". Designa-a a como "a doutrina do cientfico em nosso conhecimento" ou a arte de construir "um sistema a partir de um mero agregado de conhecimentos" (CRP 
A 832/B 860). O sistema  caracterizado por uma "unidade organizada", que  a finalidade  qual as partes da cincia se reportam e na qual elas se relacionam entre 
si. A finalidade arquitetnica distingue-se da "tcnica" por no ser derivada de critrios empricos resultantes de descobertas cientficas; melhor, prev-as.
No comeo de CRP, Kant j definira a razo humana como "arquitetnica" por natureza e vira todo o conhecimento como pertencente a um possvel sistema. O possvel 
sistema ou "arquitetnica" da razo humana  revelado em "A arquitetnica da razo pura" como filosofia. No filosofia tal como existe, mas filosofia como um "delinea-mento 
ou contorno geral" do sistema de razo humana. O filsofo ideal que praticasse tal arquitetnica no refletiria simplesmente sobre os produtos da razo humana - 
que seriam "tcnicos" e, portanto, a obra de um artfice - mas agiriam como "o legislador da razo humana" (CRP A 839/B 867). Kant passa depois a esboar as grandes 
linhas da arquitetnica da razo humana: ela teria dois objetos, natureza e liberdade, subscrevendo a diviso entre a filosofia da natureza que "trata de tudo o 
que , [e] a filosofia da moral daquilo que deve ser" (CRP A 840/B 868). Com esse interesse pelo sistema filosfico, Kant herdou o projeto wolffiano de filosofia 
enciclopdica ou philosophia generalis. Esse projeto era a forma como a filosofia alem defendia suas pretenses contra as distintas cincias (e faculdades) de direito, 
teologia e medicina, assim como as emergentes cincias naturais. A concepo da filosofia como um sistema arquitetnico prosperou, depois de Kant, nos sistemas de 
Fichte (1794), Schelling (1800) e Hegel (1830), mas foi abandonada em meados do sculo XIX.
arte [techne, ars, Kunst] ver tambm AO; BELEZA; ESTTICA; TCNICO/TCNICA Kant acompanha a definio de Aristteles de arte como uma aptido ou disposio para 
produzir coisas. Nessa definio, uma "obra de arte"  qualquer coisa produzida pela prtica de uma arte. Na tica a Nicmaco (Aristteles, 1941, 1140a) e nos Segundos 
analticos (100a, 3-9), Aristteles reuniu os vrios usos do termo por Plato numa rigorosa e importante distino entre a arte (techne) de produzir coisas (poiesis), 
a episteme do conhecimento terico (theoria) e a deliberao (phronesis) da ao (praxis). A arte consiste em regras generalizadas a partir da experincia e aplicadas 
 realizao de uma inteno.
Essa distino teve uma influncia extraordinariamente duradoura e muito difundida. Santo Toms de Aquino define a arte como "nada mais do que a razo correta para 
justificar que certas obras sejam feitas" (Santo Toms, 1952, II, 57,3), mas distinguiu entre as artes servis "ordenadas para trabalhos feitos pelo corpo" e as da 
alma, ou "artes liberais". Estas ltimas constituram a base dos primeiros currculos medievais das sete artes liberais divididas no trivium (gramtica, dialtica, 
retrica) e no quadrivium (aritmtica, geometria, astronomia, msica). No sculo XVIII, embora permanecesse o sentido de arte como uma aptido, era freqentemente 
ilustrada por referncia  arte de produzir poesia ou pintura. O wolffiano Philosophisches Lexicon (1737) de Meissner define Kunst [arte] como a "aptido" ou "habilidade" 
de um ser humano "para dar exis-
associao            41
tncia a uma coisa exterior a si mesma", como quando, por exemplo, "a habilidade de um poeta d existncia a um poema".
A principal discusso da arte por Kant encontra-se nas sees 43-53 de CJ. Define-a como "habilidade do homem, distinta da cincia (como aptido distinta de conhecimento) 
como a faculdade prtica da terica, como a tcnica da teoria (como a agrimensura da geometria)" (CJ 43). Ele reserva especial ateno para as belas-artes, distinguindo 
essas atividades das artesanais, que produzem sem uma inteno, e das artes mecnicas, que realizam perfeitamente sua inteno. A prtica das belas-artes produz 
obras que, paradoxalmente, "devem estar revestidas com o aspecto de natureza, embora reconheamos ser arte" (CJ 45). A considerao dessa espcie de arte produtiva 
encaminhou Kant para a sua teoria do gnio, considerado como o talento ou dote natural para produzir obras de arte corretas que, contudo, no mostram qualquer sinal 
"de que o artista tenha tido sempre uma regra presente para elas".
Kant classifica as belas-artes por uma analogia com os trs meios atravs dos quais os seres humanos se comunicam entre si: atravs da fala, do gesto e do tom. As 
artes da fala so a retrica e a poesia, as do gesto (ou "artes formativas") incluem as artes plsticas da arquitetura e da escultura e a arte da pintura, ao passo 
que as artes tonais incluem as da msica e da cor. Tambm admite a existncia de artes mistas, A chave para entender essas divises est em recordar que elas se 
referem a aptides pu prticas e no primordialmente a objetos. Pode ser dito o mesmo de sua referncia em CRP ao esquema-tismo como "uma arte escondida nas "profundezas 
da alma humana" (A 141/B 181) -  uma habilidade ou uma atividade que produz esquemas, e no um objeto em si.
A filosofia da arte de Kant  freqentemente confundida com a sua explicao da esttica ou sua anatomia do juzo esttico. Isso permitiu que muitos dos seus sucessores, 
incluindo Schiller e Hegel, o criticassem por elaborar uma esttica que exclua a produo de obras de arte. De fato, a sua explicao combina aspectos da tradicional 
noo aristotlica de arte como habilidade com a nova nfase sobre as belas-artes. Essa combinao revestiu-se de considervel importncia em recentes debates sobre 
esttica, os quais procuraram repor o elemento de habilidade nas consideraes sobre produo e recepo de arte.
assentimento [Frwahrhalten] ver tambm CERTEZA; F; JUZO; OPINIO; SABER O assentimento diz respeito  validade de um juzo, o qual pode ser subjetiva e/ou objetivamente 
suficiente, e est distribudo em trs classes distintas. A primeira  a opinio, a qual , de forma deliberada, objetiva e subjetivamente insuficiente. A segunda 
 a f, a qual , de forma deliberada, objetivamente insuficiente mas subjetivamente suficiente. A terceira  o conhecimento, a qual  subjetiva e objetivamente 
suficiente ou "certa" (CRP A 822/B 850). Cada classe tem: (a) o seu prprio objeto - questes de opinio, f e conhecimento (CJ 91); (b) sua prpria modalidade 
particular de juzo - a opinio  hipottica, a f  assertrica, o conhecimento apodctico (L p.571).
assertrico ver APODCTICO; JUZO; NECESSIDADE
associao ver tambm AFINIDADE; IMAGINAO; PSICOLOGIA; SNTESE
Fenmeno psicolgico que consiste na reunio de diferentes objetos de conscincia, a
associao foi mencionada por Plato e Aristteles em ligao com a mnemnica, mas

42            tomo
veio a desempenhar um importante papel na epistemologia empirista. Locke distinguiu entre associaes naturais (simultneas) e associaes adquiridas (sucessivas) 
de idias, sendo as ltimas devidas ao acaso ou costume. Hume tambm devotou considervel ateno  associao, concentrando-se nas relaes de acordo com as quais 
as idias eram associadas entre si.
A associao no desempenhou um papel importante na epistemologia de Kant por causa, em grande parte, do seu interesse em justificar juzos apriori sintticos. A 
associao  um fenmeno psicolgico ou emprico que no ocupa um lugar proeminente na justificao transcendental desses juzos. Com efeito, em CRP, Kant criticou 
Locke e Hume por suas preocupaes com a associao, em especial o lugar dado pelo segundo ao costume, "o qual resulta da repetida associao na experincia" (CRP 
A 94/B 127). Kant contenta-se em conceder  associao um lugar na sntese como "a base subjetiva e emprica de reproduo de acordo com a regra" na imaginao reprodutiva 
emprica. Entretanto, mesmo essa regra emprica de associao no  para ele auto-suficiente e est sempre sujeita  questo transcendental "Como  possvel esta 
associao?" (CRP A 113). A resposta  que ela tambm possui uma base na afinidade transcendental, da qual a base emprica  mera conseqncia (CVRP A 114). Assim, 
a associao  uma questo relativamente perifrica para Kant, embora tenha sido o sujeito de considervel interpretao de crticos que trabalham no mbito da tradio 
empirista.
tomo ver CONTINUIDADE; DIVISIBILIDADE; MATRIA; MNADA
atrao ver FORA; IMPENETRABILIDADE
Aufklarung ver ILUMINISMO
autonomia [Autonomie] ver tambm ESPONTANEIDADE; IMPERATIVO CATEGRICO; LIBERDADE; MANDAMENTO; VONTADE
A pioneira ideologia moderna da autonomia poltica desenvolvida por Maquiavel nos Discursos (1531) combinou dois sentidos de autonomia: o primeiro era a liberdade 
de dependncia, o segundo o poder de autolegislar. Os aspectos polticos da autonomia assim desenvolvidos no contexto da moderna cidade-estado receberam de Lutero, 
comZ,!-berdade de um cristo (1520), seu complemento na vida espiritual. Para ele, autonomia como liberdade da dependncia foi traduzida pela "espiritual, nova e 
interior liberdade do homem do corpo e suas inclinaes, assim como a liberdade para obedecer  lei de Deus" (Lutero, 1961, p.53). A descrio de Kant da autonomia 
em sua filosofia prtica marca, por seu turno, uma transposio filosfica e crtica da autonomia religiosa de Lutero para a autonomia moral.
A filosofia prtica de Kant combina os dois aspectos da autonomia numa explicao da determinao da vontade. A sua posio emergiu da crtica a um certo nmero 
de perspectivas ento predominantes. Estas incluram a sua oposio pr-crtica s explicaes de ao moral propostas pelas idias perfeccionistas e radicais dominantes 
da escola wolffiana e pela teoria britnica - sua contempornea - do senso moral; sua crtica aos apelos teolgicos pietistas .vontade de Deus; e, finalmente, ao 
ponto de vista de Montaigne sobre a importncia do costume na ao humana. Kant identificou mais tarde
axiomas da intuio            43
todas essas explicaes como baseadas em "princpios heternomos" e procurou desenvolver uma filosofia moral fundamentada num "princpio autnomo" de autolegislao.
A oposio entre princpios heternomos e autnomos persiste em toda a filosofia moral de Kant. Em FMC, uma vontade autnoma concede a si a sua prpria lei e  distin-guida 
de uma vontade heternoma cuja lei  dada pelo objeto "por causa de sua relao com a vontade" (FMC, p.441, p.45). No ltimo caso, as mximas da vontade dependem 
 de princpios heternomos, que Kant identifica em termos das explicaes contemporneas de ao moral acima citadas. As primeiras so "extradas do princpio de 
felicidade e baseiam-se em sentimento ou fsico ou moral", enquanto as ltimas so "aduzidas do princpio de perfeio, [e] baseadas ou no conceito racional de perfeio 
como um possvel efeito da nossa vontade ou ento no conceito de uma perfeio independente (a vontade de Deus) como causa determinante da nossa vontade" (FMC p.442, 
p.46). Os princpios heternomos somente produzem imperativos hipotticos - "Eu devia fazer alguma coisa porque quero fazer alguma outra coisa" - em vez dos imperativos 
categricos do princpio autnomo, o qual abstrai de todo e qualquer objeto da vontade.
O princpio autnomo do imperativo categrico comanda a sua prpria autonomia e nada mais. O princpio de autonomia  enunciado como "Escolher sempre de tal maneira 
que, na mesma volio, as mximas da escolha estejam, ao mesmo tempo, presentes como uma lei universal" (FMC p.440, p.44). Semelhante princpio s  possvel "na 
pressuposio da liberdade da vontade" (FMC p.461, p. 60), a qual estabelece "a autonomia da vontade como condio formal sob cuja gide somente a vontadepode ser 
determinada" (p.461, p.60). Isso significa que a vontade deve querer a sua prpria autonomia e que a sua liberdade reside em ser, portanto, uma lei para si mesma. 
Essa liberdade  "inteligvel", quer dizer, "independente de qualquer determinao por causas alheias", e formal/universal na medida em que no est em qualquer 
relao com um objeto.
A purificao de Kant da vontade, eximindo-a da influncia de qualquer princpio ou objeto heternomo, tem sido sistematicamente criticada desde Hegel, em particular 
por Nietzsche (1887) e Scheler (1973). Uma tal autonomia foi vista, na melhor das hipteses, como vazia, formalista e irrelevante, e na pior como tirnica.  interpretada 
como subjugando a sensibilidade  razo e, aos olhos de Hegel, violenta ambas (Hegel, 1807). A explicao de Kant da autonomia foi, entretanto, recentemente reavaliada 
e defendida por 0'Neill (1989) como fornecendo uma adequada base metodolgica para o raciocnio terico e prtico.
axioma ver ACROAMAS; AXIOMAS DA INTUIO; PRINCPIO
axiomas da intuio ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; ANTECIPAES DA PERCEPO; CATEGORIAS; PRINCPIO; QUANTIDADE; UNIDADE Estes axiomas constituem um grupo 
de princpios que servem como regras para o emprego objetivo das categorias de quantidade. Cada grupo de categorias tem seus correspondentes princpios, os quais 
servem para determinar como as coisas devem parecer no tempo: os correspondentes s categorias de qualidade so as "antecipaes da percepo"; s de relao, as 
"analogias da experincia" e s de modalidade, os "postulados do pensamento emprico". Uma vez que a nossa experincia do mundo no pode ser diretamente categrica, 
somos incapazes de organizar a nossa experincia quantitativa em

44            axiomas da intuio
funo das categorias "unidade", "pluralidade" e "totalidade"; assim sendo, necessitamos de princpios que as harmonizem com as condies da intuio finita.
Os "axiomas" e as "antecipaes" formam os "princpios matemticos", em contraste com os "princpios dinmicos" das "analogias" e dos "postulados". Os princpios 
matemticos traduzem as categorias em princpios adequados  intuio de objetos no espao e no tempo - os princpios de grandeza extensiva e intensiva. O princpio 
condutor dos axiomas, que  tudo o que Kant nos d na CRP, est na edio A (p. 162): "Todas as aparncias so, em sua intuio, grandezas extensas", e em B (p.202): 
"Todas as intuies so grandezas extensas". Isto significa ser impossvel para uma aparncia tornar-se um objeto de intuio, a menos que possua uma grandeza extensa: 
esta ltima  uma condio tanto da experincia quanto de todos os objetos da experincia. Kant descreve a grandeza em termos do processo que vai desde a unidade 
ou "representao de uma parte", passa pela pluralidade durante um certo perodo de tempo, at chegar  realizao da totalidade ou [representao de] um todo no 
final desse perodo de tempo. D o exemplo da construo de linhas geomtricas, as quais se estendem no tempo desde um ponto inicial, atravs de uma pluralidade 
de pontos, at  formao de uma linha (CRP A 162/B 203).
Em comum com todos os princpios de Kant, os axiomas convertem predicados formais do ser em princpios temporal e espacialmente definidos de aparncias. Assim, a 
"matemtica do espao" (geometria) est fundada nas "sucessivas snteses da imaginao produtiva" (CRP A 1 62/B 203), as quais se processam a partir da unidade num 
instante do tempo, passam pela pluralidade no transcurso do tempo e chegam  totalidade no final de um perodo de tempo. At a manuteno da unidade atravs do tempo 
requer as snteses sucessivas, sem as quais a unidade sofreria uma inadmissvel mudana de qualidade
- deixaria instantaneamente de existir e converter-se-ia em alguma outra coisa. Os objetos da geometria so o produto dessa construo ao longo do tempo, tal como 
so os nmeros e a operao aritmtica da adio. As operaes que envolvem a persistncia ou mudana de grandeza so executadas por uma sntese da imaginao durante 
um perodo de tempo.
Kant conclui com a afirmao de que "A sntese de espaos e tempos" - a gerao de grandezas extensas atravs do movimento desde a unidade  pluralidade e  totalidade
- " o que torna possvel a apreenso da aparncia e, por conseguinte, toda a experincia exterior e todo o conhecimento dos objetos da experincia" (CRP A 165/B 
206). Isso coloca os axiomas em harmonia com o "princpio geral" de todos os quatro grupos de princpios, a saber, que as condies para a experincia so as condies 
para objetos da experincia.
B
beleza ver tambm ARTE; BOM; ESTTICA; TRANSCENDENTAL; UNIDADE; VERDADE No Hpias maior, Scrates resumiu o seu dilogo sobre beleza com o provrbio grego "Toda 
beleza  difcil". A principal dificuldade filosfica envolveu reconciliar a beleza como idia objetiva com o prazer subjetivo suscitado por coisas belas. No Banquete 
de Plato, a reconciliao  obtida por meio de eros, recaindo o acento sobre a experincia de beleza e o prazer por esta suscitado. O alinhamento platnico de beleza 
e eros foi contrariado pela definio mais objetivamente inclinada de Aristteles n Metafsica, onde se sustenta que "As principais formas de beleza so a ordem 
e simetria, e a definio clara" (Aristteles, 1941,1078b, 1). As duas diferenas de nfase, jsfevidentes em filosofias gregas da beleza, persistiram at e para 
alm de Kant na distino entre os enunciados subjetivos e objetivos de beleza.
A definio objetiva de beleza prevaleceu na filosofia medieval, onde a beleza era classificada como um dos transcendentais, ou aqueles atributos, incluindo o Uno, 
o Bom e o Verdadeiro, que se harmonizam com todos os gneros. Santo Toms de Aquino descreve as suas famosas trs "condies" de beleza como sendo "Integritas ou 
perfeio, devida proporo ou harmonia [consonanti] e, por ltimo, brilho ou claridade \clari-tas\..." (Santo Toms de Aquino, 1952, i, 39,8). Essas condies 
permitem que a beleza seja "conversvel" com os outros transcendentais: Integritas com o Uno, consonanti com o bom e claritas com o verdadeiro.
A concepo transcendental de beleza veio a ser subseqentemente combinada por Leibniz com a experincia de prazer; sustentou-se ento que uma perfeio objetiva 
obscuramente percebida suscitava um prazer subjetivo. Ponto de vista anlogo era tambm sustentado por Shaftesbury em Characteristics (1711). Entretanto, os sucessores 
de Leibniz e Shaftesbury foram propensos a exagerar um dos aspectos objetivos ou subjetivos de beleza. Para Wolff e sua escola, com destaque para o seu discpulo 
Baumgarten, beleza consistia em "perfeio" ou a unidade de um mltiplo. Para os seguidores de Shaftesbury, como Hutcheson, a base do "sentido" de beleza era interior, 
subjetiva, sem quaisquer correlatos objetivos bvios alm dos fornecidos pela providncia.
Kant estava muito familiarizado com ambas as explicaes de beleza desde a dcada de 1760. De um modo geral, suas reflexes pr-crticas e a explicao do conceito 
de esttica desenvolvida em L enfatizam o lado objetivo de beleza. Em L (p.547-9), coloca-se ao lado dos wolffianos ao identificar a perfeio como base para a beleza 
e ao considerar que a experincia de prazer no belo resulta da percepo sensvel, subjetiva, de

46           bom
tal perfeio. Por sua vez, a perfeio compreende a "harmoniosa unio" de "diversidade e unidade" (L p.547).
Na explanao crtica de beleza elaborada em CJ, Kant abandona a posio perfeccionista herdada dos wolffianos. Sua anlise dos juzos do belo na "Analtica do belo" 
mostra que eles no se coadunam com as explicaes subjetivas ou objetivas de beleza. Os juzos do belo so definidos negativamente em CJ, de acordo com a tbua 
de categorias como: (qualidade) aquilo que "apraz sem interesse algum" (5); (quantidade) aquilo que "apraz universalmente" sem um conceito (9); (relao) a "forma 
de finalidade num objeto... percebida nele independentemente da representao de um fim"; e (modalidade) aquilo que, sem conceito,  o objeto de uma "satisfao 
necessria" (22). Em cada caso, Kant distingue o belo das explicaes dominantes de beleza que se apoiavam numa base de perfeio ou de um sentido. Ele apresenta 
a natureza da beleza ou em termos da negao da sensibilidade e do conceito, ou em termos de formulaes paradoxais, como a de conformidade a um fim sem um fim (Zweckmssigkeit 
ohne Zweck).
Essa abordagem levou Kant a enfrentar algumas novas dificuldades com o conceito de beleza. Ao distinguir beleza de qualquer contedo, racional ou sensvel, limitou 
severamente o seu mbito. Se o contedo sensvel desempenhasse qualquer papel, ento o objeto deixaria de ser belo para ser apenas agradvel; se o conceito estivesse 
envolvido, ento o belo seria convertido, com extrema facilidade, no racional. Se pudessem existir, tais belezas seriam "dependentes" e contrastariam com as belezas 
"livres" que "nada representam" e, rigorosamente falando, no podem sequer ser artefatos. Por conseguinte, Kant, aos olhos de muitos crticos, pareceu estar privilegiando 
indevidamente a beleza da natureza em detrimento da beleza da arte, mesmo naquelas ocasies em que tenta resgatar a beleza da arte ao insistir em que ela se apresenta 
como se fosse natural. Numa celebrada ocasio (CJ 59), tambm afirmou ser a beleza um "smbolo da moralidade", precisamente por causa de suas propriedades paradoxais. 
Neste caso, a beleza permite que o juzo encontre "uma referncia a algo no prprio sujeito e fora dele, que no  natureza nem tampouco liberdade mas est, no 
obstante, ligado  base desta ltima, isto , o supersensvel..." (CJ 59).
A influncia da definio de Kant de beleza foi enorme, em parte por causa de sua habilidade em significar tudo para todos. Para os idealistas alemes, assinalou 
a tentativa de unir os domnios da natureza e da liberdade e ocupa um papel de destaque em Schiller, Schelling e Hegel. No final do sculo XIX e comeos do XX, o 
foco da terceira crtica sobre a pureza do juzo do belo encareceu-a aos olhos dos neokantianos e, depois da li Guerra Mundial, foi usada pelo crtico Clement Greenberg, 
entre outros, como justificao terica para a arte abstrata. Como resultado, a definio de Kant de beleza continua a servir como ponto de partida para muita reflexo 
filosfica sobre o belo e talvez menos a despeito de suas incongruncias e deficincias do que por causa delas.
bom [Gut] ver tambm AGRADVEL; DEVER; FILOSOFIA PRTICA; FORMALISMO; MAL; SUMO BEM; VONTADE BOA
Em CJ 4, Kant define o bom como "aquilo que apraz por intermdio da razo, pelo mero conceito" e distingue entre "bom para algo" e "bom em si". Distingue tambm 
entre o agradvel e o bom em termos da presena ou no de um fim: o agradvel diz respeito  relao entre um objeto e o sentido, o bom  relao subentendida em 
"um conceito de
bom            47
um fim... como um objeto de vontade". Em outra ocasio, em TP, Kant desenvolve esses
pensamentos numa rigorosa distino entre bom absoluto e bom relativo; ou seja, entre
algo absolutamente bom em si, oposto ao que  mau em si" e algo "relativamente bom
oposto a algo mais ou menos bom do que ele mesmo" (TP p.278, p.67). Ele distingue en-
Sto7do H ^ U "bfnda a ^ld categric-te imperativa do livreTb "o (isto e, do dever) sem referncia a qualquer fim ulterior", o que  "bom em si" e o bZ relativo 
da busca de felicidade em que "nenhuma lei  absolutamente mpert va mS sempre relativa ao fim adotado" (TP p.278, p.67). O bom absoluto despreza qu^ZS fins particulares 
ou substantivos e  puramente formal. Isso significa que a detSS
lZ 7 rHCred0^r^(St'^bJetobsicfdetenlado)nTapta forma de legalidade universal consubstanciada em sua mxima" (TP p.27a p 68) Esta
compor T * ^^ * ^ d ^ * "* Verdade> ' (tm) ^sL  como um todo acabassem por ser criticadas como formalistas.

c
cnone ver tambm ANALTICA; DISCIPLINA; JUZO; LGICA; METAFSICA; REGRA A base histrica do contraste de Kant entre cnone e organon  a crtica do Organon aris-totlico 
por Epicuro (341-271 a.C). Em lugar do Organon de Aristteles, o qual apresentou regras para adquirir o saber demonstrativo, Epicuro props um cnone das regras 
para efetuar juzos corretos. O seu texto sobre o assunto intitulava-se O cnone e compreendia vrias normas e critrios para discriminar entre juzos falsos e verdadeiros 
(Digenes Larcio, 1925, vol.li, p.559-61). Epicuro distinguiu a cannica da dialtica, considerando-a mais preocupada com a correo do juzo do que com a extenso 
do saber.
Kant formaliza essa distino histrica em CRP, embora aluda s suas origens em L, onde se refere  lgica como a "arte universal da razo (cannica Epicuri)" (L 
p.529). A sua prpria distino formal entre cnone e organon permanece muito prxima do seu precedente histrico. A analtica transcendental, por exemplo, foi concebida 
no esprito do cnone de Epicuro como um meio de distinguir entre juzos verdadeiros e falsos, "para ajuizar do uso emprico do entendimento" (CRP A 63/B 88). No 
se prope, como o Organon aristotlico, a ditar regras para a ampliao do entendimento; com efeito, para Kant,  abusivo "dar-lhe o valor de organon para um uso 
geral e ilimitado" (A 63/B 88).
Na seo de CRP sobre "A doutrina transcendental do mtodo" - captulo II, "O cnone da razo pura" - Kant identifica "o proveito maior e talvez nico de uma filosofia 
da razo pura" como sendo um cnone que "no serve de organon para alargar os conhecimentos mas de disciplina para lhes determinar os limites" (A 795/B 823). Ele 
descreve a parte analtica da lgica geral como "um cnone para o entendimento e a razo em geral", e a analtica transcendental como um "cnone do entendimento 
puro; pois s o entendimento  capaz de verdadeiros conhecimentos sintticos a priori" (A 796/B 825). Passa depois a considerar o cnone da razo pura, o qual s 
pode ser aplicado no contexto do emprego prtico da razo. O cnone da razo pura trata de duas indagaes relativas ao interesse prtico, a saber, "Existe um Deus?" 
e "Existe uma vida futura?" (A 803/B 831). Essas indagaes esto traduzidas nos dois critrios do cnone da razo pura: "o que devo fazer?" e "o que posso esperar?" 
(A 805/B 835), os quais geram os postulados da existncia de Deus e de uma vida futura.
A noo do cnone recebido de Epicuro pode ser ampliada a fim de caracterizar todo o empreendimento crtico. Pode-se dizer que a filosofia crtica oferece as regras 
ou critrios para distinguir entre juzos verdadeiros e falsos, embora no proponha imediatamente uma exposio sistemtica dos juzos corretos e os meios a usar 
para ampli-los.
casamento            49
Nesse sentido, pode-se dizer que a disciplina da cannica de Epicuro foi ressuscitada pela filosofia crtica e continuada nas disciplinas crticas inspiradas por 
ela.
carncias [Bedrfnisse] ver tambm INCLINAO; INTERESSE; VONTADE Em FMC, Kant relaciona necessidades com inclinaes, considerando que umas e outras so resultantes 
da "dependncia em que a faculdade de apetio est de sensaes" * (p.413, p.14). Nessa ocasio, ele v a inclinao como "indicando" uma necessidade, ao passo 
que numa outra considera as necessidades como "fundamentadas" na inclinao (p.428, p.35). H provavelmente pouca coisa em jogo em qualquer debate sobre a que deve 
ser dada prioridade.
casamento ver tambm CONTRATO; DIREITO; JUSTIA; MULHER; SEXO; VIDA EXTRATERRESTRE
Em MC, Kant apresenta uma descrio rigorosamente secular e contratual do sacramento cristo do casamento, arrolando-o entre os "direitos a pessoas semelhantes aos 
direitos a coisas" (MC p.276, p.95). Essa classe de direitos prprios do direito privado acarreta a "posse de um objeto externo como uma coisa e us-la como uma 
pessoa" (M.), e  exercida por homens que adquirem esposas, casais que adquirem filhos e famlias que adquirem criadagem. Entretanto, embora Kant fale do marido 
adquirindo uma esposa, ele sublinha a igualdade da posse detida por ambas as partes num casamento; marido e mulher esto formal e igualmente comprometidos um com 
o outro^ assim como constituem possesses um do outro; sua posse mtua como pessoas e como coisas  expressa nas relaes sexuais; com efeito, Kant define o casamento 
desapaixonadamente como "a unio de duas pessoas de diferentes sexos para a posse, por toda a vida, dos atributos sexuais recprocos" (p.278, p.96). Manifestamente, 
enquanto mantm relaes sexuais, cada parceiro desfruta do outro ao adquirir e ser adquirido por esses atributos, como se fossem coisas. Mas para respeitar a humanidade 
do cnjuge como "um fim em si mesmo"  necessrio que o ato de aquisio seja suplementado contratualmente pelo compromisso para toda a vida.
O carter peculiar do casamento como um direito pessoal  posse de um outro ser humano como se fossem o objeto de um direito a uma coisa tem conseqncias interessantes 
para a aquisio de um marido ou de uma esposa. Kant nada diz sobre o livre consentimento de parceiros num contrato matrimonial, mas argumenta que o contrato requer 
ttulo legal e posse real. Assim, no pode ter lugar 'Jacto (por relaes sexuais) sem um contrato que o preceda, nempacto (por um mero contrato matrimonial sem 
que as relaes sexuais se lhe sigam) mas somente lege" (MC p.280, p.98); ou seja, atravs de um contrato legal seguido pela posse em relaes sexuais. A ausncia 
de qualquer papel importante para o consentimento no contrato matrimonial leva  omisso de qualquer discusso do divrcio (mas veja, excepcionalmente, E, p. 169). 
Com efeito, a posse da pessoa do cnjuge requer um compromisso por toda a vida, legalmente exeqvel, do qual Kant diz que "se um dos parceiros num casamento se 
afastou ou se entregou  posse de outrem, o outro parceiro est justificado, sempre e indubitavelmente, em repor o seu parceiro sob o seu controle, da mesma forma 
que est justificado em recuperar uma coisa que lhe pertencia" (MC p.278, p.97).
Embora gerar filhos no seja requisito para o casamento - "se assim no fosse, o casamento dissolver-se-ia quando a procriao cessasse" (MC p.277, p.96) -, com 
a procriao os pais incorrem na obrigao de criar os filhos. Parte dessa obrigao acarre-

50            categorias
ta uma limitao  liberdade dos pais de destrurem seus filhos "como se fossem algo que eles tinham feito", porque a criana  um "ser dotado de liberdade" (MC 
p.281, p.99). Entretanto, num outro ponto de MC, Kant descreve um filho nascido fora do casamento como "fora da proteo da lei" e "mercadoria de contrabando" que 
pode, com efeito, ser destruda pela me como se fosse uma coisa (ver MC p.336, p.144). Neste ponto, a impresso que fica  como se a "dotao de liberdade" s valesse 
se a criana nasce dentro da lei. Essa noo de cidadania como dependente de se ter nascido dentro do casamento sugere que um aspecto do direito pblico foi introduzido 
sub-repticiamente na definio do contrato de casamento pelo direito privado.
Quando Kant desvia sua ateno dos aspectos formais do contrato de casamento para as relaes reais entre marido e mulher que constituem a "sociedade domstica" 
da famlia e seus dependentes, sua posio torna-se claramente tendenciosa, contrria aos ditames de uma formao liberal. Em seus anteriores comentrios sobre casamento 
em OBS, ele descreve o papel da esposa como o de provedora de "conversao amena e pra-zenteira", embora "governada pelo entendimento do marido" (OBS, p.95). Em 
MC, Kant  mais explcito, no enxergando qualquer conflito entre a igualdade formal do contrato matrimonial e a "superioridade natural do marido sobre a esposa 
para promover o interesse comum da famlia e seus dependentes" (MC p.279, p.98). Depois do contrato de casamento, o marido dirigir os negcios da famlia e da casa 
em virtude do seu entendimento superior, ao passo que a esposa fornecer amena conversao, sexo e filhos.
A cmica perversidade da tentativa de Kant de vazar o casamento nos moldes das categorias do direito contratual tem sido a fonte de considervel soma de divertimento. 
Um belo exemplo  o poema de Brecht "Sobre a definio de Kant de casamento na Metafsica dos costumes", onde ele imagina cnjuges indo  presena dos intendentes 
para reclamar de rgos sexuais defeituosos ou insatisfatrios. Mais seriamente, pode-se ler como tentativa contraditria para traduzir as caractersticas do casamento 
sacramentai - fidelidade, compromisso irreversvel por toda a vida e filhos legitimados - em termos contratuais, enquanto, ao mesmo tempo, compreende os elementos 
consensuais que definem os contratos pessoais. O elemento consensual em um tal contrato abala os prprios aspectos sacramentais que Kant desejou consolidar com sua 
engenhosa descrio do casamento como uma combinao de direitos pessoais e reais.
categorias [Kategorien] ver tambm ANALTICA; DEDUO; JUZO; LGICA; PRINCPIO; SNTESE; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
Categorias so as formas de acordo com as quais os objetos de experincia so estruturados e ordenados. O termo grego clssico kategorein significava "acusar", "dizer 
de" ou "julgar", e foi adotado por Aristteles para descrever os modos como era possvel falar de ser. Em Categorias [um dos seis tratados do Organori], ele props 
uma lista de dez de tais "categorias": substncia, quantidade, qualidade, relao, lugar, tempo, posio, estado, ao e afeco. Mesmo no perodo clssico, essa 
lista j era criticada por conter repeties, e tentativas foram feitas para reduzir o nmero de categorias, em muitos casos a uma nica oposio, como "substncia 
e acidente", "matria e forma" ou, como no caso de Plotino, "movimento e estabilidade" (Plotino, 1971, p.253). Essas redues eram, em certa medida, sustentadas 
por passagens extradas de algumas das outras obras de Aristteles.
Atravs da traduo de Bocio das Categorias de Aristteles, o esquema das 10 categorias exerceu uma enorme influncia sobre o desenvolvimento da filosofia medie-
categorias             51
vai europia em seus comeos. Entretanto, com a expanso do corpus aristotlico disponvel em latim durante o sculo xm, discerniu-se uma tenso entre a descrio 
de Aristteles do ser em termos das categorias e suas outras descries mais econmicas do ser em termos tais como "substncia e acidente". A autoridade de Aristteles 
obrigou filsofos como Santo Toms de Aquino e Duns Scotus a reconciliar as categorias com outros aspectos da ontologia aristotlica, com resultados complexos e 
muitas vezes desconcertantes. O carter cada vez mais barroco da doutrina das categorias foi um importante fator na rejeio da escolstica pelos primeiros filsofos 
modernos, como Hob-bes e Descartes. Suas razes para rejeitarem as categorias aristotlicas foram resumidas em meados do sculo xvn por Arnauld, que declarou que 
as categorias, "sobre as quais tanto mistrio foi feito", "s ligeiramente ajudam na formao do juzo, a verdadeira finalidade da lgica". Mais que isso, elas so 
"inteiramente arbitrrias e fundadas na imaginao de um homem que no tinha autoridade para prescrever uma lei para outros" (Arnauld, 1662, p.43) e encorajam os 
filsofos a falarem com autoridade sobre "classificaes arbitrrias", em vez de sobre as prprias coisas.
As categorias foram resgatadas do oprbrio geral por sua ressurreio em CRP, um notvel episdio no que Tonelli (1964) descreveu como "o renascimento do vocabulrio 
germano-aristotlico". Para resgatar as categorias do predominante descrdito em que caram, Kant tinha de responder s, por assim dizer, objees feitas por Arnauld, 
e no s distinguir sua tbua de categorias da "rapsdia" aristotlica mas tambm mostrar que elas se revestiam de autoridade e contribuam para a "formao dojuzo". 
Essa tarefa requeria que ele se ocupasse (a) da derivao das categorias - elas no podiam continuar assentes na autoridade pessoal de Aristteles ou de qualquer 
outro filsofo; (b) de sua apresentao sistemtica numa "tbua de categorias"; (c) de sua justificao ou "deduo"; e (d) de sua aplicao na formulao de juzos.
Numa carta para Marcus Herz de 21 de fevereiro de 1772 e, depois, em P 39 ("Do sistema das categorias"), Kant explicou a sua descoberta das categorias em termos 
de uma reviso da "rapsdia" aristotlica. Afirma que as categorias de Aristteles foram derivadas do "saber comum" e dispostas, em grande parte, "tal como ele as 
encontrou", um mtodo que Kant compara a reunir elementos de gramtica a partir da observao das regras do uso real das palavras. Em contraste, ele procura indicar 
o motivo por que o saber,  semelhana de uma lngua, "tem justamente essa e nenhuma outra constituio formal" e por que tem "exatamente tantas, nem mais nem menos, 
de tais determinaes formais" (P 39). "Aps longa reflexo sobre os elementos puros do saber humano (aqueles que nada contm de emprico)", Kant declarou estar 
apto a distinguir espao e tempo como "os conceitos elementares puros da sensibilidade" que lhe permitiram excluir "a stima, oitava e nona categorias da antiga 
lista" (P 39).
A excluso das categorias espao-temporais corresponde, em grande parte, ao estgio alcanado por Kant em Dl. Mas subsistiu o problema de como derivar as categorias 
remanescentes. Na carta a Herz, Kant confessa que, a respeito das "representaes intelectuais", o resultado da Dl foi negativo - elas no eram "produzidas pelo 
objeto". Mas isso deixou por resolver o problema de "como o entendimento construir para si conceitos inteiramente apriori das coisas, com os quais as coisas estejam 
necessariamente em concordncia?"; isto , princpios que concordam com a experincia , no entanto, so independentes dela. Na "dcada silenciosa" de 1770, Kant 
buscou uma soluo para esse problema: "Procurei ver se no havia uma operao do entendimento que contivesse todas

52           categorias
as outras e que se distinguisse apenas por diferentes modificaes ou momentos, para colocar a multiplicidade de representaes sob a unidade do pensar em geral" 
(p 39). "Concluiu que esse ato do entendimento consiste em julgar", o que ele descreveu em termos de concordncia entre a representao de coisas e os conceitos 
apriori do entendimento.
O ato de julgar tornou-se, pois, a fonte donde derivam os conceitos bsicos que formam juntos a gramtica do pensamento. Como, para Kant, o juzo  a unificao 
do mltiplo, os conceitos bsicos referem-se s vrias maneiras de como a multiplicidade pode ser unificada. Kant apoiou-se na anatomia do juzo dada por lgicos 
a fim de mapear as vrias "modificaes" do ato de julgar e, assim, "apresentar uma tbua completa das funes do entendimento puro". Tratava-se de modos de julgar 
que eram construes do entendimento puro, "indeterminadas em relao a qualquer objeto". Esses modos foram ento ampliados para aplicarem-se aos "objetos em geral"; 
ou seja, no a juzos distintos, porm s condies que tornam tais juzos no s possveis mas tambm objetivamente vlidos: essas condies ou "conceitos do entendimento 
puro" receberam "seu velho nome de categorias" (P 39).
A derivao das categorias dos vrios modos do ato de julgar constitui o cerne da "Analtica de conceitos" da CRP. O argumento bsico dessa parte extremamente complexa 
e muito discutida de CRP  relativamente simples. Todos os atos do entendimento so juzos, e o entendimento  a faculdade de julgar. As "funes da unidade em juzo" 
podem ser divididas em quatro conjuntos, cada um dos quais contm trs membros: coletivamente, eles formam a tbua de juzos (ver Quadro 1).
A quantidade de um juzo  determinada segundo um predicado venha a incluir todos, alguns ou apenas um de seus sujeitos; a qualidade refere-se aos modos como um 
predicado pode ser atribudo a um sujeito; a relao envolve a maneira como os predicados podem ser confrontados com um sujeito, enquanto a modalidade especifica 
a relao do juzo com as condies do pensamento em geral.
Kant passa depois a relacionar o juzo com a sntese, descrevendo como categorias aqueles conceitos que conferem unidade  sntese pura e assim fornecem as condies 
para a objetividade em geral. Esses conceitos correspondem aos atos bsicos de juzo acima enumerados e geram, por seu turno, uma tbua de categorias (ver Quadro 
2).
Esses conceitos fundamentais, a que Kant chama tambm "originais e primitivos", esto embutidos em todo ato de juzo, e tm suas prprias propriedades peculiares. 
As categorias de quantidade e qualidade tm em comum a propriedade de referir o juzo a objetos de intuio e so intituladas "matemticas", ao passo que as categorias 
de relao e modalidade so rotuladas de "dinmicas" e referem o juzo a uma relao ou entre os prprios objetos de intuio ou entre esses e o entendimento. Dentro 
de cada grupo, observa Kant, o primeiro par de categorias em cada conjunto forma uma dicotomia, e o terceiro resulta de sua combinao.
A derivao das categorias tambm serve, em parte, como sua justificao. A "deduo metafsica" consiste em patentear sua concordncia com "as funes lgicas do 
juzo", ao passo que a "deduo transcendental" mostra que as categorias formam as condies para juzos objetivamente vlidos da experincia. Com isso, as categorias 
podem tornar-se, nas palavras de Arnauld, "formativas para o juzo" (1662, p.43), uma vez que tm agora a possibilidade de determinar juzos empricos. Por si mesmas, 
elas so meramente "funes lgicas", mas quando harmonizadas com as condies da intuio sensvel, atravs da esquematizao e dos princpios, ento tornam possveis 
os "juzos
categorias             53
Quadro 1 Tbua de juizos

I Quantidade de Juzos
Universais Particulares Singulares

II

III
Qualidade

Relaes
Afirmativos

Categricos
Negativos

Hipotticos
Infinitos
IV Modalidade
Problemticos Assertricos Apodcticos
Disjuntivos
Fonte: CRP A 70/B 95
Quadro 2 Tbua das categorias
I Categorias de Quantidade
Unidade Pluralidade Totalidade
De Qualidade
Realidade Negao Limitao
III De Relao
Inerncia e subsistncia
(substantia et accidens)
Causalidade e dependncia
(causa e efeito)
Comunidade
(ao recproca entre o
agente e o paciente)
IV Modalidade
Possibilidade-Impossibilidade Existncia-No-existncia Necessidade-Contingncia
Fonte: CRP A 80/B 106
da experincia em geral". Embora produzidas de forma autnoma pelo entendimento no ato de julgar, as categorias concordam, no obstante, atravs dos princpios, 
com a diversidade da intuio ou, na linguagem da carta a Herz, com as "prprias coisas" (CFI p.72). O restabelecimento das categorias por Kant deu aso a incessante 
controvrsia filosfica, dentro e fora do quadro de referncia da filosofia crtica. Fichte declarou que a deduo de Kant era um fracasso: "Ele no provou, em absoluto, 
que as categorias por ele estabelecidas so condies para a conscincia de si, mas simplesmente afirmou que as-

54            causalidade
sim era" (Fichte, 1794, p.51). Procurou corrigir as alegadas deficincias da deduo kan-tiana reorientando a viso de Kant de juzo no mbito de uma descrio em 
que o eu  "posto" como o modo bsico de ao. Hegel considerou justificada a insistncia de Fichte numa nova deduo das categorias, mas criticou-o por no aprofundar 
suficientemente a questo da oposio implcita entre unidade e pluralidade. Essa oposio  ela prpria uma abstrao, digna de uma noo abstrata do eu ou sujeito. 
Schopenhauer tambm rejeitou o "complicado mecanismo" das categorias de Kant em favor de um saber imediato, intuitivo.
As primeiras crticas s categorias de Kant compartilharam todas do projeto crtico de derivar a gramtica do saber de um princpio ou ato fundamental. Os neokantianos, 
no decorrer do sculo XIX, foram mais pragmticos, convertendo suas categorias num ato de reflexo de segunda ordem sobre as cincias naturais e humanas. O ethos 
da filosofia do sculo xx tem sido predominantemente avesso aos sistemas de categorias. A obra de Wittgenstein, em especial, investigando os juzos sem qualquer 
tentativa de desvenda-mento de suas estruturas bsicas, parece ser semelhante ao "estudo do uso real de palavras", em oposio ao da "constituio formal" de uma 
linguagem que Kant levara antes em considerao, mas rejeitara, como modelo para uma reflexo filosfica.
causalidade [Kausalitt] ver tambm ANALTICA; ANALOGIAS DA EXPERINCIA; CATEGORIAS; LIBERDADE; NATUREZA; PRINCPIO; SUCESSO
Causalidade  um tema central na filosofia terica e prtica de Kant. Sua discusso terica de causalidade est inteiramente formulada em termos de uma moderna concepo 
de causalidade que rejeitou a ordem aristotlica de causas materiais, formais, eficientes e finais, e limitou a causalidade a um movimento local. Embora a origem 
dessa concepo possa ser atribuda a Galileu, ele prprio no explicou o movimento em funo da causalidade; destruiu a antiga noo de causalidade e deixou para 
os filsofos a tarefa de justificao da nova.
A resposta de Kant ao problema de justificar a causalidade terica sofreu numerosas mudanas ao longo de sua carreira. Em ND, aceitou a identificao de causalidade 
com o princpio racional de fundamento e conseqncia. Essa justificao ontolgica de causalidade foi abandonada em sv e outras obras da dcada de 1760, quando 
a relao de causa e efeito passou a ser descrita como uma "relao fundamental" que no pode ser ul-teriormente determinada: " impossvel para a razo entender 
como alguma coisa pode ser uma causa, ou ter uma fora; tais relaes s podem ser derivadas da experincia" (sv p.370, p.356). Kant j se sente pouco  vontade 
em sua dogmtica letargia, mas ser finalmente despertado pelo que viu na demonstrao de Hume de que a causalidade assentava mais no costume do que em qualquer 
necessidade apriori (ver CRP A 760/B 788).
As dvidas de Hume a respeito do princpio de causalidade foram interpretadas por Kant como um desafio ao conhecimento apriori e, portanto,  metafsica (P p.259, 
p.4). Em resposta, Kant procurou uma posio crtica em que a causalidade no se baseasse num costume derivado de experincias repetidas nem na ordem ontolgica 
apriori de razo e conseqncia governada somente pelas leis da contradio e da razo suficiente. Os resultados dessa busca foram apresentados na "Analtica transcendental" 
da CRP, onde a causalidade toma o seu lugar dentro da arquitetnica mais ampla de categorias e princpios. Com efeito, enquanto procurava justificar a causalidade, 
Kant desco-
causalidade            55
briu um certo nmero de outros conceitos "pelos quais o entendimento pensa a ligao de coisas apriori' (P p.260, p.6). No eram derivados da experincia mas de 
atos de juzo desempenhados pelo entendimento puro. Mostrou Kant que um juzo segundo o qual A causou B  sinttico, ou seja, combinou uma intuio e um conceito 
apriori.
Dentro da "Analtica transcendental", a causalidade - ou melhor, "causalidade e dependncia (causa e efeito) -  apresentada como a segunda das categorias de relao. 
 Estas so derivadas dos juzos puros de relao, o segundo dos quais diz respeito  relao lgica entre razo e conseqncia. A causalidade, a par das outras 
categorias,  justificada na deduo como uma forma de "conexo e unidade" que "precede toda experincia" e sem a qual a experincia no seria possvel. Entretanto, 
a par de outras categorias, a causalidade no pode por si s ser diretamente aplicada s intuies; ela tem de ser es-quematizada, isto , adaptada a intuies, 
no decorrer das quais torna-se a "sucesso do diverso, na medida em que est submetida a uma regra" (A 144/B 183).
Isso tambm  alcanado na "Analtica dos princpios", a qual alinha as categorias -justificadas em termos de "juzo transcendental" com referncia a "condies 
universais" - com as condies reais da "relao de sensibilidade em geral" (CRP A 148/B 187). s categorias de relao correspondem os princpios das analogias 
da experincia que determinam como as aparncias so ordenadas temporalmente. Como a segunda categoria de relao, a causalidade gera a segunda analogia, a qual 
enuncia que toda experincia obedece  lei de sucesso<le acordo com causa e efeito. Essa analogia  justificada, portanto, pelo alinhamento da irreversibilidade 
da sucesso causai com a irreversi-bilidade do tempo.
Com tais argumentos, Kant procurou provar que a causalidade era uma condio da experincia e no poderia ser derivada dela. A sua tese foi subseqentemente criticada 
de todas as direes, com Hegel (1817) vendo a causalidade como a relao estabelecida entre substncia e acidente, e Nietzsche (1901) reduzindo-a a uma fico necessria. 
Embora as interpretaes e crticas ao entendimento de causalidade por Kant continuem, a sua obra sobre causalidade, dentro do quadro de referncia da cincia galileana, 
reveste-se hoje, em grande parte, de interesse histrico. Mesmo em termos kantianos ortodoxos, a descoberta do Princpio de Incerteza, o qual suspende as leis causais 
num nvel determinado, refuta a pretenso de que a categoria da causalidade e seu princpio so pre-condies indispensveis da experincia.
Kant distinguiu tambm entre a causalidade da natureza e a causalidade da liberdade. A "lei" de causalidade prescrita pelo entendimento para a natureza no  a mesma 
prescrita pela razo para a liberdade. A oposio entre as duas formas de causalidade constitui o conflito da "terceira antinomia" em CRP. Esta ope a espontaneidade 
de uma causa livre  profunda determinao das leis da natureza. Para Kant,  essencial  filosofia terica e prtica que as duas causalidades no sejam confundidas. 
Isto no pretende negar que, para os seres humanos que habitam em ambas as esferas - a sensvel e a inteligvel - "a causalidade da liberdade...  a causalidade 
de uma causa natural subordinada  liberdade" (CJ, IX), mas, antes, insistir em que a causalidade da liberdade, ou o fundamento da determinao inteligvel, embora 
limitada pela causalidade da natureza, no  por ela reduzida. Pelo mesmo princpio, as leis da causalidade natural so restringidas por aparncias e no podem ser 
estendidas a objetos supra-sensveis.

56          censura da razo
censura da razo ver tambm FACTUM; FILOSOFIA CRTICA; MTODO; RAZO; VERDADE A censura da razo  descrita em CRP como um segundo estgio, ctico, no desenvolvimento 
da razo pura. O primeiro estgio  o dogmtico, identificado com a escola wolf-fiana, a qual prope princpios transcendentes sem os justificar adequadamente; o 
segundo  a censura ctica desses princpios, identificado com Hume; enquanto o terceiro estgio  a minuciosa investigao crtica dos limites da razo levada a 
efeito pelo prprio Kant. No terceiro estgio, afirma Kant,  censura ctica dos fatos da razo ou de suas atuais fronteiras, segue-se a crtica de seus limites 
(CPR A 760/B 788).
certeza [certitudo, Gewissheit] ver tambm ASSENTIMENTO; F; SABER O problema da certeza era perifrico para a filosofia medieval; Santo Toms de Aquino define certeza 
como saber que no se afasta do que  encontrado na coisa. A certeza era assegurada ontologicamente atravs de uma "causa" de saber na coisa que produz um efeito 
na mente, com a ordem de coisas e a mente mutuamente proporcionadas de modo objetivo. Os primeiros filsofos modernos no estavam to certos a respeito da certeza, 
como  evidenciado pela tentativa de Descartes de estabelecer, no Discurso do mtodo (1637), a certeza de percepes e juzos em face da dvida. Com essa obra, Descartes 
inaugurou a preocupao peculiarmente moderna com a epistemologia; para ele, assim como para filsofos subseqentes to diversos quanto Malebranche e Espinosa, a 
prpria verdade  definida como certeza ou, nas palavras de Espinosa, como "aquilo que elimina toda a dvida" (Espinosa, 1985, p.313).
O tema da certeza desempenha um papel especfico na filosofia de Kant; no faz parte de uma problemtica geral da dvida que vai desde a evidncia dos sentidos at 
 da razo, mas trata especificamente da validade subjetiva dos juzos. Os primrdios dessa posio esto evidentes na terceira reflexo de ICP - "Da natureza da 
certeza filosfica" - onde Kant distingue entre certeza filosfica e certeza matemtica. Ambas as disciplinas formulam juzos que so governados por "leis de identidade 
e contradio", mas para Kant essas leis so condies negativas de certeza. So as condies necessrias mas no suficientes de certeza, pois enquanto um conceito 
ou juzo que no est em conformidade com elas definitivamente carecer de certeza, no podem servir em si mesmas como fontes suficientes dela. Para estarem certos, 
os conceitos matemticos, embora obedecendo s leis de identidade e contradio, devem encerrar ainda certeza intuitiva, e os conceitos filosficos, certeza discursiva. 
Com essa declarao, Kant desligou-se das explicaes racionalistas de certeza e iniciou ento a busca de critrios de certeza para alm da mera ausncia de dvida.
Na filosofia crtica, o problema da certeza est restrito  "validade subjetiva de um juzo" ou ao nosso "assentimento" (Frwahrhalten) (CRP A 822/B 850; ver tambm 
L p.570 e ss.). Por essa razo, a discusso crtica de certeza est em sua maior parte confinada  seo de CRP sobre "A doutrina transcendental do mtodo". Sustenta-se 
que os juzos so subjetiva e/ou objetivamente suficientes: " suficincia subjetiva chama-se convico (para mim prprio) e  suficincia objetiva chama-se certeza 
(para todos)" (A 822/B 850). Um juzo de opinio no  subjetiva nem objetivamente suficiente; um que se acredita ser verdadeiro  subjetivamente suficiente; ao 
passo que um que se sabe ser verdadeiro  subjetiva e objetivamente suficiente.
clareza           57
Na filosofia crtica, a certeza  importante para o estabelecimento dos limites do que pode ser conhecido; consiste na razo chegar "a uma deciso quanto aos objetos 
de suas interrogaes ou quanto  capacidade ou incapacidade da razo para formular juzos que se lhes reportem" (CRP B 22). Entretanto, a certeza no serve como 
critrio para a verdade mas somente como um sinal ou marca da experincia subjetiva da verdade de um juzo. As prprias fontes da verdade no se encontram na certeza 
subjetiva mas alhu-' res. Ao restringir assim a importncia da certeza, Kant desvia-se consideravelmente da tradio epistemolgica cartesiana. No obstante, isso 
no impediu muitos comentado-res de tentarem reintegr-lo nessa tradio e interpretar a "Analtica transcendental" da CRP como uma busca da verdade atravs da certeza.
ceticismo ver DOGMATISMO; EMPIRISMO; FILOSOFIA CRTICA; HISTRIA DA FILOSOFIA; MTODO; RACIONALISMO
cidadania ver ESTADO; MULHER
cincia natural ver DINMICA; FENOMENOLOGIA; FILOSOFIA; MATRIA; MOVIMENTO
civilizao ver CULTURA; HISTRIA
clareza [Klarheit] ver tambm ASSENTIMENTO; CONSCINCIA; ILUMINISMO; SABER; VERDADE
Nas Meditaes sobre conhecimento, verdade e idias (1684; ver Leibniz, 1976, p.291-5), Leibniz distinguiu entre graus de saber em termos dos contrrios claro-escuro, 
confuso-ntido, adequado-inadequado e simblico-intuitivo. O primeiro par de contrrios provou exercer enorme influncia e foi essencial no desenvolvimento da filosofia 
do Iluminismo alemo, sobretudo a de Christian Wolff. Para Leibniz, um conceito claro  aquele que basta para reconhecer uma representao;  ntido quando os "sinais" 
que lhe permitem ser reconhecido podem ser descritos e enumerados. Para os sucessores do Iluminismo de Leibniz, clareza e nitidez tornaram-se estgios sinalizadores 
caractersticos na perfeio do saber. A passagem da obscuridade para a clareza e a nitidez era considerada em termos da passagem do saber dos sentidos para o do 
entendimento, ou do preconceito para o esclarecimento.
Esse esquema progressivo foi contestado pela primeira vez pelos opositores pietis-tas do Iluminismo wolffiano, que argumentaram haver limites para a perfeio do 
saber. Esse ponto de vista foi adotado e desenvolvido por Kant em ICP, onde defendeu a tese da existncia de conceitos bsicos, no analisveis (p.279, p.252). Essa 
primeira crtica do modelo iluminista da perfeio progressiva do saber na direo de maior clareza e nitidez foi sustentada, em grande parte, por Kant, embora os 
termos clareza e nitidez no figurem com destaque em qualquer das Crticas. O modelo aparece em algumas das Reflexes e transcries publicadas de lies, mormente 
em A e L.
Em L, Kant reproduz a distino de Leibniz e Wolff entre a perfeio do conhecimento de acordo com a qualidade da clareza, e nitidez como a "clareza de sinais". 
Com efeito, em A ele formula a distino em termos leibnizianos ortodoxos, definindo clareza como "a conscincia de nossas representaes suficiente para distinguir 
um objeto de um outro", e a nitidez como "a conscincia que torna clara a composio de representa-

58          coexistncia
es" (6). Tambm acompanha Baumgarten na distino entre clareza subjetiva e nitidez do conhecimento esttico e as variantes objetivas do conhecimento racional. 
Desenvolve uma fascinante tentativa de adaptao do esquema wolffiano aos seus prprios insights crticos ao distinguir entre nitidez analtica e sinttica; clareza 
e nitidez analticas aplicam-se a conceitos e decompem-nos simplesmente em suas partes, enquanto suas contrapartidas sintticas se aplicam a objetos e expandem 
o conceito. Essa distino foi mais tarde transferida para a proposta entre lgica formal e transcendental em CRP (A 150/B 190) mas sem o esquema de clareza e nitidez. 
Embora crticos neoleib-nizianos de Kant, como Eberhard (ver SD) e Maimon (1790), tentassem ressuscitar o esquema, este permaneceu adormecido at o retorno  anlise 
de conceitos inaugurada por Frege no final do sculo XIX.
coexistncia ver ANALOGIAS DA EXPERINCIA; SUCESSO
coisa [Ding] ver APARNCIA; OBJETO; PESSOA
coisa-em-si-mesma [Ding an sich] ver tambm APARNCIA; ARQUTIPO; FENMENO; IDENTIDADE; INTUIO; MUNDO INTELIGVEL; NOUMENON; OBJETO, OBJETO TRANSCENDENTAL
Kant usa este termo para designar um grupo de significados que incluem aqueles apropriadamente atribudos a noumena e a idias transcendentes. A coisa-em-si-mesma 
compartilha com estes ltimos a qualidade negativa de limitar o emprego do entendimento e da razo ao que pode ser um objeto de intuio, e a qualidade positiva 
de caracterizar um espao problemtico para alm desses limites. Assim, a coisa-em-si-mesma no pode ser conhecida, uma vez que o saber est limitado  experincia 
possvel, mas pode ser pensada, desde que satisfaa a condio de um pensamento possvel que no seja autocontradi-trio. Em P, Kant usa coisas-em-si-mesmas como 
sinnimo de noumena, a saber, na aplicao de conceitos puros do entendimento, "para alm dos objetos de experincia" s "coisas-em-si-mesmas (noumena)" (P 29). 
Tambm em CRP, ele considera as coisas-em-si-mesmas como idias potenciais da razo, e fala sobre "o incondicionado que a razo exige necessariamente e com plena 
legitimidade nas coisas-em-si-mesmas" (CPR B xx).
O que distingue as coisas-em-si-mesmas das outras formas de noumena  a propriedade que as exorna de serem o "verdadeiro correlato da sensibilidade" (CPR A 30/B 
45). Kant avana da premissa de que "nada intudo no espao  uma coisa-em-si-mesma" para a concluso de que "a coisa-em-si-mesma no  e nem pode ser conhecida 
por intermdio dessas representaes [da nossa sensibilidade]; e, de resto, jamais se pergunta por ela na experincia" (CPR A 30/B 45). Todavia, Kant no segue neste 
ponto a sua prpria postura autolimitadora, porquanto presume que deve existir um correlato possvel de ser pensado, mesmo que no seja conhecido. Com base em princpios 
crticos, ele no pode corretamente dizer mais do que isso, que a coisa-em-si-mesma pode ser um correlato da sensibilidade. Que ele no o faa resulta de sua resistncia 
 "proposio absurda de que haveria fenmenos (aparncias) sem haver algo que aparecesse" (CPR B xxvi).
O dogmatismo residual de sua posio, que assenta no princpio de contradio, foi criticado por Hegel e Nietzsche. Nem um nem outro estavam convencidos da necessidade 
de existir algo para alm da aparncia que seja manifesto nela. A exposio de Hegel de aparncias na Fenomenologia do esprito (1807)  animada por um absoluto
complacncia            59
imanente, no um que seja manifesto em aparncias, enquanto Nietzsche considera a oposio de aparncia e coisa-em-si-mesma um preconceito platnico dos filsofos, 
oposio essa, assinalou ele em A gaia cincia (1882), sobre a qual sabemos muito pouco para estarmos autorizados a us-la (355).
como-se [ais ob] ver tambm AO; ANALOGIA; IDIA, PRINCPIOS E IDIAS REGULA-TWOS
Uma forma de argumento analgico, como-se  freqentemente usado por Kant em suas filosofias terica, prtica e esttica. Apresenta-se na filosofia terica como 
uma mxima de juzo regulativo e  ubqua na concluso da "Dialtica transcendental" da CRP. Tendo provado que Deus, o mundo e a alma no so objetos apropriados 
para um juzo humano limitado, Kant trata de readmiti-los como princpios regulativos. Assim, em teologia, embora nunca possamos saber se Deus  a causa do mundo, 
podemos, no entanto, ver "todos os objetos como se proviessem desse arqutipo de toda a razo" (CRP A 673/B 701). Do mesmo modo, em cosmologia, nunca podemos saber 
se o mundo tem um incio ou um fim, embora estejamos aptos a conduzir uma investigao "como se ele tivesse um princpio absoluto atravs de uma causa inteligvel" 
(CRP A 685/B 713). Finalmente, em psicologia, embora jamais possamos conhecer a natureza da alma, nos  possvel "ligar todas as aparncias, todas as aes e toda 
a receptividade do nosso esprito, como se fosse uma substncia simples que persiste com identidade pessoal" (CRP A 672/B 700).
Afora o fato de servir como a forma dos princpios regulativos do juzo terico, o como-se tambm  crucial para as mximas do juzo prtico. O mais significativo, 
mas freqentemente ignorado, uso da forma como-se est em conjuno com o "reino dos fins" e as frmulas do imperativo categrico. Em FMC, Kant declara que "todo 
ser racional deve atuar como se fosse sempre, atravs de sua mxima, um membro legislador no reino universal dos fins" ou, enunciado em termos mais formais, "Aja 
como se as suas mximas servissem ao mesmo tempo como lei universal" (FMC p.438, p.43). O como-se tambm se apresenta com destaque em momentos cruciais de CJ: a 
finalidade da forma de uma obra de arte, por exemplo, "deve parecer to livre da violncia de regras caprichosas como se fosse um produto da mera natureza" (CJ 45). 
Assim, a argumentao analgica na ubqua mas tantas vezes esquecida forma do como-se  central para todas as reas da filosofia de Kant. Sua ubiqidade, mas no 
a sua relao com o uso por Kant da argumentao analgica em geral, foi reconhecida por Vaihinger em sua Die Philoso-phie desAls Ob [A filosofia do como-se] (1911), 
obra que levou  formao de um clube de admiradores denominado "Sociedade de Amigos da Filosofia do Como-Se".
comparao ver REFLEXO
complacncia [delight (satisfaction), Wohlgefallen] ver tambm AGRADVEL; BELEZA; BOM; ESTTICA; PERFEIO; PRAZER; SENTIMENTO; SENSAO; SUBLIME; VIDA Kant define 
complacncia como a "sensao" [Empflndung] (de um prazer) [Lust] (CJ 3) que ele depois especifica como uma "determinao do sentimento de prazer ou dor".  um 
termo modal para descrever os modos como esse sentimento  afetado por diferentes objetos. Como tal, assume numerosas formas distintas: deleite num objeto desejado 
 agradvel, complacncia no bem ou na perfeio  "pura e prtica", ao passo que o deleite no belo tem de satisfazer aos critrios esboados na analtica de CJ. 
Esses critrios

60            compreenso
acompanham os ttulos da tbua de categorias e sustentam que a complacncia no belo deve ser sem interesse (qualidade), subjetivamente universal (quantidade), final 
sem um fim (relao) e necessria mas sem um conceito (modalidade). Alm disso, Kant especifica que a complacncia no belo  positiva, enquanto no sublime  negativa; 
isso  porque o primeiro aumenta o sentimento de prazer e dor, ao passo que o segundo o diminui.
Embora a noo de complacncia seja central na esttica de Kant, o seu carter preciso permanece obscuro. Est no s relacionada com o "sentimento de prazer e dor" 
mas tambm  descrita como uma sensao que, alm disso,  suscetvel de possuir as propriedades do entendimento sem ser formalmente subsumido por ele. Entretanto, 
em CJ, Kant no justifica inteiramente por que a complacncia envolveria "uma sensao de prazer", alm do sentimento de prazer e dor, nem como pode possuir as propriedades 
do entendimento. Est em questo o papel da conscincia na sensao de complacncia, mas, nas raras ocasies em que Kant aborda diretamente esse problema, os seus 
argumentos so de uma obscuridade impenetrvel (CJ  1; ver Caygill, 1989, p. 3 21 -4). Um indcio  dado na metodologia de CRPr, onde se diz que a complacncia 
 "produzida por uma conscincia da harmonia das nossas faculdades de representao", as quais fortalecem "inteiramente as nossas faculdades cognitivas (entendimento 
e imaginao)" (p. 160, p. 164). Aqui,  o "fortalecimento" da "faculdade cognitiva" que ocasiona a complacncia; quer dizer, menos a harmonia da imaginao e do 
entendimento do que o re-crudescimento do poder que ela ocasiona.
compreenso ver SNTESE
comunicabilidade [Mitteilung] ver tambm COMUNIDADE; ESTTICA; GOSTO; HISTRIA; PRAZER; PUBLICAO; SENTIDO COMUM/SENSO COMUM
A comunicabilidade  um conceito central na antropologia e filosofia da histria de Kant, assim como em sua exposio sobre o juzo esttico do gosto. Em CHH, ele 
descreve o "desejo irrefrevel de comunicar" do primeiro homem, expresso em sons que tinham a inteno de "anunciar sua existncia a criaturas vivas que lhe so 
estranhas" (p.l 10, p.222). Em CJ 41, descreve o fim da histria em funo do refinamento dessa capacidade: "Finalmente, quando a civilizao atingir o seu apogeu, 
ela far desse trabalho de comunicao quase a principal tarefa da mais refinada inclinao, e s se atribuir s sensaes todo o seu valor  medida que possam 
comunicar-se universalmente." Esse estado de comunicao pura  previsto na atividade reflexiva do sensus communis, o qual abstrai do contedo de um juzo para somente 
prestar ateno  sua comunicabilidade formal. Isso est fundamentado, mas tambm fundamenta, a relao de imaginao e entendimento "sem a mediao de um conceito" 
(40), o que  prprio do juzo esttico do gosto. Kant sugere tambm que o interesse na comunicabilidade pode explicar por que se considera que os juzos de gosto 
envolvem "uma espcie de dever" que no  baseado, porm, na lei moral.
Os comentrios de Kant sobre comunicabilidade tornaram-se cada vez mais importantes para a filosofia do sculo XX. Inspiraram as tentativas de Arendt e Lyotard de 
aplicar o modelo kantiano de juzo reflexivo  poltica e  arte, assim como as tentativas de Habermas para estabelecer uma tica comunicativa na base de uma teoria 
comunicati-va de ao (Habermas, 1981). Nos termos da exegese de Kant, eles apontam para uma di-
comunidade             61
menso de intersubjetividade que corrobora as mais austeras explicaes do juzo terico e prtico propostas nas primeiras duas crticas.
comunidade [Gemeinschafi] ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; CATEGORIAS; COMUNICABILIDADE; COSMOPOLITISMO; ESTADO; IGREJA
Comunidade , stricto sensu, a terceira categoria de relao e, como todas as categorias, deriva de uma forma de juzo, neste caso, o disjuntivo. Gera um esquema 
e um princpio na terceira analogia. Um juzo disjuntivo  aquele que inclui proposies que so mutuamente exclusivas mas que, entre elas, confluem numa totalidade 
de saber. Kant representa a totalidade como "um todo dividido em partes (os conceitos subordinados), e que, no podendo uma dessas partes estar contida na outra, 
so pensadas como coordenadas uma  outra, no como subordinadas, pelo que no se determinam entre si num s sentido, como numa srie, mas reciprocamente, como num 
agregado" (CRP B 112). Por analogia, ele prolonga esse relacionamento lgico de conceitos a "um todo que  composto de coisas," afirmando que, no ltimo caso, "est 
sendo pensada uma combinao semelhante". Isso ocorre porque, em contraste com a categoria de causalidade, "uma coisa no ser subordinada, como efeito,  outra, 
como causa de sua existncia; antes  simultnea e reciprocamente coordenada s outras como causa no que se refere  sua determinao" (CRP B 112). Essa coordenao 
 caracterizada por partes que existem independentemente umas das outras e, "entretanto, ligadas num todo" (CRP B 113).
Como ocorre com todas as categorias, Kant deriva de comunidade um esquema e um princpio. O esquema adapta a categoria abstrata s condies de uma intuio finita; 
para a comunidade, isso resulta em que "o esquema da comunidade (reciprocidade) ou da causalidade recproca das substncias em relao aos seus acidentes  a simultaneida-de 
das determinaes de uma com as da outra, segundo uma regra geral" (CRP A 144/B 183). O princpio, conforme expresso na terceira analogia da experincia, sustenta 
que as substncias percebidas como coexistentes no espao "mantm-se em perfeita comunidade, isto , em interao mtua" (CRP A 211) ou "esto em perfeita reciprocidade" 
(CRP B 256). Este  um princpio que no pode ser empiricamente derivado da mera existncia de muitos objetos - sua coexistncia deve ser suposta apriori e no pode 
"ser um objeto de possvel percepo" (CRP A 212/B 258).
Na discusso da terceira analogia, Kant identifica na palavra Gemeinschafi uma "ambigidade" que ele soluciona estabelecendo uma distino em latim entre communio 
e commercium. Define a categoria de comunidade em termos do segundo sentido, "como significando uma comunidade dinmica, sem a qual nem mesmo uma comunidade local 
(communio spatii) poderia ser empiricamente conhecida" (CRP A 213/B 260). Sem a influncia dinmica recproca de substncias em commercium no poderia haver relaes 
empricas de coexistncia ou communio.
Esta ltima distino  de interesse no que diz respeito aos pontos de vista de Kant sobre comunidade social e poltica. O entendimento de Kant de comunidade poltica 
est primordialmente orientado mais para commercium do que para communio. Este ltimo termo, derivado da palavra latina para fortificao, v comunidade em termos 
de um aquinhoamento exclusivo de espao protegido do exterior, ao passo que o primeiro deriva de processos de troca e comunicao. Assim, quando Kant descreve a 
comunidade social ou poltica,  usualmente mais em termos de livre troca e respeito entre indivduos

62            conceito
do que em funo de caractersticas ou espao compartilhados. Ele tem acentuada preferncia pelo termo Gesellschaft (sociedade) ou Reich (reino) em lugar de Gemeinschaft 
(comunidade); com efeito,  muito raro usar este ltimo termo, embora empregue ocasionalmente Gemeinwesen (res publica, comunidade poltica). No obstante, a concepo 
de Kant de comunidade social e poltica est muito prxima em esprito da categoria de comunidade, acentuando a coordenao e coexistncia de interesses mutuamente 
exclusivos que, embora opostos entre si, confluem num todo. Esse modelo abrange desde as relaes entre indivduos at entre grupos sociais e, em ltima instncia, 
entre estados (ver RL Livro III, Diviso i; CJ 83; PP p.367, p.l 13).
conceito [Begriff] ver tambm CATEGORIAS; ENTENDIMENTO; EPISTEMOLOGIA; IMAGINAO; METAFSICA; REPRESENTAO; SNTESE; UNIDADE
A palavra alem para conceito - Begriff- traduz o particpio passado do verbo latino concipere: "tomar para si, acolher e reter, dar guarida a [uma idia ou sentimento]". 
Como substantivo, s figura no vocabulrio filosfico a partir do final do sculo XVII; antes disso, significava um "esboo provisrio" de um documento ou acordo 
legal, ou mesmo a expresso de um sentimento potico. Foi usada pela primeira vez num contexto lgico e epistemolgico por Leibniz, muito provavelmente em suas influentes 
Medita-tiones de cognitione, veritate et ideis [Meditaes sobre o conhecimento, verdade e idias] (1664; ver Leibniz, 1976, p.291-5). A designa o produto de concepo 
como o "conceito", um deliberado neologismo dirigido contra a dependncia cartesiana de termos tais como "idia" e "noo" (embora Leibniz tambm empregue-os). O 
neologismo foi aceito por Wolff em sua Lgica e, atravs dessa obra, tornou-se parte da linguagem filosfica alem. O Philosophisches Lexicon de Meissner (1737) 
d notio e idea como sinnimos de Begriff, mas esto claramente no processo de se distinguirem mutuamente. Conceitos so definidos, grosso modo, por Leibniz e seus 
seguidores como "qualquer representao de uma coisa" e classificados de acordo com os seus graus de clareza, preciso, completude e adequao. Foi nesse contexto 
que Kant comeou a usar o termo em seus escritos pr-crticos, e certas ambigidades inerentes nesse uso so por ele transportados para a filosofia crtica, mormente 
a respeito das relaes entre os sentidos lgicos e epistemolgicos do termo.
A definio cartesiana de concepo a que Leibniz objetou foi, ela prpria, uma interveno no mbito de um debate filosfico extremamente antigo sobre a natureza 
do saber e suas fontes. Aristteles fixou as condies para esse debate em sua recapitulao crtica dos primrdios da filosofia grega na Metafsica. Criticou os 
seus predecessores por "suporem que o saber  sensao" e procurarem as origens do saber numa "alterao fsica" (Aristteles, 1941, 1009b). Apresentou uma distino 
entre duas operaes da mente - noiesis e aisthesis - "perceber" e "pensar". Embora essa distino solucionasse alguns problemas, tambm suscitou outros que estavam 
fadados a ter um longo e confuso futuro. Basicamente, se noiesis e aisthesis eram, de fato, operaes radicalmente distintas da mente, ento como poderiam estar 
mutuamente relacionadas a fim de gerar o saber? Uma opo era derivar noeta de aiStheta, privilegiando a sensao; uma outra seria derivar aistheta de noeta, privilegiando 
o pensamento. A primeira opo foi explorada por atomistas como Demcrito (mas no, como veremos, por Epicuro), enquanto a segunda foi adotada pelos platnicos e, 
mais tarde, pelos neoplatnicos. A posio do
conceito            63
prprio Aristteles era uma complexa combinao de ambas as posies, ao considerar que tanto aistheta quanto noeta eram formas sensveis e inteligveis abstratas. 
A escola epicurista desenvolveu um meio-termo adicional que foi decisivo para Kant: os sentidos, sustentava ela, produzem imagens sensveis que so prolepticamente 
apreendidas pela mente. Por outras palavras, as noeta prevem o formato das aistheta mas no tm significado algum quando separadas delas.
O aristotelismo medieval desenvolveu uma verso extremamente refinada da explicao de Aristteles para a abstrao de formas sensveis e inteligveis. Entretanto, 
no sculo XVII, essa explicao tinha sido restringida pelo foco sobre o problema da concepo, ou a abstrao de idias e noes a partir da experincia sensvel. 
O sujeito humano estava dividido em faculdades de sensibilidade e intelecto, e o problema de como reunir dados sensoriais e idias intelectuais foi resolvido ou 
no plano racionalista, ao derivar a sensibilidade de idias, ou no plano emprico, derivando idias da sensibilidade. Para evitar esse impasse, Leibniz colocou os 
dados sensoriais e as idias num contnuo de representao e deu-lhes o nome genrico de "conceitos". Entretanto, o seu seguidor Christian Wolff deu ao novo termo 
um toque racionalista adicional que provocou renovadas objees empiristas. Estas, por sua vez, levaram o filsofo wolffiano A.G. Baum-garten, na dcada de 1730, 
a tentar aclarar toda a questo com o restabelecimento da antiga distino entre aisthesis e noiesis.
Foi nesse contexto de inconsistncia terminolgica que Kant desenvolveu a sua definio de conceito. A sua verso  complicada no s pela ambigidade inerente do 
termo, mas tambm pela estreita relao entre o problema epistemolgico de concepo, envolvendo a validade da relao de um conceito com o mundo, e o problema lgico 
de juzo, ou o uso de conceitos na formulao de juzos vlidos. Kant combinou os dois problemas na lgica transcendental da primeira crtica, mas j se preparara 
para dar esse passo nos escritos pr-crticos quando, ao evitar nestes ltimos os dois extremos da oposio empirista-racionalista, recusou-se a derivar conceitos 
quer da abstrao da percepo sensvel, quer do princpio racional de no-contradio; preferiu dedicar suas atenes ao processo de reflexo imaginativa sobre 
a forma e o contedo da experincia. Ele refere-se em FS  "capacidade fundamental" da mente humana para converter suas prprias representaes em objetos dos seus 
prprios pensamentos (p.60, p.104), e deriva conceitos dessa capacidade. Assim, o conceito de um corpo slido no  derivado da experincia desse corpo nem da sua 
necessidade racional, mas da representao do filsofo para si prprio do que se sabe de tal corpo e da reflexo sobre essa representao. A reflexo toma "o que 
 sabido imediatamente de uma coisa como seu atributo" e, se concluir que a coisa  impensvel sem o atributo, converte-o no conceito da coisa. No caso de um corpo, 
o atributo "impenetrabilidade"  primeiro abstrado e depois objeto de reflexo; quando  reconhecido ser indispensvel ao pensamento de corpo, pode ser aceito como 
um conceito (p.58, p.l02).
No decorrer dessa anlise do processo de concepo, Kant descobriu duas classes de conceito. A primeira inclui conceitos derivados ou complexos, que so acessveis 
 anlise; a segunda inclui conceitos descritos em QN como "simples e no analisveis", e em outros textos como "bsicos" ou "elementares". Kant tambm descreve 
os conceitos bsicos como "juzos fundamentais indemonstrveis", os quais so meios de "produo" do saber. Nessa fase, Kant no est certo, em absoluto, de quais 
sejam as propriedades de

64            conceito
tais conceitos bsicos, exceto o fato de no serem analisveis. Sua explorao das propriedades desses conceitos provaria ser uma das principais fontes da subseqente 
filosofia crtica.
Aps refletir sobre as fontes e extenso dos conceitos bsicos durante mais de uma dcada, Kant fez deles,  guisa de "categorias", o objeto primordial de investigao 
metafsica. Descobriu que eles tinham muitas propriedades importantes, as quais os distin-guiam de outros produtos de concepo. Tanto os conceitos bsicos quanto 
os derivados eram distintos, de um modo genrico, das intuies; eram todos eles conhecimentos, mas as intuies eram singulares, ao passo que os conceitos eram 
apresentaes gerais ou refletidas. Os conceitos derivados ou "empricos" so extrados da experincia por meio de comparao, reflexo e abstrao, enquanto os 
conceitos "puros" ou bsicos "no so abstrados da experincia" (L p.590) e so "investigados por metafsica". Tendo estabelecido essa distino, Kant defrontou-se 
com o problema de como conceitos puros podem ser relacionados com intuies. Se so usados sem um objeto, tornam-se idias - conceitos sem qualquer objeto possvel 
de experincia -, mas o que impede que tais conceitos puros se convertam, todos eles, em idias?
A soluo de Kant em CRP  considerar fundamentais para a experincia os conceitos puros, apriori, do entendimento. Comeando com as vrias funes de juzo executadas 
pelo entendimento, Kant passa a descrever os conceitos como uma ordem paralela de "conceitos de intuies em geral", os quais adaptam intuies a juzos. Os juzos 
unificam um mltiplo, e as unidades bsicas atravs das quais isso  realizado so as categorias. Assim, os conceitos puros do entendimento ou categorias so derivados 
da tbua de juzos (formando quatro grupos de trs sob os ttulos de quantidade, qualidade, relao e modalidade). Esses conceitos adaptam-se s condies de aparncias 
no espao e no tempo, um processo que Kant descreve como esquematismo, ou adaptam as intuies a eles prprios ao anteciparem intuies na forma do sistema de princpios. 
Na CRP, Kant concentra-se neste ltimo processo, desenvolvendo a posio epicurista de que noeta (conceitos) antecipam a forma em que aestheta (intuies) so apresentadas 
ao entendimento.
A ambio da "lgica transcendental" de CRP  reformar a metafsica na base de uma fuso dos aspectos lgicos e epistemolgicos do conceito. Uma descrio v o conceito 
como funo da unidade de juzo, enquanto a outra o v como uma noeta relacionada com uma aestheta. Nesta ltima, o conceito toma o seu lugar no seio do problema 
kantiano geral da sntese, com suas conotaes de liberdade, espontaneidade e finitude. Este aspecto foi desenvolvido nas lgicas sistemticas dos idealistas alemes 
- Fichte, Schelling e sobretudo Hegel. Na Cincia da lgica (1812), Hegel destaca as ambigidades da explicao kantiana do conceito, mostrando que a sua tentativa 
de reconciliar lgica e epistemologia  inspirada por uma ontologia, e que sua relao equvoca entre conceito e intuio pode ser analisada em termos das relaes 
entre universalidade, particularidade e individualidade.
O programa de lgica transcendental foi severamente contestado no sculo seguinte a Kant, concentrando-se as crticas na natureza do conceito. Para Frege, os conceitos 
so objetivos e sujeitos unicamente s leis da lgica; no devem ser confundidos com "idias" epistemolgicas. Numa crtica direta a Kant, ele sustentou que "o conceito 
tem um poder de coligir muito superior ao poder unificador da apercepo sinttica" (Frege, 1950, 47). Um deslocamento anlogo da lgica transcendental foi realizado 
por Witt-
concordncia/oposio             65
genstein, quando tratou o conceito no em termos de sua relao com o mundo atravs da percepo, mas em sua relao sinttica com outros conceitos. Um percurso 
diferente foi adotado pelos crticos neokantianos das descries psicolgicas e empiristas da origem de conceitos. Sua discusso da "formao de conceitos" no a 
considerou como processo introspectivo, psicolgico, nem como processo de abstrao de elementos empiricamen-te dados, mas prestou homenagem a Kant ao considerar 
que a formao de conceitos era uma forma de reflexo transcendental. Uma importante verso desta ltima foi desenvolvida por Husserl, que procurou o processo de 
formao de conceitos no trabalho da imaginao, distinguindo "a experincia viva da imaginao" dos processos psicolgicos e abstrativos.
conceitos da razo ver RAZO
conceitos de reflexo ver tambm ANFIBOLOGIA; CATEGORIAS; CONCEITOS; FORMA; IDENTIDADE; INTERNO/EXTERNO; JUZO; MATRIA; ORIENTAO; REFLEXO Os conceitos de reflexo 
so empregados num ato de juzo para comparar determinados conceitos entre si e com intuies; e, assim, conceitos dessemelhantes do entendimento no tm referncia 
a um objeto. Kant arrola-os como identidade e diferena, interno e externo, e matria e forma (CRP A 260-80/B 316-36). So conceitos orientacionais aplicados pelo 
juzo a conceitos e intuies, e por esse motivo so propensos  anfibologia, ou seja, a serem usados de forma ilegtima para eliminar a distino entre entendimento 
e intuio. Para Kant, os conceitos de reflexo apontam para uma operao da faculdade de julgar anterior ao ato de julgar que sintetiza conceito e intuio. Esse 
trabalho prvio de julgar reflete-se no carter de uma representao (quer seja um conceito ou uma intuio) atravs da reflexo transcendental e atribui-lhe em 
seguida um lugar de acordo com uma tpica transcendental.
A tpica transcendental, afirma Kant, "inclui apenas os citados quatro ttulos de toda comparao e de toda distino, que diferem das categorias por no representarem 
o objeto, segundo o que constitui o seu conceito (grandeza, realidade), mas somente, em toda a sua diversidade, a comparao das representaes que precedem o conceito 
das coisas. Essa comparao requer, primeiro, uma reflexo, isto , uma determinao do lugar a que pertencem as representaes das coisas comparadas, com a finalidade 
de saber se  o entendimento puro que as pensa, ou a sensibilidade que as d no fenmeno" (CRP A 269/B 326). Com base nessa explicao dos conceitos de reflexo, 
Kant acusou Leibniz e Lo-cke de fazerem um uso anfibolgico desses conceitos, com o primeiro usando-os para "intelectualizar as aparncias" e o segundo para "sensualizar 
os conceitos do entendimento" (CRP A 271/B 327). O perigo do uso anfibolgico de conceitos de reflexo, tais como identidade e diferena,  que lhes permite "intrometerem-se 
na ontologia" e apresentarem-se como se fossem propriedades de coisas, em vez de um meio para orientar juzos.
conceitos do entendimento ver CATEGORIAS; CONCEITOS; ENTENDIMENTO
Os conceitos puros do entendimento so um outro nome para as categorias (ver CRP A
79/B 105).
concordncia/oposio ver CONCEITOS DE REFLEXO

66            condio
condio [Bedingung] ver tambm ABSOLUTO; ACIDENTE; APARNCIA; CAUSALIDADE; DIALTICA; ESPAO; EXPERINCIA; INTUIO; SUCESSO; TEMPO As aparncias so condicionadas 
por espao e tempo, enquanto os juzos o so pela "unificao de dadas representaes numa conscincia". Em conjunto, formam as condies para objetos da experincia 
possivel e o conhecimento de tais objetos. A razo, entretanto, esfora-se por alcanar o incondicionado no conhecimento e na experincia e quando um incondicionado 
ou absoluto, na base de uma srie extensa de condies, ultrapassa os limites de objetos possveis e o legtimo saber fundado na experincia. Kant chama "dialticas" 
a tais inferncias ilegtimas do incondicionado a partir do condicionado, e delas faz uma anlise na "Dialtica transcendental" da CRP.
Conflito das faculdades Publicado pela primeira vez no outono de 1798 por Nicolo-vius, CF compe-se, nas palavras de Kant, de "trs ensaios que escrevi para diferentes 
fins em diferentes pocas", com um prefcio e uma introduo. Os trs ensaios - "O conflito da Faculdade de Filosofia com a Faculdade de Teologia", "O conflito da 
Faculdade de Filosofia com a Faculdade de Direito" e "O conflito da Faculdade de Filosofia com a Faculdade de Medicina"-tratam do problema geral das relaes entre 
o saber e o poder, e do problema especfico das relaes entre a universidade e o estado, por meio de uma anlise das relaes da "faculdade inferior" de filosofia 
com as trs "faculdades superiores" de teologia, direito e medicina. Os antecedentes de CF foram, em termos gerais, a tenso crescente, ao longo da segunda metade 
do sculo xvill, entre as reivindicaes das faculdades superiores, que estavam predominantemente dedicadas  formao profissional de clrigos, advogados e mdicos, 
e as da faculdade inferior, a de filosofia, para falar filosoficamente sobre questes teolgicas, jurdicas e mdicas. O contexto imediato dos trs ensaios de Kant 
foi, entretanto, o endurecimento da censura, aps a subida ao trono de Frederico Guilherme em 1786, com a inteno de reverter o processo de esclarecimento encorajado 
por Frederico II.
O primeiro ensaio diz respeito ao conflito entre as faculdades de filosofia e de teologia. Surgiu diretamente das dificuldades de Kant com a censura religiosa em 
torno da publicao de RL. Esse texto era para ter sido publicado em 1791 em quatro partes pela revista Berlinische Monatsschrift, de Berlim, um dos porta-vozes 
do pensamento ilumi-nista. A primeira parte foi aprovada pelo censor de filosofia para publicao e veio a pblico em abril de 1792. As trs partes restantes foram 
submetidas ao censor religioso, que se recusou a dar o nihil obstat. O diretor da Berlinische Monatsschrift ento apelou, sem xito, para a Comisso de Censura e 
para o rei. A reao de Kant foi submeter o manuscrito, primeiro,  faculdade de teologia de Knigsberg a fim de firm-lo como uma obra de filosofia e, portanto, 
sob a alada e jurisdio do censor de filosofia; depois,  censura da faculdade de filosofia da Universidade de Iena. O texto recebeu na ntegra o imprimatur e 
foi publicado em Knigsberg em 1793.
Na esteira dos acontecimentos que cercaram a publicao de RL, Kant foi convidado em 14 de junho de 1794 por Carl Friedrich Studlin, o diretor da revista teolgica 
de Gttingen, a colaborar com um artigo. Kant respondeu em 4 de dezembro do mesmo ano para declinar o convite, pois que, embora o artigo j estivesse escrito, recebera 
nesse meio tempo uma Ordem Ministerial, datada de l9 de outubro, em que era acusado de fazer mau uso de sua filosofia para "distorcer e depreciar muitos dos ensinamentos 
carde-
conformidade a um fim            67
ais e bsicos das Sagradas Escrituras e do Cristianismo" e "desencaminhar a juventude". A Ordem ameaava com "medidas desagradveis" no caso de "contnua obstinao". 
Kant respondeu defendendo-se das acusaes mas comprometendo-se a, "daqui em diante, abster-se completamente de discorrer em pblico, em aulas ou por escrito, sobre 
religio, quer natural, quer revelada". O artigo que escrevera para Studlin foi a primeira vtima desse compromisso, tendo sua publicao sido retida at depois 
da morte de Fre-derico Guilherme em 1797, quando formou a primeira das trs partes de CF. A Ordem Ministerial e a resposta de Kant foram tambm publicadas como 
prefcio de CF, a par de algumas farpas sobre "quaisquer novas invases de obscurantismo".
O segundo ensaio sobre o conflito entre as faculdades de filosofia e de direito foi tambm escrito para a Berlinische Monatsschrift e teve o imprimatur recusado 
pelo censor. O artigo "Uma Velha Pergunta  Suscitada de Novo: Est a Raa Humana em Constante Progresso?" foi escrito em 1795 e s publicado tambm aps a morte 
de Frederico Guilherme II. O terceiro ensaio, referente ao conflito com a faculdade de medicina, foi exceo por no ter colidido com o censor. Adotou a forma de 
uma carta para C.W. Hu-feland e foi escrito em resposta a um exemplar de Macrobitica, ou a arte de prolongar a vida humana, de Hufeland, que o autor enviara a Kant 
em fins de 1796. A descrio filosfica por Kant do corpo e da sade foi publicada primeiramente por Hufeland em 1798 na Revista de Farmacologia Prtica e Cirurgia, 
antes de sua divulgao em CF.
Os trs ensaios so vagamente unidos por uma introduo que tece reflexes sobre a misso da Universidade, a tenso entre as exigncias da erudio e as do estado, 
e um apelo para a liberdade acadmica da faculdade inferior. As caractersticas e finalidades do ensino nas trs faculdades superiores so descritas e distingidas 
das da filosofia. As faculdades superiores tm por misso policiar a interpretao de textos religiosos e jurdicos e instruir e treinar mdicos, enquanto o principal 
interesse da faculdade inferior gravita em torno da crtica pblica. Kant trata de explorar essas questes, de maneira mais ou menos tangencial, com grande discernimento 
e ironia. Apesar do carter engenhosamente manipulado do livro, Kant logra ainda assim destacar muitos pontos de grande perspiccia a respeito das relaes entre 
poder e saber, os quais, em ltima instncia, se conjugam numa defesa coerente da liberdade acadmica, assim como numa avaliao ainda vlida e oportuna das foras, 
dentro e fora da universidade, que a ameaam.
conformidade a um fim [Zweckmssigkeit] ver tambm CAUSALIDADE; FIM; JUZO REFLEXIVO; NATUREZA; TELEOLOGIA
Conformidade a um fim  um conceito extremamente rico, desenvolvido por Kant em CJ. Em CRP, a "conformidade a um fim da natureza"  mencionada num pequeno nmero 
de ocasies com a advertncia de que deve "ser explicada por razes naturais e segundo leis naturais" (A 773/B 801). Em CJ, porm, a conformidade a um fim desempenha 
um papel central nas explicaes de juzo esttico e teleolgico, assim como lhe foi concedido um significado retrospectivo no que diz respeito aos juzos determinantes 
analisados em CRP.
Em CJ, Kant oferece duas definies de conformidade a um fim, as quais se relacionam ambas com a noo de causa finalis. Na primeira definio, um "fim"  "o conceito 
de um objeto enquanto encerra, ao mesmo tempo, a base da realidade desse objeto" (CJ iv), ao passo que na segunda  "o objeto de um conceito, enquanto este  considerado 
como a causa daquele (a base real da possibilidade do objeto)" (CJ  10). Ambas as de-

68            conhecimento
funes de "fim" geram umafinalidadeformal ou, no primeiro caso, "a conformidade de uma coisa com aquela qualidade das coisas que s  possvel de acordo com fins" 
(IV) e, no segundo, "a causalidade de um conceito em relao ao seu objeto" (10). A primeira descreve a conformidade a um fim subjetivo, a segunda a um fim objetivo. 
E necessrio assumir alguma forma de conformidade a um fim para que qualquer juzo possa ser possvel; isso  porque a conformidade a um fim descreve uma sintonia 
entre o juzo humano e o mundo, sem o que, nas palavras de Kant, o "entendimento no poderia sentir-se  vontade na natureza" (vn).
A explicao de Kant do juzo esttico do gosto assenta na distino entre conformidade subjetiva e objetiva a um fim. A conformidade objetiva  causai: realiza 
um fim. A conformidade subjetiva  meramente o poder de julgar discernindo a possibilidade de um fim. Kant primeiro critica as opinies que fundamentam a beleza 
numa finalidade objetiva externa, na utilidade ou agradabilidade do objeto, e passa depois a criticar a explicao de Baumgarten de juzo esttico em termos de finalidade 
objetiva interna por basear a sua avaliao da beleza de um objeto em sua perfeio, ou na extenso em que realiza o seu fim (15). Kant, porm, fundamenta o juzo 
esttico na conformidade subjetiva a um fim, ou "finalidade sem um fim" (Zweckmssigkeit ohne Zweck), ou a concordncia da forma com a harmonia subjetiva da imaginao 
e do entendimento. Alm disso, a conscincia de tal finalidade  definida por Kant como o "prprio prazer" gerado pela concordncia da imaginao e do entendimento.
Na segunda parte de CJ-"Critica da faculdade de julgar teleolgica"-Kant desenvolve ainda mais a distino entre as formas de conformidade a um fim, mas acrescenta 
uma especificao adicional ao distinguir entre o "idealismo" e o "realismo" da conformidade a um fim da natureza: o primeiro v a conformidade a um fim como algo 
acidental e sem um autor, ao passo que o segundo considera-a inerente  matria (hilozo-smo) ou derivada de uma fonte original (tesmo) (72). Critica ambos por 
tratarem a conformidade a um fim como um princpio constitutivo e sugere que o seu uso seja restringido para servir como princpio regulativo do juzo reflexivo.
conhecimento [cogniio, Erkenntnis] ver tambm ASSENTIMENTO; CONCEITO; FACULDADE; INTUIO; PENSAMENTO; PERCEPO; REPRESENTAO; SABER A distino de Kant entre 
conhecimento (Erkenntnis), saber (Wissen) e pensamento (Denken) no tem sido sempre respeitada por seus tradutores - nem, ocasionalmente, pelo prprio Kant. At 
mesmo Kemp Smith, em sua influente traduo inglesa da CRP, omite a distino entre saber e conhecimento ao traduzir sistematicamente Erkenntnis como "saber". Em 
sua tipologia de representaes em CRP A 320/B 377, Kant define conhecimento (cogniti) como "percepo objetiva" ou "representao objetiva sem conscincia". H 
duas espcies de conhecimento, a saber, intuies e conceitos, as quais correspondem s duas fontes de conhecimento na sensibilidade e no entendimento (A 294/B 351). 
O conhecimento , com ocasionais excees (como CRP A 69/B 94), distin-guido do saber e do pensamento. Saber significa a suficincia objetiva e subjetiva de um juzo 
e , portanto, uma limitao do pensamento. Por sua vez, o pensamento consiste na unificao de representaes numa conscincia, ou juzo. Embora as categorias de 
pensamento "no sejam limitadas pelas condies de nossa intuio sensvel", o conhecimento "daquilo que pensamos, a determinao do objeto, requer intuio" (CRP 
B p. 166).
conscincia             69
Pois como Kant ponderou, "para conhecer um objeto devo ser capaz de provar a sua possibilidade, ou a partir de sua efetividade conforme atestada pela experincia, 
ou apriori por meio da razo. Mas posso pensar no que quiser, desde que no entre em contradio comigo mesmo..." (CRP B xxvi). O conhecimento daquilo que pensamos 
requer no s que estejam presentes os conhecimentos na forma de conceitos e intuies, mas tambm que o juzo que os unifica satisfaa o princpio de contradio: 
tais condies so satis-feitas no caso de juzos sintticos apriori.
conscincia [Bewusstsein] ver tambm APERCEPO; CONHECIMENTO; ESPONTANEIDADE; EU; "EU PENSO"; IDENTIDADE; PARALOGISMOS; PERCEPO; PSICOLOGIA; REPRESENTAO; SNTESE; 
SUJEITO; UNIDADE
Kant define conscincia em L como a "representao que uma outra representao  em mim", a qual forma a "condio universal de todo o conhecimento em geral" (p.544). 
Considera-se que "acompanha" todos os conhecimentos, determinando sua forma ou o "como" (em contraste com a matria ou com "o qu" do conhecimento). A partir da 
noo de uma "condio" que  tambm um "acompanhamento" para o conhecimento, Kant mostra ser o herdeiro de uma tradio profundamente intrincada do pensamento a 
respeito do preciso status da conscincia.
Em De anima, Aristteles repetiu muitos dos problemas que inspirariam a tentativa subseqente de definir conscincia. Pergunta ele se o ato consciente de ver nos 
 dado pela viso "ou por outro sentido que no a viso" e se, neste ltimo caso, devemos cair numa infinita regresso ou admitir, de algum modo, a existncia de 
um sentido que tem conscincia de si mesmo" (Aristteles, 1941,425b, 17). Aristteles prefere esta ltima opinio, mas o problema do status da "conscincia", a respeito 
do que  que ela est consciente, continua sendo causa de preocupao. O mesmo problema surge com a mente, a qual  ela prpria pensvel do mesmo modo que os seus 
objetos so" (Aristteles, 1941,430a, 2). Se assim no fosse, teramos ento de procurar uma forma de conscincia capaz de conter a mente e seus objetos; e, nesse 
caso, como poderamos adquirir conscincia disso? Por outras palavras, a conscincia que acompanha uma percepo aponta sempre para alm de si mesma, para uma forma 
de conscincia mais abrangente.
Antes do sculo XVII, no havia um termo especfico correspondente a "conscincia"; no era considerada uma propriedade da mente ou dos sentidos, mas de suas aes. 
Descartes descreve atos de ficar consciente, no atos de uma conscincia, ao passo que Espinosa descreve o ato de a alma adquirir conscincia de si mesma como "sensibilidade". 
O termo conscincia  usado pela primeira vez, de um modo consistente, por Locke (1690), seguindo-se-lhe Leibniz (ao usar em 1765 o termo consciosite). Locke define 
conscincia como "a percepo do que se passa na prpria mente de um homem" (1690, p.42) e deriva-a de atos de conscincia. O seu principal interesse, entretanto, 
consiste em, a partir da realidade da conscincia, defender a noo de identidade pessoal, fazendo da conscincia a base de um sujeito: "Com efeito, sendo a mesma 
conscincia o que faz um homem ser ele prprio para si, a identidade pessoal depende unicamente dela ..." (p.163). A conscincia, antes ao da mente ou dos sentidos, 
converte-se num ato de conscincia de si que serve como condio para todos os outros atos de conscincia. Com isso  aliviado o temor aristotlico de uma regresso 
infinita. Kant desenvolve o pensamento de que a conscincia est de acordo com a conscincia de si, mas recusa-se a considerar a ltima como propriedade de um sujeito 
emprico.

70          conscincia de si
A escola wolffiana de filosofia considerou a conscincia como o ato de ser consciente (Bewust seyn, conscium esse), ou como Meissner (1737) a definiu, "uma caracterstica 
pela qual sabemos que estamos pensando".  uma caracterstica puramente formal sem quaisquer implicaes para as questes de conscincia de si e identidade pessoal. 
Kant subscreveu essa noo de conscincia, mantendo no terceiro paralogismo que a "identidade da conscincia de mim mesmo em diferentes tempos , portanto, apenas 
uma condio formal dos meus pensamentos e do seu encadeamento, mas no prova de modo algum a identidade numrica do meu sujeito" (CRP A p.363). Essa condio formal 
 o produto de um "ato de espontaneidade" que no pode ser investido em qualquer sujeito emprico;  "aquela conscincia de si que, embora gerando a representao 
'Eupenso' (que deve ser capaz de acompanhar todas as outras representaes e que em toda a conscincia  uma s e mesma coisa), no pode fazer-se acompanhar de qualquer 
outra representao" (CRP B p.132). Esse ato, idntico  apercepo pura, produz a "unidade transcendental da conscincia de si", a qual  condio e acompanhamento 
da experincia, embora no seja ela prpria um possvel objeto de experincia. Fornece um horizonte a priori para os juzos de experincia, os quais no so mais 
do que "a unio de representaes numa conscincia" (P 22). Como tal, deve ser radicalmente distinta da conscincia de ns mesmos como seres empricos, fmitos, 
que  assunto da alada da "conscincia psicolgica (aplicada)" (A 7).
A gerao imediata ps-kantiana de filsofos fez da conscincia de si o "princpio supremo" de seus sistemas filosficos. Schelling, por exemplo, afirmou que "o 
saber primordial  para ns, sem dvida alguma, o conhecimento de ns prprios, ou autoconhe-cimento" (1800, p.23). Hegel, entretanto, tentou ir alm da filosofia 
da conscincia. Distinguiu entre conscincia, que envolve uma relao com um objeto, e conscincia de si, que envolve a relao entre um sujeito e uma outra conscincia 
de si. Ele criticou Kant e Fichte por elidirem conscincia e conscincia de si, argumentando que isso levou a postular-se uma conscincia de si incognoscvel e, 
no entanto, soberana, que tratava as outras conscincias de si como se fossem coisas. NaFenomenologia do esprito, faz uma exposio do surgimento da conscincia 
e conscincia de si em termos de uma luta por reconhecimento, na qual a conscincia de si era descoberta atravs do reconhecimento de uma outra conscincia de si. 
Esse desenvolvimento distante do alinhamento terico de conscincia de si e sujeito unitrio anteviu muitos desenvolvimentos do sculo XX na filosofia da conscincia, 
sobretudo os registrados no campo da psicanlise, onde o inconsciente  considerado uma fonte de significados situada para alm do sujeito individual (ver Freud, 
1915). O tema da conscincia adquiriu significao poltica na teoria marxista e em sua descrio da conscincia de classe (ver Lnin, 1902; Lukcs, 1922).
conscincia de si ver APERCEPO; CONSCINCIA; ESPONTANEIDADE; SNTESE
conscincia moral [syneidesis, conscientia, Gewissen] ver tambm CONSCINCIA; DEUS; JUZO; LIBERDADE; POSTULADO; PUNIO
Conscincia moral [conscience]  originalmente um termo tico grego que significa "saber comum". Foi sistematicamente desenvolvida como parte da doutrina crist 
por So Paulo no Novo Testamento (por exemplo, Atos 24:16).  a percepo ou convico de que um pensamento ou curso de ao  correto, um que se julga originar-se 
na voz de
constituio           71
Deus. O uso do conceito por Kant  mais devedor a Calvino e ao calvinismo do que a Lu-tero e aos pietistas. Estes concebiam a conscincia moral como sendo um estado 
de tor-mento que era curado pela graa de Deus. Pietistas como Arndt consideraram que o estado de graa consistia na renncia passiva ao mundo (Arndt, 1605, p. 122) 
e sustentaram que o jbilo da conscincia moral  fruto de uma devoo ntima. Calvino, pelo contrrio, viu a conscincia moral como um aspecto importante da liberdade 
crist. Distinguiu entre o "foro externo" do mundo e o "foro da conscincia", no para justificar uma retirada do mundo, mas para viver uma vida justa no mundo. 
Define conscincia moral como "saber ou cincia"  qual "um sentido de justia divina [] adicionado como testemunha"; situa-se, por assim dizer, entre Deus e o 
mundo, "no permitindo que o homem suprima o que conhece de si mesmo" (Calvino, 1962, vol.n, p.141).
Todas as discusses em torno da conscincia moral por Kant em RL, E e MC seguem Calvino quando consideram-na um tribunal ou foro ntimo. No primeiro texto, Kant 
define conscincia moral como "um estado de conscincia que  em si mesmo um dever" (RL p.185, p. 173), e quer com isso dizer que  "a faculdade de julgar moral 
julgando-se a si mesma". No julga aes como se fossem casos submetidos a uma lei, mas  a razo julgando-se a si mesma "sobre se realmente empreendeu com toda 
a diligncia essa avaliao de aes (se esto certas ou erradas), e convocando o prprio homem para testemunhar a favor ou contra si mesmo, quer essa avaliao 
diligente tenha ocorrido ou no (RL p. 186, p. 174). Em E, esse juzo de si  descrito como a promulgao de uma sentena: a conscincia moral "pronuncia um veredicto 
judicial e, como4im juiz que s pode punir ou absolver mas no pode premiar, assim tambm a nossa conscincia moral nos absolve ou nos declara culpados e merecedores 
de punio" (E p.133).
Os processos do foro ntimo da conscincia moral so descritos com maior detalhe em MC.  o "juiz interno" por quem todos "se sentem observados, ameaados e, em 
geral, tomados de um misto de temor e respeito" (MC p.438, p.233). Antes de uma ao ser empreendida, a conscincia moral emite uma advertncia mas, depois que a 
ao foi cometida, "o promotor adianta-se na conscincia moral", acompanhado por um advogado de defesa. A disputa no pode ser resolvida amigavelmente e o juiz da 
conscincia moral tem de lavrar sua sentena, absolvendo ou condenando. Uma absolvio no acarreta recompensa ou alegria (como os pietistas pensavam) mas apenas 
um alvio da ansiedade. Numa interessante reflexo sobre a sua prpria analogia judicial, Kant sugere que a existncia de conscincia moral pode ser usada para corroborar 
o postulado da existncia de Deus como um "ser moral onipotente" (MC p.439, p.234).
constituio [Verfassung] ver tambm COSMOPOLITISMO; DEUS; ESTADO; HISTRIA; LEI; MUNDO; SISTEMA; TEODICIA
O termo "constituio" foi usado pela primeira vez por Kant em HGN para descrever a "constituio sistemtica do universo" ou a ordem das estrelas e planetas (HGN 
p.vi, p.100). Os corpos que formam um sistema constitudo relacionam-se com um "centro comum", como o sol, e entre si ao participarem de um plano comum ou eclptico. 
A constituio do universo  dinmica e progressiva, manifestando um processo de criao eterna que relaciona entre si as partes do universo e todas com o ato criativo 
original de Deus. O curso da criao "animar todos os espaos da presena de Deus e coloc-los- gradualmente na regularidade que  apropriada  magnificncia de 
seu plano" (HGN

72            construo
p. 114, p. 154). Em sv, essa noo de constituio  ampliada ao mundo moral, onde se refere  "unidade moral de uma constituio sistemtica, traada de acordo 
com leis puramente espirituais" (p.335, p.322). Uma vez mais, essa constituio  um aspecto de uma teodicia na qual "um poder secreto nos fora a dirigir a nossa 
vontade para o bem-estar de outros, ou a regul-la de acordo com a vontade de um outro, embora isso acontea com freqncia  revelia da nossa vontade e em forte 
oposio  nossa inclinao egosta" (p.334, p.322).
Que Kant discerniu uma relao entre os aspectos fsico, moral e poltico da constituio  evidente em textos do perodo crtico, tais como IHU e CJ - at mesmo 
CRP. Em defesa da tese de que "a histria da humanidade"  a "realizao de um plano oculto da natureza para produzir uma constituio poltica perfeita", Kant recorre 
s provas que evidenciam ser o universo "constitudo como um.sistema" (IHU p.27, p.50). A partir da argumenta, alm disso, que a natureza trabalha lentamente, atravs 
de "revolues refor-mativas", para o estabelecimento de um governo universal. Da mesma forma, em CJ, a condio formal para se atingir "o fim ltimo da natureza 
como sistema teleolgico"  "uma constituio regulamentando as relaes mtuas dos homens de tal modo que aos abusos da liberdade por parte de indivduos que nutrem 
recproco antagonismo se oponha uma autoridade legal centrada num todo chamado sociedade civiF (83). Semelhante constituio  necessria para "o maior desenvolvimento 
de tendncias naturais", mas deve ser complementada por uma "constituio cosmopolita" ou "um sistema de todos os Estados que correm o perigo de infligir danos uns 
aos outros". Em CRP, a mesma constituio  descrita como a que "tenha por finalidade a mxima liberdade humana, segundo leis que permitam que a liberdade de cada 
um possa coexistir com a de todos os outros" (CRP A 316/B 373).
As consideraes de Kant sobre as formas constitucionais do estado e as relaes internacionais em PP e MC, assim como as da igreja em RL, esto situadas dentro 
do contexto da histria progressista. Isso permitiu-lhe renunciar ao direito  revoluo e preferir um curso reformista de desenvolvimento histrico. A idia de 
uma constituio civil, diz ele em MC,  "um mandamento absoluto da razo prtica" (MC p.372, p. 176), mas nenhuma autoridade subordinada no estado pode agir em 
nome dele, mesmo que sua organizao seja defeituosa. As implicaes autoritrias dessa idia so insinuadas numa nota de rodap sobre a Revoluo Francesa em CJ, 
na qual, embora cada membro seja convocado a ser no s um meio mas tambm um fim, j que d sua contribuio para "a possibilidade do todo", ele deve, no obstante, 
"ter sua posio e funo definidas mediante a idia do todo" (CJ 65). Isso surge em PP como a defesa de uma constituio republicana, mas no democrtica, fundada 
sobre os trs princpios de "liberdade para todos os membros da sociedade", dependncia de todos para com uma nica legislao comum (como sditos) e "igualdade 
jurdica para todos (como cidados)" (p.350, p.99). Essa idia de uma constituio republicana oferece um cnone para julgar as constituies monrquicas, aristocrticas 
e democrticas existentes, assim como a idia para uma futura constituio que combine maior liberdade para pessoas individuais e estados individuais se relacionarem 
mutuamente com sua dependncia recproca de uma autoridade ou "centro comum" legal.
construo ver tambm ESQUEMA(TISMO); HIPOTIPOSE; MATEMTICA
construo            73
Em seu Comentrio sobre o Primeiro Livro dos Elementos de Euclides, Proclo arrola construo, a par de enunciao, exposio, especificao, prova e concluso, como 
sendo uma das partes constituintes de um teorema geomtrico euclidiano. Ela "adiciona o que est faltando no dado para encontrar o que  procurado" (Proclo, 1970, 
p. 159). Kant manteve esse sentido geomtrico da palavra mas ampliou-lhe o mbito para incluir uma noo geral de apresentao ou hipotipose. A sua explicao de 
construo  crucial tanto para a sua filosofia especfica da matemtica quanto para a sua definio mais genrica de saber e conhecimento.
Kant responde  questo formulada em p, "Como  possvel a matemtica pura?", enunciando a "primeira e suprema condio de sua possibilidade," a qual consiste em 
que "alguma intuio pura deve formar a sua base, na qual todos os seus conceitos podem estar presentes ou construdos, in concreto e, contudo, apriori" (P 7). 
A construo combina o apriori e o concreto, e o faz mediante a "apresentao de seus conceitos em intuio". Quando o conceito de entendimento ou "fundamento da 
unidade de construo" se apresenta em intuio,  a ele que compete, em conseqncia, "determinar ao espao que assuma a forma de um crculo, ou as figuras de um 
cone e de uma esfera" (P 38). Kant descreveu o insight sobre a natureza da construo como a "revoluo intelectual" que deu origem s matemticas, uma revoluo 
que consistiu em o matemtico produzir (por construo) "o que segundo conceitos pensava e se representava a si prprio a priori, e que para saber, de modo seguro, 
algo a priori nada devia acrescentar  coisa, seno o que resultasse necessariamente do que ele prprio havia posto nela conforme o seu conceito" (CRP B xii).
Kant amplia a sua noo de construo em duas direes no inteiramente consistentes. Na doutrina do mtodo de CRP, usa-a para distinguir entre mtodo geomtrico 
e filosfico. Foi a continuao de sua querela, iniciada em ICP, com o estilo wolffiano de apresentao geomtrica. O saber matemtico  axiomtico e considera "o 
universal no particular, ou mesmo no singular", ao passo que o saber filosfico  acroamtico ou discursivo e "considera o particular somente no universal" (CRP 
A 714/B 742). Entretanto, Kant tambm fez de construo uma noo central em sua explicao das origens da experincia na combinao de conceito e intuio. Em SD, 
construo  definida como "toda apresentao de um conceito atravs da produo (espontnea) de uma intuio correspondente" (SD p.192, p.l 11). Tal construo 
 pura "se ocorre atravs da mera imaginao de acordo com um conceito apriori", e emprica "se  praticada em alguma espcie de material" (ibid.). A primeira espcie 
de construo  esquemtica e foi transferida para o captulo sobre esquematismo em CRP, ao passo que a segunda  tcnica e  discutida em CJ, mormente na "Primeira 
Introduo". Em ambos os casos, o significado de construo  ampliado para alm do contexto geomtrico original a fim de oferecer uma explicao geral da apresentao 
de conceitos em intuio.
A ampliao por Kant da construo geomtrica, convertendo-a numa descrio da apresentao em geral, foi importante para os desenvolvimentos radicais na fenome-nologia 
do sculo XX, com destaque para As origens da geometria (1954) de Husserl e para o comentrio sobre essa obra por Derrida (1962), assim como na obra de Lyotard sobre 
"apresentao" desde 1971, sobretudo em O diferendo (1983). Oferece um ponto de partida para uma investigao sobre a apresentao do conceito ou lei, a qual, no 
obstante, respeita a singularidade concreta.

74            contedo
contedo ver FORMA
contingncia ver NECESSIDADE
continuidade ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; ANTECIPAES DA PERCEPO; CAUSALIDADE; CONTRATO; HOMOGENEIDADE
Para Kant, continuidade  uma propriedade fundamental que caracteriza a intuio, o entendimento e a razo.  definida em CRP como a "propriedade de grandezas segundo 
a qual nenhuma das suas partes  a mnima possvel; ou seja, nenhuma parte  simples" (A 169/B 212). Constitui a base da afirmao feita nas antecipaes da percepo 
de que o real das aparncias possui grandeza intensiva ou grau, e  a nica qualidade que pode ser conhecida apriori das grandezas (CRP A 176/B 218). As formas de 
intuio - espao e tempo - so descritas como quantidades contnuas {quanta continua) porque nenhuma de suas partes  a mnima possvel; pontos e instantes so 
descritos como "posies-limite", as quais "pressupem sempre as intuies que devem limitar ou determinar" (CRP A 169/B 211). As categorias tambm obedecem  "lei 
da continuidade de toda a alterao", como pode ser ilustrado pelo exame da categoria de causalidade na segunda analogia da experincia. A ao da causalidade  
contnua; uma mudana de estado ocorre continuamente ao longo do tempo, uma vez que "nem o tempo nem tampouco a aparncia no tempo se compem de partes que sejam 
as menores possveis" (CRP A 209/B 254). A razo tambm "prepara o terreno para o entendimento" (A 657/B 685) quando recorre ao princpio regulativo da continuidade. 
 apresentado como a "unio" dos princpios de homogeneidade genrica e variedade ou heterogeneidade especfica, o que nos permite "mesmo na mxima diversidade observar 
a homogeneidade na gradual transio de uma espcie para a outra..." (A 660/B 688). Embora Kant admita que a "lei lgica do continuam specierum (formarum lo-gicarum) 
pressupe uma lei transcendental (lex continui in natura)" (A 660/B 688), ele tem o cuidado de especificar que essa continuidade transcendental no pode ser um objeto 
de experincia nem, como princpio, pode ser-lhe dada uma deduo, mas s pode ser usada regulativamente como "princpio heurstico" para a "observncia do uso emprico 
da razo" e da "elaborao da experincia" (A 663/B 691).
A continuidade tambm desempenha um papel considervel na filosofia do direito de Kant. Em sua discusso da posse em MC, afirma que a transferncia por contrato 
"tem lugar de acordo com a lei da continuidade (lex continui)" (MC p.274, p.93). Isso  necessrio para impedir que a propriedade do objeto cesse de existir, ainda 
que por um instante, no decorrer de sua transferncia. Kant justifica esse uso da continuidade pelo recurso  noo de "vontade unida", atravs da qual, no momento 
da transferncia, ambas as partes de um contrato formam uma terceira "vontade unida" que assegura a continuidade de posse.
contradio [Widerspruch] ver tambm CERTEZA; CONCEITO; EXISTNCIA; FORA; MOVIMENTO; TEMPO; VERDADE
A lei ou princpio de contradio  descrita por Aristteles na Metafsica como o mais "certo" e "indiscutvel" dos princpios. Entretanto, a sua definio - "que 
o mesmo atributo no pode, ao mesmo tempo, pertencer e no pertencer ao mesmo sujeito e sob o mesmo aspecto" (Aristteles, 1941-, 1005b, 18-20) - contm uma crucial 
e extremamente importante restrio temporal. Esta  enunciada em sua obra Da interpretao,
contrapartida incongruente            75
onde se afirma que o princpio s  vlido no pressuposto de simultaneidade temporal: "uma vez que essas mesmas afirmaes e negaes so possveis com referncia 
queles tempos que se situam fora do presente" (Aristteles, 1941,17a, 30). O significado dessa clusula tinha-se perdido l pelo comeo do sculo XVIII, quando 
Christian Wolff estabeleceu um sistema filosfico racionalista baseado na primazia do princpio de contradio. De acordo com a leitura de Wolff desse princpio, 
o ser sucede  no-contradio:  "uma coisa no pode simultaneamente ser e no-ser" (1719,  10)  interpretado no sentido de que qualquer coisa que no  contraditria 
pode ipsofacto existir. As primeiras crticas de Kant  dependncia de Wolff desse princpio constituram um dos seus mais importantes passos com vistas  posio 
assumida na filosofia crtica, e que consistiu, em termos gerais, numa reconsiderao do significado do limitador temporal aristotlico.
A ND de 1755  dedicada a uma investigao crtica de "as coisas que so afirmadas, usualmente com mais confiana do que verdade, a respeito das declaraes supremas 
- com freqncia apresentadas com mais confiana do que exatido - acerca da suprema e indubitvel primazia do princpio de contradio sobre todas as verdades" 
(p.387, p.5). Nesse texto, Kant procurou desvendar princpios adicionais de verdade mas, em escritos subseqentes, passou a concentrar-se cada vez mais nas limitaes 
da afirmao e negao lgicas. Em GN, ele distinguiu entre oposio lgica e real, consistindo a primeira em "afirmar e negar simultaneamente algo a respeito da 
mesma coisa", enquanto na segunda "dois predicados de uma coisa opem-se mutuamente, mas no atravs da lei da contradio" (p.171, p.211). Kant ilustra este ponto 
com o exemplo de movimento e repouso (previamente discutido em NT). De acordo com o princpio de contradio, um corpo no pode estar e no-estar em movimento, mas 
Kant observa: "A fora motora que impele um corpo numa direo e uma tendncia igual do mesmo corpo na direo oposta no se contradizem mutuamente; como predicados, 
elas so simultaneamente possveis no mesmo corpo. A conseqncia de tal oposio  o repouso" (p.171, p.211). Kant desenvolve ainda mais esse ponto, insistindo 
na importncia do horizonte temporal: o que pode ser contraditrio num tempo no o  necessariamente num outro.
Os pontos estabelecidos nos primeiros escritos contra o princpio de contradio so desenvolvidos sistematicamente na filosofia crtica. O princpio de contradio 
 um "critrio negativo de verdade" e restrito a servir como o "princpio de todo o saber analtico" (CRP A 151/B 191).  um princpio puramente formal, pois nas 
palavras de L, "um conhecimento que se contradiz  evidentemente falso, mas se no se contradiz no  sempre verdadeiro" (p.559). Kant sustentou que embora seja 
"condio lgica necessria que tal conceito no encerre contradio... de modo algum  suficiente para constituir a realidade objetiva do conceito, isto , a possibilidade 
de um objeto tal qual  pensado pelo conceito" (CRP A 220/B 268). Para a ltima espcie de saber apriori sinttico,  necessrio suplementar o princpio de contradio 
com uma srie de princpios adicionais a respeito das condies espaciais e temporais do finito conhecimento humano.
contrapartida incongruente [inkongruentes Gegenstck] ver tambm ESPAO; INTUIO; ORIENTAO
A mais extensa discusso de contrapartidas incongruentes por Kant encontra-se em DE (1768), onde se forma o ncleo de sua prova em apoio ao espao absoluto newtoniano 
contra a opinio de seus contemporneos leibnizianos de que o espao "consiste na rela-

76            contrato
o externa das partes de matria que coexistem lado a lado" (p.383, p.371). Ele argumenta que "a determinao completa de uma forma corprea no depende simplesmente 
da relao e posio mtua de suas partes; depende tambm da referncia dessa forma fsica ao espao absoluto universal" (p.381, p.369). Uma contrapartida de um 
objeto  aquela que  idntica a ele no que concerne a sua definio e relaes internas, como no exemplo de Kant da mo direita e da mo esquerda. Alega que, mesmo 
no caso de as contrapartidas serem formalmente idnticas, subsiste uma "diferena interna" que consiste na propriedade de que "a superfcie que encerra uma no tem 
a menor possibilidade de encerrar a outra" (p.383, p.371). Essa diferena interna relaciona-se "exclusivamente com o espao absoluto e originar, porquanto seria 
inexplicvel com base nas premissas do espao relativo leibniziano. Kant manteve seu interesse pelos argumentos topolgi-cos mesmo depois de ter rejeitado o conceito 
de espao absoluto; as noes de direciona-lidade e orientao implcitas em sua anlise das contrapartidas incongruentes so exploradas em seu ensaio sobre orientao 
(SOP) e so pertinentes com o seu entendimento de espao e geometria.
contrato ver tambm CASAMENTO; CONTINUIDADE; DIREITO/DIREITOS; ESTADO; JUSTIA; LEI; OBRIGAO; PROPRIEDADE; VONTADE
O contrato tornou-se a forma dominante de relacionamento social na sociedade moderna, dando forma s nossas concepes de volio, consentimento e obrigao. Originalmente 
limitado no Digesto de Justiniano acerca do direito civil romano s obrigaes de direito privado entre cidados, o mbito do contrato foi ampliado no incio do 
perodo moderno para incluir no s a formao do estado (como no Contrato social de Rousse-au, de 1762) mas tambm as relaes morais e ticas. Essa ampliao do 
mbito do contrato  evidente na filosofia prtica de Kant e foi por ela promovida, sobretudo em A metafsica dos costumes. Ficou devedora da sistematizao de conceitos 
legais romanos levada a um extremo por filsofos wolffianos do direito no perodo imediatamente anterior a Kant.
Kant define um contrato em termos de "dois atos que estabelecem um direito: uma promessa e sua aceitao" (MC p.284, p.102). Uma vez que ele deseja desenvolver uma 
explicao transcendental de contrato, abstrai da matria contratual - seus objetos - e concentra-se na forma de obrigao. Assim, enfatiza os aspectos pessoais 
sobre os reais de um contrato, no considerando a entrega e a aquisio como partes constitutivas de um contrato mas unicamente como seus efeitos. Para garantir 
o resultado desejado, Kant postula trs partes num contrato: um promitente, um aceitante e um fiador. Isso leva a uma duplicao de contratos, sendo aquele entre 
promitente e aceitante suplementado por aquele entre promitente e fiador. Kant passa depois a dividir os contratos de acordo com trs tipos. O primeiro concede a 
"aquisio unilateral" e  um "contrato gratuito", como custdia, emprstimo e ddiva. A segunda forma de contrato - o "contrato oneroso" - concede a aquisio a 
ambas as partes, e inclui escambo, venda, emprstimo e agncia. O terceiro grupo compreende contratos de garantia que fornecem segurana atravs de penhor e da assuno 
de responsabilidade. Com isso, Kant desenvolve uma tipologia de contratos que enfatiza a forma pessoal de obrigao e responsabilidade sobre os objetos reais de 
contrato.
corpo             77
A nfase sobre os aspectos pessoais do contrato resulta da caracterizao volunta-rista do ato contratual por Kant. Os elementos "preparativos" e "constitutivos" 
de um contrato so dedicados  realizao de uma unidade de vontade entre as partes. Na fase preparatria de "negociao" de um contrato, uma oferta  feita e assentida; 
se-gue-se-lhe, na fase constitutiva ou concludente, uma promessa e uma aceitao. O que  adquirido inicialmente no  um direito real a uma coisa externa mas um 
direito "contra uma pessoa... um direito a agir sobre a sua causalidade (sua escolha) para executar algo para mim..." (MC p.274, p.93). Um direito a uma coisa s 
segue aps a execuo, mas essa transferncia de propriedade suscita considerveis problemas para a definio de Kant de contrato. Se todos os direitos so fundamentalmente 
pessoais, ento surge um hiato na propriedade durante o curso de transferncia de um objeto de uma parte para outra. Kant resolve essa dificuldade mediante o recurso 
a uma terceira vontade unida que  a soma das duas partes e fornece a continuidade de propriedade mesmo enquanto o objeto est sendo transferido de uma parte para 
a outra.
Kant ampliou o mbito do contrato das transaes basicamente comerciais entre indivduos para as relaes ticas e polticas. Um exemplo notrio  a sua definio 
de casamento como o contrato que assegura "a unio de duas pessoas de diferentes sexos para a posse por toda a vida dos atributos sexuais recprocos" (MC p.277, 
p.96 - um exemplo complexo que ameaa a distino entre posse real e posse pessoal). Tambm discute a fundao de um estado em termos da idia de um contrato original, 
como "o ato pelo qual um povo se organiza num estado" (MC p.315, p. 127). Nesse contrato, todos trocam sua "liberdade externa" pela "liberdade civil". Trs contratos 
distintos so, de fato, empreendidos na formao do estado: o primeiro  entre futuros cidados, no qual "cada um complementa os outros a fim de completar a constituio 
de um estado" (MC p.315, p.217); o segundo  entre o povo e um superior, o contrato de "subordinao"; e o terceiro  entre o superior e o povo, atravs do qual 
"so atribudos a cada sdito os seus direitos" (MC p.316, p. 127). A idia desse contrato original fornece uma idia regulativa pela qual "pensar sobre a legitimidade 
de um estado" (MC p.315, p. 127) e, portanto, "envolve uma obrigao por parte da autoridade constituinte para realizar a espcie de governo consentnea com a idia 
do contrato original" (MC p.340, p. 148). Kant amplia esse contrato original dentro de um estado ao contrato entre estados, propondo uma "liga das naes" baseada 
numa associao de autoridades soberanas.
A influncia indireta da concepo e definio de Kant de contrato  incalculvel, uma vez que suas definies contratuais de propriedade, governo e relaes internacionais 
deram origem a uma extensa literatura polmica que hoje apresenta pouca relao com os seus textos originais e suas intenes.
corpo [soma, Krper] ver tambm ACIDENTE; ESPRITO; HETERONOMIA; MATRIA; MOVIMENTO; PRAZER; VIDA
Em CRP, Kant considerou ser o significado do conceito de corpo to imediatamente bvio que o usou para ilustrar a distino entre juzos sintticos e analticos: 
"Todos os corpos so extensos"  um juzo analtico porque o conceito de corpo contm o predicado de extenso, a par de "impenetrabilidade, figura etc"; "Todos os 
corpos so pesados"  um juzo sinttico porque o conceito de peso no  intrnseco ao conceito de corpo (A 7-9/B 11-13). Lamentavelmente, Kant no podia ter escolhido 
um exemplo menos simples e

78            corpo
direto, uma vez que mesmo em sua prpria obra a natureza do corpo estava longe de ser bvia e foi tema de considervel debate e at inquietao.
As discusses de Kant sobre corpo podem ser divididas, de uma forma algo artificial, segundo enfatizem o aspecto fsico ou o fenomenolgico do conceito. O primeiro 
aspecto concentra-se na noo cientfica natural de corpo que inclui os objetos materiais, enquanto o segundo se concentra no corpo humano. Mesmo o primeiro conceito 
de corpo est longe de ser linear em Kant; de maneira nenhuma  apenas a regra para a unidade do diverso servindo ao nosso conhecimento de aparncias externas, regra 
que  superficialmente apresentada num ponto de CRP (A 106). A primeira obra publicada de Kant, FV (1747),  uma investigao minuciosa da natureza dos corpos fsicos. 
Nela contesta o conceito cartesiano de que o corpo  definido por extenso e o conceito aristotlico de que ele possui uma entelquia ou princpio de movimento. 
Defende a tese leibniziana de que o corpo contm uma fora essencial "anterior  sua extenso" (FV 1) e chega a admitir que as trs dimenses da extenso espacial 
podem ser derivadas da ao dessa fora. Distingue, assim, entre a constituio do corpo matemtico em termos de extenso e a constituio de corpos naturais em 
termos de uma fora inerentemente expansiva. Essas discusses so dedicadas, entre outras coisas, a mostrar que o conceito de corpo deve ser distinguido daquele 
de substncia.
Embora Kant no sustente todos os detalhes dessa posio inicial ao longo de sua carreira, no  o caso, em absoluto, de que tenha simplesmente aceito a viso cartesiana 
de corpo que parece estar subjacente nas discusses em CRP. A relao entre corpo e espao no cessou de intrig-lo: os corpos ocupam ou constituem espao, ou meramente 
denotam uma regra para a sntese de intuies? Essas questes continuam servindo de base para as definies crticas de corpo aventadas em PM, onde o corpo se apresenta 
como "matria entre limites determinados" (PM p.525, p.80). Entretanto, Kant est ciente de que mesmo a definio mecnica de corpo, que o v somente como uma "massa 
de determinada forma", pressupe a prvia ocupao qualitativa de um espao distinto. Essas anlises dos aspectos quantitativos e qualitativos do corpo continuaram 
em OP e, com sua morte, foram por ele deixadas sem soluo; podem, sem exagero, ser descritas como uma das mais importantes e contnuas preocupaes de sua autoria.
A par de sa discusso do corpo fsico da cincia natural, Kant desenvolveu tambm uma anlise do corpo humano. Nos "Paralogismos" de CRP, aborda o problema cartesiano 
de mente e corpo, mas o seu interesse no significado da experincia do corpo humano para a filosofia era muito mais amplo. No pr-crtico DE (1768), ele derivou 
o ordenamento espacial de acima-abaixo, esquerda-direita, adiante-atrs, to cruciais para a sua explicao de intuio a partir da experincia espacial do corpo 
humano (DE p.378-9, p.366-7). Analogamente, em FS, ele derivou o fenmeno da impenetrabilidade de um resistncia do objeto ao toque do corpo. Assim, a anlise da 
experincia do corpo humano est implcita do comeo ao fim da anlise terica mais tcnica de CRP.
A experincia do corpo tambm  central nas filosofias prtica e esttica de Kant. A "Doutrina da virtude" em MC ocupa-se amplamente da administrao corporal, uma 
abordagem do regime fsico que Kant tambm desenvolveu em termos de medicina no seu ensaio sobre "Medicina do corpo dos filsofos" (1786). A questo do prazer e 
dor corporais figura com destaque em A, assim como em CJ, onde faz parte de uma agenda epicurista cada vez mais evidente. Assim, na ltima, Kant analisa as diferentes 
experin-
cosmologia             79
cias do prazer corporal, desde o agradvel ao esttico, e relaciona-as com a promoo da vida para o impedimento e favorecimento dos prazeres do corpo. Tambm em 
CJ discute o corpo ideal e sua representao artstica. A respeito das diferenas entre corpos, Kant foi previsivelmente insensvel ao significado de diferena sexual, 
e em A e alguns trabalhos mais curtos contribuiu para um debate entre seus contemporneos no tocante s distines raciais entre corpos humanos.
A ampla anlise de Kant do corpo humano superou de longe os limites do debate mente-corpo cartesiano, a tal ponto que, com efeito, permaneceu negligenciado at ao 
sculo xx. Muitos de seus insights foram recuperados pelo movimento fenomenolgico no decorrer de sua desconstruo do dualismo cartesiano. Em Ser e tempo (1927), 
Hei-degger envolve-se diretamente com o DE de Kant, e sua influncia tambm  evidente na fenomenologia do corpo de Merleau-Ponty (1962). A influente obra de Foucault 
sobre o corpo foi no s inspirada pela obra de Kant (ele traduziu A), mas tambm contribuiu para fazer do corpo um objeto apropriado de estudo e levou a uma reconsiderao 
de alguns textos e argumentos de Kant previamente esquecidos (ver Foucault, 1976, 1980, 1984, 1988).
cosmologia ver tambm ABSOLUTO; ANTINOMIA; CAUSALIDADE; DIALTICA; MUNDO; NATUREZA; ONTOLOGIA; PSICOLOGIA; TEOLOGIA
A cosmologia  um dos trs ramos da "Metafsica especial" que, om a ontologia, faz parte do influente sistema de metafsica desenvolvido por Christian Wolff (1719). 
Enquanto a ontologia considerava o ser-em-geral, os ramos da metafsica especial concentraram-se no ser de determinados objetos: a teologia considerou o ser de Deus, 
a psicologia o ser da alma e a cosmologia o ser do mundo. A metafsica de Wolff era a "razo pura" criticada por Kant, e a CRP segue de perto a sua estrutura: a 
ontologia  substituda pela analtica transcendental, e a metafsica especial pela dialtica transcendental. Na reviso crtica da metafsica especial, a alma ou 
"idia do sujeito" absoluto", o mundo ou "idia da srie completa de condies", e Deus ou "idia de um completo complexo do que  possvel" revelam-se dialticos, 
e suas cincias esto eivadas de inferncias dialticas - psicologia com paralogismo, cosmologia com antinomia e teologia com idias transcendentes.
O primeiro ensaio de Kant sobre cosmologia, HGN,  uma coleo de hipteses especulativas referentes  constituio do universo que combina, de modo idiossincrsico, 
argumentos extrados da fsica, teologia e antropologia.  precisamente a espcie de empreendimento que CRP provaria ser mal fundamentado e ilegtimo, pela razo 
bsica de que tratava seus "princpios regulativos" ou hipotticos como se fossem apodticos ou "constitutivos". A cosmologia crtica preocupa-se em mostrar as conseqncias 
dialticas de categorias excessivamente extensas, as quais s so adequadamente aplicveis s aparncias. Os resultados so apresentados nas quatro antinomias, as 
quais revelam o que acontece quando as categorias quantitativas, qualitativas, relacionais e modais tornam-se absolutas ou ampliadas alm de seus apropriados limites 
espao-temporais no mundo das aparncias.
Kant comea com o emprego dialtico das categorias de quantidade. Se considerarmos a grandeza do mundo, se  finito ou infinito, descobrimos no poder provar de 
modo conclusivo nem uma coisa nem outra; ficamos com a primeira antinomia que apre-

80            cosmopolitismo
senta dois casos opostos, mas igualmente convincentes, a favor da finitude e infmitude do mundo. Uma estratgia semelhante de argumentao  adotada na segunda antinomia, 
a qualitativa, a qual diz respeito  qualidade dos elementos bsicos do mundo. Tambm esta gera a tese de que o mundo  composto de simples tomos ou mnadas, e 
a igualmente convincente anttese de que no existem elementos simples e o mundo  constitudo de complexos. Nessas antinomias "matemticas", as iluses dialticas 
resultam da equivocao de aparncias no tempo, espao e coisas em si mesmas; tratamos as nossas condies de conhecimento como se fossem condies absolutas de 
coisas.
O segundo par de antinomias "dinmicas" tambm gera inferncias dialticas, mas pela razo de que, com base em nossa experincia espao-temporalmente limitada, supomos 
ser contraditrio o que, de um outro ponto de vista, poderia ser compatvel. O nosso entendimento categrico de relaes causais, quando ampliado de modo a abranger 
um objeto absoluto, torna-se dialtico: ou todas as coisas esto causalmente relacionadas e no existe causa independente, ou existe causalidade independente atravs 
da liberdade. O mesmo ocorre no caso das categorias modais: quando ampliadas para alm das aparncias, produzem a antinomia segundo a qual ou existe um ser absolutamente 
necessrio ou tal ser no existe.
A cosmologia crtica de Kant  "cannica" em seu sentido de fornecer critrios para o estabelecimento da falsidade. A sua cosmologia  apresentada como medida acau-teladora 
tomada contra a "iluso natural" da razo humana que procura alcanar o conhecimento absoluto do mundo. Mostra que, quando a razo amplia os conceitos do entendimento 
para alm do mundo das aparncias no tempo e no espao, entra em conflito consigo mesma. Com isso, Kant abandonou efetivamente o projeto de uma cosmologia filosfica, 
muito embora deixasse aberta a possibilidade de um uso regulativo das idias cosmolgicas. Depois dele, Hegel e Schelling tentaram resgatar a iniciativa com a filosofia 
da natureza, mas isso foi, em grande parte, uma ao de retaguarda em face do movimento de transferncia dos interesses cosmolgicos do campo da filosofia para o 
da cincia natural.
cosmopolitismo ver tambm DIREITO/DIREITOS; DIREITO NATURAL; ESTADO; FEDERALISMO; GUERRA; HISTRIA; JUSTIA; PAZ
O cosmopolitismo  descrito em IHU como "a matriz em cujo seio podem desenvolver-se todas as capacidades originais da raa humana" (p.28, p.51).  um passo necessrio 
no caminho da soluo do "maior problema para a espcie humana", que  o da "realizao de uma sociedade civil que pode administrar a justia universalmente" (p.22, 
p.45). Esse fim no pode ser alcanado dentro de um estado que participa numa ordem de relaes externas antagnicas com os outros estados. Por conseguinte, nesse 
estudo e em PP, Kant concentra suas atenes num "sistema cosmopolita de segurana poltica geral" (p.26, p.49) entre estados, sistema esse que ele descreve como 
uma "federao de povos na qual todos os estados, mesmo os menores dentre eles, poderiam esperar derivar sua segurana e direitos no de seu prprio poder ou de 
seu prprio juzo legal, mas unicamente dessa grande federao (foedus Amphictyonum), de um poder unido e de decises regidas pela lei de uma vontade unida" (p.24, 
p.47). Em contraste, nas pginas finais de A, o. cosmopolitismo  descrito como a meta do desenvolvimento da espcie humana. No  um princpio constitutivo mas 
regulativo que exige que cada indivduo, e no apenas
Crtica da faculdade do juzo            81
cada estado, "se submeta generosamente  sociedade cosmopolita como o destino da raa humana (A p.331, p.249). De acordo com a idia regulativa cosmopolita, cada 
indivduo orientaria suas aes para a "organizao progressiva dos cidados da Terra, dentro e em prol da espcie, como um sistema que est unido por vnculos cosmopolitas" 
(A p.333,p.251).
costume ver IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; MANDAMENTO; MXIMA; PESSOA
crena ver F
Cristo ver ARQUTIPO; DEUS; IGREJA
Crtica da faculdade do juzo Publicada em 1790, a Crtica constitui a terceira obra da trilogia crtica, aquela com que Kant afirmou ter "concludo toda a sua tarefa 
crtica". O que, precisamente, ele quis dizer com essa afirmao  um tema de controvrsia. A terceira crtica pode ser considerada o texto que rene os domnios, 
sob outros aspectos opostos, da natureza e da liberdade, tal como foram discutidos na filosofia terica da primeira crtica e na filosofia prtica da segunda. Ou 
pode ser o texto que remata a discusso da faculdade do entendimento na primeira crtica e da razo na segunda com uma anlise da faculdade do juzo; ou, alternativamente, 
a faculdade de prazer e desprazer. Pode at ser que a terceira crtica d por encerrado o empreendimento crtico, adicionando simplesmente uma discusso do juzo 
esttico do gosto s dos juzos terico e prtico expostos nas primeiras duas crticas. De um modo que lhe  caracterstico, as duas introdues de Kant a CJ (a 
primeira e mais longa verso foi inicialmente descartada por demasiado extensa e mais tarde publicada separadamente) podem ser citadas para autorizar todas essas 
interpretaes do significado do texto na trilogia crtica. Entretanto, elas tambm apontam para uma interpretao mais abrangente que inclui todos os temas acima 
e ainda outros mais.
Cumpre lembrar que CJ, de fato, compreende duas crticas, cada uma completa com sua prpria analtica e dialtica: a primeira  uma crtica do juzo esttico do 
gosto, a segunda uma crtica do juzo teleolgico. Assim, antes que qualquer deciso possa ser tomada sobre o lugar ocupado pela terceira crtica na trilogia,  
necessrio estabelecer o que est em jogo na organizao interna desse texto. A pista para resolver ambos os problemas  dada no ttulo: trata-se de uma crtica 
da faculdade de julgar (Urteilskraft), ou uma crtica  nossa capacidade de formular juzos. A esse respeito, o texto aborda o que nas duas crticas anteriores era 
tido por ponto pacfico. Elas admitiram, como seus pressupostos bsicos, ser possvel formular juzos tericos e prticos, e dispuseram-se a justificar as condies 
para essa possibilidade. A terceira crtica, porm, investiga as condies que informam a possibilidade no de distintos juzos tericos ou prticos mas do prprio 
juzo. Isso  feito mediante uma anlise de duas formas particularmente problemticas de juzo: o juzo esttico do gosto e o juzo teleolgico.
Essas formas de juzo so problemticas na medida em que no supem uma lei como premissa ou a condio para a sntese do mltiplo. Assim, parecem apontar para uma 
operao da faculdade de julgar distinta das analisadas nas primeiras duas crticas - e talvez anteriores a estas. Kant enuncia formalmente essa distino em termos 
da diferena entre juzo determinante e juzo reflexivo: o primeiro subordina um mltiplo de intuio a um conceito de lei dado pelo entendimento; o segundo descobre 
sua lei no de-

82            Critica da faculdade do juzo
correr da reflexo sobre o mltiplo que lhe  apresentado. Poder-se-ia considerar que esse processo de reflexo, como sugere Kant, est na origem das prprias categorias; 
ou seja, o juzo determinante poderia ser uma espcie de juzo reflexivo genrico. Mais, esse processo de juzo reflexivo  inseparvel da experincia de prazer, 
o qual est evidentemente presente no juzo reflexivo e at, insinua Kant, em dado momento acompanhou o juzo determinante, que se tornou agora habitual e no merece 
destaque (CJ VI).
O relacionamento aqui sugerido entre juzo e prazer contm muitas implicaes extraordinrias e instigantes. Em primeiro lugar, sugere uma noo ou idia dilatada 
de imaginao, a qual no serve mais como intermediria entre intuio e entendimento e apenas facilita a sntese como na primeira crtica, mas est na raiz de ambas 
as faculdades. Em segundo lugar, a introduo de prazer na equao aponta para uma nova relao entre o sujeito cognoscente e os objetos de seu saber e juzos. Esse 
sujeito no  mais o "eu" aperceptivo abstrato mas corporificou-se,  parte viva da natureza. Do comeo ao fim da "Crtica da faculdade de julgar esttica", Kant 
refere-se repetidas vezes ao "sentimento de vida" que  aumentado pelo prazer e diminudo pelo desprazer, um sentimento que  parte integrante da natureza humana. 
A anlise do prazer e desprazer de corporifi-cao na natureza, descrita na "Crtica da faculdade de julgar esttica", pode ser complementada pela anlise da prpria 
natureza, da qual os seres humanos fazem parte, empreendida na "Crtica da faculdade de julgar teleolgica". As duas partes de CJ podem ser lidas como oferecendo 
acesso  experincia originria de julgar, uma em que um sujeito vivo, corporificado, se envolve com o seu mundo.  um sujeito finito, corporifica-do, que atravs 
da imaginao habita o passado, presente e futuro, e que experimenta o prazer e o desprazer de seus juzos.
Em CJ, a esttica j no compreende simplesmente a sensibilidade discutida na esttica da CRP, nem est restrita  anlise da nossa experincia de obras de arte, 
mas trata de explorar, ademais, o lugar do corpo na natureza e seus prazeres e desprazeres resultantes. A "Crtica da faculdade de julgar esttica" leva em considerao 
esse relacionamento com a natureza por meio de uma anlise dos juzos de gosto que sublinha o papel da experincia "subjetiva" da imaginao e do juzo reflexivo 
no prazer, enquanto a "Crtica da faculdade de julgar teleolgica" considera o papel da experincia "objetiva" da imaginao e do juzo reflexivo na conformidade 
a um fim (Zweckmssigkeit) que imputamos  natureza. Juntas, as duas apresentam uma descrio da natureza e do lugar dos seres humanos nela que excede em muito a 
estrutura opositiva que informa algumas partes da primeira e a totalidade da segunda crtica.
A "Crtica da faculdade de julgar esttica" acompanha, de um modo geral, a estrutura das crticas anteriores com uma doutrina dos elementos e uma doutrina do mtodo. 
A doutrina dos elementos est tambm dividida numa analtica e numa dialtica. Entretanto, a exposio do argumento desenvolve-se mediante uma oposio "nem ... 
nem" que contrasta uma tese baseada na teoria britnica do gosto (Burke, Hutcheson, Hume e Kames) e uma extrada da teoria alem da esttica (Baumgarten). Seguindo 
o esquema da tbua das categorias, Kant sustenta que a qualidade do juzo de gosto  desinteressada, contrariamente aos argumentos apresentados pelas tradies concorrentes. 
A quantidade do juzo  universal, o que o distingue da falta de universalidade na teoria do gosto e da universalidade racional proposta pela tradio esttica. 
A relao de um juzo de gosto , diferentemente do que ocorre na teoria do gosto, "final" mas, agora de forma diversa do
Crtica da faculdade do juzo            83
proposto na teoria da esttica,  uma conformidade a um fim sem um fim. De maneira anloga, a modalidade de um juzo de gosto  necessria, o que a distingue da 
teoria do gosto, mas no  a necessidade racional de uma perfeio obscuramente percebida, conforme  sustentado pela teoria da esttica.
A segunda parte da analtica dedica-se a um estudo do sublime, dividido de acordo com o sublime matemtico e o dinmico. Enquanto o belo suscitava prazer diretamente, 
rto caso do sublime o prazer surge da superao de uma experincia inicial de desprazer. Segue-se-lhe uma deduo do juzo esttico do gosto, a qual cita vrias 
fontes possveis de justificao da peculiar universalidade e necessidade desses juzos, em particular o senso comum (sensus communis), a "voz universal" e um fundamento 
supersensvel. A "Dialtica do juzo esttico" compreende um exame da antinomia do princpio do gosto, com a tese afirmando que o juzo no se fundamenta em conceitos 
e a anttese declarando que sim (56). A antinomia  "resolvida" com base nos resultados da analtica, ao assegurar que o juzo esttico do gosto repousa num conceito 
indeterminado. Por fim, aps alguns comentrios fascinantes sobre a beleza como smbolo para a moralidade, Kant apresenta alguns pensamentos sobre o ensino do gosto 
atravs de uma doutrina do mtodo.
Baseado na evidncia fornecida pela maioria das interpretaes de CJ, um leitor estaria justificado em pensar que o livro terminou com a "Crtica da faculdade de 
julgar esttica"; de fato, isso constitui apenas a primeira metade,  qual se segue a "Crtica da faculdade de julgar teleolgica". Esse texto  injustamente negligenciado, 
porquanto  um dos mais interessantes, provocantes e perfeitos entre os ltimos" de Kant. O analtico defende uma explicao teleolgica da natureza, em oposio 
 mecnica, mas especifica as condies rigorosas que ela deve satisfazer. Estas reduzem-se ao fato de que a te-leologia s pode ser tratada como um modo de juzo, 
e que a conformidade a um fim na natureza s pode ser considerada como se fosse objetiva. Kant prepara-se assim para a sua soluo da antinomia discutida na dialtica 
entre a tese de considerar todas as coisas materiais como produzidas de acordo com leis mecnicas, e a anttese que consiste em ver que algumas coisas materiais 
requerem uma causalidade diferente, a saber, uma causalidade final. A antinomia  "resolvida" considerando a tese e anttese como princpios de reflexo. A maior 
parte da "Crtica da faculdade de julgar teleolgica"  dedicada ao mtodo, ou uso do juzo teleolgico como recurso metodolgico para ampliar o nosso conhecimento 
da natureza. Nas reflexes seguintes sobre natureza e juzo, Kant analisa a diferena entre os sistemas epicurista e espinosista de natureza, assim como a histria 
como o cultivo da natureza. Termina o texto com extensas reflexes sobre fsico- e ti-co-teologia, e a repetio de suas anteriores crticas s provas ontolgicas 
e cosmolgi-cas da existncia de Deus.
As primeiras duas crticas atriburam um lugar particular para os seres humanos na natureza, quer opostos a esta como sujeito ao objeto, quer habitando inquietos 
os domnios natural e inteligvel. Em CJ, o lugar dos seres humanos na natureza torna-se muito mais complexo com a introduo dos temas de prazer, corporificao, 
imaginao e juzo. A oposio que informa as primeiras duas crticas entre o sensvel e o inteligvel  desfeita e substituda por uma complexa exposio da nossa 
auto-orientao na natureza e na histria. Esse aspecto do pensamento de Kant empolgou a imaginao de muitos de seus leitores, de Goethe a Nietzsche, e inspirou 
o enfoque contemporneo das atenes crticas sobre a terceira crtica. Em que sentido CJ marca o encerramento do empreendi-

84            Crtica da razo prtica
mento crtico ainda permanece aberto a interpretaes.  possvel at argumentar que CRPr e CJ marcam desenvolvimentos distintos e irreconciliveis das tendncias 
presentes na CRP, e que CJ assinala o afastamento de Kant da tendncia dualista na filosofia crtica, levado a um pernicioso extremo em CRPr.
Crtica da razo prtica Publicada em 1788, esta Crtica  o segundo texto na trilogia crtica e o segunda das trs obras maduras de Kant em filosofia moral. Foi 
precedida em 1785 pela Fundamentao da metafsica dos costumes e sucedida em 1797 pela Metafsica dos costumes. Tal como no caso de CRP, a CRPr obedece a um mtodo 
sinttico de exposio, partindo de princpios morais para, atravs da lei moral, chegar  liberdade. Em sua justificao dos postulados de Deus, liberdade e imortalidade, 
cumpre a promessa feita no segundo prefcio de CRP de "suprimir* o saber para encontrar lugar para a/" (B XXX). A obra obedece  organizao do texto crtico estabelecida 
em CRP, com uma "Doutrina dos elementos da razo prtica pura" seguida de uma "Metodologia da razo prtica pura". Tal como em CRP, a "Doutrina dos elementos" est 
dividida em uma analtica e uma dialtica. A primeira comea com a definio de um princpio prtico como uma "determinao universal da vontade"; esses princpios 
so caracterizados como mximas quando subjetivamente vlidos, e como leis se objetivamente vlidos.
O primeiro captulo de CRPr abre com oito teoremas que estabelecem a natureza de princpios prticos objetivos por meio de uma polmica contra os princpios do juzo 
moral - isto , felicidade, sentimento moral, perfeio - defendidos por filsofos morais anteriores a Kant. Depois de estabelecer a base da lei moral na liberdade, 
e seu relacionamento com a autonomia e o imperativo categrico, Kant passa a uma deduo dos princpios em termos da causalidade da lei moral "num mundo inteligvel" 
(causalidade atravs da liberdade)" (p.49, p.50). Nessa base, Kant apresenta uma "tbua de categorias de liberdade", as quais esto organizadas de acordo com o conhecido 
esquema de quantidade, qualidade, relao e modalidade (CRPr p.66, p.68-9). Segue-se-lhe uma interessante seo sobre a "tpica do juzo prtico puro", a qual corresponde 
 discusso do esquematismo em CRP.A analtica encerra-se com a fundamental seo sobre os "Motivos da razo prtica pura" (captulo III do Livro i). Kant discute 
a o sentimento de respeito pela lei moral como um modo de autodeterminao da vontade, e estabelece a importante distino entre agir de acordo com o dever e agir 
por acatamento de um dever que se identifica com o respeito  lei.
A "Dialtica da razo prtica pura" concentra-se nas definies antinmicas de sumo bem, apresentadas em termos da oposio entre as escolas epicurista e estica. 
Isso  traduzido pelas posies opostas sobre se o desejo de felicidade  o motivo para mximas de virtude, ou as mximas de virtude so a causa eficiente de felicidade 
(CRPr p. 114, p.l 17-18). Kant rechaa a oposio, afirmando que ambos os princpios admitem "ser a existncia neste mundo o nico modo de existncia de um ser racional" 
e passando por alto a nossa "existncia como a de um noumenon em um mundo inteligvel" (p.l 14, p.l 19). Isto leva ento  seo intitulada "Sobre os postulados 
da razo pura", os quais
* O termo aufheben, nessa passagem, foi interpretado no sentido de hochheben, erheben - elevar, por A. Guylyiga, ImmanuelKant. Frankfurt: Ingel, 1981, p.l50. (N.R.T.)
Crtica da razo pura            85
so fruto da existncia da lei moral. So eles: o postulado da imortalidade (para fornecer a condio prtica necessria da adequao da durabilidade ao cumprimento 
integral da lei moral), da liberdade (para satisfazer as condies de independncia da sensibilidade e da faculdade de determinao inteligvel da vontade) e da 
existncia de Deus (como condio necessria de um mundo inteligvel e como o sumo bem) (p.132, p.137). Os postulados so estabelecidos, portanto, para satisfazer 
na prtica as necessidades da razo cuja extenso especulativa estava severamente limitada pela "Dialtica transcendental" de CRP. O livro  completado na doutrina 
do mtodo por alguns comentrios sobre a extenso da influncia da razo prtica ou "o modo como podemos fazer a razo objetivamente prtica ser tambm subjetivamente 
prtica" (p.l51, p.l55).
Do grande volume acumulado de crticas e comentrios sobre CRPr, seleciono uma passagem particularmente sugestiva e inteiramente plausvel s A gaia cincia, de 
Nie-tzsche:
E no me venha falar agora do imperativo categrico, meu amigo!... Essa palavra faz ccegas em meu ouvido e obriga-me a rir, a despeito de sua presena to sria. 
Faz-me pensar no nosso velho Kant que, como castigo por ter surripiado a "coisa-em-si" - tambm uma coisa muito ridcula! - foi insidiosamente apanhado pelo "imperativo 
categrico", que se instalou em seu corao e o extraviou - levando-o outra vez de volta para "Deus", "alma", "liberdade" e "imortalidade", tal qual uma raposa q>ie 
se desenca-minha e, perdida, volta para a sua jaula... quando tinha sido a sua prpria fora e esperteza que haviam arrombado essa jaula! (Nietzsche, 1882, 335)
Crtica da razo pura A primeira das crticas foi publicada em 1781, seguindo-se-lhe em 1787 uma segunda edio consideravelmente revista. A edio original  conhecida 
como "A", a segunda como "B". A Crtica levou mais de 10 anos para ser terminada e foi seguida, em 1788, pela Crtica da razo prtica e, em 1790, pela Crtica da 
faculdade do juzo. Apresenta, entre outras coisas, as reflexes maduras de Kant sobre metafsica, epistemologia, cosmologia, psicologia e teologia, e tornou-se 
clebre como o texto que fundou a "filosofia crtica" e "transcendental".  uma das mais interpretadas obras da histria da filosofia e fixou a agenda para muitos 
desenvolvimentos subseqentes. As barreiras para um verbete criadas pelo prprio texto so, como o prprio Kant reconheceu, formidveis, mas tampouco devem ser exageradas. 
Como o principal obstculo para os leitores contemporneos reside na organizao inslita das matrias, o que leva com freqncia a perder-se a viso do todo por 
causa do particular, este verbete concen-trar-se- na ambio global da obra e nos modos como suas vrias partes se ajustam. Informao mais detalhada sobre partes 
de CRP pode ser obtida em outros verbetes (ver especialmente CONCEITO; COSMOLOGIA; ENTENDIMENTO; INTUIO; METAFSICA; PRINCPIO; PSICOLOGIA; RAZO; TEOLOGIA).
Sob muitos aspectos, CRP  um texto bifronte, que olha para trs, para a tradio filosfica, e para diante, para os novos desenvolvimentos na filosofia e na cincia 
natural. Isso explica no s a mistura de termos e distines tradicionais e modernos ao longo do texto - como "unidade transcendental de apercepo" que combina 
o "transcendental"

86            Critica da razo pura
escolstico com o moderno "apercepo" -, mas tambm seus temas e organizao. CRP fornece uma doutrina tradicional das categorias mas baseia-as no moderno cogito 
ou sujeito pensante. Adota um conceito filosfico tradicional como "substncia" e remodela-o para justificar a fsica newtoniana. Proclama uma "revoluo copernicana" 
em filosofia, propondo que os "objetos devem amoldar-se ao nosso saber", e depois apresenta meticulosamente os resultados  maneira de um tratado metafsico tradicional. 
Uma apreciao dessas ironias, das quais o prprio Kant estava muito consciente, pode contribuir consideravelmente para o prazer do texto; se elas no forem apreciadas, 
o livro pode rapidamente converter-se num fardo.
Em P, Kant descreveu o plano de CRP como "redigido de acordo com o mtodo sinttico" (p. 163, p.8), o que significou que a "estrutura de uma peculiar faculdade cognitiva" 
foi apresentada em sua "combinao natural". Isso  evidenciado, a seguir aos Prefcios e  Introduo, pelo contedo de CRP, apresentado esquematicamente no Quadro 
3.
A diviso estrutural bsica  entre as doutrinas transcendentais dos "elementos" e do "mtodo". O significado dos termos "doutrina" e "transcendental" no  fixado 
em nenhum dos escritos de Kant mas entende-se, neste caso, que o ensino dos elementos e o mtodo no derivam da experincia emprica. A prpria distino de elementos 
e mtodo origina-se nas partes da retrica clssica, a saber: "inveno", ou descoberta dos elementos bsicos de um discurso; "disposio", sua organizao num discurso; 
e "elocuo", a apresentao do discurso. Ramus usou uma variante desse esquema em sua reorganizao da lgica aristotlica, a qual reuniu as partes da retrica 
como "mtodo", concentrando-se na inveno e disposio (ver Ong, 1983). Em Kant, esse sistema est sobreposto a uma organizao aristotlica mais tradicional. A 
sua doutrina do mtodo diz respeito  disposio dos elementos de razo pura descobertos na doutrina dos elementos num "sistema completo de razo pura". A doutrina 
dos elementos, que forma a maior parte de CRP, trata da inveno dos elementos bsicos do saber que podem ser sistematicamente dispostos e apresentados atravs do 
mtodo.
A CRP sustenta-se ou cai com a avaliao da doutrina dos elementos que apresenta os elementos bsicos, inderivveis, da experincia. Contudo, revela tambm numerosas 
dificuldades, das quais a menor no  o seu carter polifnico: contm inmeras articulaes internas e direes temticas complexas, que freqentemente confiitam 
e se sobrepem. A primeira parte sobre "Esttica transcendental" e as duas divises da segunda parte, "Lgica transcendental", podem ser lidas como a anlise das 
partes de uma "faculdade cognitiva", comeando com a sensibilidade e sua intuio de objetos, passando para o entendimento e seu uso de conceitos na formulao de 
juzos sobre objetos intudos, e da para a razo e suas inferncias a partir desses juzos e para alm deles. As mesmas sees tambm podem ser lidas em funo 
da anlise de uma forma peculiar de juzo, na qual o predicado amplia o significado do seu sujeito e o faz de um modo cuja validade universal e necessria pode ser 
demonstrada. Para que tais "juzos sintticos apriori" sejam possveis,  necessrio que as condies espaciais e temporais da experincia, assim como os seus conceitos, 
mostrem ter validade universal e necessria, a qual Kant estabelece na base de uma inflexo idiossincrtica do cogito ou "eu penso" cartesiano.
Essas duas leituras da doutrina dos elementos no esgotam, em absoluto, todas as possibilidades; as mesmas sees podem ser tambm lidas como uma desconstruo da 
metafsica tradicional, mas de duas maneiras pelo menos. Podem ser plausivelmente li-

8 8             Critica da razo pura
das como uma anlise crtica e sistemtica da tradio metafsica dominante, conforme estabelecida por Christian Wolff (1719). Nessa leitura, a analtica transcendental 
assume o lugar da metafsica geral ou ontologia, com as trs disciplinas da metafsica especial - psicologia, cosmologia e teologia - submetidas  investigao crtica 
na dialtica transcendental. Finalmente, e talvez de um modo menos plausvel, toda a doutrina dos elementos pode ser lida como uma reelaborao moderna do Organon 
de Aristteles, com a esttica transcendental ocupando o lugar das Categorias ao fornecer os elementos bsicos do saber; a analtica transcendental tomando o lugar 
de Da interpretao e talvez dos Primeiros e Segundos analticos com a sua anlise do juzo; e a dialtica transcendental ocupando o lugar de Tpicos e Refutaes 
sofisticas.
Cada uma dessas leituras tem alguma verdade, uma boa dose dela quando todas reunidas, mas no esgotam a gama de interesses explorados na "Doutrina transcendental 
dos elementos". Em graus variveis, todas elas exercem influncia sobre os argumentos gerais e distintos e, nesse captulo, contribuem para o seu perene fascnio 
sobre os intrpretes. Estes mostram, com freqncia, grande (quando no perverso) talento para jogar uma corrente temtica contra outra (sendo a verso da "faculdade 
cognitiva" um dos alvos favoritos). Entretanto, a sutileza de tais manobras e sua ateno  bela contextura do argumento obscurece amide a simplicidade neoclssica 
da exposio de Kant.
A linha geral do argumento de Kant pode ser discernida sob as vrias modulaes temticas. Acompanha Baumgarten ao dividir os elementos da experincia em aestheta 
e noeta, coisas sentidas e coisas sabidas, as quais correspondem  "Esttica transcendental" e  "Lgica transcendental". A primeira considera os modos como os objetos 
so intudos e prope que isso ocorre por meio das formas de espao e tempo. Estes no so meramente subjetivos nem a propriedade de objetos, mas condies necessrias 
de nossa experincia inicial do mundo. Segue-se a isso a primeira diviso da "Lgica transcendental", a saber, a "Analtica transcendental". Esta seo apresenta 
os elementos inteligveis de nossa experincia e tem duas direes bsicas de argumento. A primeira, incluindo a "Analtica de conceitos",  para derivar o conjunto 
de "conceitos puros do entendimento" das vrias formas de juzo lgico e para justificar o seu carter fundamental apriori (isto , no derivado) como elementos 
por meio de uma deduo. A segunda direo, seguida na analtica dos princpios, procura maneiras de adaptar as categorias s condies espao-temporais de nossa 
intuio de objetos, atravs do esquematismo e do conjunto de princpios correspondentes a cada categoria.
A lio bsica da esttica e da analtica transcendentais est resumida em CRP A 158/B 197: "as condies da possibilidade da experincia em geral so, ao mesmo 
tempo, condies da possibilidade dos objetos da experincia". Posto em termos simples, isso significa que podemos experimentar os objetos que estamos aptos a experimentar, 
aqueles que nos aparecem, e no "as coisas em si mesmas" e que esto, segundo se alega, para alm da nossa experincia. Segue-se da que os objetos para alm da 
nossa capacidade de experimentar no so legtimos objetos do saber e, no entanto, so de grande interesse para os seres humanos. Na segunda parte da "Lgica transcendental", 
intitulada "Dialtica transcendental", Kant mostra como so internamente inconsistentes as tentativas para falar sobre tais objetos com base em nossa experincia. 
As tentativas da psicologia para conhecer a alma como se esta fosse um objeto de experincia leva a paralogismos; a tentativa da cosmologia de conhecer a extenso 
espacial e temporal do
cultura              89
universo como se fosse um objeto de experincia leva s antinomias; enquanto as tentativas da teologia para provar a existncia de Deus so sabidamente ilusrias 
e dialticas. Assim, na "Doutrina dos elementos", Kant estabelece os limites da experincia e critica aquelas tentativas para raciocinar como se eles no existissem. 
Isso prepara o caminho para a "Doutrina do mtodo" e sua apresentao do significado da disciplina da razo e da aquisio do saber dentro de limites criticamente 
estabelecidos de nossa experincia.
Uma nota confessional que Kant rabiscou rapidamente enquanto escrevia CRP revela a motivao subjacente na obra em curso.  o mesmo projeto de defender a metafsica 
que j tinha sido anunciado em SV: os seres humanos so impelidos a formular perguntas metafsicas tais como, "De onde venho? Qual  a origem de tudo o que ?" (R 
p. 128). Para fazer qualquer juzo em resposta a essas questes,  necessrio estar orientado no domnio da metafsica. Mas esse domnio est situado dentro e no 
fora de ns, e assim "a crtica da razo pura joga um archote nessa obscuridade, mas ele ilumina os espaos sombrios do nosso prprio entendimento, no as coisas 
que nos so desconhecidas para alm do mundo dos sentidos" (R p. 128). A imagem capta admiravelmente o carter equvoco de CRP: o archote ilumina os nossos prprios 
espaos sombrios, mas tambm lana nas chamas tudo o que estiver neles. Deus, o mundo e a alma so revelados como as nossas prprias projees sombrias, produtos 
de nossa prpria falta de esclarecimento ou, nos termos de Kant, de nossa "tutela auto-imposta".
O impacto de CRP foi proporcional  sua ambio. A tentativa de fundamentar as condies para a possibilidade de objetos nas condies da possibilidade de experincia 
culminou na grande sntese sistemtica do idealismo alemo. Mas esse aspecto construtivo da crtica foi rejeitado por pensadores que aderiram ao seu potencial destrutivo, 
incluindo "Jovens Hegelianos" como Bauer, Feuerbach e Marx, e talvez, acima de todos, Nietzsche. No kantismo radical de Nietzsche, Deus, o mundo, a alma e at a 
prpria razo so criticados ao extremo. Contra essa direo radical, outras leituras de CRP sublinharam a sua justificao filosfica da cincia (por exemplo, as 
do neokantismo do final do sculo xix, na obra de Cohen e Rickert), a sua ontologia (Heidegger e Heimsoeth), sua anlise dos limites do sentido (Strawson) e, mais 
recentemente, sua obra de orientao de um entendimento finito no mbito do mundo e os eventos da histria (Arendt e Lyotard).
Cultura ver tambm CONFORMIDADE A UM FIM; COSMOPOLITISMO; DISCIPLINA; FEDERALISMO; GUERRA; HISTRIA; HUMANIDADE; NATUREZA; PAZ; SOCIABILIDADE Cultura  definida 
como "o ltimo fim que temos motivos para atribuir  natureza no tocante  raa humana" (CJ 83) e consiste na "aptido e competncia para toda espcie de fins para 
os quais possa a natureza (interior e exteriormente) ser utilizada pelo homem". Distinguem-na duas caractersticas freqentemente antagnicas. A primeira  a capacidade 
para escolher fins; a segunda, a competncia para realiz-los. A discrepncia entre as duas prove tanto ao progresso como  runa da cultura. Kant descobre as origens 
da cultura na restrio da liberdade humana - "toda a cultura e arte que adornam a espcie humana... so frutos de sua insociabilidade" (IHU p.22, p.46) - e descreve 
a cultura como uma disciplina da vontade e das inclinaes. Entretanto, a disciplina da vontade e das inclinaes na escolha de fins no tem relao necessria com 
a competncia para realiz-los. Isso resulta num conflito social entre aqueles que, "por uma espcie de processo mecnico que no exige qualquer talento especial, 
provem os confortos materiais

90            cultura
da vida" e outros que se dedicam aos ramos menos necessrios da cultura na cincia e na arte" (CJ 83). Os primeiros so mantidos num estado de tutela imposta-"de 
opresso, com trabalho rduo e poucos prazeres" - incapazes de desenvolver as aptides que lhes permitam escolher seus prprios fins, enquanto os segundos, que no 
tm de labutar para adquirir a habilidade necessria  realizao de seus fins, tornam-se supercivilizados e perseguem o luxo e os fins suprfluos. Kant v essa 
"esplndida misria" da cultura como propensa  catstrofe, ao mesmo tempo que desenvolve as "tendncias naturais" da humanidade para uma sociedade civil cosmopolita, 
na qual a aptido para a escolha de fins e a competncia para realiz-los estaro em harmonia.
A teoria da cultura de Kant, embora profundamente devedora ao Emlio, ou Da educao (1762), de Rousseau, reconheceu, no obstante, a necessidade de conflito. Esse 
aspecto de sua teoria da cultura foi ainda mais desenvolvido por Hegel e Marx. Sua descrio do conflito entre as massas oprimidas e os senhores luxuosos mas suprfluos 
antecipa a dialtica senhor-escravo da Fenomenologia do esprito de Hegel e a afirmao de Marx no Manifesto comunista de que "a histria de toda sociedade existente 
at hoje tem sido a histria das lutas de classes". O enfoque de Kant sobre a cultura material distingue a sua teoria da cultura das teorias lingsticas e idealistas 
suas contemporneas, como a de Herder. Entretanto, s muito recentemente essas caractersticas da teoria da cultura de Kant passaram a desempenhar um papel de algum 
significado na exegese de sua filosofia.
D
deduo [deductio, Deduktion] ver tambm APERCEPO; CATEGORIAS; CONCEITOS; ENTENDIMENTO; ESPAO; FACTUM; IMAGINAO; INDUO; INTUIO; LIGAO; POSSE; SNTESE; 
TEMPO
Em cada uma das analticas das trs crticas, Kant oferece uma deduo: em CRP envolve os conceitos puros do entendimento; em CRPr, os princpios da razo prtica 
pura; e em CJ, a legitimidade dos juzos estticos puros do gosto. Diferentemente de Descartes, Kant no usa deduo no sentido geomtrico para significar "toda 
a inferncia necessria a partir de outras proposies conhecidas com certeza" (Descartes, 1968, p.8). Pelo contrrio, o seu uso  inspirado na prtica dos juristas 
imperiais que, "quando falam de direitos e usurpaes, distinguem num litgio a questo de direito {quid jris) da questo de fato {quidfacti) e, ao exigir provas 
de ambas, do o nome de deduo  primeira, que dever demonstrar o direito ou a legitimidade da pretenso" (CRP A 84/B 116). A deduo filosfica em cada uma das 
trs crticas  requerida para justificar a posse e/ou o emprego dos conceitos puros tericos do entendimento, os princpios prticos da razo prtica pura e os 
juzos estticos do gosto.
Kant descreveu sistematicamente a "deduo das categorias" em CRP como um "assunto de extrema dificuldade" e "num caminho que ainda no tinha sido trilhado" (CRP 
A 98). Nele se props justificar "como esses conceitos podem reportar-se a objetos que no so extrados de nenhuma experincia" (A 85/B 117). Distinguiu esta forma 
de deduo transcendental, que procurou estabelecer a legitimidade de tais conceitos, de uma deduo emprica, que buscou suas origens na experincia. Em p e na 
segunda edio de CRP, Kant atribui o primeiro procedimento a Locke e Hume (P p.260, p.6, CRP B 127) e contrasta-o com a sua prpria deduo transcendental que, 
como se quisesse enfatizar esse ponto, descreve uma vez mais como "a dificlima tarefa empreendida a servio da metafsica" (P p.260, p.6). A deles era uma "derivao 
fisiolgica", preocupada no com a legitimidade (quidjris) mas com o fato (quidfacti) da posse de conceitos.
O procedimento de Kant de deduo transcendental tem numerosas etapas. A primeira estabelece a legitimidade das formas de intuio, espao e tempo. Visto que um 
objeto s nos pode aparecer "mediante essas formas puras da sensibilidade", espao e tempo so legtimas "intuies puras que contm a priori a condio da possibilidade 
dos objetos enquanto aparncias" (CRP A 89/B 121). Kant prossegue indagando se "conceitos a priori no servem tambm como condies antecedentes pelas quais algo 
no  intudo, mas  pensado como objeto em geral; porque ento todo o conhecimento empri-

92          deduo metafsica
co dos objetos seria necessariamente conforme a esses conceitos, j que sem o seu pressuposto nada pode ser objeto da experincia" (CRP A 93/B 126). A deduo das 
categorias ter sua validade justificada se puder ser demonstrado "que um objeto s pode ser pensado graas a elas" (CRP A 97). O numero e o carter das categorias 
j tinham sido estabelecidos numa deduo metafsica a partir das formas do juzo (ver CRP A 70/B 95 e ss.).
Em P e no Prefcio para a segunda edio de CRP, Kant expressou a sua insatisfao com o segundo captulo da analtica sobre deduo transcendental e reescreveu-o 
para a edio de 1787. Por conseguinte, h diferenas entre as duas verses que as levaram a ser descritas, com certo exagero, como as dedues "subjetiva" e "objetiva". 
A chave para ambas as dedues  que "as aparncias devem estar, na experincia, submetidas s condies da unidade necessria de apercepo, tanto como, na simples 
intuio, submetidas s condies formais do espao e do tempo" (CRP A 110). A unidade de apercepo introduz "ordem e regularidade nas aparncias" (A 125), realizando 
a "unidade sinttica de todas as aparncias" de acordo com as formas das categorias. Na deduo de 1781, a descrio da unidade de apercepo expressa-se em termos 
das atividades sintticas (apreenso, reproduo, sntese) de um sujeito finito, do qual todas as representaes esto "submetidas  condio formal do sentido interno, 
a saber, ao tempo" (A 99). Essa verso enfatiza o trabalho da "imaginao produtiva", a qual, em relao com a "unidade de apercepo", constitui o entendimento, 
com suas categorias ou modos apriori puros".
A explicao da deduo transcendental na segunda edio difere a respeito do carter atribudo  unidade de apercepo: diz-se agora que ela " objetiva e tem de 
ser dis-tinguida da unidade subjetiva da conscincia, que  uma determinao do sentido interno" (CRP B 139). Isso conduz  maior nfase sobre combinao e  minimizao 
da sntese subjetiva, mas a concluso geral permanece inalterada: "as leis das aparncias na natureza devem necessariamente concordar com o entendimento e sua forma 
a priori, isto , com a sua capacidade de combinar o mltiplo em geral" (B 164). No obstante, expressar preferncia por uma ou outra das dedues tornou-se rotina 
em estudos de Kant, com Heidegger e a tradio eurocontinental preferindo a primeira, e a mais cartesiana tradio anglo-americana optando pela segunda verso.
As dedues de Kant na segunda e terceira crticas so muito menos elaboradas do que a deduo transcendental da primeira. Na segunda crtica, afirma Kant que "a 
realidade objetiva da lei moral" no pode ser demonstrada atravs de uma deduo, mas pode servir ela prpria ("inesperadamente") como um "princpio da deduo de 
uma insond-vel faculdade que nenhuma experincia pode provar" (CRPr p.47, p.48). Isso  "liberdade como uma causalidade da razo pura" e a sua deduo atravs da 
lei moral supre uma falta nas idias cosmolgicas da primeira crtica, as quais Kant afirmou serem inacessveis  "deduo objetiva" (CRP A 336/B 393). A deduo 
da terceira crtica tambm  peculiar na medida em que o objeto de deduo  uma forma de juzo. Neste caso, a deduo consiste em legitimar a reivindicao do juzo 
esttico do gosto a ser universal e necessariamente vlido, ainda que seja um juzo subjetivo. Kant prope um certo nmero de fundamentos para essa validade, que 
vo desde uma pressuposta "voz universal" at  "mtua harmonia de imaginao e entendimento" e a uma "base supra-sensvel".
deduo metafsica ver DEDUO
definio           93
deduo transcendental ver DEDUO
definio [definitio, Erklrung] ver tambm ANLISE; ESSNCIA; FILOSOFIA; MTODO; VERDADE
Kant descreve definio em CRP como a apresentao do "conceito original e pormenorizado de uma coisa dentro dos limites estabelecidos para o conceito", sendo pormenorizao 
usada com o significado de "clareza e suficincia de caractersticas"; limites refere-se ao nmero preciso de caractersticas no conceito pormenorizado; e original 
quer dizer que a determinao dos limites no foi derivada de qualquer outra coisa (CRP A 728/B 756). Kant empenha-se em mostrar em detalhe que, estritamente falando, 
no podem existir definies filosficas. Os conceitos empricos no podem ser definidos porque  impossvel conhecer seus limites precisos e ter a certeza de que 
so originais. Podem ser explicados tornando seus contedos explcitos, mas no preenchem os critrios de definio. Tampouco produzem conceitos a priori, porquanto 
 impossvel estar certo de que a anlise foi completamente efetuada: "a minuciosidade da anlise do meu conceito  sempre duvidosa e pode apenas, mediante mltiplos 
exemplos concordantes, tornar-se^rovve/, mas nunca apoditicamente certa" (CRP A 729/B 757). A tais conceitos pode ser dada uma exposio, que consiste apenas em 
uma "aproximao" probabilstica (L p.633) de definio. O nico conceito que pode ser definido  um "que eu inventei" (CRP A 729/B 757), pois nesse caso tenho a 
certeza de sua concordncia com os requisitos de "limite" e "originalidade". S a matemtica possui tais conceitos, pelo que s ela est na posse de definies.
Kant abandona imediatamente suas austeras restries ao uso da palavra definio em filosofia pela razo de que "a lngua alem, para as expresses de exposio, 
explicao, declarao e definio, tem apenas uma palavra: Erklrung" (CRP A 730/B 758). Mas permanece inflexvel quanto ao uso filosfico do termo ser distinto 
do seu correto uso matemtico. Essa preocupao remonta  sua anterior tentativa anti-wolffiana em ICP de distinguir o mtodo sinttico da matemtica do mtodo analtico 
em filosofia. A matemtica produz suas definies sinteticamente, est apoditicamente certa delas e, com base nisso, pode proceder confiantemente a dedues sintticas. 
A filosofia, por outro lado, no pode comear com definies; ela possui apenas conceitos confusos que devem ser submetidos a anlise. Kant observa, em tom conciliatrio, 
que a "filosofia est repleta de definies defeituosas" e "andaria mal para todo o filosofar" se no se pudesse fazer uso de um conceito enquanto este no estivesse 
adequadamente definido (CRP A 73 1/B 759). As suas exposies analticas de conceitos podem no apresentar o rigor requerido de uma definio propriamente dita, 
mas suas aproximaes podem ser vizinhas da verdade e "empregadas com grande vantagem" (ibid.).
Na explicao de definio em L 105-8, Kant permanece na rbita da tradio wolffiana e fornece uma srie de critrios para o estabelecimento de definies filosficas. 
Como a sua prtica a respeito de definio em CRP freqentemente contradiz o que  pregado no texto, talvez seja til apresentar algumas das mais importantes distines. 
A primeira  a distino entre definio nominal e real, compreendendo a primeira o significado nominal de um termo, sua "essncia lgica", a qual o distingue de 
outros termos, enquanto a segunda " suficiente para o conhecimento de um objeto, de acordo com as suas determinaes internas" (L p.634). Kant apresenta adicionalmente 
os requisitos de

94          dependente, beleza
definio em funo da tbua de categorias: a sua quantidade diz respeito  "esfera da definio", a sua qualidade concerne a sua "completude" e "preciso", a sua 
relao diz que ela no  tautolgica, e a sua modalidade, que  necessria (p.635). Finalmente, oferece algumas regras extremamente wolffianas para testar se as 
definies so verdadeiras, distintas, completas e adequadas aos seus objetos (ibid.). Embora esses critrios e regras nunca sejam enunciados em CRP, a extenso 
em que informam a sua exposio  impressionante.
dependente, beleza ver BELEZA
desejo ver INCLINAO; INTERESSE; NECESSIDADE; PRAZER; VONTADE
determinao [Bestimmung] ver tambm ABSOLUTO; FUNDAMENTO; LGICA; PREDICADO; SUJEITO; TEOLOGIA
Kant analisa primeiro a determinao no contexto de sua crtica de Wolff em ND. Define-a em termos de postulao de "um predicado com excluso do oposto" (ND p.391, 
p. 11). A partir da, passa a definir um fundamento ou razo (ratio) como "o que determina um sujeito a respeito de qualquer dos seus predicados", mostrando que 
a determinao ocupa-se da relao lgica entre um sujeito e um predicado. Algumas relaes de sujeito e predicado determinam por que um determinado sujeito  como 
, e a essas chama Kant fundamentos/ razes que determinam antecedentemente; outras determinam que um sujeito  como , e esses so fundamentos/razes que determinam 
conseqentemente. Para dar um exemplo, a gravidade  o fundamento/ razo antecedentemente determinante para as rbitas dos planetas - explica por que elas so assim; 
mas o fundamento/razo para serem assim  determinado conseqentemente pela massa combinada do sol e dos planetas. O propsito dessa distino  criticar a definio 
de Wolff de fundamento/razo como aquilo pelo qual entender por que uma coisa  em vez de no . A determinao d um fundamento/razo no s para por que alguma 
coisa , mas tambm por que  dessa maneira e no de outra.
A determinao reaparece em CRP na forma de ideal transcendental. Aqui, Kant suplementa a explicao wolffiana de determinao de acordo com o princpio de contradio 
com uma de "completa determinao". De acordo com o primeiro princpio, ou "princpio de determinabilidade", "de dois predicados contraditoriamente opostos apenas 
um pode pertencer a um conceito" (CRP A 57l/B 599). De acordo com o segundo princpio de "completa determinao" que governa a possibilidade de coisas, "se todos 
os possveis predicados de coisas forem tomados em conjunto com seus opostos contraditrios, ento um de cada par de opostos contraditrios deve pertencer-lhe" (CRP 
A 572/B 600). Isso significa que cada coisa  determinada no s de acordo com suas relaes com predicados contraditrios (de tal forma que, se uma coisa  colorida 
no pode ser no-colorida), mas tambm com a "soma total de predicados de coisas". Esta ltima  uma condio apriori que serve como pano de fundo para a determinao 
de coisas particulares com predicados particulares. Afirmao e negao de predicados so, portanto, no s governadas por seus contrrios, mas tambm pela soma 
de todos os predicados possveis. Kant considera tal determinao aceitvel se a soma de possveis predicados  reconhecida como o campo de aparncias constitudo 
pelas categorias; ou seja, como "o
Deus           95
contexto de uma experincia possvel" (CRP A 582/B 610); entretanto,  inaceitvel e "dialtica" se for hipostasiada num ens realissimum, "ser de todos os seres" 
(ibid.).
A definio de Kant de determinao foi desenvolvida mais adiante por Hegel, que a usou para dissolver a fixidez de determinaes especficas. No s os predicados 
so pensveis unicamente no contexto de seus opostos, mas essa mesma oposio s  pen-svel em relao ao absoluto (Hegel, 1812, "Introduo"). Uma noo de negao 
determinada foi tambm desenvolvida no sculo XX por Adorno em sua Dialtica negativa (1966); sua verso restringe-se, porm, a explorar a determinao mtua de 
predicados opostos, renunciando  possibilidade de situ-los em relao ao absoluto ou  soma de predicados possveis.
determinante, juzo ver JUZO DETERMINANTE
Deus ver tambm ANALOGIA; F; IGREJA; POSTULADO; TEODICIA; TEOLOGIA O entendimento filosfico de Deus por Kant permaneceu constante ao longo de toda a sua obra. 
Est claramente comprovado na frase final de UFP, onde ele concluiu uma reca-pitulao crtica das provas da existncia de Deus com a negao: " absolutamente necessrio 
que cada um se convena de que Deus existe; que sua existncia deva ser demonstrada no  to necessrio" (p. 163, p.201). Esse sentimento repete-se na garantia 
oferecida por Kant no segundo prefacio de CRP, onde admitiu que em questes de Deus, liberdade e imortalidade, "tive de suprimir o saber para encontrar lugar para 
a f" (CRP xxx). Seus escritos sobre o assunto de Deus esto todos imbudos da tenso entre a crena em Deus e o saber demonstrativo de sua existncia, e podem ser 
divididos em cinco grupos distintos.
No primeiro grupo, o qual inclui os escritos teolgicos UFP, "O ideal da razo pura" em CRP e LTF, Kant abala os fundamentos das provas onto-, cosmo- e fsi-co-teolgicas 
da existncia de Deus propostas pela teologia filosfica. Nesses textos, ele contesta as pretenses de conhecimento especulativo de Deus alimentadas por "visionrios" 
da razo (sv p.324, p.329) como Christian Wolff, o codificador da teologia filosfica. No segundo grupo, que contm SV, SOP e RL, Kant corrige o equilbrio opondo 
as pretenses  experincia intuitiva de Deus sustentada por tais fanticos da f como Swe-denborg, Hamann e Jacobi. Enquanto os filsofos acreditavam que suas provas 
demonstrativas lhes proporcionavam o conhecimento de Deus, os fanticos fiavam-se em que suas cruas analogias antropomrficas lhes davam uma experincia mstica 
de divindade. Do ponto de vista de sua crtica da teologia filosfica, Kant restringiu o conhecimento de Deus  analogia e o seu uso como idia reguladora; essa 
restrio e sua crtica da experincia crtica de Deus combinaram-se para estabelecer os parmetros do terceiro grupo de escritos, que incluem CRP, RL e, sobretudo, 
CRPr. Estes situam o lugar apropriado de Deus na experincia prtica e exploram o significado moral de Deus como um "postulado da razo prtica pura" (CRPr p. 133, 
p. 137 e ss.) necessrio para garantir o respeito  lei. Um quarto grupo de escritos, consistindo principalmente de RL, analisou a instituio da Igreja, enquanto 
um quinto e algo ambguo grupo de textos, incluindo CJ, IHU, PP e FTF, concentra-se no papel de Deus na histria, com particular referncia  teodicia e  providncia.
Dos cinco grupos de escritos, os mais influentes foram o primeiro e o terceiro. As relaes entre a critica da teologia e o argumento a favor da f prtica fascinaram 
gera-

96            dever
es de intrpretes. Alm disso, uma grande soma de trabalho foi realizada sobre o detalhe da crtica das trs provas filosficas/teolgicas para a existncia de 
Deus. A recente onda de interesse pela filosofia da histria kantiana levou a um recrudescimento da sensibilidade em torno da questo da providncia, e a relao 
dessa idia de Deus com a crtica da teologia e da f moral. Entretanto, aguarda-se ainda uma exposio abrangente da totalidade da idia de Deus em Kant, uma que 
englobe todos os cinco grupos de textos.
dever [Pflicht] ver tambm DIREITO NATURAL; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; INCLINAO; LEI; MXIMA; PESSOA; RESPEITO
Conceito central na filosofia prtica de Kant, a origem remota do dever encontra-se na crtica estica da tica clssica. Os esticos substituram o clssico "sumo 
bem" como o principal critrio para a ao tica pelo de "retido de ao" ou ao de acordo com a "razo reta". A "retido" de um ato dependia da disposio do 
agente, no das conseqncias do ato. A disposio apropriada consistia em agir de acordo com os deveres impostos pela razo universal e as circunstncias particulares 
(ver Ccero, De officiis [Sobre os deveres]). Embora Kant estivesse familiarizado com os esticos, aos quais no faltam referncias em grande parte de seus escritos, 
a fonte mais prxima de sua noo de dever foi o ressurgimento estico seiscentista na Holanda, o qual se revestiu de particular importncia na Prssia (ver Oestreich, 
1982). A recepo dispensada aos textos esticos foi influenciada por trs fatores: primeiro, a nfase protestante mais sobre a inteno do que sobre as obras; segundo, 
a teoria dos direitos naturais, com sua nfase sobre a "razo reta"; e, terceiro, as prticas disciplinares adotadas nos primeiros estados totalitrios modernos 
(ver Cay-gill, 1989, captulo 3). A partir de Pufendorf (1672), esses elementos inseriram-se na filosofia prtica das universidades prussianas, primeiro atravs 
de Thomasius (ver Bloch, 1968) e depois, sobretudo, atravs de Christian Wolff (1720, 1721).
A filosofia prtica de Wolff - Vernnftige Gedanken von der Menschen Thun undLassen zu Befrderung ihrer Glckseligkeit [Pensamentos racionais sobre as aes e as 
omisses do homem para a promoo de sua felicidade] (1720) - consistiu numa tentativa para adaptar a explicao estica revista do dever a um conceito aristotlico 
do sumo bem. A Parte I, que consta de trs captulos sobre a "Ao humana em geral", discorre sobre o sumo bem - que consiste em agir de acordo com o direito natural 
- e os obstculos que se lhe apresentam, criados pelos sentidos, a imaginao e as afeces. As restantes trs partes do livro, 15 captulos, tratam exclusivamente 
do dever definido como "aes que esto de acordo com a lei" (221). A Parte II apresenta os "Deveres do homem para consigo mesmo"; a Parte III, os "Deveres do homem 
para com Deus", e a Parte iv, os "Deveres do homem para com os outros". Essa obra deu origem a uma escola wolffiana de filosofia prtica, cuja literatura inclua 
os dois textos do discpulo de Wolff, Alexander Baumgarten (Ethica philosophica, 1740, e Initia philosophiae practicae pri-mae, 1760), que Kant usou como base para 
as suas lies sobre tica. Kant desenvolveu essa filosofia prtica durante os comentrios que dedicou a esses textos em suas aulas e, assim, a sua nfase sobre 
o dever , em alguns aspectos, parte da tradio da filosofia prtica prussiana. Contudo, em sua filosofia crtica, ele transformou essa tradio, mantendo a forma 
de sua viso do dever ao mesmo tempo que reformulava radicalmente o seu contedo.
Em E, a "moralidade essencial"  apresentada como sinnimo de "os nossos deveres apropriados em relao a tudo no mundo" (p. 117). Esse ponto de vista  mantido 
na
dever            97
filosofia prtica crtica, onde se desenvolve em funo de trs grupos temticos: (a) a definio de dever, suas fontes e funo numa explicao da ao moral; (b) 
as modalidades do dever (perfeito/ imperfeito, etc); os objetos do dever (eu, outros, Deus, animais, natureza). A definio sublinha a preocupao de Kant com o 
modo correto de ser no mundo, uma perspectiva que , com freqncia, negligenciada nas interpretaes mais estreitamente concentradas em sua filosofia prtica.
No prefcio a FMC, a primeira declarao de sua filosofia prtica madura, Kant distingue o seu projeto crtico da "celebrada filosofia moral de Wolff (p.390, p.3), 
em particular de sua propedutica, a que Wolff d o nome de "filosofia prtica universal". Wolff  criticado por basear a sua filosofia prtica no "querer em geral" 
e por combinar, assim, elementos puros e empricos. A propedutica crtica de Kant para a filosofia prtica investigar, pelo contrrio (FMC, CRPr), "a idia e os 
princpios de uma possvel vontade pura e no as aes e condies do querer humano como tal" (FMC, p.390, p.4). Os esforos de Kant para distinguir a sua filosofia 
prtica da ortodoxia wolffiana leva-o, em FMC, a propor uma definio extremamente purificada de dever como "uma necessidade prtica, incondicional, da ao, [a 
qual] deve ser vlida para todos os seres racionais (os nicos a quem um imperativo  inteiramente aplicvel)* e que, por essa razo, tambm pode ser uma lei para 
todas as vontades humanas" (FMC p.425, p.33).
Em CRPr, Kant confirma que o dever  peculiar aos seres humanos mas sem conceder que  antropologicamente determinado. Todos os seres racionais esto sujeitos  
lei universal, mas s os seres humanos experimentam essa sujeio na forma de um imperativo, o qual, por causa de sua origem incondicional,  categrico. Essa forma 
de sujeio  necessria porque os seres humanos possuem no s uma "vontade pura" mas tambm "carncias e motivos sensveis" que conflitam com ela. A tenso entre 
vontade pura e motivos sensveis que impregna o querer humano requer que a relao da vontade humana com a lei seja uma relao de "dependncia sob o nome de obrigao", 
o que subentende uma restrio  ao" (CRPr p.32, p.32). A essa restrio "chama-se dever", e ela ope os fundamentos objetivos puros aos fundamentos subjetivos 
da motivao numa vontade que, embora "patologicamente afetada", no  patologicamente determinada.
Kant faz uma importante distino entre duas funes do dever: na primeira, o dever "requer da ao, objetivamente, a concordncia com a lei", enquanto na segunda, 
[o dever] "reclama subjetivamente da mxima da ao o respeito para com a lei como o nico modo de determinao da vontade pela lei" (CRPr p.82, p.84). Repousa nisso 
a diferenciao entre "conscincia de ter agido de acordo com o dever" e chama-se, nesse caso, "legalidade", e a conscincia de ter agido "por dever, isto , por 
respeito para com a lei" e, "neste caso, o valor moral repousa exclusivamente no fato de a ao ocorrer por dever, isto , somente pela lei". Com isso, Kant baseia 
a moralidade na inteno, pois embora seja possvel agir de acordo com o dever com mximas determinadas por inclinao, a ao moral resulta unicamente do dever, 
isto , de acordo com mximas em har-
* Os parnteses expressam inadequadamente a aplicao do imperativo categrico a seres racionais em geral. Como o Autor reconhece a seguir, ele s se aplica a seres 
humanos, que so dotados de razo e inclinao. (N.R.T.)

98            dever
monia com a lei. Essa distino serviu como propedutica para a diviso ulterior em MC nas doutrinas do direito e da virtude.
Em sua celebrada, embora no notria invocao do dever - "Nome sublime e poderoso, tu que no encerras nada amvel que leve consigo alguma insinuante lison-ja..." 
-, Kant indaga sobre a genealogia do dever: "Onde se encontra a razo de tua nobre ascendncia, que repele orgulhosamente todo o parentesco com as inclinaes ..." 
(CRPr p.87, p.89). Origina-se numa fonte que "eleva o homem acima de si mesmo, como uma parte do mundo dos sentidos" e que  nada menos do que "apersonalidade, isto 
, a liberdade e independncia do mecanismo de toda a natureza", um ser participante no "mundo inteligvel" e sujeito somente s "leis prticas puras dadas por sua 
prpria razo" (ibid.). A fonte do dever  a autolegislao da razo humana, possvel por causa do carter equvoco dos seres humanos, que habitam em dois mundos, 
o da natureza e o da liberdade. Quando consideramos essas leis sob o aspecto de divindade, ento a "lei moral conduz  religio" (CRPr p. 130, p. 134), onde todos 
os deveres so reconhecidos como mandamentos divinos, mas mandamentos que nunca podem ser plenamente cumpridos. Kant faz esse lance na parte final da CRPr, a fim 
de preparar a reintroduo do "sumo bem" em sua filosofia prtica. Isso ser finalmente realizado em CJ (83), mas, sobretudo, em RL, onde os seres humanos acatam 
o dever no interesse de um sumo bem cuja outorga est nas mos de Deus; neste caso, "os homens nada sabem a respeito de cada dever, mas precisam, isso sim, saber 
o que eles mesmos devem fazer para se tornarem dignos dessa ajuda [o sumo bem] que lhes  desconhecida ou, pelo menos, incompreensvel" (RL p. 139, p. 130).
Em MC, Kant apresentou o "sistema de nossos apropriados deveres para todo o mundo", com base no conceito criticamente investigado de dever desenvolvido em FMC e 
CRPr. Os deveres so submetidos primeiro a uma distino genrica de seus modos e objetos e, depois, a uma subdiviso adicional. Com respeito aos modos de dever, 
Kant distingue entre deveres jurdicos e ticos, positivos e negativos, perfeitos e imperfeitos. As duas ltimas distines, inspiradas por analogia na teoria dos 
direitos, referem-se  extenso e direo relativas das obrigaes impostas por deveres. Os deveres imperfeitos so de ampla extenso, ao passo que os perfeitos 
so restritos; os deveres positivos ordenam, os negativos probem. A distino de deveres jurdicos e ticos equipara-se  distino entre "de acordo com" e "por 
dever", embora com algumas importantes distines. Neste caso, o fundamento da distino consiste em apurar se a legislao admite algum outro motivo  ao alm 
da prpria idia de dever, ou se esta idia  suficiente por si s. A primeira alternativa d origem  legalidade da lei, a segunda  sua moralidade (MC p.219-20, 
p.46-7). Finalmente, Kant distingue tambm, em MC, entre os objetos de dever, que vo desde os deveres para com Deus, passando pelos deveres para com os animais, 
at aos deveres para com os seres humanos, sendo estes ltimos considerados animais e racionais. Essas consideraes so exploradas atravs de uma fascinante ainda 
que extremamente discutvel casustica.
A definio de Kant de dever tem sido algo de quase dois sculos de contnua crtica e zombaria. Apesar de todas as suas outras diferenas, Hegel, Schopenhauer e 
Nie-tzsche foram unnimes em execrar sua dependncia de uma distino pseudoplatnica e basicamente repressiva entre os mundos sensvel e inteligvel, distino 
essa que fora criticamente abalada em CRP. Essa reao alimentou a opinio geral de que, com essa noo de dever, Kant justificou meramente uma das menos atraentes 
"virtudes prussianas".
dialtica            99
Uma outra opinio crtica largamente divulgada considera a filosofia prtica de Kant uma exposio deontolgica, apriorstica, da ao moral. Com essas interpretaes, 
perdeu-se muito do background e sutileza dos textos de Kant; com efeito, para ser plenamente apreciada, a sua definio de dever deve ser situada no contexto da 
mais ampla tradio dos escritos neo-esticos sobre dever e das condies polticas e religiosas especificamente prussianas de sua recepo.
dever-ser [Sollen] ver IMPERATIVO; MANDAMENTO; OBRIGAO
dialtica ver tambm ABSOLUTO; ANALTICA; ANTINOMIA; COSMOLOGIA; DEUS; IDIA; ILUSO; MUNDO; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SUJEITO; TEOLOGIA; TRANSCENDENTE; UNIDADE
O contedo de lgica transcendental em CRP est repartido sob dois ttulos: "Analtica" e "Dialtica". A analtica decompe os processos formais do entendimento 
e da razo em seus elementos e serve como um cnone, ou "pedra de toque negativa da verdade", enquanto a dialtica consiste em usar esses elementos "como se fossem 
um organon para realmente produzir afirmaes objetivas ou, pelo menos, dar essa iluso, o que de fato constitui um abuso" (CRP A 61/B 85).  uma "lgica da iluso" 
 qual se ope, na filosofia crtica, uma "crtica da iluso dialtica" (CRP A 62/B 86). Assim a dialtica como crtica da iluso dialtica encontra seu lugar aps 
a analtica de cada uma das trs crticas.
Kant justifica o seu uso da dialtica com uma referncia aos "vrios significados" "em que os antigos usaram 'dialtica' para designar uma cincia ou uma arte" (CRP 
A 61/B 86), mas sua prpria definio  decididamente aristotlica. Essa  apenas uma das trs influentes definies do termo transmitidas da antigidade. A primeira 
foi a de Plato, que elevou a dialtica "acima de todos os outros estudos para ser como que o fecho da abbada* - e nenhum outro estudo poderia ser legitimamente 
colocado acima dela" (Plato, 1961, i?ep.534e). Era nada menos do que o prprio mtodo de investigao cientfica, o qual procurou definio atravs dos procedimentos 
dialticos de coligir e dividir (Plato, Fedro, 266b). Aristteles, em contrapartida, distinguiu claramente nos Tpicos entre raciocnio "demonstrativo" (cientfico) 
e dialtico, com o primeiro desenvolvendo-se a partir de premissas que so "verdadeiras e primrias", e o segundo a partir "de opinies que so geralmente aceitas" 
(Aristteles, 1941, 100a, 28-30). Nos Segundos analticos, a dialtica  equiparada "em princpio"  retrica,  medida que usa o raciocnio silogstico e indutivo 
a partir de premissas aceitas por um determinado pblico para persuadir e convencer. Para Aristteles , de fato, nas palavras de Kant, uma lgica da iluso. Ccero 
desenvolveu ainda mais o potencial retrico da dialtica em sua tentativa de sobrepor a retrica  filosofia. Ele dividiu a retrica ou a cincia de bem argumentar 
em duas partes: a primeira diz respeito  inveno dos materiais de um argumento e intitulou-a "Tpicos";  segunda, que trata do mtodo de formar juzos, deu o 
ttulo de "Dialtica" (Long e Sedley, 1987, p.185).
* No original ingls, coping stone. "Fecho de abbada"  traduo de Schlusstein. Cf. CRPr A 4, Ak 2. J. Guinsburg assim traduziu a passagem referida da Repblica: 
"A dialtica  de algum modo o supremo coroamento de nossos estudos." (N.R.T.)

100            dialtica
Atravs de Bocio, a tradio dominante de dialtica legada  filosofia da Europa Ocidental foi a de Ccero, com toda a cincia da discusso e argumentao intitulada 
agora "Dialtica". Depois disso, a tradio da dialtica movimentou-se entre as posies cicernica e aristotlica, sendo as Dialecticae institutiones (1543), de 
Petrus Ramus, a ltima grande tentativa de reconcili-las. Ele divide a dialtica - "a faculdade do discurso preciso" - em inveno e disposio (juzo) (ver Ramus, 
1549, p. 12-14). Essa diviso foi largamente reproduzida e tornou-se clssica para a apresentao de textos de lgica: a prpria diviso de Kant da lgica em analtica 
(inveno) e dialtica (juzo) reflete essa diviso mas tambm lhe abala decisivamente as bases. A sua dialtica j no oferece regras para a execuo de juzos 
convincentes, mas ensina como detectar e desvendar juzos que apresentam um semblante de verdade. Mas so, de fato, ilusrios.  uma "crtica da iluso dialtica" 
e no (como antes) "uma arte de suscitar dogmaticamente tal iluso (arte, infelizmente muito corrente, de mltiplas prestidigitaes metafsicas)" (CRP A 63/B 88).
As iluses que Kant criticar no so simplesmente sofismas nascidos do desejo de convencer, mas decorrem da "natural e inevitvel iluso" da razo humana. Essa 
iluso transcendental resulta de "regras fundamentais e mximas relativas ao uso da razo" que possuem "o aspecto de princpios objetivos" (CRP A 297/B 353). A origem 
bsica da iluso  a busca de integridade e unidade da razo humana "que nos leva, na ascenso para condies sempre mais elevadas, a aproximarmo-nos da integridade 
dessas condies e a trazer, assim, para o nosso conhecimento a mais elevada unidade da razo que nos  possvel investigar" (CRP A 309/B 365). A razo procura realizar 
a totalidade absoluta de condies para uma dada coisa condicionada mas, em vez de olhar essa busca como o esforo para estabelecer um princpio assinttico regulativo, 
a razo, atravs de "raciocnios transcendentes e dialticos", converte o objetivo de integridade em "conceitos transcendentes de razo pura" (CRP A 309/B 366).
O primeiro livro da "Dialtica" critica os conceitos transcendentes de Deus, de mundo e de sujeito (alma), ao passo que o segundo critica as inferncias das cincias 
que aspiram ao conhecimento desses objetos.  mostrado que a cincia de Deus, a teologia, recorre a ideais em seus raciocnios; a do mundo, a cosmologia, cai em 
antinomias; enquanto a da alma, a psicologia,  paralogstica. Em cada caso, a tentativa de produzir integridade e unidade a respeito de Deus, do mundo e da alma 
 exposta como dialtica, como assente em premissas ilusrias e inferncias injustificveis.
Kant tambm organizou o contedo da segunda e da terceira crticas em termos de analtica e dialtica. A dialtica da razo prtica nasce da tentativa de definir 
o "sumo bem", o que leva  "antinomia da razo prtica" (CRPr p. 108, p. 112). Kant oferece ento uma "resoluo crtica" dessa antinomia baseada nos resultados 
da analtica da razo prtica pura. Da mesma forma, em CJ, a dialtica do juzo esttico e teleolgico resulta da busca de princpios fundamentais do juzo. A "antinomia 
do gosto" envolve a tese e a anttese de que o juzo do gosto , e no , baseado em conceitos. Uma vez mais, isso recebe uma resoluo crtica que resgata a oposio 
ao definir o conceito envolvido como "indeterminado". A dialtica do juzo teleolgico apresenta uma antinomia entre as mximas de explicaes fsicas/mecnicas 
e teleolgicas, que Kant resolve criticamente ao expor a confuso entre princpios de juzo reflexivo e determinante.
dinmicos (categorias, idias e princpios)            101
Nas ltimas duas crticas, a dialtica ficou longe de ser o mesmo centro de ateno que possuiu em CRP. Na dialtica do juzo esttico, tornou-se pouco mais do que 
uma coleo heterognea de pensamentos e observaes. A sua principal caracterstica no  mais a lgica da iluso, porm a antinomia de tese e anttese seguida 
de uma sntese crtica. O que outrora era simplesmente uma forma de inferncia dialtica (a antinomia) passou agora a caracterizar a dialtica em seu todo. Depois 
de Kant, somente Hegel, na Cincia da lgica (1812), se dedicou ao estudo da dialtica como lgica da iluso com um rigor comparvel ao patenteado em CRP. Aps Hegel, 
a dialtica passou a estar identificada quase exclusivamente com o estreito esquema antinmico. Na tradio marxista, essa noo de dialtica atingiu alturas extravagantes 
no "materialismo dialtico", o qual, em nome da dialtica, ampliou o esquema antinmico de tese-antitese-sntese  histria do mundo,  natureza e a todas as coisas. 
Apesar dos esforos de Kant na CRP, a dialtica ficou uma vez mais nas mos dos "prestidigitadores metafsicos".
dialtica transcendental ver ANTINOMIA DA RAZO PURA; DIALTICA; IDEAL; ILUSO; INFERNCIA; PARALOGISMO
diferena ver CONCEITOS DE REFLEXO; IDENTIDADE
dinmica ver tambm ANTECIPAES DA PERCEPO; CATEGORIAS; FENOMENOLOGIA; MATRIA; MECNICA; MOVIMENTO
O captulo sobre dinmica  o mais extenso dos quatro captulos no tratamento de Kant da cincia natural em PM. Segundo a sua definio de cincia natural como "uma 
doutrina ou pura ou aplicada de movimento", cada um dos quatro captulos considera o movimento de acordo com os quatro ttulos da tbua de categorias. A foronomia 
considera os aspectos quantitativos do movimento; a dinmica, os qualitativos; a mecnica, os relacionais; e a fenomenologia, os modais. Como anlise qualitativa 
do movimento, a dinmica concentra-se na "qualidade de matria sob o nome de uma fora propulsora original" (PM p.477, p. 14). O seu "princpio universal" enuncia 
que "tudo o que  real nos objetos de nossos sentidos externos e no  meramente uma determinao do espao (lugar, extenso e figura) deve ser considerado como 
fora propulsora" (PM p.523, p.77). De acordo com as trs categorias de qualidade, a fora  considerada em termos de sua realidade afirmativa, ocupao material 
do espao "atravs da fora repulsiva"; de sua negao ou "fora atrativa pela qual, at onde puder ser, todo o espao seria penetrado"; e, finalmente, da limitao 
mtua da fora atrativa e repulsiva "e a conseqente determinao perceptvel do grau de um preenchimento de espao" (PM p.523, p.76).
dinmicos (categorias, idias e princpios) ver tambm ACROAMAS; AXIOMA; CATEGORIAS; IDIAS; PRINCPIO; PRINCPIOS E IDIAS REGULATIVOS; SUBLIME Na "Dialtica transcendental" 
em CRP, Kant refere-se a uma "distino essencial, dominante entre os objetos, ou seja, entre aqueles conceitos do entendimento que a razo aspira a elevar a idias" 
(CRP A 529/B 557). Trata-se da distino entre categorias e princpios matemticos e dinmicos. A tbua de categorias compreende 12 categorias reunidas sob os quatro 
ttulos de quantidade, qualidade, relao e modalidade. Os primeiros dois grupos so identificados como as categorias matemticas, os outros dois como as categorias 
dinmicas. As categorias matemticas de quantidade e qualidade dizem respeito aos

102            direito/direitos
"objetos da intuio, tanto pura quanto emprica", enquanto as categorias dinmicas de relao e modalidade referem-se  "existncia desses objetos, quer em relao 
entre eles, quer em relao com o entendimento" (CRP B 110). Para aplicar as categorias  possvel experincia  necessrio transform-las em princpios, e tambm 
estes, discutidos na "Analtica dos princpios", so divididos em princpios matemticos e dinmicos.
Os princpios matemticos compreendem os axiomas da intuio e as antecipaes da percepo e so constitutivos da intuio. Como a experincia no  possvel sem 
intuio, os princpios formam "condies absolutamente necessrias de qualquer experincia possvel" e seu emprego " incondicionalmente necessrio, isto , apodcti-co" 
(CRP A 160/B 199). Os princpios dinmicos das analogias da experincia e dos postulados do pensamento emprico determinam a "existncia dos objetos de uma possvel 
intuio emprica" e no so apodcticos. So, entretanto, constitutivos da experincia emprica e, assim, "possuem o carter de uma necessidade a prior f', mas 
essa necessidade s pode ser provada aps o fato da experincia e, por conseguinte, "no obstante nada perderem de sua certeza, universalmente referida  experincia, 
no contero aquela evidncia imediata que  prpria daqueles" (CRP A 160/B 200). Os princpios matemticos apresentam as condies necessrias para que um objeto 
aparea no espao e no tempo, enquanto os princpios dinmicos apresentam as condies necessrias para que um objeto nos aparea, em especial no tocante s suas 
ligaes com outras aparncias (relao) e ao nosso entendimento (modalidade). Ambos os conjuntos de princpios so, porm, constitutivos da experincia, os matemticos 
ao constiturem diretamente a intuio, os dinmicos ao apresentarem "os conceitos, sem os quais no pode existir experincia possvel apriori" (CRP A 664/B 692).
Com a discusso das idias matemticas e dinmicas, a distino torna-se crucial. Se todas as quatro antinomias so tratadas como se fossem matemticas, como se 
a condio fosse homognea ao condicionado, ou "um membro de uma srie ligada ao condicionado" (CRP A 528/B 556), ento as antinomias pareceriam insolveis. Pois 
no caso da "ligao matemtica das sries de aparncias s  admissvel uma condio sensiver, mas se a ligao das sries for pensada dinamicamente, de acordo com 
uma "sntese do heterogneo", ento "pode ser admitida uma condio heterognea, que no faz parte da srie mas que, como puramente inteligvel, encontra-se fora 
da srie" (CRP A 530/B 558). Com esta viso da srie  possvel satisfazer o entendimento e a razo a respeito das antinomias, primeiro da liberdade e causalidade, 
e depois da contingncia e de um ser necessrio. Neste caso, a razo no pode ser empregada de modo constitutivo mas s regulativamente atravs de mximas para a 
unidade sistemtica do emprego do entendimento.
A distino entre matemtica e dinmica tambm  significativa na "Analtica do sublime" em CJ; onde a distino da "matemtica" e da "dinmica" substitui a "Tbua 
de categorias" usada na "Analtica do belo". No primeiro caso, o objeto sublime  "matematicamente" considerado, em termos de sua escala, como o que  "absolutamente 
grande" ou "grande para alm de toda a comparao" (CJ 25). No segundo, o sublime dinmico  registrado por sua "afeco da imaginao" ou o medo e terror despertados 
no espectador pelo espetculo sublime.
direito/direitos [ius, Recht, Rechte] ver tambm AQUISIO; CONSTITUIO; CONTRATO; DIREITO NATURAL; ESCRITOS POLTICOS; ESTADO; LIBERDADE; JURISPRUDNCIA; JUSTIA; 
LEI
direito natural             103
Em TP, Kant define direito em geral como a "restrio da liberdade de cada indivduo para que se harmonize com a liberdade de todos os outros" (p.73), e em MC distingue 
entre as vrias espcies de direitos que decorrem dessa definio geral. A distino primria de Kant  entre (a) direitos naturais assentes em bases apriori e (b) 
direitos positivos (estatutrios), os quais promanam "da vontade de um legislador" (MC p.237, p.63). A essa distino "doutrinai" segue-se uma expressa em termos 
de capacidades morais entre (a) direitos "inatos" pertencentes a todos por natureza e (b) direitos adquiridos, os quais requerem uma lei para o seu estabelecimento. 
Entretanto, essas distines esto subordinadas  distino jurdica entre direitos privados e pblicos, ou aqueles direitos estabelecidos entre indivduos e aqueles 
entre o indivduo e o estado. Kant descreve os primeiros como prprios de um "estado de natureza" e os segundos do estado civil. A primeira parte de MC sobre os 
"Primeiros princpios metafsicos da doutrina do direito" est, em conseqncia, dividida em sees sobre direito privado e pblico. Sob direito privado, Kant discute, 
em primeiro lugar, a noo de um direito a algo externo e, depois, os modos de obteno de tais direitos, seja por aquisio original, seja por contrato. Embora 
os detalhes de sua argumentao sejam, com freqncia, obscuros e aparentemente contraditrios, ele parece sugerir que, de um modo geral, os direitos a coisas (w 
r) so uma espcie de direitos entre pessoas (/'" personam). Ele inverte essa nfase quando analisa os direitos envolvidos em casamento, paternidade e ser "chefe 
da famlia"; para estes, desenvolve "direitos a pessoas da mesma ordem dos direitos a coisas". Sob direito pblico, Kant considera o direito interno de um Estado, 
o direito de naes e o direito cosmopolita, todos no contexto de sua mais ampla tese poltica a favor de um estado e constituio "republicanos".
direito natural ver AQUISIO; DIREITO; JURISPRUDNCIA; JUSTIA; LEI; LIBERDADE; PROPRIEDADE
Os escritos jurdicos e polticos de Kant contriburam para a moderna tradio da teoria dos direitos naturais que sucedeu  tradio medieval aristotlica do direito 
natural. Na teoria dos direitos naturais, o elemento bsico no  uma justia objetiva, divinamente fundada, ou a proporcionalidade, mas um indivduo na posse de 
certos direitos a respeito de coisas, de outros indivduos e do estado. Kant define o direito natural como "direito no estatutrio, logo, simplesmente o direito 
que pode ser conhecido apriori pela razo de todos e de cada um" (MC p.297, p.l 13); ou seja, os direitos naturais baseiam-se em "princpios apriori" opostos ao 
direito positivo ou estatutrio "que promana da vontade de um legislador" (MC p.237, p.63). O direito natural inclui a justia comutativa que "prevalece entre pessoas 
em suas trocas recprocas" e a justia distributiva  medida que as suas decises podem ser conhecidas apriori, em conformidade com os princpios da justia distributiva. 
Ao enfatizar o carter apriori e assente em princpios do direito natural, Kant alinha-se com a ala germnica, racionalista, da tradio desenvolvida por Pu-fendorf 
e Wolff, em oposio  tradio mais afetiva fundada por Grotius e desenvolvida por Hutcheson e Smith (ver Caygill, 1989, Parte i). Entretanto, com exceo de alguns 
elementos, sua obra est firmemente integrada na tradio dos direitos, e  vulnervel s crticas de Hegel e outros de que ela amplia de modo ilegtimo os direitos 
reais e pessoais caractersticos do direito privado de forma a inseri-los no domnio do direito pblico.

104           disciplina
disciplina ver tambm CULTURA; HBITO; HISTRIA; INCLINAO; RAZO; REGRAS Disciplina  definida em CRP como "a coao graas  qual a tendncia permanente que nos 
leva a desviar-nos de certas regras  limitada e finalmente extirpada". (CRP A 709/B 737). Distingue-se a de cultura, "que deve simplesmente proporcionar uma certa 
aptido, sem com isso anular qualquer outro modo habitual de ao j existente", embora em CJ Kant discuta a "cultura atravs da disciplina" (83). A disciplina 
tem dois objetos: em MC e em Pdagogik (1803), as inclinaes  que so restringidas, ao passo que em CRP  a tendncia extravagante da razo para ultrapassar os 
limites do saber legtimo. A discusso de Kant da disciplina das inclinaes enfatiza que a disciplina deve estar em segundo lugar para a "cultura moral", e seu 
fim  cultivar a vontade paradesejar o bem, em vez de disciplinar a inclinao para optar pelo mal: "uma impede os maus hbitos, a outra adestra a mente para pensar" 
{Pdagogik, 1803, 77). A excessiva disciplina das inclinaes gera violenta insatisfao social e individual; a primeira  debatida em CJ 83, a segunda em MC, 
onde  descrita como "contrria ao dever do homem para consigo mesmo" (MC p.452, p.246).
Em CRP, o objeto da disciplina  a tendncia da razo "a estender-se para alm dos estreitos limites da experincia possvel" (A 71 1/B 739. A par do cnone, da 
arquitetnica e da histria da razo, um captulo  dedicado  disciplina na "Doutrina transcendental do mtodo". Como, no caso da razo, nos deparamos com "um sistema 
inteiro de iluses e falcias que esto bem ligadas entre si e unidas segundo princpios comuns", Kant afirma ser necessrio propor "uma legislao negativa muito 
especial" na forma de um "sistema de precaues e auto-exame", em face do qual "nenhuma iluso pseudo-racional e sofistica possa subsistir" (CRP A 71 l/B 739). Ele 
o faz apresentando regras para expor os empregos dogmticos, polmicos, hipotticos e demonstrativos da razo pura. Enquanto se dedicava a essa tarefa, Kant escreveu 
algumas das mais requintadamente irnicas passagens de CRP, corroborando a sua afirmao em MC de que a disciplina "s pode tornar-se meritria e exemplar atravs 
da jovialidade que a acompanha" (MC p.485, p.274).
disposio [Gesinnung] ver tambm AFETO; INCLINAO; LEI; MAL; MXIMA; VONTADE A disposio apresenta-se na filosofia moral madura de Kant como um afeto subjetivo 
da lei moral e a fonte do valor de aes morais.  o "fundamento subjetivo essencial da adoo de mximas" (RL p.25, p.20) e  ela prpria livremente escolhida, 
"embora o fundamento subjetivo ou causa dessa adoo no possa ser mais conhecida" (ibid.). A disposio forma a base da filosofia moral de Kant, pois, se pudssemos 
saber as condies para escolh-la, poderamos incorporar essa escolha numa nova mxima, cuja escolha exigiria ento uma explicao. Por conseguinte, a disposio 
desempenha um papel importante na explicao de ao moral que Kant nos oferece. Ela orienta a Willkr [arbtrio] situada entre vontade e inclinao em uma direo 
ou outra. E exerce influncia caso a Willkr esteja disposta a aceitar as mximas da vontade ou da inclinao, mas desempenha um pequeno papel nas escolhas concretas 
e especficas que so feitas por Willkr.
disputa [Streit] ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; GUERRA O primeiro texto publicado de Kant, FV,  um comentrio crtico sobre uma disputa a respeito da fora 
que os corpos possuem: examina as posies dos leibnizianos e dos que se lhes opem e procura conduzir-se como juiz entre eles. Esse modo de argumentao ca-
divisibilidade             105
racterizou um certo nmero de obras de Kant, incluindo as trs crticas, apesar da afirmao feita em CRP de que se tratava de uma crtica da faculdade da razo 
em geral - no de um juzo de "livros e sistemas" concorrentes. A segunda crtica estabelece a posio crtica em face das vrias concepes de sumo bem sustentadas 
por correntes filosficas opostas (esticos versus epicuristas, por exemplo), enquanto a crtica da faculdade do juzo est estruturada em torno da disputa entre 
a descrio perfeccionista de beleza defendida por Baumgarten e as alegaes a favor do sentido de gosto expostas por Hutcheson, Burke e outros. Entretanto, a repetio 
por Kant de disputas e polmicas na filosofia crtica  muito distinta da de FV. Nos ltimos textos, as posies opostas passam a ser a manifestao annima do conflito 
da razo consigo mesma. Isso serviu extremamente bem s finalidades da filosofia crtica, uma vez que o "tribunal crtico" de CRP aspirou a ser um novo comeo e 
no apenas mais um outro momento na tradio metafsica. Em conseqncia, as posies criticadas na dialtica, em especial nas antinomias, so apresentadas mais 
como a razo em disputa consigo mesma do que como argentes em disputa uns com os outros. Tambm a disciplina da razo pura, um manual estratgico para resolver 
as disputas da razo, apresenta-se mais como uma instncia objetiva do que como participante num debate. Essa tendncia para purificar a razo de sua tradio teve 
o efeito de reduzir a filosofia a um solilquio, uma tendncia criticada por Hamann (1967) e Herder (1953) em suas "metacrticas" e que foi levada a um extremo por 
Fichte (1794). No obstante, quando Kant entrou na disputa em torno do significado da filosofia crtica, em SD, ele deixou cair a mscara do juiz imparcial do tribunal 
crtico e rqvelou claramente que ele prprio e a filosofia crtica eram partes interessadas na disputa sobre a herana e custdia da metafsica.
"Dissertao inaugural" (Sobre a forma e os princpios do mundo sensvel e inteligvel) ver ESCRITOS PR-CRTICOS
distino [Deutlichkeit] ver CLAREZA
divisibilidade [Teilbarkeit] ver tambm CONTINUIDADE; ESPAO; MATRIA; MNADA; SUBSTNCIA
A divisibilidade, a par da continuidade, era uma preocupao constante no pensamento de Kant. Estava presente em FNM e foi ainda explorada na segunda antinomia de 
CRP e em PM. Formou a parte essencial de sua tese de que, embora a matria no espao fosse infinitamente divisvel, no era, como conseqncia, composta de um nmero 
infinito de partes simples. Kant apresenta esse pensamento na terceira proposio de FNM como "O espao que os corpos ocupam  divisvel ao infinito; portanto, o 
espao no consiste em partes primitivas e simples" (FNM p.149, p.54). O seu raciocnio, nessa altura, era que, como o espao  uma relao, a diviso infinita de 
uma relao nunca chegar a partes ou substncias simples. Na verso crtica, na segunda antinomia de CRP, os argumentos a favor e contra a divisibilidade infinita 
da matria so criticados por esquecerem que o que est sendo dividido so aparncias no espao e no tempo. Uma vez que os "complexos" so aparncias, tambm o so 
quaisquer partes imaginadas deles, donde se segue "que a diviso s vai at onde a experincia alcana", e  impossvel atravs da diviso de aparncias chegar "a 
uma existncia prpria anterior  experincia" (p 52c). Assim, Kant sustenta que a escolha apresentada pela antinomia entre um nmero imito e infinito de

106            dogmatismo
partes simples  o resultado de um "problema mal posto", que no reconhece que o objeto da diviso  uma aparncia espao-temporalmente limitada. Em PM, ele amplia 
esse ponto ao argumentar que, assim como a divisibilidade do espao intuitivo  matematicamente infinita, o mesmo ocorre com a matria no espao; assim, a proposio 
"A matria  divisvel ao infinito e, com efeito, em partes cada uma das quais  ainda matria" (PM p.503, p.49) sublinha o ponto de que a divisibilidade  infinitamente 
reiterada sem chegar a partes simples e primrias.
dogmatismo ver tambm CETICISMO; FILOSOFIA; FILOSOFIA CRTICA; HISTRIA DA FILOSOFIA; RACIONALISMO
No prefcio de P, Kant fez a famosa declarao de que "a lembrana de David Hume foi justamente o que h muitos anos interrompeu, pela primeira vez, o meu sono dogmtico 
e deu s minhas pesquisas no campo da filosofia especulativa uma direo completamente nova (P p.260, p.5). Seja qual for o seu interesse biogrfico, essa passagem 
rene o que Kant considerou serem as trs principais possibilidades para a filosofia: dogmatismo, ceticismo e crtica. Apresenta-as no prefcio da primeira edio 
de CRP por meio de uma analogia com formas de governo: o governo da razo, "sob a hegemonia dos dogmticos, era inicialmente desptico" mas, pouco a pouco, "devido 
a guerras intestinas, deu lugar  mais completa anarquia; e os cticos, uma espcie de nmades, que tm repugnncia em se estabelecer definitivamente numa terra, 
rompiam, de tempos a tempos, a ordem social" (CRP A ix). O "tribunal crtico", contrrio a ambos, assegurar  razo "suas pretenses legtimas e, em contrapartida, 
condenar todas as presunes infundadas; e tudo isso, no por deciso arbitrria mas em nome das suas leis eternas e imutveis" (A xi).
Os "doces sonhos dogmticos" (CRP A 757/B 785) da razo que a inclinam ao despotismo resultam da "presuno de que  possvel progredir com o saber puro, de acordo 
com princpios, a partir to-somente de conceitos" (CRP B xxv). Para Kant, os dogmticos acreditam que, com base na razo pura,  possvel chegar ao conhecimento 
da existncia de Deus, da liberdade num mundo governado pela necessidade, e da existncia e at da imortalidade da alma. Filsofos dogmticos como Plato (CRP A 
5/B 8), Espinosa e Mendelssohn (SOP p. 143, p.246), mas sobretudo Wolff- "o maior de todos os filsofos dogmticos" (CRP B xxxvi) - corriam o perigo de cair no "fanatismo 
filosfico" (SOP p. 138, p.242) ou fingir que dominavam um saber que no podiam legitimamente possuir e defender suas pretenses com quaisquer meios ao seu alcance.
Kant afirmou que a "Crtica apara completamente as asas do dogmatismo no que se refere ao conhecimento de objetos supra-sensveis" (SOP p.143, p.246). Em vez de 
"investigar dogmaticamente as coisas", ele prope "uma investigao crtica dos limites do meu saber possvel" (CRP A 758/B 786), a qual revela que o nosso saber 
est limitado a aparncias constitudas pelo entendimento humano. Entretanto, isso no  simplesmente uma retirada do dogmatismo para o ceticismo, o que para Kant 
no passa de um "atalho";  necessrio combinar as foras do dogmatismo e do ceticismo no mtodo crtico. Assim, ele distingue entre dogmatismo e o "mtodo dogmtico" 
de "determinao legtima dos princpios, clara definio dos conceitos, rigor exigido nas demonstraes e preveno de saltos temerrios no estabelecimento das 
conseqncias" (CRP B xxxvi). O ltimo mtodo, exemplificado por Wolff,  necessrio para qualquer apresentao cientfica, mas deve ser
durao             107
suplementado por uma crtica da prpria razo pura, pois aqueles que "rejeitam o seu m todo e ao mesmo tempo o procedimento da crtica da razo pura no podem ter 
em mente outra coisa que nao seja desembaraar-se dos vnculos da cincia e transformar o trabalho em jogo, a certeza em opinio e a filosofia em filodoxia" (CRP 
B xxxvii).
dor ver PRAZER
dualismo ver COISA-EM-SI-MESMA; IDEALISMO
dupla afeco ver AFETO
durao ver ANALOGIAS DA EXPERINCIA; ANTINOMIADARAZOPURA; CONTINUIDADE-DIVISIBILIDADE; EXISTNCIA; FINITUDE; IMORTALIDADE; INFINIDADE; MATRIA" SUCEs' SAO; TEMPO 
' ou^E'a-

E
ctipo ver ARQUTIPO
educao ver CULTURA; HBITO; HISTRIA; MTODO
efetividade [energeia, actus, Wirklichkeit] ver tambm AO; EXISTNCIA; POSSIBILIDADE; POSTULADOS DO PENSAMENTO EMPRICO; PRINCPIO; SER O uso por Kant do termo 
efetividade no segundo postulado do pensamento emprico pode ser esclarecido por meio de uma comparao com o termo aristotlico energeia, o qual significa ao 
e efetividade. O ltimo termo usualmente referia-se a energeia em conjunto com dynamis, uma palavra equivocadamente traduzida como possibilidade ou potencialidade. 
Energeia significava a entrada em ao de dynamis, mas sem o requisito de que dynamis fosse considerada ontolgica ou epistemologicamente anterior a energeia. Fazer 
tal exigncia acarretaria a subordinao de ambos os termos s determinaes categricas do ser. Isso  inaceitvel porque energeia e dynamis so pr-catego-riais; 
com efeito, para Aristteles, elas do at origem s categorias de quantidade, qualidade, condio e localizao (Aristteles, 1941,201 a, 10). Por essa razo, a 
relao entre elas no pode ser enunciada categorialmente, mas apenas analogicamente (ver Aristteles, 1941, 1048a e 1065b).
Embora Kant situe categorialmente o princpio de efetividade, em termos da segunda categoria modal de existncia/no-existncia, ele ainda apresenta muitas das caractersticas 
do enunciado inicial de Aristteles, mas agora superdeterminadas pela tradio crist. A tese aristotlica de eternidade da matria e do mundo criava dificuldades 
bvias para a doutrina crist da criao ex nihilo (ver "A condenao de 1277" em Hyman e Walsh, 1984). Uma soluo favorecida pelos escolsticos era que a exposio 
cosmolgica de efetividade (a qual tinha suas origens nas tentativas de Aristteles de explicar mudana - kinesis - na Fsica) ficasse subordinada a uma ontoteolgica. 
Assim, Deus, em Santo Toms,  auto-efetivador e desprovido de potencial, ao passo que o mundo recebe sua potencialidade e efetividade de Deus como seu criador (Santo 
Toms de Aquino, 1975, Livro i, captulo 16). Destarte, a efetividade passa a estar con-catenada com o problema da existncia de Deus e do mundo; a existncia, ou 
a efetivao de um mundo possvel,  tratada como um predicado. Para Kant, essa tradio de pensamento era exemplificada pela filosofia de Christian Wolff, que incluiu 
a existncia no mbito da definio racional de um ser possvel.
efetividade             109
Kant ops-se sistematicamente a essa posio ao longo de toda a sua carreira; ela estimulou o desenvolvimento de muitas de suas posies caractersticas, como a 
doutrina da intuio. Em UFP, ele fez a celebrada reclamao contra Wolff de que "a existncia no pode ser ela prpria um predicado" (p.74, p. 120) e argumentou 
que o efetivo e o possvel eram genericamente distintos. Acrescentar o predicado "existncia" como complemento de um ser possvel no basta para torn-lo efetivo. 
Nesta fase de sua * argumentao, Kant desenvolve uma sutil distino entre a existncia postulada "em" um possvel ser e a postulada "atravs" dele (p.75, p.121). 
Entretanto, nos "Postulados de pensamento emprico" em CRP, Kant remodela fundamentalmente a oposio tradicional de possibilidade e efetividade em funo do que 
 logicamente possvel e do que efetivamente se harmoniza com as formas de intuio.
Os postulados estabelecem as condies para o uso emprico dos conceitos modais de possibilidade, efetividade e necessidade. O segundo postulado define o efetivo 
como "vinculado s condies materiais da experincia, isto , s sensaes" (CRP A 218/B 265). Entretanto, a efetividade no  obtida por mera sensao inarticulada 
mas atravs de uma "sensao de que estamos conscientes", ou percepo. A prpria percepo, no entanto,  governada pelas analogias da experincia, de modo que 
a efetividade envolve conformidade s regras que governam uma experincia possvel. Mas, como em Aristteles, a efetividade no suplementa simplesmente uma possibilidade 
com existncia, mas pode preced-la.  capaz de efetivar um conceito possvel, mas pode tambm manifestar-se numa percepo para a qual est faltando um conceito. 
Assim, embora Kant apresente a efetividade como o princpio de uma categoria distinta, logo se torna evidente que ela tambm est subjacente em todas as formas de 
juzo categrico; pois tais juzos efetivam conceitos ao determin-los de acordo com as condies de existncia no tempo.
Duas caractersticas do estudo de Kant da efetividade foram importantes para filsofos subseqentes. Em primeiro lugar, efetividade no significou simplesmente "realidade" 
ou sensao, mas percepo de acordo com as analogias de permanncia, sucesso e coexistncia. Em segundo lugar, era um princpio categrico e a condio para a 
sntese categrica. Assim, em Fichte, existem duas efetividades: uma  a atividade produtiva original do "eu", enquanto a outra  o resultado do entendimento que 
distingue entre efetividade e possibilidade (Fichte, 1794, p.206-8). Hegel supera essa distino ao descrever a efetividade como sendo o absoluto e os seus momentos 
formalmente separados. Em Cincia da lgica, ele apresenta uma anlise fenomenolgica do percurso da efetividade desde os seus primrdios como atividade, passando 
por seus reflexos nas categorias de essncia e aparncia (a efetividade oposta  possibilidade como o exterior ao interior), at chegar  "relao absoluta" do absoluto 
e sua reflexo (Hegel, 1812, p.529-71; 1830, p.257-67).*
Durante o sculo XIX, a efetividade foi cada vez mais confundida com "realidade"; a sentena de Hegel de que o "racional  efetivo e o efetivo, racional" (1821, 
p.20) foi um das primeiras perdas. Marx, em sua crtica de Hegel, reduz racional a ideal e efetivo a real, apagando assim o carter dinmico de efetividade. Os dois 
sentidos de efetividade
* Comparar com o verbete "efetividade" no Dicionrio Hegel, de Michael Inwood, por ns traduzido para esta mesma coleo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997, p. 107-9. 
(N.T.)

110          elementos
em Kant foram recuperados no sculo xx por Husserl, que distinguiu entre efetividade latente e focai: as efetividades latentes so percebidas no campo da intuio 
mas no so "distinguidas"; formam uma zona para o surgimento de efetividades focais (Husserl, 1913, p. 105-7). Em termos de seu pensamento ulterior, formam um mundo 
da vida [Le-benswelt], efetivo mas no tematizado, do qual podem ser extrados objetos e relaes
focais.
A implicao em Kant e Husserl de que a efetividade foi marcada por "presena" - pelo trazer  presena ou o estar presente das coisas - foi criticada por Heidegger 
em Ser e tempo. Ele contrasta efetividade, como o processo de tornar presente a possibilidade, com a efetivao da possibilidade de morte. A primeira "aniquila a 
possibilidade do possvel quando o torna disponvel para ns" (Heidegger, 1927, p.305), ao passo que a segunda  efetivada numa possibilidade "tanto quanto possvel 
de qualquer coisa efetiva" que  a "possibilidade de existncia autntica" (ibid., p.307). Com esses comentrios, Heidegger comea uma re-descrio da relao entre 
efetividade e ao, a qual informou originalmente a concepo aristotlica de energeia.
elementos [stoicheion] O termo grego para elementos referia-se originalmente s letras do alfabeto, mas o seu significado foi adaptado por filsofos para indicar 
os princpios bsicos, no derivados. Vo desde os quatro elementos fsicos da primitiva cosmologia grega at aos elementos de uma disciplina intelectual como a 
geometria. Assim, no comentrio de Proclo sobre Euclides, os elementos so definidos como "aqueles teoremas cujo entendimento leva ao conhecimento do resto e por 
meio dos quais so resolvidas as dificuldades encontradas neles" (Proclo, 1970, p.59). Prossegue dizendo que, tal como as letras do alfabeto, os elementos no fazem 
o menor sentido fora do seu uso; seu significado  determinado pela ordem (taxis) e a posio (thesis) em que so colocados em relao uns aos outros. Embora Kant 
discuta os elementos fsicos em alguns de seus primeiros textos, como HGN e FNM, o seu principal uso do termo ocorre naquelas sees das primeiras duas crticas 
(CRP e CRPr) interessadas na apresentao dos elementos bsicos do juzo terico e prtico. As crticas esto, assim, divididas entre "Doutrinas transcendentais 
dos elementos" e "Doutrina do mtodo"; nas primeiras, Kant procura estabelecer os bsicos e no derivveis elementos do juzo - ou as formas de intuio e os conceitos 
puros do entendimento para o juzo terico, ou a lei moral para o juzo prtico. Cumpre acrescentar que Kant tinha perfeito conhecimento de que esses elementos eram 
desprovidos de todo o significado se abstrados de seu uso em juzo e que, ao contrrio da opinio de muitos crticos, ele no pretendeu que a doutrina dos elementos 
fornecesse a base para uma teoria total e racionalista do juzo.
emprico/empirismo/empirista ver tambm ABSTRAO; DOGMATISMO; FILOSOFIA CRTICA; HISTRIA DA FILOSOFIA; PURO; RACIONALISMO
Uma intuio ou conceito emprico  aquilo que "contm sensao" e, assim, "pressupe a presena real do objeto" (CRP A 50/B 74). Contrasta com a intuio pura, 
a qual "contm unicamente a forma sob a qual algo  intudo", e com um conceito puro, o qual contm "somente a forma do pensamento de um objeto em geral" (A 5 l/B 
75). Uma intuio ou conceito emprico s  possvel aposteriori, enquanto o puro  apriori. Por essa razo se diz que os objetos transcendentais que excedem os 
limites do sentido so "empiri-
entendimento            111
camente desconhecidos". Informando essa distino entre emprico e puro est uma distino adicional entre empirismo e racionalismo, muitas vezes, na verdade, entre 
os chamados empiristas e racionalistas. Nas antinomias, a anttese representa a rplica em-pirista  tese racionalista. Kant considera que um "empirismo puro" mina 
as bases do interesse prtico da razo, mas oferece vantagens muito aliciantes para o interesse especulativo (CRP A 468/B 496). O empirismo  til para controlar 
os excessos do racionalismo, porm, "como freqentemente acontece", "o empirismo torna-se, por sua vez, dogmtico nas suas atitudes em relao s idias e nega resolutamente 
o que excede a esfera de seu saber intuitivo" (A 471/B 499). Assim, na filosofia terica e na esttica, a estratgia de Kant consiste em fazer com que empirismo 
e racionalismo se defrontem mutuamente, enquanto na filosofia prtica ele privilegia de forma inequvoca a posio racionalista, em detrimento da empirista (CRPr 
p.72, p.74).
O contraste entre empirismo e racionalismo revela-se rapidamente ser entre pensadores identificados como empiristas e racionalistas. Em CRP, o contraste  apresentado 
como sendo entre o "empirista" Epicuro e o "racionalista" Plato (A 471/B 499); isso  depois repetido em termos do objeto de saber, com Epicuro no papel do sensualista 
e Plato no do intelectualista, mas completados pelo contraste de Aristteles e Plato a respeito das origens empricas e ideais do saber, o primeiro rotulado de 
empirista, o segundo de noologista. Esta ltima distino  transferida para a diferena entre Locke e Leibniz (CRP A 854/B 882) e foi desenvolvida na "Nota sobre 
a anfibologia dos conceitos de reflexo" (CRP A 269/B 325 e ss.) Em FMC e CRPr, os empiristas citados incluem Hutcheson e os tericos britnicos do "sentido moral" 
(FMC p.442, p.46) e Hume (CRPrp.13, p.13), os quais se opem todos ao racionalista Wolff. Uma distribuio semelhante  apresentada em CJ, a qual ope a teoria emprica 
do gosto (Burke, Hutcheson, Hume e Kames)  esttica perfeccionista de Wolff e Baumgarten. Se Kant derivou a oposio de emprico e racional dos empiristas e racionalistas 
apontados ou vice-versa  uma questo em aberto, mas importante para julgar sua pretenso de ter proporcionado uma crtica da "faculdade da razo apenas" e no uma 
de "livros e sistemas" (CRP A xii).
entendimento [dianoia, intellectio, Verstand] ver tambm ANALTICA; ANFIBOLOGIA; CONCEITOS DE REFLEXO; ESPONTANEIDADE; FACULDADE; FINITUDE; INTUIO; LGICA; RAZO; 
REGRAS; SENSIBILIDADE; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS A histria do entendimento foi amplamente determinada pelos problemas no estabelecimento de relaes entre atos 
de entendimento ou pensamento em geral e a faculdade da mente que  responsvel por esses atos. As primeiras disputas em torno da natureza da faculdade de entendimento 
motivaram uma das mais conhecidas polmicas de Santo Toms de Aquino,.>e unitate intellectus contra Averroistas [Sobre a unidade do intelecto contra os averroistas] 
(1269-70) e persistiram em toda a filosofia medieval sob a forma do papel desempenhado pela iluminao divina em atos do entendimento e da contribuio para o saber 
feita pelos sentidos e a imaginao. Nas Meditaes, Descartes atribui  faculdade do entendimento um amplo papel na criao do saber, colocando a sua contribuio 
acima da dos sentidos e da imaginao. Em sua resposta s objees, ele distinguiu claramente entre atos de entendimento ou "inteleco" e a "coisa que entende" 
ou "entendimento como uma faculdade" e, assim fazendo, identificou claramente as com-

112          entendimento
plexas relaes entre a constituio da faculdade e os atos de entendimento que ela realizou.
O debate sobre a natureza do entendimento e suas relaes com os atos de entendimento tomaram um diferente e fascinante rumo em conseqncia do encontro de Leibniz, 
nos Novos ensaios sobre o entendimento humano (1765), com a teoria do entendimento humano de Locke. No Ensaio acerca do entendimento humano (1690), Locke descreveu 
o entendimento como "algo no muito diferente de um armrio totalmente vedado  luz, apenas com uma pequena fresta para deixar entrar as aparncias visveis externas, 
ou idias de coisas de fora" (p.76). Leibniz respondeu que, para caracterizar integralmente o trabalho do entendimento, seria necessrio que Locke dotasse o seu 
armrio de uma tela, e essa tela no seria uniforme mas estaria sob tenso, "diversificada por dobras representando coisas de saber inato", e reagiria s impresses 
como a corda de um instrumento musical (Leibniz, 1765, p.144). Essa caracterizao extremamente complexa do processo de funcionamento do entendimento humano no 
foi adotada pelos seguidores wolffianos de Leibniz, se bem que, como Leibniz e Locke, os wolffianos vissem o entendimento como "a capacidade de representar coisas 
possveis" (Meissner, 1737, "Verstand"); ou seja, como um poder de representao que inclua a sensibilidade e a imaginao, e que funcionava atravs de conceitos, 
juzos e inferncias.
Vestgios da concepo wolffiana de entendimento como o poder geral de representao persistem em Kant, embora ele estivesse interessado em separar o entendimento, 
como faculdade, tanto da sensibilidade quanto da razo. Para ele, era possvel "reduzir a juzos todos os atos do entendimento" e, assim, representar o entendimento 
como uma "faculdade de julgar" (CRP A 69/B 94). Por entendimento, entendeu ele "o conhecimento mediato de um objeto, ou seja, a representao de uma representao 
desse objeto" (CRP A 68/B 93), quer essa representao seja uma intuio ou um conceito. Todos os juzos so, portanto, "funes de unidade entre nossas representaes", 
pelo que o entendimento pode ser ainda caracterizado como uma faculdade para unificar representaes. Assim, dos atos de entendimento - juzos - Kant passa  "decomposio 
da prpria faculdade de entendimento", a fim de "examinar a possibilidade de conceitos a priorf (A 65/B 90). Sua "pista" na busca desses conceitos bsicos do entendimento 
- suas formas bsicas de unificao -  a tbua dos juzos contendo as quatro classes da quantidade, qualidade, relao e modalidade de juzos.
A fim de caracterizar como  possvel ao entendimento originar os seus prprios conceitos puros, Kant tem de distingui-lo das duas outras faculdades, a sensibilidade 
e a razo. Isso leva ao que ele prprio admite serem "vrias definies diferentes" de entendimento. E definido como "uma espontaneidade do conhecimento (em oposio 
 receptividade da sensibilidade)" (CRP A 126), porque os seus conceitos so modos da unidade transcendental de apercepo, a qual  original e espontnea.  tambm 
descrito como uma "faculdade de pensar", uma "faculdade de conceitos", na medida em que inclui as categorias atravs das quais estabelece "a lei da unidade sinttica 
de todas as aparncias" (A 128), uma faculdade de juzos e a "faculdade de regras". Sob esta ltima forma, o entendimento "est sempre ocupado em investigar as aparncias 
com a inteno de lhes encontrar quaisquer regras" (A 126). Essas regras, entretanto, "derivam a priori do prprio entendimento", porquanto este  tambm caracterizado 
como "o legislador da natureza" (ibid.). Em uma das interpretaes que a descrio de Kant do entendimento parece su-
entusiasmo            113
gerir, o entendimento recebe da sensibilidade os materiais da experincia, os quais processa, ento, mediante sua subsuno numa lei. Mas isso no faz jus  dignidade 
plena que ele confere ao entendimento como o "legislador da natureza", pois ele est apto a "proporcionar s aparncias a sua conformidade s leis e assim tornar 
possvel a experincia" (A 126).
As relaes que Kant estabelece entre entendimento e sensibilidade so extrema- mente intrincadas e complexas, e consistem em reunir intuies e conceitos que, 
quanto ao mais, so heterogneos. Ambos so representaes, mas enquanto as primeiras se originam na receptividade da sensibilidade humana, os segundos se originam 
na espontaneidade do entendimento. Intuies e conceitos devem adaptar-se mutuamente de um modo que respeite sua heterogeneidade mas que, no obstante, permita a 
realizao de sua sntese. Kant aventura-se a descrever como isso  realizado no esquematismo e nos princpios. As relaes do entendimento com a razo so caracterizadas 
de um modo mais simples e direto. O entendimento assegura "a unidade das aparncias mediante regras", ao passo que a razo  a faculdade de "unificar as regras do 
entendimento mediante princpios" (CRP A 302/B 359). Enquanto o entendimento est restrito  gama de experincia possvel, a razo "refere-se sempre  totalidade 
absoluta na sntese de condies" (A 326/B 382); isso impele os conceitos do entendimento para alm de seus legtimos limites e gera as inferncias falaciosas minuciosamente 
investigadas na "Dialtica transcendental" de CRP.
O entendimento foi o lugar de considervel soma de oposio  filosofia crtica. As primeiras "metacrticas", como as de Hamann (1967) e Herder (1953), objetaram 
 separao de entendimento e sensibilidade, ao passo que crticos ulteriores, como Fichte (1794) e Hegel (1807, 1812), criticaram a separao de entendimento e 
razo. Geraes subseqentes de crticos, sobretudo Nietzsche e os neokantianos do final do sculo XIX, resistiram  tendncia de Kant de transformar a discusso 
de atos de entendimento na dissecao da faculdade de entendimento. Essa corrente de crtica, que se fundiu com as leituras antipsicolgicas da filosofia de Kant, 
permaneceu extremamente influente durante o sculo XX e ser encontrada em forma razoavelmente pura pelos leitores de The Bounds ofSense (1966), de Strawson.
entusiasmo ver tambm AFETO; HISTRIA; IMAGINAO; SENTIMENTO; SUBLIME Entusiasmo  um sentimento do sublime resultante da combinao de uma idia com um afeto. 
 descrito em OBS como a inflamao" da mente por um princpio, seja este configurado nas "mximas de virtude patritica, ou de amizade, ou de religio", mas distinto 
do fanatismo, o qual "acredita sentir uma comunho imediata e extraordinria com uma natureza superior" (OBS, p.108). Kant mantm essa distino em CJ, onde entusiasmo 
 descrito como o "desencadeamento" e o fanatismo como "anomalia" da imaginao. Como o afeto da idia de bem, o entusiasmo imprime ao Gemt "um impulsa de muito 
mais forte e duradoura eficcia que o estmulo recebido atravs de representaes sensveis" (CJ 29). Resulta da fuso de afeto, idia e imaginao, e pode servir 
como um incentivo  ao. As implicaes do entusiasmo para a filosofia da histria de Kant foram exploradas por Lyotard em The Differend (1983), onde  descrito 
como a paradoxal "apresentao abstrata que apresenta o nada". Como irrupo da idia no afeto e na ao, o entusiasmo  capaz de inspirar acontecimentos que quebram 
o contnuo da histria; o

114            epistemologia
principal exemplo disso, para Kant, foi a sua contempornea Revoluo Francesa, inspirada pela idia de repblica, um evento que foi tanto o resultado de entusiasmo 
quanto a fonte de sentimentos entusisticos em seus espectadores.
epistemologia Este termo, que significa teoria do conhecimento,  derivado do grego episteme, conhecimento, e logos, uma apresentao de; no foi usado por Kant 
e s apareceu mais tarde, em meados do sculo XIX. O vocbulo alemo Erkenntnistheorie (teoria do conhecimento), freqentemente traduzido como epistemologia, tambm 
 ps-kantiano, e foi criado por K.L. Reinhold como parte de sua tentativa de transformar a filosofia crtica numa teoria da representao em Letters on the Kantian 
Philosophy (1790-92). Isso traduziu um termo usado por Baumgarten-gnoseologia - de que Kant tinha conhecimento e ao qual aludiu em algumas ocasies insignificantes. 
Paradoxalmente, portanto, embora a filosofia de Kant viesse desde ento a ilustrar a teoria do conhecimento, ou epistemologia, ele prprio no usou a palavra ou 
qualquer sinnimo dela. Isso sugere que a leitura da filosofia critica como um projeto epistemolgico  uma interpretao anacrnica, post hoc, baseada na preocupao 
do sculo xix em distinguir entre epistemologia e ontologia. O prprio Kant descreveu a "Analtica transcendental" de CRP - o seu texto aparentemente mais "epistemolgico" 
- como uma reformulao da ontologia (ver CRP A 247/B 303). Uma vez que a distino anacrnica entre epistemologia e ontologia est suspensa, muitas das caractersticas 
desconcertantes de CRP tornam-se menos enigmticas, como a assero de que "as condies da possibilidade da experincia em geral so, ao mesmo tempo, condies 
da possibilidade dos objetos da experincia" (CRP A 158/B 197). Desde a perspectiva do sculo XIX, essa assero  inexplicvel, parecendo confundir as ordens ontolgica 
e epistemolgica.
Esclarecimento [Aufklrung] ver ILUMINISMO
escritos polticos ver tambm CONSTITUIO; COSMOPOLITISMO; CULTURA; ESTADO; FEDERALISMO; HISTRIA; SOCIABILIDADE
Kant deu muitos passos no rumo de uma filosofia poltica no decorrer de suas aulas sobre geografia e antropologia, mas s com os seus artigos para a pr-iluminista 
Berlinische Monatsschrift, a partir de meados da dcada de 1780,  que ele comeou a desenvolver uma filosofia poltica pblica e explcita. Os primeiros trabalhos 
que podem ser includos sob esse ttulo so IHU e RPE. Em mu, ele considerou a realizao de uma "sociedade civil que pode administrar universalmente a justia", 
isto , combinar "liberdade sob leis externas" com "fora irresistvel" (p.22, p.45), como o mais difcil e decisivo problema a ser resolvido pela raa humana. Anuncia 
o que ir tornar-se o principal tema da filosofia poltica de Kant, a saber, o relacionamento entre uma constituio civil justa e a paz internacional. Em RPE, Kant 
pede a mais ampla arena poltica de debate poltico, contribuindo para a articulao de uma esfera pblica civil para discusso de assuntos polticos.
O padro estabelecido nesses textos pr-revolucionrios persiste nos escritos depois da Revoluo Francesa (1789), os quais aludem com entusiasmo crtico aos acontecimentos 
na Frana. O primeiro deles foi CJ, que comentadores como Arendt (1989) e Lyotard (1991) consideraram conter em sua exposio sobre juzo reflexivo o cerne da filosofia 
poltica de Kant. CJ tambm contm interessantes comentrios na Parte II sobre a constituio do estado e a sociedade civil (83), assim como reflexes sobre a Revolu-
escritos pr-crticos             115
o Francesa (65). Contribuies adicionais para uma filosofia poltica explcita foram tambm feitas em TP (1793) e, sobretudo, em PP (1795). Este ltimo texto 
 a mais ponderada afirmao da natureza republicana de uma constituio civil justa e sua contribuio para a paz mundial; se lido paralelamente com as sees polticas 
de MC (1797), oferece um bom vislumbre do carter liberal mas antidemocrtico* da filosofia poltica de Kant.
As fontes da filosofia poltica de Kant no devem, porm, ficar restritas aos seus ensaios polticos. Os insights polticos esto presentes no s em FMC e CRPr 
mas tambm em CRP; so ainda evidentes as intervenes de Kant na poltica institucional, como as da universidade em CF e as da igreja em RL. As implicaes dos 
textos ostensivamente polticos para a interpretao de Kant em geral foram destacadas em obras recentes, as quais se concentram no que Lyotard descreveu como a 
"quarta crtica" da razo histri-co-poltica. Isso confere uma nova perspectiva no s para a filosofia moral e terica de Kant, mas tambm para a poltica da crtica 
em geral.
escritos pr-crticos Numa carta a J.H. Tieftrunk datada de 13 de outubro de 1797, Kant concordou com uma proposta para "publicar uma coletnea dos meus escritos 
menores", mas com a ressalva de que "eu no desejaria que a coleo fosse iniciada com qualquer coisa anterior a 1770, ou seja,  minha dissertao sobre o mundo 
sensvel e o mundo inteligvel" (CFi, p.239). Com isso, ele repudiou efetivamente todos os escritos do "perodo pr-crtico" com a exceo do ltimo, a Dl. O seu 
juzo sobre os escritos entre 1746 e 1770, o que soma 25 textos publicados, tem sido, de um modo geral, tacita-mente aceito pelos estudiosos de Kant. Com poucas 
excees dignas de nota, esses textos foram relativamente negligenciados, sobretudo em comparao com a indstria in-terpretativa montada em torno dos textos crticos; 
muitos dos escritos pr-crticos continuam no traduzidos e so terra ignota at para muitos estudiosos de Kant.
A tendncia daquelas interpretaes de Kant que se referiram aos escritos pr-crticos foi de serem seletivas, esquadrinhando os textos em busca de temas que so 
mais tarde desenvolvidos nos escritos crticos, tais como "deduo transcendental", "causalidade" ou "juzo". Este uso dos textos envolve o perigo de restringir 
sua exegese  ilustrao de uma idia interpretativa favorita. Mesmo com a maior boa vontade do mundo,  difcil encontrar uma estrutura de classificao que abranja 
toda a diversidade dos escritos pr-crticos. Entretanto, existe um conjunto de temas freqentes, os quais podem ser reunidos sob o problema geral das condies 
e possveis futuros para a metafsica.
Para o Kant pr-crtico, assim como, na verdade, para o crtico, metafsica significava especificamente a metafsica wolffiana em que ele tinha sido instrudo e 
que passou toda a sua vida profissional ensinando. O influente sistema wolffiano de filosofia, em
*Essa interpretao  contestada por I. Maus. Cf. Zur Aufklrung der Demokratietheorie. Rechtsund demokratietheoretische berlegungen in Anschluss an Kant [Para 
o esclarecimento da teoria da democracia. Consideraes terico-jurdicas e terico-democrticas a propsito de Kant]. Frankfurt: Suhrkamp, 1994. Cf. tambm E.-O 
Czempiel. "O teorema de Kant e a discusso atual sobre a relao entre democracia e paz", in V. Rohden (org.), Kant e a instituio da paz. Porto Alegre: Editora 
da UFRGS, 1997, p.99-142 (N.R.T.).

116          escritos pr-criticos
suas verses alem e latina, comeou com uma propedutica lgica e foi seguido por uma metafsica e, depois, uma tica e uma poltica. O contedo da metafsica estava 
organizado em termos de uma metafsica geral, ou "ontologia", e de uma "metafsica especial", a qual engloba a teologia, a cosmologia e a psicologia. O objeto da 
ontologia era o "ser em geral", enquanto os da teologia, cosmologia e psicologia eram o ser de Deus, o mundo e a alma. Essas divises forneceram as frentes em que 
Kant deu continuidade  sua crtica da metafsica e informaram at os seus mais declaradamente especficos e estreitamente definidos textos pr-crticos.
A preocupao com o estado e o futuro da metafsica j  evidente na primeira obra publicada de Kant, Gedanken von der wahren Schtzung der lebendigen Krfte [Idias 
para uma verdadeira avaliao das foras vivas] (1747). Essa meditao acadmica sobre disputas, na poca, a respeito da natureza da fora  informada por uma agenda 
metafsica. No  19, Kant conclui a primeira seo sobre "A fora dos corpos em geral", ponderando que "A nossa metafsica est, como muitas outras cincias, de 
fato, somente no limiar de um saber bem fundamentado; s Deus sabe quando ela cruzar esse limiar". Isso acontece porque todos querem possuir saber, mas relutam 
em promover o esforo necessrio para assegurarem-se de que ele est bem fundamentado. Ao longo de todo esse texto, Kant alude repetidas vezes  tenso entre a cincia 
natural e a metafsica, insinuando que a metafsica no se sai bem do confronto. O palco para o envolvimento de Kant com a metafsica j est montado em termos dos 
conceitos de matria, espao e tempo.
Foi alegado que, depois de FV, Kant s voltaria a temas filosficos especficos em 1762, e que os escritos entre 1747 e aquela data eram predominantemente de interesse 
para a histria da cincia. Esses textos, incluindo reflexes sobre a Terra, como "A questo sobre se a Terra est envelhecendo, considerada de um ponto de vista 
fsico" (1754, ver tambm textos de 1755e 1756), sobre meteorologia (1766,1757) e sobre cosmologia (HGN), representam, no obstante, meditaes sobre questes metafsicas 
tais como o papel de Deus em acontecimentos naturais e a natureza do universo e da criao. Eles so, alm disso, entremeados por uma reflexo explcita sobre metafsica, 
a saber, a "Nova elucidao dos princpios do conhecimento metafsico" (1755). Este escrito critica a metafsica wolffiana e, em particular, a centralidade do princpio 
de contradio para a sua explicao de ser e de verdade. A tese, repartida em trs sees, comea com uma crtica do princpio de contradio; prossegue como uma 
anlise das questes tericas e prticas de um princpio de "fundamento determinante" e chega a dois novos princpios de conhecimento metafsico, a saber, os princpios 
de sucesso e coexistncia. Embora estes se expressem no idioma de uma metafsica de substncia, apontam claramente para o fato de Kant concentrar sua renovao 
da metafsica nas questes de tempo e espao, com seus problemas associados de movimento e causalidade. Esses temas foram retomados na Nova teoria do movimento e 
do repouso (1758), onde Kant investe contra o "ra-merro wolffiano" e defende a relatividade dos juzos de movimento e repouso.
A partir de 1762, os escritos de Kant tornam-se mais explicitamente concentrados em questes filosficas, mas as preocupaes acerca das condies e perspectivas 
para a metafsica continuaram a predominar. Em A falsa sutileza das quatro figuras silogsticas (1762), Kant focaliza o ato de julgar, que ele situa no mago das 
figuras silogsticas. Entre os vrios assuntos interessantes que aborda nesse notvel ainda que breve ensaio, esto as relaes entre juzo e conceitos e entre juzo 
e reflexo, a existncia de um certo
escritos pr-crticos            117
nmero de juzos indemonstrveis no saber humano e a distino entre diferenciao lgica e fsica. Essa distino, que marcou uma crtica decisiva do princpio 
de contradio de Wolff, foi depois aprofundada em GN e ICP, e ampliada neste ltimo texto para uma distino entre o mtodo matemtico sinttico de filosofia usado 
por Wolff e um mtodo analtico recomendado por Kant. As preocupaes anteriores de FS anunciam, por sua vez, uma srie de temas e problemas de ordem mais geral, 
que Kant continuou trabalhan-.  do j dentro do perodo crtico.
Um outro novo e importante caminho encetado em FS expressa-se no ponto de vista de que a preocupao tradicional com as formas do silogismo est na raiz do "destino 
do entendimento humano", condenado a "meditar sombriamente sobre questes profundas e a cair em idias bizarras, ou a perseguir audaciosamente objetivos grandes 
demais para a sua capacidade de apreenso e a construir castelos no ar" (p.57, p.100). E precisamente essa caracterstica das inferncias silogsticas da razo que 
Kant identificar em CRP como a raiz das inferncias dialticas da metafsica especial. Comeou a critic-las em UAP, onde se recusou a tratar a existncia como 
um predicado que podia ser legitimamente atribudo a Deus. A crtica do silogismo prolonga-se numa crtica geral  metafsica predominante em sv, onde Kant censura 
"os que erguem castelos no ar" e aponta Wolff e Crusius como tais "sonhadores da razo" (p.342, p.329). A despeito das enormidades metafsicas perpetradas por Swedenborg, 
que Kant satiriza nesse texto, ele termina com uma declarao de amor  metafsica. Afirma que sua atrao decorre de suas duas principais caractersticas, uma das 
quais  "perscrutar as propriedades mais recnditas das coisas", a qual somente oferece desapontamento, e a outra  "conhecer os limites da razo humana" (sv p.268, 
p.354). Esta ltima noo, a metafsica como autoconhecimento, leva a metafsica "de volta aos seus humildes fundamentos na experincia e no senso comum" (sv p.368, 
p.355).
O carter programtico da declarao de amor de Kant  metafsica  inconfundvel, mesmo em plena e implacvel stira em sv. Como auto-conhecimento, ou conhecimento 
dos limites da razo, a metafsica passa a ser uma ntima aliada da antropologia. Essa corrente da obra de Kant vem  tona em OBS, a qual usa a distino do belo 
e do sublime como quadro de referncia atravs do qual aprofundar um certo nmero de reflexes antropolgicas muito distantes do "espao vazio para onde as asas 
de borboleta da metafsica nos alaram" (OBS p.368, p.355). Uma tendncia anloga  discernvel em DRE, a qual, embora defendendo ostensivamente o espao absoluto 
newtoniano contra a verso relativa dos wolffanos, descobre uma terceira posio que consiste em examinar as origens corpreas da diferenciao espacial. A descrio 
de Kant do espao absoluto como um "conceito fundamental" que "torna possvel toda a sensao exterior" assinala um ponto de transio entre (a) uma compreenso 
objetiva e (b) uma compreenso subjetiva mas no relacionai de espao.
As reflexes metafsicas dos escritos pr-crticos esto reunidas no ltimo texto desse perodo, a Dl. A obra comea com algumas reflexes cosmolgicas sobre o conceito 
de mundo, mas agora descrito em termos de sntese, intuio e entendimento. Kant apressa-se em sublinhar que os limites da mente humana so freqentemente confundidos 
como sendo os das prprias coisas. O texto passa depois a estabelecer esses limites, refletindo sobre a distino entre coisas sensveis e coisas inteligveis, assim 
como sobre o conhecimento sensvel e intelectual. Kant critica repetidamente a metafsica wolffiana

118          espao
por confundir essas esferas, em detrimento da metafsica, e redefine esta ltima como os "princpios primeiros do uso do entendimento puro" (8), os quais abrangem 
os princpios do conhecimento sensvel e intelectual. Os primeiros so, sobretudo, os "princpios da forma do mundo sensvel" (13), a saber, tempo e espao. Estes 
so apresentados como formas subjetivas que so pressupostas pelos sentidos.  apresentao destas segue-se uma breve e relativamente subdesenvolvida seo sobre 
o "princpio da forma do mundo inteligvel", seguida por uma seo sobre "mtodo em metafsica", a qual numera os "axiomas sub-reptcios" que surgem quando no  
observada a distino entre conhecimento sensvel e intelectual.
Com Dl, est montada grande parte do plano geral de CRP, muito embora os detalhes da obra necessrios para "cruzar o limiar" e fazer da metafsica uma cincia adequadamente 
fundamentada exigiria mais uma dcada de trabalho, a chamada "dcada silenciosa". Apesar das diferenas no estilo entre os escritos de antes e depois da "dcada 
silenciosa", h uma continuidade entre os perodos pr-crtico e crtico que pode ser resumida como o diagnstico do estado doentio da metafsica e a prescrio 
de um austero regime de autoconhecimento para assegurar-lhe a sobrevivncia.
espao [kora, spatium, Raum] ver tambm CONTRAPARTIDA INCONGRUENTE; ESPAO E TEMPO; ESTTICA; FORA; INTUIO; METAFSICA; TEMPO
Na Fsica, Aristteles explorou algumas das "dificuldades que podem ser suscitadas a respeito da natureza essencial" do espao (1941, 210a, 12), dirigindo seus comentrios 
crticos contra a identificao por Plato de espao (ou receptculo, kora) com matria (hyle). A dificuldade bsica em conceber a "natureza essencial" do espao 
resulta de ser-lhe inaplicvel a distino de matria e forma, uma caracterstica que  ressaltada pelo fato do movimento no espao, pois " medida que [o espao] 
 separvel da coisa, no  a forma: na condio de continente,  diferente da matria" (1941,209b, 31). A sugesto de Aristteles  que o espao  "a fronteira 
do corpo continente, na qual ele est em contato com o contido" (1941,212a, 6), reunindo assim os aspectos formais e materiais do espao na noo do limite. Muito 
pensamento subseqente em torno de espao permaneceu dentro dos parmetros definidos por Plato e Aristteles, com posies oscilando entre considerar o espao, 
em termos platnicos, como um receptculo ou "vaso" para objetos em movimento ou, em termos aristotlicos, como os limites de tal receptculo ou vaso. A dificuldade 
bsica identificada por Aristteles persistiu na tradio filosfica e consistiu em como especificar a natureza do espao se no estava identificado com matria 
ou forma.
A compreenso cartesiana de espao inclinou-se para a posio platnica, com a identificao de espao com "extenso em comprimento, largura e profundidade" (Descartes, 
1644, p.46). Ao considerar a extenso como substncia material, ele pde pensar na mudana de lugar como acidental e manter a identidade de espao e extenso: "atribumos 
uma unidade genrica  extenso de espao, de modo que, quando o corpo que preenche o espao foi mudado, no se considera que o prprio espao tenha mudado mas que 
continua sendo uma s e mesma coisa" (ibid., p.44). A posio de Descartes provocou o surgimento de vrias e fascinantes direes de crtica, as quais figuram todas 
na definio kantiana de espao.
espao            119
Uma direo, adotada por Newton, rompeu com a identificao cartesiana de espao e extenso, ao distinguir entre espao absoluto e relativo. O primeiro  o espao 
de Deus, o segundo  o espao da percepo humana: o espao absoluto  "sem relao com qualquer coisa externa, permanece sempre semelhante e imutvel. O espao 
relativo  alguma dimenso ou medida mvel dos espaos absolutos que os nossos sentidos determinam por sua posio em relao aos corpos e que comumente passa por 
ser espao  imvel (Newton, 1687, p.8). Uma outra posio, desenvolvida pelo rival de Newton, Leibniz, rejeita as opinies de Descartes e de Newton de que o espao 
, em algum sentido, substancial; em sua "Correspondncia com Clarke" (1715-16), defende a tese de que o espao  relativo, uma "ordem de coisas que existem ao mesmo 
tempo, consideradas como existindo juntas" (Leibniz, 1976, p.682). Entretanto, o que  ordenado pelo espao no so simplesmente coisas existentes, mas substncias 
metafsicas ou mnadas, e sua ordem est em plena conformidade com a razo. Locke, tambm criticando os cartesia-nos, considera o espao uma simples idia que  
convertida em medidas de distncia e em figuras. Para Locke, as fontes da idia de espao so os sentidos da viso e do tato, pois  to evidente para ele que "os 
homens percebem, por sua viso, uma distncia entre corpos de diferentes cores, ou entre as partes do mesmo corpo, quanto que vem as prprias cores" (1690, p.80). 
Ao considerar o espao uma simples idia, ele est em condies de evitar os dilemas suscitados ao conceber-se o espao como uma substncia, material ou no material 
(ver 1690, p.85).
Em seus escritos pr-crticos das dcadas de 1740 e 1750, s pensamentos de Kant a respeito de espao estavam, de um modo geral, de acordo com a tradio da crtica 
de Leibniz a Descartes. Em FV, ele critica a compreenso cartesiana de substncia como extenso, argumentando, com Leibniz, que um corpo possui fora antes de extenso, 
e que a extenso pode, assim, ser considerada um acidente da fora. A partir dessa noo de fora substancial, Kant defendeu o ponto de vista de que "no haveria 
espao nem extenso se as substncias no tivessem fora por meio da qual podem agir fora de si mesmas" (FV 9). O carter das leis de fora substancial "determina 
o carter da unio e composio de uma multiplicidade delas" (10), as quais so expressas em extenso e espao tridimensional. Kant acrescenta que se Deus tivesse 
escolhido uma lei diferente para a relao de foras, isso teria levado a uma extenso e um espao "com propriedades e dimenses diferentes" daquelas que nos so 
familiares, uma observao que sugere a possibilidade de uma "cincia de todas essas possveis espcies de espao [o que] seria, indubitavelmente, a suprema tarefa 
que um entendimento finito poderia empreender no campo da geometria" (ibid.). Com isso, Kant situa efetivamente a validade da geometria euclidiana dentro dos limites 
de um espao possvel, mas no do nico espao possvel.
Embora em FV passe a analisar os aspectos subjetivos do espao, o seu enfoque primordial tanto a quanto em textos como FNM, incide sobre o espao como o fenmeno 
das relaes entre foras substanciais. Em FV, ele atribui a "impossibilidade, que observamos em ns mesmos, de representar um espao de mais de trs dimenses" 
ao fato de a alma ser constituda de tal modo que  "afetada" ou "recebe impresses de fora de acordo com o quadrado inverso das distncias". Em FNM, o enfoque  
de novo sobre as relaes objetivas da fora substancial que produzem espao e est, uma vez mais, deliberada-mente dirigido para uma defesa da metafsica leibniziana 
da fora contra a geometria cartesiana da extenso. As foras principais agora consideradas so as de atrao e repul-

120            espao
sa, mas o espao continua definido em termos leibnizianos "no como uma substncia mas como uma certa aparncia da relao externa de substncias" (FNM p.481, p.57). 
O espao, portanto,  a aparncia de substncias que se relacionam em termos das foras de atrao e repulsa;  ainda definido objetivamente e, pelo menos nesse 
texto, sem qualquer referncia ao sujeito.
A partir de meados da dcada de 1760, o entendimento de Kant de espao parece ter mudado de forma considervel, afastando-se da definio leibniziana de espao como 
a relao objetiva de substncias para adotar um ponto de vista mais subjetivo. Esse desenvolvimento resultou das crescentes dvidas que Kant parece ter nutrido 
a respeito da filosofia leibniziana/wolffiana. A anterior noo leibniziana de Kant da metafsica que proporcionou insights sobre a relao de foras negada  geometria 
cartesiana, o que era ainda evidente em FNM,  sucedida em sv por uma definio da metafsica como a "cincia dos limites da razo humana" (p.368, p.354). Ao examinar 
as alucinaes dos msticos e dos filsofos em sv, Kant desenvolveu uma avaliao do papel da percepo subjetiva na constituio do espao. Esse insight  evidente 
em DE, onde Kant se desloca de uma posio leibniziana para uma newtoniana. Ostensivamente, o ensaio  uma defesa do espao absoluto de Newton por meio de um desenvolvimento 
da analysis situs de Leibniz, sua antecipao da topologia, contra a metafsica leibniziana. Pelo estudo dos fenmenos de direo e orientao no espao, Kant esperava 
mostrar que o espao, como um "ordenamento", s era defensvel com referncia ao espao absoluto. A afirmao de que "a direo ... em que essa ordem das partes 
est orientada refere-se ao espao exterior  coisa"  superada pela afirmao de que a ordem das coisas no universo deve ser orientada de acordo com o "espao universal 
como uma unidade, da qual toda extenso deve ser vista como uma parte" (DE p.378, p.365-6).
A adeso de Kant  doutrina do espao absoluto de Newton foi de curta durao, mas os meios pelos quais ele procurou estabelecer sua validade em termos de "os juzos 
intuitivos de extenso" estavam destinados a ter futuro no desenvolvimento de seu pensamento. As trs dimenses de espao que em FV e FNM eram derivadas da lei da 
relao entre foras substanciais, so agora atribudas  experincia de ser corporificado. Afastando-se dos trs planos interseccionais que figuram um espao em 
trs dimenses, Kant afirma que "o fundamento essencial, em cuja base formamos os nossos conceitos de direes no espao, deriva da relao desses planos interseccionais 
com os nossos corpos" (DE p.379, p.366). As orientaes acima-abaixo, adiante-atrs, esquerda-direita, so todas derivadas da experincia espacial de um corpo imvel 
de p, e so descritas como "sensaes distintas". Essas distines no mbito da experincia espacial do origem ao fenmeno das contrapartidas incongruentes, um 
fenmeno que, para Kant, refutou decisivamente a concepo de Leibniz de espao como uma ordem racional, assim como o seu corolrio da identidade de indiscernveis. 
O fenmeno das contrapartidas incongruentes, baseado em diferenciaes espaciais fundamentais, sugere que objetos conceitual-mente idnticos diferem em termos de 
orientao espacial.
Em DE, Kant relaciona sistematicamente as diferenciaes observadas no interior do espao com "o espao absoluto e original" que, embora no seja um objeto de sensao 
exterior,  um "conceito fundamental que, em primeiro lugar, torna possvel todas as sensaes exteriores" (p.383, p.371). Kant reconhece que a sua distino newtoniana 
entre espao relativo e absoluto "no est isenta de dificuldades" e que estas surgem "quan-
espao             121
do se tenta filosofar acerca dos dados fundamentais do nosso conhecimento" (p.383, p.372). Entretanto, postular um espao absoluto contraria a sua nova definio 
de metafsica como a cincia dos limites da razo humana. Assim, dois anos depois, em Dl, a posio de Kant acerca do espao foi radicalmente alterada de novo, mas 
de um modo que se baseia nas posies que ele estabelecera at ento. A sua nova posio rejeita a identificao cartesiana de matria e espao, assim como a idia 
leibniziana de espao como uma ordem quase racional de substncias; o momento newtoniano de DE tambm foi deixado para trs, e a noo lockiana de espao como uma 
abstrao dos sensveis foi coerentemente rejeitada. O que permanece  um entendimento de espao como: (a) uma ordem de relaes entre objetos dos sentidos, mas 
sem o ordenamento objetivo de foras substanciais subjacentes neles; (b) a coordenao de objetos dos sentidos de acordo com diferenas no conceituais; (c) tornar 
possveis objetos dos sentidos sem serem derivados deles; e (d) um fenmeno inseparvel da experincia humana de possuir um corpo.
A mudana para uma compreenso mais subjetiva de espao coincidiu com uma nova insistncia em rever a definio da metafsica. A metafsica deixou de ser equiparada 
 cincia de foras substanciais, para ser agora definida como a cincia dos limites do conhecimento humano. A geometria, nessa nova definio, deixa de ser oposta 
 metafsica e passa a ser reconhecida como a cincia das relaes espaciais. Mas tampouco se considera j que tais relaes consistam meramente nas formas e quantidades 
assumidas pela extenso; elas so agora admitidas em referncia a propriedades da intuio humana do espao. Em Dl, o espao no  mais "algum elo real e absolutamente 
necessrio, por assim dizer, ligando todas as substncias e estados possveis" (Dl  16), mas tornou-se um dos princpios da forma do mundo sensvel. Como tal, o 
espao  uma intuio, o que significa que , a par do tempo, parte da coordenao passiva da mente de objetos dos sentidos (Dl  10) e assim inseparvel 'da sensibilidade 
receptiva de um sujeito. Como intuio, o espao no  espontneo e discursivo  maneira de um conceito mas, no obstante, coordena objetos dos sentidos; no os 
inclui sob conceitos gerais, mas apreende-os "imediatamente ou como algo singular" e, assim fazendo, "reveste-os com um certo aspecto" (DI 4). Mais que isso, o 
espao no  derivado por abstrao de objetos dos sentidos, porm  "uma condio sob a qual alguma coisa pode ser o objeto de nossos sentidos" (DI 10).
Kant especifica essas caractersticas em Dl 15, onde destaca cinco caractersticas significativas da definio do espao. A primeira  que a possibilidade de "percepes 
exteriores pressupe, enquanto tais, o conceito de espao; no o cria", com o seu corolrio de que "coisas que esto no espao afetam os sentidos, mas o prprio 
espao no pode ser derivado dos sentidos" (15). A segunda  que o espao " uma representao que encerra todas as coisas dentro de si; no  um conceito abstrato 
contendo-as sob sf (ibid.). A conseqncia disso  que o espao , em terceiro lugar, uma "intuio pura" ou conceito singular, que  "a forma fundamental de toda 
a sensao exterior". No pode ser derivada, quer de sensaes, quer de conceitos; a respeito destes ltimos, Kant revive a sua demonstrao da direcionalidade intrnseca 
do espao e das contrapartidas incongruentes para mostrar que existem propriedades de objetos no espao que "no podem ser descritas discursivamente" (ibid.). Kant 
no usa agora esses argumentos em apoio da existncia do espao absoluto mas, antes, para alegar, em quarto lugar, que "o espao no  algo objetivo e reaF\ Negando 
explicitamente as teorias newtoniana e leibniziana

122            espao
de espao, Kant diz que este no  substncia, acidente ou relao, mas  "subjetivo e ideal", resultando da "natureza da mente de acordo com uma lei estvel como 
um esquema, por assim dizer, para coordenar tudo o que  externamente sentido" (ibid.). Em quinto lugar, enfim, embora o espao seja subjetivo e ideal, constitui, 
no obstante, "o alicerce de toda a verdade na sensibilidade exterior". Isso  porque as "coisas no podem apresentar-se aos sentidos sob qualquer aspecto, salvo 
por mediao do poder da mente, a qual coordena todas as sensaes de acordo com uma lei que  estvel e inerente na natureza da mente" (ibid.). As coisas s podem 
ser fenmenos por efeito do espao, e s de acordo com ele pode a natureza apresentar-se aos sentidos.
Com essas teses, Kant antecipa muitos dos argumentos a respeito do espao apresentados em CRP, onde o espao  discutido, a par do tempo, na "Esttica transcendental". 
Ambos so agora descritos como intuies apriori puras: so puras na medida em que no podem ser derivadas nem da sensibilidade nem do entendimento; apriori conforme 
antecipam ou so pressupostos pela percepo sensvel; e intuies porquanto coordenam uma multiplicidade sem subsumi-la na forma de um conceito. Kant justifica 
o carter puro, apriori e sinttico do espao por meio de uma exposio metafsica e uma transcendental. A exposio metafsica consiste "na apresentao clara (embora 
no necessariamente pormenorizada) do que pertence a um conceito" (CRP A 23/B 38). Neste caso, Kant mostra que o espao no pode ser derivado da "experincia externa" 
mas  uma "representao apriori, que fundamenta necessariamente todas as aparncias externas" (CRP A 24/B 39); ele mostra ainda que o espao  uma intuio pura 
e, assim, distinta de um conceito, e que  uma "grandeza infinita dada", a qual, em vez de um conceito, "encerra em si uma infinidade de representaes" (CRP B 40). 
Na concomitante exposio transcendental, Kant usa a geometria como um corpo de "conhecimento sinttico a priorf que decorre do princpio de espao.
Com base nessas exposies, Kant conclui que o espao no representa uma propriedade das prprias coisas ou de suas relaes mtuas.  "a condio subjetiva da sensibilidade, 
nica que permite a intuio externa" (CRP A 26/B 42).  a condio para que as coisas sejam aparncias para ns, e como no existe outro meio de acesso a elas, 
salvo atravs do espao, pode-se dizer que ele possui validade objetiva em relao a "tudo o que nos possa ser apresentado exteriormente como objeto" (CRP A 28/B 
44). Intuies de objetos sob o aspecto de espao so, pois, adaptadas aos - e pelos - conceitos do entendimento, a fim de produzirem experincia e saber. As pretenses 
de conhecimento de objetos que no respeitam os limites espaciais (e,  claro, temporais) da intuio humana tm de ser desqualificadas como invlidas. Embora a 
posio crtica de Kant sobre espao apresente uma sutil sntese crtica de numerosas posies filosficas sobre a questo, ela deixa por resolver, sob muitos aspectos, 
as dificuldades aristotlicas relativas  natureza do espao. O alinhamento do espao como uma forma de intuio com a receptividade passiva leva a problemas na 
concepo de como o espao pode coordenar passivamente objetos dos sentidos. Kant no segue a sugesto de Aristteles de concentrar-se no espao como limite, preferindo 
destacar o seu carter coordenativo, mas compartilha claramente da sua dificuldade de no ser capaz de distingui-lo de forma convincente da matria e da forma. Ao 
considerar o espao uma intuio que contm em si um "nmero infinito de representaes" que, num certo aspecto, ele "reveste", pode-se dizer que Kant redescreveu 
a dificuldade em vez de propor para ela uma soluo convincente.
espao e tempo             123
espao e tempo ver tambm CONTRAPARTIDA INCONGRUENTE; ESQUEMA(TISMO); ESTTICA; INTUIO; POSIO; SENSIBILIDADE
Espao e tempo so tratados em conjunto na seo trs de Dl como os princpios da forma do mundo sensvel. So os "esquemas e condies de tudo o que  sensvel 
no conhecimento humano" (13) e constituem o elemento formal da sensibilidade. Kant sustenta que so "intuies puras" (14), "intuies" na medida em que "coordenam" 
objetos dos * sentidos mas no os subsumem  maneira de conceitos, e "puras" na medida em que esto pressupostas na sensao de coisas e no podem, portanto, ser 
"abstradas de sensaes exteriores" (15). Com tal argumentao, Kant est apto a distinguir a sua descrio de espao e tempo do ponto de vista empirista de que 
so abstrados de objetos dos sentidos, do ponto de vista racionalista de que so percepes confusas de uma ordem objetiva de coisas, e da distino newtoniana 
entre espao e tempo absolutos e relativos. Alm disso, embora espao e tempo coordenem objetos dos sentidos, no o fazem de acordo com "um princpio interno da 
mente" governado por "leis estveis e inatas" (4), o qual no  espontaneamente produzido pela mente. So aspectos da receptividade ou passividade da mente, em 
contraste com o trabalho ativo e espontneo do entendimento, mas que, no obstante, organizam a matria da sensao.
A discusso de espao e tempo na "Esttica transcendental" de CRP desenvolve ainda mais a perspectiva proposta em Dl. Espao e tempo so formas apriori puras da 
intuio que, como sentido externo e interno, formam as condies necessrias da experincia interna e externa, bem como os objetos de tal experincia (CRP A 48-9/B 
66). So apriori na medida em que "antecedem todo e qualquer ato de pensamento" (B 67), puras na medida em que no podem ser derivadas da experincia, formais porque 
ordenam "a diversidade da aparncia" e intuies na medida em que a maneira como ordenam a matria de sensibilidade  distinta da de um conceito (coordenam mas no 
subsumem sua diversidade). Como formas puras da intuio, esto aptas a legitimar corpos de saber tais como as matemticas (em particular a geometria), as quais 
esto interessadas em explorar as propriedades das caractersticas formais da intuio.
O papel do espao e do tempo dentro da estrutura da CRP consiste em coordenar os objetos da sensibilidade antes de sua unificao num juzo pelos conceitos do entendimento. 
Para faz-lo, eles devem ser distintos dos conceitos espontaneamente produzidos do entendimento, embora organizem, ao mesmo tempo, a matria da sensibilidade de 
um modo que se harmoniza com eles. Grande parte da ao filosfica de CRP est dedicada a mostrar como isso pode ser realizado mas, subjacente nela, est um conjunto 
de problemas gerados pela concepo de Kant de espao e tempo. Esses problemas podem ser enunciados em funo da dificuldade fundamental em sustentar que a mente 
 receptiva aos objetos que lhe so dados, ainda que os coordene em relaes definitivas. Se a sensibilidade fosse totalmente receptiva, no haveria lugar para qualquer 
atividade de coordenao; mas se essa atividade  admitida, ento fica difcil ver como a sensibilidade pode ser tida como passiva. Se  dito, porm, que a sensibilidade 
est ativa na coordenao de objetos dos sentidos de acordo com relaes espao-temporais, ento a natureza dos objetos como dados - o baluarte de Kant contra o 
idealismo - comea a parecer abalada. Entretanto,  impossvel exagerar a importncia de se estabelecer o espao e o tempo como formas de intuio, uma vez que constitui 
a base no s das crticas de Kant ao em-pirismo e idealismo, mas tambm do seu questionamento sobre se Deus, o mundo e a

124            espcie
alma podem ser objetos legtimos do saber terico, ou se so simplesmente a extenso ilegtima do saber para alm dos limites espao-temporais da sensibilidade humana.
espcie ver GNERO
esperana [elpis, spes, Hoffnung] ver tambm AMOR; F
A esperana, a par da f e do amor, participa do conjunto de "virtudes teologais" elaboradas inicialmente por So Paulo em Corntios 13:13 (ver Santo Toms de Aquino, 
1952, II, 1,62). Contrastam com as quatro "virtudes cardeais" de temperana, justia, prudncia e fortaleza moral. As virtudes teologais eram os fins para os quais 
as virtudes cardeais eram os meios. Praticamente ausente da filosofia grega clssica, a esperana figura com destaque no Novo Testamento como uma expectativa escatolgica 
de salvao futura; a importncia da esperana  sublinhada pela descrio de Deus por So Paulo como o "Deus da esperana" (Romanos 15:13).
O conceito de esperana  central no pensamento de Kant e, no entanto, no  explicitamente abordado em parte alguma. Em sv, introduz uma "propenso da razo" na 
balana para pesar argumentos, afirmando que o prato com a inscrio "esperanas futuras" pesa sempre mais do que o marcado "especulao". Isso explica para Kant 
o fascnio com histrias de vida futura e de espritos que a habitam. As nossas esperanas por um futuro superam os nossos juzos do presente. Essa "propenso da 
razo" para a esperana converte-se, em CRP, num dos trs "interesses da razo" expressos nas seguintes interrogaes: "1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. 
Que me  permitido esperar?" (A 805/B 833). Ele sublinha o que est em jogo nessa indagao ao afirmar que "toda esperana tende para a felicidade" e chega " concluso 
de que alguma coisa  (que determina o fim ltimo possvel) porque alguma coisa deve acontecer" (A 806/B 834).
A estrutura exttica da esperana  evidente em todos os escritos histricos e polticos de Kant. Em PP, ele entende que a garantia de que a paz perptua no  uma 
"idia vazia" reside na "gegrndete Hoffnung" ou "bem fundamentada esperana" de que ela pode ser realmente alcanada; essa mesma esperana pode servir para realizar 
a idia, trazendo-a do futuro para o presente (PP p.386, p.130). Tambm  evidente na filosofia prtica, onde a esperana de uma vida eterna molda os cursos de ao 
adotados na vida presente. Menos bvio mas igualmente significativo  o papel que ela desempenha na filosofia terica, como  mostrado na interpretao de Heidegger 
do papel projetivo e pro-lptico da imaginao no ato de sntese descrito em Kant e o problema da metafsica (1929). Embora Kant no parecesse estar plenamente cnscio 
das implicaes filosficas do seu prprio conceito de esperana, elas foram expostas e mais desenvolvidas por filsofos do sculo XX, como Heidegger em sua noo 
de temporalidade exttica, Benja-min com sua noo de tempo messinico (ver Benjamin, 1973, p.255-66) e Bloch com sua vasta explorao de O princpio de esperana 
(1959).
esprito ver GNIO; ILUSO
espontaneidade ver tambm NIMO (GEMT); APERCEPO; LIBERDADE; RECEPTIVIDADE; SNTESE
Espontaneidade  o aspecto terico da liberdade e um anlogo prximo de seu aspecto prtico da autonomia. Tal como na discusso geral de Kant da liberdade, a espontaneida-
espontaneidade             125
de combina as duas propriedades de liberdade de determinao externa e liberdade para autolegislar. O primeiro aspecto  proeminente em CRP, onde espontaneidade 
 oposta sistematicamente a (e est, no entanto, relacionada com) receptividade. No incio da "Lgica transcendental", Kant identifica duas fontes de saber no Gemt: 
"a primeira consiste em receber as representaes (a receptividade das impresses) e a segunda  a capacidade de conhecer um objeto mediante essas representaes 
(espontaneidade dos conceitos)" (CRP A 50/B 74). A primeira  depois descrita como sensibilidade, enquanto a segunda, ou "a faculdade do Gemt de produzir representaes 
de si mesmo" (A 5 l/B 75)  o entendimento. S atravs da combinao de ambas as fontes pode o entendimento surgir-"a receptividade s unindo-se  espontaneidade 
pode tornar possveis conhecimentos" (CRP A 97) - mas entender como isso ocorre requer que suas funes sejam primeiro rigorosamente distinguidas.
A funo da espontaneidade  combinar o mltiplo dado pela sensibilidade ou sintetiz-lo na produo da experincia (ver CRP B 130). Isso exige da espontaneidade 
no s que seja purificada de todos os vestgios de receptividade, mas tambm que se d a si mesma suas leis ou regras de sntese. Kant imagina dois casos-limite 
dessa purificao e autolegislao espontnea: o primeiro, explorado em CJ 77, imagina uma intuio espontnea que no exigiria o suplemento de universais a fim 
de gerar conhecimentos; o segundo, discutido em CRP, imagina a razo produzindo certas leis "estabelecidas aprio-ri e referentes  nossa existncia (regras no puramente 
lgicas), ocasio para nos supormos legisladores totalmente a priori em relao  nossa prpria existncia..." (CRP B 430). Este ltimo, afirma Kant, revelaria "uma 
espontaneidade pela qual a nossa realidade seria determinvel, sem para tanto necessitarmos das condies da intuio emprica" (ibid.). Entretanto, essa espontaneidade 
 autolegislativa e condicionada no que se refere  receptividade e s condies da intuio.
Embora Kant reconhea que a fonte da espontaneidade  a liberdade - aquele "algo a priori" na "conscincia da nossa existncia" -, ele descreve o seu funcionamento 
de diversas maneiras. Numa nota de pgina em A, a espontaneidade  vagamente descrita como "a ao interna (espontaneidade) mediante a qual um conceito (um pensamento) 
torna-se possvel", ao passo que em CRP  descrita primeiro, na "Deduo A", como o fundamento para a tripla sntese, e segundo, na "Deduo B", como o produto da 
imaginao produtiva. No primeiro caso, Kant desenvolve sua tese de que receptividade e espontaneidade so requeridas para tornar possveis os conhecimentos. "Essa 
espontaneidade  ento o princpio de uma tripla sntese que se apresenta de uma maneira necessria em todo o conhecimento, a saber, a sntese da apreenso das representaes 
como modificao do nimo na intuio; da reproduo dessas representaes na imaginao e de seu reconhecimento num conceito" (CRP A 97). No segundo caso, o trabalho 
de sntese requerido para o conhecimento  executado pela "imaginao produtiva", a qual, "na medida em que a imaginao  espontaneidade" distingue-se da "imaginao 
reprodutiva, cuja sntese est inteiramente submetida a leis empricas" (CRP B 152).
A descrio de Kant de espontaneidade foi radicalizada por Fichte (1794) como parte de uma tentativa deliberada para estabelecer a primazia da razo prtica. Tomando 
uma direo j considerada mas rejeitada por Kant, Fichte props uma espontaneidade absoluta, anloga  espontaneidade da razo de Kant, a qual conteria em si mesma 
as limitaes de sua prpria espontaneidade (1794, p.272). Essa posio foi desenvolvida

126          esquema(tismo)
ainda mais por Schelling (1800) mas rejeitada por Hegel, que desconfiava de qualquer pretenso de um "sujeito espontneo absoluto" que, no obstante, era capaz e, 
na verdade, pedia para limitar-se a si prprio.
esquema(tismo) ver tambm ANALOGIA; HIPOTIPOSE; JUZO; PRINCPIO; SMBOLO O esquematismo do juzo "esquematiza conceitos apriori e aplica esses esquemas a toda sntese 
emprica, sem o que nenhum juzo de experincia seria possvel" (PI 5).  um procedimento do juzo que adapta conceitos por outro lado heterogneos s condies 
espaciais e temporais da intuio. Como tal,  uma espcie do gnero hipotipose ou "interpretao em termos de sentido" (CJ 59). A hipotipose envolve a apresentao 
de conceitos s intuies e o faz de duas maneiras: diretamente por meio de esquemas, indiretamente por meio de smbolos. Uma apresentao esquemtica direta tem 
lugar naqueles casos (a saber, os juzos determinantes) "em que a intuio correspondente a um conceito compreendido pelo entendimento  dada apriori" (CJ 59). 
 tambm descrita como uma apresentao mecnica, na qual o juzo funciona "como uma ferramenta controlada pelo entendimento" (PI V). Os esquemas de apresentao 
direta so contrastados com os smbolos de apresentao indireta. Estas ltimas recorrem  analogia, na qual o juzo realiza uma dupla funo: primeiro, aplicar 
o conceito ao objeto de uma intuio sensvel e depois, em segundo lugar, aplicar a simples regra da reflexo sobre essa intuio "a um objeto totalmente distinto 
e do qual o primeiro  apenas o smbolo" (CJ 59). O uso simblico do juzo distingue-se do esquemtico por ser "artstico" (PI V), embora em VPM Kant descreva 
ambas as formas de juzo como esquematismos: a apresentao direta  um "esquematismo real (transcendental)", enquanto a indireta  "esquematismo por analogia (simblica)" 
(VPM p.332, p.195).
Esquemas e esquematismo desempenham um importante mas controvertido papel na arquitetura de CRP.So examinados no primeiro captulo da "Doutrina transcendental da 
faculdade de julgar", onde se afirma constiturem um "terceiro termo" (CRP A 138/B 177) que medeia entre conceitos to diferentes e heterogneos e a intuio. Desempenham 
um papel necessrio na doutrina da faculdade de julgar, porquanto permitem a aplicao de categorias s aparncias. Para faz-lo, porm, devem ser homogneos ao 
conceito e  intuio, tanto intelectuais quanto sensveis, mas desprovidos, no entanto, das caractersticas definidoras de ambos (espontaneidade e receptividade). 
Se os esquemas so peculiares, muito mais dever s-lo, portanto, o trabalho do prprio esquematismo, o qual  descrito como "uma arte oculta nas profundezas da 
alma humana, cujo segredo de funcionamento dificilmente poderemos alguma vez arrancar  natureza e pr a descoberto perante os nossos olhos" (CRP A141/B181). O esquematismo 
trabalha em duas direes: prepara a intuio para ser determinada pelo conceito, mas tambm adapta o conceito para aplicao  intuio. Em ambos os casos, permite 
a ocorrncia do juzo ao oferecer "regras de sntese da imaginao" (CRP A 14l/B 180). Kant est, alm disso, interessado em distinguir o esquema da imagem; o esquema 
no deve ser pensado exclusivamente em funo da analogia da imagem visual, embora ocasionalmente lhe recorra, de fato.
Os esquemas das categorias ou "conceitos puros do entendimento" so dispostos em termos da tbua de categorias. O esquema das categorias quantitativas  o nmero, 
ao passo que os das categorias de qualidade so ser no tempo (realidade), no-ser no tempo (negao) e o mesmo tempo preenchido e vazio (limitao) (CRP A 143/B 
182). Os esque-
essncia           127
mas de relao so "a permanncia do real no tempo" (substncia), "o real que, uma vez postulado arbitrariamente,  sempre seguido de alguma outra coisa" (causalidade) 
e a "simultaneidade, segundo uma regra geral, das determinaes de uma substncia com as da outra" (comunidade) (CRP A 144/B 183). Os esquemas de modalidade so 
"a determinao da representao de uma coisa em um tempo qualquer" (possibilidade), "a existncia em algum tempo determinado" (efetividade) e "a existncia de um 
objeto em todo * o tempo" (necessidade). O que todos [estes esquemas] tm em comum  formarem uma categoria "capaz de representaes unicamente como determinaes 
apriori do tempo" (CRP A 1 45/B 184). Assim, o esquematismo e os esquemas tm a propriedade de dar "realidade" s categorias, ao mesmo tempo que restringem seu mbito 
s aparncias. Desempenham um papel central ao reunirem "pensamentos sem contedo", que de outra forma seriam vazios, e "intuies sem conceitos", que de outra forma 
seriam cegas. (CRP A 5 1/B 75). Atravs do esquematismo e dos esquemas  que aos conceitos, que so "meras funes do entendimento", se atribui um significado em 
relao  sensibilidade, a qual "realiza o entendimento ao mesmo tempo que o restringe" (CRP A 147/B 187).
O carter do esquema  ilustrado num contexto muito diferente pela discusso da arte dos sistemas na seo de CRP sobre a "Arquitetnica da razo pura". Kant refere-se 
a ao esquema como um modo de realizar a idia de uma unidade sistemtica da razo. Define-o como "uma pluralidade e uma ordenao das partes que sejam essenciais 
e determinadas apriori segundo o princpio definido pelo seu fim" (CRP A 833/B 861). O esquema apresenta-se aqui como um mltiplo e uma ordenao do mltiplo, participando 
assim, material e formalmente, na produo de um todo unificado.  tcnico aquele esquema que unifica empiricamente de acordo com "fins que so ocasionados de forma 
contingente", ao passo que um esquema derivado de uma idia de razo  arquitetnico. Este ltimo fornece um sumrio antecipatrio ou monograma de todo o sistema, 
uma referncia que esclarece a anterior descrio de Kant do esquema como "um monograma, da imaginao apriori pura, atravs do qual, e de acordo com o qual, as 
prprias imagens tornam-se possveis" (CRP A 141/B 181).
essncia [ousia, essentia, Wesen] ver tambm ACIDENTE; DEFINIO; EXISTNCIA; FORMA; MATRIA; NATUREZA; SNTESE; SUBSTNCIA
Essncia , classicamente, o que constitui a natureza especfica de uma coisa e o que  dado em sua definio. A noo de essncia foi desenvolvida por Aristteles 
na Metafsica como parte de uma resposta  pergunta "O que  uma coisa?" Na definio de uma coisa, a essncia  distinta de acidentes e substncia: os acidentes 
so sempre predicados de um sujeito e servem somente para qualificar uma essncia (Aristteles, 1941, 1007b, 1-15), enquanto a substncia indica que uma coisa  
e no o que . Assim, a essncia define a "espcie de um gnero" ou o seu carter especfico (1030a). Santo Toms de Aqui-no aclara esses pontos quando discute a 
essncia como funo da composio de matria e forma. A definio de essncia no  formal, no separada da matria, nem  material e derivada da "matria individualizante". 
Usando o exemplo da essncia de "humanidade", Santo Toms de Aquino diz que no  a "forma" de humanidade nem "a carne, os ossos e acidentes que designam a matria" 
mas, antes, o "constituinte formal em relao  matria individualizante" (Aquino, 1952,1, 3, 3, o grifo  meu).

128            estado
Um dos efeitos da definio aristotlica de essncia foi o surgimento de uma relao equvoca entre essncia e existncia. Como funo da relao de forma e matria, 
a essncia no era puramente formal, distinta da existncia, nem puramente material, identificada com existncia. Com Descartes e, em seguida, Espinosa, essa ambigidade 
foi transformada numa oposio entre o que pode ser concebido e o que existe. Assim, na "Quinta meditao", Descartes atribui essncia a objetos possveis, ainda 
que possam no existir, um ponto que ele sublinha nas Conversaes com Burman, onde afirma que o objeto da fsica  "algo real e fisicamente existente", ao passo 
que a matemtica "considera o seu objeto meramente como possvel" (Descartes, 1976, p.23). A transformao da essncia em possibilidade foi sistematizada por Wolff 
e sua escola, para quem a essncia passou a ser definida como simples possibilidade (por exemplo - "A essncia de uma coisa  a sua possibilidade", Meissner, 1737, 
verbete sobre Weseri).  dessa tradio que Kant recebe a sua noo de essncia.
Em PM, Kant define essncia em termos wolffianos como o "princpio interno, primordial, de tudo o que pertence  possibilidade de uma coisa" e distingue-a da natureza 
ou "princpio interno, primordial, de tudo o que pertence  existncia de uma coisa" (p.467, p.3). Essa distino  inspirada pela assero de Kant em L de que  
impossvel definir "a. essncia real ou natural das coisas" (p.566-7) e de que o nosso entendimento est restrito  "essncia lgica". O seu raciocnio  aclarado 
numa carta a K.L. Reinhold, de 12 de maio de 1789, na qual ele critica Baumgarten e outros wolffianos por atriburem status metafsico  "discusso de essncia, 
atributos etc." (CFI p.139). Ele, pelo contrrio, insiste em que a possibilidade  somente de significao lgica. A essncia lgica ou a "constitutiva primria 
de um dado conceito" pode ser determinada "pela anlise de meus conceitos em tudo o que eu penso ao abrigo deles"; ao passo que "a essncia real (a natureza) de 
qualquer objeto, ou seja, o fundamento interior primrio de tudo o que necessariamente pertence a uma determinada coisa,  algo impossvel de ser descoberto pelo 
homem" (CFI p.140). O conceito de matria possui a essncia lgica de extenso e impenetrabilidade que so "tudo o que  necessrio e est primitivamente contido 
no conceito de matria, no meu e no de todo homem"; mas a real essncia da matria, "o fundamento primrio, interior, suficiente de tudo o que pertence necessariamente 
 matria, isso excede em muito a capacidade das faculdades humanas" (ibid.). A razo para isso  que existe um "fundamento de sntese" para a essncia que "nos 
fora, pelo menos, a determo-nos". Assim,  precisamente o status clssico da essncia como funo da combinao de forma e matria ("sntese" na terminologia de 
Kant) o que limita o nosso conhecimento da essncia lgica  constituio sinttica de aparncia, e nos inabilita para qualquer conhecimento da verdadeira essncia.
estado ver tambm CONSTITUIO; ESCRITOS POLTICOS; FEDERALISMO; HETERONOMIA; PAZ
Em sua filosofia do estado, Kant distingue entre estado e constituio. Em CJ 83, descreve a constituio como o que "rege as relaes mtuas dos homens e permite 
que aos abusos da liberdade por indivduos em recproco antagonismo se oponha uma fora legal centrada num todo chamado sociedade civil", identificando assim o estado 
como parte de uma constituio mais ampla. Isso permite a Kant distinguir, em PP, entre uma "constituio republicana" e uma democrtica. A expe duas classificaes 
do estado: uma
esttica             129
em termos da "forma de soberania", a qual pode ser autocrtica, aristocrtica ou democrtica; a outra em termos de "forma de governo", a qual pode ser republicana 
ou desp-tica. Uma forma republicana de governo separa o poder executivo do legislativo, e  possvel nas formas autocrtica e aristocrtica de soberania; a democracia, 
entretanto,  para Kant "necessariamente desptica" (PP p.352, p.101). A razo disso  que, das trs formas de soberania, a democracia*  a que oferece o menor potencial 
para um governo republicano e, na opinio de Kant, a mais propensa a redundar numa fuso do legislativo e do executivo.
A desconfiana de Kant em relao  democracia parece contradizer os seus trs princpios da constituio republicana, tambm apresentados em PP, que so: "liberdade 
para todos os membros da sociedade"; a "dependncia de todos e de cada um de uma nica legislao comum"; e "igualdade, como cidados, perante a lei" (PP p.350, 
p.99). Ele apresenta um conjunto similar de princpios em MC para definir o cidado e em TP para definir o estado civil e legal (p.290, p.74). Aps uma reapresentao 
da doutrina da separao de poderes entre o legislador soberano, as autoridades executivas e judiciais, Kant localiza a soberania na "vontade unida do povo" (MC 
p.313, p. 125). Cada cidado  livre, igual e independente, embora fique rapidamente evidente que alguns so mais independentes do que outros. Kant passa depois 
a distinguir entre cidados passivos e ativos, faltando aos primeiros independncia, logo, "personalidade civil", e que, por conseqncia, esto proibidos de votar. 
A se incluem aprendizes, servidores domsticos, menores, "todas as mulheres", comerciantes, professores, rendeiros - basicamente "todos os meros subalternos da 
comunidade ... [que] tm de estar sob a direo ou proteo de outros indivduos e, assim, no possuem independncia civil" (MC p.315, p. 126). So-lhes asseguradas, 
entretanto, liberdade e igualdade; mas que valor isso tem na ausncia de direitos polticos  uma questo em aberto.
esttica ver tambm ARTE; BELEZA; CULTURA; ESPAO; GOSTO; INTUIO; JUZO REFLEXIVO; TEMPO
Kant, coerente com o uso alemo do sculo xvm, d ao termo "esttica" dois significados distintos. Refere-se  "cincia de uma sensibilidade apriori" e  "crtica 
do gosto" ou filosofia da arte. O primeiro uso prevalece na "Esttica transcendental" da CRP, o segundo na "Crtica da faculdade de julgar esttica" - a primeira 
parte de CJ.
Como o prprio Kant assinala numa nota de rodap (CRP A 2 l/B 35), os dois significados distintos do termo foram estabelecidos pelo filsofo wolffiano Alexander 
G. Baumgarten. Em suas Reflexes sobre poesia (1735) e, mais tarde, em sua Esttica (1750-58), Baumgarten ressuscitou o termo grego "aisthesis" a fim de remediar 
problemas nas reas da sensibilidade e da arte, os quais se tinham tornado evidentes com o sistema de Wolff. O racionalismo de Wolff reduzira a sensibilidade  "confusa 
percepo de uma perfeio racional" e no deixara lugar para o tratamento filosfico da arte. Baumgarten tentou solucionar ambos os problemas ao mesmo tempo, afirmando 
que o conhecimento sensvel ou esttico tinha a sua prpria dignidade e contribua para o co-
* Contrariamente a este ponto de vista, ver nota ao verbete "escritos polticos". (N.R.T.)

130            esttica
nhecimento racional, e que a arte exemplificou esse conhecimento ao oferecer uma imagem sensvel da perfeio.
Embora Baumgarten revivesse o termo grego, a sua equao de arte e conhecimento sensvel no tinha precedente clssico. Alguns aspectos de CJ so antevistos por 
Plato no Timeu, quando relaciona aisthesis com prazer e dor, mas isso no fazia parte dos interesses de Baumgarten ou Kant. Com efeito, na primeira edio de CRP, 
Kant procura reservar esttica para a "doutrina da sensibilidade", excluindo a filosofia da arte (A 2l/B 36). Ela forma a primeira parte da "Doutrina transcendental 
dos elementos", a qual considera os modos como os objetos so "dados" imediatamente  mente humana em intui-es. Boa parte da "doutrina da sensibilidade", entretanto, 
interessa-se pelas "formas puras" de sensibilidade, consideradas em abstrao tanto dos conceitos quanto da matria da sensao. Kant argumenta que existem duas 
de tais "formas puras de intuio sensvel", as quais determinam o que pode ser intudo e limitam a aplicao de conceitos em juzo: so eles o espao, ou a forma 
do sentido "exterior", e o tempo, a forma de sentido
"interior".
Na "Esttica transcendental", Kant distingue sua concepo de sensibilidade das vises de Leibniz e Wolff. A relao entre o sensvel e o racional  muitssimo mais 
complexa do que a noo de que a primeira  meramente uma verso confusa da segunda (CRP A 44/B 61). Tempo e espao no so percepes confusas de uma ordem racional 
objetiva nem abstraes da experincia emprica. Com efeito, a percepo sensvel no espao e no tempo tem sua prpria "origem e contedo": no deriva da sensao 
emprica nem do entendimento. A sua relao com a estrutura conceituai do entendimento envolve princpios judicativos que adaptam mutuamente a experincia espao-temporal 
a conceitos abstratos. Por essas razes, a esttica  um elemento crucial em qualquer explicao do conhecimento.
Na segunda edio de CRP (B, 1787), Kant amplia sutilmente o texto de sua limitao do domnio da esttica para incluir nele a crtica do gosto. Trs anos depois 
publicou CJ, em cuja primeira parte "esttica" expressa agora, de maneira inequvoca, a "crtica do gosto". A esttica deixa de ser parte de uma explicao do juzo 
terico determinante mas  aceita para exemplificar uma outra forma de juzo - o "juzo reflexivo". O juzo determinante possui seu conceito e enfrenta a dificuldade 
de aplic-lo apropriadamente  multiplicidade de aparncias espao-temporais, enquanto o juzo reflexivo est em busca de seu conceito atravs dessa multiplicidade. 
Obedece a um princpio peculiar-relacionado com o sentimento de prazer e desprazer - o que o habilita a atuar como uma ponte entre os juzos da "faculdade de conhecimento" 
analisados na primeira crtica e os juzos prticos da "faculdade de apetio" analisados na segunda.
A "Crtica da faculdade de julgar esttica" em CJ est dividida em uma "analtica" e uma "dialtica", com a analtica tomando em considerao os juzos do belo e 
do sublime. Na "Analtica do belo", Kant analisa as vrias formas do "juzo esttico do gosto" e as condies que tornam vlido o juzo "Isto  belo". A exposio 
desses juzos segue a estrutura analtica da primeira crtica, classificando-os primeiro de acordo com sua quantidade, qualidade, relao e modalidade, e justificando 
depois sua validade com
uma deduo.
O procedimento "analtico" consiste em contrastar a descrio do juzo esttico proposta pela filosofia esttica alem da arte com a oferecida na teoria do gosto 
desen-
esttica             131
volvida pelos filsofos britnicos Shaftesbury, Hutcheson, Hume e Burke. A qualidade de um juzo de gosto no se refere ao interesse no agradvel (gosto) nem na 
razo (esttica);  um juzo que agrada "independentemente de qualquer interesse" (CJ 5). No que diz respeito  quantidade, o juzo  universalmente vlido; agrada 
universalmente, mas sem referncia  soma de sentimentos individuais (gosto) nem a um bem objetivo (esttico). Num juzo de que algo  belo, o sujeito no est fascinado 
pelo objeto (gosto) nem instrudo por sua perfeio; a relao de um tal juzo envolve "a forma de finalidade num objeto...  parte a representao de um fim ( 
17). Finalmente, a modalidade de um juzo de gosto sustenta que alguma coisa bela o  necessariamente;  um objeto de necessria complacncia, mas no porque esteja 
"na posse de um princpio objetivo definido" (20) nem porque assente num sentimento individual de necessidade.
Na "analtica", as caractersticas positivas da esttica so mantidas relativamente abertas, como  tambm o caso na "analtica do sublime e na "dialtica da faculdade 
de julgar esttica". A "analtica do sublime", alm de distinguir entre os prazeres de um juzo extraordinrio nos sublimes dinmicos e matemticos, tambm oferece 
uma deduo de juzo esttico, uma anlise do gnio e uma tipologia das artes. A "dialtica" reexamina a estrutura nem/nem da "analtica do belo" atravs da "antinomia 
do gosto", na qual parece que os juzos estticos so simultaneamente baseados e no baseados em conceitos. A esttica de Kant termina com comentrios extremamente 
sugestivos sobre simbo-lizao (hipotipose) e poltica cultural.
O impacto da terceira crtica repousa tanto em sua extraordinria ambio de ligar os domnios da necessidade terica e da liberdade prtica, quanto no carter aberto 
de sua realizao. O princpio do juzo reflexivo permanece indeterminado, embora envolva claramente prazer, a valorizao da vida, a comunicao atravs do senso 
comum e da tradio, e sugestes de uma harmonia supra-sensvel. Esses elementos reaparecem ao longo do texto em combinaes variadas; so evidentes na analtica 
da faculdade de julgar esttica, nas diversas dedues e no estudo do gnio. A significao desses temas, sua localizao no que era amplamente percebido como a 
"fase culminante" da filosofia crtica, e sua indeterminao, tornaram extremamente frtil a filosofia esttica da arte de Kant.
Os crticos de Kant, desde Schiller (1793) e Hegel (1835) at Derrida (1878) e Lyotard (1988), concordam em que o seu uso do quadro de juzos para descrever a experincia 
esttica foi pouco judiciosa. A experincia esttica no pode estar contida numa estrutura lgica tomada da filosofia terica. Essa insatisfao ficou quase imediatamente 
evidente no surgimento de novas formas de escrita filosfica e parafilosfica no campo da esttica. Elas vo desde as edificantes cartas de Schiller sobre educao 
esttica at Novalis e os fragmentos de Friedrich Schlegel, s novelas de Kleist, ao irnico manual de Jean-Paul para principiantes em esttica, enfim, at Schelling 
e as narrativas histricas de Hegel. A esttica de Kant colocou o problema da apresentao no alto da agenda filosfica, onde permaneceu, pelo menos na tradio 
europia de filosofia.
A viso de Kant de uma reconciliao de liberdade e necessidade na terceira crtica motivou alguns dos mais poderosos e influentes escritos do idealismo alemo. 
As filosofias da arte de Schiller e Schelling descreveram solues estticas para a ciso entre natureza e liberdade humana, solues essas que foram mobilizadas 
na poltica cultural de monarquias de restaurao modernizadora, como a Prssia. Arte e beleza eram conside-

132            esttica transcendental
radas as fontes supremas de significado, reconciliando a humanidade consigo mesma e com a natureza. Afastando-se de um similar entusiasmo precoce, Hegel prolongou 
o juzo reflexivo at uma lgica especulativa que, em ltima instncia, ultrapassou a esttica com a sua proclamao da morte da arte. Para ele, a configurao de 
arte era inadequada para a apresentao do absoluto (ver Hegel, 1835).
As implicaes das reservas de Hegel acerca da arte e da esttica no viriam a ser tomadas em considerao antes do sculo xx, menos ainda por Marx, o eterno schilleria-no. 
Quase meio sculo depois de Hegel, o jovem Nietzsche saiu de seus estudos da terceira crtica com um programa para a renovao cultural em que "temos a nossa dignidade 
suprema em nossa significao como obras de arte" (1872, p.52). Ele inverteu mais tarde o significado dessa frase, passando da viso schilleriana de arte como a 
mais elevada fonte de significado para considerar a arte como a suprema fonte de futilidade e
ausncia de significado.
Os leitores da esttica de Kantno sculo XX tm sido largamente distpicos, enfatizando o carter aberto de seu texto e os modos como ele no logrou fornecer a prometida 
reconciliao de liberdade e necessidade. Theodor Adorno apontou para as implicaes ecolgicas e polticas de se confinar  arte a reconciliao de liberdade e 
necessidade (Adorno, 1970), enquanto Hannah Arendt sublinhou o aspecto comunicativo do juzo reflexivo esttico ao descrever conseqncias polticas pragmticas 
muito distantes de um programa de reconciliao de liberdade e necessidade (Arendt, 1989). Um retorno similar  CJ de Kant, em busca de uma explicao do juzo indeterminado 
entre as runas da fracassada ambio sinttica, tambm caracterizou a obra recente de Lyo-tard (1991) e Derrida (1978) sobre CJ, enquanto Caygill (1989) e Welsch 
(1987, 1990) comearam a reexplorar as relaes entre os dois sentidos de esttica como uma filosofia da sensibilidade e uma filosofia da arte.
esttica transcendental ver ESPAO; ESTTICA; INTUIO; RECEPTIVIDADE; SENSIBILIDADE; TEMPO
tica ver BOM; DIREITO/DIREITOS; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; MAL; MANDAMENTO; MXIMA; VONTADE
eu [Ich] ver tambm ABSTRAO; APERCEPO; CONSCINCIA; CONSCINCIA DE Si; "EU PENSO"; IDENTIDADE; PARALOGISMO; SUJEITO
Kant distinguiu entre dois sentidos de "eu", muito embora ele variasse os termos em que enquadrou a distino, referindo-se ocasionalmente ao eu "emprico" e ao 
"transcendental", ao eu "psicolgico" e ao "lgico", ao "eu como objeto" e ao "eu como sujeito". A bifurcao do eu decorre da natureza da conscincia de si. "Que 
sou consciente de mim  um pensamento que j contm um duplo eu" (VPM p.270, p.73) - requer que o eu seja pensado como um objeto de intuio e como aquilo que pensa 
(ver tambm CRP B 155). O primeiro eu  o "eu psicolgico" que est subjacente em "todas as percepes e suas ligaes, cuja apreenso (apprehensi)  o modo de 
o sujeito ser afetado" (VPM p.270, p.73). Esse eu pode ser considerado um objeto de intuio e seu funcionamento descrito atravs de observaes psicolgicas e antropolgicas 
(ver A 1).
O segundo eu  mais difcil de descrever, porquanto no se trata de um objeto de intuio. Kant adverte repetidas vezes contra a converso do eu transcendental num 
su-
eu             133
jeito lgico de conhecimento, a saber, o eu de "eu penso" ou "o que permanece depois de eliminados todos os acidentes (como predicados), por conseguinte, o substancial" 
(p 46). Esse eu no pode ser um "sujeito absoluto" ou mesmo um conceito, mas "apenas a relao dos fenmenos internos com o sujeito desconhecido dos mesmos" (p 
46). Converter esse eu numa substncia capaz de atuar como um "fundamento do pensamento"  cometer um paralogismo e aplicar a algo que no  uma aparncia as categorias 
de substncia e causa que s so apropriadamente aplicveis a aparncias. Entretanto, embora muito pouco possa ser dito a seu respeito, o eu transcendental de "eu 
penso" continua, no obstante, a ser central para a explicao kantiana da experincia. Serve como "a nica condio que acompanha todo o pensamento", no como objeto 
de uma possvel experincia mas como "a nica condio formal, a saber, a unidade lgica de todo o pensamento, no qual abstraio de todo o objeto" (CRP A 398).
Kant descreve o eu transcendental como um "simples prefixo [designando] uma coisa de significao indeterminada" (PM p.543, p.103) e como uma "representao eu completamente 
vazia de contedo, da qual nem sequer se pode dizer que seja um conceito e que  apenas uma mera conscincia que acompanha todos os conceitos" (CRP A 346 B 404). 
No  outra coisa seno o trmino lgico de um processo de abstrao dos predicados do conhecimento para um sujeito ltimo, postulado, que lhes est subjacente e 
no pode ser mais especificado do que j foi. Kant est preparado para caracteriz-lo em termos de analogia: numa oportunidade, ele sustenta que por "esse eu, ou 
ele, ou aquilo (a coisa) que pensa, nada mais se representa alm de um sujeito transcendental dos pensamentos = x" (CRP A 346/B 404), enquanto numa outra o descreve 
como "o correlato universal da apercepo e ele prprio meramente um pensamento" (PM p.542, p.103). Insiste em que o eu  uma "expresso inteiramente vazia", a qual 
no designa mais do que "o pensamento de uma unidade absoluta, mas lgica, do sujeito" (CRP A 356); no existe por si mesmo como substncia ltima ou fundamento 
subjacente do saber e da experincia, mas  simplesmente uma funo lgica necessria que o acompanha.
Longe de fazer do eu o simples sujeito de pensamento e ao, Kant insiste em que o seu carter nunca pode ser conhecido, exceto por analogia. Descreve como sendo 
extremamente difcil - seno impossvel - de especificar a relao entre o eu emprico da pessoa individual e o eu transcendental como sujeito do saber. Os seus 
sucessores imediatos foram menos relutantes em converter o eu num sujeito transcendental cujo carter e modos de agir eram, em princpio, cognoscveis. Idealistas 
transcendentais, sobretudo Fichte (1794) e Schelling (1800), fizeram do eu transcendental um fundamento substantivo para todo o conhecimento e ao. Hegel (1807) 
criticou Kant por postular uma distino formal dentro do eu da conscincia de si, e Fichte e Schelling por dissolverem todas as distines no eu transcendental. 
Em vez disso, por meio de uma fenomenologia, ele descreveu as formas histricas assumidas pelos desmembramentos do eu, pensado como sujeito e como substncia. "Jovens 
Hegelianos", como Feuerbach (1830) e Marx (1843), procuraram subseqentemente unificar o eu transcendental e o eu emprico num sujeito humano, desenvolvimento esse 
que manteve enorme influncia e poder de persuaso atravs dos existencialistas, como Sartre (1960), ao longo de todo o perodo ps-II Guerra Mundial. Entretanto, 
em dcadas recentes, a identificao de sujeitos empricos e transcendentais no sujeito humano foi questionada por estudos estimulados, sobretudo, por Nietzsche 
(1886) e Freud (1915). Tais estudos separam, uma vez mais, o eu transcen-

134            "eu penso"
dental (ou "inconsciente") do eu emprico, e resistem  tentao de atribuir um sujeito ltimo - humano ou no - ao pensamento e ao.
"eu penso" [cogito, Ich denke] ver tambm APERCEPO; CONSCINCIA; EU; IDENTIDADE; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; CONSCINCIA DE SI
Descartes considerou que a sua proposio "Penso, logo existo" (amplamente conhecida em sua forma latina, Cogito ergo sum) no Discurso do mtodo (1637) era uma verdade 
"to certa e garantida" que poderia servir como pedra de toque para a certeza. A descoberta de Descartes do cogito mediante um processo de abstrao ctico, o qual 
desprezou as pretenses de todo o saber alcanado por meio de autoridade e experincia,  largamente reconhecida como o momento de fundao da filosofia moderna. 
Entretanto, o acolhimento da proposio de Descartes por filsofos alemes antes de Kant foi extremamente cauteloso e ctico. Leibniz generalizou a questo do cogito 
para convert-la num problema de conscincia e conscincia de si em geral (ver Leibniz, 1978, p.291-5), um desenvolvimento que foi codificado por Christian Wolff 
em sua "Lgica alem" (1719). A primeira proposio dessa obra sustentou: "Somos conscientes de ns mesmos e das outras coisas e, portanto,  claro que existimos" 
( 1). A recepo de Kant ao cogito foi ainda mais restrita: ao contrrio de Wolff, no acreditou que fosse possvel provar a existncia por meio da conscincia, 
mas estava preparado para admitir o cogito ou "eu penso" como o resultado final, porm incognoscvel, de um processo de abstrao do contedo distinto da experincia 
e como seu necessrio complemento.
Kant assinala o status anmalo do "conceito" ou, se se prefere, do juzo "eu penso", quando o descreve como um "que no foi includo na lista geral de conceitos 
transcendentais mas que, todavia, tem de ser-lhe acrescentado sem que, no entanto, se altere, no mnimo que seja, essa lista ou seja ela declarada incompleta" (CRP 
A 341/B 400). No se trata, claramente, de uma categoria entre categorias; , especifica Kant, "o veculo de todos os conceitos" sem qualquer designao especial, 
"porquanto serve apenas para apresentar todo o nosso pensamento como pertencente  conscincia" (ibid). A proposio "eu penso" no  uma experincia nem , diferentemente 
das categorias, uma "condio de probabilidade de um conhecimento dos objetos"; mas  "a forma da apercepo que pertence a toda experincia e a precede" (CRP A 
354). Acompanha e precede a experincia, como o sujeito da experincia, mas somente num sentido formal: o "eu" ou "eu penso" no pode ser considerado um sujeito 
nem um objeto da experincia, porm apenas como seu "veculo" e "necessrio acompanhamento".
Kant afirma, pois, que "eu penso"  o necessrio veculo/ forma/acompanhamento da experincia: para ter uma representao,  necessrio acompanh-la com "eu penso" 
ou, no ocorrendo isso, ento a representao "no pertenceria ao sujeito" (CRP B 132). Com essa afirmao, ele recua de algumas das implicaes extremamente radicais 
de sua dissoluo do carter substantivo do sujeito ltimo da experincia e comete, implicitamente, o mesmo paralogismo do sujeito que ele prprio exps. As inquietantes 
implicaes de sua posio foram ulteriormente exploradas por Nietzsche, que aprofundou at ao seu limite a sugesto de Kant de que o "eu" substantivo em "eu penso" 
seja substitudo por "ele ou aquilo (a coisa) que pensa ... o sujeito transcendental dos pensamentos = X" (CRP A 346/B 404). A destruio por Nietzsche (1886) do 
cogito, a par da escavao por Freud (1915) do inconsciente, prepararam o caminho para as crticas do sculo XX do
existncia             135
cogito pela tradio representada por filsofos como Heidegger (1927), Foucault (1988), Deleuze e Guattari (1972) e Derrida (1967).
evidncia [Evidenz] ver tambm ACROAMAS; AXIOMA; CERTEZA Evidncia  a certeza intuitiva restrita aos princpios intuitivos ou axiomas da matemtica (CRP A 733/B 
761). No  aplicvel aos princpios intuitivos, ou acroamas, da filoso-. fia. Kant ilustra o contraste comparando a evidncia de axiomas matemticos, como "trs 
pontos encontram-se sempre num plano", com a proposio filosfica de que "tudo o que acontece tem sua causa". O primeiro "pode combinar apriori e imediatamente 
os predicados do objeto", ao passo que o segundo no pode ser conhecido "direta e imediatamente apoiando-se apenas nos conceitos", mas requer uma deduo ou prova 
que recorre  "condio da determinao do tempo numa experincia" (CRP A 733/B 761).
exemplo/exemplaridade [Beispiel, exemplarisch] ver tambm AJUIZAMENTO; CNONE; EXIBIO; GNIO; IMITAO; JUZO
Exemplos so intuies correspondentes a conceitos empricos e servem como "o anda-dor [Gngelwagen] da faculdade de julgar" (CRP A 134/B 173). Kant diz que os que 
no possuem um talento natural para aplicar regras gerais a casos particulares no podem passar sem o uso de exemplos. Estes so um meio pragmtico para evitar a 
"aporia de juzo" que ocorre com a busca de regras para a aplicao de regras. Exemplos para imitao so produzidos pelo gnio, cujas obras so exemplares precisamente 
porque "embora no nascidas elas prprias da imitao, devem, no obstante,' servir a esse propsito para outros" (CJ 46). Tais obras no oferecem uma frmula ou 
uma regra, mas atuam como um padro pelo qual os seguidores de gnio podem colocar seu talento  prova. Assim, exemplos fornecem um cnone para avaliar juzos; no 
fornecem uma regra de juzo mas simplesmente um padro pelo qual distinguir entre bons e maus juzos.
exibio [exhibitio] ver tambm APRESENTAO; CONSTRUO; EXEMPLO; JUZO; SNTESE
Exibio  a funo do juzo que apresenta a um dado conceito a sua correspondente intuio (ver CJ Vlll). Existem duas formas de exibio. A primeira, na qual 
a correspondente intuio  adicionada a priori a um conceito,  denominada construo. A segunda, em que uma intuio  apresentada a um conceito emprico, chama-se 
um exemplo. Kant afirma que sem a adio bsica de conceito  intuio atravs de exhibitio no pode haver conhecimento, porque a intuio seria cega e o conceito 
vazio (VPM p.325, p.181).
existncia [Dasein, Existem] ver tambm ALMA; CATEGORIAS; DEUS; EFETIVIDADE; MUNDO; NECESSIDADE; ONTOLOGIA; POSSIBILIDADE; POSTULADOS DO PENSAMENTO EMPRICO, SER; 
SUB-REPO; TEOLOGIA
Kant seguiu Aristteles ao distinguir entre ser, efetividade e existncia, considerando cada termo um modo distinto de falar do ser. A dificuldade em definir as 
diferenas genricas e especficas entre os termos decorre do lugar deles dentro e para alm da ordem de juzo categrico. No s talvez nenhum desses termos seja 
usado sub-repticiamente como um predicado, como  igualmente inaceitvel descrever as relaes entre eles em termos de funes categoriais tais como quantidade, 
qualidade, relao e modalidade.

136          existncia
Entretanto, embora cada um desses termos seja extracategorial - denotando a "relao" atravs da qual ocorrem os juzos categricos - eles formam, no obstante, 
a base do julgamento categrico e so-lhe, assim, cruciais.
Kant descreve a "Analtica dos conceitos" em CRP como cobrindo todo o terreno da ontologia, ou a doutrina do ser. As duas principais sees da analtica correspondem, 
assim, ao ser pensado primeiro como existncia (na ordem das categorias) e depois como efetividade (na ordem dos princpios). Com essa distino, Kant acompanha 
implicitamente a distino de Aristteles entre dynamis e energeia, uma designando potencialidade, a outra efetividade. Embora a primeira seja efetivada pela segunda, 
isso no implica que a primeira tenha uma prioridade ontolgica, ou mesmo epistemolgica; elas so inextricveis. Assim, as categorias estruturam relaes potenciais 
com objetos que so efetivados pelos princpios, sem que nenhuma delas tenha necessariamente prioridade
sobre a outra.
A ordem categorial determina no s os contornos de uma possvel experincia mas tambm o objeto de tal experincia. A determinao  descrita como "existncia", 
a qual no  um predicado que possa ser aplicado num ato distinto do juzo, mas a posio do entendimento como um todo no tocante a um possvel objeto de experincia. 
Para qualificar, esse objeto deve existir para o entendimento. Com efeito, "existncia" indica o modo como tem origem um objeto de possvel experincia atravs da 
estrutura categorial do entendimento; distingue-se de efetividade, que  o nascimento no espao e no tempo do objeto de experincia. A relao geral entre existncia 
e efetividade como "modos" de ser (embora, stricto sensu, tal recurso s categorias de modalidade seja ilegtimo quando se fala em termos extracategoriais)  sublinhada 
pela transformao da segunda categoria modal de existncia-no existncia no segundo postulado do pensamento emprico.
A limitao do termo existncia  ordem categorial de ser vale tambm para o seu uso na descrio do ser de objetos tais como Deus, o mundo e a alma. Kant sustenta 
que o ser desses objetos no pode ser falado em termos de existncia nem,  claro, de efetividade. No caso de cada um desses objetos, a condio atravs da qual 
ele pode (ou no pode) ser pensado  substancializada, levando a sub-repes em que a existncia  aplicada como se fosse um predicado. O ser de Deus no pode ser 
falado em termos de existncia porque "todas as proposies existenciais so sintticas" (CRP A 598/B 626) ou pressupem a relao atravs da qual podem ser feitos 
juzos de objetos de experincia possvel. Por definio, Deus no  tal objeto, por muito que a razo humana possa "persuadir-se" (CRP A 586/B 614) do contrrio. 
O mesmo ocorre em relao ao mundo: podemos persuadir-nos dogmaticamente da existncia do mundo e esquecer assim o fato de que tudo o que a existncia pode dizer-nos 
 o modo como a "realidade objetiva" " capaz de nos ser dada" (CRP A 21 7/B 264). Finalmente, a alma - ou "o correlato de toda a existncia" - no pode propriamente 
dizer-se que existe a menos que ela possa pensar-se atravs de si mesma - um procedimento evidentemente inaceitvel para Kant, uma vez que "no posso conhecer como 
um objeto aquilo que devo pressupor a fim de conhecer qualquer objeto" (CRP A 402).
As sutis distines de Kant entre ser, existncia e efetividade foram muito desgastadas na recepo de sua filosofia. Ao passo que a sua crtica  substancializao 
da existncia num predicado e ao desejo de aplic-la a todos os seres foi bem entendida, sua
experincia           137
limitada distino entre existncia e efetividade foi largamente esquecida. A importncia da distino foi recuperada por Heidegger em Ser e tempo (1927), onde tambm 
estabeleceu uma distino adicional entre Dasein e Existem, termos que Kant usou invariavelmente como sinnimos.
experincia [empeiria, experientia, Erfahrung] ver tambm CONCEITO; CONSCINCIA; ENTENDIMENTO; INTUIO; ONTOLOGIA; REFLEXO; SABER; SENSIBILIDADE No final dos Segundos 
analticos, Aristteles recapitula os pontos essenciais de sua descrio do saber, que consiste no movimento da percepo sensorial de particulares para universais. 
A experincia desempenha um importante papel em sua argumentao, uma vez que emerge da memria de repetidas percepes sensoriais e , ao mesmo tempo, a fonte do 
"universal agora integralmente estabilizado dentro da alma, aquele que , em relao a muitos, uma identidade singular dentro de todos eles" (Aristteles, 1941, 
100a, 7-8). Como tal,  a fonte da habilidade do arteso na "esfera do vir-a-ser'-' e o saber do cientista na "esfera do ser". Assim, a experincia  a intermediria 
entre os particulares da percepo e o universal do saber e foi sistematicamente considerada, na filosofia medieval, a classe de saber associado  percepo sensorial 
e caracterizado por ser recebido de uma fonte externa.
A nfase sobre as origens externas da experincia  mantida por Descartes, embora acrescente uma significativa restrio. Nas Regras para a direo da inteligncia 
natural (1628), ele descreve a experincia como "o que percebemos pelos sentidos, o que ouvimos pelos lbios de outros e, de um modo geral, tudo o que alcana o 
nosso entendimento quer de fontes externas, quer daquela contemplao que a nossa mente dirige retrospectivamente para o seu prprio interior" (Descartes, 1968, 
p.43-4). Neste ponto, a par das fontes externas da experincia, adiciona-se uma fonte interna de reflexo da mente sobre si mesma. Isso poderia ser interpretado, 
de um modo aristotlico rotineiro, como "memria", embora subestimasse as implicaes suscitadas pela reviso cartesiana da noo de experincia. Com efeito, as 
relaes entre fontes externas e internas da experincia podiam ser interpretadas em duas direes. A primeira seria considerar a experincia externa como fonte 
da experincia interna. A segunda seria considerar ambas as fontes de experincia independentes uma da outra mas, no obstante, relacionadas, com os dados da experincia 
externa sendo complementados pelo que  produzido atravs da reflexo interna da mente sobre si mesma.
A primeira direo, que tinha a experincia externa na conta de primria e s secundariamente era acompanhada pela reflexo interna, foi a adotada na obra de Locke 
e Hume. Locke, por exemplo, abre o seu Ensaio acerca do entendimento humano com a declarao de que  na experincia "que todo o nosso conhecimento se baseia e da 
qual, em ltima anlise, deriva" (1690, p.33). Por experincia entende, na esteira de Descartes, o que derivou quer de ''objetos sensveis externos", quer das "operaes 
internas de nossas mentes, percebidas e refletidas por ns prprios", a saber, sensao e reflexo. A reflexo, para Locke, era a reflexo sobre sensao, uma restrio 
que o leva  dvida c-tica sobre se "o nosso conhecimento alcana muito mais longe do que a nossa experincia" (p.255), um insight desenvolvido por Hume em sua 
descrio da experincia no Tratado da natureza humana (ver, por exemplo, Hume, 1739, p.87). Leibniz, entretanto, em seu comentrio crtico sobre Locke nos Novos 
ensaios sobre o entendimento huma-

138           experincia
no, transferiu a nfase da experincia externa para a interna, vendo as "verdades inatas" da experincia interior como anteriores aos dados e verdades da experincia 
externa, e como condies prvias para esta ltima (Leibniz, 1765, p.83-4). Kant, que no final de sua carreira descreveu CRP como "a genuna apologia de Leibniz" 
(SD p.251, p. 160), tentou desenvolver um conceito de experincia que combinou ambas as direes abertas por Descartes, colocando em equilbrio os aspectos de experincia 
interna e externa enfatizados por Leibniz e por Locke.
Kant concordou com a limitao do conhecimento por Locke s fronteiras da experincia, mesmo que sua definio de experincia seja muito distinta. De fato, o conceito 
de experincia usado em escritos mais antigos, como sv (1766), no est muito longe do de Locke. A, quando programaticamente rejeita a noo de metafsica como 
a "busca de coisas ocultas", a favor de sua redefinio como a "cincia dos limites da razo humana", ele descreve com alvio a sua volta ao "terreno humilde da 
experincia e do senso comum" (sv p.368, p.355). Embora nunca repudiasse essa definio de metafsica e sua conseqente limitao do conhecimento aos limites da 
experincia, Kant redefine de forma considervel o seu conceito de experincia, tornando-a algo muito distante da humildade e do senso comum. As primeiras fases 
dessa redefinio esto evidentes em Dl. Kant rejeita o ponto de vista de Locke de que as idias (no seu caso, conceitos e intui-es) podem ser derivadas da experincia 
externa e inclina-se para a posio de Leibniz de que elas so pressupostas pela experincia. Define a experincia como "o conhecimento reflexivo, o qual surge quando 
numerosas aparncias so comparadas pelo entendimento", mas limita imediatamente essa posio (a qual seria compatvel com a de Locke) ao afirmar que "no h caminho 
da aparncia para a experincia, salvo por reflexo de acordo com o uso lgico do entendimento" (DI 5). Assim, a prpria reflexo  predeterminada pelo uso lgico 
do entendimento.
Os elementos do novo conceito kantiano de experincia em DI so desenvolvidos na filosofia crtica. Define experincia como a "conexo sinttica de aparncias (percepes) 
na conscincia, na medida em que essa conexo  necessria" (p 22). A experincia , pois, sinttica, descrita como "esse produto dos sentidos e do entendimento" 
que pode ser analisado em elementos. Existe na base de tudo "a intuio, da qual estou consciente, isto , a percepo (percepti) que s pertence aos sentidos" 
(P 20). Estes ltimos fornecem o elemento de experincia externa mas no se somam para uma experincia plena. H a sntese num juzo, mas essa sntese tem propriedades 
particulares; ela no se limita a "comparar percepes e a conect-las mediante o juzo numa conscincia", como foi pretendido pelas definies empiristas da percepo, 
mas as in-tuies devem ser subsumidas sob um conceito "que determina a forma de julgar em geral com relao  intuio" (P 20). H conceitos apriori do entendimento, 
tais como causa, os quais no so derivados da experincia mas conferem-lhe o carter de necessidade.
Na explicao mais sutil de experincia em CRP, a sntese que constitui a experincia no  a simples unificao conceituai de um mltiplo intudo, mas tem lugar 
na base de uma adaptao mtua de conceito e intuio. Kant sustenta que toda a sntese, "pela qual se torna possvel a prpria percepo, est submetida s categorias: 
e como a experincia  um conhecimento mediante percepes ligadas entre si, as categorias so condies da possibilidade da experincia e tm, pois, tambm validade 
apriori em relao a todos os objetos da experincia (CRP B 161). Kant, fundamentalmente, deriva as cate-
externo            139
gorias da espontaneidade do entendimento, estabelecendo assim as condies da possibilidade da experincia na mtua adaptao entre a experincia exterior (receptividade 
da sensibilidade) e a experincia interior (espontaneidade do entendimento). As formas a priori da intuio (espao e tempo), assim como os conceitos puros do entendimento 
ou categorias, estabelecem as condies da experincia possvel que determinam os limites do conhecimento legtimo. Como Kant assinalou a respeito das categorias, 
"tudo o que o entendimento extrai de si prprio, sem o recurso da experincia, no serve para qualquer outra finalidade que no seja o uso da experincia" (CRP A 
236/B 295).
O conceito kantiano de experincia foi corretamente uma das principais reas de discrdia crtica na interpretao de sua filosofia. A sua tentativa de manter as 
virtudes das definies empiristas e idealistas de experincia provocaram, naturalmente, as crticas tanto de empiristas quanto de idealistas. Do mesmo modo, o potencial 
subversivo de sua limitao do conhecimento a objetos da experincia possvel provocou as crticas daqueles que defendiam as idias de Deus, o mundo e a alma. Um 
popular caminho de crtica, predominantemente na base de P, afirma que Kant, na CRP, trabalhou com um conceito empobrecido de experincia, a saber, um conceito restrito 
aos objetos da geometria euclidiana e da mecnica newtoniana. Contra isso foi possvel assinalar que CRPr e CJ contm noes mais amplas de experincia moral e esttica. 
Entretanto, essa posio exagera as restries ao conceito de experincia empregado em CRP e subestima os modos como as trs crticas se complementam mutuamente, 
ampliando e refinando aspectos das noes recebidas de experincia.
experincia possvel ver EXPERINCIA
explicao ver DEFINIO
exposio ver DEFINIO
extenso [Ausdehnung] ver tambm CORPO; DINMICA; FORA; MATRIA Extenso foi definida por Descartes nas Regras para a direo da inteligncia natural (1628) como 
"tudo o que tem comprimento, largura e profundidade" e que portanto "ocupa espao", embora permanea distinto do corpo (Descartes, 1968, p.57). A sua definio foi 
motivada pela tentativa de rebaixar noes metafsicas de substncia, substituindo-as por extenso. Isso encontrou a resistncia de Leibniz, que defendeu o ponto 
de vista de que a extenso era um atributo da substncia. Kant aderiu em grande parte a esta ltima idia em FV, concordando com Leibniz em que uma fora  inerente 
ao corpo "antes de sua extenso" (FV  1). Para Kant, como para Leibniz, objetos extensos ocupam espao no por causa de sua extenso mas em virtude das qualidades 
dinmicas de impenetrabilidade e resistncia. Assim, Kant afirma em PM que '"encher um espao'  uma determinao mais estrita do conceito 'ocupar um espao'" (PM 
p.497, p.41). Por essas razes, ele divergiu dos cartesianos em no considerar a extenso uma propriedade fundamental da matria, atribuindo-lhe assim um papel relativamente 
insignificante em sua filosofia.
externo ver CONCEITOS DE REFLEXO; INTERNO/EXTERNO

140            extraterrestre, vida
extraterrestre, vida Isto  discutido com grande detalhe na terceira parte de HGN. Embora o tratamento se avizinhe da ironia s custas da humanidade, seu propsito 
 claramente srio. Kant, tomando como ponto de partida a teologia natural e a "infinidade da natureza", defende a tese da existncia de vida extraterrestre. Sustenta 
que a maioria dos planetas so habitados e que as caractersticas corporais dos habitantes so determinadas por seus respectivos meios ambientes (ver a discusso 
das caractersticas de venusianos e jupiterianos, HGN p. 185-7, p. 188-9). Ele conclui com o pensamento de migraes humanas para outros planetas, acrescentando 
que "tais imagens incertas da faculdade da imaginao" (HGN p. 199, p.196) so insuficientes para nutrir a "esperana de vida futura". Em CJ 91, ele sublinha a 
natureza hipottica da tese a favor da existncia de vida extraterrestre, apresentando-a como um exemplo de "questo de opinio" emprica: "pois se pudssemos acercar-nos 
dos planetas, o que  intrinsecamente possvel, decidiramos por experincia se existem ou no tais habitantes; mas como nunca chegaremos to perto deles, a questo 
continua sendo de opinio".
F
factum [Faktum, Tatsache] ver tambm DEDUO; LIBERDADE Embora use tanto o alatinado Faktum quanto o alemo Tatsache como equivalentes para factum*, o particpio 
passado latino efacere (fazer) significando "algo feito", Kant distingue sistematicamente entre os dois termos. Emprega o termo factum em CRPr a fim de assinalar 
que est sendo usado por analogia com Tatsache. Entretanto, a situao  complicada pelo seu uso irregular de Tatsache em CRP e CJ. Factum no "fato de razo" em 
CRPr  empregado por analogia com o sentido limitado de Tatsache em CRP, ao passo que em CJ  dado a Tatsache um significado mais amplo, o qual contm as acepes 
terica e prtica do termo.
No captulo da deduo de CRP, Kant traduz quidfacti ou a questo de fato ("O que foi feito?") como "die Frage... die Tatsache angeht". A questo de fato trata do 
emprego e origem de um conceito e no da legitimidade de us-lo (CRP A 84/B 116). Isso refere-se ao fato de os conceitos empricos serem pura e simplesmente dados, 
o que nos permite us-los - "atribuindo-lhes um sentido, uma certa significao" (ibid.) - sem a justificao de uma deduo. A imediao do factum  usada por analogia 
em CRPr para descrever a conscincia da lei moral, mas esse uso  severamente restringido por CJ 91, onde Kant divide o gnero de "coisas cognoscveis" em "questes 
de opinio", "questes de fato" (Tatsachen) e "questes de f". Ora, longe de serem dados de forma imediata e no problemtica, os fatos so objetos que "respondem 
a conceitos que podem ser provados", seja atravs da experincia ou da razo pura. Estes incluem as propriedades de grandezas geomtricas, coisas verificveis por 
experincia e, final e excepcionalmente, uma idia de razo, a nica que pode ser provada atravs da experincia. Trata-se da liberdade, a nica idia fatual cuja 
"realidade como uma espcie particular de causalidade"  verificada pelas "leis prticas da razo pura" e pelas "aes que tm lugar em obedincia a elas".
Na deduo de liberdade como um factum, Kant assinala uma mudana de estratgia em relao  que era adotada a respeito do "factum da razo" em CRPr. Factum em
* A germanizao do termo latino, com "k",  posterior s edies originais; p.ex., na Crtica da razo prtica, edio de 1788, consta a forma latina factum, embora 
com letra maiscula. Para distinguir o sentido ou uso dos dois termos Faktum e Tatsache, manter-se- para o primeiro caso a forma latina factum. (N.R.T.)

142            faculdade
CRPr  inverificvel; descreve a conscincia imediata da lei fundamental da razo pura, a qual "se nos impe" como um "factum de razo" sem pressuposio, e que 
"se proclama como originariamente legislativa" (p.31, p.32). A lei moral ou "factum de razo pura"  "apodicticamente certa", no atravs de quaisquer fundamentos 
verificveis, mas porque disso estamos "conscientes a priorf\  como Tatsache da CRP na medida em que no foi chamada a responder a qualquer questo de direito ou 
quaestio quidjris; mas  diferente dela na medida em que nunca pode ser chamada a faz-lo; est "firmemente estabelecida por si mesma" (p.47, p.48). Assim, Kant 
est usando o termo analogicamente e indica-o claramente ao dizer que a lei moral  dada "como se fosse" (gleichsam) atravs de um fato. Em CJ, porm, Kant abandona 
o argumento por analogia, preferindo mostrar que a liberdade, como qualquer outro fato, pode ser verificada tanto por liberdade quanto por experincia.
faculdade [dynamis, facultas, Fakultt,  Vermgen] ver tambm IMPULSO; PODER;
POSSIBILIDADE
A palavra "faculdade" traduz duas idias distintas: a primeira significa uma parte da estrutura de uma universidade, a segunda um potencial ou poder para realizar 
algum fim. O interesse de Kant pelo primeiro sentido foi suscitado pelo lugar anmalo da filosofia no currculo e organizao da universidade setecentista. A filosofia 
no foi concedido um lugar natural em qualquer das trs "faculdades superiores" de direito, medicina e teologia, e servia usualmente como propedutica para o estudo 
numa dessas disciplinas. Kant fazia parte de um movimento cultural que procurava redefinir o lugar da filosofia na universidade, assim como justificar suas incurses 
nas reas de jurisprudncia filosfica e teologia das faculdades superiores. A sua principal contribuio entre as faculdades "superiores" e "inferiores"  CF (1798), 
uma obra que abordou o conflito entre filosofia e teologia, direito e medicina.
O segundo sentido de faculdade traduz o termo Vermgen que, por sua vez,  derivado do letivo, facultas e do grego dynamis. Embora este ltimo fosse usado por muitos 
filsofos pr-socrticos, com destaque para Empdocles, o seu significado foi definitivamente fixado por Aristteles na Metafsica. De uma forma geral, atribuiu 
dois sentidos ao termo: o primeiro referia-se a uma capacidade ou poder para realizar um fim, o outro a um potencial para mudar que seria efetivado atravs de energeia. 
Essa definio dual de faculdade exerceu enorme influncia e permaneceu notavelmente estvel ao longo de toda a sua transmisso no aristotelismo medieval. Teve especial 
destaque na discusso da natureza da alma, a qual estava dividida em vrios potenciais ou faculdades de ao. Os dois sentidos de faculdade como potencialidade e 
como um poder da mente persistem em Descartes e ainda em Wolff: o wolffiano Philosophisches Lexicon de Meissner (1737) facultas epotentia como sinnimos de Vermgen 
e define-o em termos aristo-tlicos como a possibilidade de realizar ou sofrer uma ao. Especifica ainda as faculdades de apetio como desejo sensvel ou apetite 
e a vontade, e as faculdades de conhecer como sensibilidade e razo.
O termo faculdade  ubquo nos escritos de Kant e, com efeito, est subjacente na arquitetnica da filosofia crtica. Reflete mais sistematicamente a seu respeito 
na Introduo de CJ, onde distingue entre faculdades da alma e faculdades do conhecimento. As faculdades da alma, variamente descritas como Seelenvermgen ou gesamte 
Vermgen
f             143
des Gemts ou capacidades (Fhigkeiten) (m), abrangem uma trplice e fundamental "ordem de nossas faculdades de representao"; so elas (a) a faculdade de conhecer; 
(b) o sentimento de prazer e desprazer, e (c) a faculdade de apetecer. A arquitetnica da trilogia crtica corresponde s trs faculdades, com a capacidade para 
o prazer e desprazer formando uma transio entre o terico e o prtico, se bem que nenhuma delas possa ser derivada de um princpio comum.
Kant apresenta as faculdades fundamentais da alma por meio de uma analogia com uma famlia aparentada (Verwandschaft mit der Famili) de faculdades cognitivas (Erkenntnisvermgen) 
(CJ m). Essas faculdades formam uma ordem distinta mas afim de poderes cognitivos, divididas entre inferiores e superiores; as primeiras so as faculdades da sensibilidade, 
as segundas as faculdades da razo, juzo e entendimento. Kant aponta para uma analogia entre as duas "ordens" de faculdades, alinhando a faculdade cognitiva do 
entendimento com a faculdade de conhecer da alma; razo com apetio; e juzo com o sentimento de prazer e desprazer. Mais adiante (IX), ele distribui-os de acordo 
com uma tbua sistemtica, na qual os dois conjuntos de faculdades so supridos com princpios apriori e objetos de aplicao: s faculdades do conhecimento/entendimento 
 concedido o princpio de "conformidade a leis" e o objeto de aplicao "natureza"; s da razo/apetio so concedidos o "fim terminal" e a "liberdade"; ao passo 
que s faculdades de juzo/prazer e desprazer correspondem a "finalidade" e a "arte".
Assim,  evidente que para Kant as faculdades formam ordens internamente articuladas que so anlogas entre si. Entretanto, apesar da importncia do termo faculdade 
para todo o projeto crtico, ele nunca o discute ou analisa totalmente - a menos,  claro, que a filosofia crtica inteira seja vista como tal. A falta de preciso 
em torno desse termo central provou ser extremamente fecunda, dando origem  forma psicologstica e outras formas de kantismo. Com efeito, at o kantismo antipsicologstico 
mantm a diviso das faculdades cognitivas, pois renunciar-lhes significaria provavelmente abandonar o mbito da tradio kantiana. A dependncia da noo de faculdade 
por Kant e seus seguidores foi motivo de zombaria de Nietzsche no  11 de Alm do bem e do mal como o "perodo de lua-de-mel da filosofia alem", quando "os jovens 
telogos do Colgio de Tbingen [Hegel, Schelling e Hlderlin] se embrenharam decididamente no mato - todos  cata de 'faculdades'". Ele considerou o recurso s 
faculdades anlogo ao recurso a uma certa virtus dormitiva (uma faculdade indutora do sono) para explicar por que o pio induz ao sono, e prope a substituio da 
pergunta "Como so possveis juzos sintticos aprioriT por outra: "Por que  necessria a crena em tais juzos?" Tal pergunta,  claro, intencional e ardilosamente 
desafia todo o ethos do kantismo em um de seus pontos mais vulnerveis.
faculdades de conhecimento [Erkenntnisvermgen] ver CONHECIMENTO
f \fides, Glaube] ver tambm AMOR; CRENA; ESPERANA; OPINIO; POSTULADO; SABER
O conceito de f desempenhou um papel relativamente secundrio na filosofia grega clssica; foi usado por Plato para descrever um dos graus do saber por opinio 
(Plato, 1961, Rep., 511 e) e tambm para descrever a crena nos deuses (ibid., Leis, 966d). Para Aristteles, a f refere-se a uma forma de prova baseada em induo 
ou persuaso retri-

144            f
ca. O conceito filosfico de f deriva da tradio crist e, em particular, da corrente pau-lina. Essa provenincia levou a uma tenso entre f e saber, ou doutrina 
religiosa e filosofia. Estimulou vrios esforos imaginativos de reconciliao, que continuaram at
Kant e depois dele.
No Novo Testamento, f constitui uma atitude de crena em Cristo, quer em suas palavras, seus dons de cura ou suas obras; foi codificada por So Paulo, que usa o 
termo mais de 200 vezes em suas Epstolas, como um meio de distinguir da atitude dos judeus a atitude crist perante a lei. Ele tambm instaurou a idia extremamente 
influente de que a f era um dom da graa: "Porque pela graa sois salvos, mediante a f; e isto no vem de vs,  dom de Deus" (Efsios 2:8). Essa idia foi desenvolvida 
por Santo Agostinho em numerosas obras e coube-lhe um lugar reservado no reflorescimento aristotlico medieval promovido por Santo Toms de Aquino. Na Suma contra 
os gentios, ele distingue a ascenso a Deus atravs do nosso conhecimento natural do acesso ao conhecimento da f que nos chega atravs da graa de Deus, movimentos 
que ele considera complementares (Aquino, 1975, p.39). Uma outra relao entre f e filosofia (ou saber) foi explorada por Santo Anselmo, em cujo Proslogion a f 
serve como a condio do entendimento, um pensamento que levou  idia de que a f tem precedncia sobre o entendimento e, em seguida,  confisso credo quid absurdum 
- "Eu creio porque  absurdo". Aps a Reforma, os argumentos em defesa da f como um dom subjetivo de graa foram usados para criticar a doutrina da justificao 
atravs de obras, e para sustentar a defesa da tolerncia eclesistica e secular (ver Lutero, 1961, p.385).
A discusso da f por Kant  herdeira dos debates entre f e saber, e apresenta-se em numerosos contextos diferentes. Num deles, apresenta a sua discusso da f 
dentro de um quadro de referncia anlogo s trs formas platnicas de saber (Plato, 1961, Rep., 51 le); f, saber e crena so modos de anuncia subjetiva ou "assentimento" 
(Fr-wahrhalten). Em CRP, ele apresenta esse assentimento em termos de suficincia subjetiva e objetiva: a opinio no  subjetiva nem objetivamente suficiente; 
o saber  subjetiva e objetivamente suficiente; ao passo que a f  subjetivamente suficiente e, ao mesmo tempo,  conscientemente considerada como objetivamente 
insuficiente (CRP A 822/B 850; ver tambm SOP). Em Cj, a distino  elaborada em termos dos objetos de opinio, conhecimento e f: um objeto de opinio  um cuja 
existncia  empiricamente possvel mas improvvel; enquanto a existncia de um objeto de saber pode ser atestada tanto fa-tualmente quanto por meio da razo pura. 
Os objetos de f, entretanto, embora sejam pensados a priori, so, no obstante, "transcendentes para o uso terico da razo" (CJ 91); so idias que tm convico 
subjetiva, mas "cuja realidade objetiva no pode ser teoricamente garantida". Kant fornece trs exemplos de tais objetos: "o bem supremo no mundo, alcanvel atravs 
da liberdade"; (b) a existncia de Deus; e (c) a imortalidade da alma. Finalmente, em L, Kant distingue entre as trs formas de assentimento em termos da modalidade 
de seus juzos: a opinio  problemtica, o saber  apodctico e a f  assertrica.
Os trs objetos de f enumerados em CJ refletem os trs "postulados da razo prtica pura" - liberdade, imortalidade e a existncia de Deus - que em CRPr so apresentados 
em funo da realidade objetiva dada s idias da razo. No so objetos de conhecimento terico mas possuem sua prpria dignidade prtica. As mesmas trs idias 
servem no prefcio da segunda edio da CRP para desqualificar "toda a extenso prtica
f             145
da razo pura" e assim, na famosa frase de Kant, "suprimir [auflieben]* o saber para encontrar lugar para a/" (CRP B xxx). Entretanto, isso est longe de admitir 
credo quid absurdum, uma vez que para Kant a certeza subjetiva da f est bem fundamentada e no necessita recorrer ao saber nem neg-lo.  esse, inclusive, o caso 
da "f doutrinai" como fsico-teologia, a qual aplica analogamente (CRP A 825/B 853) a certeza subjetiva da f moral a objetos da natureza. Um exemplo, extensamente 
analisado em CJ Parte II,  a fi-* nalidade objetiva do mundo que decorre de se "postular" analogamente um "sbio criador do universo". A assero no pode ser teoricamente 
justificada, mas o grau de convico subjetiva que lhe est associado excede em muito o da opinio.
Kant considera essa f doutrinai inerentemente instvel, diferentemente da f moral e da f racional a que deu origem. A f moral confere certeza  existncia de 
liberdade, imortalidade e Deus, e essa certeza est baseada na incapacidade para rejeitar esses postulados sem "tornar-me digno de desprezo a meus prprios olhos" 
(CRP A 828/B 856). A f racional resultante dessa certeza moral envolve um insight das condies necessrias para se realizar "a unidade de fins sob a gide da lei 
moral" (ver tambm SOP). E mesmo que se fosse indiferente a leis morais, a f racional daria origem a uma f negativa em conformidade com os termos da aposta de 
Pascal; como  impossvel adquirir "qualquer certeza de que no existe tal ser [Deus] nem tal vida [futura]" (CRP A 830/B 858), essa f formaria um "analogon" de 
bons sentimentos, a saber, um freio  erupo dos malvolos. A discusso de Kant sobre a f enfatiza o que a diferencia do saber, ao mesmo tempo que a alinha com 
as idias prticas da razo. Embora Kant parea sublinhar a existncia de Deus e da imortalidade, suas preocupaes no so primordialmente religiosas. Isso no 
significa, porm, que ele exclua consideraes religiosas, pois estas so discutidas em considervel detalhe em RL. Kant usa a a idia de f como um dom que confere 
certeza objetiva ao seu beneficirio para justificar a distino entre religio, da qual existe somente uma, e fs, das quais h muitas (judaica, muulmana, hindu, 
crist). A religio est "oculta no ntimo e est relacionada com disposies morais" (RL p. 108, p.99), ao passo que as "fs eclesisticas" so externas, empricas 
e numerosas. Kant percebe (e recomenda) uma transio das fs eclesisticas parciais para a igreja universal da religio; todo o indivduo "possui" uma "f salvadora" 
ou "pura f religiosa" - isto , f prtica - mesmo que pratique uma f eclesistica (RL p. 115, p. 106). Estas so desenvolvimentos de "fs histricas" fundadas 
sobre atos especficos e atestados da revelao, e sublinham os atos exteriores de "servilismo e f mercenria", os quais, diferentemente da f salvadora, podem 
muito bem ser praticados com uma disposio malvola.
A "f religiosa pura" ou salvadora tem dois elementos: o primeiro  a f numa ex-piao ou reparao por aes injustas, enquanto o ltimo  "a f em que podemos 
tornar-nos benquistos aos olhos de Deus atravs de uma vida exemplar no futuro" (RL P-l 15, p.106). Ambos os elementos so derivados um do outro mas, em certas circunstncias, 
um pode preceder o outro. A f eclesistica/histrica privilegia a expiao, concedendo prioridade  f numa "expiao indireta" sobre uma boa conduta na vida, ao 
passo que na religio vale o inverso, com a f prtica tendo preferncia sobre a f na revelao. Kant v uma possvel fuso das duas posies numa forma de cristologia 
onde
Traduzido por Gulyga como "elevar", em lugar de "suprimir". (N.R.T.)

146            federalismo
Cristo  objeto de f salvadora no porque existiu outrora e era filho de Deus, mas porque  um "arqutipo exemplar existente em nossa razo... de um curso de vida 
que agrada a Deus"(RLp.ll9,p.llO).
A discusso kantiana da f religiosa e eclesistica pode ser criticada por seus elementos criptopaulinos, os quais preferem um "Reino" fundado numa f salvadora 
a-histrica a outras orientaes religiosas que so indiferentes a questes de f mas enfatizam o seu carter histrico. Esse, porm, no foi o aspecto de sua anlise 
da f que mais intrigou os seus sucessores (com a exceo de Hermaim Cohen, que alinhou o judaismo com a religio da razo pura, descrita por Kant em termos de cristianismo). 
A maioria estava interessada na verso de Kant do perene problema de f e saber, com F.H. Jacobi (1743-1819), no final do sculo xvm, argumentando a favor da f 
contra o saber de uma forma idntica  utilizada por Hamann em suas metacrticas de Kant (ver Jacobi, 1787, Hamann, 1967). Hegel, em F e saber (1802), tentou suprimir 
a distino mostrando como um conceito abstrato de saber d origem a uma oposio de f e saber. O discurso anti-hegeliano de Kierkegaard sobre f em Temor e tremor 
(1843) defende a f como um pressuposto do saber e como um salto sem saber para o absurdo. Nietzsche, ao contrrio, investiga a genealogia da f, descrevendo o seu 
"problema bsico" como "donde vem essa onipotncia da f?" (Nietzsche, 1901, 259), quer na moralidade ou na verdade. Embora essa investigao seja apresentada como 
uma crtica de Kant, ela mantm carac-teristicamente numerosos aspectos kantianos, mormente na auto-averso e execrao do "homem fessimo" [ugliest man] que se 
seguiu ao colapso da f e morte de Deus.
federalismo ver tambm COMO-SE; COSMOPOLITISMO; CULTURA; DIREITO; ESTADO; GUERRA; HISTRIA; IDIA; PAZ
A idia de federalismo  discutida por Kant no contexto do direito internacional e da federao de estados, e marca uma etapa na realizao da idia de paz perptua. 
O tema  tratado em MC no contexto do "Direito pblico", em TP no contexto do cosmopolitismo, e em PP no segundo de trs "artigos definitivos de uma paz perptua". 
Embora essas discusses difiram significativamente em detalhe, elas tm em comum certas caractersticas subjacentes. A primeira  uma analogia que Kant traa entre 
a formao de uma federao de estados e "aquele [processo] pelo qual um povo passa a ser um estado" (MC p.350, p.156). Assim como os indivduos antes da formao 
de um estado encontram-se numa condio de guerra, assim esto tambm os estados antes da constituio de uma federao. Como freqentemente ocorre nos argumentos 
de Kant baseados em analogias, a semelhana  acompanhada por uma diferena, a saber, que os estados permanecem na condio de guerra e retm sua soberania, permitindo-lhes 
assim deixar ou renovar a federao de estados. Em PP e TP, a analogia  ampliada  genealogia histrica da federao. O sofrimento ocasionado pela violncia universal 
"faz um povo submeter-se  coer-o que a prpria razo prescreve" e "ingressar numa constituio civil" que tambm o conduzir "a uma constituio cosmopolita" 
(TP p.310, p.90).
A motivao para ingressar numa federao de estados reside na preocupao com a segurana mtua decorrente do perptuo estado de guerra que prevalece entre estados; 
estados vizinhos, escreve Kant em PP, "so uma permanente afronta recproca pelo simples fato de serem vizinhos" (PP p.354, p.102). O carter de tal federao, porm, 
gera problemas.  a que a analogia com a constituio do estado civil se desfaz. Essa "liga de
felicidade             147
naes" no deve "envolver nenhuma autoridade soberana (como numa constituio civil), mas somente uma associao (federao)" (MC p.344, p. 151) da qual os estados 
podem sair e cujos termos eles podem renegociar. Com efeito, Kant v um "estado internacional" como "contraditrio", uma vez que requer a subordinao de estados 
individuais a um estado internacional, um ato que fundaria um imprio e no uma federao, e que dissolveria efetivamente os estados constituintes (PP p.356, p.104). 
Kant descreve a liga de naes como uma "federao pacfica" que no possuiria "leis pblicas e poder coercivo" (PP p.356, p.104), mas que, sem poder, garantiria 
a liberdade de cada estado. Entretanto, de que modo esse objetivo seria alcanado no est esclarecido e o prprio Kant no se mostra otimista a respeito de suas 
chances. Refere-se em MC a um "congresso permanente de estados" que  ainda mais fraco do que uma federao;  uma coalizo voluntria "que pode ser dissolvida em 
qualquer altura, no uma federao (como a dos estados americanos), a qual  baseada numa constituio" (MC p.351, p. 156). Serviria, essencialmente, para proporcionar 
um foro em que litgios entre naes pudessem ser juridicamente solucionados por analogia com disputas civis, mas sem a lei e os meios de impor seu cumprimento de 
que dispe o estado civil.
A idia de Kant de uma federao de estados foi influente nas discusses que cercaram a constituio da Liga das Naes e, mais tarde, as Naes Unidas. Entretanto, 
as dificuldades enfrentadas por essas instituies na constituio de um foro juridicamente efetivo foram previstas por Kant. Com base em sua anlise, poderia ser 
argumentado que a constituio de uma federao de estados  uma idia assinttica, que no pode ser realizada no espao e no tempo e dar origem a antinomias e 
contradies. A mais fundamental seria a de constituio de uma ordem jurdica internacional que governasse a conduta dos estados sem um aparelho coercivo de imposio 
da lei: uma ordem jurdica sem tal dispositivo para fazer respeitar a lei dispe de pouco poder sobre os estados constituintes; mas um que detivesse tal poder ameaaria 
tornar-se um estado imperial, com potencial para dissolver a existncia independente de seus constituintes. A soluo caracterstica de Kant  argumentar em termos 
de analogia e de como-se: diz ele ser do interesse dos estados-membros atuarem como se estivessem participando numa ordem jurdica que tivesse meios de impor e fazer 
cumprir suas sentenas.
felicidade [eudaimonia, felicitas, Glckselighkeit] ver tambm AUTONOMIA; BOM; ESPERANA; LIBERDADE; PRAZER; SUMO BEM
Na tica a Nicmaco, Aristteles descobriu que o "sumo bem" ou "objetivo final" de ao humana - "algo absoluto e auto-suficiente, sendo tambm a finalidade da ao" 
(Aristteles, 1941, 1097b, 22) -  a felicidade. Sua descrio da felicidade  admiravel-mente equilibrada: a felicidade perfeita consiste em levar uma vida contemplativa, 
mas no com excluso de outros aspectos da vida boa, como bravura, liberalidade e prazer (ibid., 1178a-1179b). Entretanto, a viso aristotlica de felicidade foi 
gradualmente transformada pela distino platnica entre a felicidade e auto-suficincia da mente e da alma, por uma parte, e os prazeres do corpo, por outra. Na 
obra de Santo Toms de Aqui-no, essa distino adquire a forma da experincia objetiva de beatitude (felicidade suprema, bem-aventurana) e a experincia menos preferida 
e subjetiva de eudaimonia. Essa distino foi largamente preservada por Descartes, para quem a felicidade (heur) "depende somente de coisas exteriores", em contraste 
com a beatitude (beatitude), que con-

148            felicidade
siste em "um perfeito contentamento do esprito e satisfao ntima" (carta a Elizabeth, 4 de agosto de 1645, Descartes, 1981, p. 164). Com Kant, a distino  preservada 
em forma modificada, resultando a felicidade objetiva da ao livre e autnoma, e a felicidade subjetiva de sentimentos heternomos de prazer e bem-estar.
A discusso kantiana da felicidade est toda ela impregnada por uma oposio entre liberdade e felicidade. A oposio  sobremaneira evidente na distino em MC 
entre "eudaimonismo (o princpio de felicidade)" e "eleuteronomia (o princpio da liberdade do legislador interno)", com a assero concomitante de que, se da primeira 
for feito o princpio bsico de ao, o resultado ser a "eutansia (morte fcil) de toda a moral" (MC p.378, p. 183). Kant enfrenta a objeo eudaimonista  sua 
definio de dever, a qual afirma que nos esforamos por cumprir com o dever por causa do prazer resultante do seu cumprimento, retorquindo que, embora o prazer 
possa estar envolvido na obedincia  lei, no pode preced-la como fundamento motivacional. O prazer que precede o dever ou a observncia da lei  "sensivelmente 
dependente" e faz parte da ordem natural, enquanto o prazer que resulta do dever baseia-se na liberdade inteligvel e  parte da ordem moral. A distino entre as 
duas descries de obedincia  lei tem numerosas conseqncias que so devidamente expostas ao longo da filosofia prtica de Kant.
A oposio entre eudaimonia e eleuteronomia desenvolveu-se numa srie de consistentes corolrios. O primeiro, j mencionado,  a distino entre as ordens natural 
e moral: a ordem natural  o domnio da causalidade, inclinao e heteronomia; a ordem moral  a esfera da liberdade, autodeterminao e autonomia (MC p.216. p.44). 
Princpios baseados na felicidade e heteronomia so materiais, subjetivos e parciais, em oposio aos baseados na liberdade e autonomia, os quais so formais, objetivos 
e universais (FMC p.442, p.46). A idia de bem como felicidade , por causa dos seus muitos bens potenciais, indeterminado; ao passo que a do bom como liberdade 
 focalizada e determinada (CJ 83). A busca de felicidade s determina indiretamente a vontade, o eudaimonista faz o seu dever "somente por meio da felicidade que 
antev", enquanto o dever comanda diretamente a vontade e no est dirigido para qualquer fim exterior a si prprio (MC p.377, p. 183). Por conseqncia, os imperativos 
associados  busca de felicidade so hipotticos "conselhos de prudncia" condicionados e contingentes "de este ou aquele homem considerar isto ou aquilo como contando 
para a sua felicidade", enquanto os vinculados  lei da liberdade so mandamentos incondicionados (FMC p.416, p.26). Essa forma de argumentao opositiva leva  
proposio repressiva em mu de que a humanidade "no deve participar de qualquer felicidade ou perfeio a no ser aquela que [os seres humanos] obtiveram por si 
mesmos sem interveno do instinto e por sua prpria razo" (p. 19, p.43). Entretanto, embora exclua a felicidade de qualquer papel na determinao da vontade para 
a ao, Kant considera-a, no obstante, um aspecto vital do sumo bem humano. Num ponto em CRP, ele pressupe que a felicidade seguir-se- automaticamente  liberdade: 
"No falo da maior felicidade, pois esta [a maior felicidade possvel] ser a conseqncia natural" (CRP B 373). A, a constituio que permite a maior felicidade 
possvel  descrita como uma idia necessria ao progresso humano, o qual trar consigo a felicidade; em CJ, porm, a prpria felicidade  a idia de acordo com 
a qual os seres humanos "buscam tornar adequado o seu verdadeiro estado de ser" (83). Kant j reconciliou potencialmente os termos dessa oposio em suas respostas 
em CRP s trs perguntas do interesse da razo: "1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me  permitido
fenomenologia             149
esperar?" (CRP A 804/B 832). A felicidade figura nas respostas a essas perguntas, embora no como um estado realizado mas um merecimento a ser feliz. O sumo bem 
consiste em ambos, em ter merecimento de ser feliz ou "moralidade" e em felicidade real-uma coisa sem a outra  parcial e incompleta. Caracteristicamente para Kant, 
a felicidade est excluda da determinao* da ao moral, para s retornar como seu indispensvel acompanhamento no sumo bem.
fenmeno ver tambm APARNCIA; ARQUTIPO; INTUIO; MUNDO INTELIGVEL; NOUMENON; SENSIBILIDADE
Os fenmenos so distintos de noumena e aparncias, mas os termos em que Kant baseou a distino mudaram radicalmente durante a sua carreira. Em sua primeira obra, 
FV (1747), Kant usa convencionalmente fenmeno no sentido de uma manifestao externa de uma fora invisvel, como na proposio "o movimento  apenas o fenmeno 
externo do estado do corpo" (FV 3). Embora elementos dessa definio persistam at na filosofia crtica, na poca de Dl (1770) mudaram-se os termos da distino: 
fenmenos no seriam a manifestao externa de foras ou objetos invisveis mas simplesmente "objetos da sensibilidade", em oposio a noumena ou objetos inteligveis, 
os quais s podem ser "conhecidos atravs da inteligncia" (DI 3). Kant sugere tambm uma distino entre fenmenos e aparncias, com o termo aparncia sendo usado 
para significar "o que precede o uso lgico do entendimento" e fenmenos "os objetos da experincia" que resultam da comparao de aparncias pelo entendimento (5). 
Nste caso, as "leis dos fenmenos" incluem "as leis da experincia e, de um modo geral, de todo o conhecimento sensvel (5). Essa distino foi levada para a CRP, 
com os fenmenos distintos dos noumena em termos de um mundo sensvel e um mundo inteligvel (A 249) e em termos de objetos sensveis e inteligveis (B 306). Os 
fenmenos tambm se distinguem das aparncias na medida em que eles combinam as leis do conhecimento sensvel e intelectual ou, para usar a linguagem de CRP, so 
"aparncias na medida em que so pensadas como objetos de acordo com a unidade das categorias" (A 248).**
fenomenologia ver tambm DINMICA; FORONOMIA; MECNICA; MODALIDADE; MOVIMENTO
"Fenomenologia"  o tema do quarto captulo do tratamento de Kant da cincia natural em PM. Cada um dos quatro captulos considera o movimento (para Kant, o objeto 
de estudo da cincia natural) desde o ponto de vista de um dos quatro grupos da tbua de categorias. A "foronomia" considera os aspectos quantitativos do movimento, 
a "dinmica"
* A felicidade est excluda da determinao da ao moral, mas  compatvel com a lei moral sempre que no se sobreponha a ela como princpio. (N.R.T.)
** A frase de Kant, citada pelo Autor, expressa o contrrio do que ela sugere no contexto da frase. No so os fenmenos que so aparncias, mas estas que so fenmenos: 
"Erscheinungen [...] sie ais Gegenstande nach der Einheit der Kategorien gedacht werden, heissen phaenomena" [Aparncias, na medida em que so pensadas segundo a 
unidade das categorias, chamam-se fenmenos] (A 248-9). Para essas distines, o Autor baseia-se na Dl e na primeira edio da CRP. Na segunda edio (1787), tais 
diferenciaes so eliminadas: Erscheinungen e phaenomena tornam-se sinnimos. Mais grave seria confundir aparncia, como traduo do Autor para Erscheinung, como 
Schein (iluso, aparncia ilusria. (N.R.T.)

ISO            filhos
os qualitativos, a "mecnica" os relacionais e a "fenomenologia" os modais. Na fenomenologia, "o movimento ou repouso da matria  meramente determinado com referncia 
ao modo de representao, ou modalidade, isto , como uma aparncia dos sentidos externos" (PM p.477, p. 15). O captulo apresenta trs proposies que determinam 
a modalidade de movimento para os trs captulos prvios. O primeiro sustenta que o movimento retilneo da matria, como o oposto do movimento inverso do espao 
relativo em que est situado,  um "predicado meramente possvel", e que, por conseqncia, no pode ser estabelecida a necessidade nem a efetividade da foronomia. 
A segunda proposio apresenta o movimento circular da matria em aparncia como meramente possvel (isto , ou ela ou o seu espao pode estar em movimento), mas 
sustenta que, de acordo com "o complexo de todas as aparncias", ela est efetivamente em movimento. Kant argumenta que tal movimento "no pode ocorrer sem a influncia 
de uma fora motriz externa atuando continuamente" (PM p.557, p.123), o que prova a efetividade das foras de atrao e repulso e, assim, o objeto da dinmica. 
A terceira proposio mantm que o movimento de um corpo em relao a um outro requer o movimento contrrio e igual do segundo, um requisito que "resulta imediata 
e inevitavelmente do conceito da relao do movido no espao com toda e qualquer outra coisa assim movvel" (PM p.558, p. 124) e tem como conseqncia ser necessria 
a modalidade de movimento em mecnica. Kant adotou o termo fenomenologia tal como foi usado por J.H. Lambert em Neu-es Organon (1764) (ver Lambert, 1988), onde forma 
uma das quatro sees de uma epis-temologia dedicada a distinguir entre verdade, erro e iluso. A fenomenologia considera as formas de aparncia e iluso. Entretanto, 
numa carta a Lambert datada de 2 de setembro, acompanhando um exemplar de Dl, Kant revela uma viso muito mais ampla do potencial da fenomenologia, descrevendo-a 
em termos que anteveem os que viria a usar mais tarde para descrever o projeto de CRP. Trata-se de "uma cincia muito especial, embora puramente negativa... pressuposta 
pela metafsica", em que "os princpios de sensibilidade, sua validade e suas limitaes, seriam determinados, para que esses princpios no possam ser confusamente 
aplicados a objetos de razo pura, como tem acontecido quase sempre at hoje" (CFI p.59). Essa ampla viso da fenomenologia como propedutica para a metafsica persiste 
ostensivamente em PM, seno em CRP. Foi aproveitada por Hegel, que descreveu a sua Fenomenologia do esprito no frontispcio como a "Primeira parte" do "Sistema 
de cincia". O termo foi retomado por Edmund Husserl na virada para o sculo XX a fim de descrever um novo comeo para a filosofia na anlise de fenmenos (ver Husserl, 
1913, 1950).
filhos ver CASAMENTO; MULHER; SEXO
filosofia ver tambm HISTRIA DA FILOSOFIA; METAFSICA; SISTEMA Kant oferece numerosas caracterizaes da filosofia, estando as mais extensas em CRP, FMC e L. Embora 
as suas definies de filosofia sejam, de um modo geral, formais - atendendo ao seu conceito, objetos, tipos, contedos e questes -, elas so usualmente acompanhadas 
por uma referncia  filosofia do seu tempo ou  grega antiga. As definies de filosofia desenvolvidas em CRP A 838/B 866 so polemicamente endereadas contra o 
conceito wolffiano de filosofia; a definio proposta em FMC refere-se  "antiga diviso grega" da filosofia em fsica, tica e lgica; enquanto em L  situada de 
acordo com
filosofia             151
a histria geral da filosofia, desde os gregos at  "poca da crtica". Com efeito, o conceito de filosofia era intrinsecamente histrico para Kant. Para ele, repousava 
numa distino entre (a) filosofia como "simples idia de uma cincia possvel, que em parte alguma  dada in concreto", a qual ningum possui e que no pode ser 
aprendida ou mesmo reconhecida; e (b) aprender a filosofar, ou seja, a exercer "o talento da razo na aplicao dos seus princpios gerais em certas tentativas que 
se apresentam" (CRP A 838/B 866).
No tocante ao conceito de filosofia, Kant distingue em CRP entre os conceitos es-colstico e csmico. O primeiro, que Kant diz ter "predominado at agora" e com 
o que ele quis significar a dominante concepo wolffiana de filosofia, a considera "um sistema de conhecimento, que apenas  procurado como cincia... [e ] por 
conseqncia, a perfeio lgica do conhecimento" (CRP A 838/B 866). O conceito csmico de filosofia  mais amplo e "sempre serviu de fundamento a esta designao, 
especialmente quando, por assim dizer, era personificado e representado no ideal do filsofo, como um arqutipo" (A 838/B 866). Envolve "a cincia da relao de 
todo o conhecimento aos fins essenciais da razo humana" (A 839/B 867) ou "aquilo em que todos temos necessariamente um interesse". Neste ltimo conceito de filosofia, 
o filsofo  um "legislador da razo humana" e sua legislao ou "filosofia" tem, prossegue Kant, dois objetos, a natureza e a liberdade, ou "o que " e o que "deve 
ser" (A 840/B 868).
A diviso dos objetos da filosofia em natureza e liberdade corresponde  diviso da filosofia em fsica e tica que prefacia FMC, exceto que a junta-se s duas 
uma terceira diviso, a lgica. Ecos dessa diviso so discernveis na classificao da filosofia na CRP em termos de propedutica ou "crtica", "a qual investiga 
a faculdade da razo com respeito a todo o conhecimento a priori puro" e de "metafsica", ou o sistema de razo pura dividido em metafsica da natureza e metafsica 
dos costumes (A 841/B 869). As metafsicas da natureza e dos costumes correspondem aos empregos "especulativo" e "prtico" da razo pura, com a primeira contendo 
os princpios da razo pura "empregados no conhecimento terico de todas as coisas", a segunda os princpios a priori que determinam e tornam necessrias todas as 
nossas aes" (A 841/B 869). Entrecruzando-se com essa distino h ainda um outro sistema de classificao expresso em termos de filosofia emprica e pura, uma 
compreendendo o conhecimento derivado de princpios empricos, o outro conhecimento derivado da razo pura; somente este ltimo  filosofia propriamente dita. Em 
CRP, Kant efetua uma ulterior distino interna, dentro da metafsica da natureza; ele descreve-a como metafsica stricto sensu, a qual consiste em (a) "filosofia 
transcendental", que trata do entendimento e da razo, e corresponde  ontologia, e (b) "fisiologia da razo pura", que corresponde  natureza. Imediatamente aps 
formular essa distino, Kant descreve o sistema de metafsica em termos tradicionais, compreendendo ontologia, fisiologia, cosmologia e teologia, a segunda incluindo 
a fsica racional e a psicologia racional.
Uma definio adicional de filosofia  desenvolvida em PI, onde a filosofia como "o sistema de conhecimento racional por meio de conceitos"  distinguida de uma 
crtica da razo pura que "delimita e examina a prpria idia do sistema" (PI p. 195, p.3). A, o sistema filosfico  dividido em dois domnios, o formal e o material, 
com o primeiro (lgico) incluindo a "forma de pensamento num sistema de regras" e o segundo oferecendo a "possibilidade de conhecimento racional, conceptual, de 
objetos pensveis" (PI P-195, p.3). Este ltimo, ou sistema "real" de filosofia, est dividido de acordo com obje-

152            filosofia critica
tos tericos e prticos, interessando-se a filosofia terica por proposies sobre a "possibilidade de coisas e suas determinaes" (Pi p.196, p.3), e a filosofia 
prtica por proposies que "do  liberdade sua lei" (p.197, p.4).
As incontveis definies da filosofia dadas nas crticas so ainda mais complicadas pelas definies de filosofia que se encontram em L e nos ensaios tardios "Sobre 
um recm-criado tom superior em filosofia" e "Anncio da concluso iminente de um tratado de paz eterna na filosofia" (ambos de 1796). Este ltimo d continuidade 
ao projeto inaugurado em sv de proteger a filosofia em geral e a metafsica em particular contra o misticismo e a religiosidade sentimental. A filosofia  vulnervel 
a esta ltima por causa do que  descrito em CRP como o seu "conceito csmico" ou a relao do conhecimento com os fins essenciais da humanidade. O escopo do ltimo, 
ou "o campo da filosofia",  determinado em L em termos das quatro perguntas: (a) que posso saber? (b) que devo fazer? (c) que me  permitido esperar? (d) que  
o homem? As primeiras trs perguntas repetem-se em CRP como as dos "interesses da razo", mas em L formam juntas o campo da filosofia coberto pela metafsica, moral, 
religio e antropologia, respectivamente.
A definio de Kant de filosofia  no dogmtica e cambiante. Isso deve-se  sua viso histrica da filosofia como fruto da atividade de filosofar. Como o filosofar 
no pode chegar ao fim, mesmo na filosofia crtica, a definio de filosofia permanece aberta e sujeita ao filosofar corrente e futuro. As questes que determinam 
o campo da filosofia so inseparveis dos interesses da razo humana e jamais se lhes pode dar uma resposta dogmtica. Por essa razo,  impossvel dar uma definio 
da filosofia que responda a essas questes; uma tal filosofia assinalaria o fim da atividade filosfica e a morte da prpria filosofia.
filosofia crtica ver tambm CNONE; FILOSOFIA; GUERRA; HISTRIA DA FILOSOFIA, ILUMINISMO; JUZO; PAZ; PBLICO/PUBLICIDADE; SABER
Filosofia crtica  o nome dado ao empreendimento filosfico executado por Kant nas trs crticas: da razo pura, da razo prtica e do juzo. Foi a resposta de 
Kant ao que ele descreveu como a sua poca: "A nossa poca  a poca da crtica,  qual tudo tem de submeter-se" (CRP A xii). No s a "religio atravs de sua santidade 
e a legislao por sua majestade" devem submeter-se ao "livre e pblico exame da razo", mas at mesmo a prpria razo. O "juzo amadurecido da poca" faz "um convite 
 razo para empreender de novo a mais difcil de todas as suas tarefas, a do conhecimento de si mesma" (CRP A xi) e, para fazer isso, deve constituir "um tribunal 
que lhe assegure as pretenses legtimas", um que disponha da "lucidez de uma crtica rigorosa mas justa" (CRP A 395). O uso dessa metfora jurdica para o auto-exame 
da razo no  fortuito, dado que, para Kant, sem esse tribunal, a razo mantm-se num "estado de natureza e no pode fazer valer ou garantir as suas afirmaes 
e pretenses a no ser pela guerra" (CRP A 751/B 779). Enquanto as hostes adversrias do dogmatismo e do cepticismo resolvem suas disputas com cada parte vangloriando-se 
de uma vitria sobre a outra parte e declarando um armistcio temporrio, a crtica da razo, pelo contrrio, trata os seus diferendos "unicamente pelos mtodos 
reconhecidos de um processo legaF. Atua de acordo com "princpios fundamentais de sua prpria instituio, cuja autoridade ningum pode pr em dvida" (CRP A 751/B 
779).
A filosofia crtica no adquire seus princpios fundamentais atravs da "crtica de livros e sistemas" e sim atravs da "faculdade da razo em geral" (CRP A xii). 
O seu pro-
filosofia transcendental             153
cedimento consiste em "investigar a faculdade da razo com respeito a todo o conhecimento a priori puro" (A 841/B 870) e  a propedutica ou preparao para um futuro 
sistema metafsico de princpios. Kant expressa de diversas formas a natureza preparatria da filosofia crtica:  uma investigao cannica da razo antes de sua 
elaborao num organon; um esclarecimento negativo dos limites da razo antes de sua exposio positiva, e at o "encontrar lugar para a f" (CRP B xxx). Distingue-se 
do dogmatismo e ' ceticismo na medida em que no se atribui a si prpria "um conhecimento do seu objeto, pelo menos suficiente, para afirmar ou negar qualquer coisa 
a seu respeito" mas "limita-se a mostrar que se invoca em apoio da afirmao algo que no  nada ou  meramente fictcio" (CRP A 389). Por outras palavras, a filosofia 
crtica "no considera o problema objetivamente mas de acordo com o fundamento do conhecimento em que se alicera" (CRPA484/B512).
A assero de Kant de que a sociedade ocidental ingressara numa era crtica na qual nada estava imune  crtica foi corroborada, de maneira concludente, pela experincia 
dos dois sculos transcorridos desde a publicao de suas crticas. Os objetos da crtica foram desde a religio  economia poltica e  literatura, e produziram 
poderosas instituies ou "tribunais" de crtica. Entretanto, at os contemporneos de Kant consideraram que suas pretenses de estar instituindo um tribunal crtico 
no eram sinceras, com Hamann (1967) e Herder (1953) sublinhando em suas "metacrticas" que o "purismo" da razo esquece a sua dependncia de uma instituio existente, 
a saber, a linguagem. A gerao de filsofos que lhe sucedeu, como Hegel, no estava convencida de que a razo estivesse numa posio adequada para criticar-se a 
si prpria. Filsofos ulterio-res, como Marx e Nietzsche, mostraram-se igualmente cticos em relao ao "tribunal crtico", aplaudindo o momento crtico, negativo, 
da filosofia de Kant, ao mesmo tempo que deploraram suas tentativas para ser um filsofo-legislador. Para eles, e para muitos filsofos do sculo XX, a crtica deve 
permanecer vigilante contra qualquer recada no dogmatismo institucional e intelectual. Esse ethos retornou at na recente exegese de Kant, que minimizou a importncia 
dos aspectos "fundacionais" da filosofia crtica, em favor de sua metodologia "antifundacionalista".
filosofia especulativa ver FILOSOFIA
filosofia terica ver FILOSOFIA
filosofia transcendental ver tambm FILOSOFIA; JUZO SINTTICO A PRIORI, METAFSICA; ONTOLOGIA; SISTEMA; TRANSCENDENTAL
Em CRP (B 73) e CJ (36), Kant diz que o problema geral da filosofia transcendental consiste em indagar: "Como so possveis sintticas a prioril" Est interessada, 
portanto, em apurar quais so as regras que regem tais juzos - dados no conceito puro do entendimento - assim como em especificar "apriori o caso em que a regra 
deve ser aplicada" (CRP A 135/B 174) ou os princpios de juzo transcendental. Kant distingue a filosofia transcendental da "crtica da razo pura" na medida em 
que esta ltima somente fornece uma anlise de "conceitos fundamentais", quando uma filosofia transcendental completa seria requerida para apresentar "uma anlise 
pormenorizada de todo o conhecimento humano a priori" (A 13/B 27).  mais especfica do que a ontologia na medida em que se reporta apenas ao entendimento e  razo 
"num sistema de conceitos e princpios que se

154          fim
relacionam com objetos em geral mas no levam em conta objetos que podem ser dados (Ontologia)", sendo contudo mais geral do que a fisiologia, a qual, para Kant, 
vai apenas at aos limites da natureza ou  "soma de objetos dados" (A 845/B 505). A filosofia transcendental toma sobre si a obrigao de responder a questes sobre 
objetos dados  razo pura, uma vez que "o mesmo conceito, que nos coloca na posio de fazer a pergunta, dever tambm habilitar-nos a responder-lhe" (A 477/B 505), 
ainda que a resposta consista em apontar suposies injustificadas sugeridas na pergunta.
fim [elos, Zweck] ver tambm CAUSALIDADE; CONFORMIDADE A UM FIM; HUMANIDADE; LIBERDADE; LIMITE; REINO DOS FINS, TELEOLOGIA
O conceito de Kant de um fim  uma verso da "causa final" aristotlica. Na Fsica, Aristteles apresentou quatro causas de mudana fsica: a causa material, ou 
"aquilo a partir do qual uma coisa vem a ser"; a causa formal, ou a "essncia" que determina a forma da matria; a causa eficiente, a qual  "a fonte primria da 
mudana ou da transio para o repouso"; e a causa final ou "o sentido de fim, ou "aquilo no interesse do qual" uma coisa  feita (Aristteles, 1941, 195a, 23-25). 
As causas so modos de responder  pergunta "por que" uma coisa nasceu ou morreu, e foram prolongadas por Aristteles das questes fsicas para as metafsicas (ver 
983a, 24-30). Entretanto, a causa final foi especial ao aplicar-se no s s questes fsicas e metafsicas - respondendo a "Por qu?" com "pelo interesse em alcanar 
um determinado fim" - mas tambm ao abranger questes de ao humana. Assim a tica a Nicmaco descreve a ao tica e poltica como dirigida sobretudo para a realizao 
do fim do bem (ver Aristteles, 1941, 1094a). Assim, a noo de "fim" serve de intermediria entre a filosofia terica e prtica, um papel que tambm desempenha 
na filosofia de Kant.
Nos comeos do perodo moderno, as explicaes teleolgicas de mudana fsica estavam cada vez mais desacreditadas. Galileu rejeitou toda a etiologia a favor da 
anlise do movimento local e, embora Descartes se mostrasse relutante em segui-lo to longe (ver Descartes, 1644, p.104), ele rejeitou de forma conclusiva a investigao 
de causas finais, a favor das causas eficientes (ibid., p.14). A filosofia terica de Kant abstm-se tambm de usar causas finais como princpios de explicao, 
embora invente um novo papel para o uso de "fins" em filosofia terica. Tal como Aristteles, a sua filosofia prtica coloca o conceito de um "fim" no primeiro plano, 
e em CJ torna-se o principal meio pelo qual Kant estabelece uma transio entre a necessidade natural de filosofia terica e a liberdade de filosofia prtica.
A mais extensa discusso de fins e propsitos est na segunda parte de CJ, a "Crtica da faculdade de julgar teleolgica". Kant distingue a entre teleologias fsica 
e moral, ou a explicao da natureza fsica e da ao humana de acordo com fins. Em ambos os casos, ele refere-se a uma distino entre causao eficiente e final-a 
causalidade "mecnica" do nexus effectivus (causa eficiente) e a causalidade final do nexus finalis (causa final) (CJ, "Introduo", Parte li; ver tambm FMC, p.450, 
p.52). A filosofia terica da primeira crtica est predominantemente interessada na explicao de causas eficientes, mas com um papel limitado para a causalidade 
final de acordo com um fim como idia regulativa para garantir a aquisio acabada e sistemtica de saber (CPR A 626/B 654). Esse alcance e esses parmetros para 
uma limitada "teleologia fsica" so mais desenvolvidos em CJ Parte n. Na introduo geral da CJ, Kant distingue entre um fim como o "con-
fim            155
ceito de um objeto enquanto encerra ao mesmo tempo a base da efetividade desse objeto" e finalidade, a qual  a "concordncia de uma coisa com aquela qualidade das 
coisas que s  possvel segundo fins" (CJ iv). Ele usa essa distino para argumentar contra a derivao de "fins fsicos" da aparncia de finalidade apresentada 
pela natureza. No podemos conhecer tal fim objetivo nem podemos fazer dele um princpio constitutivo; podemos, entretanto, postular tal fim como um princpio regulativo 
para o juzo reflexivo e, assim fazendo, "ampliar a cincia fsica segundo um outro princpio, a saber, o das causas finais, sem interferir, porm, no do mecanismo 
da causalidade fsica" (67). A noo de um fim como "mximo subjetivo" ou princpio de juzo reflexivo pode ser usada para suplementar e ampliar os juzos determinantes 
da causalidade mecnica, mas no  permitido que os transgridam e muito menos que os substituam.
Embora Kant limite severamente a extenso e operao da teleologia fsica, a mesma restrio no se aplica  teologia tica. De fato, a filosofia prtica de Kant, 
como a de Aristteles,  resolutamente teleolgica, insistindo em que a ao  dirigida para um fim. Em FMC, ele define a vontade "como a faculdade de determinar-se 
 ao de acordo com a representao de certas leis" e define o "fim" como o que serve como "fundamento objetivo de sua autodeterminao" (p.427, p.35). Distingue 
ainda esses fins segundo sejam subjetivos ou objetivos: os primeiros so fins "materiais" denominados "incentivos"; os segundos, fins "formais" que so extrados 
de fins subjetivos e podem servir como "motivos" vlidos para todos os seres racionais. Os seres racionais so "fins em si mesmos" cuja existncia possui "valor 
absoluto", uma derivao que leva Kant  declarao do imperativo categrico de agir de modo a tratar o outro "sempre ao mesmo tempo como um fim e nunca simplesmente 
como um meio" (p.429, p.36). Subjacente nessas e em outras frmulas do imperativo categrico est a noo de um reino de fins em que cada membro  legislador e legislado.
Em todas as trs crticas, Kant alude ao "fim terminal" que une os domnios da filosofia terica e prtica. Na CRP, o "fim terminal" "no  outra coisa seno o destino 
total do homem" e  descrito em termos da unidade dos dois objetos da "legislao da razo humana (filosofia)", a saber, a natureza e a liberdade, as quais, embora 
sejam apresentadas ao princpio em "dois sistemas distintos", formam finalmente "um nico sistema filosfico" (CRP A 840/B 868). O carter desse "fim terminal" e, 
portanto, do "destino do homem"  extensamente considerado em CJ 83, sob o ttulo de "O fim ltimo da natureza como sistema teleolgico": Os seres humanos so a 
descritos como "o fim ltimo da natureza, em relao a quem todas as outras coisas naturais constituem um sistema de fins". Isso resulta da capacidade do homem, 
fundada na liberdade, "de pr para si mesmo fins de sua escolha deliberada" e de utilizar a natureza como meio de cultura de acordo com esses fins. Nesse ponto, 
Kant faz uma transio para uma fascinante discusso da teologia fsica e tica, durante a qual apresenta fundamentos para a existncia de Deus como o autor moral 
do mundo.
A anlise de Kant de fins foi trasladada para a filosofia sistemtica do idealismo alemo. Este baseou-se na viso kantiana da liberdade humana como a capacidade 
para postular fins e tambm para legislar sistemas de liberdade e natureza. Entretanto, muitos dos detalhes da discusso de Kant de fins fsicos e morais em CJ Parte 
li foram comparativamente negligenciados pelos estudiosos de Kant. Isso  lamentvel, porque o conceito

156            finitude
de um fim fornece um modo extremamente til de ler a filosofia de Kant como o todo integral e sistemtico que ele desejou que fosse.
finitude ver tambm ENTENDIMENTO; IMORTALIDADE; IMPERATIVO; INTUIO; NECESSIDADE; RAZO; RECEPTIVIDADE; SENSIBILIDADE; SENTIMENTO; SNTESE; TEMPO Nas pginas finais 
da CRPr, Kant evoca "o respeito e a admirao" suscitados "pelo cu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim" (p. 162, p. 166). A reflexo sobre os dois 
objetos cria um movimento entre os sentimentos de finitude e insignificncia e os de imortalidade e valor infinito. O sentimento de aniquilamento "de minha importncia 
como criatura animal, que deve devolver ao planeta (um mero pontinho no universo) a matria donde proveio - matria que, por um breve perodo de tempo, est dotada 
de fora vital" - coexiste com a revelao, atravs da lei moral, "de uma vida independente de toda a animalidade e at de todo o mundo dos sentidos" (p.162, p.166). 
Esse movimento anima toda a filosofia crtica e  manifesto na restrio do saber aos limites de uma intuio e de um entendimento finitos, acompanhados pela elevao, 
atravs da lei moral, para alm desses limites. A intuio finita humana  distinta da intuio divina ou "intelectual" pelo carter temporal da sntese que constitui 
experincia e saber. As vrias snteses que unificam conceito e intuio esto orientadas no que se refere  experincia passada e futura, e permanecem essencialmente 
incompletas. No que diz respeito  filosofia prtica, a inclinao para fins distintos  fruto da necessidade humana, a qual, para Kant, resulta da finitude da condio 
humana.  a tenso entre uma "razo prtica finita" e a lei moral que torna necessrio o imperativo moral e a "tarefa interminvel" de busca do modelo de uma vontade 
santa (CRPr p.32, p.32).
Em CPR, Kant insiste na finitude da experincia humana, limitando seu mbito s aparncias ou s percepes de uma intuio finita. A nica exceo  a experincia 
moral que, para Kant, inclui a f. Entretanto, muitos crticos, sobretudo Nietzsche e mais tarde Heidegger, questionaram a admisso por Kant de dimenses no finitas 
de experincia moral. H uma falha bem definida em sua filosofia entre as rigorosas explicaes da experincia em termos de finitude humana que informam, de um modo 
geral, a primeira e a terceira crticas (isto , CRP e CJ), explicaes que podem ser descritas como epicuristas, e a nfase mais platnica sobre a oposio entre 
mundos finitos e infinitos apresentada em CRPr. Se  possvel manter a primeira nfase e rejeitar a segunda  uma questo em aberto. Uma resposta satisfatria a 
isso dependeria em grande parte de saber se seria possvel conceber a experincia moral na ausncia de infinitude (o que Kant no podia) e se o papel crucial desempenhado 
pela liberdade e espontaneidade em todos os ramos da filosofia crtica poderia ser sustentado dentro de uma estrutura rigorosamente finita.
fora [vis, Kraft] ver tambm CORPO; EFETIVIDADE; MATRIA; MOVIMENTO; PODER Este conceito tem sua origem na reflexo filosfica e cientfica sobre as causas do movimento 
de corpos materiais. A definio hoje predominante  a ditada pela cincia natural, a qual considera a fora uma ao que altera o estado de repouso ou o movimento 
uniforme de um corpo. Nos sculos XVII e XVIII, o conceito de fora estava cientfica e fi-losoficamente mal definido (at onde as duas abordagens eram separveis), 
redundando em considervel confuso da qual Kant participou totalmente. Uma das confuses fundamentais resultou da distino entre fora inercial e fora ativa. 
A primeira, em termos
fora             157
de Descartes, era a fora pela qual um corpo permanecia em repouso, a segunda a fora pela qual um corpo comeava e continuava em movimento (ver Descartes, 1981, 
p.79). Ao conceber a fora inercial como "inata" e a fora ativa como externamente causada, alguns filsofos, incluindo Leibniz e Kant, continuaram a considerar 
a fora em tradicionais termos aristotlicos, como princpio ou causa de movimento. Isso provocou nova confuso em torno da distino entre o que passou a ser conhecido 
como as duas "foras externas" - as foras corporais e superficiais. As foras corporais, como a gravidade, atuam atravs de corpos materiais, enquanto as foras 
superficiais so aplicadas por um corpo slido sobre um outro. A ampliao ilegtima do modelo de foras superficiais  explicao de fora como um todo sublinha 
a distino central de Kant entre fora atrativa e repulsiva.
A reflexo filosfica sobre o conceito de fora foi uma constante ao longo da carreira de Kant. Sua primeira obra, FV (1747), define "fora essencial" no como vis 
motrix mas como vis activa - mais como fora ativa do que como fora motivadora. A concepo de Kant de fora essencial, como est claro em 3, combina fora inercial 
e ativa. A "fora essencial" em questo no pode ser matematicamente conhecida (de acordo com a "medida cartesiana"), uma vez que tal conhecimento est restrito 
s aparncias externas do movimento. Sua plena apreciao requer saber metafsico, o qual no est confinado ao movimento externo mas tambm se estende  vis activa 
interna, a qual  uma propriedade de ambas as substncias - a material e a inteligvel. Este ltimo movimento permite a Kant, em 6, ampliar a gama do conceito de 
fora da fsica  psicologia, usando-o para "solucionar" a dificuldade cartesiana do relacionamento entre corpo e alma. Embora haja muitos exemplos dessa metafsica 
da fora nos escritos pr-crticos de Kant, verifica-se tambm uma clara percepo de seus perigos. Em sv, Kant descreve essas foras fundamentais no derivadas 
da experincia como "totalmente arbitrrias" e adverte contra a inveno de "foras fundamentais", em vez de ligar "as foras que j se conhecem atravs da experincia, 
de um modo que  apropriado aos fenmenos" (p.371, p.357). Esse ponto de vista  mais apurado em Dl, onde Kant se manifesta contra a espcie de metafsica da fora 
exemplificada na sua prpria FV: "tantas construes fteis que ignoro quais as foras que as inventaram a seu bel-prazer ... irrompem numa horda de qualquer mente 
arquitetnica ou, se preferem, de qualquer mente com inclinao para as quimeras" (28). Esse desenvolvimento correspondeu  redefinio de Kant da metafsica como 
"uma cincia dos limites da razo humana" (SV p.368, p.354) e sugere sua ulterior definio crtica de fora.
Entretanto, a despeito desse desenvolvimento, a explicao kantiana de fora no escapa inteiramente s suas limitaes iniciais. J em MF (1756), no contexto dos 
estudos sobre fora inercial, Kant apresenta uma distino entre fora atrativa e repulsiva (p.484, p.62). A distino generaliza a ao da fora superficial para 
a "fora ativa" interna e foi ampliada por Kant do domnio da fsica para os fenmenos morais e polticos. A idia da determinao mtua de foras de atrao e repulso 
ofereceu uma til analogia pela qual explicar uma ampla variedade de fenmenos, desde a impenetrabilidade da matria at  "sociabilidade associai" da filosofia 
prtica de Kant.
Em CRP, a fora, a par da ao,  descrita como um conceito derivado da causalidade, um conceito que o entendimento pensa em relao ao corpo (A 20/B 35), particularmente 
a respeito de "sucessivas aparncias, enquanto movimentos, que manifestam [a

158            forma
presena de] tais foras" (A 207/B 252). As prprias foras, entretanto, so para ns "impenetrveis" e inacessveis  observao (A 614/B 642). Kant mantm essa 
posio em PM, exceto que reconhece a a existncia das duas "foras fundamentais" de atrao e repulso. As foras fundamentais esto na raiz do conceito de matria, 
mas no podem ser compreendidas ou explicadas para apresentao numa possvel intuio. Isso significa que no podem ser submetidas a uma anlise matemtica (PM 
p.524, p.78). Mais tarde, porm, em OP, Kant procura articular as foras empricas que fizeram da fsica uma unidade racional e sistemtica. Como a "Transio dos 
princpios metafsicos para os princpios fsicos da natureza", isso deriva um sistema apriori de possveis foras da tbua de categorias e das propriedades gerais 
da matria; a unificao de fora e matria  realizada pelo conceito de ter.
A dependncia kantiana do ter em sua exposio final da fsica filosfica indica as limitaes do seu conceito de fora. Entretanto, a oposio bsica das foras 
fundamentais de atrao e repulso parece ter seduzido Kant por razes mais filosficas do que cientificas, e foi usada por uma razo semelhante nas filosofias da 
natureza de Schel-ling (1813) e Schopenhauer (1813). Hegel analisou de forma crtica a estrutura oposicio-nal do conceito de fora (Hegel, 1812, p.518-23), mas depois 
dele as anlises filosficas e cientfico-naturais de fora divergiram de maneira substancial.
forma ver tambm ARQUTIPO; BELEZA; CATEGORIAS; CONCEITOS DE REFLEXO; FOR-MALISMO; FORMAS DE INTUIO; IDIA; MATRIA; PURO
A anlise das "formas de pensamento"  descrita em 1796a como "o incessante labor e cuidadoso trabalho" (p.404, p.70) da filosofia metafsica. Kant justifica sua 
assero mediante uma descrio histrica do problema da forma em Plato e Aristteles e sua influncia sobre o recentemente elevado tom da filosofia". Kant critica 
Plato por buscar as origens das formas no "entendimento divino" ou "fundamento primordial de todas as coisas", em vez de busc-las em nosso prprio entendimento. 
Na opinio de Kant, isso leva a uma duplicao do mundo em aspectos arquetpicos e ectpicos, o que permite a entusiastas filosficos e religiosos afirmarem um imediato 
conhecimento intuitivo do "verdadeiro mundo" sem terem de se dar ao trabalho de filosofar. Tambm Aristteles  acusado do mesmo delito ao tentar ampliar as formas 
do saber do mundo fsico para o metafsico. Mas  Plato, sobretudo, a quem Kant censura pelo entusiasmo filosfico, muito embora no o faa pessoalmente responsvel 
por isso (p.391, p.54). O "tom recentemente elevado", que Kant deprecia, ou intui misticamente a forma ou a rejeita como "mero pedantismo" ou "fabricao formal" 
(p.404, p.70). Contra ambas essas tendncias, Kant prope o tratamento crtico da forma como uma pura caracterstica a priori da experincia.
Em TN,* Kant cita com aprovao a frmula escolstica/orma dat esse rei ("a forma d a essncia das coisas") e imprime-lhe uma inflexo crtica. Se as coisas em 
questo so "objetos dos sentidos", ento as formas das coisas so as "formas de intuio"
* Encontramos essa citao latina no ensaio "Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Ton in der Philosophie" [Sobre ura ultimamente enaltecido tom nobre em filosofia] 
(AK. vm, p.389-406), em cuja pgina 404 (A 421) l-se: "In derform bestheht das Wesen der Sache (forma dat esse rei), hiess es beiden Scholastikem sofern dieses 
durch Vernunft erkannt werden soll." O mesmo pensamento pode ser encontrado nas Reflexes sobre a metafsica de Baumgarten n05 3.850 e 3.852, AK XVII, p.312. (N.R.T.)
forma             159
identificadas em CRP como espao e tempo. A matemtica, acrescenta ele, nada mais  do que a doutrina das formas da intuio pura. A metafsica, ou "filosofia pura", 
pelo contrrio, est baseada nas "formas de pensamento" onde todo objeto ou "matria de conhecimento" pode ser includo. Essas formas do entendimento so as condies 
da possibilidade de conhecimento sinttico. Em CRP, Kant tambm acrescenta que as "idias de razo" so formas de razo, mas em TN insiste (de um modo nada inconsistente) 
em restringir o emprego formal da razo s leis prticas, nas quais no  o aspecto material de uma ao - seu fim desejado - mas apenas a sua forma o que  moralmente 
significativo. Isso consiste na aptido de uma mxima para ser convertida em lei universal. Ao resumo de Kant da importncia da forma na filosofia terica e prtica 
em TN pode ser adicionado o papel que desempenha em sua filosofia esttica. Em CJ, a qualidade de um juzo de gosto  abstrada da matria do objeto de arte e consiste 
somente em sua "forma de finalidade" (17).
Embora constitua um conceito central na filosofia crtica, a forma no est isenta de ambigidade. Isso resulta, em grande parte, do fato de Kant manter uma distino 
platnica entre forma e matria, ainda que se esforce tambm por super-la: num momento, ele mostra que forma e matria so inseparveis e, no momento seguinte, 
nega que elas estejam, de qualquer maneira, implicadas uma na outra. Assim, numa ocasio, ele pode afirmar em CJ que a qualidade de um juzo de gosto consiste em 
sua pura finalidade de forma, enquanto numa outra mostra que essa forma s pode ser revelada por meio do seu contraste com o "encanto" ou a matria prpria do puro 
juzo de gosto (14). De um modo mais significativo, na anlise dos conceitos de reflexo em CRP, matria e forma so reunidas para "sublinhar toda e qualquer outra 
reflexo", com a matria servindo como "o determinvel em geral [e a forma como a] sua determinao" (A 266/B 322). Mas esto mutuamente implicadas, uma vez que 
a forma como determinao  destituda de sentido sem uma matria para ser determinada. Alm disso, a oposio de forma e matria  analogamente tratada de modo 
exaustivo em outras oposies disseminadas ao longo dos textos de Kant, como as entre forma como pureza e matria como impureza; forma como universalidade e matria 
como particularidade; forma como identidade e matria como diferena; e at forma como sujeito e matria como objeto.
Se forma significa muito pouco fora de sua oposio a matria, ento surgem problemas quando se tenta separar elementos formais e materiais. Esses problemas foram 
elaborados de vrias maneiras por Kant e seus subseqentes seguidores e crticos. Eles podem ser reduzidos, grosso modo, a duas classes afins de problema: a primeira 
diz respeito  subsuno da matria pela forma, a segunda s fontes ou origens da forma. Se a forma no tivesse relao alguma com a matria, se no existisse qualquer 
relao entre determinante e determinvel, ento no haveria conhecimento nem ao moral: pois o conhecimento  conhecimento de aparncias determinveis, e aes 
morais so as de um ser finito determinado. Em face disso, Kant desenvolve alguns anlogos extremamente sutis para a participao platnica, tais como o esquematismo 
e os princpios em CRP e o tpico em CRPr. A anlise do prazer em CJ assinala tambm a tentativa de relacionar aspectos formais e materiais do prazer esttico, embora 
aqui, ocasionalmente, parea que Kant est renunciando  oposio platnica residual de matria e forma, a favor de uma noo mais ampla de "proporcionalidade".
A principal dificuldade que Kant enfrenta nessas partes de sua argumentao consiste em manter a matria em seu lugar, permitindo que se relacione com a forma sem 
se

160            formalismo
tornar insubordinada demais. Esse problema  agravado na anlise de Kant das explicaes das origens da forma. Ele no admite a tese empirista de que a forma pode 
ser derivada por abstrao da experincia da matria; sustenta que a forma precede "as coisas em si" (A 267/B 323) e para tanto restringe o mbito da filosofia crtica 
 anlise de aparncias no espao e no tempo. Mas tambm deseja evitar a posio contrria, a saber, que a forma  de origem puramente racional; isso o exporia ao 
risco de considerar a forma em termos puramente leibnizianos ou wolffianos como uma intuio de perfeio racional, ou em termos malebranchianos como um dom de Deus. 
Kant nutria tambm suas desconfianas a respeito de quaisquer genealogias psicolgicas da forma, quer como idia inata, quer como fruto do sentimento. Suas prprias 
e notoriamente complexas posies derivam a forma da unidade transcendental da apercepo, como em CRP, ou da negociao entre o sujeito e o mundoem CJ e em escritos 
ulteriores.
Os problemas que cercam a noo de forma deram e continuam dando origem e uma considervel soma de comentrios crticos. Como um dos problemas fundamentais da filosofia, 
manter provavelmente sua perenidade, e no s no mbito da crtica de Kant. Inegvel  que Kant, apesar de permanecer centro de uma oposio platnica, redefiniu 
substancialmente os termos do problema, vendo-o como um que abrange a filosofia terica, prtica e esttica, e que tem como seu ponto de partida no o domnio supra-sensvel 
mas a experincia de sujeitos humanos finitos.
formalismo Crtica genrica dirigida freqentemente contra a filosofia crtica, o formalismo adotou diversas formas. As verses vo desde as de Hamann e Hegel at 
s de Nietzsche e Husserl, com mais recentes contribuies da fenomenologia e teoria crtica. Sustenta basicamente que a preocupao de Kant com os aspectos formais 
da experincia e da ao levaram-no a suprimir seus lados materiais e afetivos. A alegada preocupao com a forma leva, como  sustentado por muitos, a uma explicao 
distorcida e parcial da experincia e da ao que no pode justificar inteiramente suas prprias premissas formais e reprime outros aspectos da experincia. A tbua 
de categorias, a lei moral e a "forma de finalidade" esttica so todas citadas como evidncia de uma orientao for-malista.
Muitos filsofos tentaram descrever as origens do alegado formalismo de Kant. Um dos seus primeiros crticos, Hamann, opinou que sua fonte se encontrava na purificao 
da linguagem (ver Hamann, 1967); para Hegel, promanou de uma descrio abstrata e a-histrica da experincia (ver Hegel, 1807); enquanto, para Nietzsche, as origens 
da "vontade de formar" eram imputadas  necessidade dos filsofos ascticos de dominar o corpo e seus afetos (ver Nietzsche, 1886). Tericos crticos, como Adorno, 
viram no formalismo de Kant um exemplo da dialtica do esclarecimento que reduziu a experincia a um clculo formal, o melhor para control-la (ver Adorno e Horkheimer, 
1944). Essa crtica genealgica  acompanhada com freqncia, mas no necessariamente, por uma tentativa de desenvolver uma filosofia no formalista, como a tica 
no formalista (isto , antikantiana)' de Max Scheler baseada em simpatia e outros afetos (Scheler, 1973) e no materialismo antiformal e antiidealista de George 
Bataille (Bataille, 1985).
formas de intuio ver tambm ESPAO; ESTTICA; FORMA; INTUIO; SENSAO; SENSIBILIDADE; TEMPO
Fundamentao da metafsica dos costumes            161
Na primeira parte de CRP sobre "Esttica transcendental", a intuio  definida como a relao imediata de um modo de conhecimento com os seus objetos (A 1 9/B 33). 
O efeito da intuio de objetos sobre a faculdade de representao  a sensao, a qual tem aspectos materiais e formais. A matria da intuio  "a aparncia que 
corresponde  sensao" e a forma "a qual possibilita que o mltiplo da aparncia possa ser ordenado segundo certas relaes" (A 20/B 34). Obedecendo a um processo 
de abstrao que isola  primeiro a sensibilidade do entendimento e depois elimina tudo o que pertence  sensao, Kant deriva as "duas formas puras de intuio 
sensvel, servindo como princpios de conhecimento apriorf (A 22/B 36), que ele identifica como espao e tempo.
foronomia ver tambm DINMICA; FENOMENOLOGIA; MATRIA; MECNICA; MOVIMENTO
Em PM, Kant classifica a cincia da matria e do movimento de acordo com os quatro ttulos da tbua de categorias. Dinmica, mecnica e fenomenologia correspondem, 
respectivamente, a qualidade, relao e modalidade, enquanto foronomia corresponde a quantidade. Como tal, diz respeito apenas aos aspectos quantitativos do movimento 
da matria e foi discutida em PM (p.480-95, p. 18-39).
fronteira ver LIMITE
funo [Funktion] ver tambm APERCEPO; JUZO; LIGAO; REPRESENTAO; SNTESE; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS; UNIDADE
Em CRP, Kant define funo como "a unidade da ao que consiste em ordenar diversas representaes sob uma representao comum". Um tal ato do entendimento  o juzo, 
o "conhecimento mediato de um objeto" ou "a representao de uma representao" (A 68/B 93). Afirma Kant ser possvel descobrir todas as funes do entendimento 
atravs do enunciado das funes de unidade em juzo. Ele as organiza sob os quatro ttulos de quantidade, qualidade, relao e modalidade de juzos, e deriva delas 
a tbua das categorias. Atribui a origem da unidade de uma funo, tambm descrita como a sua capacidade para combinar sinteticamente, " unidade transcendental 
da apercepo" ou  "original e necessria conscincia da identidade de si mesmo" (CRP A 108). No exame de "Fenmenos e noumena", Kant volta a sustentar que tais 
funes de unidade so desprovidas de significado sem uma relao com o objeto, uma vez que fornecem apenas as condies formais de conhecimento que tm de ser complementadas 
por esquemas e princpios.
fundao ver FUNDAMENTO
Fundamentao da metafsica dos costumes Publicada em 1785, FMC foi o primeiro dos trs textos crticos de Kant de filosofia moral. Foi seguido em 1788 pela Crtica 
da razo prtica e em 1797 pela Metafsica dos costumes* Marca um primeiro enunciado dos principais temas da filosofia prtica crtica de Kant, incluindo o dever, 
o imperativo categrico e o livre arbtrio. Difere de CRPr sobretudo em seu mtodo, que  mais analti-
* A traduo correta de Sitten, em Kant, seria "moral" (fundamentao da metafsica da moral), como o fazem corretamente os ingleses. (N.R.T.)

162            fundamento
co do que sinttico. Inicia-se com a "experincia comum" de moralidade como algo conhecido e passa depois s suas fontes no "princpio supremo da moralidade". O 
mtodo analtico empregado explica a organizao do contedo do texto, o qual no obedece ao esquema crtico de "Doutrina dos elementos" e "Doutrina do mtodo". 
O contedo est organizado em trs sees, das quais as primeiras duas envolvem transies "do conhecimento moral da razo vulgar para o conhecimento filosfico 
e da "filosofia moral popular para a metafsica dos costumes". A terceira seo apresenta a transio final da "metafsica dos costumes para a crtica da razo pura 
prtica".
Cada uma das sees procura fixar o "princpio supremo da moralidade" mediante a crtica das suas explicaes prvias e estabelecer as condies de um "bem irrestrito". 
Este ltimo  descrito como uma "vontade boa" que est, no obstante, propensa a "restries ou obstculos" que confluem e se renem sob o conceito de dever. Na 
primeira seo, Kant explica esse princpio por meio de casustica popular, na segunda por uma anlise das formas do imperativo "dever" que acompanha a ao moral. 
Ele distingue imperativos hipotticos e categricos, considerando que somente estes ltimos qualificam-se como morais. Atravs dessa distino, Kant est apto a 
criticar as prvias definies filosficas, tanto "empricas" quanto "racionais", do "princpio supremo de moralidade", por recorrerem a formas do imperativo hipottico. 
Somente o imperativo categrico  a forma autnoma da vontade capaz de testar o carter universalizvel de todas as suas mximas. A terceira seo consiste numa 
reflexo sobre liberdade e autonomia, numa tentativa de responder  pergunta: "Como  possvel um imperativo categrico?" Conclui que os seres humanos so membros 
de dois domnios, o sensvel e o inteligvel. Isso significa que a liberdade da vontade, como propriedade do mundo inteligvel, , rigorosamente falando, ininteligvel 
em termos de nossas formas sensivelmente condicionadas de conhecimento. Assim, o texto conclui, numa nota apropriadamente aportica, que "no concebemos, na verdade, 
a necessidade prtica incondicionada do imperativo moral, mas concebemos, no entanto, a sua inconcebibilidade".
fundamento [arche, aiton, ratio, Grund] ver tambm CAUSALIDADE; CONTRADIO; LGICA; ONTOLOGIA; PRINCPIO; RAZO; TRANSCENDENTAL
Fundamento  um conceito extremamente rico e ambguo que Kant usa em numerosas acepes, incluindo "fundamento formal", "fundamento natural", "fundamento moral", 
"fundamento metafsico" e "fundamento teleolgico", para citar apenas alguns.  freqentemente usado como sinnimo de ratio ou razo, assim como de causa e, em algumas 
ocasies, de princpio. Essa polissemia tem gerado numerosos problemas em torno da traduo do termo alemo, o que, por conseguinte, tornou o uso por Kant ainda 
mais opaco. Entretanto,  possvel identificar trs amplos sentidos em que o termo  empregado: (a) como uma premissa num argumento ou fundamento motivador para 
um juzo; (b) a causa de um efeito; (c) a razo ou inteno para uma ao. Embora cada um desses sentidos compartilhe de um subjacente padro de pensamento com os 
outros, uma ambigidade que Kant explora com freqncia, ele tambm estava interessado em distinguir e estabelecer fronteiras entre eles.
O motivo de Kant para explorar e esclarecer a ambigidade em torno de fundamento pode ser atribudo  sua oposio crtica ao que era conhecido como a "filosofia 
Leibniz-Wolff". Wolff, em particular, fundou todo o seu sistema filosfico nas ambigi-
fundamento             163
dades do termo fundamento, usando-o para unir os campos da lgica, metafsica, tica e poltica num sistema racionalista. Kant ops-se sistematicamente a esse projeto 
ao longo de toda a sua carreira, desde ND (1755) at SD (1790), e o foco de sua crtica foi precisamente a noo ambgua de fundamento.
Em ND, Kant define fundamento como o "que determina um sujeito a respeito de qualquer de seus predicados" ou que "estabelece uma conexo e uma conjuno entre o 
sujeito e algum predicado ou outro" (ND, p.392, p.l 1). Sublinha ele que o fundamento "requer sempre" um sujeito e um predicado que pode ser atribudo ao sujeito. 
A relao de sujeito e predicado  o padro de pensamento subjacente nos sentidos lgico, ontolgico e prtico de fundamento. Kant passa depois a distinguir entre 
fundamentos "antecedentemente" e "conseqentemente" determinantes, sendo o primeiro o "fundamento ontolgico por qu, ou o fundamento de ser ou devir", enquanto 
o segundo  o "fundamento lgico e epistemolgico isso, ou o fundamento de saber" (ibid.). Essa distino  expressamente usada por Kant para criticar "o ilustre 
Wolff por elidir o fundamento ontolgico e lgico com a implicao de que essa eliso compromete todo o seu sistema racionalista.
No seria um exagero excessivo considerar a subseqente obra filosfica de Kant como a tentativa de estudar sistematicamente em todos os seus detalhes as implicaes 
de rejeitar a unidade do fundamento lgico e ontolgico (sumariamente, saber e ser) sem abandonar, porm, a cincia ao misticismo,  maneira de Crusius (ver Caygill, 
1989, p.207-11). Em CRP, Kant aprova o mtodo de Wolff, embora criticando sua afirmao dogmtica de que a distino entre  sensvel e o inteligvel erajneramente 
lgica e no transcendental (ver CRP xxxvii e A 44/B 61). Em vez da eliso dos fundamentos de saber e ser, Kant separa-os a fim de explorar os parmetros de seu 
correto relacionamento. Um resultado dessa investigao foi a distino entre fundamentos reais e lgicos (refletindo a distino entre fundamentos antecedentemente 
e conseqentemente determinantes), com os primeiros subdivididos, ainda, de acordo com o "fundamento formal-real" ou a intuio de um objeto, e o "fundamento material-real" 
ou a existncia de um objeto (ver a carta a Reinhold de 12 de maio de 1789, descrevendo em linhas gerais a natureza da incompreenso de Eberhard em relao  filosofia 
crtica, CFI, p. 139). Um outro resultado foi a distino entre fundamentos real e lgico e o fundamento prtico. Os fundamentos da ao no podem ser subordinados 
a nenhum destes ltimos, uma vez que isso restringiria a liberdade de ao (uma crtica repetidas vezes endereada contra Wolff no sculo XVIII). Assim, os fundamentos 
prticos so "os fundamentos da razo [que] determinam as aes universalmente, de acordo com princpios, sem influncia de circunstncias de tempo ou lugar" (P 
53).
Os aspectos tericos da anlise crtica do fundamento so expressos por Kant em sua rplica s objees leibnizianas de Eberhard ao programa de CRP. Kant identifica 
em Eberhard uma eliso do "princpio lgico (formal) do conhecimento" de que "toda proposio deve ter um fundamento" subordinado ao "princpio de contradio", 
com o "princpio transcendental (material)" de que "todas as coisas devem ter seu fundamento" subordinado ao princpio da razo suficiente (SD p. 193-4, p. 113-14). 
Portanto, Kant insiste repetidamente na separao dos dois sentidos de fundamento, restringindo o ltimo aos "objetos de intuio sensvel" (SD p. 194, p. 113). 
A ordem de saber e a de ser esto relacionadas, mas de um modo muitssimo mais complexo do que o admitido por sua simples eliso. A CRP demonstrou ser a experincia 
impossvel sem a "harmonia entre

164            futuro
entendimento e sensibilidade" na medida em que isso possibilita um conhecimento apri-ori de leis universais", mas no fornece qualquer razo para elucidar por que 
"duas fontes de conhecimento que so, em tudo o mais, completamente heterogneas, concordam sempre to bem para permitir o conhecimento emprico" (SD p.250, p.159). 
Os dois entendimentos de fundamento concordam, mas as bases para esse acordo no podem ser facilmente identificadas, muito menos pressupostas.
A discusso em torno do fundamento continuou depois de Kant e provocou um esplndido ensaio e uma recapitulao histrica do tpico por Schopenhauer (1813). Nele, 
mostrou que o problema do fundamento  uma refrao de um problema filosfico fundamental a respeito das relaes entre ser e logos. Essa posio tambm informa 
as reflexes de Heidegger sobre o problema de fundo em Fundamentos metafsicos da lgica (1928), onde prope uma explicao para as relaes entre fundamento lgico, 
real e prtico ou, em seus prprios termos, razo, causa e inteno. Para ele, isso consiste na relao entre logos e techne, ou em se "estar empenhado no mundo 
em produzir um ser a partir de um outro" {techne) e se estar empenhado em falar um com o outro (logos) (p. 118).
futuro ver ESPERANA; FINITUDE; HISTRIA; IMAGINAO; MEMRIA; TEMPO
G
Gemt ver NIMO
gnero \genos, genus, Gattung] ver tambm CONTINUIDADE; DEFINIO; DETERMINAO; ESSNCIA; HOMOGENEIDADE
Um gnero  um "tipo" ou "classe" e  usualmente empregado em conjunto com o termo espcie. Originalmente desenvolvida pelos gregos, a noo de gnero tinha significado 
ontolgico e lgico. Em Plato, gnero  freqentemente usado como sinnimo de "idia" e no Sofista diz-se que a diviso de idias de acordo com o gnero define 
a "dialtica" (Plato, 1961, Sofista 253b). Em Aristteles, o significado ontolgico de gnero  minimizado a favor de suas propriedades lgicas de predicao. A, 
o gnero  especificado, ou determinado, em espcies por meio de uma diferena especfica, a qual articula internamente o gnero. No mbito dessa estrutura predicativa, 
Aristteles apresentou as categorias como aqueles gneros ltimos de ser que no podiam ser derivados de gneros superiores. As possibilidades ontolgicas dessa 
perspectiva foram desenvolvidas por metafsicos neoplatnicos, como Plotino, numa viso hierrquica, emanatista, da participao das idias e seres individuais. 
Isso teve uma enorme influncia sobre a filosofia medieval, a qual, em termos gerais, foi deliberadamente ambgua entre os sentidos lgico e ontolgico de gnero. 
Santo Toms de Aquino, por exemplo, identificou quatro sentidos de gnero: o primeiro, como o sentido do princpio que gera espcies; o segundo, como arche ou primeiro 
gerador ou causa; o terceiro, como o "sujeito" subjacente de acidentes pertencentes a diferentes espcies; e o quarto, como o que  enunciado primeiro numa definio 
e do qual diferenas especficas so qualidades (isto , gnero = animal; diferena especfica = racional/no-racional; definio = "animal racional", a saber, "homem").
A discusso explcita de gnero e espcie por Kant  razoavelmente limitada, estando confinada a L e CRP; entretanto, o esquema est implicitamente pressuposto em 
toda a sua filosofia. Em L, Kant descreve conceitos em termos de gnero e espcie, e assinala a "subordinao de conceitos" ou sua propriedade de serem gnero e 
espcie: "Um conceptus communis  denominado gnero em relao aos conceitos que esto contidos nele, mas espcie a respeito dos conceitos sob os quais ele est 
contido" (L p.191). Esta abordagem da articulao de conceitos em termos de gnero e espcie  mais desenvolvida nas reflexes de Kant sobre a completude sistemtica 
do saber em CRP.  uma condio do emprego da razo que diferentes indivduos possam ser reunidos sob espcies e

166            gnio
as espcies sob gneros. Isso d origem aos trs princpios regulativos da razo: homogeneidade, especificao, continuidade. O primeiro  o princpio genrico, 
o segundo o especfico e o terceiro aquele que permite a passagem da homogeneidade do gnero para a variedade das espcies (CRP A 658/B 686).
Ao longo de toda a sua obra, as consideraes de Kant sobre juzo terico, prtico e esttico so expressos em termos de subsuno sob gneros universais - quer 
categorias, leis ou regras - e discriminao de diferenas especficas em exemplos e casos particulares. Muitos dos mais interessantes problemas que surgem em sua 
obra podem ter sua origem em dificuldades geradas pelo esquema, dificuldades essas que tm uma longa ascendncia filosfica. O esquema tambm informa a sua discusso 
da classificao de animais - e, com efeito, a sua classificao de seres humanos em raas distintas.
gnio [Genie] ver tambm ARTE; BELEZA; ESTTICA; EXEMPLO; IMAGINAO; IMITAO; ORIGINALIDADE
As principais discusses do gnio por Kant encontram-se em A e em CJ 46-50. Para ele, a caracterstica essencial do gnio  a originalidade, e um gnio , pois, 
algum que "faz uso da originalidade e produz por si mesmo o que deve ser comumente aprendido sob a orientao de outros" (A 6). Originalmente, ele prprio tem 
dois aspectos: o primeiro  a "produo no imitativa" (A 30); o segundo  "descobrir o que no pode ser ensinado ou aprendido" (A p.318, p.234). No primeiro, o 
gnio no imita a natureza nem outros artefatos; no ltimo, o gnio mostra uma competncia que no pode ser ensinada ou de algum modo transmitida a outros. Tal originalidade, 
embora rara,  potencialmente "fantica", uma vez que, por definio, no  disciplinada por um objeto nem por um cnone. Por conseguinte, Kant procura limit-la 
ao propor que "a originalidade de imaginao chama-se gnio quando em harmonia com conceitos" (30), um pensamento que ele expandiu em CJ.
Em CJ, Kant rene os vrios aspectos de gnio propostos em A. O gnio  ainda definido em termos de originalidade, mas esta  agora descrita como "um talento para 
produzir aquilo para o qual no pode dar-se nenhuma regra determinada" (CJ 46). Esse talento  limitado pela exigncia de que as suas criaes sejam exemplares, 
de que "embora no tenham nascido elas prprias da imitao, devem servir, porm, a tal propsito para outros" (ibid.). Alm disso, um gnio no pode indicar a regra 
que o inspirou para criar o seu produto, o qual  prescrito  arte pela natureza. Kant distingue depois entre imitar e seguir obras de gnio: o primeiro  "servil", 
ao passo que o ltimo envolve um seguidor que "coloca seu prprio talento  prova" e permite que o produto de gnio provoque "idias originais" nele. Por conseguinte, 
as belas-artes, ou o produto de gnios, apresentam idias estticas" que so representaes da imaginao-uma "segunda natureza [criada] a partir do material que 
lhe  fornecido pela natureza efetiva" - as quais excitam "um grande nmero de representaes afins" (CJ 49). A idia esttica  produzida por, e provoca, uma harmonia 
das faculdades da imaginao e do entendimento que  caracterstica do gnio.
Atravs de Goethe e dos primeiros romnticos, as idias de Kant sobre o gnio foram sumamente influentes no incio do sculo XIX. Tambm passaram por uma ampla reavaliao 
a partir da dcada de 1980. Isso foi devido a uma crescente sensibilidade para as implicaes polticas de CJ e, em particular, para as sugestes de formas no hierrqui-
guerra             167
cas de juzo poltico subentendidas nas descries de juzo reflexivo e gnio. As noes de originalidade e exemplaridade discutidas no contexto de gnio foram desenvolvidas 
na direo de uma forma no subsuntiva de legislao e juzo poltico por autores da estirpe de Castoriadis (1987) e Lyotard (1991).
geografia ver tambm ANTROPOLOGIA DE UM PONTO DE VISTA PRAGMTICO; HISTRIA - Em seu Anncio da Organizao de suas Lies no Semestre do Inverno de 1765-1766, Kant 
descreve como, no incio de sua carreira, tentou prover os estudantes com um "conhecimento de matrias histricas que pudesse compensar sua falta de experincia". 
Preparou, para esse efeito, um curso de geografia fsica, o qual refletiu o seu interesse, durante a dcada de 1750, por problemas tais como as razes para mudanas 
na rotao da Terra, a idade da Terra e as causas dos abalos ssmicos. Em 1765, dividiu a matria de suas lies de acordo com a geografia fsica, moral e poltica, 
com a primeira tratando das "relaes naturais existentes entre todos os pases e mares do mundo", a segunda do "homem" e a terceira da interao das duas primeiras 
na "condio dos estados e naes nas diversas partes do mundo" (p.312, p.299). No subseqente desenvolvimento de seu ensino, a segunda parte do curso foi separada 
das outras para formar as lies sobre antropologia, publicadas em 1798 como Anthropologie in pragmatischer Hinsicht (Antropologia de um ponto de vista pragmtico), 
seguindo-se em 1802 as lies sobre geografia fsica editadas por F.T. von Rink como Physische Geographie.
Na introduo escrita para as lies sobre geografia fsica, Kant esclarece que o seu objeto de estudo complementa a antropologia como parte do conhecimento do mundo. 
Atribui  antropologia tudo o que  revelado ao sentido interior ou "alma do homem", ao passo que a geografia fsica trata dos objetos do sentido exterior ou "conhecimento 
da natureza... ou descrio da Terra". Kant distingue tambm a geografia da histria, desta vez em termos da descrio de tempo e espao: a histria trata dos acontecimentos 
que ocorrem sucessivamente no tempo, a geografia das "aparncias sob o aspecto espacial que ocorrem simultaneamente". A geografia fsica, entretanto,  o alicerce 
da histria, assim como todas as outras formas de geografia que Kant enumera, como: "geografia matemtica", "geografia moral", "geografia poltica", "geografia comercial" 
e "geografia teolgica". Alm desse tratamento explcito da geografia em suas lies,  interessante assinalar a confiana de Kant em termos e metforas geogrficos 
em sua mais estritamente definida obra filosfica.
geometria ver MATEMTICA
gosto  ver BELEZA; ESTTICA; JUZO; JUZO REFLEXIVO
graa ver F
guerra [Krieg] ver tambm DISPUTA; ESTADO; FEDERALISMO; PAZ Em MC, Kant descreve cada estado como "vivendo em relao a um outro estado na condio de liberdade 
natural e, portanto, numa condio de guerra constante" (p.343, P-150). Os direitos de estados em seu relacionamento recproco dizem respeito  entrada em guerra, 
suas aes durante as guerras e seu direito aps a guerra "a coagir a outra parte a renunciar s condies de guerra e a formar assim uma constituio que estabelea

168            guerra
paz duradoura (p.343, p. 150; ver tambm PP). Para Kant, a guerra  o meio pelo qual um estado faz valer seus direitos em relao a outros estados atravs de sua 
prpria fora; so fundamentos para um estado recorrer  guerra no s tais violaes ativas como "primeira agresso" ou "um estado encarregar-se de obter satisfao 
por um delito cometido contra a sua populao pela populao de um outro estado" (MC p.346, p. 153), mas tambm a hostilidade ameaadora. Isto inclui os preparativos 
de um outro estado para a hostilidade ou at mesmo "o recrudescimento ameaador do poderio de um outro estado" (ibid.). Os direitos de um estado  guerra incluem 
o uso de quaisquer meios de defesa exceto aqueles "que deixariam seus sditos incapacitados para ser cidados", e quaisquer meios exceto aqueles que "destruiriam 
a confiana requerida para o estabelecimento de uma paz duradoura no futuro", como o uso de seus sditos para fins de espionagem, assassinato e a divulgao de informaes 
falsas (p.347, p.154). Na conduo de uma guerra,  permitido "exigir suprimentos e contribuies" de um inimigo mas no saquear a sua populao, visto que para 
Kant a populao e o estado no so a mesma coisa. Considerou a guerra a fonte dos "maiores males que oprimem as naes civilizadas" (CHH p.121, p.231), e no tanto 
a guerra efetiva quanto "a preparao incessante, na verdade, em constante aumento, para a guerra no futuro" (ibid.). Assinalou prescientemente que todos os "recursos 
do estado, e todos os frutos de sua cultura que poderiam ser usados para valorizar ainda mais essa cultura, so dedicados quele fim" com o adicional e infeliz resultado 
de que "a liberdade sofre grandemente em numerosas reas" (CHH p.121, p.232).
H
hbito ver tambm ARTE; CULTURA; MOTIVO; NATUREZA; SENSIBILIDADE; SENTIMENTO
Kant apresenta este termo em sua discusso do sentimento moral em E, usando-o para colocar os impulsos da sensibilidade sob o domnio das regras morais do entendimento. 
 um dos meios pelos quais "o entendimento podia levar a sensibilidade  submisso e induzir-lhe motivos para esta" (E p.46). Acredita Kant que, como os seres humanos 
no esto naturalmente dispostos para esse resultado desejvel,  aconselhvel "produzir um habitus, o qual no  natural mas toma o lugar da natureza, e  produzido 
por imitao e prtica assiduamente repetida" (E p.46). Kant desenvolveu esse pensamento em sua ulte-rior teoria da cultura, em CJ, e em seus escritos sobre educao. 
Uma sugestiva afinidade pode ser tambm detectada entre o hbito e a obra de arte, a qual tambm  uma "segunda natureza [criada] a partir do material que lhe  
fornecido pela natureza efetiva" (CJ 49). Comum a ambos  um sentido de cultivo-no primeiro caso da natureza interior e no segundo, da natureza sem a pessoa-atravs 
de atividade livre mas tambm disciplinada.
heautonomia ver tambm AUTONOMIA; HETERONOMIA; JUZO; JUZO REFLEXIVO Heautonomia  um princpio do juzo reflexivo de acordo com o qual o sujeito concede-se uma 
lei "no  natureza (como autonomia) mas a si mesmo (como heautonomia), a fim de guiar sua reflexo sobre a natureza" (CJ Introduo V). Pode ser descrita como 
"a lei da especificao da natureza", no  "conhecida apriori" e, assim, aplicada  natureza  maneira de uma lei cientfica. Trata-se, antes, de uma regra usada 
pelo juzo para facilitar suas investigaes da natureza - "encontrar o universal para o particular que lhe  apresentado pela percepo" - e relacionar as leis 
universais do entendimento com as leis empricas especficas da natureza.
heterogeneidade ver HOMOGENEIDADE
heteronomia ver tambm AUTONOMIA; CAUSALIDADE; FELICIDADE; INCLINAO; LEGISLAO; LEI; PERFEIO; VONTADE
Em FMC, Kant estabelece o contraste entre a liberdade da vontade manifesta em autonomia e a dependncia da vontade de causas e interesses externos ou heternomos. 
A lei moral sob a heteronomia s seria vlida por causa do interesse que tivssemos em obedecer-lhe, o que eqivaleria  "dependncia da razo prtica para com a 
sensibilidade, isto

170            hipottico
, para com um sentimento subjacente por fora do qual a razo nunca poderia ser moralmente legislativa" (FMC p.461, p.60). Kant considerava que uma importante parcela 
da prvia filosofia moral baseava-se em princpios heternomos que atuam "como um estmulo atraente ou como uma fora que coage  obedincia" (FMC p.433, p.39). 
Por conseguinte, ele contrasta o seu "princpio da autonomia da vontade" com "todo e qualquer outro princpio, o qual incluirei, portanto, sob a heteronomia" (ibid.). 
Tais princpios heternomos podem ser empricos ou racionais; os primeiros, "aduzidos do princpio de felicidade, esto baseados no sentimento fsico ou no moral", 
enquanto os segundos, aduzidos do princpio de perfeio, "baseiam-se no conceito racional de perfeio como efeito possvel da nossa vontade ou ento no conceito 
de uma perfeio independente (a vontade de Deus) como causa determinante da nossa vontade" (p.442, p.46).
hipottico ver tambm APODCTICO; DISJUNTIVO; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; JUZO; RELAO .
Juzos e imperativos hipotticos desempenham um papel considervel na filosofia terica e prtica de Kant. Em CRP, os juzos hipotticos formam o segundo grupo dos 
juzos de relao na tbua de juzos, aps os juzos categricos e antes dos juzos disjuntivos (A 70/B 95). OS juzos categricos dizem respeito s relaes de 
sujeito e predicado, os disjuntivos s relaes entre juzos distintos, ao passo que os hipotticos tratam da relao entre fundamento e sua conseqncia. A forma 
dos juzos hipotticos relaciona duas proposies, sendo a primeira a hiptese e a segunda a conseqncia, como em "Se existe uma justia perfeita, o obstinadamente 
mau ser punido" (CRP A 73/B 98), onde se relaciona uma primeira proposio hipottica com a sua conseqncia na segunda proposio. O imperativo hipottico obedece 
a uma forma semelhante. Em FMC, Kant diz que todos os imperativos ordenam categrica ou hipoteticamente. Os imperativos hipotticos "representam a necessidade prtica 
de uma ao possvel como meio de alcanar qualquer outra coisa que se quer (ou que  possvel querer-se) (FMC p.414, p.25). Kant divide os imperativos hipotticos 
nos de habilidade e de prudncia. Os imperativos de habilidade apontam um curso de ao que alcanar um objetivo possvel e so de natureza "tcnica (pertencentes 
 arte)", enquanto os de prudncia apontam os meios para se alcanar um determinado fim e so "pragmticos" (pertencentes ao bem-estar)" (FMC p.417, p.27). Distintamente 
dos imperativos categricos, os hipotticos esto interessados "na matria da ao e seu pretendido resultado" e so, portanto, determinados de modo heteronmico.
hipotipose ver tambm ACROAMAS; ANALOGIA; APRESENTAO; CONSTRUO; ES-QUEMA(TISMO)
A discusso formal de hipotipose ocorre em CJ 59, mas o termo aparece em toda a sua filosofia sob a forma de "apresentao" ou a interpretao de conceitos e idias 
como "sensibilizao". Tal apresentao  dupla, diferindo segundo seja um conceito ou uma idia que est sendo interpretada. No primeiro caso, a apresentao de 
um conceito  es-quemtica, "quando a um conceito que o entendimento compreende  dada apriori a intuio correspondente", enquanto no segundo caso ela  simblica, 
"quando o conceito  um que s a razo pode pensar, e ao qual nenhuma intuio sensvel pode ser adequada" (CJ, 59). A primeira forma de hipotipose d origem a 
esquemas ou apresentaes "diretas" e "demonstrativas", a segunda gera smbolos, que so apresentaes indiretas regi-
histria             171
das por analogia. Kant analisou a hipotipose esquemtica em maior detalhe no captulo "Esquematismo" da CRP e assim, em CJ concentrou-se na sua operao simblica. 
Esta ltima consiste "em aplicar primeiro o conceito ao objeto de uma intuio sensvel e depois, em segundo lugar, aplicar a simples regra da reflexo sobre aquela 
intuio a um objeto totalmente distinto, do qual o primeiro  apenas o smbolo" (CJ 59). Os seus exemplos de hipotipose simblica incluem: a analogia entre o estado 
adequadamente constitudo e um corpo animado de vida; um estado desptico e uma mquina simples, por exemplo, um moedor manual de gros; conceitos filosficos tais 
como fundamento, dependncia, fluxo "e inmeros outros"; todo o conhecimento de Deus; e, finalmente, a analogia entre beleza e o moralmente bom. Essa passagem tornou-se 
particularmente importante para aquelas interpretaes de Kant no sculo xx que sublinham o papel da indeterminao em suas definies de juzo e mtodo.
histria ver tambm CULTURA; GEOGRAFIA; HUMANIDADE; SABER; TEMPO No conceito de Kant, a histria pode ser dividida em duas grandes subespcies, a primeira indicando 
uma forma de saber, a segunda um padro de informao sobre os eventos da histria natural e humana. No que se refere  primeira, Kant adota a distino wolffia-na 
entre conhecimento "racional" e conhecimento "histrico". Usando um dos exemplos de Wolff, ele distingue em P entre o conhecimento histrico do fato de que o sol 
aquece uma pedra e o entendimento racional do que causa isso (P 20). Nas palavras da CRP, "o conhecimento histrico  cognitio ex datis e o racional cognitio ex 
principiis" (A 836/B 864). Entretanto, dentro dessa diviso de formas de conhecimento, Kant estabelece novas distines. Na introduo s suas lies de geografia 
fsica, ele define histria como um relato de acontecimentos que se sucederam ao longo do tempo e a geografia como um relato de acontecimentos que ocorrem simultaneamente 
no espao: o primeiro relato  uma narrativa, o segundo uma descrio. O prprio Kant ofereceu muitas de tais narrativas, incluindo as histrias resumidas do judasmo 
e cristianismo em RL (p. 124-26, p. 115-28), da lgica na "Lgica de Jsche" (L p.531 -5) e da razo pura em CRP (A 852/B 880 e ss.).
A segunda diviso principal do conceito de histria em Kant envolve a filosofia da histria ou a reelaborao da teodicia tradicional. A atitude de Kant em relao 
 filosofia da histria foi nitidamente ambgua: criticou severamente os Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit (Idias para uma filosofia da histria 
da humanidade) (1784-1791) e escreveu ao mesmo tempo um ensaio "Sobre o fracasso de todos os ensaios filosficos na teodicia" (1791), enquanto, ao mesmo tempo, 
reconhecia claramente em IHU as virtudes de uma filosofia da histria. A descreve a histria como fornecendo um relato de aes humanas em termos das "manifestaes 
da vontade no mundo dos fenmenos" a fim de, atravs do exame de "o livre exerccio da vontade humana em grande escala - descobrir-se uma progresso regular entre 
aes livremente deliberadas" (IHU p.17, P-41). A finalidade de tal relato  mostrar "que o que nos impressiona como fortuito e confuso nas aes de indivduos pode 
ser reconhecido na histria da espcie inteira como um desenvolvimento lento mas em constante avano das capacidades originais da humanidade". Atravs disso, os 
indivduos perceberiam "estar promovendo inconscientemente um fim que, se soubessem qual era, mal despertaria o seu interesse" (ibid.).

172            histria da filosofia
Essa abordagem da filosofia da histria complementa a tentativa de Kant de desenvolver uma descrio da cultura, mormente na segunda parte de CJ onde  inserida 
no contexto de uma anlise do "fim ltimo da natureza como sistema teleolgico". Cumpre acrescentar, entretanto, que essa viso teleolgica da histria tem paralelo 
numa outra viso da histria que a considera o resultado de cortes epistemolgicos e inovaes anunciados pela genialidade e o entusiasmo.  esta ltima viso, relativamente 
pouco desenvolvida no prprio texto de Kant, a que se tornou cada vez mais importante na contempornea filosofia da histria.
histria da filosofia ver tambm ANFIBOLOGIA; CONCEITOS DE REFLEXO; DISPUTA; FILOSOFIA; FILOSOFIA CRTICA; RAZO
Embora Kant afirme, no Prefcio de CRP, estar criticando "a faculdade da razo em geral" e no "livros e sistemas", a histria da filosofia desempenha, no obstante, 
um papel importante em sua filosofia. Os "livros e sistemas" da histria da filosofia esto onipresentes em CRP e so at explicitamente citados em suas pginas 
finais sobre "A histria da razo pura". Entretanto, Kant trata sistematicamente os filsofos histricos como se todos fossem seus contemporneos, manifestando lhes 
respeito no em virtude de serem histricos mas somente na medida em que contribuem para a filosofia crtica. Seu princpio interpretativo, ou "chave para a interpretao 
de todos os produtos da razo pura" (declarao feita ao trmino de sua polmica com Eberhard)  a "crtica da prpria razo". Enquanto os "historiadores da filosofia, 
com todos os seus louvores intencionais, somente atribuem meros absurdos", ele, com a chave crtica, est apto a reconhecer, para alm do que os filsofos efetivamente 
dizem, o que eles pretendiam realmente dizer" (SD
p.251,p.l60).
A mais sistemtica exposio da histria da filosofia por Kant encontra-se em sua introduo s lies de lgica. Para as linhas gerais de sua histria, Kant tem 
dvidas para com aHistoire abrge de laphilosophie (1760), de J.H.S. Formey, e Historia philoso-phia (1724), de F. Gentzke, embora estivesse naturalmente familiarizado 
com muitas fontes originais. Seu relato est imbudo do preconceito iluminista de que a filosofia originou-se com os gregos e mal se vislumbra no antigo pensamento 
chins, persa, egpcio e rabe. Tambm reflete o preconceito de que a inovao filosfica estava confinada, em grande medida, aos perodos clssico e moderno, com 
os escolsticos medievais sendo traduzidos como imitadores "servis" de Aristteles e proponentes do "pseudofilosofar' (L p.543). Entretanto, em seu tratamento da 
histria da filosofia clssica e moderna, Kant expressa algumas preferncias surpreendentes e formula alguns juzos inesperados.
O exame de Kant dos filsofos pr-socrticos , com uma exceo, sumrio e sem entusiasmo; o nico filsofo que merece uma discusso mais extensa  Pitgoras. Considera 
"a mais importante poca da filosofia grega" a iniciada com Scrates e louva a "nova direo prtica" inaugurada por sua obra (L p.542). Quando descreve a sucesso 
filosfica de Scrates, Kant no compartilha do moderno fascnio por Plato e Aristteles, mas d igual, seno maior peso s escolas filosficas helensticas dos 
esticos, epi-curistas e cticos. Em relao a estes, revela um conhecimento sutilmente diferenciado e pormenorizado, tanto em suas respectivas doutrinas quanto 
nas diferenas entre elas. Sua preferncia tambm  evidente em sua obra critica, onde as referncias a Epicuro excedem as referncias a Plato. Interpretaes recentes 
tendem, porm, a focalizar os ele-
histria da filosofia             173
mentos platnicos no pensamento de Kant, talvez porque esses correspondem aos nossos pressupostos sobre o que  importante na histria da filosofia. Entretanto, 
o prprio procedimento crtico, a exposio do cnone e da prolepse na CRP, assim como do prazer e Gemt em CJ, so tomados diretamente de Epicuro. As referncias 
aos esticos e cticos antigos tambm so abundantes em toda a sua obra, mas foram eclipsadas pelo subseqente enfoque interpretativo em Plato e Aristteles.
O papel que Kant confere a Plato na histria da filosofia  extremamente ambguo. Em CRP, elogia a Repblica de Plato e o seu modelo de filsofo (A 316), mas v 
considervel perigo na noo platnica de idias transcendentes. A oposio de Kant a esse aspecto do pensamento de Plato foi deflagrada e alimentada por sua oposio 
ao misticismo platnico de alguns de seus contemporneos. Isso  evidente em seus ltimos textos sobre histria da filosofia, "Sobre um ultimamente enaltecido tom 
nobre em filosofia" e "Anncio da prxima concluso de um tratado de paz eterna em filosofia" (ambos de 1796). Nesses textos, Kant distingue entre as tendncias 
filosficas e mistaggicas no platonismo, vendo estas ltimas exemplificadas no antigo e no moderno neoplatonismo (ver 1796a, p.399, p.64). Aristteles figura principalmente 
nos escritos de Kant como o inventor da lgica, e embora mostre estar ao corrente de outros aspectos do pensamento do Estagirita, o seu entusiasmo  nitidamente 
limitado.
Quando se ocupa da filosofia moderna, Kant refere-se repetidamente  Reforma, traando um paralelo entre a reforma da Igreja e a da filosofia. Bacon e Descartes 
so destacados, o primeiro por sua nfase sobre a experimentao e a observao, o segundo por seu critrio de verdade: mas os "maiores e mais meritrios reformadores 
da filosofia no nosso tempo" (L p.543) foram Leibniz e Locke. Kant ope Leibniz e Locke em numerosos pontos, sobretudo em CRP. Com efeito, muitos de seus primeiros 
escritos polemizam com Leibniz e a escola de filosofia "leibniziana" liderada por Christian Wolff. O consistente objeto da crtica de Kant era o contnuo estabelecido 
por Leibniz entre sensibilidade e razo: isso contrastava com o argumento de Locke, que abstraa a razo da sensibilidade atravs da reflexo. Embora ambas as posies 
parecessem diametralmente opostas, Kant considerou que ambos participavam da confuso de sentido e razo.
Em CRP, Kant rene a filosofia clssica e moderna a fim de apresentar um drama da razo pura. Um exemplo  a histria do declnio, queda e ressurreio da metafsica 
analisada no primeiro Prefcio. Sob os "dogmticos", o governo da metafsica foi desp-tico; redundou em anarquia sob o ataque dos nmades cticos; a tentativa de 
Locke de pr fim  controvrsia no teve xito, e com o triunfo da cincia newtoniana surgiu a indiferena por questes metafsicas. Diante dessa indiferena, a 
CRP representa um chamado  ordem e o estabelecimento de um tribunal metafsico. Essa "histria poltica" do governo da filosofia, apresentada no incio de CRP, 
contrasta com a histria "revolucionria" no seu final. A, na "Histria da razo pura", Kant faz a histria da filosofia do seu tempo identificando as trs questes 
controvertidas do "objeto do conhecimento", da "origem do conhecimento" e do "mtodo" da filosofia. No que diz respeito  primeira questo, Kant distingue entre 
"sensualistas", como Epicuro, e "idealistas", como Plato; no que se refere  segunda, Kant distingue entre a escola empirista de Aristteles e Locke, e os "noologistas" 
Plato e Leibniz; e no tocante ao mtodo, Kant distingue primeiro entre os mtodos "cientfico" e "naturalista" (qualificando este ltimo como "simples misologia") 
e depois distingue entre o mtodo cientfico dogmtico representado por

174            homogeneidade
Wolff e o mtodo cientfico ctico representado por Hume. Embora ele aponte filsofos individuais, eles no so outra coisa seno representantes de um drama da razo 
no qual figuraram outros participantes, cujos nomes [Kant] "se dispensa de mencionar" (CRP A 856/B 884), e que culmina na filosofia crtica.
homogeneidade ver tambm CONTINUIDADE; GNERO; PRINCPIOS E IDIAS REGULA-TIVOS
A homogeneidade a par de continuidade e variedade constituem os trs princpios regu-lativos da razo que "preparam o campo para o entendimento" numa elaborao 
sistemtica da experincia.  uma das "regras antecedentes da razo", sem a qual o entendimento no poderia funcionar, uma vez que Kant argumenta "s haver entendimento 
possvel para ns se supusermos diferenas na natureza, assim como tambm s o h sob a condio de os objetos da natureza mostrarem homogeneidade" (A 657/B 685). 
Embora o princpio de variedade declare que o mltiplo  diferenciado de acordo com "espcies inferiores", o princpio de homogeneidade afirma que o mltiplo  homogneo 
de acordo com "gneros superiores". Os dois princpios so fundidos num terceiro e manifestamente mais fundamental princpio de continuidade. Os princpios tambm 
correspondem a leis transcendentais que no so objetos de experincia, nem acessveis  deduo, mas que, no obstante, "possuem, como proposies apriori sintticas, 
validade objetiva porm indeterminada, e servem como regras para a experincia possvel" (A 663/B 691). A lei da homogeneidade "impede a disperso na multiplicidade 
de diversos gneros originrios e recomenda que prestemos a devida ateno  homogeneidade", enquanto a da variedade, "por sua vez, restringe esse pendor para a 
uniformidade e impe uma distino das sub-espcies, antes de nos voltarmos para os indivduos com o nosso conceito geral" (CRP A 660/B 688). Finalmente, a lei da 
continuidade combina as duas anteriores, "prescrevendo a homogeneidade na mxima multiplicidade pela transio gradual de uma espcie para outra" (ibid.).
humanidade ver tambm COMUNICABILIDADE; CULTURA; HISTRIA; IMPERATIVO; PESSOA; SOCIABILIDADE
Humanidade  definida em CJ 60 como, "por uma parte, o sentimento universal de simpatia e, por outra, a faculdade de pode comunicar-se universal e interiormente 
- propriedades ambas que, unidas, constituem a sociabilidade prpria da espcie humana, em contraste com o isolamento dos animais inferiores". Em RL  mantida a 
distino entre humanidade e animalidade, mas complementada por uma distino adicional entre humanidade e personalidade. Kant identifica trs disposies na espcie 
humana: a primeira  a "disposio do homem  animalidade como ser vivente", a segunda  "sua disposio  humanidade como ser vivente e, ao mesmo tempo, racionaT\ 
sendo a terceira " sua personalidade, como ser racional e ao mesmo tempo responsveV (RL p.26, p.21). Assim, a humanidade ocupa uma posio intermdia entre a animalidade 
e a personalidade puramente racional, livre e responsvel.
A definio de humanidade  consideravelmente preenchida em MC, embora permanecendo dentro da distino bsica entre humanidade e animalidade. Os seres humanos, 
ao contrrio dos animais, possuem a capacidade de fixar-se determinados fins e de cultivar essa capacidade (MC p.392, p. 195). Os impulsos animais visam  autopreserva-
humanidade             175
o,  preservao da espcie e  preservao da capacidade de usufruir da vida; contra estes, o dever de um indivduo consiste, segundo Kant, na coerncia das mximas 
formais da vontade com a dignidade da humanidade (MC p.420, p.216). Esta ltima est intimamente associada  idia de espcie humana no .corno , mas como deve 
ser - potencial, livre, racional. Kant sustenta que a liberdade ou "independncia de ser coagido pela deciso de outrem"  o "nico direito original pertencente 
a todos os homens em - virtude de sua humanidade" (MC p.237, p.63). Esta definio de humanidade impregna profundamente a filosofia moral de Kant, figurando com 
destaque em uma das formulaes do imperativo categrico: "Age de maneira tal que trates a humanidade, quer em tua pessoa, quer na pessoa de todo outro, sempre ao 
mesmo tempo como um fim e nunca simplesmente como um meio" (FMC p.429, p.36).

I
ideal ver tambm ARQUTIPO; DETERMINAO; DEUS; EXEMPLO; IDIA; IMITAO O ideal  definido como a "representao de uma existncia individual enquanto adequada 
a uma idia" (CJ  17). Em CRP, Kant especifica que o ideal  "a idia no somente in concreto, mas in indivduo, isto , como coisa singular determinvel ou absolutamente 
determinada apenas pela idia" (CPR A 568/B 596). Embora um ser individual autodeter-minado, o ideal figura como um arqutipo que determina por completo suas cpias; 
os exemplos de Kant em CRP so o sbio estico, que existe "em completa conformidade com a idia de sabedoria" (A 569/B 597), e Deus ou o ideal transcendental. Ambos 
servem como arqutipos para imitao porm de maneiras diferentes: o sbio estico como um exemplar e Deus como origem de todo o ser. Deus como o ens realissimum 
 um ser individual cuja existncia  adequada  idia de ser dos seres; para Kant, Deus  o nico ideal verdadeiro, o nico ideal que satisfaz a condio de ser 
"inteiramente determinado em si e por si mesmo, e conhecido como a representao de um indivduo" (CRP A 576/B 604). Na anlise do "Ideal da razo pura" na "Dialtica 
transcendental", Kant refuta todas as tentativas para provar a existncia de Deus como um ideal transcendental; no  um objeto cognoscvel, mas deve ser pensado 
em termos da necessidade da razo para a unidade do conhecimento, ou aquele ser para o qual todos os seres podem, em ltima instncia, recorrer. Mais adiante, no 
"Cnone da razo pura", Kant tambm discute os ideais dos bens "supremo" e "original" da razo prtica, ou a razo suprema que une felicidade e moralidade. Os dois 
aspectos do ideal, como exemplar e fonte, desempenham um importante papel na discusso da produo de arte em cj (ver  17 e 60). O ideal do belo consiste nos produtos 
exemplares do gnio; os produtos do gnio no obedecem a regras mas constituem, no obstante, arqutipos exemplares e auto-suficientes.
idealismo ver tambm EU; HISTRIA DA FILOSOFIA; REALISMO; SUBJETIVO; SUJEITO Kant descreveu a "sentena de todos os idealistas genunos, desde a escola eletica 
at ao bispo Berkeley" como "Todo o conhecimento atravs dos sentidos e da experincia nada mais  do que pura iluso, e somente nas idias do puro entendimento 
e razo existe verdade" (p p.374, p. 113). Ele distingue trs tendncias dentro do idealismo moderno: a primeira  o "dogmtico" e, por vezes, visionrio idealismo 
de Berkeley; a segunda  o "ctico" ou "problemtico" idealismo de Descartes. Estes, por sua vez, opem-se ambos como idealismos "empricos" ao terceiro, o idealismo 
"transcendental", "formal" ou, como o rebatizou mais tarde, "crtico" do prprio Kant. Inicialmente, em CRP, Kant con-
idia             177
tentava-se em descrever sua obra como "idealismo transcendental", mas com a condio expressa de que o seu idealismo fosse aceito como uma "inverso" do idealismo 
emprico. Sublinhou essa posio em p, na esteira dos equvocos da CRP, onde simultaneamente protesta "contra todas as acusaes de idealismo" e define sua filosofia 
como "idealista". O idealismo que Kant estava empenhado em inverter punha em dvida a realidade de objetos externos: no caso do idealismo "ctico" cartesiano, s 
a experincia interior era indubitvel; a existncia de objetos externos no podia ser estabelecida; enquanto para o idealismo visionrio de Berkeley, o espao e 
as coisas nele so "meramente entidades imaginrias" (CRP B 275; ver tambm p.293, p.36 e p.375, p. 114). A inverso de Kant consistiu em propor um idealismo transcendental 
que era tambm um realismo emprico, aquele que prova que "mesmo a nossa experincia interna, indubitvel para Descartes, s  possvel mediante o pressuposto da 
experincia externa" (CRP B 275). P fornece-nos uma verso mais forte disso: "Todo o conhecimento de coisas meramente oriundo do entendimento puro ou da razo pura 
no passa de pura e simples iluso, e s na experincia existe verdade" (p.374, p.l 13).
O terreno no qual Kant defendeu seu idealismo "transcendental" ou "crtico" consistiu nas formas de intuio e no carter do "eu". Para o idealismo transcendental 
 axio-mtico que "os objetos da experincia ... no so nunca dados em si, mas apenas na experincia, e fora dela no existem" (CRP A 492/B 521). Os objetos no 
espao da intuio exterior e os no tempo da intuio interior no podem estar presentes sem essas formas de intuio. Mas, acrescenta Kant, "esse espao, em conjunto 
com este tempo, e juntamente com ambos todas as aparncias, no so em si mesmos coisas [como um realista transcendental pretenderia], so unicamente representaes 
que no podem existir fora do nosso esprito" (CRP A 492/B 520). De uma forma semelhante, os conceitos puros do entendimento gerados pela espontaneidade do eu no 
so em si mesmos coisas, mas as condies da possibilidade de coisas. Ambas as formas de intuio e os conceitos do entendimento originam-se no sujeito e podem assim 
ser descritos como "idealistas", porm o modo como organizam a experincia  objetivamente vlido. Embora possa ser possvel postular correlates objetivos como subjacentes 
nas aparncias do sujeito e dos objetos da experincia num "sujeito transcendental" e num "objeto transcendental", estes no so necessrios, em absoluto, para garantir 
as reivindicaes do idealismo transcendental ou crtico.
O idealismo transcendental de Kant deu origem a uma gerao de filsofos idealistas, cujos principais representantes foram Fichte e Schelling. O idealismo deles 
radicalizou as reivindicaes de Kant, dando maior destaque  espontaneidade do eu e rebaixando aqueles aspectos do realismo emprico e da sensibilidade que permaneceram 
por conta de Kant. Este, porm, considerou tal movimento retrgrado, um retorno s formas de idealismo que ele combatera em CRP. Refletiu sua preocupao numa "carta 
aberta" sobre Fundamentos de toda a teoria da cincia (1794), de Fichte, em 7 de agosto de 1799, na qual condenou o novo idealismo como "mera lgica" e censurou 
a sua tentativa de "selecionar um objeto real a partir da lgica" como um "esforo vo e, portanto, uma coisa que jamais algum fez" (CFI p.253).
idia [eidos, forma, Idee] ver tambm ARQUTIPOS; FORMA; IDEAL; IDIAS INATAS; POSTULADO; PRINCPIOS CONSTITUTIVOS; RAZO

178          idia
Kant redefiniu de modo deliberado e consciente o significado desse antigo termo filosfico. Na extraordinria Questo XV da Summa theologica - "Das idias" - Santo 
Toms de Aquino fornece uma sntese lapidar dos debates clssicos em torno da definio de idias: "Entendem-se por idias as formas de coisas que existem independentemente 
das prprias coisas... [estas so ou] o tipo daquilo que  chamado a forma, ou o princpio do conhecimento dessa coisa" (Aquino, 1952, i, 15,1). As primeiras so 
as transcendentes idias platnicas que fornecem um padro para as prprias coisas; as segundas so as idias aristotlicas e, mais tarde, esticas que so abstradas 
da percepo sensvel e servem como conceitos para o conhecimento de objetos. Ambas as posies, como Santo Toms de Aquino mostra, esto relacionadas com objetos, 
seja como sua forma paradigmtica, seja como seu princpio abstrato de conhecimento. Esse relacionamento entre idia e objeto sobreviveu s controvrsias filosficas 
do incio do perodo moderno, como entre Descartes e Espinosa e entre Leibniz e Locke, as quais se concentraram ambas na origem das idias. Embora os participantes 
divergissem sobre se as idias eram "inatas" ou abstradas da percepo sensvel, eles no questionaram radicalmente a relao bsica de idia e objeto. Em Kant, 
porm, "a idia  um conceito da razo cujo objeto no pode ser encontrado em parte alguma na experincia" (L p.590) ou, precisamente, aquilo que no se encontra 
em qualquer relao com um objeto.
A principal discusso de idias por Kant  na "Dialtica transcendental" de CRP. Comea com uma reflexo sobre a linguagem filosfica e a situao que se cria quando 
um pensador "v-se em apuros para encontrar a expresso rigorosamente adequada ao seu conceito" (A 3 12/B 368). Em vez de recorrer ao "expediente desesperado" do 
neolo-gismo, Kant procura o termo numa "lngua morta e erudita". Esse excurso introduz a sua justificao para o uso do termo "idia", o qual depende de um contraste 
entre Plato e Aristteles. Para Kant, ambos os filsofos captaram importantes aspectos do termo "idia", mas exageraram algumas caractersticas e negligenciaram 
outras. Na leitura de Kant, Plato usou o termo com o significado de "algo que no s nunca provm dos sentidos, mas at mesmo ultrapassa largamente os conceitos 
do entendimento (de que Aristteles se ocupou)" (CRP A 313/B 370). Para ele, Plato hipostasiou as idias, transformando-as em arqutipos por meio de uma "deduo 
mstica", ao passo que Aristteles confinou seu mbito  experincia emprica. Com o seu uso do termo, Kant procurou estabelecer uma posio intermdia que reconhecia 
a transcendncia das idias e a rigorosa distino de idia e conceito (p p.329, p.70).
Kant considerou que a distino entre idias transcendentais ou "conceitos puros da razo" e as categorias ou "conceitos puros do entendimento" era uma das principais 
realizaes de CRP. As categorias do entendimento relacionam-se com possveis objetos da experincia, ao passo que as idias da razo referem-se  "totalidade absoluta 
de toda a experincia possvel", a qual, diz Kant, "no  experincia em si mesma" (P 40). Tendo estabelecido assim a transcendncia genrica das idias, Kant passa 
ento a derivar o seu carter especfico da funo bsica da razo, que consiste em realizar inferncias si-logsticas. Nisso, ele reflete o procedimento aplicado 
antes  deduo da funo do entendimento, que  formular juzos. Para Kant, o silogismo consiste em relacionar um juzo particular a uma condio universal, em 
suas prprias palavras, "na concluso de um silogismo, restringimos um predicado a um determinado objeto, aps t-lo anteriormente pensado na premissa maior em toda 
a sua extenso sob certa condio" (CRP A
idia           179
322/B 379). A idia corresponde  totalidade incondicionada de condies necessrias para qualquer estado condicionado dado.
Tendo estabelecido a ligao geral entre idias e a forma de silogismo, Kant passa a derivar idias distintas das trs formas categricas de relao que ligam a 
condio universal da premissa maior ao juzo particular da concluso. So a relao categorial de substncia e acidente, a relao hipottica de causa e efeito, 
e a relao disjuntiva de co-" munidade, cada uma das quais permite, respectivamente, procurar, "em primeiro lugar, um incondicionado da sntese categrica num sujeito 
... a sntese hipottica dos membros de uma srie... [e] a sntese disjuntiva das partes num sistema" (CRP A 323/B 379). A primeira idia envolve a relao de um 
sujeito pensante, a segunda a relao com o mundo como a soma de todas as aparncias, e a terceira a relao das coisas em geral, ou um ens realissimum. Essas idias 
formam os "objetos" das cincias da psicologia, cosmolo-gia e teologia, ou seja, as trs divises da "metafsica especial" no sistema wolffiano.  quando essas idias 
so tratadas como se fossem objetos que essas cincias caem em erros de inferncia, tratando a totalidade da experincia na premissa maior do silogismo como se fosse 
um possvel objeto de experincia. Tais erros so anatomizados por Kant em sua investigao meticulosa das "inferncias dialticas" dos paralogismos psicolgicos, 
antinomias cosmolgicas e "provas impossveis" da teologia na "Dialtica transcendental" da CRP.
Dir-se-ia que Kant tinha derivado to penosamente as idias^ com o nico propsito de negar-lhes qualquer utilidade possvel; mas no  esse o caso. Ele deseja evitar 
o uso ilegtimo das idias como princpios constitutivos, como referindo-se a objetos de experincia possvel, porm no exclui seu emprego regulativo como mximas 
para orientao do entendimento a respeito da totalidade do saber. Embora isso valha para as idias tericas, o caso das idias prticas  algo diferente; como os 
postulados da razo prtica pura, as idias de imortalidade, liberdade e Deus so validadas no como objetos do saber, mas como parte de um "conceito prtico apriori 
de sumo bem como o objeto de nossa vontade" (CRPr p.133, p.138). Finalmente, em CJ, Kant faz uma nova distino entre idias transcendentais e idias estticas. 
As primeiras "referem-se a um conceito, de acordo com um princpio objetivo, mas sem poder proporcionar nunca um conhecimento do objeto", enquanto as segundas "referem-se 
a uma intuio, segundo um princpio meramente subjetivo da harmonia das faculdades cognitivas (imaginao e entendimento)" (CJ 57). Enquanto as idias transcendentais 
estimulam a extenso do entendimento e as idias prticas constituem juntas o conceito de sumo bem, o trabalho das idias estticas  estimular a harmonia de entendimento 
e imaginao atravs da vi-vacidade e unidade na variedade, e contribuir assim para o aumento do prazer.
Embora a redefinio por Kant de "idia" tenha gerado uma considervel soma de exegese e crtica, s recentemente sua influncia se tornou pronunciada (ver Lyotard, 
1983). Como os membros da gerao de idealistas alemes depois de Kant estavam dedicados a demolir a sua distino entre razo e entendimento, a distino de Kant 
entre idia e categoria era uma vtima inevitvel e, com ela, todo o desafio ao entendimento tradicional do termo "idia". Em conseqncia, muitos filsofos dos 
sculos XIX e XX, dentro e fora das fileiras dos kantianos, reviveram a oposio tradicional entre os entendimentos platnico e aristotlico de "idia", esquecendo 
assim a inovao de Kant.

180            idias inatas
idias inatas ver tambm ABSTRAO; AQUISIO; CATEGORIAS; IDIA Nos Novos ensaios sobre o entendimento humano, Leibniz rejeita a tese de Locke da abstrao de idias 
a partir de impresses sensoriais, contrapondo-lhe uma em que  sublinhado o papel de idias inatas. Idias como "ser, possvel e mesmo so a tal ponto inatas que 
esto presentes em todos os nossos pensamentos e raciocnios" (Leibniz, 1765, p.102); elas so pressupostas pela percepo, no abstradas dela. Kant teve em comum 
com Leibniz a crtica s explicaes empiristas da formao de conceitos, mas em seus primeiros escritos distinguiu a sua posio da de Leibniz. J em Dl (1770) 
os conceitos de metafsica "no sero procurados nos sentidos", mas tampouco so "conceitos inatos"; para Kant, tais conceitos so adquiridos por abstrao "das 
leis inerentes da mente" (DI 8). A diferena entre esse ponto de vista e o de Leibniz  muito sutil e levou a inevitveis mal-entendidos da CRP que Kant esclareceu 
na sua resposta  crtica leibniziana de Eberhard em SD. Ele insiste a em que as formas de intuio e as categorias "so adquiridas e no inatas" e "no pressupem 
nada inato exceto as condies subjetivas da espontaneidade de pensamento (de acordo com a unidade de apercepo)" (p.223, p.136).
idia transcendental ver RAZO
identidade [Identitt] ver tambm APERCEPO; CONCEITOS DE REFLEXO; DIFERENA; EU; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SUJEITO; UNIDADE
A noo de identidade desempenha um papel variegado e complexo na filosofia de Kant. Figura nos escritos pr-crticos como o "princpio lgico supremo na hierarquia 
de verdades" e no discutido princpio ontolgico leibniziano da "identidade dos indiscernve-is". Em CRP, apresenta-se em conjunto com a diferena como um dos conceitos 
de reflexo, e como o duplo pr-categorial da categoria de unidade. Nesta ltima capacidade, ela fornece a garantia para a identidade "lgica" extra-categorial do 
"eu" indispensvel  experincia.
Em ND (1759), Kant avana da afirmao de que "todo o raciocnio se resume em desvendar a identidade entre predicado e sujeito" (p.390, p.9) para propor como princpio 
supremo da verdade o "princpio de identidade", o qual afirma que "seja o que for que , , e seja o que for que no , no " (p.389, p.7). A sua preferncia nessa 
poca pelo princpio de identidade resultou de sua oposio ao princpio wolffiano de contradio, mas j na altura em que escreveu GN (1763) manifestava sua insatisfao 
com ambos os princpios formais. Ele distingue a entre a identidade do fundamento e conseqncia lgicos e a identidade de causa e efeito reais, afirmando que "o 
fundamento real nunca  um fundamento lgico, e que a chuva no  pressuposta pelo vento em virtude da regra de identidade" (p.203, p.240). Com esse desenvolvimento, 
Kant prenuncia a sua ulterior distino crtica entre lgica formal e transcendental.
Um outro aspecto da identidade que Kant explora nos escritos pr-crticos  a lei leibniziana da identidade dos indiscernveis. No 9 de sua Monadologia, Leibniz 
argumenta que na natureza nunca h dois seres to perfeitamente idnticos "onde no seja possvel encontrar uma diferena interna, ou fundada em uma denominao 
intrnseca". (Leibniz, 1720, p.62). Em ND, Kant j contesta a "universalidade metafsica" (p.410, p.36) da lei, recorrendo  diferena de posio entre indiscernveis 
como suficiente para justificar a rejeio da lei. Esse critrio da posio, mais tarde desenvolvido na forma es-
identidade             181
pacial de intuio em Dl e CRP, assinala uma outra limitao da identidade lgica, agora discutida em termos de "denominao interna" pela determinao real da posio 
espacial.
Kant continua a sua crtica da lei dos indiscernveis na seo de CRP dedicada aos conceitos de reflexo (A 260/B 316 e ss.). Identidade e diferena so conceitos 
de reflexo que servem para orientar o juzo quando  apresentado com aparncias. Designam .caractersticas da forma espacial de intuio e no "coisas em si mesmas". 
Kant sustenta que Leibniz considerou identidade e diferena como caractersticas ontolgicas das coisas, e no como produtos da reflexo sobre os processos como 
as aparncias so organizadas em termos de espao, tempo e das categorias. Para Kant, isso resultou na eliso das condies de sensibilidade e entendimento, com 
a conseqncia de que identidade e diferena conceituais ou lgicas foram confundidas com identidade e diferena sensveis ou reais. Essa eliso possibilitou as 
alegadamente falsas asseres da lei dos indiscernveis como, por exemplo, "todas as coisas que no se distinguem j entre si nos conceitos (quanto  qualidade ou 
quantidade) so inteiramente idnticas (numero eadem)" (A 281/B337).
Em CRP, Kant raramente se refere ao princpio lgico de identidade e, com efeito, considera o princpio de contradio o "princpio supremo dos juzos analticos". 
Entretanto, a aplicao lgica do princpio de identidade conserva uma posio crucial, ainda que velada, na arquitetura crtica. Isso torna-se evidente quando Kant 
discute a identidade do sujeito transcendental ou eu. Um certo nmero de interessantes problemas agrupa-se em torno do sujeito transcendental:  o sujeito que sublinha 
e acompanha todos os atos de predicao, mas que no pode ele prprio servir como predicado nem ser descrito, no entanto, como uma substncia. Kant insiste em que 
isso  porque a substncia  uma categoria e o eu  anterior  determinao categorial; assim, o eu no pode ser conhecido em termos das categorias. Surge, porm, 
o problema da identidade numrica do sujeito transcendental: deve ser um que assegure a continuidade de atos de predicao mas no deve ser uma unidade, uma vez 
que a unidade  uma categoria de quantidade, a qual no pode ser legitimamente aplicada ao sujeito transcendental.
Kant confia na noo de identidade como oposta  unidade categorial a fim de fixar o sujeito transcendental. O eu consciente de si da apercepo deve ser "fixado 
e respeitado", e essa "identidade numrica" deve ser a que "precede toda a experincia e faz com que a prpria experincia seja possvel" (CRP A 107). Uma vez que 
 "o fundamento a priori de todos os conceitos", no pode ser propriamente determinado por conceitos tais como unidade e substncia; e assim, numa passagem difcil, 
Kant deriva a "unidade de conscincia" (como se apresenta  nossa categoria de unidade) da conscincia da "identidade de funo por meio da qual [a unidade] combina 
sinteticamente [a multiplicidade] em nosso conhecimento". Isso  "a original e necessria conscincia da identidade do eu" que informa a "igualmente necessria unidade 
da sntese de todas as aparncias" (CRP A 108). Assim, a identidade do sujeito transcendental assegura a unidade de sua conscincia.
Kant  extremamente cuidadoso em no atribuir as qualidades categoriais de unidade  identidade. Na discusso do terceiro paralogismo na edio de 1781 de CRP, Kant 
recusou-se a avanar da conscincia de identidade numrica para a noo de uma pessoa. Insiste em que "a identidade da conscincia de mim mesmo em diferentes tempos 
, por-

182            igreja
tanto, apenas uma condio formal dos meus pensamentos e do seu encadeamento, mas no prova absolutamente nada a identidade numrica do meu sujeito" (CRP A 363). 
Alm disso, a permanncia da identidade no tempo no indica que o eu seja uma substncia, porm que  ela prpria a conseqncia da identidade. Em sua reformulao 
de 1787 dos paralogismos na segunda edio da CRP, Kant sublinha que a identidade do sujeito transcendental no pode ser resolvida numa "simples substncia", uma 
vez que isso requereria que ela se tornasse um "objeto de intuio", ao qual seriam aplicveis as categorias de unidade e substncia (CRP B 407-8). Se isso fosse 
admitido, a conseqncia seria a rele-gao da unidade do sujeito transcendental que fundamenta as categorias para um objeto das categorias, convertendo assim o 
sujeito transcendental num sujeito emprico, com conseqncias catastrficas para o projeto crtico. Em vez disso, Kant prefere restringir a identidade  identidade 
lgica de um sujeito, em lugar de estend-la  de uma substncia pensante e unificada.
igreja [Kirche] ver tambm DEUS; ESTADO; TEODICIA; TEOLOGIA O entendimento de Kant da igreja pode ser situado no amplo contexto da eclesiologia protestante, a qual 
se ocupava, sobretudo, dos problemas da relao da igreja com os seus fiis e com o estado. O seu tratamento dos dois problemas em RL e MC revela uma combinao 
freqentemente instvel de temas extrados das tradies calvinista e pietis-ta que ento predominavam na Prssia.
A mais bvia herana do calvinismo  a distino de Kant entre a igreja invisvel e visvel. A primeira  a "idia da unio de todos os justos sob o direto e moral 
governo divino do mundo" (RL p. 101, p.92). A igreja invisvel seria a realizao da comunidade tica, mas isso tambm pode ser conseguido atravs da igreja visvel, 
que  a "unio real de homens num todo que se harmoniza com esse ideal". Kant descreve as caractersticas da verdadeira igreja visvel em termos dos esquemas categoriais 
de quantidade, qualidade, relao e modalidade: ela seria quantitativamente universal e unificada, qualitativamente pura, suas relaes internas e externas seriam 
governadas pelo princpio de liberdade, e seria modalmente imutvel.
A respeito da constituio da igreja visvel, Kant recusa-se a aceitar a dependncia catlica ou ortodoxa de formas monrquicas e aristocrticas de organizao eclesistica; 
tambm rejeita as formas de organizao democrtica representativa adotadas pelos cal-vinistas. Pelo contrrio, prefere surpreendentemente a forma pietista, patriarcal, 
de organizao eclesistica que toma por modelo uma analogia com a sagrada famlia. Escreve: "a sua constituio no  monrquica (sob um papa ou patriarca) nem 
aristocrtica (sob bispos ou prelados)... Poderia ser melhor assemelhada  de uma casa de famlia, sob um Pai moral comum, embora invisvel..." (RL p.102, p.93). 
O filho leva a vontade do pai ao conhecimento de todos os membros da famlia, em cujo esprito "eles ingressam mutuamente, numa unio voluntria, universal e duradoura 
de coraes" (ibid.).
Quando Kant passa a tratar da relao de igreja e estado, abandona a postura quie-tista e apoltica do pietismo, a favor de uma abordagem mais calvinista. O estado 
no pode legitimamente interferir na igreja, dado que sua esfera de influncia no chega to longe. Ele no pode impor uma religio a um povo, nem exigir submisso 
nem despoj ar a igreja de seus bens ou ministrios (MC p.368, p.173). Entretanto, isso no quer dizer que a igreja desfrute perpetuamente de sua autonomia. Para 
Kant, agora imbudo de um forte
Iluminismo             183
esprito calvinista, a organizao de uma igreja e os direitos e privilgios de seu clero so o resultado de um contrato com os seus membros. Se estes denunciam 
tal contrato, ento a igreja e seu clero podem ser legitimamente despojados [de seus bens], "uma vez que a razo para a sua posse residia at ento unicamente na 
opinio do povo e tambm tinha de valer enquanto esta durasse. Mas logo que essa opinio caducasse, e mesmo que s caducasse no entender daqueles que, por seus mritos, 
tm pleno direito a orientar a opinio, a suposta propriedade tem de cessar, como se por um apelo do povo ao estado" (MC p.325,p.l35).
Talvez por causa do seu carter ecltico, a eclesiologia de Kant teve relativamente pouco impacto sobre a teologia moderna. Tampouco desempenhou um papel central 
nas interpretaes de seu pensamento filosfico ou religioso. Foi, entretanto, objeto de renovada investigao como parte do crescente interesse pela explicao 
de Kant da organizao social e poltica.
Iluminismo [Aujklrung] ver tambm FILOSOFIA CRTICA; HISTRIA DA FILOSOFIA; PBLICO/PUBLICIDADE; SENTIDO COMUM/SENSO COMUM; RAZO O movimento intelectual europeu 
do sculo xvm conhecido como o Iluminismo [tambm chamado "filosofia das Luzes" e "movimento de ilustrao" ou de "esclarecimento"] passou por trs fases distintas 
na Alemanha. A primeira, a fase racionalista, foi inaugurada no incio do sculo na Universidade de Halle por Thomasius e codificada por Christian Wolff. Ambos abandonaram 
o latim acadmico em favor do vernculo, sendo que Wolff objetivou levar suas obras alm das fronteiras das universidades e das profisses liberais. O seu sistema 
comeou com a lgica e, passando pela metafsica, abrangeu a tica, poltica e cincia econmica. Sob a presso poltica do monarca prussiano Frederico Guilherme 
I, Wolff foi forado a deixar a Prssia em 1723. Reescreveu no exlio o seu sistema, desta vez em latim para um pblico internacional de scholars. No seu regresso 
 Prssia com a subida de Frederico n ao trono em 1740, Wolff j parecia um fssil intelectual. O carter da Aujklrung tinha mudado, enfatizando agora o ceticismo 
e o senso comum em detrimento do exerccio da razo abstrata. Em meados do sculo, muitos poucos filsofos escreveram sistemas racionais, a preferncia sendo para 
os espiritu-osos ensaios "cticos" que tinham por modelo os de Hume. Os escritos pr-crticos de Kant pertencem a esta fase do esclarecimento, a qual  exemplificada 
por suas Observaes sobre o sentimento do belo e do sublime (1764). Entretanto, na "dcada silenciosa" de 1770, Kant voltou  rigorosa filosofia sistemtica, tomando 
o partido de Wolff contra aqueles (incluindo o seu eu mais jovem) que "no podem ter em mente outra coisa que no seja desembaraar-se dos vnculos da cincia" (CRP 
B xxxvii). Com a publicao de CRP em 1781, ele iniciou a terceira fase da A ufklrung, a qual procurou combinar ceticismo crtico e rigor sistemtico.
No prefcio da primeira edio de CRP, Kant descreve a sua poca como uma poca de crtica; crtica da religio, da poltica e at da prpria razo. A crtica envolvia 
submeter as crenas religiosas, polticas e intelectuais ao "seu livre e pblico exame" (CRP A xii), deixando o veredito para "o acordo de cidados livres, cada 
um dos quais deve poder exprimir as suas reservas e mesmo exercer o seu veto sem impedimentos" (CRP A 739/B 767). No ensaio "Resposta  pergunta: 'O que  Esclarecimento?'" 
(1784), ele caracteriza a "era do esclarecimento" em termos muito semelhantes. O "esclarecimento" ,

184            iluso
na definio famosa, "a emergncia da imaturidade autocontrada" ou da incapacidade para julgar sem a orientao de outrem. Essa emergncia de si mesmo pode excepcionalmente 
ser realizada por indivduos mas , de maneira preponderante, obra de um pblico no livre uso de sua razo. O pblico no deve submeter-se  orientao da religio, 
nem  do estado, mas somente  de sua prpria razo. A sentena de Frederico II, "Discutam quanto quiserem e sobre tudo o que quiserem, mas obedeam!" indica, para 
Kant, que ele vive, se no numa "era esclarecida", ento numa "era de esclarecimento", uma em que, pelo menos, tinham sido eliminados alguns dos obstculos ao livre 
e pblico uso da razo.
Muitos crticos consideraram a boa vontade de Kant em adaptar sua concepo da Aufklrung ao estado fredericiano um poderoso argumento contra a sua filosofia. Entretanto, 
em muitos aspectos, a sua posio era extremamente coerente, sobretudo porque acreditava que a liberdade para pensar criava a capacidade para agir livremente, embora 
o inverso no fosse necessariamente verdadeiro. Ele tambm distinguiu entre a responsabilidade exercida quando se usa publicamente a razo e a exercida quando se 
ocupa um "cargo" particular, como o de clrigo ou de burocrata; a primeira sempre foi para Kant a mais importante. Desse modo, a esfera pblica da razo torna-se 
a suprema instncia da crtica, mesmo que os juzos nela pronunciados sejam religiosamente no ortodoxos, ou "acarretem crticas diretas  legislao corrente" (RPE 
p.41, p.59).
As discusses em torno do significado de Esclarecimento provocadas por Kant tiveram substancial repercusso no sculo XX, inspirada em grande parte pela implacvel 
extenso por Nietzsche do esclarecimento crtico  prpria razo. O instrumento de crtica de Kant, a base do esclarecimento, foi visto como sendo ele prprio uma 
ameaa ao esclarecimento. Esse argumento foi apresentado na crtica da razo tcnica de Adorno e Horkheimer em Dialtica do Esclarecimento (1944), assim como na 
obra de filsofos franceses como Derrida (1967), Foucault (1984) e Lyotard (1983). Numa influente polmica, Jrgen Habermas em O discurso filosfico da modernidade 
(1985) acusou esses pensadores de adversrios da Aufklrung. Entretanto, parece mais exato descrev-los como autores quintessencialmente esclarecidos, exploradores 
pblicos, dentro de um esprito distintamente kantiano, das conseqncias da ampliao do impulso crtico do Ilu-minismo  prpria razo.
iluso [Schein] ver tambm APARNCIA; BELEZA; DIALTICA; ESTTICA; SUB-REPO;
VERDADE
A anlise da natureza da iluso  um dos temas permanentes da obra de Kant e a principal motivao de sua redefinio da metafsica. J em sv (1766) Kant declarava 
programati-camente ser a metafsica a "cincia dos limites da razo humana", a qual elimina a iluso e o vo saber que infla o entendimento" (sv p.368, p.354). Adota 
uma posio semelhante em Di (1770), onde a metafsica  conclamada a purificar-se dos axiomas e princpios ilusrios "que ludibriam o entendimento e impregnaram 
desastrosamente toda a metafsica" (Di 24). De acordo com esse projeto, a CRP est dividida numa analtica, a qual determina os limites da metafsica, e numa dialtica, 
ou "lgica da iluso", a qual mostra como esses limites so transgredidos pela razo ao produzir idias transcendentes e, portanto, ilusrias.
O entendimento kantiano da natureza da iluso desenvolveu-se de modo considervel entre os escritos pr-crticos e a CRP. Em sv, ele concentra-se nas iluses da 
imagi-
iluso             185
nao, que ele entende por meio de uma analogia com as iluses ticas. Est interessado em averiguar o modo como msticos e visionrios como Emanuel Swedenborg "transpem 
a iluso de sua imaginao e a localizam fora deles prprios" (p.343, p.331). Um conceito anlogo de iluso como forma de erro de viso prevalece tambm em A ( 
13). A par desse conceito de iluso como falsa crena evitvel em sv, Kant sugere tambm uma tendncia humana mais fundamental e inevitvel para a iluso em sua 
metfora da balan-* a que pende para o lado do entendimento humano, inevitavelmente inclinada para a "esperana no futuro" (sv p.349, p.337).
Em Dl, Kant refinou consideravelmente sua descrio da iluso ao concentrar-se nas "iluses do entendimento" ou "axiomas sub-reptcios" que "tentam aceitar o que 
 sensvel como se necessariamente pertencesse a um conceito do entendimento" (Dl 24). Prope investig-las ainda mais, a fim de descobrir uma "pedra de toque" 
por meio da qual se distingam os juzos verdadeiros dos falsos. Para tal fim, ele apresenta trs espcies de axiomas sub-reptcios ou "iluses de conhecimentos sensveis": 
a primeira  que a condio da possibilidade de intuir um objeto  interpretada erradamente como se fosse uma condio de possibilidade para o prprio objeto; a 
segunda  que as condies sensveis pelas quais comparar o que  dado para formar um conceito so confundidas com as condies da possibilidade do objeto; e a terceira 
espcie  que as condies sensveis de subsuno de um objeto num conceito so confundidas com as condies para a possibilidade de objetos (Dl 26-9). Em cada 
caso, a iluso avaliada consiste em confundir uma aparncia com a verdade. Em Dl, Kant ainda subscreve as desconfianas de Descartes a respeito da natureza ilusria 
da aparncia per se, embora comece a desenvolver a distino, decisiva para a filosofia crtica, entre aparncia e iluso. Essa distino apresenta-se em Sobre iluso 
sensorial e fico potica de 1777 (p.203) e constitui uma das teses centrais de CRP.
Em CRP, Kant apresenta a sua anlise madura da iluso. Distingue firmemente a aparncia da iluso em termos de juzo: as aparncias dadas  sensibilidade no so 
iluses mas aparncias necessrias, ao passo que "s na relao do objeto com o nosso entendimento se encontram tanto a verdade quanto o erro e, por conseguinte, 
tambm a iluso que induz a este ltimo" (CRP A 293/B 350). O nosso entendimento pode, por exemplo, inferir falsamente que coisas de aparncia intudas atravs das 
formas de intuio (espao e tempo) no so objetos de aparncia mas objetos em si. Nesse caso, "converti em mera iluso o que deveria ser considerado como aparncia" 
(B 69). Esse desenvolvimento dos axiomas sub-reptcios de Dl  crucial para a anlise crtica dos limites do entendimento, mas j deixou de ser o principal foco 
da anatomia da iluso em CRP. Ele situa-se agora na "iluso transcendental" da razo humana que  estudada na "Dialtica transcendental" e em seu minucioso exame 
de inferncias ilusrias.
Kant abre a "Dialtica transcendental" com uma introduo intitulada "Iluso transcendental", na qual distingue as transcendentais das acidentais e evitveis "iluses 
lgicas" de juzos falaciosos e das aparentadas "iluses empricas" da sub-repo. A iluso transcendental  "natural e inevitvel" (CRP A 298/B 354) e consiste 
na "extenso enganadora dos conceitos do entendimento puro" s suas condies absolutas para alm dos limites da experincia possvel. A dialtica transcendental 
est dirigida para a revelao da extenso transcendente dos conceitos de experincia e para a necessria dialtica que ela evoca, aquela que  "inseparvel da razo 
humana e que, embora descoberta a

186          iluso transcendental
iluso, no deixar de lhe armar suas ciladas" (CRP A 298/B 355). Kant descreve trs casos da dialtica natural da iluso transcendental sobre cuja base esto aliceradas 
as "pretensas cincias" da psicologia, cosmologia e teologia. Em cada caso, as propriedades da "condio subjetiva do pensamento" so ampliadas e consideradas "conhecimento 
do objeto" (A 396), nestes casos conhecimento de objetos tais como a alma, o mundo como um todo e Deus. Kant passa ento a mostrar como em cada caso as cincias 
desses objetos ilusrios sucumbem diante de uma "dialtica natural" e oferece em seguida uma explicao, ou uma lgica, de suas iluses.
Em CJ, Kant desenvolve uma outra anlise da iluso, neste caso a iluso artstica. A obra de arte bela no deve apresentar-se como um produto, pois "deve revestir-se 
dos aspectos de natureza, por mais que se tenha conscincia de que  arte" (CJ 45). Esta posio foi, em grande parte, conseqncia das rigorosas condies que 
Kant estabeleceu para um vlido juzo esttico do gosto na "Analtica do belo", que despojou tais juzos de qualquer referncia a interesse. A viso de que a obra 
de arte representa uma ilusria "segunda natureza" provou ser imensamente significativa para a esttica romntica e persistiria ainda por largo tempo, mesmo depois 
do reconhecimento dos limites da descrio de Kant do juzo esttico do gosto.
iluso transcendental ver DIALTICA; ILUSO
imagem [Bild] ver tambm ESQUEMA(TISMO); IMAGINAO; MLTIPLO; SNTESE Na arquitetura crtica de Kant, a imagem ocupa a rea indefinida entre conceito e intuio. 
Como forma de mediao entre as faculdades heterogneas do entendimento e a intuio, possui um status nitidamente equvoco. A imagem  entendida, por um lado, como 
uma apresentao de um conceito  intuio, como no caso do conceito de "substncia em aparncia", o qual  apresentado como "uma imagem permanente da sensibilidade" 
(CRP A 525/B 553; ver tambm SD p.222, p.136) e, por outro, como algo gerado a partir do mltiplo da intuio e apresentado ao entendimento. A maior parte da exposio 
de Kant concentra-se nesta ltima alternativa, uma vez que a apresentao de um conceito  intuio  amplamente coberta pelo esquema, o qual  uma "representao 
de um processo geral da imaginao para dar a um conceito a sua imagem" (CRP A 140/B 179), em vez do prprio conceito. O esquematismo  a obra da imaginao transcendental 
que "no tem por objetivo nenhuma intuio singular", enquanto a imagem distinta  produto da imaginao emprica. A gerao de imagens por imaginao emprica, 
a partir do mltiplo da intuio,  central para a explicao da sntese na "deduo" da primeira edio da CRP. Kant refere-se a  imaginao como a "faculdade 
ativa para a sntese do mltiplo" (CRP A 120) e v sua ao como a formao de uma imagem atravs de snteses de apreenso e reproduo. A imagem , portanto, apropriada 
para apresentao aos conceitos do entendimento a fim de ser convertida em saber.
A descrio da gerao de imagens a partir do mltiplo da intuio  equiparada e ampliada na descrio da "idia normal esttica" desenvolvida em CJ. A, Kant procura 
explicar como a idia normal esttica pode ser normativa sem os requisitos subsuntivos de um conceito. O problema  transformado no da exposio de uma idia esttica 
"em uma imagem-modelo totalmente in concreto" (CJ  17) cuja soluo s pode ser insinuada, pois "quem pode arrancar  natureza todo o seu segredo?" (17). Numerosas 
imagens
imaginao, faculdade da            187
de um determinado objeto so sobrepostas umas s outras pelo Gemt at chegar-se a um "contorno mdio que serve como padro comum para todos". Este ltimo fenmeno 
 ilustrado por uma analogia com a apresentao ptica de imagens onde o contorno mdio  o "lugar iluminado pela maior concentrao de cor" ( 17). O "contorno 
mdio" no  um conceito do entendimento nem, simplesmente, um derivativo do mltiplo da intuio, mas  "uma imagem flutuante para todo o gnero, a qual foi fixada 
pela natureza  como um arqutipo subjacente naqueles de seus produtos que pertencem  mesma espcie" (17). Com esta descrio da imagem, Kant parece suplementar 
a descrio de uma imagem em subsuno, determinar o juzo em CRP e dar substncia ao funcionamento do juzo reflexivo em CJ.
imaginao, faculdade da [phantasia, facultas imaginandi, Einbildungskraft] ver tambm ENTENDIMENTO; ESQUEMA(TISMO); ESTTICA; GNERO; ILUSO; IMAGEM; INTUIO; 
JUZO; RAZO
Em De anima, Aristteles descreveu a imaginao como "diferente da percepo (aist-hesis) ou do pensamento discursivo (noesis), embora no seja encontrada sem sensao, 
ou juzo sem ela" (Aristteles, 1941,427b, 16). O peculiar status intermdio da imaginao, aceito por Santo Toms de Aquino como evidente em seu comentrio sobre 
De anima, contribuiu para o considervel fascnio exercido pelo conceito sobre filsofos e artistas. Na sntese de Plato e Aristteles empreendida pelos filsofos 
renascentistas Marsilio Ficino e Pico delia Mirandola, a imaginao figurou como o veculo de participao entre a sensao humana e as idias, com a arte do gnio 
apresentando-se de forma destacada como a perfeita expresso de sua unidade (ver Cassirer e outros, 1948). A imaginao manteve esse elevado status apesar dos melhores 
esforos de Descartes para derrub-la "dissecando as cabeas de vrios animais" em sua busca. A imaginao criou problemas considerveis para filsofos racionalistas 
como Christian Wolff, que viu a sua associao com a sensibilidade como nociva  clareza e limpidez do pensamento racional. Em meados da dcada de 1730, o descontentamento 
com essa posio levara alguns wolffianos a pedir uma lgica da imaginao e dos sentidos para complementar a do entendimento. Nas mos do lexicgrafo wolffiano 
Heinrich Meissner, isso acarretou a subordinao da imaginao  psicologia emprica mas, para o filsofo A.G. Baumgar-ten e o crtico Jacob Bodmer, levou  ampliao 
da filosofia para incluir a esttica e a potica (ver Caygill, 1989, captulo 3).
O conceito kantiano de imaginao foi desenvolvido nesse contexto e exibe numerosas caractersticas clssicas, sobretudo o status intermdio da imaginao entre 
sensibilidade e entendimento, assim como o seu papel na produo artstica. Entretanto, tambm imprimiu-lhe muitas inflexes caractersticas quando a situou no contexto 
de seus interesses filosficos mais amplos. Com uma notvel exceo, a discusso de Kant acerca da imaginao nos escritos pr-crticos est usualmente confinada 
a recrimina-es sobre a sua m influncia, como na anlise das iluses da imaginao em SV (ver P-344, p.331) e menos diretamente em Dl (27). Excepcionalmente 
em GN, Kant oferece uma anlise mais refinada que prenuncia as suas posies ulteriores. Reflete sobre a capacidade de entretenimento, exclui a representao "em 
virtude do poder da imaginao" e concebe a sua tarefa mais como a de promover a existncia e destruio da representao, do que como um ato simples e direto de 
apresentao e remoo. Alude a

188          imaginao, faculdade da
essa atividade como "escondida nas profundezas de nossas mentes, a qual passa despercebida mesmo enquanto est sendo exercida" (p.191, p.229), termos que prenunciam 
a sua descrio ulterior do trabalho de esquematizao da imaginao como "uma arte oculta nas profundezas da alma humana" (CRP A 141/B 181).
Na "Lgica de Blomberg" (L p.5-246), desde os comeos da dcada de 1770 a imaginao apresenta-se como um obstculo ao conhecimento; Kant sustenta a que "dessa 
mistura de imaginao com entendimento resultam efeitos que no concordam perfeitamente com as regras do entendimento e da razo" (L p.79). Entretanto, na poca 
da CRP, a posio de Kant no que tange  imaginao j sofrer uma inverso quase completa. Pode-se fazer uma idia da extenso dessa mudana pelos comentrios sobre 
imaginao em A, obra que, em considervel medida, codifica os pressupostos sobre imaginao que informam e esto na base das trs crticas (CRP, CRPr e CJ). Esses 
comentrios combinam aspectos de tese, como o lugar da imaginao na lgica e na metafsica (A 4) e no gnio e no gosto (A 67), os quais foram depois separados 
e distribudos entre as primeira e terceira crticas.
Kant divide a sensibilidade em sentido (Sinri) e imaginao, incluindo o primeiro a "faculdade de intuio na presena de um objeto" e a segunda a "intuio sem 
a presena de um objeto" (A  15). A no-presena do objeto para a imaginao pode ser pensada de duas maneiras: ou o objeto estava presente mas j no est mais, 
ou a sua presena situa-se no futuro. Considerado do ponto de vista da imaginao emprica, isso d origem s faculdades de memria e previso, as quais recordam 
e predizem a presena de objetos distintos. Entretanto, Kant introduz tambm uma outra distino no conceito de imaginao que lhe permite distinguir entre (a) imaginao 
emprica ou evocativa e (b) imaginao potica ou produtiva. Esta  a distino entre imaginao como "uma faculdade da representao original do objeto (exhibitio 
originaria), a qual por conseguinte precede a experincia" e como "uma faculdade da representao derivada (exhibitio derivativa), a qual faz voltar  mente uma 
prvia percepo emprica" (A 28).  o trabalho da imaginao produtiva o que mais interessa a Kant, e o que por ele  mais usado.
A referncia  imaginao produtiva como uma "representao original do objeto" antes da experincia  uma clara antecipao do idealismo crtico de Kant. Ele descreve 
mais tarde "as percepes puras de espao e tempo" como pertencentes  faculdade produtiva. O que  crucial aqui  que a imaginao produtiva produz representaes 
originais, isto , elas no so derivadas da experincia mas propiciam condies de experincia; no so, alm disso, premeditadas ou acidentais (isso constitui 
a "fantasia") mas ordenadas. Neste ponto, justapem-se em grande parte os argumentos, subseqentemente divididos, da primeira e terceira crticas. Kant analisa as 
"trs distintas variedades da faculdade produtiva sensorial" de "representao pictrica no espao (imaginatio plstica), percepo associativa no tempo (imaginatio 
associans) e a faculdade produtiva sensorial da afinidade" (A 31) em termos de inveno artstica. As trs formas de imaginao produtiva testemunham a "origem 
comum" ou "estreita unio" de "entendimento e sensibilidade" (A 31), a qual caracteriza tambm as produes originais do gnio (quando a "imaginao se harmoniza 
com conceitos", 30) e o juzo esttico do gosto com "seu juzo sobre a harmonia ou discordncia a respeito da liberdade de jogo entre a imaginao e o carter respeitador 
da lei da imaginao" (A 67). Entretanto, os trs mo-
imaginao, faculdade da           189
dos de imaginao produtiva tambm figuram crucialmente como a "sntese trplice" da anlise da experincia na primeira crtica.
Na CRP e na CJ, a imaginao  situada entre a sensibilidade e o entendimento, e para alm de ambos e de si mesma. Essa localizao paradoxal pode ser esclarecida 
pela distino entre imaginao emprica e produtiva, com a primeira situada entre as outras faculdades e a segunda abrangendo todas elas. Em numerosos pontos da 
CRP, como em A 95, a imaginao ocupa-se da sntese do mltiplo entre a sinopse do sentido e a unificao da apercepo original. Em outras ocasies, porm, a sntese 
 descrita em geral como "um simples efeito da imaginao, funo cega, embora imprescindvel, da alma, sem a qual nunca teramos conhecimento algum, mas da qual 
muito raramente temos conscincia" (CRP A 78/B 103). O papel de extrema abrangncia atribudo  imaginao  sistematicamente mantido nas dedues A e B. Na primeira, 
"o princpio da unidade necessria da sntese pura (produtiva) da imaginao , pois, anteriormente  apercepo, o fundamento da possibilidade de todo o conhecimento, 
especialmente da experincia" (CRP A 118), ao passo que na segunda a imaginao figura como a fonte espontnea de toda a sntese (CRP B 152). Inspira, assim, todos 
os modos da sntese do mltiplo da intuio - apreenso, reproduo e reconhecimento - mesmo quando, como imaginao emprica, serve como um dos distintos momentos 
de sntese, assim como figura na sntese esquemtica de conceito e intuio que gera conhecimento e experincia (ver CRP A 140/B 179).
Em CJ, a discusso da imaginao adquire ainda maior complexidade. Apresenta-se em VII da "Primeira Introduo" no contexto da sntese tripla de uma faculdade distinta, 
a par de juzo e razo. Mas no decorrer da obra,  aprofundada a relao entre imaginao e juzo, j prenunciada em CRP em termos de sntese. Imaginao e juzo 
no aplicam meramente as leis do entendimento mas, no juzo reflexivo, inventam e aplicam simultaneamente leis: isto , sua funo no  reprodutiva e imitativa, 
mas produtiva e original. Alm disso, a "unidade" de imaginao e juzo tambm suscita prazer, como pode ser discernido com extrema clareza no juzo esttico do 
gosto - com sua "conformidade  lei sem uma lei, e sua harmonizao subjetiva da imaginao e do entendimento sem uma objetiva" (22) - assim como na atividade produtiva 
do gnio, cuja qualidade primordial  a "originalidade" ou o "talento para produzir aquilo para o qual nenhuma regra definida pode ser dada" (46).
Coube a Heidegger (1929) destacar, pela primeira vez, o papel crucial da imaginao na filosofia de Kant, o que desde ento vem sendo geralmente aceito pelos estudiosos, 
embora, com freqncia, sem plena apreciao de suas implicaes. Estas so no s textuais no fornecimento de uma ponte entre as primeira e terceira crticas, mas 
tambm so substantivas, transformando Kant - um filsofo normativo preocupado com regras e sua correta aplicao - num filsofo interessado em questes de produo, 
originalidade e prazer. Vale assinalar, porm, que a imaginao no figura com destaque na filosofia prtica de Kant e, quando  mencionada,  usualmente num contexto 
excluden-te, como na discusso da tpica em CRPr (p.69, p.71). De acordo com o temperamento do leitor, a ausncia de imaginao na CRPr pode ser vista como a salvao 
da filosofia prtica de Kant, ou como uma boa razo para buscar sua filosofia prtica nas pginas da primeira e da terceira crticas.

190           imaginao produtiva
imaginao produtiva ver IMAGINAO
imaginao reprodutiva ver IMAGINAO
imanente ver TRANSCENDENTE
imitao [Nachahmung] ver tambm GNIO; IDIA; ILUMINISMO; IMAGINAO; ORIGINALIDADE
Kant foi um crtico sistemtico da imitao, considerando o esprito de imitao como a pior de "todas as coisas que podem prejudicar e contrariar o esprito filosfico" 
(L p.128). De sua descrio da imitao "como cultivo por uma pessoa do seu prprio entendimento e mesmo de sua vontade de escolha de acordo com o exemplo dado por 
outros", fica claro ser a imitao o que  severamente criticada em RPE como uma "tutela auto-imposta" e aquilo que "no tem lugar nenhum em questes de natureza 
moral" em FMC (p.408, p.21). Sobre a questo da imitao artstica em CJ, porm, aposio de Kant  algo mais sutil. Distingue a imitao como produo de cpias 
da obra de gnio (Nach-machung) da imitao como emulao ou seguimento (Nachahmung), a qual "submete o prprio talento do seguidor ao teste" da comparao com a 
produtividade do gnio (CJ 47). Neste ltimo caso, o prprio talento e originalidade do discpulo so estimulados pelo exemplo do gnio, que assim "desperta idias 
semelhantes por parte do seu discpulo" (ibid.).
imortalidade ver tambm ALMA; EU; FINITUDE; PARALOGISMO; POSTULADO; PSICOLOGIA; SUJEITO
Em CRP, Kant afirmou ter refutado as provas especulativas da imortalidade da alma - como as propostas por Moses Mendelssohn em Phdon (1767) - ao exp-las como para-logsticas 
(ver CRP B 413 e ss.). Tais provas dependem do pressuposto de que o eu como condio formal ou sujeito lgico do pensamento  tambm um eu substancial que possui 
a qualidade de permanncia. Embora Kant destrusse de forma concludente as bases de tais provas especulativas, isso no exigiu dele, no entanto, que abandonasse 
a convico da imortalidade. Ela reaparece em CRPr, a par da liberdade e de Deus, como um "postulado da razo prtica pura", o qual "consigna ao sujeito a indispensvel 
durao" (p.133, p. 138) que lhe era negada pelos paralogismos que viciavam a prova especulativa. O postulado de '; imortalidade, observa Kant, "deriva da praticamente 
necessria condio de uma durao adequada ao perfeito cumprimento da lei moral" (p. 132, p. 137), uma condio que  corroborada pelos seus postulados concomitantes 
de liberdade e Deus. Autores subseqentes, como Heine (1965, p.295) e Nietzsche (1882), rejeitaram todos os trs postulados ou como tentativas de Kant para apaziguar 
o seu fmulo Lampe, ou como deslizes na destruio radical das provas especulativas realizada na dialtica transcendental de CRP. Ambas as posies so provavelmente 
injustas, embora seja digno de nota que poucas defesas contemporneas das explanaes de Kant sobre liberdade e ao moral se refiram aos dois outros supostamente 
inseparveis postulados de Deus e imortalidade.
impenetrabilidade [Undurchdringlichkeit] ver tambm EXTENSO; FORA; MATRIA A impenetrabilidade  definida como "a propriedade fundamental da matria por meio da 
qual ela primeiro se revela como algo real no espao de nossos sentidos externos [e]
imperativo categrico             191
nada mais  do que a capacidade de extenso da matria" (PM p.508, p.56). Embora Kant parea estar trabalhando de acordo com a noo cartesiana de matria como extenso, 
isso  rapidamente desmentido pela afirmao de que o "fundamento" da impenetrabilidade da matria  a sua "fora repulsiva". Para Descartes, a impenetrabilidade 
era parte da essncia da substncia extensa e no estava certamente fundamentada numa fora repulsiva. Em PM, Kant critica esse ponto de vista como parte de um "modo 
mecnico de explicao" que predominou de Demcrito a Descartes, e cujo pressuposto principal era "a absoluta impenetrabilidade da matria primitiva" (PM p.533, 
p.91). A sua primeira obra publicada, FV, que veio a lume 50 anos antes de PM, j tinha atacado essa viso da matria com argumentos a favor da presena de uma fora 
ativa num corpo "anterior  extenso" (1). Essa posio foi rapidamente refinada, e em FNM e, mais tarde, GN, Kant argumentou que a fora repulsiva manifestada 
pela impenetrabilidade tinha de ser contrariada por uma fora atrativa oposta; caso contrrio, "os corpos no teriam a menor coeso estrutural, porquanto as partculas 
repelir-se-iam mutuamente" (FNM p.984, p.61), um argumento que tambm se apresenta em PM. Assim, a "fora da impenetrabilidade impede uma maior aproximao de qualquer 
coisa externa" (p.484, p. 61) e  a propriedade de um corpo que exclui do espao que ele prprio ocupa um outro corpo em contato com ele. Entretanto,  sempre limitada 
pela fora de atrao, a qual no age atravs do contato (Kant tem aqui em mente a fora da gravidade). Essas foras no s constituem corpos fsicos mas tambm 
os elementos da prpria matria. Kant reteve essas posies em PM, adaptando-as apenas ligeiramente  nova estrutura crtica estabelecida pela CRP.
imperativo ver tambm IMPERATIVO CATEGRICO; HIPOTTICO; MANDAMENTO Embora a representao de um objeto que comanda a vontade seja um mandamento, a frmula de tal 
mandamento  um imperativo. Tais frmulas de mandamento so sempre "expressas por um dever-ser e indicam assim a relao de uma lei objetiva da razo com uma vontade 
que no  necessariamente determinada por essa lei por causa de sua constituio subjetiva (a relao de necessitao)" (FMC p.413, p.24). Assim, os imperativos 
recomendam cursos de ao s vontades refratrias, impondo-os contra suas inclinaes. Kant considera que os imperativos adotam numerosas formas, mas estabelece 
uma diviso fundamental entre variedades hipotticas e categricas. As primeiras mandam hipoteticamente, recomendando um curso de ao apropriado a um certo fim. 
Se este  um "fim possvel", ento o imperativo  hipottico e problemtico ou uma "regra de habilidade" da forma: "Se voc realizar w e x, ento faa y e z". Se 
esse fim  "pressuposto como real para todos os seres racionais" (p.415, p.26), como "felicidade", ento o imperativo  hipottico e assertrico ou um conselho de 
prudncia da forma "Se voc forx (= feliz), ento faay". Em contraste, um imperativo categrico "declara que uma ao  intrnseca e objetivamente necessria sem 
qualquer propsito" (p.414, p.25) e , portanto, uma lei apodctica de moralidade expressa na forma: "Age somente de acordo com aquela mxima mediante a qual possas, 
ao mesmo tempo, querer que se converta numa lei universal" (p.421, p.30).
imperativo categrico ver tambm AUTONOMIA; COMO-SE; FILOSOFIA; HETERONOMIA; IMPERATIVO; LEI; LIBERDADE; MXIMA; PRTICA; VONTADE

192            imperativo categrico
O imperativo categrico , sem dvida, um dos mais conhecidos e mais discutido aspectos da filosofia prtica de Kant. Tem sido diversamente interpretado como o princpio 
de uma filosofia moral formalista e vazia, uma glorificao da virtude prussiana de obedincia desinteressada ao chamado do dever e o princpio fundamental de uma 
descrio objetivista e racional da ao moral. Para o prprio Kant, o imperativo categrico parece combinar duas ambies filosficas possivelmente incompatveis. 
A primeira e mais modesta ambio era estabelecer o imperativo categrico como princpio cannico para discriminar entre mximas de ao, ao passo que a segunda 
o viu como um meio de justificar uma explicao metafisicamente fundamentada da liberdade como autonomia da vontade. O debate subseqente consistiu em avaliar a 
coerncia da definio de Kant do imperativo categrico e, em especial, se  sustentvel sem o envolvimento de uma metafsica da liberdade.
Antes de examinar os enunciados de Kant do imperativo categrico em FMC e CRPr, talvez seja proveitoso definir o que se entende pelos termos "imperativo" e "categrico". 
Kant define um imperativo como toda "proposio que expressa uma possvel ao livre, por meio da qual se concretiza um determinado fim" (L p.587). Tais enunciados 
baseiam-se numa "espcie de necessidade", a qual  distinta da dos enunciados tericos; em vez de declarar o que , declaram o que deve ser o caso. E assim, como 
existem vrias maneiras de declarar o "" numa proposio, tambm h diversas maneiras de declarar o "dever-ser". So essas as vrias formas de imperativo, das quais 
o categrico  um caso especial e privilegiado.
A forma de necessidade expressa pelo "dever-ser" comum a todos os imperativos exprime, para Kant, "a relao de uma lei objetiva da razo com uma vontade que no 
 necessariamente determinada por essa lei por causa de sua constituio subjetiva" (FMC p.413, p.24). O imperativo pode ser hipottico ou categrico, porm a distino 
depende de a relao da lei com a vontade ser dirigida ou no para realizar um fim. No caso de imperativos hipotticos, essa relao  dirigida para alcanar algum 
fim que se queira, no sendo esse o caso do imperativo categrico. Kant divide ainda os imperativos hipotticos segundo sejam assertricos ou problemticos; por 
outras palavras, se esto dirigidos para um fim real ou possvel. Os princpios de um imperativo real hipottico so descritos como "regras de habilidade" ou "imperativos 
tcnicos", enquanto os de um imperativo possvel hipottico so "conselhos de prudncia" ou imperativos categricos.
Tanto FMC quanto CRPr deixam claro que Kant considera que a tradio recebida de filosofia moral apenas explorou as formas de imperativo hipottico (ver, por exemplo, 
a tbua histrica dos fundamentos determinantes de princpios morais em CRPr p.40, p.41). Todas elas oferecem enunciados da forma: "Age de modo a realizar a finalidade 
x" (x = felicidade, beatitude, prazer, bem-estar, perfeio, a glria de Deus). O imperativo categrico, em contraste, declara ser uma ao necessria por si mesma, 
"sem relao com qualquer outra finalidade", e s est interessado na "forma da ao e no princpio que a rege" (FMC p.416, p.26). Neste caso, a necessidade que 
relaciona a lei objetiva com a vontade "vale como princpio apodctico prtico" (p.415, p.25).
Kant oferece numerosas condies para explicar por que esse imperativo da lei vale categoricamente para uma vontade subjetiva. A primeira  que ele  formal. Isso 
resulta de no estar interessado em realizar qualquer fim particular; o imperativo categrico "no se relaciona com a matria da ao e com o que deve dela resultar, 
mas com a
imperativo categrico             193
forma e o princpio de que ela mesma deriva" (p.416, p.26). Uma outra condio implica que o imperativo categrico deve ser conhecido imediatamente, o que leva  
mais importante das condies, que  a de que o imperativo categrico declara a universalidade da lei. Isto informa o enunciado do que Kant descreveu como sendo 
o nico imperativo categrico: "Age somente segundo uma mxima tal que possas, ao mesmo tempo, querer que ela se torne lei universal" (p.421, p.30).
Kant emprega esse enunciado do imperativo categrico como "o cnone pelo qual julgamos moralmente qualquer de nossas aes" (p.424, p.32). Usa-o para elucidar aes 
realizadas de acordo com os termos do imperativo do dever (Sollen). Tais imperativos so categricos quando obedecem  forma: "Age como se a mxima da tua ao se 
devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza" (p.421, p.30). Entretanto, Kant no se contentava com os resultados considerveis que podiam ser 
alcanados por esse uso cannico do imperativo categrico. O prprio imperativo categrico tinha de ser justificado: era necessrio "provar apriori que existe realmente 
um imperativo dessa espcie". Mas no s isso: o imperativo categrico era tambm chamado a provar "que h uma lei prtica que ordena absolutamente por si e independentemente 
de todo e qualquer mbil, e que a obedincia a essa lei  o dever" (p.425, p.33). O resultado foi a separao entre a lei prtica e as "caractersticas especiais 
da natureza humana", anloga  estabelecida entre os domnios do noumenon e do fenmeno em sua filosofia terica.
A necessidade de provar a existncia do imperativo conduziu primeiro  busca da lei que ordena absolutamente e depois a "algo cuja existncia em si mesma tenha um 
valor absoluto e que, como fim em si mesmo, possa ser o fundamento de determinadas leis" (p.428, p.35). Isso formaria a base da lei prtica e do imperativo categrico. 
Kant desvia a busca de um fim em si para a busca de seres com "valor absoluto" que eram fins em si mesmos. Identifica rapidamente esses seres com "pessoas" e passa 
a derivar a universalidade do imperativo categrico "da concepo do que  necessariamente um fim para qualquer um porque esse fim  um fim em si mesmo". A frmula 
desse imperativo l-se agora assim: "Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como 
fim e nunca apenas como um meio". Esse imperativo , pois, usado canonicamente a fim de julgar as mximas que informam casos concretos.
Kant admite que a passagem para uma "metafsica dos costumes", a qual  necessria para servir de esteio ao imperativo categrico, coloca a filosofia prtica numa 
posio precria. Esse risco foi motivado pela importncia que Kant atribuiu ao conceito de liberdade. E a liberdade que permite a transio de uma "metafsica dos 
costumes" para uma "crtica da razo prtica", mas a liberdade vale tanto para justificar como para ser justificada pelo imperativo categrico. Isso resulta dos 
dois sentidos que Kant d ao conceito de liberdade. Ele distingue entre liberdade negativa, a qual consiste na liberdade de "determinao por causas estranhas" (heteronomia) 
e liberdade como autonomia, a qual consiste num sujeito dar-se a sua prpria lei. Esta ltima liberdade estriba-se na "propriedade da vontade de ser lei para si 
mesma, o que nada mais  do que agir de acordo com uma mxima que pode, ao mesmo tempo, ter-se a si mesma como lei universal para o seu objeto" (p.447, p.49). A 
idia de liberdade como autonomia revela ser, pois, o fundamento para o imperativo categrico, o pressuposto necessrio por ns concedido a ns prprios e a outros 
seres racionais na medida em que possuem uma vontade ou "cons-

194            impresso
cincia de sua causalidade em relao s suas aes" (p.449, p.51). Entretanto, s estamos certos de possuir tal liberdade conforme formulamos imperativos categricos.
A direo da crtica do imperativo categrico por sucessores de Kant est perfeitamente resumida na frase de Nietzsche, "o imperativo categrico cheira a crueldade" 
(Nietzsche, 1887, p.65). A tentativa de Kant de fundamentar o imperativo categrico numa noo positiva de liberdade como autonomia fracassou, uma vez que liberdade 
e o imperativo categrico s podiam ser definidos em termos reativos como a supresso ou excluso de heteronomia, de sentimentos e inclinaes humanos. Essa crtica 
nada mais  do que a expresso extrema de uma direo da crtica inaugurada pelas crticas de He-gel e Schopenhauer ao imperativo categrico. Hegel, embora olhasse 
favoravelmente a definio de Kant de liberdade como autonomia da vontade, considerou, no obstante, sua formulao moral no imperativo categrico como formal e 
abstrata, assente na excluso de "todo o contedo e especificao". Por sua vez, Schopenhauer considerou-se responsvel por ter "causado a morte" do imperativo categrico 
e da lei moral e, com isso, de todas as tentativas para fundamentar a filosofia prtica na liberdade da vontade. Trabalhos recentes sobre a tica kantiana aceitaram, 
em grande parte, essas dvidas a respeito da base metafsica do imperativo categrico, e concentraram-se no seu uso como frmula cannica para testar mximas de 
ao quanto  sua coerncia e caractersticas universalizveis (ver 0'Neill, 1989).
impresso [Eindruck] ver tambm AFETO; NIMO (GEMT); RECEPTIVIDADE; REFLEXO; SENSIBILIDADE
A impresso sensorial era a principal fonte de experincia e de conhecimentos para as filosofias sensualistas e cticas antiplatnicas clssicas, tais como as de 
Demcrito, Lu-crcio e Pirro. Digenes Larcio conta que os esticos consideravam as impresses e a percepo sensorial como anteriores ao pensamento e a fonte do 
"critrio que decide a verdade das coisas". Tambm dividiram as impresses segundo sejam sensoriais ou derivem de processos no sensoriais, uma distino desenvolvida 
pelos seus sucessores modernos, Locke e Hume, em sua distino entre impresses sensveis e refletidas. Para Kant, a noo de "impresso" tornou-se importante na 
obra pr-crtica SV, o texto onde Kant se mostra mais ansioso por fixar fronteiras corretas entre experincia "real" e "imaginria". Mantm uma presena um tanto 
subdesenvolvida mas enftica na descrio kantiana da receptividade da sensibilidade, onde serve como linha bsica da percepo, a matria da percepo sensorial. 
Em Dl, por exemplo, a descoberta de que espao e tempo so os elementos formais da intuio  condicionada pela afirmao de que eles, e outros : aspectos formais 
do conhecimento, no so derivados de impresses sensoriais como "impresses refletidas" mas so apenas estimulados por elas  ao; atravs delas, a mente "rene 
de uma maneira fixa as impresses sensoriais geradas pela presena de um objeto" ( 15). As impresses tm um status igualmente residual em CRP, onde a receptividade 
da mente, atravs da qual os objetos nos so dados,  definida como a "receptividade para impresses" (A 50/B 74). Era necessrio ao "idealismo crtico" de Kant 
preservar de alguma forma as impresses, a fim de evitar o Cila do "idealismo absoluto", ; mas tambm tinham de ser marginalizadas para evitar o Caribde do empirismo-
impulso [Trieb] ver tambm INCENTIVO; INCLINAO; PAIXO
inclinao             195
Os impulsos so descritos por Kant no "Ensaio sobre as enfermidades da mente" (1764) como constitutivo da natureza humana e manifestos nos vrios graus das paixes. 
Tambm so mencionados em OBS como sendo "proporcionados" quando as inclinaes esto subordinadas a um ponto de vista mais amplo. Embora fosse raras vezes mencionada 
pelo prprio Kant, a noo de uma economia de impulsos subjacente na topologia prtica da razo e inclinao foi repetidamente revivida e desenvolvida, primeiro 
por Fichte . (1794) e Schopenhauer (1841) e, mais recentemente, por autores de inspirao psicanal-tica, como Mia Kristeva em Revoluo na linguagem potica (1974) 
e Lyotard em Economia libidinal (1974).
incentivo [Triebfeder] ver tambm FILOSOFIA PRTICA; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; IMPULSO; MOTIVO; RESPEITO; VONTADE
Em FMC, Kant distingue entre o incentivo como um "fundamento subjetivo da apetio" e o motivo como "o fundamento objetivo do querer" (p.427, p.35). Ambos fornecem 
fins para a determinao da vontade; o incentivo fornece um fim subjetivo e o motivo um fim objetivo. Os princpios prticos baseados em fins e incentivos subjetivos 
so materiais" e relativos a um determinado sujeito, e s podem oferecer bases para imperativos hipotticos. Em contrapartida, os princpios prticos que abstraem 
de fins subjetivos so formais, potencialmente universalizveis para todos os sujeitos racionais e capazes de servir como imperativo categrico.
Embora Kant no considere os incentivos como provedores de fundamentos para aes propriamente morais (so suficientes apenas para regras de habilidade e conselhos 
de prudncia), ele explora, no entanto, a noo de um incentivo moral em CRPr, captulo 3. A define o incentivo, em concordncia com FMC, como um "fundamento subjetivo 
determinante de uma vontade cuja razo no , por sua natureza, necessariamente compatvel com a lei objetiva" (p.72, p.74), e reconhece que isso suscita o "problema 
insol-vel para a razo humana" de "como uma lei pode ser, per se, o fundamento determinante direto da vontade". Em vez de buscar uma resposta em termos de um incentivo 
apropriado  lei moral, Kant prefere indagar o que a lei moral "efetua (ou melhor, deve efetuar) no nimo, na medida em que constitui um incentivo" (p.72, p.75). 
A resposta  "reverncia pela lei", no como o incentivo  moralidade mas como a "prpria moralidade, vista subjetivamente como um incentivo", uma moralidade que 
rejeita as "pretenses rivais de egosmo" e que, como "sentimento moral",  "um incentivo para fazer dessa lei uma mxima" (p.76, p.78-9).
inclinao [Neigung] ver tambm AFETO; DEVER; FILOSOFIA PRTICA; IMPERATIVO; INCENTIVO; INTERESSE; MANDAMENTO; MUNDO SENSVEL; RESPEITO; SENTIMENTO; VONTADE
A filosofia moral de Kant est estruturada em torno da oposio entre dever e inclinao. Para ele, o dever "orgulhosamente rejeita todo parentesco com as inclinaes" 
(CRPr P-87, p.89); ele est fundamentado na liberdade do mundo sensvel, no qual a inclinao est firmemente enraizada. Por essa razo, na filosofia prtica de 
Kant, a inclinao  chamada a representar os aspectos subjetivos, materialmente baseados e parciais da ex-Perincia moral humana, os quais so contrariados pelo 
objetivo, formal e universal imperativo categrico. Inclinao  "a dependncia da faculdade de apetio das sensaes

196             incondicionado
.... a qual, em conseqncia, indica sempre uma necessidade" (FMC p.413, p.24) e, para Kant, possuir uma vontade determinada exclusivamente por inclinao  ser 
desprovido de espontaneidade, reagir meramente a estmulos, uma condio que Kant descreve como "escolha animal {arbitrium brutum) (MC p.213, p.42). A escolha humana 
pode ser afetada mas no determinada por inclinao, a qual, para Kant, s serve para debilitar a liberdade da vontade. A inclinao , portanto, a fonte para a 
heteronomia da vontade, ou seja, a sua determinao por objetos fora da vontade; no seu caso, a vontade "no se d a lei, mas  o objeto que assim faz por causa 
de sua relao com a vontade" (MC p.441, p.45). Os objetos da inclinao tm apenas um "valor condicionado"; isto , eles no so desejados "por si mesmos" mas to-somente 
porque concorrem para satisfazer fins fora deles, a saber, as necessidades da inclinao (FMC p.427, p.35). Isso, para Kant, torna-os indignos de servirem como princpios 
de juzo moral, pois, como no podem ser universalizados, s podem servir como base de imperativos hipotticos e no categricos.
incondicionado ver ABSOLUTO; ANTINOMIA; IDIA; LIBERDADE; RAZO
indivduo ver MNADA; PESSOA
induo [Induktion] ver tambm DEDUO; INFERNCIA
A induo  definida na "Lgica de Blomberg" como uma inferncia da forma: "O que pertence a tantas coisas quantas me foram dadas at agora conhecer deve tambm 
pertencer a todas as coisas que so dessa espcie e gnero" (L p.232). Kant descreve essa forma de inferncia como uma "muleta" para o entendimento, sem o que a 
maior parte de nosso conhecimento seria impossvel, exceto aquele que "se ope por completo  regra lgica". Na "Lgica de Hechsel", ele desenvolve este ltimo ponto 
ao sustentar que a "universalidade" da inferncia  apenas emprica, em contraste com a universalidade racional em que "o que atribuo ao conceito universalmente 
pertence, na realidade, a todas as coisas sem exceo" (p.408). O fundamento de tal universalidade racional  o princpio de contradio, o qual informa as inferncias 
dedutivas.
Em CRP, o ponto lgico respeitante  induo  ampliado para abranger a universalidade e necessidade das regras de sntese apropriadas  formulao de juzos a priori 
sintticos. Enquanto os juzos analticos so justificados de acordo com o princpio de contradio, isso no basta para justificar juzos a priori sintticos. As 
categorias possuem uma estrita universalidade e necessidade que no podem ser justificadas pelo princpio de contradio nem atravs da induo. Isso  exemplificado 
pela categoria de causa discutida na segunda analogia. Kant critica a derivao indutiva do conceito de causa com base na "percepo e comparao de acontecimentos 
que se sucedem sempre, de maneira uniforme, s aparncias precedentes", para gerar apenas uma universalidade e necessidade "emprica" e "fictcia" (CRP A 196/B 241). 
Ele sustenta que s a disposio transcendental fornecer os desejados critrios e, alm disso, est subjacente na prpria possibilidade de induo: "S podemos 
extrair da experincia conceitos claros [de representaes a priori] porque os tnhamos posto na experincia e, portanto, a constitumos precisamente mediante tais 
conceitos" (A 196/B 241).
inferncia [Aufschliessen] ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; DIALTICA; IDIA; ILUSO; LGICA; PARALOGISMOS
infinitude              197
Kant distinguiu o conhecimento imediato de que, por exemplo, numa figura limitada por trs linhas retas existem trs ngulos, do conhecimento inferido de que a soma 
desses trs ngulos  igual a dois ngulos retos. A inferncia consiste na seqncia lgica que avana da verdade de uma proposio ou juzo fundamental para a concluso 
que  dela extrada. Um caso em que a concluso  diretamente aduzida do juzo fundamental  uma "inferncia imediata do entendimento". As inferncias da razo so 
aquelas que requerem, pelo menos, um segundo juzo em aditamento ao primrio, a fim de se obter uma concluso. O exemplo clssico da inferncia mediata  o silogismo, 
cujas trs partes - (a) premissa maior, (b) premissa menor e (c) concluso - so reformuladas por Kant em termos de (a) concepo de uma regra (maior) pelo entendimento, 
(b) subsuno de um conhecimento na condio dessa regra (menor) mediante a faculdade de julgar e (c) determinao do meu conhecimento pelo predicado da regra (concluso), 
por conseguinte a priori pela razo (CRP A 304/B 361). Kant acreditava que inferncias defeituosas esto na raiz da iluso e do erro. Inferncias falaciosas do entendimento 
"tratam como sendo imediatamente percebido o que na realidade foi apenas inferido" (A 303/B 359), ao passo que as da razo resultam de aduzir concluses que excedem 
os limites da experincia, convertendo os predicados de regras do entendimento empregadas nas premissas maiores em totalidades incondicionadas. Kant analisa trs 
formas de inferncia dialtica: na primeira, do conceito transcendental do sujeito infiro a unidade absoluta do sujeito, que assume a forma de um paralogismo; na 
segunda, da srie de condies que asseguram uma aparncia infiro a totalidade absoluta dessas condies, que>adotam a forma de antinomia; enquanto na terceira, 
da totalidade de condies de um objeto de experincia infiro as de objetos em geral, gerando "o silogismo dialtico a que darei o nome de ideal da razo pura" (A 
340/B 398).
infinitude [Unendlichkeit] ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; IMORTALIDADE; MATEMTICA; MUNDO; TEMPO
Os paradoxos gerados por tentativas para conceber o infinito provaram ser um problema perene para os filsofos desde as primeiras especulaes gregas de Anaximandro, 
Par-mnides e Zeno. A.W. Moore (1990) distinguiu utilmente entre infinitude metafsica e matemtica, e mostrou como os paradoxos do infinitamente grande, infinitamente 
pequeno e o de um e os muitos resultam da aplicao ao espao e ao tempo de infindvel di-visibilidade e iterao de uma srie matemtica. Esses paradoxos classicamente 
enunciados por Zeno (Barnes, 1987, p. 150-8) foram criticados por Aristteles, que procurou redefinir os termos de pensar o infinito mediante a distino entre 
potencial e real. Um infinito real teria de existir no tempo, um infinito potencial para alm do tempo; entretanto, o primeiro exigiria atravessar o infinito no 
tempo, o que contradiz a noo original do infinito (ver Moore, 1990, p.40).
A resposta de Kant aos problemas especulativos do infinitamente grande e infinitamente pequeno nas primeiras duas antinomias "cosmolgicas" de CRP adota uma estratgia 
similar de argumentao. O infinitamente grande ou pequeno no podem ser objetos de experincia e so iluses produzidas pelas inferncias dialticas da razo. Na 
primeira antinomia, Kant ope a tese de que o mundo tem um comeo no tempo e  limitado no espao  anttese de que o mundo no tem comeo nem limites no espao, 
e  infinito tanto no tempo como no espao (CRP A 426/B 454). A segunda antinomia diz

198            interesse
respeito  divisibilidade infinita da substncia do mundo, com a tese sustentando que as substncias compostas so constitudas por partes simples e que somente 
estas podem existir,  qual se ope a anttese de que nenhuma coisa composta  constituda por partes simples, nem no mundo existe nada que seja simples (A 434/B 
462). Kant no subscreve nenhuma dessas posies, mas usa-as para mostrar as conseqncias dialticas provocadas pela tentativa da razo de inferir conseqncias 
absolutas, incondicionadas, de premissas condicionadas pelo entendimento humano finito. Embora a filosofia terica tenha de reconhecer o carter dialtico da aplicao 
do infinito matemtico  natureza, Kant insiste para que a infinitude metafsica, sob a forma de imortalidade, seja aceita como um postulado da razo prtica pura. 
Na clebre apstrofe com que fecha a CRPr, "Acima de mim o cu estrelado e dentro de mim a lei moral", Kant pe em contraste a infinitude do cosmo cuja "inumervel 
multido de mundos aniquila ... a minha importncia como criatura animal" com a infinitude de personalidade revelada pela lei moral, da qual pode ser inferida "uma 
vocao que no est restrita s condies e limites desta vida, mas alcana, pelo contrrio, o infinito" (p. 162, p. 166). Assim, numa forma de oposio dialtica, 
 incapacidade da razo terica para compreender o infinito opem-se as sugestes de imortalidade da lei moral.
As reflexes de Kant sobre o infinito foram extremamente crticas para o desenvolvimento do idealismo transcendental. Fichte, Schellling e, sobretudo, Hegel buscaram 
modos de "pensar o absoluto" ou devolver o infinito  filosofia terica. Para Hegel (1812,1830). Kant tinha desenvolvido uma "infinitude ruim" tanto em sua investigao 
terica quanto prtica do conceito. As infinitudes criticadas em CRP eram "ms infinitu-des" das infindveis sries matemticas, prolongando-se at ao infinitamente 
grande e descendo at ao infinitamente pequeno. Na mesma ordem de idias, a infinitude postulada na filosofia prtica era de uma espcie que fazia da moralidade 
uma "tarefa interminvel", algo que no se podia poupar esforos para alcanar atravs de toda a eternidade. Em vez dessas noes de infinitude, Hegel props uma 
infinitude real semelhante  aris-totlica, em que o infinito no era simplesmente visto como negao do finito mas como realizado dentro dele, e onde a vida tica 
(oposta  "moralidade" kantiana) podia tornar-se real dentro desta vida e no exigia a interminvel tarefa implcita no postulado da imortalidade.
interesse ver tambm AGRADVEL; BOM; ESTTICA; FILOSOFIA PRTICA; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; IMPULSO; INCENTIVO; INCLINAO; RAZO; RESPEITO Interesse  
um termo que est presente em cada uma das trs crticas, mas com significados ligeiramente diferentes. Em CRP, o "duplo interesse" da razo manifesta-se nos diversos 
modos de pensar dos "estudiosos da natureza". Aqueles cujo interesse os torna "hostis  heterogeneidade tm sempre em vista a unidade do gnero", enquanto aqueles 
cujo interesse tem uma orientao mais emprica "esto tentando constantemente diferenar a natureza" (A 655/B 683), com os primeiros destacando a busca do gnero, 
os segundos a busca da espcie. Nesse contexto terico, interesse significa um compromisso prvio com um modo de pensamento que no est racionalmente fundamentado.
O uso do interesse na filosofia prtica  muito distinto do uso em CRP, e tambm est definido com maior preciso. Em FMC, Kant distingue entre formas da razo (a) 
pura e prtica e (b) mediata e patolgica. Ambas significam a dependncia de uma "vontade
interno/externo             199
determinvel de modo contingente por princpios da razo", mas o interesse da primeira "indica somente a dependncia da vontade dos princpios da razo per se", 
ao passo que a segunda indica dependncia "no interesse da inclinao" (FMC p.413, p.24). O primeiro interesse est orientado para a ao pela ao, o segundo para 
um "objeto da ao" (na medida em que esse objeto me  agradvel)"; ou seja, considera os princpios da razo como meios para realizar os fins estabelecidos por 
inclinao. No caso do interesse ime-diato da razo, a "validade universal da mxima de ao  um suficiente fundamento determinante da vontade", enquanto o interesse 
patologicamente mediato da razo s pode determinar a vontade "mediante um outro objeto de apetio ou no pressuposto de algum sentimento especial no sujeito" (FMC 
p.460, p.59). O que est em jogo nesta distino  a escolha entre a autonomia ou a heteronomia da lei moral; se estamos interessados na lei moral por razes heternomas, 
patologicamente mediadas, ou se "a lei moral nos interessa porque  vlida para ns como seres humanos" (p.461, p.60).
Em CRP, Kant combina os interesses especulativos e prticos da razo nas perguntas: "1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me  permitido esperar?" (A 805/B 
833). O primeiro  um interesse especulativo, que Kant considera satisfeito pela resposta fornecida em CRP. O segundo interesse  prtico e s pode ser satisfeito 
por uma resposta moral. O terceiro interesse  satisfeito ao indicar-nos como podemos tornar-nos "dignos de ser felizes" (A 806/B 834). Os "interesses" evocados 
por essas perguntas no so fins distintos apetecidos pela razo mas denotam, antes, sua orientao bsica no mundo.
Em CJ, Kant define a qualidade do juzo esttico do gosto como "independente de qualquer interesse" (5), seja ele puro ou patolgico. O interesse puro no bom e 
o interesse patolgico no agradvel vinculam a apetio do sujeito  "existncia real do objeto" (5), o que vicia o carter contemplativo do juzo esttico do gosto. 
Este deveria estar unicamente interessado no prazer e desagrado suscitados pelo objeto. O que isso precisamente acarreta permanece por esclarecer em CJ, cujo argumento 
se desenvolve pela negao da existncia de explicaes do juzo esttico. O interesse no objeto manifestado pelo agradvel refere-se s descries da beleza feitas 
pela teoria britnica do gosto no sculo xvm, o manifestado pelo bom  descrio wolffiana da beleza como uma percepo confusa da perfeio. Ambos so informados 
por um interesse em seus respectivos objetos, mas um que, como Kant mostra, no pode servir como base para um julgamento do belo, se bem que no caso da beleza natural 
o interesse intelectual possa contribuir para o prazer suscitado pelo objeto (CJ 42).
interesse da razo ver ESPERANA; FELICIDADE; INTERESSE; SABER
interno/externo [das Innere undussere] ver tambm CONCEITOS DE REFLEXO; IDENTIDADE; ILUSO; OPOSIO
Esta oposio constitui um dos conceitos de reflexo discutidos em CRP, a par das de identidade e diferena, concordncia e oposio, matria e forma. So conceitos 
empregados pelo juzo antes da sntese e servem para atribuir representaes  intuio ou ao entendimento. Se esses conceitos so aplicados diretamente  experincia, 
do origem a anfibologias como as que Kant identificou na obra de Locke e Leibniz, que, respectivamente, "intelectualizaram aparncias" e "sensualizaram todos os 
conceitos do entendimento" (CRP A 271/B 327). No caso de interno/externo, a anfibologia consistiu em

200            interpretao
considerar-se conceitos relacionais para a orientao de conceito e intuio como qualidades objetivas; em vez de assinalarem uma relao entre objetos e os nossos 
juzos, julgou-se incorretamente que so relaes objetivas entre coisas. As iluses a que essa anfibologia d origem so uma espcie das iluses do entendimento 
que foram discutidas primeiro em sv em termos da confuso de interno e externo.
interpretao [Auslegung]
Em CF, Kant distingue entre as interpretaes autnticas e doutrinais de um texto bblico. Nas primeiras, a "exegese deve harmonizar-se literalmente (filologicamente) 
com o pensamento do autor", ao passo que nas segundas o intrprete  obrigado "a atribuir ao texto (filosoficamente) o significado que admite para fins formalmente 
morais (a edificao do aluno); pois a f, numa proposio meramente histrica, est, em si, morta" (CF p.66, p.121). Kant aplica essa distino entre interpretar 
a letra e o esprito  interpretao de seus predecessores filosficos. Em SD, ele descreve a CRP como "a genuna apologia de Leibniz" contra os seus partidrios 
que, como muitos historiadores da filosofia, "no podem compreender o propsito desses filsofos porque menosprezam a chave para a interpretao de todos os produtos 
da razo pura com base em meros conceitos, a prpria crtica da razo". Permanecem confinados para o autntico e ignoram a interpretao doutrinai do texto filosfico; 
e, nas palavras concludentes de Kant, so "incapazes de reconhecer, para alm do que os filsofos realmente disseram, o que eles realmente pretenderam dizer" (SD 
p.251, p.160).
intervalo ver CONTINUIDADE
intuio [Anschauung] ver tambm A PRIORJ; AXIOMA; ESPAO; ESTTICA; FORMA; MATEMTICA; OBJETO TRANSCENDENTAL; RECEPTIVIDADE; SENSIBILIDADE; SENTIDO; SENTIDO INTERNO; 
TEMPO
Na tradio aristotlica havia considervel perplexidade a respeito das relaes entre a explicao de Aristteles para o conhecimento intuitivo e demonstrativo 
nos Segundos analticos e a explicao da percepo inteligvel e sensvel (noesis e aisthesis) no tratado Da alma. Nos Segundos analticos, Aristteles afirma que 
as "premissas primrias" do conhecimento cientfico so apreendidas intuitivamente e que a intuio  a "fonte criadora do conhecimento cientfico" (Aristteles, 
1941,100b). Assim, a apreenso intuitiva  imediata, em contraste com o conhecimento mediato e discursivo da demonstrao cientfica. Segundo Da alma, o conhecimento 
resulta da abstrao das noeta dos aistheta, mas com a ressalva de que os elementos sensveis e inteligveis pensados separadamente no existem em separado ou, nas 
palavras de Aristteles, "que a mente que est ativamente pensando  os objetos que ela pensa" (Aristteles, 1941,431b, 18).
A perplexidade com que a tradio se defrontava consistia em se devia ou no unir essas duas explicaes e, no caso afirmativo, de que modo faz-lo. Afora o fato 
de negar qualquer relao entre elas, havia trs opes disponveis. Uma era enfatizar os elementos platnicos em Aristteles e identificar o conhecimento intuitivo 
imediato com noeta; uma outra era identificar o conhecimento intuitivo com a percepo sensvel ou aistheta; ao passo que a terceira opo era postular um grupo 
de objetos ocupando uma posio intermdia entre noeta e aistheta (ver Wolfson, 1962, vol. II, p. 156). Em termos formais, a doutrina kantiana da intuio esboada 
em Dl e desenvolvida em CRP pode ser situada no
intuio            201
mbito dos termos da terceira opo, mas enfatizando o carter paradoxal de tais objetos intermdios.
Antes de Kant, Descartes e Espinosa distinguiram radicalmente entre o conhecimento intuitivo e outras formas de conhecimento. Embora Descartes atribua grande importncia 
nas Regras para a direo de nossa inteligncia natural (1628) a que "no se preste ateno" ao "modo como determinados termos vm sendo recentemente empre-* gados 
nas escolas", o seu declaradamente "novo uso do termo intuio" difere pouco da tradio aristotlica. Distingue-a do "testemunho dos sentidos" e define-a como uma 
"concepo inquestionvel de uma mente lmpida e atenta [que] procede exclusivamente da luz da razo" (Regra III). Diferente do conhecimento dedutivo,  imediato 
e simples, e exemplificado pela "intuio [do indivduo] do fato de que existem, e de que pensam". Espinosa, na tica (1677), acompanhou Descartes na distino entre 
trs formas de conhecimento: o conhecimento da opinio fundamentada nos sentidos e na imaginao (em termos gerais, os aistheta aristotlicos), o conhecimento da 
razo fundamentado em noes ou conceitos comuns {noeta) e, finalmente, o conhecimento intuitivo, imediato, da essncia formal dos atributos de Deus e das coisas 
em geral (1985, p.475-8).
Descartes e Espinosa inclinam-se para uma viso platnica do conhecimento intuitivo que prefere o conhecimento imediato do domnio inteligvel ao conhecimento mediato 
dos sentidos. Locke, no Ensaio acerca do entendimento humano, concordou em que o conhecimento intuitivo era no s imediato mas tambm "o mais claro e mais certo 
de que  capaz a fragilidade humana" (Locke, 1690, p.272). Entretanto, para ele, esse conhecimento no  derivado dos noeta inteligveis, como era para Descartes 
e Espinosa, mas dos objetos da percepo externa: "No pode haver nada mais certo do que o fato de a idia que recebemos de um objeto externo estar em nossas mentes: 
isto  conhecimento intuitivo" (p.277). Esse conhecimento  imediato, porm orientado mais para aistheta do que para noeta. Leibniz, em sua crtica de Locke nos 
Novos ensaios sobre o entendimento humano (concludos em 1705 mas publicados em 1765), tentou reconciliar Descartes e Locke ao propor verdades intuitivas do fato 
e da razo (Leibniz, 1765, p.361-7), mas seu seguidor e divulgador, Christian Wolff, confinou o conhecimento intuitivo  intuio direta da perfeio racional. Esse 
critrio, por sua vez, foi criticado pelo wolffiano hertico A.G. Baumgarten, que argumentou a favor do conhecimento intuitivo da perfeio racional atravs da percepo 
sensvel, uma forma de conhecimento que ele batizou de "esttico".
A doutrina da intuio de Kant deve ser situada no mbito da agenda estabelecida por Aristteles. Ele permaneceu coerente com a tradio aristotlica a respeito 
do carter direto no mediato da intuio, mas estabeleceu sua prpria variante da mesma, a qual recusou a oposio do conhecimento direto entre os noeta dos racionalistas 
e os aistheta dos empiristas. Embora Kant situe a intuio ao nvel da sensibilidade ou aisthesis na "Esttica transcendental" da CRP (isto , abaixo do entendimento 
e da razo), ele tambm lhe concede um carter formal apriori, logrando desse modo sublinhar o elemento imediato, sensvel, no conhecimento sem ser lockiano, e o 
elemento formal, apriori, sem ser cartesiano. Era essencial estabelecer esse equilbrio a fim de satisfazer uma das principais condies requeridas "para resolver 
o problema geral da filosofia transcendental: como so possveis juzos sintticos apriori?" (CRP B 73). Tais juzos sintetizam concei-

202            intuio
tos com intuies sensveis que, embora heterogneas em relao a eles, possuem, no obstante, um carterinteligvel apriori.
A maioria dos elementos da doutrina kantiana da intuio est presente no  10 de Dl. Ele comea por afirmar que "No existe (para o homem) intuio do que pertence 
ao entendimento... pensar s  possvel para ns por meio de conceitos universais em abstrato, no por meio de um conceito singular em concreto". Neste ponto, ele 
subscreve a distino ortodoxa entre o conhecimento imediato da intuio e o conhecimento mediato do entendimento. O entendimento humano s pode funcionar "discursivamente 
por meio de conceitos gerais", mas para Kant isso no exclui a possibilidade de outros entendimentos e intuies constitudos de modo diferente. No 10, considera 
a intuio intelectual e a divina, as quais reaparecem em CRP. A intuio intelectual consiste num conhecimento intelectual e direto das coisas em si, e no como 
aparncias no espao e no tempo (CRP B 307), ao passo que a intuio divina  produtiva, na medida em que produz os objetos que pensa, em vez de ser passivamente 
afetada por objetos dados  maneira de
intuio humana (ibid.).
Na segunda frase do  10, Kant escreve que "toda a nossa intuio est vinculada a um certo princpio de forma, e  somente sob essa forma que qualquer coisa pode 
ser apreendida pela mente imediatamente ou como singular, e no concebida apenas discursivamente por meio de conceitos gerais". Com isso, ele converte a intuio 
de uma caracterstica adjetivai do conhecimento numa faculdade de conhecimento. A faculdade de intuio possui um "certo princpio de forma", atravs do qual a mente 
pode apreender diretamente a singularidade concreta das coisas e no subsumi-las como exemplos de conceitos abstratos e gerais. Nessa frase, Kant apresenta o paradoxo 
central de sua explicao da intuio: que esta apreende diretamente objetos mas o faz mediante princpios formais. Essa qualidade da intuio reaparece repetidas 
vezes em CRP, onde a intuio  a "relao imediata" (sic) com objetos e ocorre "somente na medida em que o objeto nos  dado" (CRP A 20/B 34).
Na terceira frase de Dl 10, os princpios formais da intuio so revelados como espao e tempo, os quais so ainda mais especificados como as condies "sob as 
quais alguma coisa pode ser um objeto de nossos sentidos". Embora Kant enumere em Dl as propriedades que espao e tempo possuem como puras intuies - elas so "singulares", 
nem "inatas" nem "adquiridas", bem como condies das sensaes e por elas esti- ", muladas  ao - ele no se arrisca a apresentar uma prova de por que so essas 
as condies para os objetos de nossos sentidos. Isso  fornecido em CRP e P por meio de mtodos analticos e sintticos. Na "Esttica transcendental" de CRP, Kant 
analisa ou decompe a sensibilidade em seus elementos. Prope, primeiro, "isolar a sensibilidade, abstraindo de tudo o que o entendimento pensa com os seus conceitos" 
(CRP A 22/B 36). Com isso, "resta apenas a intuio emprica", da qual  separado "tudo o que pertence  sensao para sobrar somente a intuio pura e a mera forma 
de aparncias".  ento apurado que existem "duas formas puras de intuio sensvel", a saber, espao e tempo. Em P, Kant argumenta sinteticamente desde as formas 
de intuio aos objetos dos sentidos. Sustenta que as intuies de coisas presentes no so possveis sem "uma base de relao entre a minha representao e o objeto" 
(9), a qual "precede todas as impresses reais atravs das quais sou afetado por objetos "; sem as formas apriori da intuio para relacionar o eu e seus objetos, 
no haveria experincia de objetos (ver tambm CRP B 132).
intuio            203
Em CRP, Kant oferece provas para justificar por que somente o espao e o tempo se qualificam como formas de intuio. Aquela que ele parece achar ser a mais convincente 
sustenta que, embora todos os conceitos, exceto espao e tempo, pressuponham "algo emprico", espao e tempo so puros e apriori: o espao no ocupa espao e o tempo 
no sofre alterao no tempo (CRP A 4 l/B 58). Esse argumento tambm valida o status transcendental de espao e tempo, a saber, que so condies de experincia 
espao-temporal e no podem ser abstradas de sensao ou da natureza da substncia pensante. Isso concorda com o ponto de vista enunciado em Dl 10, segundo o qual 
as formas de intuio fornecem "a condio de conhecimento sensvel", sendo anteriores ao conhecimento sensvel e no derivadas deste. Mas esta afirmao no se 
coaduna com o ponto de vista de que a intuio  passiva, de que a "matria de conhecimento"  dada atravs dos sentidos e de que a intuio "s  possvel na medida 
em que  possvel a alguma coisa afetar os nossos sentidos" (ibid.). Neste caso, a intuio parece fornecer as condies para algo afetar a nossa sensibilidade e 
ser condicionada por algo que a afete.
O carter paradoxal da intuio tanto como condio de quanto como condicionada por objetos dos sentidos  usado em Dl para impedir que noumena sejam "concebidos 
por meio de representaes extradas de sensaes". E tambm empregado em CRP para sustentar a crtica s afirmaes de que espao e tempo so mais do que formas 
que estruturam a nossa intuio. Este ltimo desenvolvimento j est subentendido na distino entre representao e sensao mencionada em Dl  10, a qual prenuncia 
a crucial distino crtica entre aparncia e sensao em CRP. As aparncias so divididas em sensao, ou "matria de aparncia", e "forma de aparncia", ou espao 
e tempo. Estes ltimos encontram-se num estado de potencialidade ou, nas palavras de Kant, "prontos para aplicar-se s sensaes a priori no esprito" (CRP A 20/B 
34) e so ativadas pela sensao. Assim, a noo de aparncia torna possvel que as formas de intuio sejam consideradas potencialmente anteriores (mas, na realidade, 
posteriores)  sensao ou  matria de intuio. Surge aqui uma complexidade adicional, a qual consiste em que a matria de intuio que  diretamente intuda no 
pode ser considerada como objetos em si mesmos, porquanto j esto constitudos como aparncias, visto ser axiomtico para Kant "que as coisas que intumos no so 
em si mesmas tal como as intumos" (CRP A 42/B 59). Isso  tambm paradoxal, uma vez que requer que consideremos a intuio como conhecimento direto de objetos, 
a saber, "as coisas que intumos", e simultaneamente como uma aparncia mediara ou "o que intumos nelas como seres" (ibid.).
Quando a perspectiva sobre intuio muda das relaes entre intuio e objetos dos sentidos para as entre intuio e entendimento, manifesta-se um conjunto anlogo 
de paradoxos.  vital para o projeto crtico que os conceitos do entendimento e as formas de intuio sejam genericamente distinguidas. A intuio corresponde ao 
aspecto "passivo" ou "receptivo" da experincia humana e o entendimento ao papel desempenhado nela pela sntese ativa e espontnea da apercepo. Embora as duas 
devam ser rigorosamente distinguidas uma da outra, elas devem tambm estar relacionadas em juzos apriori sintticos. Kant assinalou isso na frase lapidar: "Pensamentos 
sem contedo so vazios, intuies sem conceitos so cegas" (CRP A 5 l/B 75), donde concluiu que os conceitos devem ser sensveis e as intuies inteligveis sem 
que troquem, no entanto, suas funes e domnios prprios.

204          intuio intelectual
Os resultados apresentados na "Lgica transcendental" da CRP mostram como os aistheta e os noeta da tradio podem relacionar-se sem que nenhum deles se subordine 
ao outro. Deste modo, a filosofia crtica respeita a distino aristotlica recebida, embora reconfigurando-a de acordo com uma doutrina da intuio que combina 
aspectos sensveis e inteligveis. intuio intelectual ver INTUIO intuio sensvel ver ESPAO E TEMPO; INTUIO; SENSIBILIDADE
J
juzo [krinein, iudicium, Urteil\ ver tambm CNONE; ESQUEMA(TlSMO); FACULDADE DE JUZO; INFERNCIA; JUZO DETERMINANTE; JUZO REFLEXIVO; SNTESE; SUBSUNO; UNIDADE
O juzo fornece a matriz de toda a filosofia de Kant. Cada uma das trs crticas est orientada para a anlise de uma determinada classe de juzo: juzos tericos 
em CRP, juzos prticos em CRPr, juzos estticos e teleologicos em CJ. Alm disso, no mbito de cada crtica, as prprias anlises dos juzos passam por novas articulaes 
e subdivises. Uma noo incipiente da centralidade do juzo na filosofia de Kant pode ser obtida num comentrio de 1762 em FS, no qual Kant identifica "o misterioso 
poder" que "torna o juzo possvel" e distingue os seres humanos dos animais como no sendo "outra coisa seno a faculdade do sentido interior... a faculdade de 
fazer de nossas prprias representaes os objetos de nosso pensamento" (p.60, p.104). Kant acrescenta que esse poder ou capacidade de julgar  "fundamental" e "no 
pode ser derivada de alguma outra faculdade", um ponto que ele reiterou em CRP (A 133/B 172) e em CJ (Prefcio).
A faculdade de julgar s pode ser conhecida atravs de sua atividade, a qual consiste, naturalmente, em formular juzos. Os juzos formam os pontos de partida das 
anlises de Kant dos processos da faculdade de julgar em seus modos terico, prtico e esttico/teleolgico. Cada modo de julgar tem uma certa caracterstica distintiva: 
o juzo terico "contm um  ou um no ", o juzo prtico um "deve, a necessidade de por que razo algo acontece para este ou aquele fim" ("Lgica de Viena" em 
L p.376), ao passo que o juzo esttico do gosto contm uma referncia ao sentimento de prazer ou despra-zer. A filosofia crtica, como um todo,  dedicada a determinar 
os limites de juzos legtimos em cada um desses campos, e o faz mediante uma estratgia dual mas complementar. Isso fornece primeiro as regras de subsuno necessrias 
ao juzo legtimo. Oferece um organon para julgar, do qual podem ser derivados critrios ou princpios para um cnone com os quais discriminar os verdadeiros dos 
falsos juzos. Elementos de ambas as estratgias podem ser encontrados em cada uma das trs crticas.
No mago da CRP est a afirmao de que "todos os juzos so funes da unidade entre as nossas representaes" (A 69/B 93) e sua conseqncia, a de que "podemos 
reduzir todos os atos do entendimento a juzos" (A 69/B 94). Com isso, Kant pde avanar de uma viso dos conceitos como funes formais da unidade em juzo para 
a de servirem como predicados de possveis juzos" relacionados com "alguma representao de um objeto ainda no determinado" (ibid.). Dos juzos formais agrupados 
na tbua de juzos

206          juzo, poder e faculdade do
de acordo com sua quantidade, Kant pde derivar a tbua de categorias. A passagem de juzos formais para categorias  extremamente significativa, subentendendo uma 
mudana de foco da "forma lgica de juzo" determinada pela unidade analtica das representaes que constituem um julgamento para uma que introduz "um contedo 
transcendental em suas representaes, mediante a unidade sinttica do mltiplo em intuio em geral" (A 79/B 105). Esta ltima forma de unidade  o juzo apriori 
sinttico de que depende o xito ou fracasso da filosofia crtica. Diferentemente dos juzos analticos, os quais so determinados pelo princpio de contradio, 
o juzo apriori sinttico tem um nmero de princpios derivados dos conceitos puros do entendimento. Estes so descritos na seo de CRP sobre a "Analtica dos princpios", 
que Kant expe como "apenas um cnone para a faculdade de julgar, que instrui sobre como aplicar s aparncias os conceitos do entendimento que contm as condies 
das regras apriorf (A 132/B 171).
A "Analtica transcendental" de CRP apresenta os conceitos do entendimento e estabelece as condies de seu uso correto. Fornece uma "lgica da verdade" (A 13 1/B 
170) com o desenvolvimento de um organon para o uso subsuntivo correto dos conceitos do entendimento, assim como um cnone com o qual identificar falsos juzos. 
Na "lgica da iluso" desdobrada na dialtica transcendental, a ateno de Kant est dedicada ao estabelecimento de um cnone contra as inferncias ilusrias da 
razo. Uma inferncia envolve a relao entre dois ou mais juzos, o que leva a falcias do entendimento que admitem como imediato o que, na realidade,  inferido, 
e s da razo, as quais extraem concluses que excedem os limites da experincia. A dialtica transcendental mostra como as inferncias ilusrias da razo podem 
ser detectadas e limitadas em seu mbito.
Estratgias semelhantes de argumentao informam as explicaes de juzo prtico e esttico. Aos juzos prticos  dado um princpio na forma do imperativo categrico, 
com o qual avaliar as mximas que informam tais juzos; esse princpio serve, portanto, como um cnone para juzos prticos. Do mesmo modo, em CJ, Kant estabelece 
um cnone para juzos estticos de gosto. Avalia as pretenses de justificao do juzo esttico do gosto apresentadas pela teoria do gosto e a esttica de acordo 
com um "princpio apriori subjetivo" de juzo. So considerados insuficientes em termos da qualidade, quantidade, relao e modalidade de tais juzos. Em CJ, Kant 
altera consideravelmente o foco de sua explicao do juzo, deslocando-se de uma nfase sobre juzos completos para uma orientada no sentido dos processos da faculdade 
de julgar {Urteilskraft). Dessa perspectiva, o juzo  visto menos em termos de subsuno do que de "pensar o particular como contido no universal" (CJ iv). Quando 
o universal  dado e o particular subsumido nele pela faculdade de julgar, ento o juzo  determinante; quando s o particular  dado e o universal tem de ser procurado 
pela faculdade de julgar, ento o seu juzo  reflexivo.
juzo, poder e faculdade do [Urteilskraft, Beurteilungsvermgen] ver tambm BELEZA; CONCEITO; ENTENDIMENTO; ESTTICA; HEAUTONOMIA; IMAGINAO; INTUIO; JUZO DETERMINANTE; 
JUZO REFLEXIVO; PRAZER; RAZO
A faculdade do juzo  uma das trs "faculdades de conhecimento superiores" situadas entre o entendimento e a razo, e formando "um termo mdio entre o entendimento 
e a razo" (CJ Prefcio). Mas no s medeia entre o entendimento e a razo como tambm abrange essas duas outras faculdades; em CRP, por exemplo, Kant descreve o 
entendimento como "umafaculdade do juzo" (A 69/B 94), e em CJ a "crtica da razo pura" nada
juzo, poder e faculdade do           207
mais  do que a "nossa faculdade de julgar assente em princpios a priori" (Prefcio). Cada uma das crticas ocupa-se fundamentalmente da faculdade do juzo em suas 
aplicaes terica, prtica e esttica/teleolgica. Em CRP, a faculdade do juzo sintetiza os conceitos do entendimento com o mltiplo em intuio, com toda a "Analtica 
dos princpios" dedicada a uma "doutrina do juzo" que fornece "um cnone somente para o juzo, que lhe ensina como aplicar s aparncias os conceitos do entendimento" 
(A 132/B 171). Por sua vez, a CRPr est dedicada ao desenvolvimento de um cnone para o juzo moral mediante a avaliao de mximas em funo de sua concordncia 
com o imperativo categrico. Finalmente, CJ tenta responder a questes fundamentais sobre a faculdade do juzo, tais como: se possui princpios apriori; se tais 
princpios funcionam de modo constitutivo ou regulativo; e qual  o carter das relaes de juzo com o prazer e o des-prazer. CJ aborda esses problemas por meio 
de uma anlise das propriedades peculiares dos juzos estticos do gosto.
A faculdade do juzo tem duas funes bsicas que Kant trata como sinnimos em CRP: "o juzo [] a faculdade de subsumir sob regras; ou seja, de distinguir se algo 
se apresenta ou no sob uma determinada regra" (A 132/B 171). OS dois aspectos do juzo - subsuno e distino - esto combinados em CPR. O primeiro  tratado no 
segundo captulo da "Analtica dos princpios", o qual explora os juzos sintticos "que esto a priori na base de todos os outros modos de conhecimento" ou de subsuno 
sob uma regra. O segundo  considerado no primeiro captulo sobre "Esqumatismo", o qual examina as condies sensveis do emprego dos conceitos puros de entendimento, 
ou a discriminao de possveis objetos para subsuno.
A ttulo de contraste, Kant, em sua filosofia prtica, distingue uma da outra as duas funes do juzo. A funo discriminativa  descrita como o trabalho de Beurtei-lungskraft, 
que funciona na razo prtica cotidiana discriminando entre aes e cursos de aes. Semelhantes atos de discriminao no aplicam o princpio de dever abstratamente 
em sua forma universal mas, na realidade, tm-no sempre em vista e usam-no como o padro de juzo (FMC p.403, p. 15). A faculdade do juzo propriamente dita {Urteilskraft) 
formula juzos subsuntivos de acordo com princpios racionais presentes e claramente articulados.
Em CJ, Kant procura unir as duas funes de juzo mediante um "princpio apriori subjetivo". A arquitetura da terceira crtica  determinada pela busca de um princpio 
que se situe entre a explicao excessivamente discriminativa do juzo esttico oferecida pelos tericos britnicos do gosto e a verso excessivamente subsuntiva 
da escola wolffa-na da esttica. Kant admite que estabelecer um tal princpio - o qual no pode recorrer a conceitos -  "uma tarefa que envolve considerveis dificuldades" 
e as esperanas de que a obscuridade de sua soluo seja melhorada pela exatido do seu "enunciado do princpio" (CJ Prefcio). O enunciado final do princpio subjetivo 
a priori da faculdade do juzo assinalou uma mudana de rumo na filosofia crtica, englobando o sensus com-munis, o prazer na comunicao intersubjetiva e as produes 
imaginativas do gnio. Nele, Kant desenvolveu a noo de juzo reflexivo, no qual a regra do juzo  derivada da reflexo sobre particulares, e a de originalidade, 
na qual a regra do juzo pode ser de.sa-fiada e transformada pela exceo.
Em anos recentes, vrios aspectos do "princpio subjetivo apriorf do juzo expostos por Kant foram tema de debate no contexto do ps-modernismo. Grande parte da 
dis-

208           juzo analtico
cusso no seio do ps-modernismo e contra este foi conduzida em torno da questo do juzo e suas relaes com o prazer, a intersubjetividade, a discriminao e a 
diferena. Isso levou a um reexame da descrio de Kant do juzo em CJ por filsofos como Arendt (1989), Derrida (1978), Habermas (1985) e Lyotard (1983,1991). Isso 
no s revigorou a exegese do texto de Kant mas tambm conduziu a uma reconsiderao do seu lugar no mbito da tradio filosfica "moderna".
juzo analtico ver tambm ANLISE; JUZO; JUZO SINTTICO A PRIORI; RACIONALISMO A distino entre juzos analticos e sintticos apriori  central para a filosofia 
terica de Kant e desenvolveu-se a partir de suas primeiras crticas  filosofia "racionalista" da escola wolffiana. No decorrer de sua exposio das deficincias 
dessa filosofia, Kant elaborou uma distino entre juzos analticos e sintticos. Os filsofos wolffianos trataram todos os juzos como se fossem analticos, ao 
passo que, sustentou Kant, eram somente uma classe especfica de juzo que ele contrastou com a classe distinta de juzos sintticos. Ele observou mais tarde em 
P que "tenham os juzos a origem que tiverem ou se apresentem em sua forma lgica como quiserem, existe uma diferena entre eles pelo seu contedo, que faz com que 
sejam simplesmente explicativos e nada acrescentem ao contedo do conhecimento, ou extensivos e ampliem o conhecimento dado; os primeiros podem ser denominados juzos 
analticos e os segundos, sintticos" (P 2).
A principal caracterstica dos juzos analticos  que os seus predicados "pertencem ao sujeito ... como algo que est contido (implicitamente) nesse conceito" (CRP 
A 6/B 10). Os sujeitos de juzos analticos "contm" seus predicados, embora de um modo implcito ou "confuso". Segue-se dessa caracterstica bsica que no ato de 
formular um juzo analtico "o predicado nada acrescenta ao conceito do sujeito e apenas pela anlise o decompe nos conceitos parciais, que j nele estavam pensados 
(embora confusamen-te)" (A 7/B 11). Tal pensamento "serve apenas para representar e afirmar com maior clareza o que j est pensado e contido no conceito dado" (SD 
p.228, p.141). Em todo esse trabalho de "decompor", "representar" e "afirmar" o contedo virtual de um dado conceito, o juzo analtico  governado pelo princpio 
de contradio: "Pois tendo o predicado de um juzo analtico afirmativo j sido pensado no conceito do sujeito, no pode por ele ser negado sem que haja uma contradio" 
(p 2).
A explicao de Kant para a distino entre juzos analticos e sintticos assenta na diferena entre seus respectivos contedos. O predicado do juzo sinttico 
acrescenta algo ao sujeito, ao passo que o predicado do juzo analtico simplesmente extrai o que j est presente no sujeito. Durante o sculo XIX, surgiram vrios 
candidatos a fonte dos juzos sintticos, incluindo fatores psicolgicos, fisiolgicos e sociolgicos, assim como as consideraes abstratas de valor e validade 
to caras aos neokantianos. Frege, em Os fundamentos da aritmtica, revolucionou a questo do juzo e abalou a distino de Kant ao afastar-se do problema do contedo 
e ao concentrar-se na "justificao de asseres" (Frege, 1950, 3). Esse desenvolvimento desviou a ateno do contedo de juzos e levou  rejeio da lgica transcendental 
de Kant.
Esse lance radical contra a distino de Kant entre juzos analticos e sintticos foi previsto pelos mais antigos crticos do filsofo, a comear com Eberhard e 
Maimon, que assumiram a postura de que a filosofia crtica manter-se-ia ou cairia com essa distino. Entretanto, a distino emergiu da crtica da filosofia wolffiana 
e no pretendia ser outra
juzo reflexivo           209
coisa seno a crtica dessa filosofia; era um resultado da filosofia crtica e no o seu pressuposto fundamental.
juzo determinante ver tambm ANALTICA; CATEGORIAS; ESQUEMA(TISMO); JUZO; JUZO REFLEXIVO; REFLEXO; SUBSUNO
Em CJ, Kant estabelece um contraste entre juzos determinantes e reflexivos em funo . de dois modos de "pensar o particular como contido no universal" (CJ IV). 
No juzo determinante, "o universal (a regra, princpio ou lei  dado" (ibid.) e o juzo subordina-lhe o particular. Em contrapartida, no juzo reflexivo s o particular 
 dado e o universal tem de ser apurado atravs de um processo de reflexo. O juzo determinante  subsuntivo, o que significa que "no tem necessidade de criar 
uma lei para sua prpria orientao a fim de habilit-lo a subordinar o particular na natureza ao universal" (ibid.). Tampouco  autnomo ou "independentemente nomottico", 
"pois s subsume sob leis ou conceitos dados como princpios" (CJ 69). Tais juzos so exemplificados pelos juzos tericos em CRP, nos quais os conceitos do entendimento 
so as leis e conceitos dados que subsumem os particulares do mltiplo da intuio atravs do esquematismo e dos princpios.
juzo disjuntivo ver tambm ANALOGIA; COMUNIDADE; JUZO; RELAO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
O juzo disjuntivo  o terceiro dos juzos de relao apresentados na "Tbua dos Juzos" da CRP (A 70/B 71) - ver Tbua 1 em "Categorias".  definido como contendo 
"uma relao de duas ou mais proposies, no uma relao de conseqncia, porm de oposio lgica, porquanto a esfera de uma exclui a da outra; mas tambm a de 
comunidade, porque ambas, tomadas em conjunto, perfazem a esfera total do conhecimento" (CRP A 73/B 99). Esta forma de juzo tem a propriedade de "uma certa comunidade 
de conhecimentos que consiste em exclurem-se reciprocamente, constituindo no todo o contedo de um s conhecimento dado" (A 74/B 99). Um exemplo de tal juzo : 
"O mundo existe por cego acaso, ou por necessidade interior ou por uma causa externa". Este juzo  disjuntivo porque todas essas proposies se somam na totalidade 
do conhecimento possvel da existncia do mundo mas, no entanto, cada um delas exclui mutuamente as outras. Kant emprega a tbua de juzos para derivar as categorias, 
das quais deriva depois os esquemas e princpios. Assim, o juzo disjuntivo gera a terceira categoria de relao, a saber, a comunidade, o esquema de "reciprocidade" 
e o princpio da terceira analogia da experincia que declara que substncias coexistentes so governadas pela lei da reciprocidade ou comunidade.
juzo reflexivo ver tambm JUZO; JUZO DETERMINANTE; REFLEXO Na primeira e na segunda introduo a CJ, Kant distingue entre formas determinantes e reflexivas de 
juzo. O juzo, em geral,  descrito como "a faculdade de pensar o particular como contido no universal", e se o universal j  dado "ento o juzo que subsume o 
particular sob ele  determinante" (CJ iv). Se, por outro lado, "s o particular  dado e o universal tem de ser encontrado sobre ele, ento o juzo  simplesmente 
reflexivo" (ibid.). O juzo reflexivo " compelido a ascender do particular na natureza para o universal" e, diz Kant, "necessita de um princpio". Esse princpio 
no pode ser universal, uma vez que isso tornaria o juzo determinante, mas est localizado por Kant no juzo que se prope a si mesmo o princpio reflexivo da "finalidade 
da natureza".

210           juzo sinttico apriari
Na PI v - "Do juzo reflexivo" - Kant  algo mais especfico. Sugere que o juzo seja considerado quer como mera capacidade de refletir, segundo um certo princpio, 
sobre uma representao dada, quer como a faculdade de determinar conceitos mediante uma representao emprica. O primeiro "compara e combina dadas representaes, 
seja com outras representaes, seja com a faculdade de conhecimento do sujeito ...", enquanto o segundo esquematiza conceitos dados. No primeiro caso, onde no 
 dado nenhum conceito apropriado, o juzo desenvolve-se reflexivamente, seja mediante comparao e combinao de conceitos entre si de acordo com "o universal mas, 
ao mesmo tempo, indefinido princpio de um ordenamento intencional e sistemtico da natureza" - "a tcnica da natureza" - seja por comparao e combinao com o 
jogo harmonioso das faculdades cognitivas (iv). O primeiro produz juzos ideolgicos reflexivos, o segundo juzos estticos reflexivos. A analtica e a dialtica 
desses juzos formam as duas principais sees de CJ.
Kant sugere ocasionalmente em CJ que os juzos reflexivos so, num certo sentido, anteriores ao juzo determinante. So eles que formam uma ponte entre os domnios 
da razo terica e prtica e seus juzos. Essa sugesto provou ser imensamente frtil, com autores como Schelling (1800) e Nietzsche (1901) tentando desenvolver 
as aluses de Kant a uma metafsica ps-crtica em potencial, baseada no juzo reflexivo. O tema voltou a ganhar proeminncia na obra de Arendt (1989) - que concebe 
o juzo poltico na base do juzo reflexivo - e tambm na de Lyotard (1983), que usou o juzo reflexivo como um meio de questionar as estruturas dogmticas e determinantes 
do juzo que pre-ponderam nas sociedades modernas. Ambos os pensadores se mostram impressionados pela valorizao potencial da liberdade implcita na formulao 
de juzos na ausncia de uma lei dada.
juzo sinttico apriori ver tambm A PRIORI; JUZO; JUZO ANALTICO; PUREZA; SNTESE
Um dos temas centrais dos escritos pr-crticos  a distino entre fundamentos lgicos e reais de juzo. Kant criticou repetidamente Wolff por reduzir todos os 
juzos aos seus fundamentos lgicos governados pelo princpio de contradio, ignorando assim o fato de que alguns juzos tinham "fundamentos reais" adicionais, 
regidos por outros princpios. Essa posio crtica inicial redundou mais tarde na oposio crtica de juzos analticos e sintticos, com os primeiros governados 
pelo princpio de contradio (ver CRP A 150/B 190ss.) e os segundos pelo princpio de que "todo objeto est submetido s condies necessrias da unidade sinttica 
do mltiplo da intuio numa experincia possvel" (A 158/B 197). Um juzo analtico  explicativo: nada acrescenta ao sujeito atravs do predicado do juzo, uma 
vez que o predicado "esteve o tempo todo pensado nele, embora confusamente" (A 7/B 11, ver tambm P 2). Um juzo sinttico, pelo contrrio,  "ampli-ativo" e "acrescenta 
ao conceito de sujeito um predicado que nele no estava pensado e dele no podia ser extrado por qualquer anlise" (A 7/B 11).
Em P, Kant afirma existirem duas formas de juzo sinttico, sinttico aposteriori e sinttico apriori, mas a maior parte de sua ateno est dedicada ao segundo. 
Em CRP, "o problema geral da filosofia transcendental"  descrito na pergunta "como so possveis os juzos sintticos apriori?" (B 73, ver tambm CJ 36). Esse 
problema  mais tarde descrito em OD como "o inevitvel escolho no qual devem fatalmente soobrar todos os
jurisprudncia            211
dogmticos metafsicos" (p.226, p. 139). Nos juzos sintticos apriori esto compreendidos dois elementos, a saber, as intuies apriori puras e os conceitos apriori 
puros. S se consideram tais juzos possveis no caso de se poder demonstrar que os dois elementos a priori podem ser sintetizados num juzo. Para mostrar que tais 
juzos so possveis, Kant deve estabelecer primeiro que existem conceitos e intuies apriori e que estes so suscetveis de sntese. As duas tarefas abrangem grande 
parte da anlise na "Doutrina transcendental dos elementos".
As formas apriori puras de intuio, tempo e espao so "duas fontes de conhecimento das quais se podem extrair a priori diversos conhecimentos sintticos" (CRP 
A 38/B 55). Por si mesmas, no podem propiciar as condies de possibilidade para juzos sintticos apriori; isso s pode acontecer quando eles esto alinhados com 
conceitos a priori. Tampouco os conceitos ou categorias apriori puros fornecem por si mesmos as condies necessrias para a possibilidade de juzos sintticos apriori, 
uma vez que "nenhuma proposio sinttica pode ser feita a partir de meras categorias" (CRP B 289). Por essa razo,  impossvel ter "conhecimento sinttico apriori 
das coisas em geral", como pretendido pela ontologia (A 247/B 303). Os juzos sintticos apriori devem, por conseqncia, reunir elementos intuitivos e conceituais, 
com as intuies apriorsticas contendo "aquilo que pode ser descoberto apriori, no no conceito mas certamente na intuio correspondente, e que pode estar ligado 
sinteticamente a esse conceito" (B 73). O modo como Kant realiza isso  mostrando no s que tais juzos so permitidos unicamente "em relao a objetos de experincia 
possvel" mas que, alm disso, so efetivamente "princpios da possibilidade dessa experincia" (B 410). O que isso significa  que as condies da possibilidade 
de juzos sintticos a priori compreendem princpios que unem elementos conceituais e intuitivos, e que so pressupostos por distintos atos de juzo sinttico apriori. 
Nas prprias palavras de Kant, "deste modo so possveis os juzos sintticos apriori, quando referimos as condies formais da intuio apriorstica, a sntese 
da imaginao e a sua unidade necessria numa apercepo transcendental, a um conhecimento da experincia possvel em geral" (A 158/197). Essa relao entre intuies, 
conceitos e a apresentao de conceitos  intuio atravs da imaginao  a resposta  questo de como so possveis os juzos sintticos apriori, uma resposta 
que forma o ncleo da filosofia crtica e est resumida na frmula: "As condies da possibilidade da experincia em geral so, ao mesmo tempo, condies da possibilidade 
dos objetos da experincia" (A 148/B 197).
jurisprudncia ver tambm DIREITO; INTERPRETAO; JUSTIA; LEI Em CF, Kant distingue entre a interpretao da lei tal como  praticada por juristas e como  entendida 
por filsofos. Os primeiros so funcionrios pblicos investidos de autoridade para interpretar o texto da lei tal como foi "promulgada e sancionada pela autoridade 
suprema" (CF p.24, p.37). Aos juristas - por assim dizer, positivistas legais avant Ia lettre - no eram permitidas opinies sobre a verdade ou justia das leis, 
porquanto as prprias leis promulgadas "determinam o que  justo, e o jurista deve rechaar prontamente como absurda qualquer outra questo que discuta a legitimidade 
e justia dos decretos" (CF p.25, p.38). Os juristas fazem "autnticas" interpretaes filolgicas da lei, ao passo que incumbe aos filsofos efetuar a interpretao 
doutrinai da verdade e conformidade com o direito da lei de acordo com a razo.

212          justia
justia [Recht] ver tambm CASAMENTO; DIREITO; ESTADO; POSSE; PROPRIEDADE; PUNIO; SOCIEDADE
As consideraes de Kant sobre justia em MC podem ser divididas de acordo com a justia civil e criminal: a primeira refere-se s relaes mtuas dos homens, a 
segunda s relaes entre indivduos e o direito penal pblico. Apresenta trs formas de justia civil, a saber, protetora, comutativa e distributiva, considerando 
que as primeiras duas se ocupam do direito privado, a terceira do direito pblico. Tambm agrupou a justia comutativa e a distributiva sob o direito natural, ou 
o direito no-estatutrio conhecido apriori da razo de todos os indivduos; como tal, o direito natural inclui "no s & justia que sustenta o relacionamento das 
pessoas umas com outras (iustitia commutativ) mas tambm a justia distributiva {iustitia distributiva) (MC p.297, p. 113). As primeiras duas formas de justia 
esto presentes no estado de natureza, mas a terceira s  possvel na "condio civiF com a existncia de um tribunal para administrar a justia distributiva.
A distino entre justia comutativa e distributiva  ilustrada de maneira excelente pelo exemplo de Kant de compra de um cavalo.  estabelecido um direito "com 
base nas formalidades do ato de troca (commutatio) entre o possuidor da coisa e o seu adquirente" (MC p.301, p. 116). Mas isso  apenas um direito entre pessoas 
(ius adpersonam), no um direito a uma coisa (ius ad rem). Por conseguinte,  possvel aos proprietrios, detentores de prvios direitos pessoais  luz da justia 
comutativa, apresentarem-se para declarar um interesse. Isso leva  situao em que "nenhum comrcio de coisas externas, por melhor que se coadune com as condies 
formais dessa espcie de justia (iustitia commutativ), pode garantir uma aquisio segura" (MC p.302, p. 117). Se bem que a aquisio no possa ser assegurada 
num estado de natureza, levando a possvel injustia, num estado civil ela pode ser garantida perante um tribunal, por meio da justia distributiva. Isso  realizado 
pelo tribunal ao converter um direito pessoal num direito real: "o que  em si um direito contra uma pessoa, quando levada perante um tribunal, subsiste como um 
di-' reito a uma coisa" (MC p.303, p. 118). Desse modo, a justia distributiva  usada para garantir os direitos da justia comutativa  propriedade e  troca.
O ponto de vista de Kant sobre a justia criminal  inabalavelmente retributivo, baseando-se na ius talionis ou num "princpio de igualdade" apriori, mediante o 
qual o tribunal aplica uma pena ao delinqente que  igual ao crime por ele cometido. O ladro, por exemplo, pode ser punido por temporria ou permanente escravido 
imposta pelo es-' tado; os assassinos e seus cmplices devem sofrer a pena de morte, em expresso repudie^ das idias de Cesare Beccaria (173 8-94) (ver Beccaria, 
1764); e Kant sugere que estupra-; dores e pederastas devem ser castrados. E tampouco titubeia em admitir essa lgica retri* butiva em casos tais como o infanticdio 
materno de um filho ilegtimo: nascer fora dff casamento coloca a criana " margem da proteo da lei" e, portanto, a lei "ignorar O; aniquilamento de uma tal 
criana" (MC p.337, p.145). A "personalidade inata" dos sere* humanos, que requer que eles no sejam tratados como "coisas", impe apenas que apu< nio seja infligida 
para um crime e no como um meio para algum outro fim (por exem-. pio, desencorajar outros, ou reabilitao). No restringe o direito do estado a punir mas: assegura 
que a punio seja previsvel e imparcial. Embora a tese retributiva de Kant fosse desenvolvida por Hegel (1821), s muito recentemente foi eclipsada pelo que poderia 
ser descrito como os argumentos "heternomos" que sublinham as finalidades de dissua-so e reabilitao servidas pela punio. Entretanto, a partir da dcada de 
1980, regis-
justia          213
trou-se um interesse renovado pelas filosofias retributivas de punio com a verso H. Kant obtendo uma nova proeminncia.                                       
a de
Kant termina a MC com algumas meditaes sobre justia divina Ele arm.m^t* que a justia divina no deve ser entendida atravs de analogias coTa iuST punitiva ou 
civil. A justia divina no reconhece direitos e SSCT ais critrios s podem ser aplicados a relaes entre seres humLs e 'no  S Isso marca uma interessante aplicao 
da interdio crtica geTa que salt"re oes baseadas na finitude humana a objetos absolutos                                    P         ^

L
legislao [Gesetzgebung] ver tambm DIREITO; ESTADO; LEI; REGRA Kant usa o modelo de legislao em suas filosofias terica e prtica. Em CRP, o entendimento  descrito 
como o "legislador da natureza", afirmando Kant que a natureza s  possvel por meio da prescrita "unidade sinttica do mltiplo de aparncias de acordo com regras" 
(A 127); Refere-se mais adiante ao filsofo ideal como um "legislador da razo humana" (A 839/B 867) e no contexto de uma discusso da Repblica de Plato descreve 
o ideal de estado perfeito como a harmonia de legislao e governo no mbito de uma constituio que faz a liberdade de cada um compatvel com a de todos os outros. 
Sugestes desse estado foram inseridas numa das formulaes do imperativo categrico em FMC, onde se diz que "so rejeitadas todas as mximas que no sejam compatveis 
com a legislao da lei universal oriunda da prpria vontade" (p.431, p.38). Semelhante formulao do imperativo categrico est em conformidade com os critrios 
de legislao tica apresentados em MC: existe uma lei universal e um incentivo no dever; a legislao "cujo incentivo no promana da prpria idia de dever" , 
por contraste, jurdica (p.219, p.46).
lei [Gesez] ver tambm CATEGORIAS; DIREITO; JUSTIA; MANDAMENTO; MXIMA; ' NATUREZA; OBRIGAO; REGRA
O conceito geral de lei que abrange as filosofias terica e prtica  caracterizado pela universalidade e necessidade objetivas. Isso distingue as leis tericas 
das regras e as leis prticas das regras e pareceres. Uma regra terica de relaes, como "se o sol brilhar por suficiente tempo, um corpo ficar quente",  convertida 
numa lei se for expressa em termos de causalidade como em "o sol , atravs da sua luz, a causa do calor" (p 29).  "regra de relao" derivada de um juzo de experincia 
 concedida, assim, a validade' universal e necessria de uma lei (ver CRP A 126). Uma lei da filosofia prtica  analogamente descrita como uma que contm uma "necessidade 
absoluta" (FMC p.389, p.2), o| que a distingue das regras de competncia e dos conselhos de prudncia; estes ltimos,  semelhana da regra terica de relao, s 
podem oferecer necessidade hipottica e no
absoluta ou categrica.
Para alm da semelhana entre conceitos tericos e prticos da lei esto algumas; diferenas extremamente significativas. O saber terico est interessado em "o 
que ", de acordo com a causalidade das leis naturais, enquanto o saber prtico se interessa pelo que "deve-ser" de acordo com a causalidade das leis da liberdade. 
A descrio de Kant das leis tericas explora o carter e as fontes da universalidade e necessidade de "o que ", 
lei, conformidade            215
ou a natureza em seus aspectos formais e materiais, ao passo que a sua descrio das leis prticas investiga o carter e as fontes que informam a obrigao ou "o 
que deve ser".
A descrio de leis tericas enfatiza o relacionamento entre as leis empricas da natureza descobertas pelas cincias (fsica, qumica e biologia) e as leis puras 
do entendimento. Em CRP, Kant est principalmente interessado no carter e fontes de leis fsicas; em Cl, volta sua ateno para a biologia. Em CRP, descreve todas 
as leis empricas como ."determinaes especiais das leis puras do entendimento", que ele descreveu como o "legislador da natureza" (A 127). As leis empricas aplicam 
"princpios superiores do entendimento" a "casos especiais de aparncia" e derivam sua necessidade de "princpios que so vlidos apriori e anteriormente a toda 
experincia" (A 159/B 198). Isso resulta do axioma de Kant de que as condies da possibilidade de experincia so as condies da possibilidade de objetos da experincia 
ou, em outras palavras, de que "as categorias so conceitos que prescrevem leis apriori s aparncias e, portanto,  natureza como soma de todas as aparncias" (B 
163). Assim, as leis so prescritas  natureza e so universal e necessariamente vlidas; e podem, no caso da fsica, ser reunidas num todo sistemtico. No caso 
das leis da biologia examinadas na segunda parte de CJ. Kant no est to confiante na universalidade e necessidade das leis mecnicas. Considera "inteiramente certo 
que no podemos nem sequer tomar conhecimento suficiente e muito menos explicar os seres organizados e sua possibilidade interior segundo princpios meramente mecnicos 
da natureza" (CJ 75).  absurdo esperar que "possa surgir algum dia um outro Newton que nos torne inteligvel at mesmo a produo de uma folha de relva segundo 
leis da natureza no ordenadas por uma inteno". Aqui, a insuficincia de leis mecnicas para explicar fenmenos da existncia est alinhada com um argumento favorvel 
 possibilidade de existir um "autor do mundo" que planejou leis naturais cuja inteligibili-dade excede s restries da nossa razo.
A discusso das leis da liberdade na filosofia prtica est baseada na premissa da capacidade da razo pura para ser prtica. Isso consiste na "sujeio da mxima 
de toda e qualquer ao  condio de sua limitao como lei universal" (MC p.214, p.42). Uma vez que as mximas humanas no obedecem automaticamente s condies 
para serem leis universais, a lei  prescrita como um imperativo ou mandamento. Tais leis podem ser dis-tinguidas segundo estejam dirigidas para "aes externas", 
nesse caso jurdicas, ou para os "fundamentos determinantes de aes", ticas (p.214, p.42). Quando as aes so da primeira espcie, a submisso a elas constitui 
a legalidade; quando da segunda espcie, constitui a moralidade. As leis jurdicas que "podem ser reconhecidas como obrigatrias apriori mesmo sem legislao externa" 
so leis naturais, ao passo que aquelas que requerem "legislao externa real" so leis positivas. A lei fundamental da moralidade e fonte da obrigao moral  uma 
s e est enunciada no princpio autonomamente fundado do imperativo categrico: "Portanto, age de modo que a mxima de tua vontade possa ser sempre, ao mesmo tempo, 
sustentada como um princpio que estabelece uma lei universal" (CRPr p.31, p.30).
ei, conformidade  [Gesetzmssigkeit] ver tambm CONFORMIDADE A UM FIM; FILOSOFIA PRTICA; FIM; HETERONOMIA; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; LEI Na filosofia 
prtica de Kant, leis ou fins particulares no podem servir como princpios para determinar a vontade, uma vez que introduzem elementos heternomos no juzo moral. 
O nico princpio adequado  a "conformidade universal  lei" ou a "conformida-

216          liberdade
de  lei como tal (sem ter como sua base qualquer lei determinando aes particulares)", o que  expresso na frmula: "Age apenas segundo uma mxima tal que possas 
ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal" (FMC p.402, p. 14). Sem esse princpio da vontade, o dever no passa de uma "crena v" e de um "conceito quimrico" 
(ibid.). Em filosofia terica, a "conformidade  lei de todos os objetos da experincia" define o "aspecto formal da natureza", o qual complementa o seu aspecto 
material como o "conjunto de todos os objetos da experincia" (P 16). Essa "conformidade  lei"  "conferida"  natureza pelo entendimento, tornando possveis a 
experincia e os objetos da experincia (CRP A 126). Em CJ, a aparente contradio em a imaginao ser livre e estar sujeita  lei  resolvida pela "harmonizao 
subjetiva da imaginao e do entendimento sem um fim objetivo". Esse estado descreve "o princpio apriori subjetivo" do juzo do gosto, conhecido tambm como uma 
"conformidade a fins sem um fim" (CJ 22, ver tambm 35).
liberdade [libertas, Freiheit] ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; AUTONOMIA; CAUSALIDADE; ESPONTANEIDADE; LEI; RAZO; SNTESE; VONTADE A liberdade  um conceito 
essencial na filosofia de Kant, presente em suas sees tericas e prticas. Tem duas qualidades significativas e afins, as quais foram descritas pela primeira vez 
na moderna concepo de liberdade desenvolvida inicialmente por Maqui-avel: a liberdade envolve independncia de qualquer forma de dependncia-liberdade de - e o 
poder do sujeito de legislar para si - liberdade para. Realizar o equilbrio correto desses dois aspectos da liberdade  o objetivo implcito da filosofia crtica, 
como  evidente na filosofia terica de CRP e a filosofia prtica de CRPr, FMC e MC. Na primeira, a liberdade apresenta-se como espontaneidade, na medida em que 
 oposta  receptividade; na segunda, como autonomia em contraste com a heteronomia.
Em CRP, Kant identifica a espontaneidade como o anlogo terico de liberdade; na ; discusso da terceira antinomia e no problema da causalidade natural e livre, 
ele refe-, re-se aos sentidos cosmolgico e prtico de liberdade. Pelo primeiro entende "a faculda-; de de iniciar por si um estado" e descreve-o como a razo criando 
"a idia de uma espontaneidade que poderia comear a agir por si mesma, sem que uma outra causa tivesse necessariamente que preced-la para determin-la a agir segundo 
a lei da causali- * dade" (CRP A 533/B 561). Essa espontaneidade  assim oposta s causas naturais e possui; os elementos bsicos para a sua determinao dentro 
de si mesma. Na analtica de CRP,' essa espontaneidade  descrita como uma das fontes do conhecimento a par da receptivi- dade. Kant ope sistematicamente a espontaneidade 
da imaginao e do entendimento  receptividade da sensibilidade; a espontaneidade  "a capacidade de produzir representaes de si mesma" (A 5 l/B 75), mas  um 
poder incapaz de produzir conhecimento sem , contribuio da receptividade. Para que ocorra o ato espontneo de sntese, tem de haver algo presente na sensibilidade 
para ser sintetizado. Assim, por um lado, a liberdade como espontaneidade  absoluta em conceder-se leis de sntese mas, por outro,  intrnseca-; mente restringida 
pela receptividade.                                                                                 *
O problema de a espontaneidade pura do entendimento ser dependente da recepti*; vidade a fim de tornar-se efetiva  descrito por Kant, a propsito da liberdade prtica, 
como "o ponto preciso das dificuldades que, desde sempre, vm cercando a questo da possibilidade de liberdade" (A 533/B 561). No caso da liberdade prtica,  o 
fundamento motivador da vontade que tem de ser autnomo. Em vez dos princpios heternomos da
ligao           217
vontade, sejam de procedncia racional (perfeio) ou de procedncia emprica (prazer, felicidade), Kant insiste numa liberdade inteligvel baseada na autonomia 
da vontade. Contudo, essa liberdade encontra uma dificuldade extrema em libertar-se da heteronomia e, uma vez que tenha logrado libertar-se, em restringir seus inerentes 
impulsos anrquicos e talvez at autodestrutivos, pois "est no poder da liberdade exceder todo e qualquer limite especfico que se lhe queira atribuir" (A 317/B 
374). Assim, em FMC, a liberdade  definida de modo negativo e positivo. No primeiro caso, "a vontade  uma espcie de causalidade pertencente aos seres humanos 
na medida em que so racionais; a liberdade seria a propriedade dessa causalidade que a torna efetiva, independente de qualquer determinao por causas estranhas" 
(FMC p.446, p.49) ou liberdade delas. "Que outra coisa, portanto, pode a liberdade da vontade ser seno autonomia, isto , a propriedade que a liberdade tem de ser 
uma lei para si mesma?" (p.447, p.49).
Os imperativos apropriados para tal concepo de liberdade no podem ser hipotticos nem materiais; no so regras de habilidade para atingir algum fim material 
determinado, mas so categricos e formais: "no esto interessados na matria da ao nem em seu pretendido resultado, mas antes na forma da ao e no princpio 
donde ela dima-na" (FMC p.416, p.26). Entretanto, essas aes tm de ser efetivas num mundo de tempo e espao assediado por objetivos materiais concorrentes e incompatveis. 
Se o imperativo no tivesse aplicao nesse mundo, ento seria vazio como a espontaneidade pura do entendimento. O resultado foi uma filosofia moral bifocal: em 
seu mais ambicioso porm mal enfocado extremo, a autonomia  ncleo de uma descrio diiberdade fundamentada na metafsica; mas, no outro extremo, encontra-se apenas 
a mais modesta base de um princpio cannico para testar mximas de ao.
Os sucessores imediatos de Kant deram prosseguimento ao ambicioso programa de uma definio da liberdade fundamentada em princpios metafsicos. Fichte (1794) e 
Schelling (1800) transformaram a espontaneidade e a autonomia em absolutos subjetivos e objetivos, uma prtica que Hegel foi o primeiro a criticar por postular exigncias 
absolutistas e insaciveis que permaneciam vazias e incapazes de concretizao salvo atravs do terror destrutivo, o qual ultrapassa, efetivamente, "todo e qualquer 
limite especfico". Embora aceitando que a filosofia moderna era uma filosofia de liberdade, ele procurou restringir as exigncias absolutas de liberdade a respeito 
das categorias e da vida tica. A descoberta por Hegel de uma supresso da receptividade e da heteronomia no mago da liberdade foi desenvolvida por Nietzsche, que 
fez o famoso comentrio de que "o imperativo categrico cheira a crueldade" (Nietzsche, 1887, p.65). Filsofos do sculo XX, de Heidegger (1947) a Adorno e Horkheimer, 
defenderam a idia de liberdade como intrinsecamente restringida por suas outras explicaes contrrias aos neofich-tianos, como  o caso de Sartre. Afirmam eles 
que as definies de liberdade baseadas em sujeitos absolutamente autnomos e espontneos insensveis aos modos como sua liberdade  restringida levam ao terror 
e subjugao em nome da liberdade.
ligao [Verbindung] ver tambm AO; APERCEPo; CONSCINCIA; MLTIPLO; SNTESE; SUJEITO; UNIDADE
De todas as representaes, a ligao "no pode ser dada pelos objetos", mas  "um ato da espontaneidade do prprio sujeito" (CRP B 130). Contm no s "o conceito 
do mltiplo e de sua sntese" mas tambm o conceito da unidade do mltiplo. Este ltimo no 

218          limitao
um objeto de experincia possvel porm , no obstante, sua condio essencial. O conceito da unidade do mltiplo representa a "unidade sinttica de um mltiplo" 
e  a condio para a ligao. Essa unidade  ento relacionada por Kant com a identidade de conscincia garantida pela "unidade sinttica da apercepo".
limitao ver LIMITE
limite [Schranke] ver tambm ESPAO; FIM; FINITUDE; METAFSICA; SABER; TRANSCENDENTE
Em P, Kant apresenta uma distino entre limites (Schranken) e fronteiras (Grenzen), sendo as primeiras "meras negaes que afetam uma quantidade  medida que no 
 absolutamente completa", enquanto as segundas "pressupem sempre um espao existente do lado de fora de um certo lugar bem definido e que circunda este ltimo" 
(P 57). Kant usa ambos os termos como analogias para a extenso do saber legtimo. A analogia do limite  derivada da categoria de limitao, a terceira das categorias 
de qualidade que  definida como "realidade combinada com negao" (CRP B 111), ao passo que a categoria de fronteira tem origem nas propriedades de intuio espacial 
que consideram uma fronteira como o que assinala a demarcao do espao interno e externo. Kant emprega essa analogia para ilustrar a distino entre os limites 
do saber matemtico e cientfico natural e as fronteiras do saber metafsico: o primeiro  limitado na medida em que nunca est completo, enquanto o segundo est 
na fronteira entre o cognoscvel e o incognoscvel. O primeiro est confinado  experincia e busca a completude do "condicionado para algu-  ma outra coisa igualmente 
condicionada" (p 59), mas sem determinao de suas fronteiras. Razo e metafsica tentam pensar a fronteira entre o que pode e no pode ser conhecido e, por conseguinte, 
devem limitar-se, "como  prprio de uma fronteira,  re- f lao entre o que est alm dela e o que est contido nela" (p 59).
A distino entre limite e fronteira foi criticada por Hegel (1812) por ser abstrata e ; indeterminada. A colocao de uma fronteira entre o que  sabido e o que 
 ignorado cria simplesmente uma oposio absoluta que permite que o limite seja considerado, por fora de uma experincia imponderada, mais como pura e simples 
negao do que como negao determinada, ou como uma "mediao atravs da qual alguma coisa e cada um; outra tanto  como no " (Hegel, 1812, p. 127). Para Hegel, 
Kant converte o pensamento; fmito num absoluto, banindo assim o absoluto infinito para o domnio do incognoscvel. Ao questionar essa distino, Hegel daria os primeiros 
passos no sentido da compreen-  so do absoluto.
lgica formal ver LGICA GERAL/TRANSCENDENTAL
lgica geral/transcendental ver tambm ANALTICA; APERCEPO; CNONE; CATEGORIAS; CONCEITO; DIALTICA; ELEMENTOS; FORMA; INFERNCIA; JUZO; METODOLO- GIA/DOUTRINA 
DO MTODO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS                                           '
Embora toda a obra de Kant possa ser considerada uma vasta meditao sobre lgica, el'  responsvel por apenas dois textos explicitamente dedicados ao assunto. 
Um deles, FS,: foi uma breve e mais recuada contribuio para a reforma de alguns dos excessos barrocos da tradio aristotlica. O outro, L, foi compilado por Gottlob 
Benjamin Jsche com* base no exemplar maciamente anotado de Kant do compndio de lgica, Auszug aus
lgica geral/transcendental          219
der Vernunftlehre (1752), da autoria de George Friedrich Meier. Kant usou esse compndio como texto para as aulas de lgica oferecidas durante mais de quatro dcadas 
- desde o incio de sua carreira acadmica em 1755-6 at ao seu trmino em 1796. Transcries dessas aulas sobreviveram at aos comeos da dcada de 1770 (a "Lgica 
de Blomberg"), incio dos anos 80 (as Lgicas de "Viena" e "Heschel") e incio dos anos 90 ("Lgica de Dohna-Wundlacken"), as quais foram todas traduzidas no volume 
9 da edi-' o Guyer & Wood (isto , L). A partir dessas fontes  possvel reconstituir o background tcnico da ambiciosa tentativa de Kant de redefinir o mbito 
da lgica na filosofia crtica. O contedo de cada uma das trs crticas est organizado em termos de um dos primeiros tratados aristotlicos modernos sobre lgica, 
dividido em uma "doutrina dos elementos" (compreendendo uma "analtica" e uma "dialtica") e uma "doutrina do mtodo". Embutida nessa estrutura, e em particular 
em CRP, est uma outra organizao distinta do contedo da lgica derivada da anti-aristotlica tradio cartesiana exemplificada por La logique ou L 'Art depenser, 
de Arnauld, a chamada "lgica de Port-Royal" (1662) .Nessa tradio, a lgica est menos interessada nas formas de inferncia que tanto fascinaram a tradio aristotlica 
do que em adestrar o juzo para distinguir entre verdadeiro e falso, fornecendo assim um exerccio de "autodisciplina" (ver o "Primeiro discurso"). Com esse objetivo, 
L 'Art depenser est organizada de acordo com "concepo", "juzo", "raciocnio" e "ordenamento". Essa diviso informa a anlise crtica de Kant do juzo terico, 
prtico e esttico, e  sobremaneira evidente em CRP, a qual sobrepe os paradigmas aristotlico e cartesiano numa tentativa de produzir uma "Lgica transcendental". 
A "Esttica transcendental" serve  funo de suprir os materiais de pensamento resultantes da "concepo"; a "Analtica transcendental" fornece o ordenamento inicial 
do pensamento analisado em "juzo"; a "Dialtica transcendental" gera as inferncias silogsticas (ilusrias) analisadas em "raciocnio"; e a "Doutrina do mtodo" 
leva  articulao sistemtica do saber discutido em "ordenamento".
A sensibilidade de Kant para as diferenas entre as tradies "aristotlica" e "moderna" da lgica  evidente do comeo ao fim de seus escritos e conferncias sobre 
lgica. No nvel mais geral, FS pode ser lido como a tentativa de substituir a nfase tradicional sobre as sutilezas das figuras silogsticas por um novo foco sobre 
a conscincia de si e o juzo. A luta e a acomodao entre as duas tradies da lgica enunciadas nesse texto podem ser acompanhadas ao longo de todos os escritos 
de Kant. So especialmente evidentes no Prefcio para a segunda edio de CRP, onde Kant observa ser digno de nota que, desde Aristteles, a lgica "no tenha at 
hoje progredido, parecendo, por conseguinte, uma doutrina acabada e perfeita, tanto quanto se nos pode afigurar" (B viii). No considera que tenham contribudo grande 
coisa as tentativas feitas por "modernos" para ampliar a lgica mediante a insero de materiais extrados da psicologia, metafsica e antropologia. Kant argumentou 
que "o nico interesse [da lgica]  expor minuciosamente e demonstrar rigorosamente as regras formais de todo o pensamento, quer seja a priori ou emprico, qualquer 
que seja a sua origem ou objeto" (CRP B ix). Acrescenta que a lgica permite "ao entendimento ocupar-se apenas consigo prprio e com a sua forma" (B ix), e considera 
que qualquer tentativa para suplement-la  simplesmente uma forma de comprometer a integridade da disciplina.
Apesar de limitar a lgica  exposio da forma do entendimento e de renunciar aos seus suplementos psicolgicos, metafsicos e antropolgicos, o compromisso de

220            lgica transcendental
Kant com o projeto moderno de ampliao da lgica nunca esteve em questo. Sua proposta de ampliao  muito mais ambiciosa do que adicionar simplesmente "captulos" 
de diversas cincias, e acarreta a remodelao da "lgica geral" da tradio de acordo com uma "lgica transcendental" moderna. A lgica geral pura "trata unicamente 
da forma pura do pensamento" (CRP A 54/B 78) e  inteiramente apriori;  distinta da lgica geral aplicada, a qual est "orientada para as regras do emprego do entendimento 
sob as condies empricas subjetivas tratadas pela psicologia" (A 53/B 77). Ambas so distintas da lgica transcendental apresentada em CRP, a qual "trata das leis 
do entendimento e da razo somente na medida em que elas se relacionam apriori com objetos" (A 57/B 82).
Com o desenvolvimento de uma lgica moderna, transcendental, Kant no pretende rejeitar as realizaes da tradio lgica. Pelo contrrio, vai buscar na tradio 
as anlises do juzo e usa-as como fio condutor para descobrir as operaes do entendimento na lgica transcendental. Os conceitos que ele usa para realizar a transio 
da lgica tradicional para a moderna so "unidade" e "sntese". Os juzos da lgica geral, abstrados de todo o contedo, so "funes da unidade" (CRP A 69/B 94); 
quando traduzidos para a l- > gica transcendental, significam as snteses de um sujeito espontneo, aperceptivo, em confronto com um "mltiplo de sensibilidade 
apriori" (A 77/B 102). As snteses transcendentais derivadas das funes lgicas da lgica geral formam a tbua das categorias ou "a lista de todos os conceitos, 
originariamente puros, da sntese que o entendimento a priori contm em si" (A 80/B 106). Com essas snteses, Kant acomodaria tanto a lgica tradicional baseada 
em formas de juzo e inferncia, quanto a lgica moderna proveniente do cogito cartesiano e baseada na conscincia de si e na apercepo.
Uma outra tradio histrica da lgica manifesta-se tambm na obra de Kant: a definio epicurista de lgica como uma cnone ou "cincia do uso cauteloso e correto 
do entendimento" (L p.257). Isso  distinto do "organon aristotlico para a arte de argumentao (disputado)", a qual oferece regras para ilaes corretas ou convincentes. 
Kant seguiu declaradamente a tradio epicurista em sua nfase sobre o papel da lgica como cincia para distinguir entre juzos, com a CRP fornecendo um cnone 
para a distino entre verdadeiros e falsos juzos e inferncias, a CRPr entre boas e ruins mximas de ao, e a CJ entre juzos do belo e os do agradvel e do bom. 
Em cada uma das crticas, a analtica e a dialtica crticas so cnones nesse sentido: a analtica  um "cnone para adjudicao" (da correo formal do nosso conhecimento)" 
(L p.531), ao passo que a dialtica contm "as marcas e regras de acordo com as quais reconheceramos que algo no concorda  com os critrios formais de verdade, 
embora parea concordar com eles" (L p.532).
A tentativa de Kant, em sua lgica transcendental, para reunir as lgicas tradicional e moderna num s todo foi radicalizada por sucessores como Fichte e Hegel. 
Estes no consideraram necessrio reconciliar a tbua tradicional de juzos com as snteses da conscincia :i de si, mas argumentaram diretamente a partir da atividade 
sinttica da conscincia de si para ' a forma e o contedo do juzo. Os excessos percebidos nesse desenvolvimento da lgica de < Kant acabaram provocando uma reao 
contra o projeto de lgica transcendental, que ado- ; tou uma variedade de formas influentes, indo desde as descries psicolgicas e sociolgicas de formas de 
raciocnio at uma lgica de validade que se concentrou na justificao formal de proposies sem levar em conta seu contedo ou relao com o mundo.
lgica transcendental ver ANALTICA; CATEGORIAS; CONCEITOS; INTUIO; LGICA
M
mal [kakon, malum, Bse, bel\ ver tambm BOM; DISPOSIO; LIBERDADE; MXIMA; VONTADE
A discusso do mal por Kant foi herdeira de uma longa e internamente complexa tradio filosfica e religiosa, fora da qual muitas de suas distines e nfases crticas 
so quase incompreensveis. Essa tradio, que combinou idias filosficas judaicas, crists e gregas, estava interessada, sobretudo, em (a) o lugar e (b) a origem 
ou causa do mal. Quanto a (a), o mal era invariavelmente colocado numa oposio dualista com o bem, quer este fosse concebido filosoficamente como austeridade ou 
excelncia, quer religiosamente como virtude ou temor a Deus. A natureza do bem era, por sua vez, determinada de modos diversos, quer em termos da idia do bem como 
a vontade de Deus, ou como a vida boa ou agradvel. A definio do bem determinou em grande medida a definio do mal. Se o bem era considerado uma idia, como em 
Plato, ento isso acarretava considerar o mal tambm como uma idia - ou era para ser identificado com o oposto da idia, isto , matria, ou era um princpio por 
direito prprio, em conflito com o bem? Plato argumenta em vrios lugares a favor de cada uma dessas posies como, de fato, Kant faria mais tarde. Tambm a concepo 
da instituio divina do bem suscitou problemas a respeito do status do mal; tal como o bem, teve igualmente sua origem em Deus, ou num adversrio de Deus, ou era 
apenas uma iluso causada pela falta de discernimento humano sobre os desgnios de Deus? Esses problemas foram evitados nas explicaes aristotlicas e epicuristas 
do mal, considerando-o os primeiros um desvio extremo da mdia, os segundos tudo o que causasse dor, mas essas posies deixaram elas prprias em herana  posteridade 
uma srie de problemas adicionais.
A definio de mal foi ainda mais complicada por diferenas a respeito do foco apropriado de discusses do mal. Deveria o mal ser considerado de um ponto de vista 
sobrenatural, com referncia  teologia do mal, ou natural, com referncia aos acontecimentos malvolos do mundo, ou mesmo psicolgico, com referncia s disposies 
e aes humanas maldosas? A maioria dos autores combinou aspectos de todas as trs vertentes, em particular Plato e os esticos em filosofia, o autor do livro de 
J na tradio judaica, e os autores do cnone cristo. Os cristos realaram cada vez mais a dimenso psicolgica do mal - uma nfase derivada da doutrina teolgica 
e naturalmente fundamentada do pecado original - e destacaram, por sua vez, o papel da vontade sobre a razo. Essa orientao atingiu o seu apogeu teolgico nos 
escritos de Santo Agostinho, os quais serviram para focalizar a subseqente reflexo crist sobre o problema da vontade

222            mal
boa e m (ver Santo Agostinho, Confisses, Livro vil, 1960). A subseqente especulao crist medieval acerca do mal dividiu-se, de um modo geral, em termos da nfase 
natural/sobrenatural de Santo Toms de Aquino e a orientao mais sobrenatural/voluntaris-ta adotada por agostinianos como So Boaventura e, muito mais tarde, Lutero.
O foco especfico da discusso de Kant variou em diferentes etapas de sua carreira, embora o seu interesse pela conexo entre o mal e a vontade humana se mantivesse 
constante. Na Proposio IX de ND, por exemplo, ele passa de uma discusso teolgica da coexistncia do bem e do mal na mais perfeita criao de Deus para uma etiologia 
do mal, a qual encontra sua origem no em Deus mas em "um princpio interior de autodeterminao" prprio dos seres humanos. Esse princpio, fica depois esclarecido, 
no se baseia, como tinha argumentado o racionalista Wolff, em nosso conhecimento defeituoso do bem; trata-se, com efeito, de um princpio radicalmente malvolo, 
inerente  vontade humana. Nos termos da distino oferecida em ND, o mal humano  um mal negativo de defeito (malum defectus) da vontade, no da razo; no  um 
mal positivo de privao {malum privationis); o primeiro envolve uma negao do bem, enquanto o segundo prope fundamentos positivos para suplantar o bem.
Nos anos de seus escritos maduros, Kant concentrou sua explicao do mal quase exclusivamente no problema da vontade humana. Embora se mostre familiarizado com os 
argumentos a favor e contra a compatibilidade da existncia de Deus e do mal no mundo, afirma claramente em FTF que a questo do mal formulada desse modo no pode 
ser tratada pelo conhecimento. O que, entretanto, pode ser tratado pelo conhecimento  o mal discernvel na vontade humana, e isso  levado em considerao por Kant 
em CRPr e RL.
No contexto de uma discusso dos objetos da razo prtica em CRPr, Kant desenvolve uma distino entre duas formas de mal. Os nicos objetos possveis da razo prtica 
so o bem e o mal, termos que Kant diz serem usados para traduzir bonum e malum. Sublinha depois que "o idioma alemo tem a ventura de possuir expresses exatas" 
(CRPr p.61, p.59) que permitem fazer uma distino entre duas formas de bem e de mal. Kant traduz bonum como das Gute ou o bem e das Wohl ou o bem-estar, e traduz 
malum como das Bse ou o mal e das bel ou mal-estar. A oposio de bem-estar e mal-estar vale a respeito da "sensibilidade e do sentimento de prazer ou desprazer 
que produz" (CRPr p.60, p.62). Repete assim o alinhamento epicurista de bem e mal com prazer e dor, e  distinguido por Kant do bom e do mau propriamente ditos. 
Estes no se referem ao "estado sensvel da pessoa", mas indicam "uma relao com a vontade", que "no  uma coisa porm apenas um modo de agir... somente a mxima 
da vontade ..." (CRPr p.60, p.62).
A localizao do mal dentro das mximas da vontade ser mais explorada em RL, onde Kant desenvolve a tese do mal radical. A origem do mal no reside num objeto determinante 
da vontade, nem numa inclinao ou impulso natural, mas to-somente em "uma regra produzida pela vontade para o uso de sua liberdade, isto , numa mxima" (RL p.21, 
p. 17). O fundamento para optar entre uma mxima boa ou m no pode ser encontrado na experincia;  um ato livre que no se baseia nem em inclinaes sensveis 
nem em alguma outra mxima da vontade. Os seres humanos escolhem entre mximas que determinam a vontade de acordo com incentivos decorrentes ou da lei moral ou de 
suas naturezas sensoriais. A distino entre uma vontade boa ou m depende de "qual dos dois incentivos [ feito] a condio do outro" (RL p.36, p.31). Kant continua 
dizendo que esse predicamento de escolha  inevitvel por causa do carter radical do mal, que 
mandamento           223
descrito como uma "propenso natural, inextirpvel por poderes humanos" (RL p.37, p.32). Mas embora a natureza humana seja frgil, ela no  diablica - no converte 
o prprio mal num incentivo da vontade; antes, a natureza humana carece de solidez para seguir princpios e de suficiente capacidade de discriminao para distinguir 
entre incentivos. No obstante, por causa da mesma liberdade que leva ao malum defectus do mal radical,  possvel ao ser humano superar, seno extirpar, a propenso 
para preferir os in-" centivos de suas naturezas sensoriais  lei moral. Assim, embora as propenses para o bem e o mal se guerreiem para dirigir as mximas da vontade, 
"a semente da bondade [ impedida] de se desenvolver como de outro modo ocorreria", embora isso no impea a vontade de ser cultivada e possuir uma histria. Com 
isso no se pretende sugerir que exista um meio-termo quase aristotlico entre bem e mal - Kant rechaa expressamente essa idia numa nota de rodap em RL p.39, 
p.34 - mas, antes, que bem e mal esto continuamente lutando pela supremacia (RL p.82, p.77).
A noo kantiana de mal radical  exemplo de um malum defectus e no de um malum privationis: nega o bem ou a lei moral como incentivo para mximas da vontade, mas 
no o substitui por um incentivo para preferir a mxima do mal. Esse conceito de mal permitiu a Kant manter a possibilidade de uma histria humana progressiva em 
que o bem  alcanado atravs do cultivo da vontade. As sutilezas dessa posio passaram despercebidas a muitos de seus crticos, que consideraram a sua doutrina 
do mal radical uma restrio  sua defesa da liberdade humana e, assim, nas palavras de Goethe, "enodoando seu manto filosfico". No obstante, a verso de Kant 
da relao entre liberdade e mal inspirou algumas das grandes meditaes filosficas do sculo XIX sobre o mal, em particular a Filosofia do direito (1821,   139-40), 
de Hegel, A essncia da liberdade humana (1809), de Schelling, O conceito de angstia (1844), de Kierkegaard, eA genealo-gia da moral (1887), de Nietzsche.  luz 
dos eventos polticos do sculo XX, a noo kantiana de mal radical como um malum defectus parece, aos olhos de muitos crticos, ser insuficiente. O Holocausto judaico 
na II Guerra Mundial foi considerado por alguns autores um diablico malum privationis envolvendo a escolha de um princpio maligno; outros, em particular Hannah 
Arendt (1964), falaram num esprito mais kantiano, sobre a "banalidade do mal" resultante de uma vontade informada no por incentivos diablicos ou mesmo sensoriais, 
mas de uma obedincia irrefletida, burocrtica, ao "dever".
mandamento [Gebot] ver tambm IMPERATIVO CATEGRICO; INCLINAO; LEI; SILOGISMO; VONTADE
O conceito de mandamento  central para a filosofia moral de Kant, expressando as relaes entre a lei objetiva e a vontade. Em FMC, Kant define-o como a "representao 
de um princpio objetivo  medida que torna indispensvel a vontade" (p.414, p.24), distin-guindo-o da lei que ele representa e do imperativo atravs do qual  formulado. 
Em virtude da "constituio subjetiva" da vontade humana - o fato de que "no  inteiramente boa" -, o mandamento  expresso como um dever-ser, porquanto a lei prepondera 
sobre as inclinaes da vontade. Por essa razo, Kant atribui ao mandamento o papel de assegurar a "submisso  lei", como em CRPr, onde  afirmado que ele "coage 
o sujeito sensivelmente afetado" (p.81, p.83). Kant distingue rigorosamente entre esse "mandamento (lei) da moralidade" associado ao imperativo categrico e as "regras 
de habilidade" e "conselhos de prudncia" derivados de imperativos hipotticos (FMC p.416, p.26).

224            matemtica
A complexa estrutura subjacente no uso do termo por Kant  sumamente bvia em MC. A o mandamento  descrito como o que  prprio do poder executivo do estado, situado 
entre o legislativo e o judicirio, e responsvel por assegurar a obedincia  lei. Tambm se apresenta imediatamente depois como o termo mdio de um silogismo prtico: 
"a premissa maior, a qual contm a lei da vontade; a premissa menor, que contm o mandamento para comportar-se de acordo com a lei, isto , o princpio de subsuno 
ao abrigo da lei; e a concluso, a qual contm o veredicto (sentena)..." (MC p.313, p. 125). Existe, pois, uma analogia operando entre o silogismo prtico, a organizao 
do estado e a articulao do julgamento moral em termos da distino entre lei, mandamento e imperativo.
matemtica ver tambm APODCTICO; AXIOMA; CONSTRUO; EVIDNCIA; INTUIO No prefcio  segunda edio de CRP, Kant imagina que as origens da matemtica situam-se 
numa "revoluo operada pela inspirao feliz de um s homem" (B ix). Localiza essa revoluo na geometria grega, cujo mtodo, afirma ele, consistiu em o gemetra 
descobrir "que no tinha de seguir passo a passo o que via na figura, nem o simples conceito que dela possua, para conhecer as suas propriedades, que antes deveria 
produzi-la, ou constru-la, mediante o que pensava e o que representava apriori para si mesmo" (B xii). Com isso, Kant anuncia a sua discutvel afirmao de que 
a matemtica ocupa-se "de objetos e de conhecimentos somente na medida em que se podem representar na intuio" (A 4/B 8). Isto acarreta a afirmao adicional de 
que o conhecimento matemtico no  analtico e, por conseguinte, no est baseado no princpio de contradio, mas  sinttico apriori: "todos os juzos matemticos 
so, sem exceo, sintticos" (B 14). Em CRP, Kant esfora-se por justificar essa afirmao com referncia  aritmtica, geometria e lgebra. Assim procede com o 
propsito ostensivo de explicar o problema de por que os conhecimentos matemticos podem ser aplicados  natureza, mas tambm para distinguir entre as provas e procedimentos 
da matemtica e filosofia.
O exemplo aritmtico de Kant  a proposio 7 + 5 = 12, que ele insiste em dizer que no  uma proposio analtica. A soma 12, argumenta,  derivada do "conceito 
da soma de 7 e de 5", a qual "nada mais contm do que a reunio dos dois nmeros em um s, pelo que de modo algum  pensado qual  esse nmero nico que rene os 
dois" (CRP B 15). Para descobrir o nmero especfico 12, Kant afirma ser necessrio "procurar a ajuda da intuio" e construir o nmero 12 graas  adio de cinco 
a sete unidades (neste caso, os dedos de sua mo). Mais adiante, em "Axiomas da intuio", Kant especifica a operao sinttica realizada na aritmtica como uma 
"sntese do homogneo (das unidades) ou uma "frmula numrica" que "produz" uma soma nica atravs do uso geral desses nmeros (CRP A 165/B 205). Ele distingue a 
produo sinttica de uma soma aritmtica da envolvida na exposio intuitiva de axiomas geomtricos. Estes so tambm proposies sintticas, como Kant mostra com 
os exemplos de "a linha reta  a mais curta distncia entre dois pontos", a = a e (a + b) > c, os quais s podem ser admitidos porque podem ser representados na 
intuio (B 17). Esses axiomas so derivados de propriedades da intuio pura, as quais podem ser manipuladas pela imaginao produtiva para construir figuras geomtricas 
com as quais demonstrar provas geomtricas. Diferente de uma operao aritmtica como a adio, cuja sntese produz uma soma nica, os axiomas da intuio podem 
ser desenvolvidos para construir todos os ngulos possveis. Por fim, a lgebra tambm "representa na intuio, de acordo com certas regras univer-
matria            225
sais, todas as vrias operaes pelas quais as quantidades so produzidas e modificadas" (CRP A 717/B 745). A apresentao das quantidades e dos smbolos algbricos 
so, para Kant, anlogos  construo de uma figura geomtrica, tomando a forma de uma "construo simblica" que se equipara  "construo ostensiva" da geometria.
A tentativa de Kant de restringir as construes matemticas s formas da intuio humana contradiz algumas de suas prprias posies anteriores, as quais acolhiam 
a possibilidade de geometrias no confinadas aos limites de trs dimenses espaciais. Ao generalizar a noo de construo num de seus textos mais antigos, como 
FV (9), pde sugerir a possibilidade de geometrias baseadas em axiomas muito diferentes dos de Eu-clides. Tambm se interessou, em ICP, em distinguir prova e certeza 
matemticas das filosficas. Isso foi motivado pelo desejo de distanciar a sua filosofia da escola wolffiana, que usava a autoridade da prova matemtica para demonstraes 
filosficas. Kant baseou a sua distino entre filosofia e matemtica na diferena genrica entre o carter discursivo, acromtico, da primeira e o carter intuitivo, 
axiomtico, da segunda. Nas palavras da CRP, o conhecimento filosfico " o conhecimento racional por conceitos", ao passo que "o conhecimento matemtico  adquirido 
por construo de conceitos" (A 713/B 741); o primeiro "considera o particular somente no universal", o segundo, "o universal no particular" (A 714/B 742). No  
implausvel sugerir que foi a tentativa de Kant de sustentar a distino entre argumento matemtico e filosfico que o levou a destacar o carter intuitivo e sinttico 
da matemtica, mesmo diante de seus prprios insights anteriores em contrrio.
matemticos (categorias, idias e princpios) ver CATEGORIAS; CATEGORIAS DINMICAS; PRINCPIO; IDIAS
matria [Materie] ver tambm ACIDENTE; CORPO; CONCEITOS DE REFLEXO; DINMICA; FENOMENOLOGIA; FORMA; FORONOMIA; MECNICA; MOVIMENTO Na filosofia crtica, Kant concede 
um papel comparativamente limitado ao conceito de matria. Esta  definida de modo adjetivo como a "matria da aparncia" e como a "matria do conhecimento", com 
a primeira sendo "a aparncia [que] corresponde  sensao" (CRP A 20/B 34) e a segunda aquela que  "obtida atravs dos sentidos" (A 86/B 118). E sempre contrastada 
com forma e em conjunto com esta ltima constitui um dos quatro pares de conceitos de reflexo. Significa "o determinvel em geral" em oposio  forma, que  determinao 
em geral (A 267/B 323). Como ocorre com todos os conceitos de reflexo, matria e forma nada so per se mas assinalam caminhos em que o entendimento se orienta a 
respeito da experincia. Portanto, a matria designa simplesmente aquilo que, na experincia,  determinado pelas formas de intuio e do entendimento; constitui, 
pois, um termo de reflexo para "as prprias coisas que aparecem" (A 268/B 324) e no  uma aparncia ou uma coisa em si.
Na CRP, a matria  distinta da substncia, ou do permanente na experincia, uma vez que "a matria no significa uma espcie de substncia to inteiramente distinta 
e heterognea ao objeto do sentido interno (a alma), mas somente aparncias sem conformidade com os seus objetos (que em si mesmos nos so desconhecidos), cujas 
representaes designamos por externas" (CRP A 385). Com efeito, o que  chamado de matria nada mais  do que os efeitos no sentido externo de "mudanas de lugar", 
en-

226            mxima
quanto as foras que informam a matria so "simples tendncias que terminam em relaes no espao como seus efeitos" (A 396). A matria tampouco  uma coisa em 
si; como um conceito de reflexo, no est "entre os objetos do entendimento puro" e, mesmo que a considerssemos como tal, "o objeto transcendental, que pode ser 
o fundamento desta aparncia que chamamos matria,  simplesmente algo que nunca poderamos compreender no que consiste, mesmo se algum estivesse em condies de 
explicar-nos" (A 277/B 333). O conceito crtico de matria foi, com efeito, despojado de toda a dignidade que era conferida ao conceito na histria da filosofia, 
no sendo a "matria em si" (hyle) nem mesmo a substncia material subjacente a acidentes.
No obstante, com PM Kant dedica um livro inteiro  matria ou, melhor dizendo, aos "princpios da construo de conceitos que pertencem  possibilidade da matria" 
(PM p.472, p.9), a saber, aqueles que precedem qualquer tentativa de aplicar a matemtica  "doutrina do corpo" ou cincia natural. De acordo com os ttulos da tbua 
de categorias, Kant apresenta "todas as determinaes do conceito universal de matria em geral e, portanto, tudo o que pode ser pensado a prior! a respeito dela" 
(PM p.476, p.12). Descreve o seu procedimento como o de "fazer passar o conceito de matria por todas as quatro funes dos conceitos do entendimento" (p.476, p.13). 
A determinao fundamental da matria para a nossa sensibilidade  o movimento e, assim, "todos os predicados pertinentes  natureza da matria" podem ter sua origem 
"no movimento" (p.477, p.14). Portanto, a matria  analisada em termos de movimento: primeiro, por foronomia, como um puro quantum de movimento; depois por dinmica, 
quando a qualidade do movimento  a expresso de uma fora; em seguida por mecnica, em termos da relao mtua entre as partes moventes da matria; e, finalmente, 
por fenomenologia, como "movimento ou repouso da matria determinado meramente com referncia ao modo de representao, ou modalidade, isto , como uma aparncia 
dos sentidos externos" (p.477, p.15).
mxima ver tambm IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; LIBERDADE; MANDAMENTO; VONTADE
Uma mxima  definida como "um princpio subjetivo da vontade" e distingue-se do princpio objetivo ou "lei prtica" (FMC p.400, p. 13). Enquanto esta ltima  vlida 
para todo e qualquer ser racional e constitui um "princpio de acordo com o qual ele deve agir", a mxima "contm a regra prtica que a razo determina de acordo 
com as condies do sujeito (freqentemente, sua ignorncia ou inclinaes) e , portanto, o princpio de acordo com o qual o sujeito age" (FMC p.421, p.30). Em 
FMC, Kant enumera as condies para uma mxima das categorias quantitativas de unidade, pluralidade e totalidade. Uma mxima deve possuir unidade na forma de universalidade 
decorrente da unidade da vontade; pluralidade em sua matria ou "fins"; e totalidade na "completa determinao" de "todas as mximas pela frmula de que todas as 
mximas procedentes de sua prpria legislao devem harmonizar-se com um possvel reino de fins como um reino da natureza" (p.436, p.41-2). Na opinio de Kant, a 
ao moral consiste, em grande parte, em testar as mximas por meio das vrias formulaes do imperativo categrico. Esse exame de avaliao das mximas  o modo 
como a lei objetiva da razo se relaciona com uma vontade sujeita a outras influncias e inclinaes. O imperativo categrico serve como um cnone para avaliar mximas 
de ao; a ao moral requer que ns "atuemos como se a mxima da nossa ao fosse tornar-se, atravs da nossa vontade, uma lei uni-
memria            227
versai da natureza" (p.421, p.30). Assim, a mxima prudente de que "quando estou em grande apuro, posso fazer uma promessa mentirosa" fracassa no teste do imperativo 
categrico porque, sustenta Kant, "eu posso, de fato, querer mentir mas no posso, em absoluto, querer uma lei universal para mentir" (p.403, p.15).
mecnica ver tambm DINMICA; FENOMENOLOGIA; LEI; MATRIA; TBUA DOS JU- ZOS/CATEGORIAS
A mecnica  uma das quatro divises do sistema de matria apresentado em PM. Cada uma delas corresponde a matria considerada em termos de um dos ttulos da tbua 
de categorias: a foronomia corresponde  quantidade e  a cincia da quantidade de movimento da matria; a dinmica corresponde  qualidade e  a cincia das qualidades 
de matria, a saber, sua fora atrativa e repulsiva; a fenomenologia corresponde  modalidade e  a cincia da aparncia do movimento de matria para a percepo; 
enquanto a mecnica corresponde  relao e  a cincia da relao das partes da matria umas com as outras (ver PM p.536-53, p.95-117).
Na Parte II de CJ, Kant duvida da capacidade de uma explanao mecnica (isto , uma que acredita que tudo pode ser esclarecido em termos da relao mtua das partes 
de matria) para explicar os seres vivos. Ele resolve a antinomia da "Crtica da faculdade de julgar teleolgica", a qual ope a tese de que a natureza seja avaliada 
"como possvel com base em meras leis mecnicas"  anttese de que ela no pode ser assim avaliada, argumentando que a razo no pode provar nem uma coisa nem outra 
e, por conseguinte, o juzo deve ser usado de um modo reflexivo e no de um modo determinante (70). Da mesma forma, as leis da liberdade que informam a ao moral 
humana tambm excedem as noes mecnicas de causao e obedecem  sua prpria causalidade no mecnica, uma posio extensamente explorada na "Terceira antinomia" 
da CRP (ver CRP A 444/B 472 e ss.).
medo [Furcht] ver tambm AFETO; MAL; SENTIMENTO; SUBLIME O medo  definido como a "averso emocional ao perigo" e manifesta-se em vrios graus, que vo desde a angstia 
ao pavor, passando pela ansiedade e o horror (A 77). A ansiedade, por exemplo,  definida como o "medo de um objeto que ameaa um mal indeterminado", ao passo que 
a angstia  medo combinado com reflexo. A emoo que pode ser suscitada pelos terrores do sublime no  medo concreto, mas uma estupefao que exemplifica de modo 
vertiginoso a superioridade da imaginao sobre a natureza interna e externa.
memria ver tambm ESPERANA; IDENTIDADE; IMAGINAO; SNTESE; TEMPO A memria  definida como a faculdade de visualizar o passado intencionalmente", o que, a par 
da "faculdade de visualizar algo como futuro", serve para associar "idias da condio passada e futura do sujeito com o presente" (A 34). Juntas, memria e previso 
so importantes para "concatenar percepes no tempo" e ligar "numa experincia coerente o que no mais existe com o que ainda no existe, por meio do que  presente" 
(ibid.) Assim, pode-se considerar que desempenha um papel significativo no problema de identidade e, mais particularmente, no carter da sntese. A memria est 
implcita em duas das trs snteses da "faculdade transcendental da imaginao" apresentadas na deduo da CRP: na "sntese de apreenso" onde informa a consistncia 
das aparncias, e na

228            mente
"sntese do reconhecimento" onde est subentendida na continuidade da conscincia de aparncias.
mente  ver NIMO (GEMT); CONHECIMENTO; EU; "EU PENSO"; FACULDADES DO CONHECIMENTO; PARALOGISMOS; PENSAMENTO; SUJEITO
mentira [Lge] ver tambm COMUNICABILIDADE; ILUSO; IMPERATIVO CATEGRICO; MXIMA; VERDADE
No "Anncio de... um Tratado..." (1796) e em MC (1797), Kant descreve a mentira como a "ndoa infame na natureza humana" ("Anncio..." p.422, p.93, MC p.430, p.227) 
e dis-tingue-a do erro em termos do intuito de ludibriar. A mentira infringe o "dever de sinceridade" derivado, em FMC, do imperativo categrico. Uma mentira no 
pode ser determinada como uma mxima universal, podendo apenas ser usada em funo da realizao de um fim particular; s "o conceito da ao" da verdade pode tornar-se 
uma mxima universal. Kant considera as mentiras "diretamente opostas  determinao natural da capacidade do falante para comunicar seus pensamentos" e o resultado 
 nada menos do que "a renncia pelo falante  sua personalidade" e ao status de ser humano (MC p.430, p.226). No  surpreendente que Kant no considerasse as mentiras 
justificveis sob quaisquer circunstncias, nem mesmo na circunstncia citada no ttulo de um ensaio de 1797: "Sobre o suposto direito a mentir por amor  humanidade". 
O dever de ser honesto " um sagrado decreto da razo, que comanda incondicionalmente e no pode ser limitado por quaisquer convenes", enquanto a mentira fere 
no s a base do que  ser humano mas tambm toda a ordem legal.
Kant classifica as mentiras conforme (a) sejam "internas" ou "externas" e (b) de acordo com a conscincia que as acompanha. Uma mentira interna como, por exemplo, 
; fingir ou simular uma crena,  contrastada com uma mentira externa, como enganar de-liberadamente uma outra pessoa. Ambas as espcies de mentira so ainda distinguidas 
segundo a mentira se apresente como verdade que o mentiroso est consciente de ser uma inverdade, ou se o mentiroso descreve como certo aquilo sobre o qual no se 
tem ne- * nhuma certeza ("Anncio..." 1796, p.421, p.93). Embora Kant condene mentiras ditas na ; base de "frivolidade ou at do bom-humor" e mesmo aquelas a que 
se recorre como um ; meio para atingir um fim meritrio (MC p.430, p.226), a maioria dos seus exemplos refere-se  quebra de promessa. Os dois principais casos de 
mentira tratados em FMC envolvem fazer falsas promessas. No primeiro, um falsa promessa justificada com base na ' prudncia  condenada porque no pode ser tida 
na conta de uma mxima universal da vontade (FMC p.402, p. 15); no segundo, a falsa promessa  condenada com o fundamento de que levaria o promitente a usar a pessoa 
a quem se fez a promessa como um meio para um fim e no como um fim em si (p.430, p.37).
metafsica ver tambm COSMOLOGIA; ONTOLOGIA; PSICOLOGIA; TEOLOGIA; TRANSCENDENTAL
Metafsica era o nome dado no primeiro sculo da nossa era ao corpus de escritos aristo-tlicos que veio "depois da fsica". Na poca de Santo Toms de Aquino, esse 
ttulo de catlogo convertera-se no nome da cincia suprema, abrangendo objetos tais como Deus e os Anjos, que "no dependem da matria para seu ser", e conceitos 
como "substncia, qualidade, ser, potncia, ato e muitos outros" (Santo Toms de Aquino, 1986, p.14). 
metafsica            229
chamada metafsica ou "filosofia primeira" porque est "para alm da fsica", de uma forma muito parecida quela como foram chegando depois "todas as outras cincias 
que receberam dela seus princpios" (ibid., p. 15). No perodo imediatamente anterior a Kant, o contedo da metafsica tinha-se fixado em quatro sees: a primeira 
era a metafsica geral ou ontologia, a qual se ocupava, nas palavras da metafsica de Wolff, com "Os alicerces do nosso saber e das coisas em geral"; as trs restantes 
eram os "objetos e cincias *da "metafsica especial", a saber, (a) a alma e a psicologia, (b) o mundo e a cosmologia, e (c) Deus e a teologia. Kant seguiu de perto 
esse esquema em CRP, com a "Analtica transcendental" tratando criticamente da ontologia e as trs sees da "Dialtica transcendental" estudando as trs partes 
da metafsica especial.
A adeso de Kant a esse esquema revela que a razo pura que ele estava submetendo  crtica no era outra coisa seno a metafsica da escola wolffiana. Ele estava 
familiarizado com essa tradio atravs de suas prelees anuais sobre metafsica, iniciadas no inverno de 1755-56. Essas prelees estavam baseadas na Metaphysica 
de A.G. Baum-garten (1739), um texto substancialmente wolffiano na forma e no contedo. Em ICP (1764), Kant professa grande insatisfao com a metafsica wolffiana 
e sua dependncia do princpio de contradio, assim como veio a expressar sua discordncia benevolente com a crtica pietista a Wolff por Crusius. Em SV, Kant descreve 
as metafsicas de Wolff e Crusius como "castelos no ar" (p.342, p.329) mas, numa notvel apstrofe, declara que, apesar de tudo, "apaixonou-se" pela metafsica. 
Ele v duas vantagens prometidas pela cincia: a primeira e a menos promissora  que "ela pode resolver os problemas suscitados pelo esprito inquiridor, quando 
usa a razo para espiar as mais escondidas e recnditas propriedades das coisas"; e a segunda, a mais importante, se bem que a menos apreciada vantagem,  que ela 
pode servir como "uma cincia dos limites da razo humana" (p.368, p.354). Com a confisso de que ainda no tinha determinado precisamente esse limite", Kant aponta 
para o projeto de estabelecer os limites da razo humana, tarefa que vai ocup-lo durante os 15 anos seguintes e que resultou na CRP.
O prefcio da primeira edio da CRP comea por evocar uma "espcie de conhecimento" que a razo no pode ignorar, mas que transcende os seus poderes e a lanam 
na perplexidade das trevas e das contradies. Esse conhecimento  a metafsica, a Hcuba das cincias, outrora rainha mas hoje desdenhada. Kant prope uma crtica 
da razo a respeito de todos os conhecimentos a que "pode, por conseguinte, independentemente de toda a experincia, aspirar  soluo do problema da possibilidade 
ou impossibilidade de uma metafsica em geral, e  determinao tanto de suas fontes quanto de sua extenso e limites" (CRP A xii). Para Kant, a metafsica  composta 
de "juzos sintticos aprio-ri" capazes de "acrescentar ao conceito dado alguma coisa que nele no estava contida" e que podem ampliar o conhecimento para alm dos 
limites da experincia (B 18). Assim, a propedutica clnica para a metafsica examinar os limites apropriados de tais juzos a fim de estabelecer se podem ser 
estendidos ao conhecimento de tais objetos metafsicos como Deus, o mundo e a alma. Kant concluir que no podem, mas isso no o levou a abandonar a metafsica; 
pelo contrrio, levou-o a empreender uma redefinio de seu mbito e propsito.
No penltimo captulo da CRP sobre a "Arquitetnica da razo pura", Kant descreve a metafsica como a "crtica da faculdade da razo com respeito a todo o conhecimento 
a priori puro" e a "ligao sistemtica de todo o conhecimento filosfico (tanto

230           Metafsica dos costumes
verdadeiro quanto ilusrio) derivado da razo pura" (A 841/B 869). Esta ltima ligao pode ser dividida de acordo com os empregos especulativo e prtico da razo, 
gerando a metafsica da natureza e a metafsica dos costumes (ver tambm FMC p.388, p.1-2). A primeira contm "os princpios da razo pura que so derivados de meros 
conceitos... empregados no conhecimento terico de todas as coisas", a segunda "os princpios que determinam a priori e tornam necessrias todas as nossas aes" 
(CRP A 841/B 869), apresentadas em seus verdadeiros empregos na analtica, em seus empregos ilusrios na dialtica. As trs, consideradas em conjunto, constituem 
a metafsica, que Kant sugere ser sinnimo de filosofia ou amor  sabedoria, assim como "o pleno e completo desenvolvimento da razo humana" (A 850/B 878).
Metafsica dos costumes MC  o terceiro dos textos crticos de Kant sobre filosofia moral. O primeiro, FMC, publicado em 1785, analisou o "princpio supremo da moralidade". 
O segundo, CRPr, publicado em 1788, justificou a moralidade sinteticamente. Entretanto, MC, publicado em 1797, derivou do princpio de moralidade uma "metafsica 
dos costumes".* Tal como em PM, MC no apresenta todo o sistema metafsico dos costumes mas apenas os "primeiros princpios"; em PM, esses princpios bsicos eram 
os associados ao conceito de matria, em MC esto ligados aos conceitos de direito e virtude. A obra est, em conseqncia, dividida em primeiros princpios metafsicos 
da "Doutrina do direito" e da "Doutrina da virtude". Ambos os conjuntos de princpios so derivados da liberdade da vontade e seu correlato de dever, com os do direito 
dedicados a "deveres que podem ser dados por leis externas, e o sistema da doutrina da virtude (Ethica), que trata de deveres que no podem ser assim dados" (MC 
p.379, p. 185). A "Doutrina do direito" trata das leis de direito privado e pblico, avanando, no primeiro, do conceito de posse para o de aquisio, e considerando 
o segundo  luz dos direitos de propriedade, contrato e "direito domstico". Na discusso do direito pblico, Kant avana dos direitos internos de estados para os 
"direitos de naes", de suas relaes externas, e para uma breve seo sobre o direito cosmopolita. Os elementos da "Doutrina da virtude" que se segue so divididos 
de acordo com os direitos para com o eu e os deveres para com os outros, enquanto o "mtodo da tica" trata de como a virtude possa ser adquirida e ensinada.
mtodo ver tambm ANLISE; ANALTICA; HISTRIA DA FILOSOFIA; LGICA; SNTESE O mtodo  geralmente definido como "um procedimento de acordo com princpios" e est 
subdividido em muitas espcies diferentes de mtodo. Na CRP, Kant distingue entre mtodos "naturalistas" e "cientficos": o primeiro procede de acordo com o senso 
comum e  rejeitado por ele como "mera misologia", enquanto o segundo compreende os mtodos dogmtico, ctico e crtico. O mtodo dogmtico representado por Wolff 
obedece a um procedimento sistemtico adotado da matemtica, mas que est baseado em axiomas no examinados. O mtodo ctico representado por Hume questiona sistematicamente 
todas as reivindicaes racionais para estabelecer conexes necessrias entre eventos, mas sem investigar possveis fontes de necessidade. Finalmente, o mtodo crtico 
consiste no auto-exame sistemtico da razo a fim de determinar as fontes e o alcance
* Ver nota ao verbete "Fundamentao da metafsica dos costumes". (N.R.T.)
mortalidade            231
de seus conceitos a priori, e de atuar como um cnone contra a sua inadequada extenso alm dos limites da experincia possvel.
metodologia/doutrina do mtodo ver tambm ANALTICA; DIALTICA; ELEMENTOS; LGICA
Kant seguiu a incipiente diviso moderna da lgica em doutrina dos elementos e doutrina do mtodo, ou metodologia. A primeira inclui um inventrio das funes essenciais 
do pensamento (conceitos, juzos, inferncias), ao passo que a segunda apresenta a sua aplicao prtica em termos dos princpios da exposio cientfica. Cada uma 
das trs crticas est organizada de acordo com a diviso de elementos e mtodo, sendo a doutrina do mtodo da CRP a mais plenamente desenvolvida. Esta ltima determina 
as "condies formais de um sistema completo de razo pura" (A 708/B 736), subdividido de acordo com uma "disciplina", um "cnone", uma "arquitetnica" e uma "histria" 
da razo pura.
modalidade ver APODCTICO; CATEGORIAS; EXISTNCIA; JUZO; NECESSIDADE; POSSIBILIDADE; PROBLEMTICA; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
mnada ver tambm CORPO; DIFERENA; DIVISIBILIDADE; MATRIA; MOVIMENTO; SUBSTNCIA
Leibniz definiu uma mnada na Monadologia (escrita em 1714, publicada em 1720) como "uma substncia simples que entra nos compostos" (1), que  capaz de "percepo" 
(15) e de "apetio" (16). Na pr-crtica FNM (1756), Kant considerou o corpo composto de "substncias simples" ou "mnadas" (p.477, p.53), as quais ocupavam o 
espao no em virtude da extenso mas por exercerem uma fora ativa (p.481, p.57). Nessa etapa inicial de sua carreira, Kant foi extremamente influenciado pela dinmica 
de Leibniz, a qual se baseava nas foras exercidas por substncias simples, se bem que na poca de ICP (1764) j se tivesse tornado extremamente ctico quanto  
mnada, usando-a para exemplificar um conceito filosfico "inventado" (p.227, p.249). Na seo de CRP intitulada "Da anfibologia dos conceitos de reflexo", Kant 
aprofunda esse ceticismo numa crtica total em que se contesta a simplicidade das mnadas, seu poder de representao e o problema suscitado pela tentativa de relacionar 
substncias simples entre si (ver CRP A 267/B 323 e A 274/B 330). Entretanto, em sua resposta ulterior ao leibnizia-no Eberhard em SD (1790), onde Kant qualifica 
a CRP de "genuna apologia de Leibniz" (SD p.251, p.160), a sua posio crtica  mais matizada. Defende Leibniz contra os seus discpulos, afirmando no caso da 
mnada que ela no devia ser confundida com um ser fsico mas que se trata de uma "substncia desconhecida", uma "idia da razo" em que "devemos certamente representar 
para ns prprios tudo o que pensamos de uma substncia composta como sendo composta de substncias simples" (p.248, p. 158). Kant apresenta a a CRP como o desenvolvimento 
de temas leibnizianos, sobretudo o da mnada.
monograma ver ESQUEMA(TISMO)
moral ver IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; MANDAMENTO; MXIMA; PESSOA
mortalidade ver FINITUDE; IMORTALIDADE

232            morte
morte  ver FINITUDE; IMORTALIDADE; MEDO; PUNIO; TEMPO motivo* ver INCENTIVO; MXIMA; RESPEITO
movimento ver tambm CORPO; DINMICA; ESPAO; EXTENSO; FENOMENOLOGIA; FORA; FORONOMIA; MATRIA; MECNICA; SUCESSO; TEMPO
O conceito de movimento foi extremamente significativo para Kant em todas as fases de sua carreira de autor, sendo freqentemente usado para exemplificar argumentos 
metafsicos mais amplos. Em sua primeira obra, FV, usou o conceito de movimento para criticar a concepo cartesiana de corpo como substncia extensa; nisso acompanha 
Leibniz ao optar por uma explicao dinmica de movimento em termos de fora ou vis activa, a qual  anterior  extenso ( 1). O movimento desempenhou um papel 
importante na cos-mologia de HGN (1755), onde Kant supe a matria do universo dispersa mas formando-se, atravs do movimento e das foras de atrao e repulso, 
num todo ordenado e governado por leis. Nesse texto, assim como oito anos depois em UAP, Kant argumentou que as leis mecnicas do movimento indicam um plano divino 
original que no requer a interveno constante de Deus no funcionamento do universo. Kant usa tambm o conceito de movimento como parte de sua crtica  ento hegemnica 
filosofia wolffiana e, em particular, ao seu uso do princpio de contradio. Os primrdios de sua tese so evidentes em NT (1758), onde Kant mostra a relatividade 
dos conceitos de movimento e repouso, um ponto que ele usa em GN (1763) para distinguir entre contradio lgica e oposio real (ver p. 171 e 178, p.211 e217).
Em CRP, Kant volta a usar o conceito de movimento para criticar o princpio de contradio. Sustenta ele que argumentar analiticamente s a partir de conceitos no 
permite "tornar inteligvel a possibilidade de uma mudana, isto , a possibilidade de uma combinao de predicados num s e mesmo objeto... S no tempo, ou seja, 
um aps outro,  que dois predicados contraditoriamente opostos podem encontrar-se numa s coisa" (CRP A 32/B49). Assim, a experincia de movimento requer a intuio 
de tempo e espao mas no reside em sua base. O conceito de movimento exige um "dado emprico" que  experimentado em termos de tempo e espao; "pressupe a percepo 
de uma certa existncia e da sucesso de suas determinaes, por conseguinte, a experincia" (A 4 l/B 58). Este ponto  subseqentemente explicado em detalhe quando 
Kant descreve o movimento "como um ato do sujeito (no como determinao de um objeto)", o qual  realizado mediante "a sntese do mltiplo no espao" (B 154). Kant 
considera que a afirmao de que o movimento  uma "propriedade de coisas exteriores" confunde "o que existe apenas no pensamento" com um "objeto real existente, 
nessa mesma qualidade, fora do sujeito pensante" (A 384). Assim, a extenso  vista no como uma aparncia mas como uma propriedade de coisas exteriores e da se 
infere que "o movimento  devido a essas coisas e realmente ocorre de modo independente, fora dos nossos sentidos" (A 385). Em vez disso, Kant considera o movimento 
como uma das trs relaes que podem ocorrer nas aparncias: extenso como "lugar numa intuio"; movimento como "mu-
*A partir da Crtica da razo prtica, Kant no mais distinguiu entre  Triebfeder e Motiv (Bewegungsgrund), como o fez na FMC. (N.R.T.)
mulher            233
dana de lugar" dentro da intuio; e fora motriz como as "leis pelas quais  determinada essa mudana de lugar" (B 67). O sujeito cognoscente pode apenas ter conhecimento 
dessas relaes e no deve consider-las, nem seus objetos, como coisas em si.
Em sua apresentao dos princpios da matria pressupostos por uma cincia natural matemtica em PM, Kant parte do conceito de movimento, afirmando que "todos os 
predicados que pertencem  natureza da matria" (p.477, p.14) podem ter sua origem nele. Desenvolve ento os conceitos fundamentais de matria ao analisar o movimento 
em funo dos quatro ttulos da tbua de categorias. Sua quantidade ou carter como um quantum puro analisa-se no captulo sobre foronomia; sua qualidade como expresso 
das foras bsicas de atrao e repulso analisa-se na dinmica; a relao das partes entre si em termos de movimento  analisada na mecnica; e o modo de apresentao 
do movimento  nossa conscincia  analisado na fenomenologia. Uma vez mais, Kant usa o conceito de movimento como um meio para o fim de apresentar um argumento 
mais amplo a respeito da natureza e do carter do nosso conhecimento da matria.
mulher ver tambm CASAMENTO; ESTADO; SEXO
Os comentrios de Kant sobre mulheres so, de um modo geral, as observaes previsi-velmente superficiais de um cavalheiro do sculo xvm que se comprazia em tratar 
as mulheres com condescendncia desde que elas se mantivessem no seu lugar. Na terceira seo de OBS, as mulheres so apresentadas como o "belo sexo" n posse de 
uma "secreta magia" e de um "sentimento inato para tudo o que  belo, elegante e ataviado" (p.229, p.77). Sua "bela intuio" contrasta com o "entendimento profundo" 
dos homens; a vocao feminina "no  para usar a razo, mas a sensibilidade" (p.230, p.79). Como esposa, tem de fornecer filhos e "lacre tagarelice", e "complementar 
com seu gosto o entendimento do marido" (ibid.). Em A, Kant arrisca uma explicao para o fato de as mulheres dependerem dos homens: uma vez que a natureza confiou 
o futuro da espcie ao ventre das mulheres e se interessou pela preservao do embrio, "implantou previdentemente no carter feminino o medo de danos fsicos e 
a timidez em relao a perigos semelhantes. Com base nessa fraqueza, a mulher pede legitimamente a proteo masculina" (A p.306, p.219). No s isso; a natureza 
tambm providenciou habilmente que o pedido de proteo levasse tambm as mulheres a aperfeioar e refinar a rude sociedade masculina. A amplitude de aperfeioamento 
 limitada, porm, pela recusa em conceder participao poltica s mulheres. O republicanismo de Kant est baseado nos trs princpios formais de liberdade, igualdade 
e independncia. Por certo, considera-se que as mulheres so livres em virtude de serem seres humanos, e so iguais "perante a lei", mas no so independentes. E 
como a nica qualificao para a cidadania " parte,  claro, no ser uma criana ou uma mulher"* (TP p.295, p.78)  a independncia econmica, as mulheres so consignadas 
por Kant  cidadania passiva com base no sexo e no status econmico (ver tambm MC p.314, p.126).
* Ou um professor. Vrias dessas limitaes civis so interpretaveis como resultantes de contingncias histricas, com as quais Kant a priori no concordava. Ele 
foi tambm conhecido pelo seu grande charme em face das mulheres. (N.R.T.)

234            mltiplo/diverso
Kant parece alar-se acima dessa melanclica lista de chaves quando passa a examinar o casamento e a sociedade familiar em MC. O contrato matrimonial de "duas pessoas 
de diferentes sexos para a posse por toda a vida dos atributos sexuais recprocos" (p.277, p.96)  uma relao entre iguais. Em termos formais, homem e mulher "possuem-se 
um ao outro como pessoas" (p.278, p.97) mas, em termos substantivos, no mbito da sociedade domstica da famlia e seus dependentes, a esposa est subordinada ao 
marido. Kant no v nenhum conflito essencial entre a "igualdade de parceiros" e a "superioridade natural do marido em relao  esposa, em sua capacidade de promotor 
do interesse comum da famlia e de sua casa" (p.279, p.98). Com efeito, o entendimento de Kant acerca das mulheres pode ser resumido em seu parntese sobre a relao 
entre sexos no casamento, a saber, "ele  a parte para dirigir, ela para obedecer" (ibid.).
mltiplo/diverso ver tambm APERCEPCO; ESPONTANEIDADE; IDENTIDADE; INTUIO; LIGAO; RECEPTIVIDADE; SENSIBILIDADE; SNTESE; UNIDADE Kant descreveu o "mltiplo 
de sensibilidade apriori" como a "matria para os conceitos puros do entendimento", sem a qual este ltimo "seria destitudo de contedo" (CRP A 77). Pois o conhecimento 
resulta da sntese da multiplicidade, o que exige que o mltiplo "seja percorrido, recebido e ligado de um determinado modo" (ibid.)pela espontaneidade do pensamento. 
Os mltiplos podem ser ou mltiplos empricos da sensibilidade, ou mltiplos apriori de espao e tempo, mas em ambos os casos promanam das "condies 1 de receptividade 
do nosso esprito, que so as nicas que lhe permitem receber representaes de objetos" (ibid.). Entretanto, isso suscita o problema de como pode ser realizada 
\ a sntese de duas capacidades heterogneas - a unidade espontnea e a multiplicidade receptiva. O que  requerido  "um ato especial de sntese do mltiplo" (CRP 
B 139), o qual combinaria o mltiplo com os modos de unidade transcendental representados pelas categorias. A explorao dessa sntese forma o ncleo da filosofia 
crtica e, em particular, a discusso dos princpios, com destaque para, entre estes, dos axiomas da intuio (ver CRP A 162/B 203 para a grandeza como o "mltiplo 
homogneo").                            
Na deduo A da primeira edio da CRP, Kant descreve tambm a sntese especf-; ca do mltiplo em termos das snteses da apreenso, reproduo e reconhecimento. 
To- j das envolvem tornar o mltiplo compatvel com a unidade do entendimento, sendo a J sntese da apreenso a mais significativa. Essa sntese "percorre todos 
os elementos do mltiplo" e "os mantm unidos num todo" (CRP A 99); o mltiplo sinteticamente apreen- >' dido  ento reunido numa imagem pela sntese reprodutiva 
(A 121), a qual  depois unificada num processo preliminar pela sntese do reconhecimento num conceito.
mundo ver tambm ANTINOMIA DA RAZO PURA; COSMOLOGIA; MUNDO INTELIGVEL;
NATUREZA
Na CRP, o mundo  a "soma total de todas as aparncias" (A 334/B 391 e A 507/B 535) e  | o objeto da cosmologia. No  um "todo existente em si" fora de nossas 
representaes e, > portanto, no pode constituir-se objeto de legtimo conhecimento. O conceito de mundo'}  distinto do de natureza:  o "conjunto matemtico de 
todos os fenmenos e a totalidade de sua sntese", ao passo que a natureza  o mesmo mundo "considerado como um todo dinmico" (A 418/B 446). Kant rejeitou sistematicamente 
a distino wolffiana entre" mundos sensvel e inteligvel (A 257/B 312), embora a admitisse entre conceitos sensve-
mundo inteligvel             235
is e intelectuais (A 225/B 311); o nico "mundo inteligvel" admissvel  o mundo moral da livre causalidade, determinado pelas leis da liberdade. A mais extensa 
exposio de Kant do seu conceito de mundo figura no contexto de sua crtica da "metafsica especial" da cosmologia na "Dialtica transcendental" da CRP. As tentativas 
dos cosmlogos para tratar o mundo como se este fosse um objeto de conhecimento e para investigar seus limites espaciais e temporais extremos (seu comeo e seu fim 
espao-temporais), sua  composio (se essencialmente simples ou composto) e a natureza de sua causalidade (se livre ou determinada) geraram as primeiras trs das 
quatro antinomias apresentadas em CRP.
mundo inteligvel [mundus intelligibilis] ver tambm APARNCIA; MUNDO; NOUMENON; OBJETO TRANSCENDENTAL; REINO DOS FINS; SENSIBILIDADE; TRANSCENDENTAL; TRANSCENDENTE
Em CRP, Kant critica o uso por "filsofos modernos" das "expresses mundus sensibilis e intelligibilis" por levarem a um "jogo vazio de palavras" (A 257/B 312). 
O uso que ele critica considera o "mundo sensvel" como a "soma de aparncias, na medida em que so intudas", e o "mundo intelectual" como as relaes entre aparncias 
"pensadas de acordo com as leis gerais do entendimento". A ttulo de exemplo dessa distino inadequada, cita o "mundo sensvel" da astronomia observacional e o 
mundo inteligvel da astronomia terica, segundo Coprnico e Newton. Assinala que essa distino desloca-se de forma ilegtima dos modos sensvel e intelectual de 
saber para objetos sensveis e intelectuais.
A prpria distino de Kant, desenvolvida inicialmente em Dl (Da forma e princpios dos mundos sensvel e inteligvel),  enunciada em termos da forma e princpios 
subjetivos do mundo sensvel, ou da "conexo universal de todas as coisas, na medida em que so fenmenos", e do princpio objetivo (ou causa objetiva) do mundo 
inteligvel "em virtude do qual ocorre uma conjuno das coisas que existem em si mesmas" (Dl 13). No considera o ltimo em termos de foras invisveis, como a 
gravidade, e, na verdade, diz muito pouco a tal respeito; a maior parte de sua exposio concentra-se no espao e no tempo como os princpios subjetivos do mundo 
sensvel. Mesmo na seo 4 de Dl, intitulada "Sobre o princpio da forma do mundo inteligvel", Kant  notoriamente reticente a respeito desse princpio que deveria 
combinar a pluralidade de substncias. A mais prxima de uma definio  a sua caracterizao negativa do inteligvel como "desprovido de tudo o que  dado na intuio 
humana" (Dl  10).
Essa reticncia  justificada na CRP, onde Kant afirma que "objetos inteligveis" ou "aquelas coisas que so pensadas pelas categorias puras sem qualquer esquema 
de sensibilidade" no podem ser objetos de experincia (CRP A 286/B 342). Entretanto, ele tambm considera inegvel que tais objetos possam ser pensados e, alm 
disso, que possam acompanhem o conhecimento sensvel, conforme  sugerido em sua definio do inteligvel como "o que, num objeto dos sentidos, no  propriamente 
aparncia" (A 538/B 566). No obstante, o conhecimento de objetos inteligveis s pode existir como noume-na ou objetos problemticos cuja existncia no pode ser 
provada nem negada. E se os objetos inteligveis so inadmissveis como objetos de conhecimento positivo, o que dizer de um mundo inteligvel ou totalidade de tais 
objetos (Dl 32 e 34). Um tal mundo, assinala Kant na observao sobre a primeira antinomia, "no  mais que o conceito uni-

236          mundo sensvel
versai de um mundo em geral, em que se abstrai de todas as condies da intuio do mesmo" (CRP A 433/B 462). O uso transcendente de um tal conceito geral consideraria 
o mundo inteligvel como estando situado fora do mundo sensvel e servindo como fundamento ou modelo transcendental deste ltimo. Essa viso de um modo geral platnica 
do mundo inteligvel como um domnio existente por trs das aparncias  rejeitada por Kant; o que  permitido  o uso transcendental do conceito em termos de uma 
causa inteligvel que "significa apenas o fundamento, para ns puramente transcendental e desconhecido, da possibilidade da srie sensvel em geral" (CRP A 564/B 
592).
Do ponto de vista da CRP, o nico mundo inteligvel admissvel  o "mundo moral, em cujo conceito fazemos abstrao de todos os obstculos  moralidade" (A 809/B 
837). O principal objeto desse mundo  a liberdade, a qual , por seu turno, manifestada no "carter inteligvel" do sujeito "liberto de qualquer influncia da sensibilidade" 
(A 541/B 569). E liberdade o que significa a "causa inteligvel" que fundamenta o carter inteligvel da causalidade. Enquanto o carter emprico da causalidade 
liga aparncias com aparncias no mundo sensvel, o carter inteligvel baseia a srie de causas eficientes numa "lei da causalidade" que no est sujeita  causa 
eficiente (A 539/B 567). Esta ltima  transcendental, quer dizer, uma condio da extenso do pensamento que no pode ser ele prprio um objeto de pensamento. Com 
isso, Kant alinha os mundos sensvel e inteligvel com os mundos da natureza e da liberdade, os quais ele afirma que "podem existir simultaneamente, nas mesmas aes 
e sem qualquer conflito, conforme essas aes se refiram a uma causa inteligvel ou a uma causa sensvel" (A 541 /B 569). Em FMC, o mun- \ do inteligvel  identificado 
com o "mundo de seres racionais (mundus intelligibilis) como um reino de fins" (p.438, p.43) que  parcialmente habitado por seres humanos; ( eles no so, entretanto, 
"exclusivamente membros do mundo inteligvel", porquanto todas as suas aes ento "se harmonizam perfeitamente com o princpio da autonomia de uma vontade pura" 
(FMC p.54, p.453).
mundo sensvel ver MUNDO INTELIGVEL
N
nada ver tambm DETERMINAO; EXISTNCIA; LIMITAO; NEGAO; SER Em GN, Kant distingue entre o nada resultante de negao lgica, de acordo com o princpio de contradio, 
e o nada produzido por real oposio. O primeiro surge quando predicados contraditrios so afirmados do mesmo sujeito, como, por exemplo, um corpo "em movimento 
e tambm, exatamente no mesmo sentido, no em movimento". O primeiro nada  descrito como um "nada negativo que no pode ser representado" (GN p.171, p.211). No 
segundo nada, os dois predicados, tais como "a fora motriz de um corpo numa direo e uma igual tendncia do mesmo corpo numa direo oposta" (p. 172, p.211) no 
se contradizem logicamente mas anulam-se e resultam num nada re-presentvel ou estado de "repouso". Kant ilustra esta ltima forma de nada como a soma de nmeros 
positivos e negativos em que o cancelamento de predicados opostos produz a soma = 0. Essa noo de nada e o modelo de real negao que lhe  subjacente ressurgiram 
em CRP na noo de negao como determinao.
Em CRP, Kant inclui os dois conceitos de nada em sua tipologia do nada no final da "Anfibologia dos conceitos de reflexo". Os conceitos de reflexo so distines 
bsicas para a orientao do juzo categrico e, por meio de uma evidente reflexo posterior, Kant passa a considerar a distino mais fundamental que consiste em 
apurar se o objeto de juzo  "algo ou nada". Acompanha a distino entre algo e nada atravs da tbua de categorias, mostrando que o contrrio do objeto das categorias 
quantitativas de "tudo", "muitos" e "um"  "nenhum", um ens rationis ou "conceito vazio sem objeto" (CRP A 290/B 347). O contrrio do objeto em geral das categorias 
de qualidade  "nada" - nihil privativum - ou "um conceito da ausncia de um objeto". O contrrio do objeto em geral das categorias de relao  ausncia de substncia 
ou "a condio meramente formal de um objeto (como aparncia)", a saber, espao puro e tempo puro abstrados dos objetos neles como ens imaginarium. Por fim, o contrrio 
do objeto em geral das categorias de modalidade  um objeto que se contradiz logicamente a si prprio, ou o nihil negati-vum - o nada lgico examinado em GN. Kant 
observa que o ens rationis de quantidade no  possvel, porquanto  apenas uma fico, ainda que logicamente consistente; o nihil negativum de modalidade no  
possvel, uma vez que o conceito se suprime a si prprio. Isso deixa o nihil privativum de qualidade e o ens imaginarium de qualidade como negaes decisivas que, 
embora no sejam elas mesmas reais, so necessrias  determinao do real.

238            natureza
natureza ver tambm BELEZA; CONFORMIDADE A UM FIM; ESPAO; LIBERDADE;
MATRIA; MUNDO
Em P, Kant descreve a questo "como  possvel em geral a natureza?" como "o ponto mais alto que a filosofia transcendental pode alcanar e para o qual tambm deve 
ser conduzida como seu limite e perfeio" (36). Ele divide a questo em duas: como  possvel a natureza em sentido material e como ela  possvel no sentido/rwja/? 
No tocante  primeira questo, a respeito da possibilidade da natureza em seu sentido material como a "totalidade de aparncias", Kant responde que ela  possvel 
pela "constituio da nossa sensibilidade". Quanto  segunda questo, sobre a possibilidade da natureza no sentido formal "como a totalidade de regras sob as quais 
devem estar todas as aparncias a fim de serem pensadas como unidas numa experincia", isso s  possvel por meio da "constituio do nosso entendimento".
A distino entre natureza nos sentidos material e formal  desenvolvida na filosofia crtica nas duas definies de natureza propostas na CRP: uma sublinha o seu 
aspecto material como "um conjunto de aparncias" (A 114), a outra o seu aspecto formal na "ordem e regularidade das aparncias" (A 125). Entretanto, numa nota de 
pgina para a segunda edio da CRP, Kant considera dinmicas as definies material e formal da natureza: do ponto de vista formal, natureza "significa a conexo 
das determinaes de uma coisa de acordo com um princpio interno de causalidade"; do ponto de vista material,  a "soma de aparncias, na medida em que estas, graas 
a um princpio interno de causalidade, se encadeiam universalmente" (B 446). Alm dessas distines internas do conceito de natureza, Kant procede tambm a duas 
importantes distines externas na CRP. A primeira consiste na distino entre os conceitos de natureza e mundo: o mundo "significa o conjunto matemtico de todas 
as aparncias e a totalidade de sua sntese", ao, passo que a natureza  o mesmo mundo "considerado como um todo dinmico" (A 418/B 446). A segunda distino  entre 
as leis da natureza e as da liberdade, articuladas na terceira antinomia.
A distino entre natureza e liberdade informa a estabelecida entre a metafsica da; natureza na primeira crtica (CRP) e a da liberdade na segunda crtica (CRPr). 
Nesta lti-t-ma, a liberdade da vontade  oposta sistematicamente  necessidade da natureza, e o prc4 blema fundamental da filosofia prtica  apresentado como o 
de reconciliar as causalidades natural e livre. Num interessante desvio dessa abordagem em FMC, Kan usa o aspecto formal da natureza, ou "a existncia de coisas 
como determinadas por 1: universal", para enunciar o imperativo categrico que assim se expressa: "Age como se' mxima da tua ao se devesse tornar, pela tua vontade, 
lei universal da natureza"
(p.421,p.30).
O conceito de natureza  ubquo em CJ, onde se apresenta na Parte i como o objeto da beleza natural e do sublime, assim como oferece sugestes de uma harmonia su 
pra-sensvel de liberdade e necessidade. Na Parte II, a discusso  orientada para o rep'" dio das explicaes exclusivamente mecnicas da natureza, com a defesa 
do ponto d vista de que "a organizao da natureza nada tem de anlogo a qualquer causalidade no" sa conhecida" (CJ 65). A, a natureza  definida como o "poder 
formativo" cujos prod" tos so aqueles "no qual tudo  fim e, reciprocamente, tambm  meio" (66). O produtos desse poder formativo no podem ser entendidos atravs 
de princpios mecni cos nem "atribudos a um cego mecanismo da natureza" (ver 70). Com isso, Kant anM
necessidade           239
plia o aspecto dinmico da natureza, descrito em CRP em termos de foras e leis do movimento, a fim de englobar uma concepo da natureza como poder produtivo, dinmico 
ou formativo. Faltava pouco para Schelling substituir o sujeito cognoscente da CRP pela natureza formativa e assim transformar a filosofia de Kant do sujeito pela 
filosofia da natureza.
'necessidade [Notwendigkeit] ver tambm APODCTICO; CATEGORIAS; CAUSALIDADE; DEDUO; POSTULADOS DO PENSAMENTO EMPRICO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS; VALIDADE
Necessidade  a terceira categoria de modalidade, derivada do terceiro juzo modal ou apodctico, o qual corresponde ao terceiro postulado do pensamento emprico. 
Kant atribui ao juzo modal "uma funo muito peculiar", que consiste em determinar o "valor da cpula" numa proposio a respeito do "pensamento em geral" (CRP 
A 74/B 100). Uma proposio como "A  a causa de B"  passvel de ser entendida em termos problemticos como "talvez seja o caso de A ser a causa de B", ou em termos 
afirmativos como " o caso de A se# a causa de B", OU em termos apodcticos como "deve ser o caso de A ser a causa de B". A "funo peculiar" dos juzos modais tem 
considerveis implicaes para as categorias derivadas deles, em particular para a categoria de necessidade. Na tbua de categorias, os grupos modais no determinam 
um objeto - isso s pode ser realizado no que se refere  sua quantidade, qualidade e relao-mas prescrevem, de fato, o modo como os objetos podem ser categoricamente 
determinados, seja em termos de possibilidade, existncia ou necessidade. A categoria de necessidade , assim, particularmente significativa porque, a par da universalidade, 
determina o carter do conhecimento apriori.
A categoria de necessidade  particularmente problemtica no tocante  segunda categoria de relao, a saber, a relao de causa e efeito. Kant referiu-se em P ao 
desafio apresentado por Hume quando demonstrou "de maneira irrefutvel" que a razo no podia provar a necessria conexo de causa e efeito (prefcio). Kant respondeu-lhe 
provando que a categoria de causa e efeito no era derivada da experincia, mas uma condio a priori da experincia. Isso foi indicado por dois "critrios" de conhecimento 
apriori, a saber, "necessidade e rigorosa universalidade" (CRP B 4); em conseqncia, tinha de ser mostrada a validade universal e necessria da categoria de causa 
e efeito para que a experincia fosse considerada possvel. Esses critrios foram estendidos s outras categorias, assim como a qualquer juzo apriori puro, incluindo 
o juzo moral e esttico. Entretanto, como categoria, a necessidade deve demonstrar ser necessria, e isso pode ser realizado, afirma Kant, mostrando que "toda a 
necessidade tem sempre por fundamento uma condio transcendental" (CRP A 106). Essa condio  a "apercepo transcendental" ou a unificada, "pura, originria e 
imutvel conscincia" (A 107) que subscreve a organizao da experincia em termos de categorias.
Problemas com as relaes entre necessidade e causalidade j so manifestos na terceira autonomia da CRP, a qual ope as causalidades da natureza e da liberdade. 
A necessidade de causalidade natural parece subentender uma negao de liberdade, ou livre causalidade, o que tem srias implicaes para a filosofia prtica de 
Kant. A sua resoluo da antinomia consiste em distinguir entre a necessidade de causalidade natural e causalidade livre. A causalidade de liberdade tem sua prpria 
necessidade, a qual se torna evidente numa comparao dos imperativos prticos. Os imperativos hipotticos que re-

240            negao
sultam nas regras de habilidade e nos conselhos de prudncia possuem uma necessidade que diz respeito aos meios necessrios para se realizar determinados fins. O 
imperativo categrico, por outro lado, tem uma necessidade absoluta que decorre do carter incondicional da lei moral.
negao ver tambm DETERMINAO; LIMITAO; NADA
Em GN, Kant distingue entre dois sentidos de negao: privao e falta. O primeiro  a conseqncia de uma "oposio real" em que um "fundamento de postulao"  
oposto e cancelado por um outro fundamento, enquanto o segundo  a conseqncia da falta de uma base positiva (p.178, p.217). A considerao privativa da negao 
resulta de uma oposio real de dois fundamentos que se anulam mutuamente. A considerao da negao como falta resulta da negao lgica de acordo com o princpio 
de contradio, em que predicados opostos no podem estar presentes no mesmo sujeito. Em CRP, a considerao da negao lgica como sinalizao de falta permanece 
intata, ao passo que  negao privativa  dado um campo muito mais amplo de aplicao. Kant argumenta que os conceitos de negao so derivados da realidade, e 
parte da para chegar  concluso de que eles "no so outra coisa seno limitaes" da realidade. Ele infere da que a limitao deve estar "fundada sobre o ilimitado" 
ou o ideal de um ens realissimum (CRP A 575/B 603), querendo com isso dizer que a determinao de objetos limitados s pode ser alcanada por meio da negao de 
uma realidade ilimitada mas tambm incognoscvel.
nitidez ver CLAREZA
noo  ver CATEGORIAS; REPRESENTAO
noumenon ver tambm APARNCIA; ARQUTIPO; COISA-EM-SI-MESMA; FENMENO; MUNDO INTELIGVEL; SENSVEL; SENTIDO
Em Dl (3, 7) e P (32), Kant refere-se  distino entre fenmenos e noumena como uma das mais antigas e nobres realizaes da filosofia antiga. Em p,  evidente 
que est referindo-se  distino de Plato entre o mundo aparente dos fenmenos sensveis e o mundo inteligvel "real" das idias. Em Dl, Kant critica o "ilustre 
Wolff' por abolir essa distino ao propor um contnuo entre as idias claras do intelecto e as idias confusas da sensibilidade. Isso causou grande prejuzo  filosofia 
e Kant, por conseqncia, restabelece a distino; mas o seu restabelecimento est muito longe da distino clssica entre o mundo real das idias e o mundo fenomenal 
da sensibilidade.
A caracterstica mais saliente dos noumena  que no so objetos de intuio mas problemas "inevitavelmente vinculados  limitao da nossa sensibilidade", a saber, 
"se no haver objetos" para "uma intuio e um entendimento totalmente diferentes dos nossos" (CRP A 287/B 344). Essa questo - e seu corolrio sobre se pode existir 
uma soma total de noumena ou um mundo inteligvel -  declarada por Kant um problema incapaz de soluo, seja por prova ou por refutao. A essa luz, Kant descreve 
em linhas gerais os usos legtimos e ilegtimos de noumena.
O uso ilegtimo fundamental de noumena consiste em atribuir-lhes objetividade, passar de "um modo de determinar o objeto apenas pelo pensamento - uma forma meramente 
lgica sem contedo" para "o que nos parece ser um modo de existncia do objeto em si (noumenon) independentemente da intuio" (CRP A 289/B 345). Kant
nmero            241
identifica duas formas de objetivao ilegtima ou "uso positivo" dos noumena em razo terica. A primeira  o uso transcendente dos conceitos puros do entendimento, 
tais como substncia, poder, ao, realidade, causalidade, como se fossem eles prprios noumena (P 45) ou, pelo menos, aplicveis a noumena (p 33). So essas as 
idias transcendentais de Deus, mundo e alma analisadas na "Dialtica transcendental" da CRP.
Na razo terica, pode ser permitido aos noumena um uso negativo em que lhes  concedido o ttulo de "um algo desconhecido" (CRP A 256/B 311) OU serem usados para 
"delimitar as fronteiras do nosso conhecimento sensvel e deixar livre um espao que no podemos preencher, nem pela experincia possvel, nem pelo entendimento 
puro" (A 289/B 345). Seu principal uso negativo consiste em lembrar-nos a existncia de limites para as categorias e que estas no so aplicadas apropriadamente 
a objetos no sensveis (A 287/B 343), embora assegurando, porm, que "sobeja lugar para muitos outros objetos diferentes; e, por conseguinte, que estes ltimos 
no devem ser negados, em absoluto" (A 288/B 344). Esta ltima ressalva deixa em aberto a opo de conceber os objetos noumenais ou as extenses dos conceitos de 
entendimento para alm da intuio, uma opo que Kant adota na noo de causa noumenal empregada na soluo de antinomias. H causalidade em seu "carter emprico" 
restrito a aparncias, e causalidade em seu carter inteligvel - causa noumenon - de liberdade: o mesmo sujeito pode ser determinado num aspecto mas livre no outro 
(ver VPM p.291, p.l 18-19). Essa aplicao noumenal da categoria de causalidade e o objeto noumenal de liberdade marcam um ponto de transio entre as filosofias 
terica e prtica de Kant. Na CRPr, Kant reitera que embora ao conhecimento positivo de noumena fosse negada razo terica, ele tinha, no obstante, mostrado "a 
possibilidade - com efeito, a necessidade - de pens-los" a respeito, em particular, da liberdade. Acrescenta que, por razo prtica, a "lei moral"  inexplicvel 
em termos tericos mas aponta para "um mundo inteligvel puro" e, alm disso, "define-o positivamente e habilita-nos a conhecer algo dele, a saber, uma lei" (CRPr 
p.43, p.44).
nmero ver MATEMTICA

o
objetivo ver SUBJETIVO
objeto [Ding, Objekt, Gegenstand] ver tambm APARNCIA; COISA-EM-SI-MESMA; EXISTNCIA; NADA; OBJETO E SUJEITO TRANSCENDENTAIS; SER
O conceito de Kant de um objeto  extremamente sutil, embora suas nuanas com freqncia se percam na traduo indiscriminada e assistemtica dos seus termos Ding, 
Gegenstand e Objekt. No nvel mais geral de sua prtica filosfica, Kant acompanha a .j distino no direito romano entre pessoas e coisas (ver Justiniano, Institutos, 
Livros 1 e . 2). Uma pessoa " um sujeito cujas aes podem ser-lhe imputadas", ao passo que uma coisa  aquilo "a que nada pode ser imputado"; a primeira  especificada 
como um sujeito na posse de liberdade e espontaneidade, apto a agir de acordo com princpios, enquanto a segunda  desprovida de liberdade e espontaneidade. Um ser 
humano agindo em , resposta a inclinaes  uma coisa, tal como o  quem seja usado simplesmente como um ' meio para os fins de outrem.
A coisa distingue-se da pessoa em funo de sua passividade e falta de ao auto- :, noma e livre, e essas so caractersticas que determinam, de um modo geral, 
o carter da coisa ou objeto na filosofia terica. Entretanto, embora a coisa seja predominantemente passiva na descrio de Kant de experincia, ele tem o cuidado 
de distinguir entre as v-, rias maneiras como coisas e objetos se opem  sntese espontnea do entendimento hu-; mano. Esses diferentes modos de coisidade podem 
ser identificados pelas diferentes t palavras alems que Kant usa para eles - Ding, Gegenstand, Objekt - e os contextos em que se apresentam.
Ding  o termo que Kant emprega com menos freqncia na filosofia crtica, um fato que pode ser explicado por sua tentativa de distinguir a filosofia crtica da 
metafsica dogmtica da escola wolffiana. O termo Ding foi usado por Wolff e sua escola para de-f terminar a coisidade metafsica; designa tudo o que  possvel, 
mesmo que no seja real.. Os wolffianos raramente usaram, se  que o fizeram alguma vez, os termos Objekt e Ge-:^ genstand, que eram preferidos por Kant. Assim, 
na CRP, Ding apresenta-se em contextos relacionados com a coisidade metafsica, como na discusso da afirmao e negao, transcendentais (A 574/B 603). Kant argumenta 
a, em primeiro lugar, que a afirmao, transcendental estabelece a realidade, e que s atravs dela pode considerar-se que os ob-, jetos possuem coisidade, ou que 
"Gegenstnde etwas (Dinge) sind". A afirmao transcendental estabelece tambm a possibilidade de negao, uma vez que "todos os
objeto            243
conceitos de negaes so derivativos" (A 575/B 603) e, o que  mais, a possibilidade de toda a limitao, dado que Kant considera a limitao como uma forma de 
negao. Assim, argumenta que precisamos de um sentido geral ou "ideal" de coisidade em geral ou omnitudo realitas, a fim de perceber objetos determinados, limitados. 
Ele d ao conceito dessa coisidade indeterminada o nome de "coisa-em-si-mesma", usando a expresso Ding an sich como oposta a Gegenstand ou Objekt an sich.
Kant sublinha a distino entre Ding e Gegenstand nos postulados do pensamento emprico. A distingue entre o conhecimento de uma determinada existncia (Dasein), 
a qual s pode ser conhecida como aparncia ou "a existncia de efeitos resultantes de causas dadas de acordo com as leis da causalidade" (CRP A 227/B 279) e a "existncia 
indeterminada de coisas (substncias) [Dasein der Dinge (Substanzen)] (A 227/B 279) que no podem ser conhecidas. Uma vez mais, Ding  sinnimo de substncia metafsica 
e  distinto das "condies (de coisas)... que s podemos conhecer a partir de outras condies dadas na percepo, segundo as leis empricas da causalidade" (A 
227/B 280). Com estas ltimas, o foco de Kant sobre o conceito da coisa ou objeto transfere-se de Ding para Gegenstand e Objekt.
A distino de Kant entre Gegenstand e Objekt  crucial para a sua filosofia transcendental, embora nunca tenha sido explicitamente tematizada e totalmente obliterada 
na traduo de Kemp Smith da CRP. Envolve a assero axiomtica de que "as condies de possibilidade de experincia em geral so, ao mesmo tempo, condies de possibilidade 
de objetos [Gegenstnde] da experincia" (CRP A 158/B 197), e o relacionamento complexo que isso ocasiona entre conceito e intuio. Gegenstnde so objetos da experincia 
ou aparncias compatveis com os limites do entendimento e da intuio; podem ser aparncias em intuio sem "estar relacionadas com as funes do entendimento" 
(A 89/B 122), ou "objetos da conscincia" que "no se distinguem de sua apreenso" (A 190/B 235). Quando objetos [Gegenstnde] da experincia convertem-se em objetos 
para o conhecimento, eles tornam-se Objekte. O conhecimento do entendimento "consiste na relao determinada de representaes dadas a um objeto [Objekt]", sendo 
o Objekt descrito como "aquilo em cujo conceito est reunido o mltiplo de uma intuio dada" (B 137). A "intuio dada" ou Gegenstand , pois, convertida num Objekt 
sob a condio da unidade da apercepo.
As vrias explicaes de Kant do objeto podem, correndo o risco de subestimar suas diferenas internas, ser organizadas em termos de uma descrio coerente do objeto. 
Um Objekt especfico do conhecimento cognoscvel atravs de conceitos do entendimento necessita de um objeto da experincia ou Gegenstand. A existncia de tais objetos, 
por sua vez, requer que exista algo em vez de nada; este ltimo algo ou coisidade-Ding-  in-cognoscvel, mas discutido em termos do metafsico Ding an sich ou substncia. 
Essa leitura kantiana do objeto sublinha a afinidade da CRP com a tradio ontolgica a que Kant aludiu em CRP A 247/B 303. Como ele observou em MC, "os professores 
de ontologia" principiam com conceitos de "algo e nada" mas esquecem que essa distino j constitui uma diviso do conceito de "objeto em geral" (p.218, p.46). 
Assim, ele comea com o objeto em geral ou Ding, o qual  dividido em "algo" e "nada" por afirmao e negao transcendentais. Depois, Ding  ainda especificado 
como um objeto da experincia - Gegenstand- e, finalmente, como um objeto para o conhecimento - Objekt-, produzindo assim uma verso criticamente revista da ontologia 
tradicional.

244            objeto e sujeito transcendentais
objeto e sujeito transcendentais ver tambm COISA-EM-SI-MESMA; EU; INTENO; MLTIPLO; NOUMENON; OBJETO; RECEPTIVIDADE; SUJEITO; UNIDADE O objeto transcendental 
foi uma conseqncia terica do fato de Kant confinar a intuio humana  receptividade de aparncias e de sua convico de que no pode haver "aparncia sem haver 
algo que aparea" (CRP B xxvii). O objeto transcendental  postulado como aquilo que "aparece" ou o correlato para receptividade. Quando discute o objeto transcendental, 
Kant suspende as suas usuais distines entre Objekt e Gegenstand e at usa, ocasionalmente, "coisa" (Ding). Isso  uma conseqncia da incognoscibilidade do objeto 
transcendental, uma propriedade que ele comparte com o noumenon e a coi-sa-em-si-mesma; tal como estes, pode ser pensado de acordo com o princpio de contradio, 
mas no pode ser conhecido como um objeto da experincia. De fato, em algumas ocasies, principalmente na primeira edio da CRP, Kant usa as palavras noumenon e 
coisa-em-si-mesma como sinnimos de objeto transcendental (A 366, A 358, A 614/B 642). Mas embora todos os trs termos compartilhem da qualidade de serem pensveis 
mas no objetos da experincia, o objeto transcendental  especificamente o correlato inteligvel de aparncias sensveis. Kant admite sem entusiasmo que podemos 
dar  nome de "objeto transcendental  causa puramente inteligvel das aparncias em geral", com a restrio adicional: "mas s para termos algo que corresponda 
 sensibilidade considerada como uma receptividade" (A 494/B 522). Trata-se simplesmente, como foi observado antes em CRP, de uma funo do requisito de que as aparncias 
devem, como representaes, representar algo que  designado por "objeto no emprico, isto , transcendental = ' X" (A 109).                                    
)
Num certo nmero de ocasies em CRP, Kant parece apontar algo situado alm dos '" requisitos meramente funcionais do objeto transcendental como correlato de aparncias.; 
So os momentos em que o objeto transcendental se converte, por metamorfose, em suV-jeito transcendental. O elo de transio  a unidade que identifica um mltiplo 
de intuio. Em A 6 13/B 641, Kant no se limita  descrio do objeto transcendental que "serve de fundamento s aparncias" e que, portanto, " para ns indecifrvel", 
para ir mais alm e dizer que essa  a razo "pela qual a nossa sensibilidade est submetida a certas, condies supremas e no a outras". Isso pode ser colocado 
a par de seu comentrio anterj rior no sentido de que o objeto transcendental "apenas exprime o pensamento de um ob< jeto em geral, de acordo com diferentes modos 
[de intuio]" (A 247/B 304). Kant n&i quer dizer com isso que o objeto transcendental determina o nosso modo espa-> o-temporal de intuio, mas que ele oferece 
"a unidade do pensamento de um mltiplo em geral", independentemente do modo de intuio. Essa unidade, entretanto, converte-se ulteriormente na propriedade do "sujeito 
transcendental" ou "um algo em geral"t significado pela expresso "eu" que forma o veculo para toda e qualquer experincia.: Fornece a condio mais fundamental 
da experincia, a qual consiste na capacidade de< unidade das diversidades de intuio.
obrigao [Verbindlichkeit] ver tambm DEVER; DEVER-SER; IMPERATIVO; IMPERATV VO CATEGRICO; JURISPRUDNCIA; LEI; MANDAMENTO                                     
;
Em FMC, Kant define obrigao como a "dependncia de uma vontade que no  absolu* tamente boa do ponto de vista do princpio de autonomia" e especifica como dever 
"a necessidade objetiva de uma ao determinada por uma obrigao" (p.439, p.44). Aqui, a
ontologia             245
obrigao denota a condio dependente da vontade, ao passo que dever se refere  necessidade de agir de acordo com a obrigao. Isto  confirmado porCRPr, onde 
obrigao  definida como a dependncia geral da vontade humana da lei moral e dever como "a coero a uma ao que  decorrente dela" (p.32, p.32). Em MC, Kant 
sustenta essa noo geral de obrigao e dever, a par de uma ampliao do conceito de obrigao a fim de incluir direitos. Com respeito  definio mais ampla, obrigao 
apresenta-se como "a ne-. cessidade geral de uma ao livre sob a gide de um imperativo categrico", ao passo que dever  "aquela ao  qual algum est obrigado". 
Kant conclui da que, embora haja somente um dever para desempenhar uma ao, existem numerosas formas possveis de obrigao (MC p.222, p.49), mas esse dever e 
essa obrigao no podem entrar em conflito, porquanto ambos so necessrios (p.224, p.50). A obrigao informa no s o dever mas tambm os direitos, dado que estes 
ltimos sero explicados por Kant em funo "da capacidade de colocar outros sob obrigao" (p.239, p.64).
O exame por Kant das relaes entre obrigao e direitos  formulado predominantemente em termos de direito privado, ou obrigaes recprocas dos indivduos, e raras 
vezes remete-se  obrigao poltica. Menciona esta ltima em MC quando discute a obrigao do chefe de estado para com as leis do organismo soberano, mas isso , 
em grande parte, um comentrio marginal (p.317, p.128). A razo para essa nfase sobre a obrigao privada em vez da poltica pode ser obtida na leitura do comentrio 
crtico de Kant ao livro do wolffiano Hufeland, Grundsatz des Naturrechts ("Princpio do direito natural"), de 1786. Kant critica Hufeland por preferir,  maneira*wolffiana, 
o princpio de aperfeioamento dos seres humanos, se necessrio pela fora, em vez do respeito a direitos e obrigaes derivados da forma de livre arbtrio. Kant, 
portanto, desejou basear a obrigao poltica nos direitos dos indivduos uns contra os outros e, por extenso, contra o estado, e derivar esses direitos de uma 
obrigao fundamental de obedincia  lei moral. Com esse argumento, ele abalou a posio wolffiana, a qual derivava os direitos e obrigaes individuais da obrigao 
fundamental do estado de promover o bem-estar geral.
ontologia Neologismo criado no sculo XVII, foi usado no incio para descrever a "metafsica geral" que precedeu a "metafsica especial" da cosmologia, psicologia 
e teologia. Dizia respeito, nas palavras de Wolff (1719), aos "Primeiros princpios do conhecimento e das coisas em geral" e preparou o terreno para o conhecimento 
de coisas tais como o mundo, a alma e Deus. Para Baumgarten, em sua influente Metaphysica (1739) wolffiana, a ontologia era a "cincia dos predicados das coisas 
em geral" (4). Durante a maior parte de sua vida professoral, Kant lecionou de acordo com o texto de Baumgarten, se bem que, para fins didticos, no seguisse a 
ordem de exposio desse autor, a qual comea com a ontologia (que constitui a parte mais preponderante da metafsica de Baumgarten). Conforme Kant explicou cm Anncio 
da Organizao de suas Lies ... para 1765-66, suas aulas sobre metafsica comeam com a psicologia emprica, passam depois a tratar de cosmologia e s ento chegam 
 ontologia e, por fim,  psicologia racional e teologia (p.309, p.295).
O interesse pela ontologia nas lies de metafsica assegurou um lugar de destaque para as preocupaes ontolgicas na agenda crtica de Kant. Com efeito, a arquitetura 
da CRP segue criticamente de perto a da metafsica wolffiana, com as trs sees de metafsica especial examinadas na "Dialtica transcendental" e a ontologia na 
"Analtica trans-

246            opinio
cendental". Kant refere-se explicitamente  substituio do "orgulhoso nome de ontologia, que se arroga a pretenso de oferecer, em forma de doutrina sistemtica, 
conhecimentos sintticos apriori das coisas em si" (CRP A 247/B 303) pelo mais modesto nome de "mera analtica do entendimento". Ele quis dizer com isso que os princpios 
da analtica transcendental so "meramente regras para a exposio de aparncias" e no se ocupam das coisas em geral mas to-s dos objetos da experincia. Em escritos 
subseqentes, Kant referiu-se simplesmente  analtica transcendental como ontologia; assim, em VPM, a ontologia  descrita como "a cincia que compreende um sistema 
de todos os conceitos e princpios do entendimento, mas somente na medida em que abrangem objetos dados pelos sentidos e podem ser, portanto, justificados pela experincia" 
(VPM p.260, p.53) ou que contm "os elementos de um conhecimento humano apriori, conceitos e princpios fundamentais" (p.315, p.161).
Os fundamentos ontolgicos da "Analtica transcendental" da CRP foram redesco- \_ bertos no sculo xx por pensadores alemes da estirpe de Heimsoeth (1956) e Heidegger 
(1929). Suas obras recuperaram aspectos do pensamento de Kant que se haviam perdido ; sob as interpretaes epistemolgicas dos neokantianos em fins do sculo XIX. 
Um exemplo so as mltiplas maneiras como Kant falou da "coisa" ou objeto. Suas distin- -es entre Ding, Objekt e Gegenstand perderam-se nas leituras epistemolgicas 
dos neokantianos, e tambm so quase imperceptveis numa traduo neokantiana como a de, Kemp Smith. Puderam ser reconhecidas e receber sua significao apropriada 
em ver-; soes sensveis aos antecedentes ontolgicos da filosofia critica. As interpretaes onto-; lgicas de Kant aumentaram o reconhecimento do lugar que ele 
ocupa na histria da" filosofia, assim como aprofundaram o nosso entendimento das relaes entre as vrii partes de sua filosofia.
opinio [doxa, opinio, Meinung] ver tambm ASSENTIMENTO; CONHECIMENTO; F; ILUSO; VERDADE
Classicamente, opinio ope-se a verdade e est situada dentro de uma srie adicional d oposies, como devir-ser [becoming-being], conhecimento-sensao. Em Parmenide 
opinio (doxa) est confinada  sensao (aisthesis) do domnio do devir, ao passo que saber (noesis) refere-se ao conhecimento do domnio imutvel do ser. Na Repblic 
Plato desenvolve uma diviso internamente mais articulada que situa a opinio entre conhecimento da idia verdadeira e a ignorncia do irreal (Plato, 1961, Rep. 
478] Embora a opinio permanea confinada s coisas sensveis, tambm  dito que inclui saber comum. Mais adiante na Repblica, Plato divide ainda a opinio em 
"crena" "pensamento pictrico", sublinhando as relaes entre opinio, iluso e saber comum" Em muitas ocasies, Kant mantm a oposio entre opinio e verdade, 
como : Prefcio de CRP, onde distingue entre opinio e certeza. Entretanto,  de uma absolu coerncia quando, em CRP (A 822/B 850 e ss.), CJ (91) e L (pp.570-6), 
adota implici mente o esquema tripartido de Plato ao contrastar opinio com verdade e crena co: uma das trs formas em que pode sustentar-se um juzo como verdadeiro 
(Frwahrh-ten). As trs formas so distinguidas de acordo com o grau de convico, o qual , p sua vez, dividido em termos de "suficincia subjetiva" ou "convico 
(para mim pr prio)" e "suficincia objetiva" ou "certeza (para todos)" (CRP A 822/B 850). Saber ou t mar um juzo por verdadeiro  subjetiva e objetivamente suficiente; 
um juzo de crena
Opus postumum            247
considerado subjetivamente suficiente mas objetivamente insuficiente, enquanto um juzo de opinio  insuficiente, tanto objetiva quanto subjetivamente.
Em CJ, a distino tripartida estende-se aos trs objetos de juzo: matrias de fato, crena e opinio. As matrias de fato "respondem a concepes cuja realidade 
objetiva pode ser provada", as matrias de crena s que podem ser "pensadas apriori" mas "cuja realidade objetiva no pode ser provada de maneira nenhuma", como 
a existncia de . Deus ou o summum bonum (sumo bem), ao passo que as matrias de opinio so aqueles "objetos pertencentes ao mundo sensvel mas dos quais  impossvel 
um conhecimento emprico para ns, por causa do grau de conhecimento emprico que possumos ser o que " (CJ 91). Os exemplos de Kant de objetos opinveis so o 
"ter" e a "vida extraterrestre", e apontam para uma diferena crucial entre o entendimento clssico de opinio e o dele. Para Kant, a opinio, na medida em que 
est limitada  experincia sensvel, no , portanto, ilusria; ela , pelo contrrio, provvel mas, como conhecimento, ainda  insuficientemente convincente ou 
certa (CRP A 775/B 803). O status provisrio dos juzos de opinio  confirmado em L, onde Kant distingue as trs formas de assentimento em funo das modalidades 
prprias de seus respectivos juzos: certos juzos de fato so apo-dcticos, os juzos convincentes de crena so assertricos, ao passo que os juzos de opinio 
so problemticos. A opinio  um "juzo preliminar", "uma conscincia vaga de verdade" de que no podemos prescindir quando formulamos juzos;  "aquilo que considero 
ser problemtico na conscincia do meu juzo" (L 570-6).
oposio  ver CONCEITOS DE REFLEXO
Opus postumum Este ttulo foi dado aos manuscritos sobreviventes de uma incompleta obra em curso que data da dcada de 1790. Em cartas para Christian Garve e J.G.C.C. 
Kiesewetter, de 21 de setembro e 19 de outubro de 1798, respectivamente, Kant descreve seus esforos para produzir uma obra que liquidar "a conta por pagar de minha 
filosofia inacabada", preenchendo a "lacuna" que "subsiste na filosofia crtica" (CFI p.251-2). D a esse projeto o ttulo operacional de " Transio dos fundamentos 
metafsicos da cincia natural para a fsica", mas o estado de sua concentrao mental e sade nos anos finais de sua vida impediram-no de ver a obra no prelo. Aps 
uma controvertida histria editorial, foi publicada em 1882 uma primeira e imperfeita verso do manuscrito, sendo editada em 1993 a primeira traduo inglesa (incompleta), 
quase dois sculos depois de ter sido escrita.
O contedo de OP desafiou muitas idias recebidas acerca da filosofia crtica, sobretudo a afirmao de que ela estava concluda com a publicao da terceira crtica 
(CJ). A obra tambm desafia o saber convencional a respeito da ruptura entre as fases crtica e pr-crtica na autoria de Kant, pois nela muitos temas pr-crticos, 
em particular o de posicionamento, voltaram a ter um lugar destacado. Em termos gerais, o contedo de OP passa de um certo nmero de reflexes sobre os problemas 
de fora atrativa e repulsiva para uma redefinio do sujeito que se posiciona a si mesmo e, finalmente, para uma reafirmao do prprio sistema de filosofia transcendental.
A primeira srie de problemas discutidos em OP diz respeito  transio da cincia da natureza considerada sistematicamente como "o movvel no espao (matria) sob 
as teis do movimento, de acordo com conceitos apriori" (OP p.524, p.36) em PM para a "f-

248            organon
sica" ou natureza considerada de acordo com "princpios empricos". A transio dos fundamentos metafsicos da cincia natural para a fsica requer um certo nmero 
de "conceitos intermdios" (p.476, p.40) que especificam empiricamente a operao das foras de atrao e repulso. Entretanto, a busca desses conceitos obrigou 
Kant a reconsiderar temas bsicos tais como espao, tempo, movimento e livre arbtrio e, na esteira desses, a reexaminar tambm a natureza do sujeito pensante e 
voluntarioso. A discusso renovada do sujeito levou Kant a reapresentar os temas pr-crticos de posicionamento e auto-afeco, e a avanar destes para um reexame 
do lugar da humanidade entre Deus e o mundo. Assim, do interesse em identificar os "conceitos intermdios" de uma transio de PM para a fsica, o manuscrito passa 
a reavaliar a extenso e o significado da filosofia transcendental. Por conseguinte, Kant observa que as transies em jogo no so apenas as de PM para a fsica, 
mas tambm da "fsica para a filosofia transcendental" e da filosofia transcendental para o sistema de natureza e liberdade"; essas transies so concludas na 
"conexo universal das foras vivas de todas as coisas em relao recproca: Deus e o mundo" (p.18, p.224).
Quando interpretados do ponto de vista de OP, o desenvolvimento e o resultado final da filosofia de Kant so vistos sob uma luz estranha e, para alguns, perturbadora. 
Talvez por essa razo o derradeiro manuscrito tenha sido considerado mais como fruto da senilidade de Kant do que como um legtimo desenvolvimento e aprofundamento 
da filosofia critica. Existem certamente muito poucas leituras da palavra de Kant que tomem, como ponto de partida o OP (com exceo de Lehmann, 1969), o que  lamentvel, 
uma  vez que o texto pode potencialmente esclarecer muitas das lacunas e pontos de continuidade no s entre a filosofia crtica e pr-crtica mas tambm entre 
a filosofia crtica e suas sucessoras.
organon ver CNONE
orientao ver tambm CNONE; CONCEITOS DE REFLEXO; CONTRAPARTIDA INCON-J
ORUENTE; JUZO; SENTIDO COMUM/SENSO COMUM                                                           :'
Os escritos de Kant esto repletos de metforas de orientao extradas da navegao " da cartografia, mas o conceito significa para ele muito mais do que uma conveniente 
ffe gura de retrica. Se a filosofia crtica  lida como um cnone epicurista para distin entre juzos tericos, morais e estticos corretos e incorretos, ento 
toda a filosofia Kant pode ser interpretada como um exerccio na orientao do juzo. A noo de ori tao  utilizada em filosofia terica para pronunciar um juzo 
acerca do uso especula vo da razo no tocante ao supra-sensvel. Em L, a orientao  descrita como o uso sensus communis como "pedra de toque para descobrir os 
equvocos do uso artificial entendimento" (L p.563). No ensaio "O que significa orientar-se no pensamento (1786), Kant traa uma analogia entre a orientao no espao 
por meio da diferena s tida entre esquerda e direita e a orientao no domnio supra-sensvel pelo "sentime de uma necessidade que  inerente  prpria razo" (SOP 
p. 136, p.240).  possvel ser or' entado no pensamento pela necessidade de razo mediante o reconhecimento do "fun'_ mento subjetivo para pressupor e aceitar algo 
que a razo no pode permitir-se conhec em bases objetivas" (p. 137, p.240-1). Essa orientao reconhece o valor das idias da r zo como princpios regulativos, 
embora negando que correspondam a objetos. Ain
otimismo             249
que Kant se concentre nesse ensaio nas relaes entre as necessidades de razo e os conceitos de entendimento, a noo de orientao  tambm central para as relaes 
entre sensibilidade e entendimento que so determinadas pelo "tpico transcendental" discutido em "Conceitos da razo pura" na CRP. Tambm  evidente na explicao 
sobre o modo de comprovar mximas no que se refere  sua adequao como princpios de ao moral na filosofia prtica.
origem [Ursprung] ver tambm APERCEPO; AQUISIO; ESPONTANEIDADE; "EU PENSO"; GNIO; MAL; PURO
Kant define origem em RL como "a derivao de um efeito de uma primeira causa" e distingue entre origem na razo e origem no tempo. A primeira trata da mera existncia 
de um efeito, a segunda de sua ocorrncia "como um evento [relacionado] com sua primeira causa no tempo" (RL p.39, p.35). Na base dessa distino Kant separa a origem 
racional do mal na liberdade humana da origem temporal de atos malvolos. Em CPR, Kant usa a noo de origem racional para distinguir a "apercepo original" (ursprunglich) 
ou seu sinnimo "apercepo pura" da "apercepo emprica". A "unidade sinttica original da apercepo"  produzida num ato de espontaneidade ou "eu penso", o qual, 
embora "deva ser capaz de acompanhar todas as outras representaes... no pode ser ele prprio acompanhado por nenhuma outra representao" (CRP B 132). O "eu penso" 
 uma "origem racional" ou um efeito que acompanha toda a experincia, mas aquele cuja causa no pode ser localizada em termos de experincia. Assim, a origem serve 
como um importante elo entre a nfase sobre a espontaneidade que informa a descrio da experincia na filosofia terica e a nfase sobre a liberdade e a autonomia 
na filosofia prtica. Foi como tal que se tornou proeminente no neokantismo de Marburgo, em fins do sculo xix, sobretudo nas influentes interpretaes de Kant por 
Hermann Cohen (1871,1902).
originalidade ver GNIO; IMAGINAO; IMITAO otimismo ver ESPERANA; HISTRIA; TEODICIA

p
paixo [Leidenschaft] ver tambm AFETO; INCLINAO; LIBERDADE; MAL; SEXO Kant descreve as paixes como as incurveis "chagas cancerosas para a razo prtica pura", 
as quais "pressupem uma mxima do sujeito, a saber, agir de acordo com uma finalidade prescrita... pela inclinao" (A  181). Em RL e A, apresenta uma genealogia 
dos afetos, a qual descreve como nasceram as paixes. Ele comea com a propenso (Hang) para um determinado deleite impelido por instinto (RL p.28, p.24), a qual 
"precede a representao do seu objeto" (A 80); quando se cede  propenso, esta "desperta no sujei- ] to uma inclinao para ela" (RL p.28, p.24). A paixo sucede 
ao desenvolvimento de uma -| inclinao como renncia do sujeito ao "domnio sobre si mesmo" (ibid.) e elevao do 1 objeto de inclinao ao status de objeto de 
uma mxima da vontade. As paixes distin-1 guem-se, portanto, dos afetos, os quais so rapidamente estimulados e consumidos, uma: vez que elas consistem em "inclinaes 
duradouras" sobre as quais o esprito formou; princpios. Quando o objeto de uma paixo  contrrio  lei, a adoo dela numa mxima: para a vontade  malvola e 
resulta em vcio. Kant distingue, ainda em A, entre paixes, inatas de "inclinao natural" e paixes adquiridas, "resultantes da cultura da espcie hu-( mana". 
A primeira variedade inclui as "paixes candentes" por liberdade e sexo, en* quanto a segunda inclui tais "paixes frias" como a ambio, a sede de poder e a avareza.' 
(A 81).
paralogismo ver tambm NIMO; "EU PENSO"; IDENTIDADE; INFERNCIA; PESSOA} PSICOLOGIA; SUJEITO                                                                    
!
Na Potica, Aristteles definiu o paralogismo como o processo de inferir falsamente a ver" dade de um antecedente a partir da verdade de uma premissa conseqente: 
"Sempre qiM uma coisa A  ou acontece, uma coisa conseqente B tambm  ou acontece, o que induz oi homens a pensar que, se B , ento A tambm -mas essa  uma 
falsa concluso" (Arist"1 teles, 1941,1460a, 21). Kant amplia isso para definir um paralogismo lgico, o qual "coo' siste na falsidade de um raciocnio quanto  
forma, seja qual for o seu contedo", e ufl! paralogismo transcendental, que  aquele que "tem um fundamento transcendental, indU" zindo-nos a estabelecer uma concluso 
formalmente invlida" (CRP A 341/B 399). Os para-logismos psicolgicos da dialtica transcendental exemplificam o segundo. Neles, Karf mostra como o fundamento transcendental 
do pensamento, o "Eu penso" (o B conseqent de Aristteles),  a base para ilaes a respeito da substancialidade, simplicidade, identida* de e relaes da alma 
ou substncia pensante (o "A antecedente"). Kant argumenta que i
pensar            251
ilao da condio formal de pensamento para uma substncia de pensamento  paralogs-tica e d origem s idias dialticas da psicologia racional.
parte  ver ANTINOMIA DA RAZO PURA; CONTINUIDADE; DIVISIBILIDADE; MNADA; SIMPLICIDADE
paz [Friede] ver tambm ESCRITOS POLTICOS; FEDERAO DE ESTADOS; GUERRA Em MC, Kant descreveu a paz perptua como o "sumo bem poltico" e uma idia de razo prtica 
em relao  qual "devemos agir como se fosse algo real, embora talvez no o seja" (MC p.354, p. 160).  definida em MC e PP como um "fim de hostilidades", quer 
entre seres humanos no estado de natureza ou entre naes num estado de guerra. Embora tenha de ser obtida "por reforma gradual de acordo com princpios firmes" 
(MC p.355, p. 161), tambm , nas palavras de PP, "garantida nada menos do que pela grande artista que  a prpria Natureza" (PP p.360, p. 108), a qual  revelada 
no plano deliberado, seja do destino ou da providncia, "de produzir a concrdia entre os homens, mesmo contra a vontade deles e, na verdade, por intermdio de sua 
prpria discrdia" (ibid.). Em PP, Kant apresenta os "princpios firmes" que tem em mente na forma de um tratado com duas sees e um apndice. Na primeira seo, 
apresenta os "artigos preliminares" de uma paz perptua entre estados sob a forma de leis proibitivas. Estas previam a excluso de clusulas secretas em tratados 
entre estados para guerras futuras, a proibio da aquisio por quaisquer meios de um estado por um outro, a gradual abolio de exrcitos re-gulares, a proibio 
de elevar a dvida nacional para os fins de conflitos externos, no-interferncia e respeito s leis da guerra. Na segunda seo de artigos definitivos, Kant estipula 
que todos os estados sero republicanos, que o direito das naes ser baseado numa federao de estados livres, e que o direito cosmopolita ser limitado s condies 
de hospitalidade universal.
pecado original ver DEUS; LIBERDADE; MAL; TEOLOGIA
pensar [Denken] ver tambm ASSENTIMENTO; CONHECIMENTO; "EU PENSO"; JUZO; SABER
Pensar {Denken)  distinto de saber (Wisseri) e conhecer (Erkenntnis), embora essas distines no sejam observadas em traduo, nem sejam uniformemente respeitadas 
por Kant. Pensar consiste em "unir representaes numa conscincia" - esta ltima uma descrio de juzo; "portanto, pensar  tanto quanto julgar" (P 22). Como 
tal,  uma atividade prpria do entendimento, pois "pela simples intuio nada  pensado" (CRP A 253/B 309). A unificao de representaes realizada em pensamento 
 baseada na espontnea e pura apercepo do "eu penso", a qual  tambm denominada a "unidade transcendental da autoconscincia", a qual indica "a possibilidade 
de conhecimento a priori a partir dela" (CRP B 132). Embora num ponto Kant afirme que "o pensar  conhecer atravs de conceitos" (CRP A 69/B 94), parecendo sugerir 
que o pensamento  uma forma de conhecimento, por outro lado faz sistematicamente a distino entre eles. Para conhecer um objeto "devo ser capaz de provar a sua 
possibilidade, seja pelo testemunho da experincia a partir de sua realidade, seja a priori pela razo. Mas posso pensar no que quiser, desde que no entre em contradio 
comigo mesmo" (CRP B xxvi). Assim,  possvel pensar coisas-em-si-mesmas mas no as conhecer, uma vez que, como Kant

252            percepo
"lembra" aos seus leitores, "as categorias no pensamento no so limitadas pelas condies da nossa intuio sensvel, mas tm um campo ilimitado" (CRP B 166). Tambm 
 possvel,  claro, que o pensamento seja compatvel com o conhecimento, como no caso de juzos apriori sintticos, onde "o pensamento  o ato de referir a um objeto 
uma intuio" (CRP A/B 304). Tal pensamento deve preencher as condies para a subsuno de in-tuies em conceitos e seus objetos esto, por conseguinte, restritos 
aos de uma experincia possvel.
percepo [Wahrnehmung] ver tambm ANTECIPAES DA PERCEPO; CONHECIMENTO; INTUIO; JUZO; PENSAMENTO
As percepes so diversamente descritas em CRP como aparncias "combinadas com uma conscincia" (A 120), "representaes acompanhadas de sensao" (B 147) e sensaes 
"das quais estamos conscientes" (A 225/B 272). So descritas como "intuies empricas" ou "aquilo que  imediatamente representado, pela sensao, como real no 
espao e no tempo" (B 147), assim como "conscincia emprica" ou "uma conscincia na qual a sensao ser encontrada" (A 166/B 207). Assim, as percepes tm participao 
tanto na sensao quanto na conscincia, uma ambigidade que assegura a possibilidade da experincia ao permitir que a distino entre conscincia e sensibilidade 
seja i observada e suspensa. Pois se as percepes fossem exclusivamente sensveis, ento no poderiam ser ordenadas pelas categorias; mas se fossem exclusivamente 
geradas pela  conscincia, nesse caso no poderiam relacionar-se com objetos dos sentidos. Em conse- , qncia, a percepo tambm se encontra numa relao complexa 
com as formas de in- f tuio, espao e tempo. Estas "residem em ns como formas de nossa intuio sensvel,) antes mesmo que qualquer objeto real, determinando 
o nosso sentido atravs da sensa-: o, tenha nos possibilitado representar o objeto sob essas relaes sensveis"; mas paraf que elas representem esse objeto, devem 
"pressupor, necessariamente, a percepo" (A; 373). Neste caso, muito embora sejam anteriores a um objeto, as formas de intuio pres- * supem, no obstante, a 
percepo ou "a realidade de algo no espao" (A 373).
perfeio [Vollkommenheit] Foi contra este conceito central na filosofia wolffiana qu Kant definiu muitas de suas posies caractersticas. Em sua metafsica (1719), 
Wolff definiu perfeio como a "harmonia de uma diversidade" ( 152), a qual pode ter sua origem num fundamento comum (153-6). Todo o sistema wolffiano foi organizado 
em torno do princpio de promoo da perfeio, quer da perfeio do conhecimento, da perfeio de si mesmo ou da perfeio social. Desde as primeiras etapas de 
sua carreira, Kant criticou esse princpio e, nas trs crticas, rejeita-o de maneira inequvoca como um" princpio de juzo. Em CRP, argumenta contra a perfeio 
do conhecimento com base na limitaes inerentes do saber humano em face de aparncias no espao e no tempo; e FMC e CRPr, rejeita a perfeio moral como princpio 
heternomo de juzo prtico; eii* quanto em CJ ope perfeio e o agradvel como princpios igualmente inadequado para o juzo esttico do gosto. Em seus ltimos 
escritos polticos, Kant rejeita tambm perfeio como princpio de juzo poltico, principalmente porque coloca os cidado sob a tutela do estado, conferindo-lhe 
o poder de decidir para os seus cidados o que s< melhor para promover seu bem-estar ou perfeio.
permanncia ver ANALOGIAS DA EXPERINCIA; IMORTALIDADE; SUBSTNCIA             I
posse            253
pessoa ver tambm HUMANIDADE; IDENTIDADE; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SUJEITO No terceiro paralogismo da personalidade em CRP, Kant define uma pessoa como "o que tem 
conscincia da identidade numrica de si prprio em tempos diferentes" (A 361). Argumenta ser falacioso inferir da unidade do sujeito pensante a existncia de uma 
personalidade que perdura atravs do tempo. Dentro dos limites da filosofia terica, somente a "personalidade psicolgica" pode legitimamente ser um objeto de conhecimento, 
a . saber, "a capacidade da pessoa para ter conscincia da prpria identidade em condies diferentes da sua existncia" (MC p.223, p.50). No obstante, o conceito 
da pessoa " necessrio e suficiente para o uso prtico" (CRP A 365). A, a personalidade  o terceiro e mais elevado dos "elementos no carter e destino fixos do 
homem", depois da animalidade e da humanidade.  uma predisposio para ser "um ente racional e, ao mesmo tempo, responsver (RL p.26, p.21). Um ser dotado de razo, 
argumenta Kant, no determinaria necessariamente a sua vontade mediante a mera representao para si mesmo da propriedade de suas mximas para serem leis morais. 
Entretanto, um ser responsvel e racional possui "respeito para com a lei moral, como um motivo para si suficiente do arbtrio " (RL p.27, p.23). Da premissa de 
responsabilidade decorrem duas conseqncias prticas: a primeira  o postulado prtico da imortalidade da alma (CRPr p. 123, p. 127), a segunda  que "uma pessoa 
no est sujeita a quaisquer outras leis alm daquelas que a si mesma impe" (MC p.223, p.50). Assim, para que uma pessoa seja propriamente responsvel, elas devem 
ser postuladas como imortais e autnomas.
poder [potentia, Gewalt, Macht] ver tambm FORA; IMPULSO; POSSE Poder  o termo usado para traduzir as palavras alems Macht e Gewalt e a latina potentia. Os trs 
termos, entretanto, tm diferente significado e so usados em diferentes contextos. Macht  definido na "Analtica do sublime" em CJ como um "poder superior a grandes 
obstculos", o qual  possudo pela natureza quando considerada unicamente num juzo esttico (28). A natureza tem poder sobre ns mas no domnio {Gewalt), porquanto 
o domnio  um poder "que  superior quilo que possui poder" (28). Quando Kant discute o poder poltico legtimo, refere-se inevitavelmente a Gewalt, como em CJ 
83, quando se refere a uma autoridade legtima como a "gesetzmssige Gewalt"; entretanto, se o contexto  o de rebelio contra o estado, o poder do estado  a sua 
Macht, como em TP, onde  usada para referir-se ao "poder legislativo" ("gesetzgebende Macht"), o qual no pode ser combatido por sditos rebeldes, ou em MC, onde 
no mesmo pargrafo legitima o poder supremo como Gewalt mas que, quando resistido, converte-se em poder absoluto - "Machtvollkommenheit" (MC p.372, p. 177). Potentia 
 ainda um outro sentido de poder, referindo-se desta vez  capacidade fsica para usar um objeto; como tal, constitui a base da posse fsica ou possessio phaenomenon.
polmica ver DISPUTA
posse [possessio, Besitz] ver tambm AQUISIO; CASAMENTO; CONTRATO; DIREITO; PROPRIEDADE
Posse  definida em MC como a "condio subjetiva de qualquer uso possvel" (p.245, P-68) e est dividida em posse "sensvel" e posse "inteligvel", ou possessio 
phaenomenon epossessio noumenon. A primeira  posse mediante a deteno de um objeto externo no espao e no tempo, enquanto a segunda  a "posse legtima" que no 
est restrita  de-

254            possibilidade
teno fsica de um objeto. Esta ltima  justificada, ou dela  admitida uma deduo, de acordo com um postulado da razo prtica que diz ser "um dever legtimo 
agir para com os outros de modo que o que  externo (usvel por eles) possa vir a ser tambm de uso prprio" (uma mxima de acordo com o imperativo categrico), 
mostrando assim que o conceito de posse externa pressupe a posse inteligvel (MC p.252, p.74). A posse  tratada, pois, como um juzo a priori sinttico que combina 
a deteno fsica de um objeto com a justificao inteligvel para o fato de o possuir. Alm disso, ao distinguir entre posse sensvel e inteligvel, Kant est apto 
a resolver a antinomia da posse. Isto  considerado nos seguintes termos: tese:  possvel ter algo externo como meu, sem possu-lo; anttese: no  possvel ter 
algo sem estar na posse disso. A resoluo de Kant da antinomia consiste em expor os sentidos equvocos em que posse  usada na tese e na anttese.
A definio de posse dada por Kant em MC  importante para elucidar a metfora da posse de conceitos em CRP. Refere-se a isso em MC quando descreve como se sustentou 
a existncia de uma intuio a priori subjacente num dado conceito, a fim de se formular um juzo sinttico e assim suplementar a posse sensvel de um objeto na 
intuio. A posse de conceitos  expressa pela questo de fato (quidfacti) com referncia  posse sensvel, e pela questo de direito (quid jris) com referncia 
 posse inteligvel (CRP A 84/B 116). A justificao desta ltima requer uma deduo em MC e CRP a fim de estabelecer seu ttulo legal.
possibilidade ver CATEGORIAS
postulado [hypothesis, Postulai] ver tambm AXIOMA; DEFINIO; DEUS; IMORTALIDA- 5 DE; LIBERDADE; PRINCPIO                                                      

Nos Segundos analticos (1941, 76a, 31-77a, 5), Aristteles apresenta os postulados, &' par de axiomas e definies, como sendo princpios indemonstrveis do saber 
demonstrativo. Os axiomas so princpios indemonstrveis comuns a todas as cincias, as definies enunciam as caractersticas peculiares de cada cincia, enquanto 
os postulados"' so proposies de fato "de cuja existncia depende a existncia do fato inferido" (1941,, 76b, 39). Os trs princpios do saber podem ser ilustrados 
pelos Elementos de geometria de Euclides, cujo primeiro axioma enuncia a verdade genrica de que "Coisas que so iguais  mesma coisa so tambm iguais entre si", 
cuja primeira definio estabelece a caracterstica do ponto geomtrico como "aquilo que no tem parte", e que postula que para objetos geomtricos existirem deve 
ser admitida a possibilidade de "traar uma linha reta de qualquer ponto para qualquer ponto" (ver Euclides, 1956).
O uso por Kant do postulado mantm-se dentro da ortodoxia aristotlica, considerando-o uma especificao processual necessria ao conhecimento demonstrativo "fato 
inferido". Em L, ele define-o como "uma proposio prtica, imediatamente certa" ou uma proposio fundamental que determina uma ao possvel, da qual se pressup 
que a maneira de execut-la  imediatamente certa" (L p.607). O termo  usado em file sofia terica para descrever os princpios modais dos "postulados do pensamento 
emprico - a especificao processual da relao entre o entendimento e a sntese d aparncias. Sua principal aplicao, entretanto,  na filosofia prtica.
Em L, Kant refere-se a "postulados tericos para os fins da razo prtica" e enumera-os como a existncia de Deus, liberdade e a existncia de um outro mundo (p.608).
postulados do pensamento emprico             255
Estes reaparecem em CRPr, com "um outro mundo" substitudo por "imortalidade", como os "trs postulados da razo prtica pura". So as "condies necessrias para 
obedincia" de um ser finito  lei moral que determina a sua vontade. Devem ser postuladas a fim de estabelecer o respeito reverente  lei moral e a possibilidade 
de sua concretizao. A imortalidade deve ser postulada a fim de satisfazer "a condio praticamente necessria de uma durao adequada ao perfeito cumprimento da 
lei moral"; a liberdade para a condio de "independncia do mundo sensvel e da capacidade de determinao da vontade do homem pela lei de um mundo inteligvel"; 
e Deus pela pressuposio do "sumo bem independente" (CRPr p.131, p.136).
Kant tambm segue Aristteles ao considerar os postulados como indemonstrveis. Ele corrobora assim a sua crtica das tentativas para conhecer tais seres como Deus, 
o mundo e a alma na "Dialtica transcendental" de CRP, ao passo que as justifica em CRPr como condies "da possibilidade do objeto de uma vontade determinada por 
essa lei" (p. 133, p. 138). Numa frase paralela  definio de Aristteles dos postulados acima citados, Kant afirma que eles so "postulados atravs da lei moral 
e no interesse desta" (p.131, p.133). So declaraes das quais depende a existncia da lei moral, mas que derivam sua prpria validade da existncia dela.
Os sucessores de Kant, primeiro Hegel e mais adiante Nietzsche, no puderam aceitar os postulados. Eram, para eles, em termos de Aristteles, "hipteses ilegtimas", 
e Nietzsche at mesmo considerava-o como o castigo aplicado a Kant por ter concebido o imperativo categrico que o "extraviou - e outra vez o levou de volta para 
'Deus', 'alma', 'liberdade' e 'imortalidade', igual a uma raposa que se extravia e volta para a sua jaula. No entanto, havia sido sua fora e esperteza que tinham 
arrombado essa jaula!" (Nietzsche, 1882, 335).
postulados do pensamento emprico [Die Postulaten des empirischen Denkens] ver tambm CATEGORIAS; FENOMENOLOGIA; MODALIDADE; PRINCPIO Os postulados do pensamento 
emprico so o grupo de princpios que servem como regras para o emprego das categorias de modalidade. A par dos "axiomas da intuio", "antecipaes da percepo" 
e "analogias da experincia", eles compreendem o "sistema de princpios do entendimento puro" na CRP e so tambm descritos em P como os "princpios fisiolgicos". 
Embora classificados com as analogias como princpios "dinmicos" opostos aos "matemticos", os postulados diferem dos outros trs conjuntos de princpios. Estes 
so respostas ao problema dos modos como as aparncias devem relacionar-se entre si, e  descoberta de que elas esto relacionadas em termos quantitativos, qualitativos 
e relacionais. Essas relaes no so diretamente categoriais nem empricas, mas formam as "condies da experincia", as quais so tambm as "condies para os 
objetos da experincia" de um ser finito com intuio sensvel.
Os postulados, entretanto, no governam as relaes mtuas das distintas aparncias mas a relao das aparncias com a "faculdade de conhecimento". Indagam como 
as aparncias esto relacionadas com um ser finito e, em conseqncia, transformam as categorias modais de possibilidade, realidade e necessidade em princpios espa-o-temporais. 
Os postulados no so meros significados lgicos nem "exprimem, analiticamente, a forma de pensamento" (CRP A 219/B 266); tampouco so predicados ontolgicos de 
seres tais como Deus (um "ser necessrio"). Eles expressam o modo

256           prtica, filosofia/razo
como uma experincia distinta se relaciona com as condies da experincia possvel. Alm disso, como postulados, possuem a caracterstica formal de todos os postulados 
de Kant, a qual consiste em que dependem do "ser" das condies da experincia possvel, assim como da formao de uma condio para o "ser" da experincia.
Kant transforma a categoria de possibilidade no "possvel", ou "o que est de acordo com as condies formais da experincia, quanto  intuio e aos conceitos" 
(CRP A 218/B 266). Um conceito possvel  aquele que no infringe as condies formais da experincia, embora isso no pretenda afirmar que existe, necessariamente, 
um objeto correspondente ao conceito. A categoria de realidade , por sua vez, transformada no princpio do real; um conceito real deve, com efeito, observar as 
condies formais da experincia (isto , deve ser possvel) mas, alm disso, deve "concordar com as condies materiais da experincia, ou seja, com a sensao" 
(A 218/B 266). Isso no significa que o objeto deva ser percebido, mas que deve estar de acordo com "as analogias da experincia, que representam toda a ligao 
real numa experincia em geral" (A 225/B 272). Isto , experincias possveis no podem ser consideradas reais a menos que obedeam s regras de relacionamento de 
aparncias em termos da permanncia da substncia, do nexo de causa e efeito, e de ao recproca. Finalmente, a categoria de necessidade torna-se o "necessrio", 
ou "aquilo cujo acordo com o real  determinado segundo as condies universais da experincia" (A 218/B 266). Nesse caso, considera-se que a experincia real est 
em total harmonia com as condies formais e materiais da experincia (A 227/B 279).
Uma vez que os postulados determinam a relao do sujeito de experincia com suas experincias, eles so claramente de grande significao para os debates em torno 
de idealismo e realismo. Com efeito, na segunda edio de CRP, a discusso dos postulados  interrompida por uma digresso sobre a "Refutao do idealismo", Isso 
encontra-se entre as discusses do segundo e terceiro postulados, e culmina em uma crtica do "idealismo problemtico" de Descartes e do "idealismo dogmtico" de 
Berkeley. Lamentavelmente, mais energia interpretativa foi consumida na digresso polmica do que na exposio sistemtica dos postulados que lhe so subjacentes.
prtica, filosofia/razo ver AUTONOMIA; BOM; CRTICA DA RAZO PRTICA; FILOSOFIA; HETERONOMIA; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; MXIMA; METAFSICA DOS COSTUMES; 
RAZO
prazer ver tambm BELEZA; COMPLACNCIA; CORPO; ESTTICA; SENTIMENTO; SEXO; VIDA
J em GN afirmava Kant que prazer e desprazer (dor) so complementares: so ambos expresses do mesmo "sentimento de prazer e dor". Em A, ele descreve-os como "mutuamente 
opostos, no como ganho e deficincia (+ ou 0) mas como ganho e perda (= e -), ou seja, um no  contrastado com o outro meramente como um oposto {contradictorie, 
sive logice oppositum) mas, antes, como uma contrapartida {contrarie sive realiter oppo-situm)"{A 60). Kant sustenta que, alm da afirmao de que prazer e desprazer 
so contrapartidas do mesmo sentimento subjetivo, "no podem ser explicados mais claramente em si mesmos; tudo o que se pode fazer  especificar que resultados tm 
em certas circunstncias" (MC p.212, p.41). Um desses resultados depende de o sentimento incitar o
preconceito            257
sujeito a abandonar ou manter um determinado estado; um outro consiste na tendncia do prazer para realar o sentimento de vida, e do desprazer ou dor para o frustrar 
(A 60). Ambos, porm, so mutuamente necessrios: sem o controle do desprazer, o constante avano de vitalidade que acompanha o prazer resultaria numa "rpida morte".
Em A, Kant distingue entre prazer e desprazer sensorial e intelectual, subdividindo o primeiro conforme o prazer/desprazer seja causado por sensao ou imaginao, 
e o segundo conforme sua causa resida ou no em conceitos ou idias representveis. Os prazeres/desprazeres da sensao incluem alimento, sexo e drogas (tabaco e 
lcool); os da imaginao, os prazeres parcialmente intelectuais do gosto e da beleza. Os prazeres/desprazeres intelectuais so discutidos em maior detalhe em MC. 
A, a distino  elaborada em funo de o prazer/desprazer preceder ou suceder uma determinao da apetio. Se precede a apetio e envolve um objeto, ento  
sensorial ou um "prazer de inclinao"; se precede a apetio mas no envolve um objeto,  um prazer contemplativo de gosto; se  precedido por uma determinao 
de apetio,  um prazer intelectual ocasionado por um "interesse da razo" (MC p.212, p.41).
Kant adota um esquema anlogo em CJ, o seu grande tratado sobre o prazer. A, os prazeres do gosto, que pareciam fruto de uma reflexo posterior sobre as taxonomias 
acima, so convocados para, em associao com o juzo, servirem de mediadores entre as faculdades tericas e prticas. O sentimento de prazer/desprazer, mediante 
o qual "nada  designado no objeto, mas  um sentimento que o sujeito tem de si mesmo e do modo como  afetado pela representao" (CJ 1), amplia-se rapidamente 
para formar a base das faculdades tericas e prticas. Uma manifestao dessa definio ampliada de prazer  a nova distino entre prazer/desprazer e complacncia. 
O esquema de prazeres senso-riais, imaginativos e intelectuais  traduzido agora para a complacncia do agradvel, do bom e do belo. A complacncia  uma sensao 
de prazer, suas manifestaes situam-se ao nvel do juzo do gosto, com anlogos no juzo prtico e terico. O prazer acompanha o juzo prtico na medida em que 
"a realizao de todo e qualquer objetivo se faz acompanhar de um sentimento de prazer", e o juzo terico "em virtude de a mais vulgar e comum experincia ser impossvel 
sem ele [o prazer]"; acrescenta Kant que esse sentimento "fundiu-se gradualmente com o simples conhecimento e deixou de despertar particular ateno" (CJ vi). Prazer/desprazer 
est bem no caminho de vir a ser identificado com fora vital - ou o sentimento de vida - e at com o esprito como tal, "pois, de si mesmo, o esprito [Gemt]  
todo ele vida (o prprio princpio vital), e obstculos ou progressos tm de ser procurados fora dele mas, no obstante, dentro dos prprios seres humanos, por conseguinte, 
em seu prprio corpo" (CJ 29). As implicaes extremamente amplas da filosofia do prazer/desprazer de Kant passaram, em grande parte, despercebidas at ao sculo 
xx, quando, sob o impulso de crticas ao formalismo kantia-no em tica e esttica, comeou surgindo lentamente uma interpretao mais sensvel de seu pensamento 
ulterior.
preconceito [Vorurteil] ver tambm ILUMINISMO; PBLICO/PUBLICIDADE Em CJ 40 sobre "O gosto como uma espcie de sensus communis", Kant apresenta trs mximas de 
"entendimento humano comum": (a) pensar por si mesmo; (b) pensar no lugar de qualquer outro; (c) pensar sempre de acordo consigo mesmo. Todas as trs mximas so 
o oposto do pensar preconceituoso e demandam um pensamento ativo, amplo e

258            predicado
coerente; mas a primeira  explicitamente dedicada ao modo de pensar livre de preconceito. Pensar por si mesmo  a marca de uma "razo nunca passiva", ao passo que 
a "propenso  passividade, portanto,  heteronomia da razo, chama-se preconceito" (CJ 40). O principal alvo de Kant  a a superstio, e descreve o Iluminismo 
[Aufklrung] como libertao da superstio em particular, mas tambm "emancipao dos preconceitos em geral". A viso mais ampla do Iluminismo  desenvolvida em 
RPE, com sua reivindicao de liberdade de pensamento contra os preconceitos da tradio e da modernidade revolucionria. Kant mostra nesse ensaio como o preconceito 
 promovido por tais "guardies" como sacerdotes, militares, doutores e outros intelectuais que incapacitam o pblico e o conduzem para a confortvel e passiva tutela 
do preconceito. A libertao do preconceito tem de ser gradual e realizada com total publicidade; a mudana revolucionria, diz Kant, "pode muito bem pr fim ao 
despotismo autocrtico e  predatria e opressiva sede de poder, mas nunca produzir uma verdadeira reforma das maneiras de pensar. Pelo contrrio, novos preconceitos, 
semelhantes aos que eles substituram, serviro como trela para sujeitar a grande massa irresponsvel" (RPE p.36, p.55). Uma das caractersticas interessantes dessa 
descrio do preconceito  que ele no  enfrentado pela vazo per se mas pela "liberdade de cada um de fazer uso pblico de sua liberdade em todas as questes" 
(p.36, p.55); ou seja, dedicar-se a um raciocnio ativo e no passivo. Isto  sensvel ao perigo de que a prpria razo possa converter-se num preconceito se a sua 
validade for assumida e os seus critrios passivamente aplicados.
predicado ver tambm JUZO; LGICA; SUJEITO
Kant considera o juzo como a relao em pensamento de um sujeito com um predicado e afirma que essa relao pode adotar duas formas possveis. Na primeira, o "predicado 
B pertence ao sujeito A como algo que est contido (implicitamente) nesse conceito A", enquanto na segunda o predicado B "est totalmente fora do conceito A, embora 
em ligao com ele" (CRP A 6/B 10). A primeira forma de juzo  analtica e a segunda, sinttica. A prova da possibilidade de juzos apriori sintticos  tarefa 
da CRP, e consiste em mostrar que um predicado pode ser sintetizado com um sujeito num juzo. Kant estava extremamente preocupado em assegurar que a combinao lgica 
de sujeito e predicado, restringida somente pelo princpio de contradio, no se estendesse a combinaes reais ou sintticas. Para tanto, ele distinguiu entre 
predicados lgicos e reais, afirmando que "tudo pode servir, indistintamente, de predicado lgico" (CRP A 598/B 626), ao passo que os predicados reais devem estar 
confinados dentro dos limites da experincia possvel. Estava especialmente interessado, depois de UAP, em desqualificar o uso de "ser" como predicado real. A cpula 
"" num juzo "no  um conceito de algo que podia ser adicionado ao conceito de uma coisa".  logicamente permitido dizer "Deus  onipotente", uma vez que essa 
proposio no  contraditria; mas a cpula no pode ser considerada um predicado real, porquanto "ela no acrescenta um novo predicado e serve to-somente para 
colocar o predicado em sua relao com o sujeito" (CRP A 599/B 627). Vale assinalar que Kant em nenhum lugar discute o predicado como tal, mas considera-o sempre 
em relao com os modos de predicao; o esquema sujeito-predicado bsico da lgica categrica  ampliado pela noo de juzos a priori sintticos, mas no  fundamentalmente 
contestado.
princpio            259
predicamento ver tambm CATEGORIAS; PREDICVEIS
Predicamento  usado em CPR A 8l/B 107 como um sinnimo para as categorias; com efeito, em VPM, Kant especifica historicamente o termo como o equivalente escolstico 
medieval das categorias de Aristteles (VPM p.271-2, p.75-7). Para ele, existem os "conceitos primrios do entendimento puro", dos quais so derivados os "ps-predicamen-tos" 
ou predicveis do entendimento puro.
predicveis ver tambm CATEGORIAS; PREDICAMENTO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS Na tradio aristotlica, os predicveis so os cinco, por vezes seis, predicados que 
podem ser afirmados ou negados do sujeito numa proposio lgica. So eles definio, gnero, diferena, propriedade, acidente e espcie. O uso do termo por Kant 
diverge consideravelmente do significado recebido, j que para ele referem-se aos "conceitos puros mas derivativos do entendimento" (CRP A 82/B 108). Da tbua de 
juzos, Kant deriva o conjunto de funes puras do entendimento e, ao relacion-las com "objetos em geral", gera os "conceitos puros do entendimento". Deriva-se 
destes uma "lista completa" de predicveis resultantes da combinao das categorias entre si e com as formas de intuio, espao e tempo (ver P 39). Em CRP, Kant 
abstm-se de fazer o "completo inventrio" de predicveis, mas fornece alguns exemplos proveitosos. Da categoria da causalidade so derivados os predicveis de fora, 
ao e paixo; da categoria da comunidade, os predicveis de presena e resistncia; e da categoria da modalidade, os predicveis de nascimento, morte e mudana 
(CRP A 82/B 108).
princpio [arche, principium, Grundsatz] ver tambm PRINCPIOS DA RAZO PRTICA; PRINCPIOS DO ENTENDIMENTO
Um princpio  um comeo ou um ponto de partida que possui, classicamente, caractersticas ontolgicas e lgicas. Para Kant, o ponto principal da filosofia moderna 
 "fornecer" princpios adequados para as divises gregas clssicas da filosofia: fsica, tica e lgica (FMCp.388, p.l).
Em seu exame das descries "pr-socrticas" e platnicas de arche na Metafsica (1941,983b-988b), Aristteles descreve um desenvolvimento desde o princpio material 
singular de Tales - que diz ser a gua o princpio - at aos princpios materiais plurais de Empdocles. Sucede-lhes, no relato de Aristteles, a proposta de Plato 
de que as "idias" so princpios, ao que se segue ento a deciso do prprio Aristteles de organizar os princpios em torno da causalidade - as causas materiais, 
eficientes, formais e finais. Esses princpios so o fundamento ontolgico supremo para tudo o que , assim como a fonte primordial de conhecimento. A equivocao 
entre os dois sentidos tornou-se manifesta nos dois termos usados para traduzir arche: o "fundamento" ontolgico e a "razo" epistemolgica.
Na tradio wolffiana, Grund e ratio eram sinnimos (ver Wolff, 1719, e Meiss-ner, 1737), uma vez que para os racionalistas a razo para a existncia era, ao mesmo 
tempo, o fundamento para existir. Assim, a cincia dos princpios nas palavras de Wolff Pensamentos racionais sobre Deus, o mundo e a alma dos homens, assim como 
todas as coisas em geral -  a ontologia. Para os wolffianos, os dois princpios bsicos comuns ao ser e ao saber eram, na realidade, proposies fundamentais (Grundstze). 
O mais bsico era o princpio de contradio - algo no pode simultaneamente ser e no

260           princpios constitutivos
ser - seguido pelo princpio da razo suficiente, o qual sustentava que tudo o que existe tem uma razo ou fundamento para tanto.
Nos escritos pr-crticos, Kant critica a eliso da razo para o saber com o fundamento do ser. Essa crtica viria a converter-se na distino ulterior na CRP entre 
lgica formal e transcendental, compostas, respectivamente, de juzos analticos e sintticos a priori. Cada uma dessas lgicas e seus juzos tem um Grundsatz ou 
princpio supremo; para o juzo analtico  o princpio de contradio, enquanto para o juzo sinttico a priori  que "as condies da possibilidade da experincia 
em geral so, ao mesmo tempo, condies da possibilidade dos objetos da experincia" (CRP A 158/B 197). Isso significa que as condies para uma experincia coerente 
tambm determinam os objetos de tal experincia-assinalando uma tentativa filosoficamente refinada de alinhamento de ser e lgica, o que  caracterstico da toda 
a filosofia crtica. Observou Heidegger: "Quem quer que entenda esse princpio entende a Crtica da razo pura de Kant" (1935, p.l 83). A gerao imediata de filsofos 
ps-kantianos, como Reinhold e Fichte, foi propensa a sublinhar a origem racional e dedutiva dos princpios, em detrimento da emprica; mais tarde, no sculo xix, 
os neokantianos enfatizaram suas fontes empricas na prtica das cincias naturais e humanas.
Kant tambm trata de princpios em L, onde os descreve como juzos a priori imediatamente certos, a partir dos quais "outros juzos so provados... mas eles prprios 
no podem ser subordinados a qualquer outro" (p.606). Ele divide-os ainda em mais duas 1 classes: princpios intuitivos, ou axiomas, e princpios discursivos, ou 
acroamas, considerando todos os princpios filosficos como pertencentes aos segundos. Essa distino foi desenvolvida primeiro no antiwolffiano ICP a fim de distinguir 
entre os mtodos de prova matemtica e prova filosfica. Uma discusso adicional, mas distinta, de princpi- < os encontra-se na filosofia prtica, onde servem como 
fonte de mximas para determina- ; o da vontade.
princpios constitutivos ver tambm IDIA; PRINCPIO; REGRAS Os princpios constitutivos "entendem dever submeter a existncia das aparncias a r-) gras a priori" 
(CRP A 179/B 221) e so distinguidos em CRP dos princpios regulativos ; que oferecem regras "segundo as quais uma unidade da experincia dever resultar das \ percepes" 
(CRP A 1 80/B 223). Kant usa a distino em suas discusses dos "princpios  da razo pura" e das "idias transcendentais". Dos quatro princpios, somente os axiomas 
da intuio e as antecipaes da percepo so constitutivos, na medida em que des- :; crevem os modos como "se produz a percepo ou a prpria intuio emprica 
em geral". As analogias da experincia e os postulados do pensamento emprico oferecem regras de acordo com as quais a experincia pode ser organizada; diferentemente 
das anteriores* no envolvem a constituio de aparncias, mas apenas os modos como podem ser reguladas. Da mesma forma, as idias cosmolgicas relativas ao princpio 
do universo e  sua . divisibilidade no so constitutivas mas regulativas, "alis, no como axioma para pen-; sar como real a totalidade no objeto, mas como problema 
para o entendimento" (CRP A  508/B 536). O princpio da razo que regride do condicionado para o no-condicionado no  constitutivo, "servindo para ampliar o conceito 
de mundo sensvel para alm de J toda a experincia possvel", mas  uma regra "que postula o que devemos fazer na re-
princpios da razo prtica            261
gresso, no antecipando, porm, o que  dado em si no objeto antes de toda e qualquer regresso" (CRP A 509/B 537).
Toda a "Dialtica transcendental" em CRP pode ser considerada uma anlise do que ocorre quando idias regulativas so aplicadas de maneira constitutiva. Quando idias 
da razo, como Deus, o mundo e a alma, so usadas constitutivamente "com o intuito de fornecer conceitos de certos objetos, elas no so mais do que conceitos sofsticos, 
meramente dialticos" (CRP A 644/B 672) e passveis de entrar em conflito consigo mesmos (ver tambm A 666/B 694). Quando usadas de modo constitutivo,  dada s 
idias uma existncia ilusria; entretanto, quando se restringem ao seu apropriado uso regulati-vo, servem apenas para dirigir "o entendimento para um certo fim, 
onde convergem num ponto as linhas diretivas de todas as suas regras e que, embora seja apenas uma idia (fo-cus imaginarius), isto , um ponto de onde no partem 
na realidade os conceitos do entendimento, porquanto ficam totalmente fora dos limites da experincia possvel" (CRP A 644/B 672). Por outras palavras, os princpios 
e idias regulativos contribuem para a orientao do entendimento sem pretender constituir um objeto nem contribuir diretamente para o conhecimento.
princpios da razo prtica ver tambm BOM; IMPERATIVO; IMPERATIVO CATEGRICO; LIBERDADE; MXIMA; VONTADE
Os princpios de razo prtica so proposies que expressam uma determinao universal da vontade. So mximas subjetivas quando vlidas somente para uma vontade 
humana, mas leis prticas objetivas quando vlidas para todo ser racional (CRPr p. 19, p. 17). A anlise de Kant dos princpios prticos toma duas direes: uma 
anlise problemtica de candidatos a princpios de razo prtica nos escritos pr-crticos e em FMC, e uma apresentao sinttica dos princpios de uma vontade pura 
em CRPr e MC.
A anlise problemtica distingue entre dois candidatos a possveis princpios de ao prtica. O primeiro  o princpio wolffiano de perfeio, enunciado por Kant 
como "abster-se de fazer aquilo que dificultar a realizao da mxima perfeio possvel" (ICP p.299, p.273). Kant considera que esse candidato a princpio prtico 
,  semelhana do princpio de contradio de Wolff na filosofia terica, vazio e incapaz de servir como fonte de uma obrigao definida. Com princpios materiais 
distintos, como prazer, felicidade e senso moral, entretanto, o princpio  "cego", incapaz de fornecer a universalidade e necessidade requeridas de um princpio 
prtico. Um impasse semelhante  atingido em FMC, onde o princpio "racional" de "perfeio" e o princpio "emprico" do "senso moral" mostram no ser suficientes 
como "princpio supremo de moralidade".
O nico princpio prtico adequado admitido em FMC  a "autonomia da vontade" - a vontade como uma lei para si mesma. Tal princpio ser experimentado como imperativo 
por seres humanos e pode ser enunciado no imperativo categrico "Age segundo a mxima que possa simultaneamente fazer-se a si mesma lei universal" (FMC p.440, p.44; 
cf. CRPr p.30, p.30). Kant esfora-se, pois, por provar, sobretudo em CRPr, que esse princpio evita a heteronomia dos princpios formais e materiais rejeitados. 
Suas concluses intrigaram muitos leitores mas convenceram poucos. Foram depois desenvolvidas em maior detalhe nos "Princpios metafsicos" das doutrinas do "Direito" 
e "da Virtude" que foram condensadas em MC.

262            princpios do entendimento
princpios do entendimento ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; ANTECIPAES DA PERCEPO; AXIOMAS DA INTUIO; POSTULADOS DO PENSAMENTO EMPRICO Os "princpios 
do entendimento puro" so discutidos no segundo captulo da "Analtica dos princpios" em CRP. Kant apresenta os princpios como contendo em si mesmos os fundamentos 
de outros juzos, embora no sendo eles prprios derivados de um princpio superior (CRP A 149/B 188). Um princpio  difcil de provar porque tem "a propriedade 
especial de tornar possvel o fundamento de sua prpria prova, a saber, a experincia, e nesta deve estar sempre pressuposta" (A 737/B 765). Portanto, a prova de 
um princpio, a qual , "de fato, indispensvel", tem de ser estabelecida na base da experincia que ela possibilita, neste caso, "o conhecimento de um objeto em 
geral" (A 149/B 188).
Kant distingue entre os princpios que se relacionam com as categorias e os que se relacionam com a intuio, incluindo estas ltimas princpios tais como "espao 
e tempo so as condies da possibilidade de todas as coisas como aparncias" (CRP A 149/B 188). Distingue, em seguida, entre os princpios de juzos analticos 
e sintticos, descobrindo dois princpios fundamentais distintos para cada classe de juzo. O princpio de juzos analticos  o mesmo princpio de contradio que 
serviu como princpio fundamental da lgica/ontologia wolffiana; para Kant, "[esse princpio] pertence unicamente  lgica" e  um "critrio universal, embora meramente 
negativo, de toda a verdade" (CRP A 151 /B 190).  apenas de uso limitado nos juzos sintticos da lgica transcendental, os quais tambm possuem carter ontolgico. 
Para justificar juzos apriori sintticos  necessrio descobrir um Grundsatz ou um certo nmero de Grundstze, ou princpios fundamentais, capazes de dar um objeto 
a um conceito ou, num sentido geral, de combinar lgica e ontologia.
Kant encontra esse princpio lgico-ontolgico na afirmao de que "as condies de possibilidade da experincia em geral so, ao mesmo tempo, condies de possibilidade 
dos objetos da experincia" (CRP A 158/B 197). Por outras palavras, as mesmas condies que possibilitam a experincia tambm tornam possveis os objetos da experincia. 
Kant detalha essas condies como as de (a) "condies formais de uma intuio a priori", (b) "a sntese da imaginao" e (c) "a unidade necessria dessa sntese 
numa apercepo transcendental" (ibid.). A primeira condio, (a), refere-se  experincia humana de espao e tempo; a segunda, (b),  apresentao de objetos da 
intuio ao entendimento; e a terceira, (c), s categorias do entendimento. Basicamente, o princpio estabelece que a combinao das trs condies necessrias para 
constituir uma experincia coerente tambm constitui os objetos da experincia, ou as aparncias no espao e no tempo.
Como existe mais de um categoria, tambm h mais de um princpio - com efeito, h um grupo de princpios correspondendo a cada grupo de categorias. s categorias 
de quantidade correspondem os "Axiomas da intuio"; s da qualidade, as "Antecipaes da percepo"; e s da modalidade, os "Postulados do pensamento emprico". 
A nossa experincia no  meramente intuitiva, nem diretamente categorial, mas combina intuio, apresentao imaginativa e as categorias. Os princpios, em geral, 
determinam como as coisas aparecem no tempo, ou como a quantidade, qualidade, relao e modalidade categoriais so adaptadas  limitada experincia espao-temporal 
de um ser fmito.
O sistema dos princpios foi o resultado da reelaborao por Kant da herana onto-lgica escolstica, tal como foi transmitida por Wolff, numa "analtica transcendental".
Prolegmenos a toda a metafsica futura que possa se apresentar como cincia            263
Os trabalhos da "dcada silenciosa" de 1770 foram dedicados ao problema de converter os predicados ontolgicos tradicionais nos princpios temporais da nova "Analtica 
transcendental". No lugar de predicados ontolgicos quantitativos tais como unidade e pluralidade, Kant props o princpio de grandeza; em vez dos predicados ontolgicos 
qualitativos de ser e nada, props o princpio de grau intensivo. Substituiu tambm relaes ontolgicas eternamente vlidas, como substncia e acidente, causa e 
efeito, e comunidade, pelos prin-opios temporalmente especficos de relao nas "analogias da experincia", assim como pelos predicados modais de possibilidade, 
realidade e necessidade.
O desenvolvimento dos princpios por Kant  uma de suas mais refinadas realizaes e o lugar onde o seu radicalismo filosfico  mais pronunciado e evidente. Lamentavelmente, 
com a exceo das leituras ontolgicas de Kant iniciadas por Heidegger (1929) e Heimsoeth (1956), a bela exibio de argumentos filosficos nos princpios foi eclipsada 
pela discusso da menos cintilante deduo das categorias.
princpios e idias regulativos ver PRINCPIOS CONSTITUTIVOS
Princpios metafsicos da cincia natural Publicada em 1786, Kant descreveu esta obra como uma "aplicao" da "Metafsica da natureza" que ele planejou escrever, 
apoiado em princpios crticos, em meados da dcada de 1780. Est organizada como uma tentativa de fornecer "os fundamentos metafsicos da teoria do corpo" (CFI 
p.l 19), a qual, nas palavras do prefcio do livro, apresenta as condies que possibilitam a "aplicao da matemtica  doutrina do corpo" (PM p.472, p.9). Isso 
requer uma "completa anlise do conceito de matria em geral", a qual  apresentada em quatro captulos correspondentes aos quatro ttulos da tbua de categorias. 
Kant leva "o conceito de matria a todas as quatro funes do entendimento" (PM p.476, p.l3), considerando-a em termos de movimento, uma vez que "todos os predicados 
que pertencem  natureza da matria" podem ter sua origem "no movimento" (p.477, p.14). O primeiro captulo, sobre os "Fundamentos metafsicos da foronomia", considera 
os aspectos quantitativos da matria em funo de um puro quantum de movimento. O segundo captulo, sobre os "Fundamentos metafsicos da dinmica", considera os 
aspectos qualitativos da matria a respeito de ela ser a expresso de foras atrativas e repulsivas. O terceiro captulo, sobre os "Fundamentos metafsicos da mecnica", 
considera os aspectos relacionais da matria, a saber, a relao recproca das partes moventes da matria. O quarto e ltimo captulo, sobre os "Fundamentos metafsicos 
da fenomenologia", corresponde ao grupo modal de categorias e considera o "movimento ou repouso da matria determinado meramente com referncia ao modo de representao, 
ou modalidade, isto , como aparncia dos sentidos externos" (p.417, p.l5).
problemas da razo ver FILOSOFIA; ILUMINISMO; INTERESSE; RAZO
Problemtico   ver APODCTICO, ASSENTIMENTO; CATEGORIAS; HIPOTTICO; REALIDADE
Prolegmenos a toda a metafsica futura que possa se apresentar como cincia Publicados pouco depois de CRP, em 1783, no pretendia Kant que os Prolegmenos fossem 
"utilizados por aprendizes, mas por futuros mestres e a estes devem servir". P forma, com SD, a resposta de Kant  primeira onda de crticas  filosofia crtica 
e, tal como SD,

264            promessa
consiste numa explicao dos temas bsicos dessa filosofia. Considerou-a uma seqela de CRP, um esboo da cincia que habilitaria os leitores a captar e compreender 
o todo. Diferentemente de CRP, que  apresentada num estilo sinttico proveniente de princpios, P  "delineado de acordo com um mtodo analtico" (p.263, p.8) que 
avana das questes sobre como so possveis as cincias dadas da matemtica pura, cincia natural pura, metafsica em geral  metafsica como cincia, para o estabelecimento 
das condies de sua possibilidade. O resultado  uma recapitulao geral do contedo da "Doutrina transcendental dos elementos" em CRP, prefaciada por comentrios 
sobre juzos apriori sintticos e seguida de reflexes sobre a "determinao dos limites da razo pura". A primeira parte, sobre as condies da possibilidade de 
matemtica pura, passa em revista a "Esttica transcendental" da CRP; a segunda, sobre as condies da possibilidade de cincia, reexamina a "Analtica transcendental"; 
ao passo que a terceira, sobre as condies da possibilidade da metafsica em geral, procede a uma recapitulao crtica da "Dialtica transcendental".  parte a 
funo til de produzir um esboo de CRP, P  significativo no s por destacar as motivaes metafsicas que inspiram CRP, mas tambm pelas reflexes de Kant sobre 
os acontecimentos que fizeram com que despertasse de sua "sonolncia dogmtica" e produzisse a filosofia crtica.
promessa ver CONTRATO; MENTIRA
proporo ver ANALOGIA
propsito  ver CONFORMIDADE A UM FIM; FIM
propriedade ver tambm AQUISIO; CONTRATO; JUSTIA; OBRIGAO; POSSE Em TP, PP e MC Kant determina o estado civil pelos trs princpios apriori de liberdade, igualdade 
e independncia. A propriedade desempenha nesse esquema um papel extremamente significativo. Em TP, por exemplo, Kant comea por tratar da liberdade de cada membro 
da comunidade como ser humano para corisiderar depois sua igualdade perante a lei. Esta ltima, entretanto,  "perfeitamente coerente com a superlativa desigualdade 
da massa no grau de suas posses", definindo "posses", em termos algo dbios, como "superioridade fsica ou mental sobre outros", "propriedade externa fortuita" e 
"direitos particulares (dos quais existem muitos) contra outros" (TP p.75). Ao identificar propriedade com outros dotes fortuitos, Kant est apto, em sua discusso 
da "independncia", a restringir severamente o nmero de cidados "com direito a voto em matrias de legislao" aos proprietrios (TP p.78). Essa restrio foi 
atenuada por sua ampliao da definio de propriedade de modo a incluir no s os proprietrios de terras (possuidores de "propriedade permanente") mas tambm aqueles 
adultos do sexo masculino - "excludas, naturalmente, as mulheres e crianas" (p.78) - que possuem propriedade na forma de uma qualificao, ofcio, arte ou cincia. 
 claro que muita coisa est em jogo no modo como a propriedade  adquirida e distribuda.
Kant desqualifica duas justificaes convencionais para a existncia de propriedade: a justificao feudal em termos de conquista militar (TP p.78) e a teoria da 
propriedade pelo trabalho (MC p.268, p.89). Kant preferiu distanciar do objeto possudo a sua justificao do direito de propriedade e concentrar-se nas reivindicaes 
contra outros direitos que a propriedade consubstancia. Abstrai da posse razovel ou das "condies
psicologia            265
razoveis de posse, como relao de uma pessoa com objetos" e opta por focalizar a posse como "relao de uma pessoa com pessoas" (MC p.268, p.88). O direito de 
um indivduo  propriedade  aquele que todos os outros indivduos esto obrigados a respeitar; esse direito  respeitado porque a "vontade da primeira pessoa... 
 compatvel com o axi-oma da liberdade exterior, com o postulado de sua capacidade para usar objetos externos de escolha, e com a legislao da vontade de todo 
o pensamento como unido apriori"" (MC p.268, p.88). Kant espera com essa anlise fornecer uma justificao da "posse inteligvel", embora seja difcil nesse caso 
separar o inteligvel do sensvel e do histrico. Esse  particularmente o caso daqueles legisladores de uma comunidade que, unidos para fundar uma ordem de propriedade, 
j so eles prprios definidos como proprietrios.
protestantismo ver DEUS; IGREJA; TEOLOGIA
prova cosmoteolgica (da existncia de Deus) ver TEOLOGIA
prova ontolgica da existncia de Deus ver DEUS; TEOLOGIA
provas da existncia de Deus ver TEOLOGIA
providncia ver AMOR; DEUS; ESPERANA; F; HISTRIA; IGREJA; OTIMISMO; TEODI-CIA; TEOLOGIA
prudncia ver IMPERATIVO
psicologia ver tambm COSMOLOGIA; DIALTICA; "EU PENSO"; IDENTIDADE; INFERN-CIA; ONTOLOGIA; PARALOGISMO; SUJEITO; TEOLOGIA
A par da cosmologia e da teologia, a psicologia constituiu um dos ramos da "Metafsica especial" que, com a ontologia, formou o influente sistema de metafsica apresentado 
por Wolff em Pensamentos racionais sobre Deus, o mundo e a alma do homem, assim como sobre todas as coisas em geral (1719). Para Wolff, cada ramo da metafsica tinha 
o seu prprio objeto: para a ontologia era o ser-em-geral; para a teologia, Deus; para a cosmologia, o mundo; e para a psicologia, a alma. Kant refletiu a estrutura 
da metafsica de Wolff em CRP - com efeito, a "razo pura" deste ltimo ttulo no era outra coisa seno a metafsica racionalista de Wolff. Assim, a ontologia  
substituda pela analtica transcendental e os ramos da metafsica especial pela dialtica transcendental. Na crtica da metafsica especial, os objetos Deus ou 
"idia de um complexo completo daquilo que  possvel", o mundo ou "idia da srie completa de condies", e a alma ou "idia do sujeito absoluto", so revelados 
pela dialtica. So, alm disso, cincias contaminadas por inferncias dialticas - a teologia por idias transcendentais, a cosmologia por antinomia e a psicologia 
por paralogismo.
J no sistema de Wolff, entretanto, a posio da psicologia era anmala. Foi discutida por duas vezes, primeiro no captulo 3, desde o ponto de vista dos poderes 
empricos da alma humana (percepo, etc), e depois no captulo 5, desde o ponto de vista da essncia da alma racional como sujeito no emprico da conscincia. 
A origem dessa distino est na que existe entre as descries naturalistas da alma, como no tratado De anima, de Aristteles, e as verses teolgicas que sublinham 
a separao entre o corpo e a alma. Santo Toms de Aquino, em seu comentrio sobre o texto de Aristteles, enfati-

266            psicologia
zou que tal distino j era manifesta entre Plato e os outros "filsofos naturais" gregos (Aquino, 1951, p.48-9). Nos tempos de Descartes, a distino redundara 
num confuso equvoco. Em vrias ocasies, ele insiste em que a alma  inteiramente independente do corpo, ao passo que em outras a considera localizada no crebro. 
Insiste algumas vezes em que as foras "vegetativas e sensitivas ou motoras" do corpo so distintas da alma racional ou da "coisa que pensa", enquanto em outras 
admite que as duas no podem ser separadas. Ao separar sistematicamente as duas noes da alma, Wolff preparou o caminho para a rigorosa distino de Kant entre 
psicologia emprica e racional, e sua crtica de ambas as cincias.
Desde 1765, pelo menos, Kant estava trabalhando com a distino entre psicologia emprica e racional. O objeto da primeira era o funcionamento do sentido interno, 
e Kant estava convencido de que tal investigao subsistiria como uma "descrio natural da alma, mas no uma cincia da alma, nem mesmo uma doutrina psicolgica 
experimental" (PM p.471, p.8). Isso se d porque a observao "da prpria alma altera e distorce o estado do objeto observado". Por essa razo, e porque a psicologia 
emprica presume substituir um filosofar a priori, Kant, em CRP, declara a psicologia emprica "banida do domnio da metafsica" (A 848/B 876). Entretanto, ele adia 
a sentena "at que lhe seja possvel estabelecer morada prpria numa antropologia completa, que seria o anlogo da fsica emprica" (A 848/B 876). Apesar desses 
comentrios, Kant mostrou um interesse permanente pela psicologia emprica, evidente em A, assim como em numerosos escritos sobre doena mental (ver sv e o "Ensaio 
sobre as enfermidades da cabea" [Versuch ber die Krankheiten des Kopfes, 1764]).
Embora Kant mantivesse um lugar para a psicologia emprica dentro da antropologia, a posio da psicologia racional era mais ambgua. Em CJ, ele descreveu o seu 
exame crtico da idia dialtica de "o sujeito pensante" nos paralogismos como consignando-o ao mesmo destino que adveio  teologia: "No fornece mais do que uma 
concepo negativa do nosso ser pensante" (CJ 89). Kant mostra que a investigao da substncia pensante ou do "sujeito absoluto de 'eu penso' -"o nico texto da 
psicologia racional" (CRP A 343/B 401) - est fadada ao fracasso. Pressupe que o sujeito de "eu penso" pode ser um objeto de conhecimento e, por conseqncia, prolonga 
as categorias para alm de seus limites legtimos. Assim, a alma  tratada como se fosse uma substncia, como se fosse simples, numericamente idntica e (na edio 
A de CRP) capaz de manter-se numa relao com todos os objetos possveis no espao. Embora haja diferenas entre as edies de 1781 (A) e 1787 (B), a tese bsica 
no est materialmente alterada: ambas mantm que a substancialidade, identidade e simplicidade da alma assentam num paralogismo, ou um silogismo formalmente falacioso.
O primeiro enunciado da psicologia racional criticado em CRP infere das premissas que o sujeito absoluto  substncia e que eu, como sujeito pensante, "sou o sujeito 
absoluto de todos os meus juzos possveis" (CRP A 348/B 406), a concluso de que "eu, portanto, como ser pensante (alma) sou substncia" (ibid.). O paralogismo 
reside aqui em supor que o "eu" que acompanha o pensamento  substncia; Kant afirma, pelo contrrio, que "fora dessa significao lgica do eu, no temos nenhum 
conhecimento do sujeito em si que, na qualidade de substrato, esteja na base desse sujeito lgico, bem como de todos os pensamentos" (CRP A 350). O segundo enunciado 
da psicologia racional, o de que o sujeito pensante  simples,  criticado por transformar de maneira ilegtima a "pro-
pblico/publicidade             267
posio formal da apercepo" num sujeito pensante: "atravs do eu, penso sempre uma unidade absoluta, mas lgica, do sujeito (simplicidade), mas no conheo, com 
isso, a simplicidade real do meu sujeito" (CRP A 356). Assim, inferir um sujeito idntico  converter de forma ilegtima a premissa da condio formal do pensamento 
num substantivo. Finalmente, a afirmao de que a alma est em relao necessria com objetos no espao confunde, uma vez mais, o "eu penso" como uma condio de 
pensar com a operao de uma substncia pensante.
A destruio por Kant da psicologia racional selou a distino entre psicologia racional e emprica. Foi sucedida no sculo seguinte pelo desenvolvimento de uma 
psicologia experimental que invadiu cada vez mais o que vinha sendo percebido como os problemas filosficos tradicionais de conscincia e conhecimento. Estes defrontaram-se, 
no final do sculo XIX, com uma vigorosa crtica do "psicologismo", primeiro pelos neokantianos e depois, de maneira sumamente influente, por Husserl. Muitas dessas 
crticas pareciam apontar para uma restaurao do sujeito transcendental. Uma outra srie de desenvolvimentos no final do sculo preparou uma diferente direo filosfica. 
O ataque de Nietzsche (1886)  noo do sujeito no esprito dos paralogismos e a ampliao por Freud (1915) dos limites do sujeito para incluir o inconsciente sugeriram 
um percurso para alm dos paralogismos que no seguia o caminho da psicologia emprica. Isso acarretou um reexame dos problemas do conhecimento e ao sem o postulado 
de um sujeito, um desenvolvimento que levou, aps a II Guerra Mundial, ao surgimento em filosofia de novas topologias "anti-humanistas" de pensamento e ao. Esses 
debates partiram no s das obras de Freud e Nietzsche, mas tambm, de maneira significativa, da obra de Heidegger (1927) (para uma seleo representativa de textos 
provenientes dessa tradio, ver Cadava e outros, 1991).
pblico/publicidade ver tambm ILUMINISMO; PAZ; PRECONCEITO Em PP, Kant abstrai dos aspectos materiais dos direitos polticos e internacionais pblicos o "atributo 
formal de publicidade [Publizitt]" (PP p.3 81, p. 125), o qual pode ser expresso, na "frmula transcendental" negativa, como: "Todas as aes que afetam os direitos 
de outros seres humanos so errneas se sua mxima no for compatvel com sua divulgao pblica" (PP p.3 81, p. 126). Uma vez que a "felicidade"  o "objetivo universal 
do pblico", as mximas da poltica dirigidas para esse fim devem estar em harmonia no s com a frmula negativa mas tambm com a "frmula transcendental" positiva 
que : "Todas as mximas que requerem publicidade, se no quiserem fracassar em seu propsito, podem ser compatibilizadas com o direito e a poltica" (PP p.386, 
p. 130). Em RPE, a "liberdade para fazer uso pblico da razo pessoal em todas as matrias"  a pressuposio do esclarecimento. Consiste em submeter abertamente 
o preconceito ao teste da razo, quer se trate de um antigo e consolidado preconceito conservador ou de um preconceito revolucionrio recm-criado. Comum a ambas 
as formas de preconceito  a induo  passividade atravs de uma autoridade usurpada. Os "guardies" criticados em RPE derivam sua autoridade da usurpao do direito 
de pensar por outros, sejam eles clrigos, doutores, polticos, militares ou intelectuais. Sua autoridade no est sujeita ao teste pblico da razo mas, pelo contrrio, 
invalida o juzo do pblico ao tornar este passivo e incapaz de usar livremente sua razo.

268             punio
A associao entre razo, comunicao e esclarecimento inaugurada em RPE e desenvolvida em CJ foi um considervel estmulo ao desenvolvimento da teoria poltica 
no sculo XX Arendt explorou minuciosamente as implicaes da noo de Kant de publicidade cmA origem do totalitarismo (1951) e A condio humana (1958), enquanto 
que as relaes entre publicidade e razo comunicativa foram extensamente estudadas por Habermas(1981).
punio ver JUSTIA
puro [rein] ver tambm EMPRICO; FORMA; ORIGEM                                    _
Na filosofia de Kant, puro  inevitavelmente oposto a emprico, e ambos esto alinhados com uma matriz de oposies que incluem forma-matria, espontaneidade-receptivida-de 
autonomia-heteronomia, original-derivado, condio-condicionado antenor-poste-rior e a priori-a posteriori. Schmitt, no ndice para a sua edio da CRP, alinha numerosos 
usos adjetivais do termo, tais como apercepo (B 132), categorias (B 304), conceitos B 91) conhecimento (B 1), conscincia (B 208), empirismo (B 494), espao e 
tempo (B 374) forma (B 34), princpios (B 198), pensamento (B 79), representao (B 34) e sntese (B 103) Embora fosse amplamente usado por Kant, o prprio conceito 
raras vezes e definido como tema principal. Conhecimento puro, por exemplo,  definido em CRP como aquilo que "no est misturado com qualquer coisa extrnseca" 
(A 1 l/B 24), embora seja mais difcil determinar o que  em si mesmo. Para dar um outro exemplo da definio negativa de pureza, uma representao  pura "quando 
nenhuma sensao se lhe mistura (A 50/B 74); por outras palavras, o seu estado puro , em grande parte, um reflexo de sua
mistura com sensao.                                                                                      .
Puro  freqentemente usado como sinnimo de termos tais como apriori, iorma, condio, autonomia e original, mas tambm  empregado para qualificar esses mesmos 
termos, como em "apriori puro" (CRP A 85/B 117). Em algumas ocasies, conceitos e in-tuies apriori so puros porque so apriori; em outras, so apriori porque 
sao puros. Um dos poucos pontos em que Kant se avizinha de uma definio independente de pureza  em sua equao de puro e original. A apercepo pura distingue-se 
da apercepo emprica em virtude de sua espontaneidade;  "original" em ser uma "autoconsciencia que ao produzir a representao eu penso... no pode ser acompanhada 
por nenhuma outra representao" (CRP B 132). Ao localizar assim a fonte da pureza da razo terica na espontaneidade, Kant revela uma ligao entre ela e a pureza 
prtica. A razo pratica pura descobre o seu princpio no nos fundamentos heternomos da realizao de tais fins como a felicidade, mas na forma pura, gerada de 
maneira autnoma, do imperativo categrico.
Q
quaestio quid facit/quid jris ver DEDUO
qualidade  ver CATEGORIAS; ESTTICA; JUZO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
quantidade ver CATEGORIAS; ESTTICA; JUZO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS

R
racionalismo ver tambm CETICISMO; DOGMATISMO; EMPIRISMO; FILOSOFIA CRTICA O uso deste termo por Kant no deve ser confundido com a tradio "racionalista" na histria 
da filosofia (Espinosa, Leibniz, Wolff, etc), nem identificado com dogmatismo. Em apenas uma ocasio Kant relaciona o racionalista com o dogmtico (CRP B 417); entretanto, 
ope sistematicamente o racionalismo ao empirismo. Ele conclui a tpica de CRPr com o contraste entre racionalismo e dogmatismo, afirmando que "somente o racionalismo 
de juzos  adequado ao uso de leis morais, pois o racionalismo no toma da natureza sensvel mais do que a razo pura pode tambm pensar para si" (CRPr p.71, p.73). 
A noo racionalista de "legalidade" em geral protege e protesta contra o empirismo da razo prtica, o qual "erradica a moralidade de intenes" (p.71, p.74). Da 
mesma forma, na terceira crtica, os juzos estticos assentes numa base apriori revelam o racionalismo do juzo esttico do gosto, enquanto os que assentam na base 
da experincia manifestam . seu empirismo. A beleza, no caso dos primeiros, seria indistinguvel do bom, ao passo ' que no caso dos segundos seria indistinguvel 
do agradvel. Tal como em CRP, a posio crtica  estabelecida por meio de um contraste entre posies opostas sob outros aspectos: aqui, entre racionalismo e empirismo, 
ali, entre dogmatismo e cepticismo. Essa  montagem do cenrio para a crtica  questionada pela prpria descrio de Kant da pri- ; meira crtica em VPM; nessa 
verso, o racionalismo apresenta-se como o termo privilegi-' ado em oposio ao empirismo; a afirmao de que todo o conhecimento devia ser; derivado somente da 
experincia "introduziria um empirismo de filosofia transcendental; e uma negao do seu racionalismo" (VPM p.275, p.83).
razo [logos/nous, ratio, Vernunft] ver tambm ABSOLUTO; ENTENDIMENTO; INCONDI-CIONADO; INTUIO; PRINCPIO; UNIDADE                                             
i
A natureza da razo  um dos temas centrais da filosofia e tem provocado contnua con-! trovrsia durante quase dois milnios e meio. Existem, porm, alguns pontos 
fixos nessa; controvrsia que ajudam a situar a contribuio de Kant. O primeiro, que  claramente evidente em Aristteles,  uma tendncia para transitar do ato 
de raciocnio para um poder ou propriedade da alma que raciocina. Essa distino entre raciocnio e razo est; presente ao longo de toda a histria da filosofia; 
 evidente na distino de Santo Toms! de Aquino entre o poder ou faculdade que  a razo, e a razo como argumentao, assim como nas descries cartesianas da 
razo no Discurso do mtodo como "o poder de jul- [ gar corretamente... naturalmente igual em todos os homens" (1637, p.4) e como "os sim-
razo             271
pies raciocnios a respeito das coisas que se lhes apresentam" (p.9). Uma outra caracterstica permanente da razo  o seu carter elevado e a associao com a viso 
e a luz. Aristteles descreveu-a por meio da analogia: "como a viso  para o olho, assim a razo  para a alma" (1941, 108a, 10). Descartes descreve-a com freqncia 
em termos da "luz natural" da alma. A posse de razo  tambm universalmente aceita como a caracterstica definidora de um ser humano e a principal diferena especfica 
entre ele e os animais ou, nas palavras de Descartes, " a nica coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais" (p.4).
O uso da razo por Kant pode ser situado, de um modo geral, dentro desses parmetros de debate, embora faa alguns desvios significativos em relao  tradio. 
Na FS pr-crtica,  a razo que distingue os seres humanos dos animais, e consiste na faculdade fundamental de julgar. Essa faculdade de julgar  a "razo" lato 
sensu mas, dentro dessa definio, Kant segue a distino wolffiana entre entendimento e "razo" stricto sensu. Observa ele que "ambas consistem na capacidade de 
julgar", mas descreve o entendimento como a faculdade de distinguir o conhecimento e servir de intermedirio ao juzo, e a razo stricto sensu como "a faculdade 
de raciocnio silogstico", por meio do qual "se deduz uma concluso" (FS p.59, p.103). Essas distines entre razo nos sentidos lato e estrito e entre razo e 
entendimento so incorporadas  CRP, como na noo de que cabe  razo definir o que  apropriado para os seres humanos.
Embora Kant mantenha muitas caractersticas da distino wolffiana entre FS e CRP, ele amplia de forma impressionante o mbito e o significado de razo. Isso resultou, 
em grande parte, de sua explorao sistemtica das relaes entre razo humana e liberdade humana. O alinhamento de razo e liberdade tinha sido proposto por humanistas 
da Renascena como Pico delia Mirandola e Pomponazzi (ver Cassirer e outros, 1948), mas foi Kant quem revelou que razo e liberdade podiam, com igual facilidade, 
sustentar-se ou arruinar-se mutuamente. Esse insight inspirou a sua distino entre as aplicaes tericas e prticas da razo. Desde o ponto de vista da razo, 
os seres humanos esto livres da determinante influncia do mundo sensvel; isso permite-lhes agir de acordo com princpios que so independentes da natureza, mas 
tambm os encoraja a formular infe-rncias a respeito do mundo que excedem os limites do entendimento. A razo aliada  liberdade  excessiva, procurando explorar 
o incondicionado, quebrando todos os limites, "porquanto est no poder da liberdade exceder todo e qualquer limite que se lhe queira atribuir" (CRP A 317/B 374). 
As implicaes desse poder para a razo terica so discutidas em CRP sob o ttulo de "Dialtica transcendental", ao passo que as muito distintas implicaes prticas 
e estticas so examinadas em CRPr e na "Analtica do sublime" em CJ.
Em CRP, Kant prope duas taxonomias das faculdades do conhecimento que formam a razo no sentido amplo. A primeira  a diviso das "faculdades superiores do conhecimento", 
a qual coloca a razo depois do entendimento e da faculdade de julgar e restringe a sua atividade  realizao de "raciocnios" (CRP A 13 l/B 169. Na segunda ta-xonomia, 
a razo  colocada depois da percepo e do entendimento, e serve para unificar o pensamento;  nessa taxonomia que Kant se apoia do comeo ao fim da "Dialtica 
transcendental" (a primeira torna-se proeminente na introduo de CJ). Com base na ltima, Kant prope duas trajetrias do conhecimento. A primeira, do fim para 
o princpio, "comea pelos sentidos, da passa ao entendimento e termina na razo" (A 298/B 355). A

272            razo
segunda, de cima para baixo, parte da distino entre a espontaneidade da razo e do entendimento e a receptividade da sensibilidade; comea por examinar "os seus 
objetos exclusivamente  luz de idias, determinando a partir da o entendimento, o qual, por sua vez, faz um uso emprico dos seus conceitos (tambm puros, sem 
dvida)" (A 547/B 575). Em ambos os casos, a razo serve para unificar o conhecimento, mas o modo como o faz difere da unificao do mltiplo da intuio levada 
a efeito pelo entendimento.
O entendimento garante "a unidade de aparncias mediante regras", ao passo que a razo "assegura a unificao das regras do entendimento mediante princpios" (CRP 
A 302/B 359). Cada faculdade unifica objetos distintos de maneiras distintas, aplicando-se o entendimento a unificar o mltiplo da intuio, enquanto a razo se 
dedica ao "entendimento, para conferir ao mltiplo dos conhecimentos desta faculdade uma unidade apri-ori por meio de conceitos, unidade que pode chamar-se unidade 
de razo e  de espcie totalmente diferente da que pode ser realizada pelo entendimento" (CRP A 302/B 359). Embora as respectivas unidades de razo e entendimento 
sejam muito diferentes, Kant adota uma estratgia para deduzir os diversamente chamados "conceitos", "princpios" e "idias" da razo, anloga  empregada no tocante 
aos conceitos do entendimento ou categorias. Ou seja, ele passa do emprego lgico do juzo para as "funes de unidade" que as informam: no caso do entendimento, 
ele passa da tbua de juzos para a tbua de categorias; no caso da razo, segue num percurso anlogo desde a forma de inferncias ou silogismos at s idias (CRP 
A 32 1/B 378). A aplicao da analogia da deduo  razo leva a que se procure, "em primeiro lugar, um incondicionado da sntese categrica num sujeito, em segundo 
lugar, um incondicionado da sntese hipottica dos membros de uma srie e, em terceiro lugar, um incondicionado da sntese disjuntiva das partes num sistema" (CRP 
A 323/B 379). Das funes lgicas da razo nas formas do silogismo, Kant deriva tais idias incondicionadas, transcendentais ou absolutas, da razo como um "sujeito" 
absoluto ou "alma", um "objeto" absoluto ou "mundo", e um "ideal" absoluto ou Deus. Cada uma dessas idias de razo tem sua correspondente apresentao cientfica 
em psicologia, cosmologia e teologia.
A razo, contrariamente ao entendimento, no est vinculada s condies de uma experincia possvel mas "refere-se sempre apenas  totalidade absoluta na sntese 
das condies e s termina no absolutamente incondicionado, ou seja, incondicionado em todos os sentidos" (CRP A 326/B 382). O impulso da razo para a totalidade 
 sempre, na prtica, "limitado e defeituoso", precisamente porque ela "nunca est confinada dentro de limites determinveis" (A 328/B 385). Ao libertar-se das limitaes 
da experincia,  levada a considerar objetos tais como a alma, o mundo e Deus, como se fossem objetos de uma experincia possvel. Isso conduz a razo para um emaranhado 
de paralogismo, antinomia e ideais constitutivos. A proposta de Kant para melhorar essa situao tem dois aspectos gerais: o primeiro  reconhecer que as idias 
da razo so apenas princpios regulativos e no constitutivos (A 509/B 537); o segundo  reconhecer que os limites enfrentados pelo uso especulativo da razo quando 
na presena de "o que " no valem para o uso prtico da razo quando determina o que "deve ser" (A 547/B 575).
Na "Dialtica transcendental" de CRP e em toda a CRPr, Kant argumenta que por muito que as "razes naturais", os "impulsos sensveis" e as "inclinaes" possam influenciar 
a vontade de agir, "nunca podero produzir um dever" (CRP A 548/B 576). Este tem de ser absoluto e incondicionado, e s pode ser ditado pela razo. Alm disso, so-
realidade            273
mente se for assim dada pode a ao ser livre e autnoma, determinada no por princpios heternomos mas pelas leis estabelecidas pela razo. Kant insiste em que 
a razo "no segue a ordem das coisas, tais quais se apresentam na aparncia, mas com inteira espontaneidade criou para si uma ordem prpria, segundo idias s quais 
adapta as condies empricas e segundo as quais considera mesmo necessrias aes que ainda no aconteceram e talvez no venham a acontecer" (CRP A 548/B 576). 
A inseparabilidade da razo e da liberdade  defendida em quase todas as pginas de CRPr e habilita Kant a traduzir as trs idias teoricamente injustificveis de 
razo para os praticamente justificados "postulados da razo prtica pura" de imortalidade, liberdade e a existncia de Deus. O sentimento de razo introduzido por 
Kant como respeito pela lei  o mesmo que sublinha a experincia do sublime discutida em CJ. O respeito  a definido como "o sentimento da inadequao da nossa 
capacidade para a consecuo de uma idia que para ns lei", neste caso, "uma idia que nos  imposta por uma lei da razo" (CJ 27). O sentimento do "sublime na 
natureza  o respeito pela nossa prpria determinao, mas que referimos a um objeto da natureza mediante uma certa sub-repo" (ibid.). E esse sentimento que anima 
o panegrico de Kant da liberdade e da razo no final da CRPr na forma de "acima de mim o cu estrelado; em mim a lei moral" (p. 162, p. 166), o qual poderia ter 
sido escrito trs sculos antes em Florena, e no qual se reencontram todos os temas presentes na equao humanista de razo e liberdade.
razo pura ver tambm CRTICA DA RAZO PURA
Razo pura era um termo usado por wolffianos para descrever sua filosofia. Meissner, em seu wolffiano Philosophisches Lexicon (1737), define razo pura como "um 
conhecimento completamente distinto no qual o entendimento est separado dos sentidos e da imaginao". Assim, quando Kant critica a "razo pura", ele visa essa 
forma de conhecimento e o ponto de vista filosfico dominante que a reivindicava. Isso  evidente, sobretudo, na estrutura da CRP, a qual segue criticamente de perto 
a estrutura do sistema metafsico wolffiano, com sua distino de metafsica geral (ontologia-analtica transcendental) e metafsica especial (cosmologia, psicologia 
e teologia).
razo suficiente, princpio de ver CONTRADIO; DETERMINAO
realidade [Realitt] ver tambm CATEGORIAS; EFETIVIDADE; NEGAO; ONTOLOGIA; PERCEPO; SENSAO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
Realidade  a primeira das categorias de qualidade que corresponde  funo afirmativa do juzo. A par das restantes categorias - negao e limitao -, gera os 
princpios que constituem as antecipaes da percepo. Como categoria ou "conceito puro do entendimento", a realidade  definida como "aquilo que corresponde a 
uma sensao em geral" ou "aquilo cujo conceito indica em si prprio um ser (no tempo)" (CRP A 143/B 182).  oposto pela segunda categoria da qualidade, a saber, 
a negao, a qual representa "um no-ser (no tempo)" (ibid.). Desde Descartes, os filsofos vinham concebendo a realidade como possuidora de vrios graus, como na 
noo de que a substncia possua mais realidade do que os seus acidentes. Kant usou essa qualidade da realidade para subscrever a tese da existncia de um contnuo 
entre realidade e negao, o que "faz com que toda a realidade seja suscetvel de representao como um quantum" (CRP A 143/B 183). Essa

274            realismo
qualidade  ento alargada de modo a incluir a sensao ou a representao de objetos na
intuio.
A correspondncia da categoria de realidade com a sensao  concretizada por meio da percepo. Kant escreve, a dada altura, que "o elemento material ou real, esse 
algo que deve ser intudo no espao, pressupe necessariamente a percepo" (CRP A 373). Essa percepo, porm, no  para ser entendida como pr-categorial mas 
como um princpio ou "antecipao da percepo". O uso por Kant do termo epicurista/jro/ep-sis ou "antecipao" permite-lhe situar as antecipaes da percepo entre 
o sentido e a "conscincia apriori formal": a percepo no  anterior  categoria de realidade, con-firmando-a de certo modo, mas requer que a categoria seja dada 
para que ela possa ocorrer. O "real" intudo no espao pode, com efeito, pressupor a percepo, mas a prpria percepo s  possvel quando antecipada pelo princpio 
de que "o real, que  um objeto de sensao, tem uma grandeza intensiva, isto , um grau" (CRP B 207). Kant admite que isso deve "parecer um tanto estranho" e aponta 
como fonte da estranheza a questo de "como pode o entendimento de modo apriori pronunciar-se sinteticamente sobre as aparncias" (CRP B 217).
A razo para a complexa maquinaria que relaciona a categoria da realidade com a sensao em geral  a necessidade de provar que a "ausncia absoluta de real na intuio 
sensvel nunca pode ser percebida" e que, por conseguinte, a prova de um espao ou tempo vazio "nunca pode ser derivada da experincia" (CRP B 214). Essa prova  
desejvel como um apoio na argumentao contra a realidade absoluta do espao e do tempo. A realidade das formas de intuio no pode ser separada da realidade dos 
objetos da experincia; eles no pertencem, insiste Kant, "pura e simplesmente s coisas, como sua condio ou propriedade, sem atender  forma de nossa intuio 
sensvel" (CRP A 36/B 52). A categoria de realidade s  aplicvel, portanto, como realidade emprica no espao e no tempo, e nunca absolutamente aos prprios espao 
e tempo.
Uma outra dimenso crtica da categoria de realidade  revelada na "Dialtica transcendental", onde Kant argumenta contra a eliso de realidade e existncia. "A 
palavra 'realidade', que no conceito da coisa soa diferentemente da palavra 'existncia' no conceito do predicado" (CRP A 597/B 625) no pode, de fato, ser aplicada 
a algo que no  um possvel objeto da experincia, como Deus. Se fosse assim usada, estaria sendo ampliada, de forma ilegtima, para alm das fronteiras de sua 
correta jurisdio, as quais so estabelecidas pelos limites da experincia possvel.
Embora Kant, de um modo geral, confine rigorosamente a realidade aos limites da experincia possvel, ele alude, num ponto de CRP, a uma dimenso extracategorial 
do conceito. Isso ocorre no contexto da discusso da afirmao e negao transcendentais, quando ele identifica a primeira com a "realidade", "porque s mediante 
ela e unicamente at onde ela alcana os objetos so algo (coisas)" (CRP A 574/B 602). Nesse contexto, a realidade  uma idia da razo, um "substrato transcendental" 
da "realidade de tudo (pm-nitudo realitatas)" (A 575/B 604). Com essa viso de realidade, Kant amplia o conceito muito alm de suas fronteiras categoriais, embora 
o mantenha, no entanto, como idia da razo dentro do mais vasto projeto crtico.
realismo ver tambm ESPAO; IDEALISMO; TEMPO
Em CRP, Kant explora a equivocao recebida entre as acepes ontolgica e epistemo-
lgica de realismo para estabelecer uma oposio dialtica de realismo transcenden-
recognio             275
tal-idealismo emprico e idealismo transcendental-realismo emprico. Em sua acepo ontolgica, realismo denota a primazia platnica das formas ou idias sobre determinadas 
coisas. No seu sentido epistemolgico, implica um conhecimento direto e acurado do mundo externo. Em conseqncia, Kant caracteriza o realismo transcendental em 
CRP como a crena em que "tempo e espao [so] algo dado em si, independentemente da nossa sensibilidade" e que as aparncias exteriores so "coisas-em-si-mesmas" 
(A 369, v"er tambm A 491 /B 519). Kant mostra, pois, que tal crena na realidade transcendental de objetos dos sentidos torna difcil "estabelecer sua realidade" 
em casos particulares. Da resulta que o realismo transcendental provoca o idealismo emprico. Isso ocorre por contraste com o idealismo transcendental, o qual sustenta 
que as aparncias so constitudas por estruturas subjetivas da experincia mas que, dentro dessas estruturas, a realidade " imediatamente percebida" (A 371), para 
dar origem ao realismo emprico.
receptividade ver tambm AFETO; ESPONTANEIDADE; INTUIO; OBJETO; SENSIBILIDADE
A receptividade envolve a "capacidade [do sujeito] para ser afetado por objetos" e precede necessariamente todas as distintas intuies de objetos (CRP A 26/B 42). 
Forma uma das duas fontes de conhecimento identificadas no comeo da lgica transcendental, a saber, a "capacidade para receber as representaes (receptividade 
das impresses)", a qual  acompanhada pela "espontaneidade dos conceitos" (A 50/B 74). A receptividade per se produz apenas "o mltiplo de representaes [o qual] 
pode ser dado numa intuio que  puramente sensvel" de acordo com a forma de intuio ou "o modo como o sujeito  afetado" (CRPB 130). Entretanto, em combinao 
com a espontaneidade, permite a gerao de conhecimento. Descrever o carter dessa combinao  o desafio filosfico bsico enfrentado em CRP, particularmente porque 
Kant recusou a opo de subordinar a receptividade  espontaneidade ou esta quela, seja num empirismo que abstrairia conceitos de intuies, seja num racionalismo 
que veria as intuies como conceitos confu-samente percebidos. Entretanto, no decorrer da anlise, a distino entre receptividade e espontaneidade desfaz-se repetidas 
vezes, sobretudo nas antinomias. A, Kant acha que no pode descrever a receptividade sem admitir os resultados da espontaneidade do entendimento e o postulado de 
um objeto transcendental. Ele descreve, primeiro que tudo, "a faculdade da intuio sensvel" como sendo "propriamente apenas uma simples receptividade que nos torna 
capazes de ser afetados de certo modo por representaes", e prossegue ento para assinalar, primeiro, que essas representaes esto mutuamente relacionadas em 
termos das formas de intuio e, depois, como determinveis "de acordo com a unidade da experincia" (CRP A 494/B 522). Somente na medida em que atingiram esse nvel 
podem essas representaes ser denominadas objetos, e a causa da representao desses objetos atravs da sensibilidade pode ser identificada como um correlato in-cognoscvel 
da receptividade - por outras palavras, o "objeto transcendental" ou o "algo que corresponde  sensibilidade considerada como uma receptividade" (ibid.).
reciprocidade ver ANALOGIAS DA EXPERINCIA; COMUNIDADE; DISJUNO
recognio ver APREENSO; APRESENTAO; SNTESE

276          reflexo
reflexo [berlegung] ver tambm ABSTRAO; APREENSO; COMPARAO; CONCEITOS DE REFLEXO; JUZO REFLEXIVO
Kant analisa a reflexo nos trs contextos distintos de epistemologia, formao de conceitos e juzo. As trs anlises esto claramente ligadas, embora Kant nunca 
tematizasse a sua conexo. A discusso da percepo em A acompanha Leibniz quando distingue entre percepo e reflexo, com esta ltima descrita por Leibniz como 
conscincia da percepo ou "apercepo" (Leibniz, 1765, p.134). Kant refina a explicao de Leibniz, dividindo a autoconscincia ou apercepo em apreenso e reflexo, 
com a primeira indicando a conscincia da receptividade de uma percepo e a segunda a conscincia da espontaneidade da concepo. A apreenso  descrita como apercepo 
"emprica", caracterizada pela conscincia do "sentido interior", ao passo que a reflexo  apercepo "pura", caracterizada pela conscincia do entendimento (A 
5). Embora nessa explicao a reflexo seja conscincia da espontaneidade da concepo, a verso em L est mais prxima de Leibniz ao situar a reflexo no prprio 
ato de percepo.
Na discusso da formao de conceitos em L, a reflexo junta-^e  comparao e  abstrao como um dos atos lgicos atravs do qual o entendimento gera conceitos. 
Ao converter uma representao num conceito, o entendimento primeiro compara-a com outras "em relao  unidade de conscincia". Depois, reflete sobre numerosas 
representaes a fim de descobrir "como elas podem ser compreendidas numa conscincia" e, finalmente, abstrai ("elimina") "tudo o mais em que dadas apresentaes 
diferem" (L p.592). Kant d um exemplo da formao do conceito de rvore. Primeiro, as representaes de numerosas rvores so comparadas para marcar suas diferenas; 
depois, so objeto de uma reflexo sobre o que elas tm em comum, no decorrer da qual diferenas insignificantes, como tamanho e formato, so eliminados da considerao.
Em CRP, Kant divide a reflexo em verses lgica e transcendental. A, a reflexo lgica corresponde ao ato de "comparao" discutido em L. Assim, os conceitos de 
reflexo (identidade e diferena, concordncia e oposio, interior e exterior, matria e forma) podem ser usados comparativamente num ato de reflexo lgica para 
comparar conceitos, a fim de descobrir sua concordncia, diferena, etc. Tambm podem, entretanto, ser usados num ato de reflexo transcendental que apura se eles 
esto sendo referidos ou no ao entendimento ou intuio; isto , se a identidade, diferena, etc.  formal ou se "as coisas so idnticas ou diversas, concordantes 
ou opostas ..." (CRP A 262/B 318). Todo ato de juzo "requer" reflexo transcendental, ou a atribuio de uma representao  sua faculdade cognitiva apropriada. 
Isso  uma forma de juzo anterior ao juzo, uma que no consiste em referir um conceito a uma intuio mas em estabelecer a qual das duas faculdades uma dada representao 
pertence e as orientaes fundamentais de juzo expressas nos conceitos de reflexo. Esses so os modos bsicos de juzo que situam as representaes na sensibilidade 
e no entendimento.
O comparecimento da reflexo em cada um desses contextos sugere que ela pode revestir-se de um significado fundamental na filosofia de Kant. Acreditavam certamente 
ser esse o caso aqueles contemporneos de Kant, como o seu lexicgrafo G.S.A. Mellin (1797), que viam toda a filosofia crtica como uma descrio da origem do conhecimento 
humano na arte da reflexo. A reflexo  um ato fundamental da alma humana e a condio indispensvel para um juzo. O apoio para esse ponto de vista pode ser encontrado 
em uma das primeiras descries de Kant, em FS, da faculdade do juzo em termos da reflexo (ver
regra           277
FS p.60, p.104) e na afirmao feita em CJ de que o ato de juzo reflexivo era, num certo sentido, anterior ao juzo determinante (iv). Provas contrrias podem, 
entretanto, ser fornecidas pela discusso sistematicamente oblqua do conceito por parte de Kant.
A reflexo foi central para o desenvolvimento idealista alemo e sua crtica de Kant. Fichte baseia integralmente os Princpios fundamentais da doutrina da cincia 
(1794) no ato de reflexo, e a exposio das iluses e inverses da reflexo forma o ncleo da lgica da essncia na Cincia da lgica de Hegel (1812). Na filosofia 
europia do sculo xx, a crtica da reflexo participou de uma desconfiana profundamente enraizada das filosofias baseadas na autoconscincia de um sujeito unificado. 
Quer em suas formas psicanalticas, desconstrutivas ou ps-modernas, essas crticas parecem ser vlidas somente para o desenvolvimento do conceito por Fichte. Em 
Kant, a relao entre reflexo e o sujeito de reflexo , pelo contrrio, extremamente nuanada - no fica claro, em absoluto, se a reflexo  um ato de um sujeito 
ou se o sujeito nada mais  do que um modo de reflexo -, enquanto toda a lgica de Hegel usa precisamente como tema a tortuosa relao entre a reflexo e o seu 
sujeito.
reflexo transcendental ver CONCEITOS DE REFLEXO
reforma ver CONSTITUIO; ESCRITOS POLTICOS; ESTADO; ILUMINISMO; REVOLUO
regra [Regei] ver tambm CONCEITO; ENTENDIMENTO; IDIA; IMPERATIVO; JUZO; LEI; RAZO; UNIDADE
Uma regra  definida em P como um juzo "considerado meramente como a condio da unificao de representaes dadas numa conscincia" (23) e apresenta-se como 
condio de unidade e como procedimento para a unificao. A regra que unifica determinadas representaes  dada pelo entendimento s aparncias na "ordem e regularidade 
nas aparncias... que ns prprios introduzimos" (CRP A 125) e, no entanto,  tambm descoberta por ele atravs do processo de conhecimento. O entendimento  caracterizado 
por Kant como "a faculdade das regras " (A 126). Ele no s aplica regras na unificao do mltiplo em intuio, mas  tambm "a prpria fonte dos princpios, segundo 
a qual tudo quanto possa apresentar-se-nos como objeto encontra-se necessariamente submetido a regras" (A 159/B 198). No primeiro caso, o entendimento est obedecendo 
a uma regra de procedimento para unificar o mltiplo, no segundo est propiciando as condies para a unificao. O papel do entendimento como "a faculdade que garante 
a unidade de aparncias mediante regras"  complementado pelo papel da razo, a qual "assegura a unidade das regras do entendimento mediante princpios" (A 302/B 
359). Entretanto, em cada caso, a regra da unificao funciona de forma diferente: para o entendimento, a regra  constitutiva, estabelecendo as condies da experincia 
e os objetos da experincia; enquanto para a razo, a regra  problemtica, "ao prescrever uma regresso na sria das condies de determinadas aparncias e ao impedir 
que se d um fim  regresso" (A 509/B 537).
Em sua filosofia prtica, Kant separa os dois sentidos de regra como condio e processo. Uma "regra prtica"  discutida num contexto como a condio do que devemos 
fazer - " sempre um produto de razo, porque prescreve a ao como um meio para um efeito que  o seu propsito" (CRPr p.20, p. 18) - e num outro como o que  aplicado 
numa "regra de habilidade" a fim de se atingir um determinado fim (FMC p.416,

278             reino de Deus
p.26). A distino entre as espcies de regra  tambm evidente em CJ na discusso de originalidade e gnio. A produtividade original do gnio "d a regra  arte" 
ao produzir obras "para as quais no pode ser dada nenhuma regra determinada" (CJ 46). A regra, neste caso, fornece a condio para obras de arte; no pode converter-se 
num procedimento ou regra de habilidade, uma vez que "no pode ser fixada numa frmula e servir como preceito" (47). Tornar a regra prescritiva sufocaria a originalidade 
e converteria os produtos do gnio em objetos de servil imitao. Antes, a regra discernida nessas obras deve estimular mais obras, "a regra deve ser extrada do 
desempenho, isto , do produto, para que outros possam pr  prova seu prprio talento" (47). Essa noo de regra como algo produtivo e cannico que serve como 
condio para novas obras e descobertas, assim como provedora de uma experincia formativa para o sujeito,  contrastada com a noo que v a regra como mero procedimento 
para produzir efeitos idnticos. A distino desenvolvida em CJ entre o original e a regra imitativa pode, na verdade, ser proveitosamente usada numa releitura da 
discusso de regras nas primeiras duas crticas, onde ela imprime certa lgica  distino entre a regra como condio para a unidade e a regra como procedimento 
para a unificao.
reino de Deus ver IGREJA
reino dos fins [Reich der Zwecke] ver tambm ANALOGIA; COMO-SE; FIM; IMPERATIVO CATEGRICO; LIBERDADE; MXIMA; MUNDO INTELIGVEL
O reino dos fins  apresentado em FMC como conseqncia do conceito segundo o qual todo ser racional deve considerar-se como legislador universal para todas as mximas 
da sua vontade" (FMC p.433, p.39). Por "reino"  entendida uma "ligao sistemtica de vrios seres racionais por meio de leis comuns", cada uma das quais determina 
os fins de acordo com a sua "validade universal" (ibid.). Um ser racional  membro desse reino "quando  nele um legislador universal, se bem que esteja tambm submetido 
a essas leis; ou, se for o seu soberano, no estar, como legislador, submetido  vontade de outro" (FMC p.433, p.40). O reino dos fins  um mundo "ideal" ou "inteligvel" 
que s pode ser usado de modo regulativo, como um princpio "como-se", para testar mximas prticas. A moralidade, diz Kant, consiste na "relao de toda a ao 
com aquela legislao somente por meio da qual se torna possvel um reino dos fins", ou o princpio para atuar somente de acordo com mximas que tambm podem ser 
leis universais, ou seja, de tal sorte que a vontade possa ver-se a si mesma como legisladora (FMC p.434, p.40). Isso  descrito mais tarde como o ser racional agindo 
"como se fosse sempre, atravs de sua mxima, um membro legislador no reino universal dos fins" (p.438, p.43). Em CJ, o reino dos fins serve como um importante elo 
na prova tico-teolgica da existncia de Deus. Deus  "o soberano legislador num reino moral dos fins" (CJ 86) e da podem ser derivadas tais qualidades transcendentais 
como oniscincia, onipotncia, eternidade e onipresena.
relao ver CATEGORIAS
relaes internacionais ver FEDERALISMO; GEOGRAFIA; GUERRA; HISTRIA; PAZ;
POLTICA
Religio dentro dos limites da simples razo, A             279
religio ver DEUS; IGREJA; RELIGIO DENTRO DOS LIMITES D SIMPLES RAZO, A; TEODICIA
Religio dentro dos limites da simples razo, A O texto de Kant sobre teologia filosfica pode ser lido como um suplemento  CRPr. Nele estuda a religio de acordo 
com a "razo pura" ou os "princpios apriori sem ajuda", uma esfera de investigao que ele representa como um crculo concntrico menor dentro dos crculos mais 
vastos da f e da experincia histrica e bblica da revelao. Escolheu como seu ponto de partida a moralidade e sua noo de um ser humano livre que a si mesmo 
outorga a lei. A moralidade no requer um ser supremo para ser vlida, mas "conduz inevitavelmente  religio" na medida em que "chega  idia de um poderoso legislador 
moral, exterior  espcie humana, para cuja vontade  esse o fim terminal (da criao), o qual pode e deve ser, simultaneamente, o fim terminal do homem" (RL, p.6. 
p.5-6). O texto explora as implicaes religiosas dessa concepo do sumo bem mediante uma anlise das relaes entre os princpios bom e mau na natureza humana. 
Assim, o Livro I discute o "mal radical" ou as relaes entre liberdade humana e o mal. Isso conduz ao contedo do segundo livro, o qual apresenta o conflito dos 
princpios bom e mau. Kant distingue a a sua posio da dos es-ticos, que viram a "luta moral" como sendo travada entre o dever e as inclinaes; para ele, a luta 
desenrola-se, antes de tudo, entre as mximas livremente adotadas que determinam a vontade. O Livro III considera as implicaes teolgico-polticas dessa noo 
de luta entre bom e mau e distingue entre o "estado jurdico-poltico" e o "estado ti-co-civil", o qual s  concebvel na forma de uma igreja. Kant descreve os 
requisitos de uma tal igreja numa aplicao particularmente inspirada dos quatro ttulos da tbua de categorias: em termos de quantidade, deve ser "universal"; de 
qualidade, pura; de relao, liberdade por analogia com uma repblica; de modalidade, a "imutabilidade de sua constituio" (RL p. 100-1, p.93). O quarto e ltimo 
livro distingue entre a igreja baseada na "religio pura da razo" e as igrejas histricas baseadas em estatutos e interpretaes autoritrias das escrituras.
Apesar de sua exibio de falta de confiana em si mesmo, caracterizada pela hesitao em afirmar-se, RL marcou um significativo desafio no s  religio organizada 
mas tambm s faculdades de teologia na Universidade. Na atmosfera do regime clerical de Frederico Guilherme II, dedicado a eliminar o Iluminismo incentivado por 
Frederico, o Grande (que faleceu em 1786). RL teve uma recepo glida por parte do censor. O plano inicial de Kant era publicar a obra em fascculos na Berlinische 
Monatsschrift. A primeira seo recebeu o imprimatur do censor de filosofia e foi publicada em abril de 1792. Para as sees subseqentes, porm, foi consultado 
o censor de teologia. Este recusou o imprimatur e sua deciso foi confirmada no recurso levado  Comisso de Censura e ao rei, resultando que as sees restantes 
no puderam ser publicadas na Berlinische Monatsschrift. A reao de Kant foi submeter o texto na ntegra a uma faculdade de teologia (provavelmente em Knigsberg), 
a fim de provar se ele realmente invadia o campo da teologia. Tendo recebido o veredicto favorvel de que tal no ocorria, despachou o texto para a faculdade de 
filosofia da Universidade de Iena, onde recebeu o imprimatur. A obra, como um todo, foi ento liberada para publicao em 1793.0 episdio  indicativo das condies 
polticas em que Kant esteve trabalhando durante a dcada de 1790 e do modo como elas afetaram o desenvolvimento de seu pensamento. Uma

280            repouso
conseqncia afortunada desse episdio foi o livro CF, o qual foi concebido como uma resposta a esses acontecimentos.
repouso ver MOVIMENTO
representao [repraesentatio, Vorstellung] ver APRESENTAO; CATEGORIAS; CONCEITO; CONHECIMENTO; IDIA; INTUIO; PERCEPO; SENSAO Em CRP, Kant define representaes 
como "determinaes internas do nosso esprito, nesta ou naquela relao de tempo" (A 197/B 242). Essa definio ostensivamente modesta encobre a importncia central 
do conceito de representao na filosofia crtica. Uma melhor idia de seu valor pode ser obtida atravs da classificao de representaes que se apresenta na parte 
final da CRP. O gnero "representao em geral" est dividido em representaes com e sem conscincia. Embora nos mais leibnizianos escritos pr-crticos Kant se 
ocupe freqentemente de representaes inconscientes (GN p.191, p.228-9), em CRP ele est somente interessado nas primeiras, e prope uma diviso das representaes 
conscientes que inclui todos os elementos de sua explicao de conhecimento e experincia. As representaes com conscincia so denominadas percepes, e estas 
esto divididas em sensaes, ou aquelas que "se referem somente ao sujeito como modificao do seu estado", e "percepes objetivas" ou conhecimentos (CRP A 320/B 
376). Kant criticara antes o ponto de vista leibniziano de que a sensibilidade era a "representao confusa de coisas" e argumentou, pelo contrrio, que a sensibilidade 
e suas sensaes eram "a aparncia de algo e o modo como somos afetados por esse algo" (A 44/B 51). Tal percepo subjetiva  "tot coelo diferente" da percepo 
objetiva.
A percepo objetiva  ainda dividida em intuio e conceito, relacionando-se a primeira "imediatamente com o objeto e  singular, enquanto a segunda refere-se-lhe 
de modo mediato, por meio de um sinal que pode ser comum a vrias coisas" (CRP A 320/B 377). Ambas so produzidas por um "ato de espontaneidade", com a intuio 
sendo "dada antes de todo o pensamento" (B 132); mas ao passo que a intuio fornece um campo no qual o mltiplo da intuio pode aparecer como uma representao, 
 o conceito, porm, que sintetiza essas representaes em experincia e conhecimento. A aplicao de um conceito a uma intuio em juzo no  outra coisa seno 
a "representao de uma representao" de um objeto (A 68/B 93). O que  mais, o "eu penso" que permite a ocorrncia de tal juzo  descrito como "uma representao 
que deve ser capaz de acompanhar todas as outras representaes" (B 12). Os prprios conceitos so ainda distingui-dos segundo sejam empricos ou puros; os conceitos 
puros, que Kant designa aqui como "noes" (categorias em outros lugares), so descritos como tendo sua "origem no simples entendimento" (A 320/B 377). Alm dessas 
representaes especiais, existe ainda a classe de idias ou "conceitos da razo", que so "noes" que transcendem a possibilidade de experincia.
Embora a representao seja crucial para a explicao kantiana do conhecimento e da experincia, h pouca discusso explcita do que est sendo representado, por 
quem (ou por que) e de que maneira. Kant parece sugerir em CRP que o Gemt possui um "poder representativo" que est disposto passivamente na "capacidade de receber 
representaes" e ativamente na "espontaneidade [na produo] de conceitos" (CRP A 50/B 74). A natureza desse poder de representao complica-se ainda mais em CJ, 
onde Kant declara
revoluo             281
que "todas as representaes dentro de ns, no importa se, de um ponto de vista objetivo, so meramente sensveis ou totalmente intelectuais, ainda so subjetivamente 
asso-civeis  satisfao ou dor, por mais imperceptveis que estas possam ser" (CJ 29). Elas tm esse efeito por causa de sua "influncia sobre o sentimento de 
vida" e sua contribuio para "promover ou inibir as foras vitais [Lebenskrfte]" (ibid.). Com isso, toda a teoria da representao proposta em CRP  situada no 
mbito de uma explicao do prazer e da filosofia epicurista de vida que est desenvolvida nas entrelinhas de CJ. A associao entre representao e prazer corpreo, 
sugerida por Kant em CJ, pode contribuir muito para explicar por que motivo a natureza da prpria representao, em vez de meramente a sua taxonomia, permaneceu 
relativamente inexplorada em CRP.
reproduo ver SNTESE
repblica tica ver IGREJA
respeito/reverncia [Achtung] ver tambm EXEMPLO; FILOSOFIA PRTICA; INCENTIVO; LEI; PESSOA; REINO DOS FINS; SUBLIME
Kant define respeito em CJ como o "sentimento da inadequao de nossa capacidade para a consecuo de uma idia que  lei para ns" (27), embora use o termo de 
muitas e distintas maneiras. Em CJ, por exemplo, o sentimento do sublime na natureza " de respeito [Achtung] pela nossa prpria vocao, mas que atribumos aum 
objeto da natureza mediante uma certa sub-repo" (ibid.). Neste caso, Achtung deveria ser traduzido, de acordo com a sugesto de Kant em CRPr (p.77, p.79) como 
o sentimento de admirao ou o afeto de estupefao. Em CRPr, o "sentimento moral" de respeito  produzido unicamente pela razo, e nada tem de patolgico; serve 
apenas como um incentivo para fazer da lei moral a nossa mxima de ao. Entretanto, mesmo nesse caso  importante distinguir entre o respeito propriamente dito 
e o respeito atribudo a pessoas por "uma certa sub-repo". O respeito pela nossa prpria vocao, a qual foi atribuda  natureza e convertida em fonte da admirao 
e estupefao que constitui o sentimento do sublime, tambm pode ser atribudo a pessoas. Neste caso, Achtung pode ser traduzido como respeito por pessoas como fins 
em si, um respeito "que sempre se aplica somente a pessoas, nunca a coisas" (p.77, p.79). Tambm isso, porm,  semelhana do sublime,  somente uma sub-repo do 
Achtung ou reverncia pela lei: o respeito que temos por uma pessoa  "realmente [reverncia] pela lei, a qual coloca o seu exemplo diante de ns" (p.78, p.81).
retribuio ver JUSTIA
reverncia ver RESPEITO
revoluo ver tambm CONSTITUIO; ESCRITOS POLTICOS; ESTADO; ILUMINISMO Embora em RPE, Kant veja a revoluo como pondo, potencialmente, "um fim ao despotismo 
autocrtico e  opresso rapace e vida de poder" (p.36, p.55), tambm a considerou uma fonte potencial de novos preconceitos que, "como aqueles que substituram, 
serviro como trela para controlar a grande massa no pensante" (ibid.). Para a mudana social e a expanso do pensamento esclarecido, ele no deposita sua f na 
mudana institucional mas no desenvolvimento de um pblico esclarecido e de uma "verdadeira refor-

282            revoluo copernicana
ma no pensamento". Essa posio reformista  instigada ainda com maior veemncia em MC, onde Kant se recusa a favorecer um "direito  resistncia" (p.320, p.131). 
Se a mudana constitucional  necessria, deve ser executada "somente atravs da reforma pelo prprio soberano, e no pelo povo e, por conseguinte, no atravs da 
revoluo" (p.322,
P-133).                                                                                                    .          .        ,
Entretanto, a reao de Kant s revolues do seu tempo foi muito mais equivoca do que se poderia esperar de seus comentrios tericos. Foi um caloroso adepto da 
Revoluo Americana e sua reao  Revoluo Francesa foi extremamente dbia. Em CJ 65, seus comentrios sobre "uma transformao total, recentemente empreendida, 
de um grande povo num Estado", so de inteiro apoio  Revoluo Americana; em CF, alude a uma "simpatia prxima do entusiasmo" que empolga os espectadores da Revoluo 
Francesa, a qual envolveu a "disposio moral no seio da raa humana" (p.85, p. 182). A "causa moral" a em ao tem dois aspectos: o primeiro  o "direito de todo 
o povo a dar-se uma constituio civil" e o segundo, a contribuio de uma constituio republicana para a paz. Entretanto, numa nota de p de pgina, Kant insiste 
em que esses comentrios no atribuem ao povo que vive sob constituies monrquicas o direito de mud-las. Em MC, a posio de Kant  ainda mais fortemente declarada, 
com o "sentimento moral" dos espectadores da revoluo transformando-se em horror diante do espetculo da execuo do monarca, a qual, diz ele, " como se o Estado 
cometesse suicdio" (MC p.321, p. 132). Talvez seja possvel ler uma certa coerncia nesses comentrios, ou atribuindo as diferenas s reaes de Kant em face das 
diferentes fases da revoluo, ou mesmo vendo-o como um jacobino interessado em dissimular seus traos. O que parece mais provvel, entretanto,  que ele tenha permitido 
que suas posies fossem testadas, e alteradas, em resposta a eventos histricos.
revoluo copernicana A "revoluo" foi descrita por Nicolau Coprnico na Introduo do seu livro Das revolues dos orbes celestes (1543) como a "hiptese" "que 
pe a Terra em movimento e um Sol imvel no centro do universo". Tentou explicar as aparncias de movimento planetrio substituindo uma estrutura explanatria ptolemaica 
geo-cntrica por uma heliocntrica, embora mantendo a maquinaria ptolemaica de epiciclos e movimento celestial circular. No prefcio da Segunda Edio de CRP, Kant 
descreveu sua filosofia crtica como desenrolando-se em conformidade com "a hiptese primria de Coprnico". Enquanto a metafsica antes admitia que "o nosso conhecimento 
devia regular-se pelos objetos", agora "devemos experimentar" e "admitir que os objetos devem regular-se pelo nosso conhecimento" (CRP B xvi). Assim, Coprnico, 
"no podendo continuar a explicar de modo satisfatrio os movimentos celestes enquanto admitia que toda a multido de estrelas se movia em torno do espectador, tentou 
ver se no daria melhor resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imveis". No entanto, embora a revoluo de Coprnico fosse baseada numa hiptese 
s mais tarde confirmada por Kepler, "que descobriu um meio inesperado de reduzir as rbitas excntricas dos planetas a leis determinadas", e por Newton, "que explicou 
essas leis em termos de uma causa natural universal" (IHU p.18, p.42), Kant sustenta que a sua CRP ir mais alm de Coprnico ao provar, "j no hipottica mas apodicticamente, 
a partir da natureza das nossas representaes do espao e do tempo, e dos conceitos elementares do entendimento (CRP B xxiii) que os objetos adaptam-se ao conhecimento, 
no o conhecimento aos objetos.
s
saber [Wissen] ver tambm ASSENTIMENTO; CONHECIMENTO; F; OPINIO; PENSAMENTO Juntos, saber, f e opinio constituem os trs graus de assentimento com a verdade 
de um juzo. O assentimento da f  insuficiente objetivamente mas suficiente subjetivamente, e d origem  convico; o da opinio  insuficiente em ambos os respeitos, 
enquanto o saber  objetiva e subjetivamente suficiente, e d origem  convico e  certeza (CRP A 822/B 850). Cada grau de assentimento tem seu prprio objeto 
e modalidade de juzo apropriados. O objeto de saber "responde a concepes cuja realidade objetiva pode ser provada" e so "matrias de fato" ouscibile (CJ 91). 
Incluem as "propriedades matemticas de grandezas geomtricas" e a idia prtica de liberdade; por outras palavras, "coisas ou qualidades de coisas que so suscetveis 
de ser verificadas pela experincia" (ibid.). A modalidade de juzos de saber  apodctica, ou seja, "universal e objetivamente necessria (vlida para todos)" (L 
p.571).
sensao [Empfindung] ver tambm AFETO; NIMO (GEMT); PERCEPO; REPRESENTAO
Uma sensao resulta de a faculdade de representao ser afetada pela presena de um objeto (CRP A 19/B 34).  descrita como a "matria" da aparncia e distingue-se 
da percepo, que  a sensao acompanhada de conscincia, embora tambm seja ocasionalmente descrita como a "matria" da percepo. Tambm se apresenta (em Dl 4) 
como matria da sensibilidade, a qual  complementada por sua forma ou "coordenao".
sensibilidade [Sinnlichkeit] ver tambm ANFIBOLOGIA; ENTENDIMENTO; ESPAO E TEMPO; ESTTICA; IMPRESSO; INTUIO; RECEPTIVIDADE
A doutrina da sensibilidade de Kant, a qual desempenha um papel crucial na filosofia crtica,  um incmodo amlgama de numerosas formas de argumento mutuamente 
incompatveis. Os remotos precedentes histricos da posio de Kant so os argumentos de Plato e Epicuro (Aristteles est surpreendentemente ausente nesse contexto), 
com Plato representando a relegao "intelectualista" da sensibilidade para os domnios da passividade e iluso, e Epicuro a escola sensualista, a qual "sustentava 
que a realidade  exclusivamente encontrada nos objetos dos sentidos" (CRP A 853/B 881). As fontes prximas das consideraes de Kant foram o que ele viu como os 
derradeiros representantes das escolas intelectualista e sensualista, a saber, Leibniz e Locke. Argumentou Kant que ambas as tendncias anularam a distino entre 
sensibilidade e o entendimento, uma ao

284            sensibilidade
subordinar a sensibilidade ao entendimento, a outra o entendimento  sensibilidade. Kant procura evitar a escolha especificando as relaes entre ambas de um modo 
que no faz uma cair sob o domnio da outra mas que, no obstante, lhes permitir combinarem-se
na experincia.
Tal especificao da sensibilidade leva a algumas argumentaes extremamente complexas e ocasionalmente desconcertantes a respeito do seu carter. Cumpre distinguir 
a sensibilidade do entendimento mas, no obstante, ela possui um elemento formal; esse elemento formal, porm, no subsume os objetos da sensibilidade do mesmo modo 
que um conceito. Por outro lado, a sensibilidade  receptiva, em contraste com a espontaneidade do entendimento, mas isso no significa que ela seja uma tabula rasa 
passiva, registrando meramente impresses. A sensibilidade possui, com efeito, um elemento a priori, muito embora este no seja derivado, ao contrrio das categorias 
apriorsticas, da unidade original da apercepo. Assim, a sensibilidade no  nem a percepo confusa de uma perfeio racional sustentada pela escola leibniziana, 
nem a receptividade imediata s impresses defendida por Locke, mas parece compartilhar de aspectos de ambas as posies, sem que esteja inteiramente comprometida 
com nenhuma delas.
A conduta de equilbrio adotada por Kant  evidente em Dl, tanto na proliferao de termos usados para caracterizar sensibilidade e sensitivo/sensvel, quanto na 
tese da seo dois, "Sobre a distino entre coisas sensveis e coisas inteligveis em geral". Em Dl 3, ele define sensibilidade como "a receptividade de um sujeito 
em virtude da qual  ;. possvel ao prprio estado representativo do sujeito ser afetado de certo modo pela pre- ] sena de algum objeto." O carter dessa receptividade, 
ou a forma como um sujeito tem a possibilidade de ser afetado pela presena de um objeto, no ficam sem definio; no 4, Kant trata de distinguir entre matria 
e forma de uma "representao do sentido". A matria ou "sensao" de uma "representao sensvel" no  imediatamente percebida por um sujeito, mas  dependente, 
no que se refere  sua "qualidade", do modo como a natureza do sujeito " suscetvel de modificao pelo objeto em questo". O carter complementar da relao entre 
sujeito e objeto  ainda mais pronunciado no caso da forma da sensibilidade. No 2 de Dl, Kant est sobretudo empenhado em distinguir a forma da sensibilidade da 
forma da razo, e descreve-a como decorrente da "coordenao" de objetos que afetam os sentidos "por uma certa lei natural da mente". Ele usa o termo "coordenao" 
a fim de distinguir a forma de sensibilidade das "linhas gerais ou qualquer espcie de esquema do objeto" que possa ser dado pela razo; a forma que coordena os 
objetos sensveis  descrita como um "aspecto" que reveste ou encobre a matria de sensibilidade de acordo com "leis estveis e inatas".
Embora a discusso da sensibilidade em Dl 2 enfatize os modos em que ela difere de uma descrio racionalista, na qual a sensibilidade  tida na conta de percepo 
confusa (ver 7), em 3, "Sobre os princpios da forma do mundo sensvel", Kant distingue-a nitidamente das teses empiristas. Ele identifica dois princpios do mundo 
sensvel: espao e tempo. Kant argumenta que nenhum dos dois princpios pode ser abstrado dos sentidos, mas que ambos so pressupostos por eles (14-15) e consistem, 
assim, em princpios puros e no empricos. Alm disso, ambos so intuies ou condies subjetivas "em virtude da natureza da mente humana, para a coordenao de 
todas as coisas sensveis numa lei fixa" (14). Seu carter de intuies puras distingue-os das qualidades abstradas de objetos sensveis, porquanto pressupem 
tais objetos, mas tambm de
sentido             285
conceitos, uma vez que os objetos sensveis so concebidos como "situados no tempo, e no como contidos sob o conceito geral de tempo".
Com estes argumentos, o delineamento bsico da noo crtica de sensibilidade encontra-se, em sua maior parte, estabelecido. Em CRP, Kant distingue entre sensibilidade 
e o entendimento como "os dois troncos do conhecimento humano"; os objetos "so-nos dados" atravs da sensibilidade e depois "pensados" pelo entendimento (CRP A 
15/B 29). A sensibilidade  receptiva (A 19/B 32) mas contm, no obstante, princpios a priori que so discutidos na "Esttica transcendental", a qual forma a primeira 
parte da doutrina dos elementos. A matria da sensibilidade, ou "a aparncia que corresponde  sensao",  capaz de ser "ordenada em certas relaes" que constituem 
a forma da sensibilidade. So essas as intuies puras a priori de espao e tempo, as quais so puras e a priori em virtude de sua prioridade em relao s aparncias, 
isto , por no serem abstradas delas, e so intuies em virtude de coordenarem mas no subsumarem sensaes  maneira de conceitos. Os objetos sensveis so dados 
 nossa receptividade, mas de um modo sumamente organizado e articulado; e embora essa organizao seja subjetiva, no  um produto de nossa espontaneidade,  maneira 
dos conceitos puros do entendimento. E embora a sensibilidade seja rigorosamente distinta do entendimento, suas intuies so vazias sem as contribuies de conceitos. 
As intuies da sensibilidade e os conceitos do entendimento adaptam-se e so adaptados mutuamente, com os mltiplos coordenados de uma estruturando e sendo estruturados 
pelas unidades formais do outro.
Com essa posio, Kant parece evitar o Cila idealista de reduzir a sensibilidade s "confusas percepes da razo" (ver CRP A 43/B 61 e ss.) e o Caribde empirista 
de abstrair a razo da sensibilidade. Para ele, ambas as posies acarretam uma concepo objeti-vista de espao e tempo, uma considerando-os como relaes conceituais 
objetivas confusamente percebidas, a outra como propriedades de objetos no mundo percebido pelos sentidos. Kant tentou formular a posio que abrangeria as virtudes 
de ambas as perspectivas - a idealista e a empirista - embora no subscrevendo todas as implicaes nem de uma nem de outra posio. Ele o fez mantendo o carter 
racional do idealista e o carter receptivo dos argumentos empiristas, e distinguindo dos conceitos as formas de sensibilidade e da sensao imediata a matria da 
sensibilidade. Entretanto, a sua soluo suscita tantas perguntas quanto respostas e provou ser extremamente vulnervel a objees tanto das posies idealistas 
quanto das empiristas que ela pretendia suplantar.
sensus communis ver SENTIDO COMUM/SENSO COMUM
sentido [Sinn] ver tambm AFETO; IMAGINAO; SENSIBILIDADE Em A, Kant divide a sensibilidade em sentido e imaginao, onde sentido caracteriza "a faculdade de intuio 
na presena de um objeto" e imaginao a mesma coisa sem a presena do objeto (A  15). Ele distingue ainda entre sentido interno e externo, com este ltimo denotando 
a afeco do corpo humano por coisas fsicas, o primeiro a afeco do corpo pelo prprio nimo (Gemt). Os sentidos externos correspondem aos cinco sentidos fsicos 
considerados em 17-20, e esto divididos nos sentidos "objetivos" do tato, viso e audio, e nos sentidos "subjetivos" do paladar e do olfato. Por sua vez, o 
sentido interno corresponde a uma "conscincia do que os seres humanos experimentam, na medida em que so afetados por sua prpria atividade de pensamento (A 24). 
Em CRP, o

286            sentido comum/senso comum
sentido interno  muito mais significativo, designando a determinao de nossa existncia no tempo.
sentido comum/senso comum [sensus communis, Gemeinsinn] ver tambm NIMO (GEMT); COMUNICABILIDADE; GOSTO; JUZO REFLEXIVO; PBLICO/PUBLICIDADE; REFLEXO; SENTIDO; 
SENTIMENTO
Sentido comum tem dois significados distintos em Kant, os quais foram elididos na traduo inglesa do vocbulo. O primeiro aparece no Prefcio de P e refere-se ao 
coloquial "entendimento humano comum" (gemeinen Menschenverstand), ao qual recorrem os chamados filsofos do "senso comum", como T. Reid (1710-96) e J. Priestley 
(1733-1804). Para Kant, "no deixa de ser francamente penoso verificar como esses autores no perceberam, nem de longe, o ponto crucial do problema [de Hume]" (p.258, 
p.4): "Apelar para o senso comum quando o discernimento e a cincia falham, e no antes,  uma das sutis invenes dos tempos modernos, com o que o mais superficial 
dos ta-garelas pode afrontar confiadamente o mais profundo pensador e no se dar por vencido" (p.259, p.5). Nesse contexto, o senso comum "no  outra coisa seno 
um apelo  opinio das massas", na qual "exulta e se vangloria o charlato popular" (p.259, p.5).
Em CJ, entretanto, Kant desenvolve uma descrio positiva do "senso comum" {sensus communis) que  central para a sua anlise do juzo reflexivo.* Apresenta-se no 
40 intitulado "Do gosto como uma espcie de sensus communis", onde  distinguido do senso comum "vulgar do gemeinen Menschenverstand". Sensus communis  um "sentido 
pblico", "uma faculdade crtica que, em seu ato reflexivo, leva em conta o modo de representao de todos os outros a fim de, por assim dizer, avaliar seus juzos 
com a razo coletiva da espcie humana". Com essa viso do senso comum, Kant revive o entendimento do sensus communis do humanismo renascentista como uma forma de 
virtude republicana, e vai mais alm nessa direo quando alinha essa forma reflexiva de juzo com o gosto. Assim, Kant conclui "que, mais do que o juzo intelectual, 
 o juzo esttico que pode receber o nome de sentido pblico, se se quiser empregar a palavra 'sentido' para um efeito de mera reflexo sobre o esprito; pois ento 
por sentido entendemos o sentimento de prazer" (CJ 40). Essa definio de um "senso comum esclarecido", "crtico" e no entanto tambm pblico,  contrastada com 
o preconceito do senso comum "vulgar" dos filsofos britnicos.
Ao descrever o ato de reflexo como um "sentido", Kant recupera tambm as conotaes aristotlicas originais de sensus communis. Para Aristteles, no se trata de 
um "sentido especial" ou de uma faculdade, mas antes de uma "sensibilidade geral" que anima os cinco diferentes sentidos. Essa sensibilidade no  "da carne" (Aristteles, 
1941, 426b, 15) nem  inteligvel, mas  uma "conscincia" de diferenas e sensibilidade para as mesmas (ver Welsch, 1987). Tambm para Kant o sensus communis  
reflexivo sem ser uma intuio ou um conceito - descreve-o como o "sentimento interno de um estado final de Gemt ocasionado quando "a imaginao em sua liberdade 
estimula o entendi-
* Da o termo latino sensus ter sido traduzido para o portugus como "sentido", para distingui-lo da conotao vulgar anteriormente referida. Ele expressa, ao lado 
dos termos "sentido", "sentido externo" e "sentido interno", tambm um "sentido comum". (N.R.T.)
sentido interno             287
mento, e o entendimento,  parte dos conceitos, coloca a imaginao em atividade regular". Assinala um modo agradvel de comunicao que no  dominado por conceito 
ou lei, um modo para o qual o juzo esttico do gosto  paradigmtico.
A importncia do "sentido comum" para as noes de Kant de "crtica", "esclarecimento" e "juzo", assim como suas mais amplas implicaes para a filosofia terica, 
prtica e esttica, s vieram a ser plenamente apreciadas no sculo XX. Tornou-se ento crucial no s para a interpretao de Kant mas tambm nos campos da filosofia 
poltica e da esttica. A noo de Kant de sensus communis  central para as tentativas de Arendt de desenvolver uma explicao ps-totalitria do juzo poltico 
(ver Arendt, 1989), assim como para a elaborao por Lyotard de novos modelos de juzo reflexivo apropriados  experincia cientfica, poltica e esttica da ps-modernidade 
(ver Lyotard, 1983, 1988, 1991).
sentido externo ver APERCEPO; ESPAO; INTUIO; SENSIBILIDADE; SENTIDO; SENTIDO INTERNO
sentido interno [innere Sinn] ver tambm APERCEPO; INTUIO; JUZO; SENSIBILIDADE; SENTIDO; TEMPO
Em FS, Kant considera que "o misterioso poder que torna possvel o juzo" - e assim distingue dos animais os seres humanos como racionais - "nada mais  do que a 
faculdade do sentido interno, ou seja, a faculdade de fazermos de nossas prprias representaes os objetos de nossos pensamentos" (FS p.60, p.104). Kant no acompanha 
Descartes, mais tarde, Mendelssohn, em ver o sentido interno como a fonte para a certeza da existncia do sujeito no cogito ou "eu penso", mas distingue rigorosamente 
entre sentido interno e a apercepo pura do cogito. As percepes do sentido interno so psicologicamente fundamentadas e no tm referncia transcendental; o sujeito 
psicolgico que experimenta o sentido interno no pode ser confundido com o sujeito transcendental do "eu penso". Este ltimo  a fonte espontnea de sntese, ao 
passo que o primeiro, como um sentido,  receptivo. Essa distino  tida por axiomtica em CRP, pois sem ela surge o paradoxo de que o "eu" deve ser ao mesmo tempo 
ativo/espontneo e passivo/receptivo, requerendo assim que "estejamos numa relao passiva [de afeco ativa] conosco".  para evitar essa contradio, prossegue 
Kant, que ele distingue cuidadosamente o sentido interno psicolgico "da faculdade de apercepo" (CRP B 153).
Alm disso, Kant abala a primazia cartesiana do sentido interno ao adotar o ponto de vista de Wolff da inseparabilidade da conscincia do eu e do mundo. Os sentidos 
internos e externos esto "necessariamente ligados" entre si "para possibilitar a experincia em geral" (CRP B xli). Com o sentido externo, "temos a representao 
de objetos como exteriores a ns e situados todos, sem exceo, no espao" (CRP A 22/B 37): o espao  a forma pura de sua intuio sensvel, atravs da qual os 
objetos externos so determinados ou determinveis em termos de "configurao, grandeza e relao recproca". Por intermdio do sentido interno, o "esprito" (Gemt) 
"se intui a si mesmo ou intui tambm o seu estado interno", no como um objeto mas como a "forma determinada, a nica mediante a qual  possvel a intuio do seu 
estado interno" (A 23/B 37). A forma do sentido interno  o tempo, e determina a "relao de representaes em nosso estado interno" e a "condio imediata das aparncias 
internas (de nossa alma) e, por conse-

288            sentimento
guinte, tambm a condio mediata de aparncias externas" (A 34/B 51). Com efeito, Kant privilegia o sentido interno em relao ao externo, embora sem negar a indispensa-bilidade 
de um para o outro. "O tempo", diz ele, " a condio formal apriori de todas as aparncias em geral" (ibid.), uma vez que todas as representaes, quer seus objetos 
sejam internos ou externos, devem ser objetos do sentido interno. Nesse ponto, sua vigorosa distino entre subjetividade psicolgica e transcendental protege-o 
de qualquer acusao de idealismo, uma vez que o tempo, como a forma do sentido interno,  receptivo e no se pode dizer que constitua aparncias.
sentimento [Gefhl] ver tambm AFETO; NIMO (GEMt); FACULDADE; INCLINAO; PRAZER; RESPEITO; SENSIBILIDADE; SENTIDO COMUM/SENSO COMUM; VIDA Sentimento  um dos 
mais ambguos e, portanto, mais fascinantes conceitos de Kant. Grande parte de seus escritos pode ser interpretada como a tentativa de situar apropriadamente o "sentimento" 
no que se refere  filosofia terica e prtica, com o conceito deslocando-se continuamente entre as margens e o centro da filosofia. Esse movimento  exemplificado 
pelo lugar do sentimento em relao s faculdades do conhecimento e de apetio: Kant exclui o sentimento da filosofia prtica crtica apenas para que retorne na 
forma do sentimento de respeito pela lei (por exemplo, CRPr p.76, p.79);  igualmente excludo de considerao em CRP por situar-se "totalmente fora da nossa faculdade 
de conhecimento" (A 802/B 830), para afinal retornar na Introduo a CJ como uma condio necessria "da experincia mais comum" (Vl). Mas no s figura de forma 
instvel nos contextos da filosofia terica e prtica, como se apresenta ainda como o objeto de um ramo especial da filosofia que se ocupa dos sentimentos de prazer 
e desprazer, e de seus correlatas, o belo e o sublime (OBS, A, Livro II), o qual serve como ponte entre os dois ramos da filosofia e, em ltima instncia, em CJ, 
como seu terreno comum.
Embora seja descrito a par do espao e do tempo em ICP como um conceito parcialmente analisvel, Kant atribui sistematicamente certas caractersticas ao sentimento. 
Em primeiro lugar, expressa a condio subjetiva de um ser finito e sensvel "compelido constantemente a ultrapassar o seu presente estado" (A p. 133) e cuja experincia 
 de um carter maciamente derivado dos sentidos (CRPr p.67, p.79). Essa caracterstica no s relaciona o sentimento com os temas de personificao e vida mas 
tambm explica a sua estrutura polar como sentimento de prazer e desprazer (Lust und Unlust).*Em GN (p. 181, p.220) e em A (60), prazer e desprazer so descritos 
como "homlogos" que se determinam mutuamente; e como, para Kant, a vida de um ser finito consiste em atividade, o sentimento de prazer e desprazer serve como uma 
expresso de atividade e como um incentivo para mais atividade. Consiste toda essa atividade em surtos e refreamentos do "poder vital" que geram "seqncias irregulares 
de sentimentos prazerosos (constantemente intercalados de desprazer)" (A 60). A oscilao entre prazer e dor provoca todos os "vrios sentimentos de prazer ou desprazer" 
e repousa "no tanto na natureza das coi-
* Em Kant, prazer e desprazer (Lust und Unlust) constituem um gnero em que apenas a espcie prazer e dor (Vergngen und Schmerz), enquanto uma forma de deleite 
sensorial-corporal, remete explicitamente a "dor". Para o Autor, essa diferena no foi levada suficientemente em conta, tendo sido, por isso, corrigida nos casos 
em que no descaracterizava o texto. (N.R.T.)
sentimento             289
sas externas que os geram quanto na prpria disposio de cada pessoa para ser induzida por elas a sentir prazer e dor" (OBS p.207, p.45). Essa oscilao inspira 
a pletora de sentimentos "que experimentamos nas circunstncias altamente complexas da vida" (GN p. 182, p.220), incluindo sentimentos tais como simpatia/hostilidade, 
amizade/inimizade, amor/dio, belo/sublime.
Na filosofia pr-crtica, Kant estabeleceu o padro para examinar os sentimentos de prazer e dor, tanto em seus prprios termos quanto a respeito da oposio de 
filosofia terica e prtica. Em OBS, ele oferece uma anlise empiricamente orientada do sentimento atravs de reflexes sobre exemplos organizados em funo do belo 
e do sublime. A propenso antropolgica desse texto  sistematicamente ampliada em suas lies de antropologia e, em particular, no Livro II, "Do sentimento de prazer 
e desprazer", o qual forma a transio do Livro I sobre a "faculdade cognitiva" para o Livro III sobre a "faculdade de apetio". A par dessa caracterizao do sentimento 
em termos de uma transio entre filosofia terica e prtica, Kant procura tambm distingui-lo de ambas. Nas pginas finais de ICP, diferencia entre a faculdade 
de representar o verdadeiro, ou conhecimento, e a de representar o bom, ou sentimento, descrevendo este ltimo como necessariamente relativo a um "ser dotado de 
sensibilidade" (p.299, p.273). Esse sentimento do bom no promana do conhecimento nem de um suposto senso moral, embora Kant admita que, no tocante a primeiros princpios, 
na filosofia prtica a precedncia do sentimento ou do conhecimento ainda tem de ser determinada (p.300, p.274).
Uma estrutura similar persiste na filosofia prtica crtica de FMC e CRPr, onde Kant identifica sentimento e princpios racionais como "princpios heternomos de 
moralidade" (FMC p.442, p.46; CRPrp.40, p.41). A, porm, o sentimento derivado dos sentidos - "a condio de todas as nossas inclinaes" -  tambm uma condio 
para o sentimento de respeito ocasionado pela reverncia  lei da "razo prtica pura":  isso o que elimina "no juzo da razo o contrapeso para a lei moral que 
influi numa vontade afetada pela sensibilidade" (CRPr p.76, p.78). Embora o respeito seja um "sentimento singular" que no pode ser comparado a outros sentimentos, 
ele perdura, no obstante, como sentimento. Possui, contudo, duas peculiaridades que o tornam incompatvel: a primeira  que o seu objeto, na medida em que  distinto 
do sentimento de prazer e dor,  sempre uma pessoa, nunca uma coisa (p.77, p.79); a segunda  que no resulta da oscilao de prazer e dor que caracteriza a vida 
de um ser finito, e no d prazer nem dor (p.78, p.80). Entretanto, apesar desta ltima distino, o sentimento de respeito tem efeitos distintos; tem um efeito 
negativo quando usado como "controle" das inclinaes experimentadas como "humilhao" e um efeito positivo quando serve de incentivo para a obedincia  lei (p.80, 
p.82).
Em CRPr, Kant redefiniu o sentimento com o propsito de estabelecer um lugar para o respeito como um tipo especial de sentimento. Em CJ, o seu tratado sobre sentimento 
e juzo, ele adota uma estratgia mais audaciosa em seu todo. A primeira vista, Kant parece estar seguindo a abordagem de OBS e A no desenvolvimento de uma filosofia 
especial dos sentimentos estticos do belo e do sublime, a qual se situa nos interstcios entre os domnios terico e prtico. Entretanto, essa filosofia especial 
no tarda em assumir o papel no s de promotora de uma transio de um domnio para o outro, mas tambm de provedora de uma base comum entre eles.  sustentado 
que o sentimento de prazer e desprazer oferece uma chave para solucionar o "enigma do juzo" (CJ Prefcio)

290            ser
que intrigou a filosofia terica e prtica. Em CJ, o alinhamento de sentimento e juzo tem muitas conseqncias fascinantes: faz com que o sentimento seja subjetivo 
(no jogo livre das faculdades cognitivas) e objetivo (como um juzo necessrio e universal); tambm dissolve a distino crucial para a CRPr entre os objetos do 
sentimento de prazer e despra-zer e o sentimento de respeito, pois refere-se a objetos e a pessoas; finalmente, o sentimento deixa de ser "interno" e subjetivo mas, 
como uma forma de sentido comum, torna-se "social" e intersubjetivo (para um breve e denso enunciado desses pontos ver, inter alia, CJ  12). Essas propriedades 
aumentadas do sentimento so ainda mais ampliadas para servirem de alicerce  filosofia terica e prtica: o sentimento fornece a base para a primeira no anncio 
de um acordo entre a conformidade da natureza a um fim e o nosso entendimento (Introduo vi) e para a segunda como o summum bonum de uma vida florescente (por 
exemplo, 87). Em CJ, mostra-se que os domnios do juzo terico e prtico desenrolam-se a partir de um acordo prvio de sentimento, natureza, intersubjeti-vidade 
e juzo.
A direo inculcada ao argumento de CJ conferiu-lhe um status peculiar no conjunto da obra de Kant, o que faz dela, para alguns, a fase culminante da filosofia crtica 
e, para outros, seu pouco criterioso apndice. Em jogo nesses juzos antagnicos no est apenas uma divergncia de opinio a respeito do lugar apropriado do sentimento 
na filosofia de Kant, mas o muito mais vasto problema das relaes da especulao filosfica com reas da vida e atividade humanas que no obedecem a noes limitadas 
ou formais de racionalidade. A questo do sentimento suscita, de forma aguda, a questo da natureza da filosofia e suas relaes com reas "no filosficas" de experincia. 
A elaborao dessa questo no est limitada  recepo da filosofia de Kant mas encontra-se claramente presente do comeo ao fim dos prprios textos de Kant.
ser [to on, ens, Sein] ver tambm EFETIVIDADE; ESSNCIA; EXISTNCIA; NADA; ONTOLOGIA; SNTESE
A definio de ser em Kant  herdeira de um longo e complexo desenvolvimento filosfico do tema, cuja significao continua sendo objeto de intenso debate. Para 
Aristteles, na Metafsica, a questo do ser - "o que  ser?" - "foi formulada h muito tempo e volta a ser formulada agora e sempre, e  sempre objeto de dvidas" 
(Aristteles, 1941, 1028b, 2). A mais significativa inovao de Kant foi a traduo de temas e distines tradicionais para a terminologia moderna, reformulando 
o problema tradicional da relao entre ser e logos em termos de juzo. Foi com base nas distines recebidas e na sua reformulao em termos modernos que Kant desenvolveu 
suas importantes distines entre ser, efetividade e existncia.
O ponto de partida tradicional para a questo do ser na filosofia ocidental so os fragmentos de Parmnides (sculo VI a.C). Neles, o ser  diferenciado do no-ser 
em termos da distino entre o caminho da verdade e o caminho das opinies. No pode haver transio do no-ser para o ser, nenhuma mudana ou movimento; ser  tudo 
o que pode ser conhecido e  uno (Barnes, 1987, p. 129-42). Os problemas apresentados por Parmnides e sua acentuao nos paradoxos de Zeno foram enfrentados pela 
gerao seguinte de filsofos gregos, sobretudo Plato e Aristteles. Paradoxalmente, Plato atenuou e intensificou a distino de Parmnides entre ser e no-ser. 
Este ltimo no  mais o oposto absoluto de ser mas participa no ser em graus variveis; ser informa imediatamente as
ser            291
idias, assim como forma uma idia superior em si. Aristteles, entretanto, na Metafsica, enfatiza a participao de seres distintos no Ser em geral, estabelecendo 
um repertrio de caminhos em que Ser pode ser falado de entes (ver Aristteles, 1941, 1012a). Ele faz uma distino crucial entre energeia e dynamis, que mais tarde 
evoluiu, primeiro, para a distino entre esse e essentia, e depois entre existncia e efetividade.
Em sua recepo da extremamente diversa herana do pensamento grego do Ser, os comentaristas medievais islmicos e cristos sistematizaram algumas de suas caractersticas 
mais salientes. Persistiu a problemtica bsica de descrever os vrios modos em que o Ser pode ser falado de seres, como no caso do insight sobre o carter aportico 
dessa relao (Booth, 1983). E, como em Plato e Aristteles, ser continua a ser entendido como um termo "transcendental" que no pode ser afirmado categoricamente 
como predicado. Para a tradio tomista, ser s podia ser predicado analogicamente - o ser de Deus e o ser do mundo s analogicamente so o mesmo. Para a tradio 
scotista, ser pode ser predicado univocamente, tendo em mente o mesmo sentido de ser quando  predicado do mundo ou de Deus. Os escolsticos concordaram em distinguir 
entre ser como existncia, ser como efetividade e ser como tal: ser como existncia, ou esse, designava a existncia de uma essncia, como em o "ser" da humanidade; 
ser como essentia designava a efetividade aqui e agora individual de, digamos, esta mulher ou este homem; enquanto ser como tal, aquele ser cuja essncia  existncia 
e efetividade, s pode ser dito de Deus.
Os termos e distines das discusses escolsticas do ser continuaram a informar a inaugurao cartesiana da modernidade filosfica (ver Gilson, 1949). Embora para 
Descartes e Leibniz (mas no Espinosa) o foco para a questo do ser de Deus, o mundo e a alma se tivesse transferido de Deus para a alma e a certeza que esta tem 
de sua prpria existncia, persistia a estrutura bsica do problema. Para os modernos, Ser permanece extracategorial e no  algo que possa ser simplesmente predicado 
num juzo como qualquer outro predicado. Para eles, esse designa agora possibilidade, ou aquilo que  sem contradio, ao passo que essentia so aqueles fenmenos 
percebidos como existentes, e ser como tal  agora interpretado como referente ao ser privilegiado em si, quer isso seja descrito em termos de Deus ou causa sui, 
o sujeito, ou o ser-em-si da nova cincia ps-cartesiana da ontologia.
A discusso do ser por Kant segue precedentes ao afirmar que o ser pode mencionar-se de muitas maneiras mas, para ele, o que. comum a todas elas  a noo de sntese. 
Em UAP, ele define o conceito de ser [Sein] em termos de um "postulado" (p.73, p. 119) que sublinha as relaes de juzo lgico, descrevendo-o como "a postulao 
dessa relao [que] no  outra coisa seno a cpula num juzo" (p.73, p.l 19). Aqui, ser denota uma sntese puramente lgica, operando ao nvel de esse, uma sntese 
que se harmoniza com a lei da contradio. Entretanto, quando a relao e o relacionado so postulados, ento o ser torna-se existncia e  citado como essentia, 
ou seja, em termos de relaes lgicas e efetivas.
Em CRP, Kant repete em grande parte essa distino mais antiga, mas passa a us-la para refutar a prova ontolgica da existncia de Deus. Ser no  um predicado, 
nada acrescenta ao sujeito de um juzo, mas designa "meramente o que  possvel, em virtude de eu pensar o seu objeto" (CRP A 599/B 627). A declarao de que "existe 
um Deus" pode ser isenta de contradio.  um modo de falar do ser ao nvel de esse, mas nada diz sobre a existncia do seu objeto. Se desejamos falar de ser em 
termos de exis-

292            sexo
tncia, ento devemos prestar ateno s condies de conhecimento sinttico, pois "a nossa conscincia de toda a existncia... pertence inteira e totalmente  unidade 
da experincia" (CRP A 601/B 629). Essa perspectiva crtica habilitou Kant a especificar com rigor os modos como o ser pode ser falado por referncia  efetividade, 
ou o princpio correspondente  segunda categoria modal de existncia/no-existncia.
Com tais comentrios, dir-se-ia que Kant estava limitando severamente o tradicional significado de ser. Esse pareceu certamente ser o caso para Hegel, que tentou 
restabelecer a questo do ser conferindo-lhe uma nova exposio na Cincia da lgica (1812). Parecia ser esse tambm o caso de Nietzsche, que se viu radicalizando 
o insight de Kant sobre o carter ilusrio do ser ao descrev-lo como um "mero vapor". Para uma corrente extremamente influente de interpretao, Kant marca o momento 
da transio, na histria da filosofia, da ontologia para a epistemologia. Entretanto, no sculo XX, as leituras ontolgicas de Kant por Heidegger (1929) e Heimsoeth 
(1956) consideraram seriamente sua afirmao de que tinha substitudo a ontologia por uma "analtica do entendimento". Heidegger, em particular, assinalou o significado 
ontolgico da sntese em Kant e o papel crucial desempenhado nela pela imaginao (1929). Tais leituras provaram ser extremamente influentes na recuperao das estruturas 
da ontologia tradicional que continuaram a inspirar a filosofia crtica.
sexo ver tambm CASAMENTO; MULHER; PAIXO
As explanaes de Kant sobre sexo, sexualidade e comportamento sexual so surpreendentemente amplas e encontram-se em MC e E. Considera a diferena sexual uma diferena 
especfica no gnero humanidade e faz dessa diferena a base de sua explicao do desejo sexual. Central em sua viso de sexo  a distino moralmente fundamentada 
entre unio sexual de acordo com a "simples natureza animal" e a realizada em conformidade com um "princpio" no casamento. Com efeito, ele define explicitamente 
o casamento como "unio sexual de acordo com um princpio" (MC p.277, p.96) e v o prazer sexual mtuo somente possvel com base no casamento e seu corolrio da 
"posse por toda a vida dos rgos sexuais recprocos". Kant no sustentou que o sexo devia estar subordinado  finalidade da procriao mas considerou o "desejo 
sexual" ou a "sexualidade" uma "inclinao", "sexto sentido" ou "apetite por um outro ser humano" (E p.163). Esse apetite  impessoal, "no  uma inclinao que 
um ser humano tem por um outro como tal, mas  uma inclinao para o sexo de um outro" (E p. 164), e  dito que expe a humanidade "ao perigo de igualdade com os 
animais". Por essa razo, Kant restringiu a expresso de sexualidade aos limites do contrato conjugai, de acordo com o qual os parceiros desfrutam ambos do uso dos 
atributos sexuais recprocos, embora reconhecendo o outro como pessoa ou fim em si mesmo.
Fora do reconhecimento de um status de parceiro sexual com um fim em si mesmo atravs do casamento, Kant considerou que a sexualidade conduz inevitavelmente  explorao 
de parceiros sexuais como coisas, ou como meios para fins. A prostitutio e o concubinato envolvem contratos que depreciam a humanidade dos parceiros e os reduzem 
 condio de meios para os fins de outros. Kant inclui a masturbao nesse argumento, considerando-a um ato pelo qual o "homem pe de lado sua pessoa e degrada-se 
a um nvel abaixo dos animais" ao usar-se como meio para seus prprios "repugnantes" fins (MC p.425, p.221). No caso do comportamento homossexual, Kant contradiz-se 
de
simplicidade             293
modo muito flagrante ao consider-lo "contrrio aos fins da humanidade", um dos quais, no tocante  sexualidade,  agora definido como "a preservao da espcie 
sem degradar a pessoa" (E p.170). Entretanto, numa passagem anterior de E e em MC, Kant repudiou explicitamente o vnculo entre sexualidade e procriao, e procurou 
ordenar a expresso da sexualidade por meio do respeito mtuo de pessoas como fins em si mesmas, algo que no  incompatvel com o desejo homossexual.
Em sua discusso do incesto, Kant viu fundamentos morais absolutos para proibir as relaes sexuais entre pais e filhos, fundamentos que ele analisa em funo do 
"respeito" entre pais e filhos, o qual "exclui terminantemente qualquer questo de igualdade", e da relao desigual de submisso em que os filhos se encontram em 
relao a seus pais.  ambguo, entretanto, a respeito das relaes sexuais incestuosas entre irmos, que ele considera no serem "absolutamente proibidas pela natureza" 
(E p. 168). Afirma que o incesto entre irmos  evitado pela familiaridade e a "impertinncia" do desejo sexual.
A alegada impertinncia do desejo sexual  severamente restringida na discusso por Kant das relaes sexuais com animais do sexo oposto, que ele considera "contrrias 
aos propsitos da humanidade e contra o nosso instinto natural" (E p. 170). Qualifica tal comportamento como "o mais vergonhoso e degradante de que um homem pode 
ser capaz" (E p. 170) e em MC considera a "expulso da sociedade civil" como a punio apropriada para a bestialidade (MC p.363, p. 169). Acrescenta em E a intrigante 
advertncia de que existem vcios ainda mais "vergonhosos", "abominveis" e "repugnantes" que so de "freqente ocorrncia" mas que ele no pode mencionar. Tece 
ponderaes sobre o dilema que isso gera para o Iluminismo; devem esses vcios ser designados e assim reconhecidos e evitados pelas pessoas, ou devem ser mantidos 
nas trevas, para que as pessoas no tomem conhecimento deles e, por conseguinte, no sejam induzidas  tentao? Kant opta por esta ltima opo, mas no sem ter 
consideravelmente ampliado os limites da discusso.
A discusso do sexo por Kant , em muitos aspectos, extremamente moderna. Tal como Freud, um sculo depois, considerou o desejo sexual uma caracterstica ambgua 
da vida humana, capaz de estimular o melhor e o pior no comportamento humano. Ainda que de um modo inconsistente, ele tambm quebrou o vnculo entre a expresso 
de desejo sexual e procriao, optando por governar a sexualidade por meio do princpio, extrado da filosofia moral, de respeito pelos outros como fins em si. Entretanto, 
as limitaes de sua posio tornam-se evidentes na incapacidade para enxergar alm da instituio do casamento heterossexual como a nica instituio capaz de sustentar 
o princpio de respeito pelo outro. Isso levou-o inexoravelmente a restabelecer o vnculo entre casamento e procriao e, da, entre procriao e sexualidade.
Silogismo  ver DIALTICA; INFERNCIA; LGICA
simbolizao  ver ANALOGIA; ESQUEMA(TISMO); HIPOTIPOSE
Smbolo  ver ANALOGIA; ESQUEMA; HIPOTIPOSE
si mesmo ver APERCEPO; EU; "EU PENSO"; IDENTIDADE; PARALOGISMO; PSICOLOGIA; SUJEITO
simplicidade ver DIVISIBILIDADE; MNADA; PARALOGISMO

294            sinopse
sinopse ver SNTESE
sntese [Synthesis, Verbindung] ver APERCEPO; ESPONTANEIDADE; IMAGINAO; LIGAO; UNIDADE
Que o conhecimento pode ser reportado a um ato original de sntese  talvez um dois pensamentos mais fundamentais da filosofia terica de Kant. Esse reconhecimento 
 principalmente um desenvolvimento da dcada de 1770 e manifesta-se ao longo da CRP (primeira edio, 1781). A maioria das referncias  sntese nos escritos pr-crticos 
contrasta meramente o mtodo sinttico, aditivo, com o mtodo analtico, subtrativo, com o primeiro progredindo dos processos simples para os complexos, o segundo 
passando dos complexos aos simples. Entretanto, a partir da filosofia crtica e sistematicamente da em diante, a sntese figura como a atividade fundamental da 
mente humana. Assim, na primeira crtica, a existncia de "modos sintticos a priori de conhecimento"  demonstrada, primeiro, pela necessidade de "princpios do 
entendimento que prevejam a experincia" e, depois, pela derivao dos prprios princpios do ato de sntese.
A sntese  a base da lgica transcendental, a lgica que produz o conhecimento a priori sinttico atravs da ligao entre conceitos e intuies. Com efeito, Kant 
insiste em que  para o estudo da sntese "que devemos dirigir primeiro a nossa ateno, se quisermos julgar sobre a primeira origem do nosso conhecimento" (CRP 
A 78/B 103). Kant define-a como "o ato de juntar, umas s outras, diversas representaes e conceber o que  mltiplo num s [ato de] conhecimento" (A 77/B 103). 
A sntese de um mltiplo, seja este puro (como as formas de intuio) ou emprico, " o que primeiro d origem ao conhecimento" (ibid.). O que  crucial  que esse 
ato de sntese  excessivo; no pode ser derivado do mltiplo mas -lhe sempre adicionado. Nos termos de Kant, a sntese  transcendental, "no s porque se processa 
a priori, mas tambm porque condiciona a possibilidade de outros conhecimentos a priori" (CRP B 151). Por essa razo, Kant relaciona sistematicamente a sntese ou 
 "faculdade da imaginao, funo cega, embora imprescindvel, da alma, sem a qual nunca teramos conhecimento algum, mas da qual muito raramente estamos conscientes" 
(CRP A 78/B 103), ou a "um ato de espontaneidade da faculdade de representao" ou a "um ato da auto-atividade do sujeito" (B 130). A sntese, por outras palavras, 
 um produto da liberdade do prprio sujeito humano.
Na primeira deduo "subjetiva", Kant procura distribuir a atividade da sntese entre conceito e intuio em termos de sentido, imaginao e apercepo. Na deduo 
da edio A, a sntese apresenta-se como uma forma fundamental de ligao e como uma forma de ligao a par da sinopse e da unidade. Para que a experincia seja 
possvel  necessrio, em primeiro lugar, ligar o mltiplo do sentido atravs da "sntese do mltiplo a priori"'. Segue-se-lhe depois a "sntese desse mltiplo atravs 
da imaginao" e logo "a unidade dessa sntese atravs da apercepo original" (CRP A 95, suprimido em B). A sntese apresenta aqui, a par da sinopse e da unidade, 
uma forma particular de ligao. Ao mesmo tempo, entretanto, Kant descreve todas as trs formas de ligao como a "tripla sntese": "a espontaneidade  a base de 
uma tripla sntese que deve necessariamente existir em todo o conhecimento, a saber: a apreenso de representaes como modificaes do esprito em intuio, sua 
reproduo em imaginao e seu reconhecimento num conceito" (CRP A 97).
sistema/unidade sistemtica             295
Kant refere-se sistematicamente, na maior parte da primeira deduo, a esses trs modos de sntese. A primeira, ou "sntese da apreenso em intuio", tambm chamada 
sntese figurativa ou synthesis speciosa, "ordena, liga e relaciona entre si" as intuies de acordo com o tempo ou com a sua presena concomitante num determinado 
momento. O segundo modo, a sntese de reproduo, assegura a continuidade ao nvel de representaes dadas; garante, portanto, a continuidade da representao ao 
longo do tempo. Como nada existe na prpria representao que assegure tal continuidade, Kant descreve essa sntese como a "sntese transcendental da imaginao". 
O terceiro modo, a sntese de reconhecimento ou synthesis intellectualis, garante a continuidade da experincia do sujeito perceptivo. Baseia-se na sntese da "conscincia 
da identidade de si mesmo" com uma "conscincia de uma unidade igualmente necessria da sntese de todas as aparncias segundo conceitos" (CRP A 108).
Na segunda deduo, ou deduo "objetiva", a nfase sobre os modos de sntese e seu relacionamento no tempo  minimizada a favor de um tratamento da ligao em geral 
como a "representao da unidade sinttica do mltiplo" (CRP B 130). Assim, Kant restringe-se a falar da representao da sntese e no dos prprios atos transcendentais. 
Contudo, a sua nfase sobre a terceira sntese de apercepo - a nica da qual podemos ter experincia atravs da certeza do cogito - no deve desviar a ateno 
do contnuo papel das snteses da intuio e imaginao, sob o signo de sua representao como ligao.
A relao entre sntese terica, liberdade e espontaneidade que inspirou a exposio de Kant na primeira crtica provou ser definitiva para a filosofia p6s-kantiana. 
Ofereceu um modo de ligao entre as filosofias terica e prtica, e foi crucial para a declarao de Fichte da primazia da razo prtica e sua exposio da Wissenschaftslehre 
(1794). No sculo XX, fora dos debates exegticos no seio do kantismo, a sntese desempenhou um importante papel na fenomenologia, com Husserl afirmando que "a vida 
consciente, como um todo, est sinteticamente unificada " (1950, p.42). Foi vista como um modo de descrever a unidade na diferena, em vez de, como em Fichte, servir 
como agente de unificao. A sntese da imaginao  central na extremamente influente leitura de Kant por Heidegger (1929), a qual v nos modos de sntese expostos 
na primeira deduo uma anlise das relaes entre a aparncia de ser e a finitude humana.
sistema/unidade sistemtica ver ARQUITETNICA; ESQUEMA(TISMO); FILOSOFIA Kant descreve a unidade sistemtica como "o que eleva o conhecimento vulgar  categoria 
de cincia" ou o que "transforma um simples agregado de conhecimento em sistema (CRP A 832/B 860). A arte de construir tais sistemas  a arquitetnica, e consiste 
em unificar um agregado de conhecimento mediante uma idia. A idia  realizada no sistema por meio de um esquema que combina uma "pluralidade e uma ordenao das 
partes (A 833/B 861); um esquema derivado empiricamente produz uma unidade tcnica do agregado, enquanto um derivado da prpria idia gera uma unidade arquitetnica. 
Kant concentra a sua discusso de um sistema de conhecimento na filosofia, cuja idia  um conceptus cosmicus de filosofia como "a cincia da relao de todo o conhecimento 
aos fins essenciais da razo humana" (A 839/B 867). O esquema do sistema de filosofia est melhor descrito em PI, onde Kant estabelece a distino entre "o sistema 
de conhecimento racional mediante conceitos" que constitui a filosofia e uma crtica da razo pura. Esta ltima fornece o esquema ou monograma de tal sistema quando 
"demarca e examina a
L

296             sociabilidade
prpria idia do sistema" (PI p. 195, p.3). De acordo com isso, "o sistema real de filosofia pode ser dividido em filosofia terica e prtica," uma diviso no isenta 
de problemas que se pode dizer ter sido seguida por Kant em PM e MC.
Em CRP, Kant desenvolve tambm um conjunto de princpios regulativos para garantir a unidade sistemtica do conhecimento emprico adquirido atravs do entendimento. 
So os princpios da "homogeneidade do mltiplo sob gneros superiores", a "variedade do homogneo sob espcies inferiores" e a "afinidade de todos os conceitos 
... a qual prescreve uma transio contnua de cada espcie para cada uma das outras mediante um acrscimo gradual da diversidade" (CRP A 657/B 686). Designados 
diversamente como "homogeneidade", "variedade" e "afinidade"; "homogeneidade", "especificao" e "continuidade"; e "unidade", "multiplicidade" e "afinidade", esses 
trs princpios so usados regulativamente para atingir a meta da unidade do conhecimento adquirido pelo entendimento. Kant considera a unidade sistemtica do conhecimento 
uma idia regulativa; isso distingue a sua noo tanto do sistema wolffiano que precedeu sua obra quanto dos sistemas de Schelling e Hegel que lhe sucederam. O primeiro 
ofereceu somente um agregado de conhecimentos desprovidos de qualquer princpio definido (A 836/B 864), ao passo que os segundos converteram unidades sistemticas 
num princpio constitutivo e empenharam-se em fornecer como o sistema realizado de filosofia o que Kant considerava no ser mais do que a idia regulativa de seu 
gradual desenvolvimento.
sociabilidade [Geselligkeit] ver tambm CONSTITUIO; CULTURA; ESTADO; HUMANIDADE; JUSTIA; PERSONALIDADE
Em muitas partes de seus escritos, Kant descreve os seres humanos como naturalmente sociveis, e em CJ descreve a sociabilidade "como uma propriedade essencial  
exigncia do homem enquanto criatura determinada para a sociedade, ou seja, como qualidade que pertence, portanto,  humanidade" (41). Contudo, em IHU, ele considera 
esse impulso atenuado por uma "contnua resistncia que constantemente ameaa fragmentar e desfazer essa sociedade" (p.20, p.44). Isso leva  clebre descrio da 
"sociabilidade associar' (p.20, p.44) do ser humano, sua "inclinao para viver em sociedade" e sua propenso para "viver como um indivduo" com a "caracterstica 
associai de querer dirigir tudo de acordo com suas prprias idias" (p.21, p.44). Essa tenso foi decretada pela natureza a fim de provocar o desenvolvimento de 
capacidades inatas. Ela cria, entretanto, problemas para a ordem social, a qual requer que os seres humanos estabeleam "uma sociedade em que a liberdade sob leis 
externas se coadune na mxima extenso possvel com a fora irresistvel, por outras palavras, com o estabelecimento de umaperfeitamen-te justa constituio civiF 
(IHU p.22, p.45-6, ver tambm CRP B 373, CJ 83). Kant v isso como o mais difcil e o ltimo dos problemas a ser solucionado pela raa humana, mas enxerga os primrdios 
de uma soluo numa constituio republicana e num relacionamento externo, governado pela lei, com outros estados.
Sociedade  ver COMUNIDADE; CULTURA; JUSTIA; SOCIABILIDADE
subjetivo [subjektiv] ver tambm CONSCINCIA; CONSCINCIA DE SI; ILUSO; REALIDADE
Com uma importante exceo, este adjetivo  freqentemente usado em limitada oposio a "objetivo". Significa que uma determinada afirmao ou juzo no  objetivamente
sublime              297
slida, na medida em que resulta da constituio peculiar de um sujeito humano emprico. Kant usa essa distino a respeito do tempo e espao em Dl, os quais no 
so "objetivos e reais" mas, antes, as "condies subjetivas que so necessrias, em virtude da natureza da mente humana, para a coordenao de todas as coisas sensveis 
de acordo com uma lei fixa" (Dl  14). Em CRP, Kant distingue de um modo idntico entre unidades "subjetivas" e "objetivas" da conscincia de si, sendo as primeiras 
"uma determinao do sentido interno - atravs da qual o mltiplo da intuio...  empiricamente dado" (DI  139), e entre os "eus" emprico e transcendental, um 
dos quais forma a condio lgica, o outro a condio emprica do pensamento. Analogamente, em FMC, Kant distingue entre fins objetivos vlidos para todos os seres 
racionais e fins subjetivos "cujo fundamento subjetivo de apetio  o incentivo" e os quais so peculiares aos seres humanos empricos (p.427, p.3 5). Entretanto, 
quando Kant distingue em CJ entre conformidade a fins objetivas e subjetivas, ou  "necessidade objetiva" de um juzo cognitivo e  "necessidade subjetiva" do juzo 
esttico de gosto, ele considera o juzo subjetivo como diferente mas no necessariamente inferior ao objetivo (VIII e 22). A diferena depende neste ponto da 
presena ou no de um conceito diretamente subsumvel.
O ltimo ponto indica uma importante qualidade vinculada  noo de objetividade, a qual  oposta a subjetividade. Por objetividade, Kant no significa nem "derivado 
de objetos" nem "derivado de idias (platnicas). Um fundamento ou juzo objetivo , de fato, derivado do sujeito, mas o sujeito entendido em termos transcendentais. 
Esse entendimento de objetividade forma o ponto crucial da filosofia crtica, e sua dificuldade central de "como podero ter validade objetiva as condies subjetivas 
do pensamento, isto , como podero proporcionar as condies de possibilidade de todo o conhecimento dos objetos" (CRP A 89/B 122. Kant rejeita expressamente a 
possibilidade de objetividade em qualquer dos sentidos acima mencionados; a objetividade  fundamentada na "ordem e regularidade nas aparncias" que "ns prprios 
introduzimos". Os "fundamentos subjetivos" para a unidade que informa tal ordem e regularidade originam-se nas "condies subjetivas" das "faculdades cognitivas 
do nosso nimo" e so vlidos em virtude de constiturem "os fundamentos da possibilidade de conhecimento em geral de um objeto na experincia", os quais so, "ao 
mesmo tempo, objetivamente vlidos" (CRP A 125). Assim, a definio de Kant de objetividade no exclui a subjetividade mas est, com efeito, fundamentada nela. A 
natureza dessa fundamentao, estudada em CRP, ser profundamente explorada em CJ, onde Kant suspende decisivamente a oposio de subjetivo e objetivo na noo de 
proporcionalidade.
sublime ver tambm BELEZA; ESTTICA; PRAZER; PROPORO; RAZO Em ICP, o sublime aparece numa lista de "conceitos parcialmente analisveis", incluindo espao e tempo, 
assim como os sentimentos do belo e do repugnante (p.280, p.252). A razo por que sentimentos tais como o sublime e o belo no podem ser analisados deve-se ao fato 
de resultarem "no tanto da natureza de coisas externas que os suscitam quanto da prpria disposio de cada pessoa para ser induzida por eles ao prazer e  dor" 
(OBS p.207, p.45). Entretanto, Kant oferece uma caracterizao parcial do sentimento de sublime, principalmente por meio de contraste com o belo: ambos aprazem, 
mas enquanto o belo encanta, o sublime "comove" o Gemt (OBS p.209, p.47); o sublime deve ser simples, o belo adornado e ornamentado. Em OBS, Kant usa a distino 
principalmente

298             sub-repo
como um meio para caracterizar objetos e tipos humanos, mas em CJ ampliou o conceito para incluir tambm o sentimento despertado pelo fracasso da imaginao para 
compreender o "absolutamente grande", quer em termos de medida (sublime matemtico) ou de poder (dinamicamente sublime).
Central na definio de sublime  o modo como ele parece "transgredir os fins de nossa faculdade de julgamento, adaptar-se mal  nossa faculdade de apresentao 
e constituir, por assim dizer, uma afronta  imaginao" (CJ 23). Entretanto, embora o sublime seja, com efeito, um entrave {Hemmung) para as foras vitais, ele 
 "seguido imediatamente por uma descarga por isso mesmo ainda mais poderosa" (23). Esse movimento ocorre porque ao entrave  faculdade do juzo segue-se uma concretizao 
do poder e extenso das idias de razo (27). O sublime na natureza nada mais  que um reflexo das idias da razo que lemos nela por meio de sub-repo, ou a "confuso 
de um respeito pelo objeto com o respeito pela idia de humanidade em nosso sujeito" (27) Esse aspecto no representvel do sublime tornou a "Analtica do sublime" 
extremamente significativa para as interpretaes de Derrida (1978) e Lyotard (1991) que sublinham os modos como a filosofia crtica  perpetuamente interrompida 
por momentos irrefreveis de excesso, como o sublime.
sub-repo ver tambm ANFIBOLOGIA; CONCEITOS DE REFLEXO; HIPOTIPOSE; ILUSO; PRECONCEITO
Em Dl, Kant descreve a sub-repo como a falcia de confundir o que  sensvel com o que pertence ao entendimento. Quando um "conceito sensvel"  usado como se 
fosse uma "indicao resultante do entendimento", foi cometida uma "falcia lgica de sub-repo", ao passo que se aquilo que  sensvel  confundido com o que pertence 
ao entendimento, houve uma "falcia metafsica de sub-repo" (24). Axiomas de sub-repo so aqueles que "fazem o sensvel ser aceito como se pertencesse necessariamente 
a um conceito do entendimento" e podem ser detectados pelo "princpio de reduo", o qual requer que um conceito do entendimento enunciado como predicado de qualquer 
coisa no espao e no tempo no possa ser afirmado objetivamente. Kant prope trs espcies de axiomas de sub-repo: os primeiros so os informados pelo "preconceito" 
de que "seja o que for que ,  em algum lugar e em algum tempo" (27); os segundos so aqueles que declaram que uma "multiplicidade real pode ser dada numericamente" 
e "o que quer que seja impossvel contradiz-se a si prprio" (28); os terceiros so os que transferem para objetos as "condies que so caractersticas de sujeitos" 
(29). Em cada caso, Kant revela que uma determinao espacial ou temporal encoberta foi introduzida sub-repticiamente no que parecem ser determinaes racionais 
de objetos pelo entendimento. O seu alvo principal na identificao de axiomas de sub-repo  a metafsica racional da escola wolffiana, o que se torna particularmente 
evidente em sua crtica dos pressupostos temporais do "princpio de contradio" expostos na discusso da segunda espcie de axiomas de sub-repo. A identificao 
da falcia da sub-repo marcou uma importante etapa no desenvolvimento da filosofia crtica, embora o prprio termo raras vezes seja usado em CRP (ver, excepcionalmente, 
A 643/B 671). A terceira espcie de sub-repo reaparece em CJ, onde descreve a atribuio a um objeto da natureza da nossa prpria vocao moral, a qual d origem 
ao sentimento do sublime.
sujeito              299
substncia ver ACIDENTE; SUJEITO
subsuno ver tambm ESQUEMA(TISMO); JUZO DETERMINANTE Em CJ, Kant descreve o juzo determinante como subsuntivo na medida em que " dado o seu universal (regra, 
princpio ou lei) e "no tem necessidade, portanto, de pensar por si prprio numa lei a fim de poder subordinar o particular na natureza ao universal" (CJ IV). 
Ele entra em maiores detalhes na anlise do esquematismo em CRP. A subsuno de intuies sob conceitos puros  idntica  aplicao de uma categoria a aparncias. 
Isso s  possvel se conceito e intuio tm algo em comum, "se a representao do objeto [] homognea com o conceito" (CRP A 137/B 176). Como isso no ocorre, 
" claro que tem de haver um terceiro termo que deve ser, por um lado, homogneo  categoria e, por outro,  aparncia", o qual "deve, sob um aspecto, ser intelectual 
e, sob um outro, sens-veF (A 138/B 177). O terceiro termo  o esquema transcendental na falta do qual "toda a subsuno se torna impossvel, pois nada  dado que 
possa ser subsumido ao conceito" (A 248/B 304). A maior parte da anlise de Kant da subsuno trata, pois, da relao entre os conceitos puros do entendimento e 
o mltiplo; entretanto, ele usa tambm o termo para descrever as inferncias da razo que subsumem "a condio de um juzo possvel na condio de um juzo dado" 
(A 330/B 386).
sucesso ver tambm ANALOGIAS DA EXPERINCIA; CAUSALIDADE; IMAGINAO; MOVIMENTO; PRINCPIO; SNTESE; TEMPO
Sucesso, permanncia e simultaneidade so os trs modos de tempo que, por sua vez, determinam as "regras de todas as relaes de aparncias", as quais "precedem 
toda a experincia e a tornam efetivamente possvel" (CRP B 219). Forma a segunda das "Analogias da experincia" ou grupo de princpios correspondentes s categorias 
de relao, e  o princpio para a categoria de causalidade e dependncia. A segunda analogia estabelece que "todas as mudanas acontecem de acordo com o princpio 
da ligao de causa e efeito" (CRP B 232) e com ela procura Kant satisfazer as objees de Hume para a necessria ligao entre causa e efeito. Argumenta Kant que 
a causalidade no , como acreditava Hume, derivada da experincia subjetiva de causa e efeito mas, antes, ocorre o inverso, que a "sucesso objetiva das aparncias" 
 a fonte da "sucesso subjetiva da apreenso" (CRP A 193/B 238). Assim, ele defende a tese de que, a "prpria experincia" s  possvel se "submetermos a sucesso 
das aparncias e, por conseguinte, todas as mudanas,  lei da causalidade" e de que. alm disso, "as aparncias, como objetos da experincia, s so elas prprias 
possveis em conformidade com a lei" (CRP B 234).
sujeito [hupokeimenon, subjectum, Subjekt] ver tambm ACIDENTE; EU; "EU PENSO"; PREDICADO; SUBSTNCIA
Em Aristteles, o sujeito, ou hupokeimenon, designa "aquilo que est sob", e  usado em muitas acepes.  empregado logicamente para falar do "gnero sujeito" ou 
daquilo de que as coisas so predicados; tambm  usado como um modo de designar a matria e como um modo de designar a substncia como o "sujeito primeiro" ou aqueles 
seres que "so denominados substncia porque no so predicados de um sujeito, mas tudo o mais  predicado deles" (1941,1017b, 14). Com Descartes, o sujeito primeiro 
foi identificado com o eu consciente de si prprio revelado pelo cogito ergo sum ("Penso, logo existo"), e isso foi subseqentemente considerado a base ou fundamento 
da predicao. Embora

300            sujeito transcendental
Kant aceitasse que o sujeito como eu era a condio lgica e formal da experincia, argumentou vigorosamente contra a afirmao de que isso designava uma substncia 
existente.
A definio de Kant do sujeito lgico est muito prxima da ortodoxia aristotlica. Afirma ele que todos os juzos (sejam eles sintticos apriori, sejam eles analticos) 
constituem modos de pensar "a relao de um sujeito com o predicado" (CRP A 6/B 10). No juzo analtico "Todos os corpos so extensos" e no juzo a priori sinttico 
"Todos os corpos so pesados", o conceito de corpo  o sujeito; os conceitos de extenso e peso so os predicados do juzo. Embora Kant esteja disposto a admitir 
que o eu consciente de si  o sujeito primeiro do conhecimento e da ao,  relutante em conceder a esse sujeito qualquer existncia substancial: o eu como sujeito 
absoluto  uma funo lgica e no um ser existente. Assim, conquanto seja possvel representar-me "algo que s pode existir como sujeito e nunca como predicado 
... ignoro, porm, quaisquer condies pelas quais esse privilgio lgico possa convir a qualquer coisa ... por conseguinte, ignora-se se alguma vez esse conceito 
significa qualquer coisa" (CRP A 243/B 301). Portanto, o eu como sujeito  apenas "um mero prefixo" ou uma "representao completamente vazia".
Kant foi extremamente sensvel ao perigo de converter o sujeito lgico e seus predicados na substncia e acidentes da ontologia. O sujeito lgico do conhecimento 
 aquilo "que permanece depois de eliminados todos os acidentes (como predicados)" (P 46), mas o prprio processo de eliminao no pode garantir a existncia do 
eu. Esperar que ele faa isso  cometer a falcia do paralogismo, como no primeiro paralogismo que parte falsamente das premissas de que "o sujeito absoluto do nosso 
juzo", e de que "eu, como ser pensante, sou o sujeito absoluto de todos os meus possveis juzos", para chegar  concluso de que, "portanto, eu como ser pensante 
(alma), sou substncia" (CRP A 348). Assim, Kant aceita o cogito ou "eu penso" como a proposio de um eu absoluto ou sujeito, mas resiste ao ergo sum ou inferncia 
paralogstica de que esse sujeito  um ser substancial.
O radicalismo terico de Kant a respeito do sujeito  restrito em muitos aspectos, sobretudo no tocante ao sujeito prtico. Nas antinomias de CRP e CRPr, Kant admite 
que o sujeito atuante  uma substncia. O sujeito atuante ocupa o domnio inteligvel da liberdade e o domnio da causalidade natural; em seu carter inteligvel, 
esse "sujeito deve ser considerado livre de toda a influncia da sensibilidade", embora seus atos produzam efeitos no mundo emprico (CRP A 541/B; 569). A concluso 
de que o sujeito atuante, tal como o sujeito pensante,  tambm meramente uma funo lgica sem existncia substancial foi aduzida por Nietzsche (1886) e Freud (1915). 
Sob a inspirao de ambos, as conseqncias da separao original por Kant do cogito do ergo sum foram inferidas por pensadores do quartel final do sculo XX, como 
Foucault (1980, 1988), Lacan (1986) e Derrida (1976).
sujeito transcendental ver APERCEPO; EU; SUJEITO; OBJETO E SUJEITO TRANSCENDENTAIS
sumo bem [summum bonum, hchstes Gut] ver tambm ABSOLUTO; AUTONOMIA; ESPERANA; FELICIDADE; VONTADE; VONTADE BOA
O sumo bem  descrito em CRP como a combinao de felicidade e do mrito para ser feliz. A filosofia prtica de Kant separou rigorosamente a heteronomia da felicidade 
e sua
supra-sensvel             301
doutrina da eudaimonia da de autonomia da liberdade e sua doutrina da eleutheronomia (MM p.378, p. 183). Entretanto, quando considera o sumo bem em funo das respostas 
s perguntas dos trs interesses da razo (O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?), Kant afirma que tanto a felicidade quanto a liberdade moral 
per se no so adequadas para servir como sumo bem. Deve ser uma combinao de ambas que rene a moralidade ou o "mrito de ser feliz" com a esperana de felicidade 
real: "A felicidade per se est longe de ser para a nossa razo o bem perfeito. A razo no a aprova (por mais que a inclinao a possa desejar) se no estiver ligada 
com o mrito de ser feliz, isto , com a boa conduta moral. Por outro lado, a moralidade por si s e com ela o simples mrito para ser feliz tambm no  ainda o 
bem perfeito" (CRP A 81 3/B 841). A resposta  segunda pergunta do interesse da razo - "O que devo fazer?" -  "fazer-se digno de ser feliz", e  terceira pergunta 
- "O que posso esperar?" -  "esperar sua participao na felicidade". Kant conclui que "a felicidade... na sua exata proporo com a moralidade dos seres racionais, 
pela qual estes se tornam dignos dela, constitui sozinha o bem supremo do mundo" (CRP A 814/B 842) e v a realidade dessa unidade como baseada no "postulado" de 
um inteligvel "bem supremo originrio".
supra-sensvel ver ARQUTIPO; COISA-EM-Sl-MESMA; INTELIGVEL; NOUMENON; OBJETO E SUJEITO TRANSCENDENTAIS

T
tbua dos juzos/categorias ver tambm CATEGORIAS; JUZO; LIGAO; SNTESE; UNIDADE
Em CRP, Kant descreveu a "tbua de juzos" como "a chave para a descoberta de todos os conceitos puros do entendimento". Quis dizer com isso que as 12 categorias 
ou conceitos puros do entendimento podem ser derivados das 12 "funes do pensamento nos juzos" (CRP A 70/B 95). O conceito que liga as duas tbuas  o de sntese, 
ou a unidade de um mltiplo. Num passo crucial em seu argumento, Kant afirma que "a mesma funo que confere unidade s diversas representaes num juzo d tambm 
unidade  mera sntese de vrias representaes numa intuio; e essa unidade, expressa de um modo geral, designa-se por conceito puro do entendimento" (CRP A 79/B 
104). Assim, um conceito puro do entendimento corresponde a cada um dos juzos, como pode ser visto se as duas tbuas so comparadas - ver as tbuas 1 e 2 em CATEGORIAS.
Kant afirmou que as categorias oferecem um "inventrio exaustivo" das faculdades do entendimento (CRP A 80/B 106), uma posio que tem sido sistematicamente contestada 
desde a publicao de CRP. Os crticos, que vo de Strawson (1966) a Derrida (1978), tm sido unnimes em criticar o modo como as tbuas dos juzos e categorias 
no s dominaram a apresentao de Kant de seus pensamentos em CRP, mas tambm em CRPr e CJ. A segunda crtica (CRPr) apresenta a "Tbua das Categorias de Liberdade" 
(p.66, p.68), enquanto a terceira (CJ) expe o juzo esttico do gosto em termos de qualidade, quantidade, relao e modalidade. As opinies tambm esto divididas 
sobre se a tbua das categorias  simplesmente uma forma histrica e prescindvel de apresentao, ou se  parte integrante da filosofia de Kant.
tcnico/tcnica [Technik] ver tambm ARTE; IMPERATIVO; JUZO; JUZO REFLEXIVO; SISTEMA; TELEOLOGIA
Em PI, Kant distingue entre juzos prticos, os quais so baseados na liberdade, e juzos tcnicos, os quais "pertencem  arte de realizar alguma coisa apetecida" 
(PI p.200, p.7). Ele ilustra a distino descrevendo de novo, agora como imperativos "tcnicos", os imperativos de habilidade e prudncia apresentados antes em FMC. 
Amplia depois o conceito de juzo tcnico que  acompanhado pela faculdade de julgar e argumenta que esse procedimento  adotado quando se julgam objetos naturais. 
Derivou disso uma "tcnica da natureza" que consiste em julgar objetos naturais ''como se a sua possibilidade repousasse na
teleologia            303
arte"(p.201, p.8). O conceito de uma "tcnica da natureza"  crucial para a filosofia da natureza de Kant, desenvolvida na segunda parte de CJ e depois ampliada 
em OP.
Na Parte II de CJ, Kant argumenta que a natureza no pode ser entendida somente na base de princpios mecnicos, mas deve ser suplementada pelos princpios do juzo 
te-leolgico. Os produtos da natureza podem ser vistos como fins, e sua causalidade, a esse respeito,  descrita em PI como uma "tcnica da natureza" (PI p.219, 
p.23). A tcnica da natureza no  uma categoria, e  rigorosamente distinguida da "nomottica da natureza", a qual consiste em colocar a natureza sob as leis do 
entendimento. A tcnica da natureza  a resultante dos procedimentos unificadores seguidos pelo juzo quando coloca uma intuio emprica sob um conceito, ou as 
leis do entendimento sob princpios comuns. Kant conclui que a "faculdade de julgar  essencialmente tcnica; a natureza  representada como tcnica somente na medida 
em que concorda com esse procedimento e o torna necessrio" (PI p.220, p.24). Assim sendo, a tcnica da natureza serve como um princpio para o juzo reflexivo e 
assinala apenas "uma relao de coisas com a nossa faculdade de julgar; s nesta ltima pode ser encontrada a idia daquela conformidade a um fim que atribumos 
 prpria natureza" (p.221, p.25).
teleologia ver tambm CONFORMIDADE A UM FIM; FIM; REINO DOS FINS; TCNICO/TCNICA
Uma explicao teleolgica  aquela expressa em termos de fins ltimos. Suas origens encontram-se na distino aristotlica entre causas materiais, formais, eficientes 
e finais, que ele aplicou  explicao de mudana fsica. A causa final, ou '"aquilo no interesse do qual' uma coisa  feita" (1941,195a, 33), foi aplicada  mudana 
fsica e  ao humana. Explicaes teleolgicas foram aplicadas  natureza e  ao at o comeo do perodo moderno, quando Galileu rejeitou todas as causas aristotlicas, 
e Descartes baniu as causas finais da explicao da mudana fsica em favor de causas eficientes. Kant, porm, argumentou a favor de um papel limitado para os princpios 
ideolgicos na suplementa-o de explicaes mecnicas. Na segunda parte de CJ, apresentou uma "Crtica da faculdade de julgar teleolgica", a qual, numa analtica, 
dialtica e doutrina do mtodo, estabeleceu os limites para o uso legtimo do juzo teleolgico (mas ver tambm o seu ensaio "Do uso de princpios ideolgicos em 
filosofia", de 1788). Os juzos ideolgicos podem suplementar o juzo determinante como um "princpio regulativo" para o juzo reflexivo e, assim, ampliar "a cincia 
fsica de acordo com um outro princpio, a saber, o das causas finais, mas sem interferir com o princpio do mecanismo da causalidade fsica" (CJ 67). Os juzos 
ideolgicos podem no ser usados simplesmente para atribuir propsitos humanos aos objetos da natureza, o que  simplesmente uma forma de "malabarismo mental que 
s decifra a concepo de um fim na natureza das coisas", mas pode servir como um meio de realizar a completude sistemtica do nosso conhecimento. Por outras palavras, 
os princpios ideolgicos no tm significado explicativo (CJ Introduo  Parte li).
A teleologia encontra seu prprio caminho na filosofia prtica de Kant, embora j no seja vista como teleologia propriamente dita. O que, para Kant, faz com que 
juzos prticos sejam ideolgicos  a sua referncia a um fim. O fundamento da autodeterminao da vontade  um "fim" (FMC p.427, p.35) e assim, tecnicamente, todos 
os juzos morais, uma vez que so determinados por um fim, so ideolgicos. Entretanto, eles no

304            tempo
so teleolgicos no sentido de atribuir significao a uma ao consumada, mas to-somente na medida em que esses fins servem como inclinaes ou motivos para a 
determinao da vontade. Embora as duas formas de juzo teleolgico paream ser opostas como teleologia fsica e tica (para usar os termos de CJ Parte li), Kant 
esforou-se por uni-las num "fim terminal" de liberdade humana, usando o conjunto de leis naturais e morais como seu caldo de cultura. A esse respeito, pode-se considerar 
que a teleologia desempenha um papel crucial na filosofia crtica, no s ao ampliar o domnio do conhecimento da natuerza como princpio regulativo e ao atuar como 
fonte para juzos morais dirigidos a um fim, mas sobretudo ao integrar as esferas da necessidade natural e da liberdade prtica.
tempo ver ANALOGIAS DA EXPERINCIA; CONTINUIDADE; ESPAO; ESPAO E TEMPO; ES-QUEMA(TISMO); ESTTICA; IMORTALIDADE; INFINITUDE; INTUIO; SENTIDO INTERNO; SUCESSO
A explorao por Kant do problema do tempo tem lugar dentro dos parmetros de uma antiga tradio de pensamento cujas perplexidades inspiram,  distncia, a sua 
crtica das teorias modernas sustentadas por Leibniz, Locke e Newton. Da mesma forma, o seu ponto de vista sobre a significao existencial e moral do tempo  devedor 
da especulao crist e dos papis cruciais nela desempenhados pela imortalidade da alma e a atribuio de responsabilidade pela ao.  impossvel, evidentemente, 
separar as duas dimenses de tempo fsico e moral, muito embora Kant parea estabelecer uma rigorosa distino entre o tempo fsico discutido em CRP e o tempo moral 
discutido em CRPr.
As distintas posies defendidas por Plato e Aristteles sobre a natureza do tempo foram sumamente significativas para o subseqente desenvolvimento da filosofia 
do tempo. Com menor influncia na tradio, mas importante para Kant, foi a posio que se diz ter sido sustentada por Epicuro. O acolhimento medieval a antigos 
debates foi ainda determinado pela reflexo de Santo Agostinho sobre o significado moral e espiritual do tempo em suas Confisses (1960). Em termos sumrios, as 
diferenas em jogo nas vrias definies de tempo envolveram as relaes entre tempo e eternidade e entre tempo e movimento. Plato seguiu uma linha pitagrica de 
argumentao, a qual distinguia entre tempo limitado e ilimitado ou infinito. Em seu dilogo cosmolgico, o Timeu, ele alude ao tempo como uma "imagem em movimento 
da eternidade", distinguindo entre tempo eterno, o qual "se apoia na unidade" e o tempo "daqueles estados que afetam as coisas moventes e sensveis, das quais a 
gerao  a causa" (Plato, 1961, 37d, e). Enquanto Plato comea com o tempo eterno e v os eventos temporais como orientados para ele, Aristteles principia com 
o agora e v o tempo como um acidente do movimento que surge da experincia do antes e depois: "quando percebemos um 'antes' e um 'depois', ento dizemos que existe 
tempo. Pois o tempo  justamente isso-a quantidade de movimento a respeito de 'antes' e 'depois'" (1941,219b, 1-2). A posio de Epicuro, tal como  apresentada 
por Digenes Larcio (1925, Livro x), concebe o tempo como uma sensao imediata (ou, em termos de Kant, uma "intuio"), a qual  distinta da antecipao oxxprolepsis 
por no ser construda a partir de sucessivas sensaes, mas pressuposta por elas.
A sutil defesa de Plotino de um elemento platnico de tempo nas Enadas sustenta que o tempo  independente do movimento, porm pode ser medido em funo dele (ver
tempo            305
Plotino, 1971, Terceira Enada, VII, 12). O tempo  a discutido no apenas em funo do movimento, mas tambm em termos de uma analogia (se analogia ) com a vida, 
um termo sendo a eternidade descrita como uma "vida inalteravelmente imvel e que mantm sempre o contedo universal (tempo, espao e fenmenos) em presena efetiva" 
{Terceira Enada, vil, 3), e sendo o outro termo o tempo de antes, agora e depois como o "constante progresso da novidade ... contida na diferenciao da vida" {Terceira 
Enada, vn, 11). Esses temas, a par da nfase sobre a experincia da alma, foram retomados por Santo Agostinho no Livro XI das Confisses sobre "tempo e eternidade", 
mas reela-borados numa meditao sobre a experincia de tempo da alma e sobre o papel da alma na medio do tempo. Com isso, o problema do tempo fsico  infletido 
na direo do problema da experincia de tempo e, concomitantemente, os temas de memria pretrita, desespero presente e esperana futura.
As dificuldades geradas pelos conceitos fsico e moral de tempo persistiram nas obras de Descartes e de crticos tais como Leibniz, Locke e Newton. O conceito de 
tempo de Descartes distinguiu entre durao [dure] e tempo, a primeira descrita como um "modo sob o qual fazemos idia dessa coisa enquanto ela continuar a existir" 
(Descartes, 1644, p.24), e o tempo servindo como uma medida do movimento que est "somente em nossas mentes". A durao  um atributo ou modo de ser das coisas, 
ao passo que o tempo  um modo subjetivo usado como medida para o movimento, sendo a durao considerada anterior ao tempo. Locke tambm enfatiza a durao, ao caracterizar 
o tempo e a durao como seus modos simples e ao remontar as origens da durao a "uma das fontes de todo o nosso conhecimento, a saber, a sensao e a reflexo" 
(Locke, 1690, p.90), neste caso, a "reflexo acerca desse aparecimento de numerosas idias umas aps outras em nossas mentes". Essa reflexo d origem  idia de 
sucesso e aos intervalos entre o aparecimento de duas idias sucessivas d-se o nome de durao; como estamos conscientes de que existimos enquanto pensamos essas 
idias sucessivas, estamos em condies de designar como "durao" a continuidade de nossa prpria existncia ou da de outros.
Leibniz e Newton resistiram  tendncia nominalista inerente  subordinao do tempo  durao. Newton parece reviver uma viso platnica de tempo em sua distino 
entre durao, definida por ele como "tempo absoluto, verdadeiro e matemtico, [o qual] de si mesmo e por sua prpria natureza flui uniformemente sem relao alguma 
com qualquer coisa externa", e "tempo relativo, aparente e comum, o qual  uma medida de durao por meio do movimento" (Newton, 1687, p.8). Leibniz criticou Locke 
nos Novos ensaios por pressupor uma definio de tempo em sua descrio de sucesso, afirmando contra ele que "uma seqncia de percepes desperta em ns a idia 
de durao mas no a gera" (Leibniz, 1765, p.153). Mas tambm criticou a noo de tempo absoluto sustentada pelos newtonianos em sua correspondncia com Clarke. 
Ele satisfaz ambas as direes de crtica ao considerar o tempo como "uma ordem de sucesses"; ou seja, o tempo  "relativo" na medida em que  uma "ordem" mas no 
uma estrutura, e "objetivo" na medida em que  uma ordem necessria. Essa posio foi desenvolvida por Wolff (1719) numa descrio do tempo que o definia como confusa 
e sensvel percepo de uma ordem racional. O desenvolvimento da noo de tempo kantiana ocorreu dentro do quadro de referncia dos debates acima descritos em suas 
linhas gerais. Em ICP, Kant considera ser o tempo um conceito parcialmente analisvel, o qual no est aberto para uma definio

306           tempo
real mas apenas para uma nominal. Assim, a sua descrio permanece de acordo com a viso wolffiana de tempo, a qual o considerou um conceito confuso que poderia, 
em certa medida, ser esclarecido atravs da anlise. Entretanto, s uma definio nominal era possvel - ou seja, uma anlise dos modos em que a palavra "tempo" 
podia ser usada - e no uma definio real, isto , uma definio da natureza do tempo. Na poca em que escreveu Dl, Kant ainda sustentava que o tempo era incapaz 
de definio real, embora a sua justificao dessa posio tivesse mudado de carter. Ele jno considerava o tempo um conceito confuso, nem o tinha na conta de 
algo real. Em vez disso, desenvolveu um novo conceito de tempo que criticava no s a derivao lockiana do tempo da sensao e reflexo, mas tambm os argumentos 
para a "realidade objetiva de tempo" sustentados pelos newtonianos e por "Leibniz e seus seguidores" (Dl 14).
Ele apresentou a sua nova teoria do tempo na forma de sete teses que o distinguiram de todas as outras posies ao defini-lo como uma intuio. A primeira tese sustenta 
que "o tempo no promana dos sentidos mas  por estes pressuposto" (Dl  14), e concorda implicitamente com o ponto de vista de Leibniz de que a derivao de Locke 
do tempo a partir da sucesso  umapetitio principii. A segunda tese ataca o ponto de vista sustentado pelos leibnizianos de que o tempo  um conceito: "as coisas 
reais so concebidas como situadas no tempo e no contidas sob o conceito geral de tempo, como sob um sinal caracterstico comum" (ibid). Isso significa, nos termos 
da terceira tese, que o tempo  uma intuio que, sendo anterior  sensao,  intuio pura. A quarta tese sustenta que o tempo  uma grandeza contnua e que momentos 
de tempo no so parcelas de tempo, "mas limites com tempo entre eles". Na quinta e mais controvertida tese, Kant afirma que "o tempo no  algo objetivo e real" 
(ibid.), e no  uma substncia, nem um acidente ou uma relao. Essa tese, dirigida tanto contra os newtonianos quanto contra os leibnizianos, afirma que o tempo 
 uma condio subjetiva "necessria, em virtude da natureza da mente humana, para a coordenao de todas as coisas sensveis de acordo com uma lei fixa" (ibid.). 
Contudo, embora no seja real nem objetivo, tampouco  simplesmente subjetivo no sentido lockiano, uma vez que  uma forma de coordenao anterior aos objetos sensveis 
que coordena. Com a sexta tese, e em decorrncia desta, o tempo no  simplesmente imaginrio mas fornece a nica condio sob a qual objetos sensveis podem ser 
coordenados.  "fundamental e originrio" e, nas palavras da stima tese,  um "absolutamente primeiro princpio formaldo mundo sensvel" (ibid.), sem o qual a nossa 
intuio de objetos sensveis seria impossvel.
Na "Esttica transcendental" da CRP, os vislumbres sobre a natureza do tempo anunciada em Dl so desenvolvidos e refinados. Tal como no caso do espao, Kant oferece 
uma exposio metafsica e uma transcendental de tempo: a primeira  uma representao do que pertence ao conceito de tempo "como dado a priorf (CRP A 23/B 38), 
a explicao do tempo como um princpio "a partir do qual se pode entender a possibilidade de outros conhecimentos sintticos a priorf (B 41). A exposio metafsica 
cobre cinco pontos, e a direo bsica do argumento segue o apresentado em Dl. Em primeiro lugar, o tempo no  um conceito emprico derivado da experincia, mas 
 o seu pressuposto: "S na pressuposio do tempo podemos representar-nos uma quantidade de coisas como existentes num s mesmo tempo (simultaneamente) ou em tempos 
diferentes (sucessivamente)" (A 30/B 46). Ele , de acordo com o segundo ponto, apriori e constitui "o fundamento de todas as intuies" (A 3 1/B 46). Os princpios 
apodcticos respei-
teodicia            307
tantes s relaes no tempo, de acordo com o terceiro ponto, baseiam-se na necessidade apriori do tempo e no so derivados da experincia. Esse  um passo crucial 
na elaborao do argumento para os princpios desenvolvidos na "Doutrina transcendental do juzo". O quarto ponto  que o tempo no possui as propriedades subsuntivas 
de um conceito, pelas quais os objetos so reunidos sob um termo geral, mas, antes, as propriedades de uma intuio que coordena os objetos em uma intuio singular. 
Com o seu quinto pento, Kant aborda o problema do tempo infinito ou ilimitado que tinha assediado filsofos desde Plato: ele concorda que o tempo  ilimitado e 
que determinadas grandezas de tempo "s so possveis atravs de limitaes de um tempo nico que lhe serve de funda-mento"(A 32/B 48); no localiza, porm, esse 
tempo ilimitado no empreo mas no "sentido interno" que est na base de todas as aparncias em determinados tempos (A 33/B 50). Embora Kant trate conjuntamente do 
espao e do tempo na "Esttica transcendental", ele confere ao tempo um papel mais fundamental na determinao da experincia. A adaptao dos conceitos do entendimento 
s aparncias dadas pelas formas de intuio  discutida em termos do "sentido interno" ou tempo. Os esquemas e os princpios podem ser entendidos, ainda que de 
um modo rudimentar, como formas temporalmente adaptadas das categorias que estabelecem os padres de coordenao intuitiva e subsun-o conceituai que formam a experincia. 
A inevitvel dimenso temporal da experincia humana  a base da insistncia de Kant na natureza do tempo e, assim, junta questes tericas e prticas. A negociao 
moral do desejo humano  inseparvel do carter finito da vida humana, com a sua experincia composta de uma inextricvel rede de memria, esperana e medo. Para 
corroborar esses aspectos da experincia temporal, Kant postula a "imortalidade" em CRPr como a nica condio capaz de fornecer "a condio praticamente necessria 
de uma durao adequada ao perfeito cumprimento da lei moral" (p.133, p.137). Esse postulado foi alvo das crticas sistemticas de filsofos dos sculos XIX e XX, 
com destaque para Nietzsche (1886) e Heidegger (1927), que exploraram as implicaes de se prolongar a restrio kantiana do tempo terico at os limites da experincia 
humana finita  reflexo sobre a ao e responsabilidade em filosofia prtica.
teodicia ver tambm DEUS; F; HISTRIA; PROVIDNCIA; TEOLOGIA Em FTF (1791), Kant voltou ao problema da teodicia, que o preocupara durante a segunda metade da 
dcada de 1750. Nesse perodo, estivera interessado na teodicia de Leibniz ou "defesa da boa causa de Deus" contida na proposio de que "este mundo era o melhor 
de todos os mundos possveis". Embora em Uma tentativa de algumas reflexes sobre otimismo (1759) Kant defenda, de um modo geral, a boa causa de Deus, ele nutria 
dvidas metodolgicas acerca da capacidade dos seres humanos para discernirem os desgnios do Todo-Poderoso (ibid., p.35, p.76). Essas dvidas foram reafirmadas 
em FTF com base na restrio do conhecimento legtimo da filosofia crtica aos limites da experincia possvel.
Ao definir a teodicia como as "defesas da suprema sabedoria do Criador contra as queixas que a razo apresenta ao apontar a existncia de coisas no mundo que contradizem 
o sbio propsito" (FTF p.283), Kant expe trs reas de queixa: (a) "a santidade do Criador contrasta com a perversidade moral no mundo"; (b) a bondade do Criador 
contrasta com a infelicidade e o sofrimento; (c) a justia do Criador contrasta com a impunidade dos culpados (FTF p.285). Argumenta ele que, em cada caso, "a razo 
 completamente

308            teologia
impotente quando se trata de determinar a relao entre este mundo, tal como o conhecemos atravs da experincia, e a suprema sabedoria''' (FTF p.290). Em plena 
concordncia com os resultados da filosofia crtica, Kant descreve essa percepo dos "necessrios limites de nossas reflexes" como uma "sabedoria negativa" que, 
ao mostrar o fracasso da teodicia especulativa, abre o caminho para uma teodicia prtica. Atravs de uma interpretao da histria de J, Kant chega  concluso 
de que "a teodicia no  uma tarefa da cincia mas uma questo de f" (FTF p.293).
teologia ver tambm ANALOGIA; COSMOLOGIA; DEUS; HISTRIA; IGREJA; PROVIDNCIA; PSICOLOGIA; TEODICIA
A crtica de Kant da teologia ocupou-se de um assunto sumamente especfico, a saber, a teologia filosfica desenvolvida por Christian Wolff, a qual era considerada 
um ramo da "metafsica especial". A teologia de Wolff assinalou a primeira etapa da intruso da filosofia - uma faculdade de status inferior na universidade setecentista 
- no territrio da faculdade superior da teologia. Esse lance foi vigorosamente combatido pelos telogos, que usaram de todos os meios, inclusive a intriga palaciana, 
para manter a filosofia no que eles achavam ser o seu devido lugar. Essas lutas levaram, por fim, ao banimento de Wolff da Prssia e  promulgao de um edito proibindo 
a discusso de seus livros. Ecos desse confronto entre as faculdades filosficas e teolgicas tambm repercurtiram no CF de Kant e determinaram o carter de sua 
crtica da teologia.
A discusso kantiana da teologia raramente vai alm da crtica do tratamento wolf-fiano de Deus como um objeto da "metafsica especial", a par da cosmologia (o mundo) 
e da psicologia (a alma). Suas lies sobre teologia filosfica assumiram a forma, em grande parte, de um comentrio crtico  seo da wolffiana Metaphysica (1739) 
de Baumgarten sobre Deus, e a sua crtica da teologia na "Dialtica transcendental"  uma caracterstica da demolio ponto-por-ponto da crtica da "razo pura" 
da metafsica wolffiana. Entretanto, em sua crtica, Kant teve o cuidado de no entregar a teologia filosfica nas mos dos telogos. Ele preferiu defender a tese 
segundo a qual, embora Deus no possa ser um objeto de conhecimento especulativo, podia ser, no obstante, um postulado da razo prtica. Sua supresso do saber* 
"para encontrar lugar para a/" (CRP B xxx) estava endereada tanto  teologia filosfica quanto  exegese bblica da faculdade de teologia. Assim, a discusso do 
conflito da filosofia e teologia em CF conclui com um gesto de solidariedade para com a religio no institucional, no teolgica, na forma de publicao de uma 
carta de Carol Arnold Wilmans sobre "separatistas e msticos", onde este afirma que embora nunca tivesse "encontrado um telogo entre eles", no entanto, "se essas 
pessoas fossem filsofos, seriam (com perdo da palavra!) autnticos kantia-nos" (CF p.74-5,p. 137-8).
A crtica da teologia de Kant constitui, assim, uma parte importante de sua mais ampla crtica da metafsica e concentra-se quase exclusivamente nas provas para 
a existncia de Deus. Em UAP, de 1763, a sua crtica faz parte de um movimento geral em seu
*No original, His deniat ofknowledge. Segundo Gulyga, tratou-se apenas de uma elevao do saber. Uma supresso dele careceria de sentido. Da o verbete concluir 
acertadamente que apenas "o conhecimento especioso de Deus  removido a fim de dar lugar  f prtica". (N.R.T.)
teologia            309
pensamento contra a "falsa sutileza" (ver tambm FS): "No foi inteno da Providncia que os discernimentos mais necessrios  bem-aventurana humana assentassem 
na sutileza de refinadas inferncias" (UAP p.65, p.43). Mas ainda que seja suficiente o "senso comum natural", ele pode ser "confundido por falso artifcio" (ibid.), 
e, assim,  necessrio, como ocorreu no caso do lgico A falsa sutileza das quatro figuras silogsticas, escrito na mesma poca, combater o "falso artifcio" no 
raciocnio.
Em UAP, Kant identifica quatro provas para a existncia de Deus e agrupa-as segundo sejam aduzidas "de conceitos racionais do meramente possvel ou de conceitos 
empricos do existente" (p. 155, p.223). Do primeiro grupo constam as provas "ontolgi-cas", do segundo as "cosmolgicas". Das provas ontolgicas, Kant critica a 
"chamada prova cartesiana", a qual justifica a existncia de Deus como conseqncia de sua perfeio. Um ser perfeito possuiria todos os predicados, incluindo a 
existncia, porm Kant mostra que a existncia no  um predicado mas a posio de predicados. Sua prpria prova favorita no busca fundamentos para a existncia 
de Deus mas, antes, razes de que Deus existe porque a proposio oposta (Deus no existe)  impensvel (UAP p. 162, p.237, ver tambm ND p.392, p.69); mas esse 
argumento quintessencialmente "artificial"  aprofundado com todos os sinais de uma conscincia intranqila e de uma convico decrescente. Entretanto, Kant critica 
igualmente a primeira das provas cosmolgicas, a qual, atravs do princpio da razo suficiente, argumenta a partir de efeitos percebidos para chegar a uma causa 
fundamental, e que "atraiu muita ateno graas  escola wolffiana de filosofia (UAP p. 158, p.229). Ele  menos crtico em relao- segunda prova cos-molgica, 
que argumenta a partir da percebida disposio deliberada do mundo para um Criador, mas sustenta que, embora jamais possa alcanar a preciso absoluta, deve ser 
respeitado pelo seu poder "para vitalizar a espcie humana com sentimentos elevados que so produtivos de nobre atividade" (UAP p. 161, p.235). Kant mantm essa 
posio em CJ e LTP, onde a segunda prova cosmolgica foi interpretada como tendo estabelecido uma teologia moral na base do conhecimento analgico de Deus.
Em CRP, Kant abandona at a residual e nada entusistica tentativa de UAP para fornecer uma prova da existncia de Deus. No terceiro captulo da "Dialtica transcendental" 
sobre "O ideal da razo pura" (que se segue s demolies da psicologia racional e da cosmologia nos paralogismos e antinomias), ele declara que as trs provas da 
teologia racional - a "ontolgica", a "cosmolgica" e a "fsico-teolgica" - so insustentveis. Uma seqncia anloga de argumentao, com algumas diferenas de 
detalhe, podem ser discernidas na primeira parte de LTP sobre "Teologia transcendental". Ambas as verses da crtica de Kant da teologia defendem a tese de que  
impossvel para a razo humana chegar ao conhecimento especulativo ou terico de Deus.
Kant pensa que a prova ontolgica  impossvel porque o ser no  um predicado e, portanto, no se pode dizer que pertence a um conjunto de predicados que fazem 
o ser su-perlativamente real (ens realissimum). O ser predicado "serve to-somente para pr o predicado em sua relao com o sujeito" (CRP A 599/B 627), e dizer 
"Deus " no acrescenta nenhum novo predicado ao conceito de "Deus", mas apenas "situo [Deus] como sendo um objeto que corresponde ao meu conceito" (ibid.). Pretender 
que o mais real e perfeito dos seres deve possuir o predicado "existncia" confunde as ordens da predica-o real e lgica. Pois a existncia no  um conceito, 
porm a posio atravs da qual conceito e objeto podem ser mutuamente relacionados. A posio real da existncia ou o

310            tipo/tpica
"contexto da experincia como um todo" distingue-se rigorosamente do conceito lgico que simplesmente "respeita as condies universais do possvel conhecimento 
emprico" (CRP A 601/B 629). Qualquer conscincia da existncia, quer imediata/perceptiva ou inferida, s pode sustentar-se dentro do campo da "unidade de experincia". 
Fora disso no faz o menor sentido, e tentar provar o contrrio  "meramente dispender em vo muito trabalho e esforo" (CRP A 602/B 630).
Diferentemente da prova ontolgica da existncia de Deus, um argumento totalmente apriorstico que parte "da realidade suprema para a necessidade de existncia" 
(CRP A 604/B 632), a prova cosmolgica parte da premissa maior "Se algo existe deve existir tambm um ser absolutamente necessrio" atravs da premissa menor "Eu 
existo", para a concluso "Existe um ser absolutamente necessrio" (CRP A 604/B 632). Kant afirma que essa prova contm "um ninho inteiro de suposies dialticas", 
como a ampliao ao mundo supra-sensvel da categoria de causalidade - a qual s possui significado quando dentro do mundo sensvel -; a inferncia de uma causa 
primeira a partir de uma srie infinita; e a confuso das possibilidades lgicas e transcendentais de um ens realissimus (CRP A 610/B 638).
As provas ontolgicas e cosmolgicas cometem o erro de converter princpios potencialmente regulativos em constitutivos, transformando assim a necessidade como princpio 
formal do pensamento em "condio material e hiposttica da existncia" (CRP A 620/B 638). Ambas as provas partem de abstraes tais como "a existncia em geral" 
para "conceitos de coisas em geral", enquanto a prova fsico-teolgica vai da "experincia determinada" de ordem na natureza para uma "causa sublime e sbia (ou 
mais de uma) que atua mediante a liberdade" (CRP A 625/B 653). Contudo, de modo a avanar da experincia deste mundo para a sua origem, afirma Kant que essa prova 
precisa recorrer s desacreditadas provas ontolgicas e cosmolgicas e deve, portanto, cair com elas.
Ao criticar as trs provas, Kant pretende ter abalado definitivamente os alicerces da teologia especulativa. Em CRP, o ens realissimum s  permitido como princpio 
regu-lativo; nenhuma inferncia especulativa  tolervel a partir do conceito para um objeto de existncia. Em LTF, ele desenvolve uma teologia moral, vagamente 
baseada em Baum-garten, a qual aponta para um complemento construtivo da destruio das provas da teologia especulativa. Esse complemento prope a existncia de 
Deus como um "postulado necessrio para as leis incontestveis da minha prpria natureza" (p.l 10) e estabelece um conceito determinado de Deus como a condio necessria 
para a moralidade. Deste modo, o conhecimento especioso de Deus  removido a fim de dar lugar  f prtica.
tipo/tpica ver tambm ANALOGIA; ESQUEMA(TISMO); HIPOTIPOSE; JUZO A seo de CRPr sobre a "Tpica do juzo prtico puro" aborda o problema do juzo prtico e, em 
particular, o problema da apresentao do "ideal" do moralmente bom in concreto. A par do esquematismo e da simbolizao, forma uma outra espcie do gnero hipotipose. 
Kant compara-a diretamente com o esquematismo, assinalando que o problema tratado por este ltimo, de apresentao de um conceito a uma intuio num juzo, fica 
ainda mais complicado no juzo prtico pelo carter supra-sensvel da lei moral. Aceita, porm, que uma "lei natural" pode ser admitida "para fins de juzo... [mas] 
s segundo o seu aspecto formal, motivo por que podemos apontar essa lei como o tipo da lei moral" (CRPr p.70, p.72). O tipo de lei moral possibilita "comparar mximas 
de ao com
transcendental            311
uma lei natural universal" sem sucumbir ao "empirismo da razo prtica" que fundamenta os juzos morais em princpios empricos, nem ao "misticismo da razo prtica". 
Este ltimo, observa Kant, "converte num esquema aquilo que s servia como smbolo, isto , submete  aplicao da lei moral intuies reais porm insensveis (de 
um reino invisvel de Deus)" (p.71, p.73). Converte assim o que deveria ser somente uma analogia de um reino de fins num objeto transcendental.
tpica transcendental ver CONCEITOS DE REFLEXO
totalidade (terceira categoria da quantidade) ver CATEGORIAS; JUZO; TBUA DOS JUZOS/CATEGORIAS
transcendental ver tambm TRANSCENDENTE
Na filosofia medieval, os transcendentais caracterizaram os atributos extracategoriais dos seres: unidade, verdade, bondade, beleza (e, em algumas classificaes, 
coisa e algo). Para Kant, um vestgio desse uso sobrevive no seu emprego de transcendental como uma forma de conhecimento, no dos prprios objetos mas dos modos 
como somos capazes de conhec-los, ou seja, as condies da experincia possvel. Assim, ele "intitula transcendental todo o conhecimento que est ocupado no tanto 
com os objetos quanto com o modo de nosso conhecimento de objetos, na medida em que esse modo de conhecimento  possvel apriori' (CRP A 12). O sistema dos conceitos 
que constitui conhecimento apriori pode ser descrito como filosofia transcendental, para o que a crtica da razo pura  diversamente descrita como propedutica, 
cnone ou arquitetnica. Transcendental  um termo ubquo, usado para qualificar substantivos como lgica, esttica, unidade de apercepo, faculdades, iluso; em 
cada caso, assinala que o substantivo que ele qualifica est sendo considerado em funo de suas condies de possibilidade.
O significado preciso do termo transcendental desenvolve-se ao longo de CRP, mas os seus parmetros semnticos podem ser indicados mostrando os modos como Kant o 
distingue de seus contrrios. O transcendental  distinguido do emprico e alinhado com um apriori na medida em que este ltimo envolve uma referncia ao modo de 
conhecimento; significa "a possibilidade ou emprego apriori de tal conhecimento" (CRP A 56/B 86). A distino de transcendental e emprico envolve, pois, a metacrtica 
do conhecimento e suas fontes a priori. Kant considera a descrio psicolgica do conhecimento um ramo do emprico e, portanto, distingue-o por seu turno do conhecimento 
transcendental (A 801/B 829). O transcendental tambm se distingue do metafsico e do lgico. Uma exposio metafsica de espao, por exemplo,  a que apresenta 
com clareza o que pertence a um conceito dado apriori (A 23/B 38), ao passo que uma exposio transcendental explica um conceito "como um princpio a partir do qual 
se pode entender a possibilidade de outros conhecimentos sintticos apriorf (B 40). Uma distino transcendental do sensvel e do inteligvel difere de uma distino 
lgica - a qual envolve "sua forma ou clara ou obscura" - por sua preocupao com a "origem e o contedo" do conhecimento (A 44/B 62). Finalmente, Kant distingue 
entre transcendental e transcendente, contrastando os princpios transcendentes que "nos convidam a derrubar todas essas barreiras e passar a um terreno novo que 
no reconhece, em parte alguma, limites de demarcao" com o "abuso" transcendental das categorias que estendem sua aplicao

312            transcendente
para alm dos limites da experincia possvel e " meramente um erro da faculdade de julgar" (A 296/B 352).
transcendente [transzendent] ver tambm ABSOLUTO; RAZO; TRANSCENDENTAL Kant distingue entre o transcendente e o transcendental. Transcendente  o termo usado para 
descrever aqueles princpios que "reconhecem transpor" os limites da experincia, em oposio aos princpios imanentes "cuja aplicao est inteiramente dentro dos 
limites da experincia possvel" (CRP A 296/B 352). Princpios transcendentes "que no reconhecem limites" tm de distinguir-se do emprego transcendental de princpios 
imanentes para alm de seus limites prprios. Tais princpios incluem as idias psicolgicas, cos-molgicas e teolgicas discutidas na "Dialtica transcendental". 
Kant qualificou tambm o "emprego objetivo dos conceitos puros da razo" como "transcendentes", descrevendo-os confusamente como "idias transcendentais" (CRP A 
327/B 383). Em CJ, Kant distingue entre idias estticas e racionais, com as primeiras referidas  intuio de acordo com um "princpio meramente subjetivo de harmonia 
das faculdades cognitivas, e as segundas referidas de acordo com um princpio objetivo "que  incapaz de prover sequer um conhecimento do objeto" (CJ 57). Este 
ltimo  transcendente, em oposio ao princpio subjetivo da idia esttica e ao conceito imanente do entendimento. Tal como em CRP, as idias racionais so produzidas 
pela razo e podem ser usadas regulativamen-te na busca de unidade sistemtica do entendimento, ou de maneira transcendente "uma vez que a razo tenha avanado para 
alm da busca do entendimento" (CJ 76).
tratados ver FEDERALISMO; GUERRA; PAZ
u
unidade [Einheit] ver tambm CATEGORIA; CONCEITO; ENTENDIMENTO; IDENTIDADE; MLTIPLO; QUANTIDADE; RAZO; REGRA; RELAO
Unidade  um conceito ubquo na filosofia de Kant e , por conseguinte, usado em sentidos especficos e genricos. Entretanto, o seu uso revela um equvoco bsico 
na definio do conceito, entre (a) o sentido "transcendental" tradicional de unidade e (b) o seu sentido crtico como a primeira das categorias de quantidade. O 
prprio Kant reflete sobre os dois sentidos de unidade em CRP quando discute a proposio escolstica Quodli-bet ens est unum, verum, bonum (Ser, unidade, verdade 
e o bom so conversveis) (B 113). Kant reconheceu que os transcendentais eram tradicionalmente considerados como determinaes extracategoriais do ser, mas props 
audaciosamente rebaix-los a meras categorias de quantidade: "Esses supostos predicados transcendentais das coisas no so, de fato, mais do que exigncias lgicas 
e critrios de todo o conhecimento das coisas em geral, e prescrevem, como fundamento de tal conhecimento, as categorias de quantidade, ou seja, unidade, pluralidade 
e totalidade" (B 114). Apesar dessa afirmao, o status transcendental de unidade voltou a obcecar Kant de muitas e penosas maneiras.
Em UAP, Kant seguiu o tradicional sentido transcendental de unidade, derivando-a "de um fundamento no Ser supremo" (p. 119, p. 160) e vendo-a como informando a "perfeio 
natural". Entretanto, na poca de ICP, a unidade j se tornara - a par da grandeza, pluralidade e espao - um dos fundamentais conceitos "no analisveis" que foram 
subseqentemente elaborados na tbua das categorias (ICP p.280, p.252). Os dois sentidos de unidade coexistem em Dl, onde figura como a coordenao subjetiva de 
fenmenos e como o "corolrio da dependncia de todas as substncias de um s ser" (Dl 20). Em CRP, os dois sentidos de unidade tambm coexistem, embora o sentido 
extracategori-al do termo tenha perdido seu matiz teolgico.
Embora Kant procurasse em CRP reduzir a unidade a uma categoria de quantidade, ele sublinha a distino entre os sentidos categorial e extracategorial quando observa 
que a "unidade, a qual precede a priori todos os conceitos de ligao, no  a categoria de unidade... porque todas as categorias tm por fundamento as funes lgicas 
nos juzos e nestes j  pensada a ligao e, por conseguinte, a unidade de conceitos dados" (CRP B 131). O problema com que se deparou Kant  enunciado com total 
clareza em P. Ao tratar de derivar a tbua das categorias, ele "procurou ver se no havia uma operao do entendimento que contivesse todas as outras e que se distinguisse 
apenas por diferentes modificaes ou momentos" (P 39). Descobriu que essa operao do entendimento consiste

314            unidade transcendental da apercepo
no ato de julgar, o qual colocou "a multiplicidade das representaes sob a unidade de pensamento em geral" (p 39). Entretanto, a unidade em questo no podia ser 
a categoria de unidade que era supostamente derivada da unidade de pensamento; esta ltima tinha de ser, portanto, de uma ordem diferente das categorias; por outras 
palavras, "transcendental".
O recurso a uma unidade extracategorial criou problemas extremamente srios para a filosofia crtica, mas era inevitvel. Foi necessrio para Kant postular uma "conscincia 
pura, originria e imutvel" ou "apercepo transcendental" cuja "unidade numrica" ", portanto, o fundamento a priori de todos os conceitos" (CRP A 107). Sem isso, 
toda a filosofia transcendental estaria em perigo de tornar-se uma psicologia emprica; entretanto, como pode ele justificar o uso equvoco de unidade como uma sntese 
categorial e extracategorial? Um caminho que Kant explorou foi descrever a "unidade" extracategorial do sujeito transcendental como uma "identidade" que informa 
a "unidade" categorial: "A conscincia originria e necessria da identidade de si mesmo , portanto, ao mesmo tempo, uma conscincia de uma unidade, igualmente 
necessria, da sntese de todas as aparncias segundo conceitos..." (CRP A 108, o grifo  meu). Um outro caminho foi qualificar a unidade de acordo com sua inteno 
categorial ou transcendental, como quando Kant intitula deliberadamente a unidade de apercepo como "a unidade transcendental da conscincia de si mesmo, a fim 
de indicar a possibilidade de conhecimento a priori a partir dela" (CRP B 132, o grifo  de Kant).
 distino entre unidade categorial e transcendental, Kant adiciona a unidade do entendimento e a unidade da razo. A primeira  unidade categorial, enquanto a 
segunda est interessada em "conduzir a unidade sinttica, que  pensada na categoria, at o completamente incondicionado" (CRP B 383). A unidade da razo difere 
da unidade transcendental em, pelo menos, um importante aspecto. A unidade transcendental permite que acontea o ato de juzo, a partir do qual as categorias so 
derivadas como modos, ao passo que a unidade da razo  a ampliao da j dada categoria de unidade para alm dos limites do sentido at o incondicionado.
unidade transcendental da apercepo ver APERCEPO; ESPONTANEIDADE; EU; "EU PENSO"; IDENTIDADE; JUZO; SNTESE; SUJEITO; UNIDADE
universalidade ver CATEGORIAS; DEDUO; INDIVIDUAL; NECESSIDADE
V
validade [Geltung/Gltigkeit] ver tambm JUZO; NECESSIDADE; PRINCPIO; SENTIDO COMUM/SENSO COMUM
Em CRP, P e CJ, Kant distinguiu entre as vrias maneiras como se pode sustentar a validade de juzos. Os juzos subjetivamente vlidos, ou "juzos de percepo", 
"no necessitam de nenhum conceito de entendimento puro, mas apenas da conexo lgica de percepes num sujeito pensante" (P 8). Os juzos objetivamente vlidos, 
pelo contrrio, requerem "alm das representaes da intuio sensvel, conceitos especiais produzidos originariamente no entendimento"; so manifestos pelo fato 
de serem universal e necessariamente vlidos, ou seja, "se tm validade para ns e para qualquer outra pessoa" (ibid.). Em P, Kant sustenta que essa validade compartilhada 
decorre da "unidade do objeto, ao qual todos se referem e com o qual todos concordam" porque, caso contrrio, "no haveria razo para outros juzos concordarem necessariamente 
com o meu" ( 18). Mais tarde, em CJ, ele discordou de sua prpria posio e admitiu um sensus com-munis ou sentido comum que poderia levar a juzos universalmente 
compartilhados e necessariamente vlidos sem uma "unidade do objeto". Com efeito, ele atribuiu "validade exemplar" a juzos estticos de gosto na base do sentido 
comum como "norma ideal", ou uma idia que  "subjetivamente universal" mas "necessria a todos e a cada um" (CJ 22). Entretanto, a idia de um sensus communis 
no pode ser usada numa base constitutiva, mas to-somente regulativa; isso, porm, no precisa ser necessariamente prejudicial  sua validade. Esse fato  evidenciado 
em CRP, onde Kant admite na classe dos juzos objetivamente vlidos aqueles que so governados por princpios constitutivos e regulativos. A validade objetiva  
conferida no s queles juzos que possuem "validade imanente" em virtude de obedecerem s condies formais de uma experincia possvel (CRP A 638/B 666), mas 
tambm quelas idias regulativas assintticas que possuem "validade objetiva porm indeterminada" (A 663/B 691).
valor [Wert] ver tambm FIM; MXIMA; PESSOA
A filosofia do valor de Kant est estruturada em torno de uma distino entre valor absoluto e relativo, a qual, por sua vez,  determinada por outra distino entre 
fins e meios. Qualquer coisa ou ao que seja um meio para um fim possui um valor relativo a esse fim; assim, por exemplo, as virtudes tradicionais de coragem, determinao 
e perseverana s recebem seu valor a respeito dos fins a que servem. Se o fim  bom, ento os meios so bons em relao a ele; se os fins so maus, ento os meios 
so maus. As nicas

316           variedade
coisas que so boas em si mesmas e, portanto, de valor absoluto, so uma vontade boa e uma pessoa. A vontade boa  um mperse porque "ela  boa to-somente pelo 
querer, isto , em si mesma" (FMC p.394, p.7), enquanto as pessoas so fins em si mesmas e, portanto, de valor absoluto, porque "sua natureza j as distingue como 
fins em si mesmos, isto , como algo que no  para ser usado meramente como meios e... que so, pois, objetos de respeito" (p.428, p.36). As pessoas so assim distinguidas 
porque um ser racional no pode querer que a mxima de que um outro ser racional seja usado como meio para os fins de outrem se converta em lei universal. Pois, 
ao querer semelhante mxima, um ser racional quer a sua prpria subordinao potencial como um meio para os fins de outrem. Em CJ 83, Kant confere a essa noo 
de valor uma dimenso histrica ao afirmar que o valor da vida e o fim ltimo da criao so determinados pelo valor que atribumos s nossas vidas, agindo com vistas 
a um fim absoluto, independente da natureza.
variedade ver CONTINUIDADE; HOMOGENEIDADE
vazio ver NADA
verdade [aletheia, veritas, Wahrheit] ver tambm ANALTICA; APARNCIA; ASSENTI-MENTO; CERTEZA; ILUSO
A resposta de Kant  pergunta "Que  a verdade?" est formulada em funo do "critrio geral e seguro da verdade de todo e qualquer conhecimento" (CRP A 58/B 82). 
Depois de dar por estabelecida a definio nominal de verdade como "a adequao do conhecimento ao seu objeto" (A 58/B 82), Kant afirma no poder existir nenhum 
critrio geral [de verdade] que seja "vlido para todos os conhecimentos, sem distino dos seus objetos" (A 58/B 83). Entretanto, embora isso seja vlido para o 
contedo do conhecimento,  possvel estabelecer um critrio lgico e negativo de verdade na medida em que "regras gerais e necessrias do entendimento" (A 59/B 
84) expostas pela lgica so uma conditio sitie qua non. Pois "tudo o que contradiga essas regras  falso" (ibid.), embora a concordncia com essas regras no seja 
em si mesma um critrio suficiente de verdade.
Dentro do quadro de referncia crtico, a noo da "adequao do conhecimento ao seu objeto" adquire um novo significado, especialmente  luz do seu axioma bsico 
de que "as condies de possibilidade da experincia em geral so, ao mesmo tempo, condies de possibilidade dos objetos da experincia" (CRP A 158/B 197). Isso 
significa que as condies da experincia determinam a adequao de conhecimento ou, como disse Kant, "a experincia fornece as regras e  a fonte da verdade" (A 
318/B 375). As condies da experincia incluem as aparncias dadas atravs de intuies apriori e sintetizadas com conceitos a priori puros do entendimento. Assim, 
Kant pode dizer que a sntese desses elementos, "como conhecimento apriori, tambm s possui verdade, isto , concordncia com o objeto pelo fato de nada conter 
seno o necessrio  unidade sinttica da experincia em geral" (A 158/B 197). Isso deve incluir, como Kant sublinha, "as condies formais da intuio apriori, 
a sntese da imaginao e a sua unidade necessria numa apercepo transcendental" (A 158/B 197). Com este argumento, Kant rejeita qualquer noo platnica de verdade 
como adequao do conhecimento a uma idia, assim como a equao platnica de sensibilidade e iluso. As aparncias deixam de ser consideradas iluses, mas so um 
elemento essencial da experincia e, por conseguinte, da verdade.
virtude            317
A par dessa explicao da verdade como "adequao a um objeto", Kant apresenta-nos tambm uma explanao expressa em termos de validade. Nessa verso, a verdade 
 analisada no que concerne ao assentimento ou  validade subjetiva e objetivade de juzos. So trs os seus graus: opinio, que tem conscincia de ser insuficiente, 
tanto subjetiva quanto objetivamente; f, que tem conscincia de ser objetivamente insuficiente mas subjetivamente suficiente; e saber, que  subjetiva e objetivamente 
suficiente e, portanto, certo (CRP A 822/B 850). Entretanto, pode-se aceitar que a noo de suficincia objetiva inclua em si a definio de "verdade como adequao 
a um objeto" (A 58/B 82).
vcio ver SEXO; VIRTUDE
vida [Leben] ver tambm NIMO (GEMT); CORPO; PRAZER
Os pensamentos de Kant sobre a vida podem ser divididos em trs grupos, os quais se encontram todos em CJ. O primeiro grupo trata do que poderia ser descrito como 
o "valor da vida" e  exemplificado pela nota de p de pgina em CJ 83. O "valor da vida" medido em termos de gozo ou felicidade  "menos do que nada": ela s tem 
valor quando vivida de acordo com a razo ou "com vistas a um fim to independente da natureza que a prpria existncia da natureza s pode ser um fim se estiver 
sujeita  condio assim imposta". A par dessa noo do valor da vida, Kant sustenta uma outra posio oposta mas internamente coerente.  resumida pela sentena 
da "observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos", de que o "o nimo (Gemt)  por si s totalmente vida (o prprio princpio vital), e obstculos 
ou promoes tm de ser buscados fora dele e, no entanto, no prprio homem, por conseguinte, em conexo com o seu corpo".* Nesta concepo, a vida consiste numa 
complexa relao entre o corpo, o mundo exterior e o Gemt. Isso pode estar ligado ao 1 de CJ, onde Kant relaciona o sentimento de vida possudo por um sujeito 
com o "sentimento de prazer ou desprazer", juntando assim vida, nimo ou Gemt, e prazer ou dor.  luz desse conceito de vida, muitos dos comentrios no destacados 
de Kant sobre "vida" na primeira parte de CJ adquirem considervel significao. No terceiro grupo, Kant considera a vida em termos dos "produtos organizados" da 
natureza;  nesse contexto que ele faz a clebre declarao a respeito do absurdo da esperana "de que talvez um outro Newton possa algum dia surgir para tornar 
inteligvel para ns nem que seja apenas a produo de uma folhinha de grama segundo leis da natureza no ordenadas por uma inteno" (75).
vinculante [ Verbindung] ver OBRIGAO; SNTESE
virtude [arete, virtus, Tugend] ver tambm DIREITO; JUSTIA; SEXO Embora em FMC Kant parea considerar que tais virtudes tradicionais como temperana e autodomnio 
s possuem valor como meios relativos ao fim de uma vontade boa, ele concede, no obstante,  doutrina da virtude uma parte significativa em sua metafsica dos costumes. 
A MC est dividida no "sistema da doutrina do direito (Jus), a qual trata
*Por um lapso de digitao, faltou nas tradues brasileira (p.124) e portuguesa (p.178), aps "totalmente vida", o parntese: "(o prprio princpio vital)" - sobre 
cuja falha aproveitamos para aqui chamar a ateno, (N.R.T.)

318            vontade
dos deveres que podem ser impostos por leis externas, e o sistema da doutrina da virtude (Ethica), a qual se ocupa dos deveres que no podem ser assim impostos" 
(p.379, p. 185). Kant distingue entre deveres ticos que resultam da obrigao tica em geral e dizem somente respeito "ao que  formal na determinao moral da 
vontade" e os deveres de virtude que se referem a fins que tambm so deveres (MC p.383, p.188). Estes ltimos formam o contedo da doutrina da virtude e so distribudos 
de acordo com as duas classes de fins que tambm so deveres, a saber, os referentes " nossa prpria perfeio" e os relacionados com "a felicidade de outros". 
A discusso dessas duas classes forma respectivamente o contedo da Parte I e da Parte II da "Doutrina da virtude". A Parte I ocupa-se dos deveres da virtude para 
com a prpria pessoa como ser animal, tais como no cometer suicdio nem macular-se pela luxria, ou comer e beber demais; deveres para com a prpria pessoa como 
ser moral, tais como evitar a mentira, a avareza e o servilismo; o dever de conscincia, e o dever imperfeito para melhorar-se. A segunda parte considera os deveres 
de virtude para com os outros, sobretudo am-los e respeit-los.
Embora Kant redefina o contedo e a amplitude da tradicional doutrina substantiva da virtude em relao  sua nova definio formal de valor moral e bem, h vestgios 
da antiga doutrina ao longo de todos os seus escritos. Um notvel exemplo  fornecido pelas discusses da virtude platnica e estica em CRP como ideais para julgar 
exemplos de virtude (ver A 315/B 372 e A 569/B 597).
vontade ver tambm ESPONTANEIDADE; IMPERATIVO CATEGRICO; LIBERDADE; RAZO A discusso de Kant da vontade  conduzida em termos de uma distino entre a vontade 
(Wille) e a "capacidade de escolha" (Willkr) [arbtrio], com ambos os termos sendo traduzidos, com freqncia, como "vontade".  esse o caso, ocasionalmente, da 
traduo de Kemp Smith de CRP, o que levou  alegao de que Kant s desenvolvera a distino de Wille e Willkr depois de FMC (1785). Entretanto, ela  bvia em 
CRP (1781), onde Kant usa sistematicamente Willkr para referir-se  capacidade de escolha. Liberdade  definida como a "independncia da capacidade de escolha de 
coeres oriundas de impulsos dos sentidos"; e embora a capacidade humana de escolha seja afetada por "motivos sensveis", no so a ela necessrios. Kant explica 
que isso  porque "o homem possui a capacidade de determinar-se por si, independentemente da coao dos impulsos sensveis" (CRP A 534/B 562). Esse poder de autodeterminao, 
manifesto no "dever-ser" (ein Sollen),  a vontade. Kant usa a distino de Wille e Willkr quando identifica a vontade como a fonte do dever-ser que determina a 
capacidade de escolha e efetua a sua independncia dos impulsos sensveis. Entretanto, mesmo neste caso, a sua distino mostra sinais de deslizes, com dever-ser 
determinando tanto a vontade quanto a capacidade de escolha. Apesar disso, a vontade est, no obstante, sistematicamente associada a liberdade, autonomia e espontaneidade.
As discusses da vontade em FMC e CRPr seguem a ampla distino entre Wille e Willkr, embora alguns deslizes com a "vontade" sejam descritos como determinados por 
princpios heternomos. De um modo geral, porm, a vontade  considerada a fonte de obrigaes que desviam a ateno moral de mximas heternomas e indignas de aes 
para aquelas que so coerentes com a lei moral. Em CRPr, embora possa supor-se que os seres humanos tm uma vontade pura, eles so afetados, no obstante, "por necessidades 
e por motivos sensveis" (p.32, p.32); isso significa que deles no pode ser dito
vontade            319
que possuem uma "vontade virtuosa", a qual seria "incapaz de quaisquer mximas incompatveis com a lei moral". A vontade humana  dependente da moral, uma dependncia 
registrada pelo termo "obrigao" e manifesta na "coao para uma ao" chamada dever. A obrigao origina-se na vontade e serve para influenciar uma "capacidade 
patologicamente afetada de escolha [Willkr]" por meio da "coero de uma resistncia oferecida pela razo prtica,  qual se pode dar o nome de uma compulso interna, 
mas de natureza intelectual" (CRPr p.33, p.33). Com esse argumento, Kant pode sustentar que a vontade  livre e cria uma obrigao para com a lei moral, ao mesmo 
tempo que afirma que a capacidade humana de escolha (Willkr, no Wille)  patologicamente afetada por impulsos sensveis. Assim, Kant pode argumentar que a "autonomia 
da vontade [Autonomie des Willens]  o nico princpio de todas as leis morais" ao qual se ope a "heteronomia da capacidade de escolha [Willkr]... oposta ao princpio 
de dever e  moralidade da vontade" (CRPr p.33, p.33).
Essa direo do argumento de Kant  confirmada por RL e MC. Quando se ocupa do mal no primeiro, Kant no o considera como uma corrupo da prpria vontade (Wille), 
mas da capacidade de escolha (Willkr). A corrupo de Willkr consiste em tornar "incentivos inferiores motivos supremos de suas mximas" (RL p.42, p.38), ou seja, 
escolher fins e aes de acordo com mximas que tm uma origem sensvel. Isto  uma corrupo de Willkr porque subordina a razo, na forma de mximas,  consecuo 
de fins no racionais. Essa tendncia  contrariada pela "injuno de que devemos tornar-nos pessoas melhores" (RL p.45, p.40), a qual tem origem na "vdhtade boa" 
(Wille). O modo como funciona a distino entre Wille e Willkr  claramente mostrado em MC. Willkr  definida como a "capacidade para fazer ou deixar de fazer 
segundo nos aprou-ver", na medida que a essa capacidade "se junta a conscincia de nossa capacidade para realizar um determinado objetivo" (MC p.213, p.42). Enquanto 
Willkr est empenhada na ao e na realizao de fins, Wille  a "capacidade de apetio considerada menos em relao  ao (que  o caso da capacidade de escolha 
[Willkr]) do que na relao com o fundamento determinante da escolha para a ao". A partir disso, Kant infere que, na medida em que a vontade "pode determinar 
a capacidade de escolha, ela , de fato, a prpria razo prtica" (p.231, p.42) e que essa determinao  tomada de modo autnomo, sem qualquer "fundamento determinante", 
atravs da forma ou "aptido de mximas escolhidas para serem lei universal", o que  prescrito como um "imperativo que ordena ou probe absolutamente" (p.214, p.42).
A separao por Kant da vontade e da capacidade de escolha [livre-arbtrio] corrigiu uma tendncia para fazer da vontade uma faculdade e, por conseguinte, fazer 
aparecer problemas concernentes s relaes entre livre-arbtrio e determinismo. Ao concentrar-se nas mximas para a ao escolhidas por Willkr, Kant est apto 
a distinguir a liberdade e a legislao autnoma da vontade das escolhas feitas pela Willkr. Para que sua explicao seja convincente, ele tem de mostrar os processos 
pelos quais a vontade pode ser a fonte de uma obrigao que  capaz de discriminar entre mximas. As vantagens dessa posio so patentes, em particular porque evita 
a oposio entre livre-arbtrio e determinismo; seu perigo, entretanto, reside no fato de separar completamente a vontade da capacidade de escolha e em substancializ-la. 
Schelling deu alguns passos nessa direo em ber das Wesen der menschlichen Freiheit [Sobre a essncia da liberdade humana] (1809) (e em escritos ulteriores), onde 
a vontade  apresentada como

320          vontade boa
o "ser primordial [Wollen ist Ursein]" (p.46), o qual  limitado pelo entendimento e em que vontade e ser elevam-se e elucidam-se mutuamente no esprito. Em O mundo 
como vontade e representao (1819), Schopenhauer ops vontade e representao, fazendo da vontade uma fora incognoscvel. Nietzsche (1887) rejeitou a substancializao 
da vontade e a tendncia para trat-la como uma faculdade, e retornou a uma posio mais kantiana com a sua noo de vontade de potncia [ Wille zur Macht] como 
uma forma de idia regulativa com a qual testar cursos potenciais de ao para a presena de elementos reativos (ressentimento), ou o que Kant descreveria como mximas 
influenciadas por "impulsos sensveis".
vontade boa ver tambm BOM; FILOSOFIA PRTICA; MAL; SUMO BEM Em FMC, Kant descreve o nico bom sem limitaes como sendo uma "vontade boa" e, assim fazendo, estabeleceu 
um novo comeo em filosofia moral. Argumentou que as virtudes tradicionais da filosofia moral, como coragem e determinao, temperana e auto-domnio, a par de talentos 
tais como argcia de esprito e capacidade de julgar, dons de fortuna como poder e riqueza, podem todos, em certas circunstncias, ser usados para fins maus. A vontade 
boa, entretanto,  irrestritamente boa, "no por aquilo que promove ou realiza" mas "to-s pelo querer" (FMC p.393, p.7). Essa  para Kant a base do bom uso de 
todas as tradicionais caractersticas da virtude, e pode ser discernida atravs do conceito de dever. Ao analisar o dever, Kant est em condies de mostrar que 
"o bem preeminente a que se d o nome de moral pode consistir simplesmente na representao da lei em si mesma, e convenhamos em que tal representao s pode ser 
encontrada num ser racional, na medida em que essa representao, e no algum efeito esperado,  o fundamento determinante da vontade" (FMC p.401, p.13). Isso significa 
que a vontade boa  determinada pela forma universal de lei como tal, e no por qualquer fim previsto pela lei. Isso requer que a ao seja determinada de acordo 
com o imperativo categrico, ou que a mxima da vontade "se converta numa lei universal" (FMC p.402; p.14).
Obras publicadas de Kant
NOTA: A lista a seguir est organizada por ordem cronolgica de publicao. Para cada ttulo  fornecida informao sobre o texto alemo (ou latino) e uma traduo 
inglesa. Sempre que possvel, d detalhes sobre a grfica ou livreiro/editor original do texto, assim como detalhes de como localizar o texto alemo na "Edio da 
Academia" dos escritos de Kant (Immanuel Kant's gesammelte Schriften, 29 volumes, vols.I-XXII editados pela Academia Prussiana de Cincias, vol.XXIII pela Academia 
Alem de Cincias em Berlim; vols.XXIV-XXIX pela Academia de Cincias em Gttingen). As referncias  Edio da Academia (citada como "AK") mencionam os nmeros 
de volume e pgina. Sempre que possvel, a traduo inglesa  o texto publicado na "Cambridge Edition of the Works of Immanuel Kant" (citada como "Cam-bridge Edition" 
juntamente com o nmero do volume).
1747 Gedanken von der wahren Schtzung der lebendingen Krfte und Beurtheilung der Beweise derer sich Herr von Leibnitz und andere Mechaniker in dieser Streitsache 
bedienet haben, nebst einingen vorhergehenden Betrachtungen, welche die Kraft der Krper berhaupt betreffen. Knigsberg: gedruckt bei Martin Ebehard Dorn, 1746 
(AK 1,1-181).
Thoughts on the True Estimation of Living Forces, and criticism ofthe proofs pro-pounded by Herr von Leibniz and other mechanists in their treatment ofthis contro-versy, 
along with some preliminary observations concerning the force ofbodies in general, em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University 
Press (a sair).
1754a "Untersuchung der Frage, ob die Erde in ihrer Umdrehung um die Achse, wodurch sie die Abweschslung des Tages und der Nacht hervorbringt, einige Vernderungen 
seit den ersten Zeiten ihres Ursprungs erlitten habe und woraus man sich ihrer versi-chem knne, welche von der Knigl. Akademie der Wissenschaften zum Preise findas 
jetzt laufende Jahr aufgegeben worden". Wochentliche Knigsbergische Frag-und Anzeigungs-Nachrichten, n- 23 e 24 de 8 e 15 de junho de 1754 (AKI, 183-91). "Inquiry 
into the Question whether the Earth in its Rotation around its Axis, by which it produces the Change of Day and Night, has undergone any Alterations sin-ce the Time 
of its Origin", em Cambridge Edition VIII, Natural Science ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1754b "Die Frage: ob die Erde veralte, physikalisch erwogen". Wochentliche Knigsbergische Frag- und Anzeigungs-Nachrichten, n- 32-7 de 10 de agosto a 14 de setembro 
(AKI, 193-213).
"The Question whether the Earth is aging, considered from a physicalist Point of View", em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University 
Press (a sair).

322            Obras publicadas de Kant
1755a Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels, oder Versuch von der Ver-fassung und dem mechanischen Ursprunge des ganzen Weltgebudes nach Newo-nischen 
Grundstzen abgehandelt. Knigsberg und Leipzig: bei Johann Friedrich Petersen(AK 1,215-368).
Universal Natural History and Theory ofthe Heavens, or an Essay on the Consitu-tion andMechanical Origin ofthe Entire World Edifice treated according to Newto-nian 
Principies, trad. de Stanley L. Jaki, Edimburgo: Scottish Academic Press, 1981.
1755b Meditationum quarundum de igne succinta delineaio, manuscrito publicado pela primeira vez em Kant, Smtliche Werke: eds. Karl Friedrich Rosenkranz e Friedrich 
Wilhelm Schubert, vol.5, Leipzig, 1839 (AKI, 369-84).
On Fire, em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet: Cambridge University Press (a sair).
1755c Principiorum primorum cognitionis meaphysicae nova dilucidatio, dissertao, Knigsberg: J.H. Hartung (AK I, 385-416).
A New Elucidation ofthe First Principies of Metaphysical Cognition, em Cambridge Edition I, TheoreticalPhilosophy 1755-1770, trad. e ed. David Walford em colaborao 
com Ralf Meerbote: Cambridge University Press, 1992, p.1-45.
1756a "Von den Ursachen der Erderschtterungen bei Gelegenheit des Unglcks, welches die westlichen Lnder von Europa gegen das Ende des vorigen Jahres betroffen 
hat". Wochentliche Knigsbergische Frag- und Anzeigungs-Nachrichen, nos 4 e 5 de 24 e 31 de janeiro (AKI, 417-27).
"Concerning the Causes ofthe Terrestrial Convulsions on the Occasion ofthe Di-saster which afflicted the Western Countries towards the End of Last Year", em Cambridge 
Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1756b Geschiche und Naturbeschreibung der merkwrdigsen Vorflle des Erdbebens, welches an dem Ende des 1755sten Jahres einen grossen Teil der Erde Erschttert 
hat. Knigsberg: gedruckt und verlegt von Joh. Heinr. Hartung (AK I, 428-61). History and Natural Description ofthe Most Remarkable Occurrences associated with the 
Earhquake wich at the end of 1755 Shook a Large Part ofthe World, em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1756c "Fortgesetzte Betrachtung der seit einigen Zeit wahrgenommenen Erderschterrun-gen". Wochentliche Knigsbergische Frag- und Anzeigungs-Nachrichen, nos 15 
e 16 de 10 e 17 de abril (AK I, 463-72).
"Further Observations on the Terrestrial Convulsions which have been for Some Time Observed", em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge 
University Press (a sair).
1756d Meaphysicae cum geomeria iuncae usus in philosophia naurali, cuius specimen I. continet monadologiam physicam, dissertao, Knigsberg: J.H. Hartung (AK 
I, 473-87).
The Employment in Natural Philosophy ofMeaphysics combined with Geomelry, of which Sample I contains the Physical Monadology, em Cambridge Edition I, Theoretical 
Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote: Cambridge University Press, 1992, p.47-56.
1756e Neue Anmerkungen zur Erluerung der Theorie des Winde, wodurch er zugleich zu seinen Vorlesungen einlade, Knigsberg, den 25. April 1756: gedruckt in der 
K-nigl, priviligierten Driestischen Buchdruckerey (AK I, 489-503).
Obras publicadas de Kant            323
New Noes towards a Discussion ofhe Theory ofWinds, em Cambridge Edition VIII, Naural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1757       Enwurf and Ankndigung eines Collegii der physischen Geographie nebst dem Anhnge einer Betrachtung ber die Frage, ob die Westwinde in unsern Gegenden 
darumfeuchi seien, weilsie ber ein grosses Meer streichen. Knigsberg: gedruckt bei J.F. Driest, Knigl. Preuss. privil. Buchdrucker (AK II, 1-12).
Oulline and Announcement of a Course of Lecures on Physical Geography, ogether with an Appendix ofan Inquiry ino the Quesion ofWeher the West Winds in our Regions 
are Humid because they have traversed a Grea Sea, em Cambridge Edition VIII, Naural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1758       Neuer Lehrbegriff der Bewegung undRuhe und der damit verknpften Folgerungen in den ersten Grnden der Naturwissenschaft, wodurch zugleich seine Vorlesungen 
in diesem halben Jahre angekndig werden. Den 1 sten April 1758 Knigsberg: ge-drukt bei Johann Friedrich Driest (AK II, 13-25).
New Conception ofMotion andRest and its Consequences for the Primary Grounds of Natural Science, through which a he same ime his Lecures for this Semester are 
Announced, em Cambridge Edition VIII, Naural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).
1759       Versuch einiger Betrachtungen ber den Optimismus von M. Immanuel Kant, wodurch er zugleich seine Vorlesungen aufdas bevorstehende halbe Jahr ankndigt, 
den 7. October 1759, Knigsberg: gedruckt bei Johann Friedrich Driest (AK II, 27-35).
An Atlemp a some Refections on Optimism byM. Immanuel Kant, also conaining and Announcement ofhis Lecures for he coming Semester 7 October 1759, em Cambridge 
Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote: Cambridge University Press, 1992, p. 67-76.
1760       Gedanken bei dem frhzeiigen Ableben des Herrn Johann Friedrich von Funk, in einer Sendschreiben an seine Muer. Knigsberg: gedruckt bei Johann Friedrich 
Driest (AK II, 37-44). No traduzido.
1762 Diefalsche Spitzfindigkeil der vier syllogisischen Figuren erwiesen von M. Immanuel Kan. Knigsberg: bei Johann Jacob Kanter (AK II, 45-61). The False Subley 
ofthe Four Syllogisic Figures demonstrated by M. Immanuel Kant, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em colaborao 
com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p. 85-105.
1763a Der einzig mgliche Beweisgrund zu einer Demonsraion des Daseins Goes. Knigsberg: bei Johann Jacob Kanter (AK II, 63-163).
The Only Possible Argumen in Suppor ofa Demonstration ofhe Existence ofGod, by M. Immanuel Kan, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. 
e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.107-201.
1763b Versuch, den Begriff der negaiven Grossen in die Weltweishei einzufhren. Knigsberg: bei Johann Jacob Kanter (AK II, 165-204).
Aempt to Inroduce he Concept of Negative Magnitudes into Philosophy, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em 
colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.203-10.

324            Obras publicadas de Kant
1764a    Beobachtungen ber das Gefiihl des Schnen und Erhabenen. Knigsberg: bei Jo-hann Jacob Kanter (AK II, 205-56).
Observations on the Feeling of the Beauiful and the Sublime, trad. de John T. Goldthwaite, Los Angeles: University of Califrnia Press, 1973.
1764b    "Versuch ber die Krankheiten des Kopfes". Knigsbergsche Gelehrte und Politische Zeitungen, 13-27 de fevereiro de 1764 (AK II, 257-71). "An Essay on the 
Maladies of the Mind", em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy ofHistory and Education, ed. de Gnter Zoeller, Cambridge University Press (a sair).
1764c Untersuchungen ber die Deutlichkeit der Grundstze der natrlichen Theologie und der Moral. Zur Beantwortung der Frage, welche die Knigl. Akad. d. Wiss. 
zu Berlin aufdas Jahr 1763 aufgegeben hat, Berlim (AK II, 273-301). Inquiry Concerning the Distinctness ofthe Principies of Natural Theology andMo-rality. In Answer 
to the Question which the Berlin Royal Academy of Sciences setfor the Year 1763 (publicado em conjunto com o ensaio de Moses Mendelssohn vencedor do mesmo concurso), 
em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.243-86.
1764       "Rezension von Silberschlags Erklrung der vor einigen Jahren erschienenen Feuerkugel". Knigsbersche Gelehrte und Politische Zeitungen, 23 de maro. 
"Review of Silberschlag's Essay on the Fireball of 1762", em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet, Cambridge University Press (a sair).
1765       Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in der Winterhalbenjahre von 1765-1766. Knigsberg: bei Johann Jacob Kanter(AK II, 303-13).
M. Immanuel Kant's Announcement ofthe Organisation ofhis Lectures in the Win-ter Semester 1765-1766, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. 
e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.287-300.
1766       Trume eines Geistersehers, erlutert durch Trdume der Metaphysik. Knigsberg: bei Johann Jacob Kanter (AK II, 315-73).
Dreams ofa Spirit-Seer elucidated by Dreams ofMetaphysics, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford em colaborao 
com Ralf Meerbote: Cambridge University Press, 1992, p.301-59. 1768 "Von dem ersten Grunde der Unterschiedes der Gegenden im Raume", em Wochen-tliche Knigsbergische 
Frag- und Anzeigungs-Nachrichten, Partes 6-8 (AK II, 375-83).
Concerning the ultimate Ground of the Differentiation of Regions in Space, em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, trad. e ed. de David Walford 
em colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.361-72.
1770       De mundi sensibilis atque intelligibilis forma etprincipiis, dissertao. Knigsberg: Regiomonti. Stanno regiae aulicae et academicae typographae (AK 
II, 385-419). On the Form and Principies of the Sensible and Intelligible World [Dissertao Inaugural], em Cambridge Edition I, Theoretical Philosophy 1755-1770, 
trad. e ed. de David Walford em colaborao com Ralf Meerbote, Cambridge University Press, 1992, p.373-416.
1771       "Rezension von Moscatis Schrift: Von dem krperlichen wesentlichen Unterschie-de zwischen der Structur der Thiere und Menschen", publicado anonimamente 
em
Obras publicadas de Kant            325
Knigsbergsche Gelehrte und Politische Zeitungen, na 67, 23 de agosto de 1771, p.265-6(AK II, 421-5).
"Review of Moscati's Book: On the Essential Physical Differences between the Struc-ture of Animais and Humans", em Cambridge Edition Vil, Anthropology, Philosophy 
of History and Education, ed. Gnter Zller, Cambridge University Press (a sair).
1775 Von den verschiedenen Racen derMenschen, zur Ankndigung der Vorlesungen der physischen Geographie im Sommerhalbjahre 1775. Knigsberg: gedruckt bei E.L. Hartung, 
Konigl. Hof- und Academ. Buchdrucker (2B edio, Der Philosophfr die Welt, ed. de J.J. Engel. Zweiter Theil, Leipzig, 1777) (AK II, 427-43). On the Different Human 
Races, by way of Announcing the Lectures on Physical Geography for the Summer Semester 1775, em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy ofHistory and Education, 
ed. Gnter Zller, Cambridge University Press (a sair).
1776-7   "ber das Dessauer Philanthropin". Knigsbergische Gelehrte und Politische Zeitungen, 28 de maro de 1776 e 27 de maro de 1777 (AK II, 445-52). "On the 
Dessau Philanthropin Academy", em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy and History of Education, ed. Gnter Zller, Cambridge University Press (a sair).
1777 Concerning Sensory Illusion and Poetic Fiction (Uma dissertao em latim, em resposta  Dissertatio philologica-poetica de principiis fictionum generalioribus, 
de johann Gottlieb Kreutzfeld), em Kanfs Latin Writings: Translations, Commentari-es and Notes, ed. Lewis White Beck, Nova York, 1986.
1781       Kritik der reinen Vernunft. Riga: verlegts Johann Friedrich Hartknoch (AK IV, 1-252); ver 1787 adiante, para detalhes da segunda edio.
Critique ofPureReason, trad. de Norman Kemp Smith, Londres: Macmillan, 1978.
1782       "Nachricht an rtze". Knigsbergische Gelehrte und Politische Zeitungen, 31. Stck, 18 de abril (AK VIII, 5-8).
"Report to Physicians" em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy of History and Education, ed. Gnter Zller, Cambridge University Press (a sair).
1783a    Prolegomena zu einerjeden knftigen Metaphysik, die ais Wissenschaft wird auftre-ten knnen: bei Johann Friedrich Hartknoch (AK IV, 253-83). Prolegomena 
to A ny Future Metaphysics that will be able to comeforward as Science, em Immanuel Kant: Phylosophy of Material Nature, trad. de James W. Elling-ton, Indianapolis: 
Hackett Publishing Company, 1985.
1783b    "Rezension von Schulz's Versuch einer Anleitung zur Sittenlehre", em Raisonie-rendes Verzeichnis neuer Bcher, ns 8, abril de 1783 (AK VIII, 9-14). "Review 
of Schulz's Attempt at an Introduction to Moral Theory", em Cambridge Edition IV, Practical Philosophy, ed. Mary J. Gregor, Cambridge University Press (a sair).
1784a    "Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbrgerlichen Absicht", em Berli-nische Monatsschrift, vol.IV (11 de novembro), p.385-411 (AK VIII, 15-31). 
"Idea for a Universal History with a Cosmopolitan Purpose", em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991, 
41-53.
1784b "Beantwortung der Frage: Was ist Aufklrung?", em Berlinische Monatsschrift, vol.IV (12 de dezembro), p.481-94 (AK VIII, 33-42).
"An Answer to the Question: "What Is Enlightenment?"' em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991,54-60.

326            Obras publicadas de Kant
1785a "Rezensionen von Johann Gottfried Herders Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit", emAllgemeineLiteraturZeitung (Iena e Leipzig, nfi 4,6 de janeiro 
de 1785), p. 17-20, Suplemento (Beilage) do n9 4, p.21-2, e edio ne 271 de 15 de novembro, p. 153-6 (AK VIII43-66).
"Reviews of Johann Gottfried Herder's Ideas on the Philosophy ofthe History of Mankind, em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cam-bridge 
University Press, 1991, p.201-20.
1785b "ber die Vulkane im Monde", em Berlinische Monatsschrift, vol.5, p. 199-213 (AK VIII, 67-76).
77ie Volcanoes on the Moon, em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet, Cambridge University Press (a sair).
1785c "Von der Unrechtmssigkeit des Bchernachdrucks", Berlinische Monatsschrift, vol.5, p.403-17 (AK VIII, 77-87).
"On the Unjust Printing of Books", em Cambridge Edition IV, Practical Philosophy, ed. Mary J. Gregor, Cambridge University Press (a sair).
1785d "Bestimmung des Begriffs einer Menschenrasse", em Berlinische Monatsschrift, vol.6, novembro, p.390-417 (AK VIII, 89-106).
"On the Different Human Races", em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy of History and Education, ed. Gnter Zller, Cambridge University Press (a sair).
1785e Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. Riga: bei Johann Friedrich Kartknoch (AK IV, 385-463).
Groundingfor the Metaphysics of Morais, trad. de James W. Ellington, Indianapo-lis, Hacket Publishing Company, 1981.
1786a Metaphysiche Anfangsgriinde der Naurwissenschaft. Riga: bei Johann Friedrich Hartknoch (AK IV, 465-565).
Metaphysical Foundations of Natural Science, trad. de James W. Ellington, Imma-nuelKant: Philosophy of Material Nature. Indianapolis: Hackett Publishing Company, 
1985.
1786b "Mutmasslicher Anfang der Menschengeschichte", em Berlinische Monatsschrift, vol.7, janeiro de 1786, 1-27 (AK VIII, 107-23).
"Conjectures on the Beginning of Human History", em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991, 221-34.
1786c "Was heisst: Sich im Denken orientieren?", em Berlinische Monatsschrift, vol.8, outubro de 1986, p.304-30(AKVIII, 131-47).
"What is Orientation in Thinking?" em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991, p.237-49.
1786d    "Rezension von Gottlieb Hufelands Versuch ber den Grundsatz des Naturrechts", em Allgemeine Literatur Zeitung, ns 92, 18 de abril (AK VIII, 125-30). "Review 
of Gottfried Hufeland's Attempt at a Principie ofNatural Righf, em Cambridge Edition IV, Practical Philosophy, ed. Mary J. Gregor, Cambridge University Press (a 
sair).
1786e    De medicina corporis, quasephilosophorum est, discurso reitoral (AKXV, 939-53). On the Philosophers' Medicine ofthe Body, trad. de Mary J. Gregor, em Kant 
's La-tin Writings: Translations, Commentaries and Notes, ed. Lewis White Beck, Nova York, 1986.
1787      Kritikder reinen Vernunft. Zweite hin und wieder verbesserte Auflage, Riga: bei Johann Friedrich Hartknoch. Critique ofPureReason, trad. deNorman Kemp 
Smith, Londres: Macmillan, 1978.
Obras publicadas de Kant            327
1788a    "ber den Gebrauch teleologischer Principien in der Philosophie", em Der Teutsche Merkur, Weimar Ia trimestre, nfi 1, p.36-52, ns 2, p. 107-36 (AK VIII, 
157-84). "On the Use of Teleological Principies in Philosophy", Cambridge Edition V, Aest-hetics and Teleology, orgs. Eric Matthews e Eva Schaper, Cambridge University 
Press (a sair). 1788b   Kritik der praktischen Vernunft. Riga: Johann Friedrich Hartkoch (AK V, 1-163). Critique  of Practical  Reason,   trad.   de   Lewis   White 
Beck,   Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1976. 1790a    Kritik der Urtheilskraft. Berlim e Libau, bei Lagarde und Friederich (AK V, 165-485).
Critique of Judgement, trad. de James Creed Meredith, Oxford University Press, 1973. 1790b    "Erste Einleitung in die Kritik der Urteilskraft", ed. O. Buek, Kant 
's Werke, vol.5, ed. E. Cassirer, 1922 (AKXX, 193-252).
First Introduction to the Critique of Judgement, trad. de James Haden, Indianapolis: Bobbs-Merill, 1965. 1790c    ber eine Entdeckung, nach der alie neue Kritik 
der reinen Vernunft durch eine altere entbehrlich gemacht werden soll. Knigsberg: bei Friedrich Nicolovius (AK VIII, 185-241).
On a Discovery according to which any New Critique of Pur Reason has been made Superftuous by an Earlier One, trad. de Henry E. AIlison, Baltimore e Londres: Johns 
Hopkins University Press, 1973. 1791 a    "ber das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodizee". Berlinische Monatsschrift, vol. 18, setembro, p. 
194-225 (AK VIII, 253-71). "On the Failure of ali Philosophical Attempts at Theodicy", em Cambridge Edition VI, Religion and Rational Theology, ed. George di Giovanni 
e Allen W. Wood, Cambridge University Press (a sair). 1791b    ber die von der Knigl Akademie der Wissenschaften zu Berlin fr das Jahr 1791 ausgesetzte Preisfrage: 
Welches sind die wirklichen Fortschritte die die Metaphysik seit Leibnizens und Wolffs Zeiten in D eutschland gemacht hat?, ed. F.D. Rink, Knigsberg, 1804: bei 
Goebbels und Unzer (AK XX, 253-351).
Concerning theprize question posed by the Royal Academy of Sciences in Berlin for theyear 1791: What Real Progress has Metaphysics made in Germany since the Time 
ofLeibniz and Wolff?, trad. Ted Humphrey, Nova York: Arabis Books, Inc., 1983. 1793a Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft. Knigsberg: Friedrich 
Nicolovius (2a edio, 1794) (AK VI, 1-202).
Religion within the Limits of Reason Alone, trads. Theodore M. Greene e Hoyt H. Hudson, So Francisco: Harper Torchbooks, 1960. 1793b    "ber den Gemeinspruch: 
Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht fr die Praxis". Berlinische Monatsschrift, vol.22, p.201-84 (AK VIII, 273-313). "On the Common Saying: This 
may be true in theory, but it does not apply in practi-ce'", em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991, 
p.61-92. 1794a    "Etwas ber den Einfluss des Mondes auf die Witterung". Berlinische Monatsschrift, vol.23 (AK VIII, 315-24).
"Something on the Moon's Influence over the Weather", em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair).

328            Obras publicadas de Kant
1794b "Das Ende aller Dinge". Berlinische Monatsschrift, vol.23, p.495-522 (AK VIII, 327-39).
"The End of ali Things", trad. de Robert E. Anchor em Kant: On History, ed. Lewis White Beck, Indianapolis, Bobbs-Merrill, 1980, p.69-84.
1795 Zum ewigen Frieden: Ein philosophischer Entwurf. Knigsberg: bei Friedrich Ni-colovius (2- edio, 1796) (AK VIII, 314-86).
Perpetuai Peace: A Philosophical Sketch, em Kant: Political Writings, trad. de H.B. Nisbet, ed. Hans Reiss, Cambridge University Press, 1991, p.93-130.
1796a    "Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Tone in der Philosophie", em Berlinische Monatsschrift, vol.27, p.387-426 (AK VIII, 389-406). "On a Newly Arisen 
Superior Tone in Philosophy", ed. e trad. de Peter Fenves, Bal-timore e Londres: Johns Hopkins University Press, 1993, p.51-72.
1796b    "Verkndigung des nahen Abschlusses eines Traktes zum ewigen Frieden in der Philosophie", em Berlinische Monatsschrift, vol.28, p.485-504 (AK VIII, 413-22). 
"Announcement of the Near Conclusion of a Treaty for Eternal Peace in Philosophy", em Raising the Tone of Philosophy, ed. e trad. de Peter Fenves, Baltimore e Londres: 
Johns Hopkins University Press, 1993, p.83-93.
1796c    Zu Smmering ber das Organ der Seele. Knigsberg: Friedrich Nicolovius.
To Smmering, Concerning the Organ of the Soul, em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy of History and Education, ed. Gnter Zller, Cambridge University 
Press (a sair).
1797a Metaphysik der Sitten: 1. Metaphysische Anfangsgrnde der Rechtslehre, 1. Me-taphysische Anfangsgrnde der Tugendlehre. Knigsberg: Friedrich Nicolovius (AK 
VI, 203-493).
The Metaphysics of Morais: 1. Metaphysical First Principies of the Doctrine of Right, 2. Metaphysical First Principies ofthe Doctrine of Virtue, trad. de Mary J. 
Gregor, Cambridge University Press (a sair).
1797b "ber ein vermeintliches Recht, aus Menschenliebe zu lgen", Berlinische Bltter n9 10 (AK VIII, 423-30).
"On a Presumed Right to Lie from Love of Mankind", em Cambridge Edition IV, Practical Philosophy, ed. Mary J. Gregor, Cambridge University Press (a sair).
1798a    Der Streit der Fakultten. Knigsberg: Friedrich Nicolovius (AK VII, 1-116).
The Conflict ofthe Faculties, trad. de Mary J. Gregor, Nova York: Arabis Books Inc., 1979.
1798b Anthropologie in pragmatischer Hinsicht. Knigsberg: bei Friedrich Nicolovius (AKVII, 117-333).
Anthropology from a Pragmatic Point ofView, trad. de Victor Lyle Dowdell, Car-bondale e Edwardsville: Southern Illinois University Press, 1978.
1800a Logik. Ein Handbuch zu Vorlesungen, ed. de G.B. Jsche, Knigberg: Friedrich Nicolovius (AK IX, 1-150).
The Jsche Logic, em Cambridge Edition IX, Lectures on Logic, trad. e ed. de J. Mi-chael Young, Cambridge University Press, 1992, p.517-640.
1800b Nachschrift eines Freundes zu Heilsbergs Vorrede zu Mielkes Litauischem Wrter-buch (AK VIII, 443-5).
Postscript to Mielkes' Lithuanian-German and German-Lithuanian Dictionary, em Cambridge Edition VII, Anthropology, Philosophy of History and Education, ed. Gnter 
Zller, Cambridge University Press (a sair).
1802 Physische Geographie, org. por F.T. von Rink, Knigsberg: bei Gbbels und Unzer (AK IX, 151-436).
Obras publicadas de Kant           329
Physical Geography, em Cambridge Edition VIII, Natural Science, ed. H.B. Nisbet. Cambridge University Press (a sair). 1803      Kant ber Pdagogik, org. por F.T. 
von Rink, Knigsberg: bei Friedrich Nicolovius (AK IX, 437-99).
Education, trad. de Annette Churton, Ann Arbor: University of Michigan Press, 1966.
1817      Kants Vorlesungen ber die philosophische Religionslehre, org. por K.H.L. Plitz
(AK XXVIII, 325-610).
Lectures on Philosophical Theology, trad. de Allen W. Wood e Gertrude M. Clark,
Ithaca e Londres, Cornell University Press, 1978. 1821      Kants Vorlesungen ber die Metaphysik, org. por K.H.L. Plitz, Erfurt (AKXXVIII).
Lectures on Metaphysics, em Cambridge Edition X, Lectures on Metaphysics, ed. de
Karl Ameriks, Cambridge University Press (a sair). 1824      Eine Vorlesung Kants ber Ethik, ed. P. Menzer (AK XXVII).
Lectures on Ethics, trad. de Louis Infield, Nova York e Evanston, Harper & Row,
1963. 1925-34 Reflexionen (Reflections; AK XIV-XIX). 1936-38 Opus postumum, org. por Luis Buchenau e Gerhard Lehmann (AK XXI-II)
Opus postumum, Cambridge Edition XII, org. e trad. de Eckhart Frster e Michael
Rosen, Cambridge University Press, 1993. 1967      Kant: Philosophical Correspondence 1759-99, org. e trad. de Amulf Zweig, Chicago: University of Chicago Press.
A organizao editorial da Edio da Academia
(Immanuel Kant gesammelte Schriften)
Seo I           Werke (Obras) (vols.I-IX)
Seo II         Briefwechsel (Correspondncia) (vols.X-XIII)
Seo III        Handschriftlicher Nachlass (Manuscritos remanescentes) (vols.XIV-XXIII)
Seo IV        Vorlesungen (Lies) (vols.XXIV-XXIX).
Obras de Kant traduzidas em portugus
A paz perptua e outros opsculos. Trad. Artur Mouro. Lisboa, Edies 70, 1988.
A religio dentro dos limites da simples razo. Trad. Tnia Maria Bernkopf. In: Os Pensadores, So Paulo, Abril Cultural, 1974.
Crtica da faculdade do juzo. Trad. Valerio Rohden e Antnio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitria, 1993.
Crtica da razo prtica. Trad. Artur Mouro. Lisboa: Edies 70, 1986.
Crtica da razo pura (Ia e 2- eds.). Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujo. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian, 1989.
Critica da razo pura (2a ed.). Trad. Valerio Rohden e Ledo Moosburger. In: Os Pensadores. So Paulo: Abril Cultural, 1979.
Dissertao de 1770, seguida de carta a Marcos Herz. Trad. Leonel Ribeiro dos Santos e Antnio Marques. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985.
Fundamentao da metafsica dos costumes. Trad. Paulo Quintela. In: Os Pensadores. So Paulo: Abril Cultural, 1974.

330            Obras publicadas de Kant
Idia de uma histria universal de um ponto de vista contemporneo [cosmopolita]. Trad.
Rodrigo Naves e Ricardo Terra. So Paulo: Brasiliense, 1986. "O que significa orientar-se no pensamento?". In: Textos seletos. Petrpolis: Vozes, 1985. Os progressos 
da metafsica. Trad. Artur Mouro. Lisboa, Edies 70, 1985. Prolegmenos a toda metafsica futura que possa se apresentar como cincia. Trad. Tania
Maria Beernkopf. In: Os Pensadores. So Paulo: Abril Cultural, 1974. "Resposta  pergunta: 'O que  Esclarecimento?'". Trad. Raimundo Vier. In: Textos seletos.
Petrpolis: Vozes, 1985. "Sobre a expresso corrente: 'Isto pode ser correto na teoria, mas nada vale na prtica'".
Trad. Artur Mouro. In: A paz perptua e outros opsculos. Lisboa: Edies 70, 1988.
Obras citadas no texto
Adorno, Theodor [1966]. Negative Dialectics, trad. E.B. Ashton, Nova York: The Seabury Press,
1973.
______[1970]. Aesthetic Theory, trad. C. Lenhardt, Londres: Routledge & Kegan Paul, 1984.
Adorno, Theodor e Horkheimer, Max [1944]. Dialectic of Enlightenment, trad. John Cumming,
Londres: Verso, 1979. Agostinho, Santo [1960]. The Confessions ofSt. Augustine, trad. John K. Ryan, Nova York: Image
Books.
______[1972]. City ofGod, trad. Henry Bettenson, Hardmondsworth: Penguin.
Aquino, Santo Toms de [1951]. Aristotle's De Anima, trad. Kenelm Foster e outros, Londres:
Routledge & Kegan Paul. ______[1952]. The Summa theologica, trad. Padres da Provncia Dominicana Inglesa, Chicago:
William Benton. ______[1968]. On the Unity ofthe Intellect against the Averroists, trad. BeatriceH. Zedler, Mil-
waukee: Marquette University Press. ______[ 1975]. Summa contra gentiles, trad. Anton C. Pegis, Notre Dame: University Press of No-
tre Dame. ______[ 1986]. The Division andMethods ofthe Sciences, trad. Armand Maurer, Toronto: Pontificai Institute of Medieval Studies. Arendt, Hannah [1951]. The 
Origins ofTotalitarianism. Nova York: Harcourt Brace Jovanovich.
______[1958]. The Human Condition. Chicago: Chicago University Press.
______[ 1964]. Eichman in Jerusalm: A Report on the Banality ofEvil. Nova York: Viking Press.
______[1989]. Lectures on Kant's Political Philosophy, ed. Ronald Beiner, Chicago: Chicago
University Press. Arnauld, Antoine [1962]. The Art of Thinking, trad. J. Dickoff e P. James, Indianapolis:
Bobbs-Merrill, 1964. Arndt, Johann [1605]. True Christianity, trad. Peter Erb. Londres: SPK, 1979. Arnold, Emil [1894]. Kritische Exkurse im Gebiet der Kantforschung, 
em Gesammelte Schriften,
vols.IV-V, Berlim: Bruno Cassirer, 1908-9. Barnes, Jonathan [1987]. Early Greek Philosophy. Harmondswork: Penguin Books. Bataille, Georges [1985]. Visions ofExcess: 
Selected Writings 1927-1939, trad. Allan Stoekl,
Manchester: Manchester University Press. Baumgarten, Alexander Gottlieb [1735]. Reflections on Poetry: A.G. Baumgarten 'sMeditationes
philosophicae de nonnullius ad poema pertinentibus, trad. K. Aschenbrenner e W.B. Holt-
herm, Berkeley: University of Los Angeles Press, 1954.
______[1739]. Metaphysica, reimpr. da 1- edio (1779), Hildesheim: Georg Olms, 1963.
______[1740]. Ethica philosophica, Halle.
______[1750-8]. Asthetica (2 vols.), reimpr. Hildsheim: Georg Olms, 1961.

332            Obras citadas no texto
Beccaria, Cesare [1764]. On Crimes and Punishments, trad. Henry Paolucci, Indianapolis:
Bobbs-Merrill, 1963. Benjamin, Walter [1973]. Illuminations, trad. Harry Zohn, Londres: Fontana/Collins. Bloch, Ernst [1959]. Das Prinzip Hoffnung, Frankfurt: Suhrkamp 
Verlag. ______[1968]. Christian Thomasius, ein deutscher Gelehrter ohne Misere. Frankfurt: Suhrkamp
Verlag. Booth, Edward [1983]. Aristotelian Aporetic Ontology in Islamic and Christian Thinkers. Cam-
bridge: Cambridge University Press. Borowsk, L.E., Jachman, R.B. e Wasianski, A.Ch. [1912]. ImmanuelKant: Sein Leben in Darstel-
lungen von Zeitgenossen. Berlim: Deutsche Bibliothek. Cadava, Peter e outros [1991]. Who Comes After the Subject?, Londres: Routledge. Calvino, Joo [1962]. Institutes 
ofthe Christian Religion, v.I e II, trad. Henry Beveridge, Londres:
James Clarke & Co. Cassirer, Ernst [1918]. Kanfs Life and Thought, trad. James Haden, New Haven e Londres: Yale
University Press, 1981. Cassirer, Ernst e outros [1948]. The Renaissance Philosophy ofMan. Chicago: Chicago University Press. Castoriadis, Cornelius [1987]. The 
Imaginary Institution ofSociety, trad. de Kathleen Blumey,
Oxford: Polity Press. Caygill, Howard [1989]. Ari ofJudgement. Oxford: Basil Blackwell. Cohen, Hermann [1871]. Kants Theorie der Erfahrung, Berlim.
______[1902]. System der Philosophie I: Logic der reinen Erkennt-nis. Berlim: Bruno Cassirer.
de Vries, Joseph [1983]. Grundbegriffe der Scholastik. Darmstadt: Wissenctschaftliche Buchge-
sellschaft. Deleuze, Gilles [1968]. Diference and Repetition, trad. Paul Patton, Londres: Athlone Press,
1993. Deleuze, Gilles e Guattari, Felix [1972]. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, trad. Ro-
bert Hurley e outros, Londres: Athlone Press, 1984. Derrida, Jacques [1962]. Edmund HusserVs Origin ofGeometry: An Introduction, trad. John P.
Leavey, Jr., Stony Brook: Nicolas Hays, 1978. ______[1967]. Writing and Difference, trad. Alan Bass, Chicago: Chicago University Press,
1978.
______[ 1972]. Margins of Philosophy, trad. Alan Bass, Chicago: Chicago University Press, 1982.
______[1974]. Glas, trad. John Leavey e Richard Rand, Lincoln: University of Nebraska Press,
1986. ______[1978]. The Truth in Painting, trad. Geoffrey Bennington e Ian McLeod, Chicago: Chicago University Press. ______ [1987]. Of Spirit: Heidegger and the 
Question, trad. Geoffrey Bennington e Rachel
Bowlby, Chicago: Chicago University Press, 1989. Descartes, Ren [1637]. Discourse on Method, Optics, Geometry and Meteorology, trad. Paul J.
Olscamp, Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1965.
______[1644]. Principies of Philosophy, trad. V.R. Miller e R.P. Miller, Dordrecht: D. Riedel.
______[1968]. The Philosophical Works of Descartes, trad. Elizabeth Haldane e G.R.T. Ross,
Cambridge: Cambridge University Press. ______[1976]. Descartes' Conversation with Burman, trad. John Cottingham, Oxford: Oxford
University Press.
______[1981]. Philosophical Letters, trad. e org. de Anthony Kenny, Oxford: Basil Blackwell.
Digenes Larcio [1925]. Lives ofEminent Philosophers (2 vols.), trad. R.D. Hicks, Cambridge,
Mass.: Harvard University Press.
Obras citadas no texto            333
Eisler, Rudolf [1930]. Kant Lexicon. Hildesheim: Georg Olms, 1984.
Euclides [1956]. The Thirteen Books of The Elements (3 vols.), trad. Thomas L. Heath, Nova
York: Dover Publications. Evans, Richard J. [1987], Death in Hamburg: Society and Politics in the Cholera Years,
Harmondsworth: Penguin. Feuerbach, Ludwig [ 1830]. Thoughts on Death andImmortality, trad. James A. Massey, Berkeley:
University of Califrnia Press, 1980. Fichte, J.G. [ 1794]. The Science ofKnowledge, trad. Peter Heath e John Lachs, Cambridge: Cambridge University Press, 1982. 
Foucault, Michel [ 1976]. The History ofSexuality, vols. 1 -3, trad. Robert Hurley, Harmonsworth: Penguin.
______[1980]. Power/Knowlege: Selected Interviews and other Writings, ed. Colin Gordon,
Nova York: Pantheon Books.
______[1984]. The Foucault Reader, ed. Paul Rabinow, Nova York: Pantheon Books.
______[1988]. Politics, Philosophy, Culture, ed. Lawrence D. Kritzman, Londres: Routledge.
Frege, Gottlob [1950]. The Foundations ofArithmetic, trad. J.L. Austin, Oxford: Basil Blackwell
1980. Freud, Sigmund [1915]. "The Unconscious", em On Metapsychology: The Theory ofPsychoanaly-
sis, trad. James Strachey, Harmondsworth: Penguin, 1984. Gadamer, Hans-Georg [1960]. Truth and Method, trad. Joel Weinsheimer, Londres: Sheed &
Ward, 1975. Gilson, E. [1949]. Being and some Philosophers, Toronto, 2- ed., 1952.
______[1955]. History of Christian Philosophy in the Middle Ages, Nova York: Random House.
Gulyga, Arsenij [1985]. Immanuel Kant: His Life and Thought, trad. Marijan Despalatovic, Boston: Birkhuser Inc., 1987.
______[1990]. Die klassische deutsche Philosophie: Ein Abriss, trad. Vladislaw Hedeler, Leip-
zig: Reclam-Verlag. Habermas, Jrgen [1981]. Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt: Suhrkamp Verlag.
______[1985]. Derphilosophische diskurs der Moderne. Frankfurt: Suhrkamp Verlag.
Hamann, J.G. [1967]. Schriften zur Sprache, Frankfurt.
Hegel, G.W.F. [1802]. Faith andKnowledge, trad. W. Cerf e H.S. Harris, Nova York: State University of New York Press, 1977.
______[1807]. Phenomenology of Spirit, trad. A.V. Miller, Oxford: Oxford University Press,
1978.
______[1812]. Science of Logic, trad. A.V. Miller, Londres: George Allen & Unwin, 1969.
______[1817]. Encyclopaedia ofthe Philosofical Sciences in Outline, ed. Ernst Behler, Nova
York: Continuum Publishing Company, 1990. ______[1821]. Elements ofthe Philosophy ofRight, ed. Allen W. Wood, trad. H.B. Nisbet, Cambridge: Cambridge University 
Press, 1991.
______[1830]. The Logic of Hegel ("Encyclopaedia Logic"), trad. W. Wallace, Oxford: Oxford
University Press, 1977. ______[ 1835]. Hegel 's Aesthetics: Lectures on Fine Arts, trad. T.M. Knox, Oxford: Oxford University Press, 1975.
______[ 1948]. Early Theological Writings, trad. T. M. Knox, Filadlfia: University of Pennsylva-
nia Press, 1979. Heidegger, Martin [1927]. Being and Time, trad. J. Macquarrie e E. Robinson, Oxford: Basil
Blackwell, 1978. ______[1928]. The Metaphysical Foundations of Logic, trad. Michael Heim, Indianapolis: Indiana University Press, 1984.

334            Obras citadas no texto
[ 1929]. Kant and the Problem ofMetaphysics, trad. Richard Taft, Bloomington e Indiana-polis: Indiana University Press, 1990.
[19301- Hegel 's Phenomenology ofSpirit, trad. Parvis Emad e Kenneth Maly, Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press, 1988.
______[1935]. What Is a Thing?, trad. W.B. Barton e V. Deutsch, South Bend: Regnery/Gaye-
way, 1967.
______[1936]. Schellings Treatise on Human Freedom (1809), trad. Joan Stambaugh, Athens:
Ohio University Press, 1985.
______[1947]. "Letter on Humanism", em Martin Heidegger: Basic Writings, trad. e org. de Da-
vid Farrell Krell, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1978.
Heimsoeth, Heinz [1956]. Studien zur Philosophie Immanuel Kant: metaphysiche Ursprnge und ontologische Grundlagen. Colnia: Kantstudien Ergnzungsheft, 71.
Heine, Heinrich [ 1965]. // WillBe a Lovely Day: Prose Selections, trad. Frederick Ewen, East Ber-lin: Seven Seas Publishers.
Hellmuth, Eckhart [1990]. The Transformation ofPolitical Culture: England and Germany, the late eighteenth century. Oxford: Oxford University Press.
Herder, J.G. [1953]. Werke in zwei Bnden. Munique: Carl Hanser Verlag.
Hume, David [1739]. A Treatise ofHuman Nature. Oxford: Oxford University Press, 1981.
Husserl, Edmund [1913]. Ideas: General Introduction to Pur Phenomenology, trad. W.R. Boyce Gibson, Nova York: Colher Books, 1962.
______[1948]. Experience and Judgement, trad. James S. Churchill e Karl Ameriks, Londres:
Routledge and Kegan Paul, 1973.
______[1950]. Cartesian Meditations: An Introduction to Phenomenology, trad. Dorion Cairns,
Dordrecht: Martinus Nijhoff, 1988.
______[1954]. The Crisis ofEuropean Sciences and Transcendental Phenomenology, trad. David
Carr, Evanston: Northwestern University Press.
Hyman, Arthur e Walsh James J., orgs. [ 1984]. Philosophy in the Middle Ages, 2- ed., Indianapolis: Hackett.
Irigaray, Luce [1974]. Speculum ofthe Other Woman, trad. Gillian C. Gill, Ithaca. Cornell University Press, 1985.
______[1984]. An Ethics of Sexual Difference, trad. Carolyn Burke e Gillian C. Gill, Londres:
Athlone Press, 1993.
Jacobi, Friedrich Heinrich [1787]. David Hume ber den Glauben, oder Idealismus und Realis-mus: ein Gesprch, Breslau.
Kierkegaard, Soren [1843]. Fear and Trembling, trad. Howard V. Hong e Edna H. Hong, Prince-ton: Princeton University Press, 1983.
______[1844], 77ie Concept ofAnxiety, trad. Reidar Thomte, Princeton: Princeton University
Press.
Koyr, Alexandre [1968]. Newtonian Studies. Chicago: Chicago University Press.
Kristeva, Julia [1974]. Revolution in Poetic Language, trad. M. Waller, Chicago: Chicago University Press.
Lacan, Jacques [1986]. The Ethics of Psychoanalysis 1959-1960, trad. Dennis Porter, Londres: Routledge, 1992.
Lambert, Johann Heinrich [1988]. Texte zur Systematologie und zur Theorie der wissenschaftli-chen Erkenntnis, ed. G. Siegwart, Hamburgo: Felix Meiner Verlag.
Laplanche, J. e Pontalis, J.B. [1973]. The Language of Psychoanalysis, trad. Donald Nichol-son-Smith, Londres: Institute of Psychoanalysis/Karnac Books, 1988.
Lehmann, Gerhard [1969]. Beitrge zur Geschichte und Interpretation der Philosophie Kants. Berlim: Walter de Gruyter.
Obras citadas no texto            335
Leibniz, G.W. [1720]. G.W. Leibniz 's Monadology, trad. Nicholas Rescher, Londres: Routledge
1991. ______[1765]. New Essays on Human Understanding, trad. Peter Remnant e Jonathan Bennett,
Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
______[1966]. Logical Papers, trad. G.H.R. Parkinson, Oxford: Oxford University Press.
______[1976]. Philosophical Papers and Letters, trad. Leroy E. Loemker, Dordrecht-Holanda:
D. Reidel. *Lnin, V.I. (1902). What is to be Done?, Pequim: Foreign Languages Press, 1975. Lvinas, Emmanuel [1961]. Totality and Infmity, trad. Alphonse Lingis, 
Pittsburgh: Duquesne
University Press. Locke, John [1690]. An Essay ConcerningHuman Understanding, ed. John W. Yolton, Londres:
Dent, 1976.
Long, A.A. [1986]. Hellenistic Philosophy: Stoics, Epicureans, Sceptics, 2- ed., Londres: Duck-worth.
Long, A.A. e Sedley, D.N. [1987]. The Hellenistic Philosophers, vol. 1: Translations ofthe Principal Sources, with Philosophical Commentary. Cambridge: Cambridge 
University Press.
Lukcs, Georg [1922]. History and Class Consciousness, trad. Rodney Livingstone, Londres: Merlin Press, 1971.
Lutero, Martinho [1961]. Martin Luther: Selections from Writings, ed. John Dillenberger, Nova York: Anchor Books.
Lyotard, Jean-Franois [1791]. Discours, Figure. Paris: Editions Klincksieck.
______[1974]. Libidinal Economy, trad. Iain Hamilton Grant, Londres: Anthlone Press, 1993.
______[1983]. 77?e Differend: Phrases in Dispute, trad. Georges Van Den Abeele, Manchester:
Manchester University Press.
______[1986]. L'enthousiasme. La critique kantienne de 1'histoire. Paris: Editions Galile.
______[1988]. "Sensus Communis", trad. G. Bennington e M. Hobson, Paragraph.
______[1990]. The Lyotard Reader, ed. Andrew Benjamin, Oxford: Basil Blackwell.
______[1991]. Leons sur VAnalytique du sublime. Paris: Editions Galile.
McClelland, Charles E. [1980]. State, Society and University in Germany 1700-1914. Cambridge: Cambridge University Press.
Maimon, Solomon [1790]. Versuch ber die Transcendentalphilosophie mit einem Anhang uber die simbolische Erkenntnis, Hildesheim: Georg Olms, 1965.
Malebranche, Nicolas [ 1992]. Philosophical Selections, trad. T.M. Lennon e P. J. Olscamp, Indianapolis: Hackett.
Malter, Rudolf [1990]. Immanuel Kant in Rede und Gesprch, Hamburgo: Felix Meiner Verlag.
Maquiavel, Nicolau [1531]. The Discourses, trad. Leslie J. Walker, Harmondsworth: Penguin, 1978.
Marx, Karl [1843]. Critique of Hegel's 'Philosophy ofRight', trad. A. Jolin e J. 0'Malley, Cambridge: Cambridge University Press, 1977.
______[1848]. The Manifesto ofthe Communist Party. Moscou: Progress Publishers.
______[1859]. A Contribution to the Critique ofPolitical Economy, trad. S.W. Ryazanskaya,
Moscou: Progress Publishers, 1977.
Meissner, Heinrich Adams [1737]. Philosophisches Lexicon aus Christian Wolffs smtlichen deutschen Schriften. Dsseldorf: Stern Verlag Jannsen & Co., 1970.
Mellin, G.S.A. [1797]. Encyclopdisches Wrterbuch der kritischen Philosophie. Aalen: Georg Olms, 1970.
Merleau-Ponty, M. [1992]. Phenomenology ofPerception, trad. Clin Smith, Londres: Routledge & Kegan Paul.

336            Obras citadas no texto
Milbank, John [1990]. Theology and Social Theory: Beyond Secular Reason. Oxford: Basil Black-
well. Moore, A. W. [1990]. The Infmite. Londres: Routledge. Newton, Isaac [1687]. Mathematical Principies of Natural Philosophy, trad. Andrew Motte, rev.
Florian Cajori, Chicago: William Benton, 1952. Nietzsche, Friedrich [1872]. The Birth ofTragedy, trad. Walter Kaufmann, Nova York: Vintage
Books.
______[1882]. The Gay Science, trad. Walter Kaufmann, Nova York: Vintage Books, 1974.
______[1886]. Beyond Good and Evil, trad. RJ. Hollingdale, Harmondsworth: Penguin, 1978.
______[ 1887]. On the Genealogy of Morais, trad. Walter Kaufmann, Nova York: Vintage Books,
1967. ______[ 1901 ]. The Will to Power, trad. Walter Kaufmann e R. J. Hollingsdale. Nova York: Vintage Books, 1968. Nygren, A. [1982]. Agape and Eros, trad. Philip 
S. Watson, Londres: SPCK. 0'Neill, Onora [1989]. Constructions of Reason: Explorations ofKant's Practical Philosophy.
Cambridge: Cambridge University Press. Ong, Walter [ 1983]. Ramus: Method and the Decay of Dialogue. Cambridge, Mass.: Harvard University Press. Peters, F.E. [1967]. 
Greek Philosophical Terms: A Historical Lexicon, Nova York: New York
University Press. Plato [1961]. The CollectedDialogues ofPlato, ed. Edith Hamilton e Huntington Cairns, Prince-
ton, Princeton: University Press. Plotino [1971]. The Six Enneads, trad. Stephen MacKenna e B.S. Page, Chicago: William Benton. Polonoff, Irving I. [1973]. Force, 
Cosmos, Monads and other Themes ofKanVs Early Thought.
Bonn: Kantstudien Ergnzungsheft, 107. Proclo [1970]. A Commentary on the First Book ofEuclid's Elements, trad. Glenn R. Morrow,
Princeton: Princeton University Press.
______[1992]. The Elements of Theology, trad. E.R. Dodds, Oxford: Oxford University Press.
Pufendorf, Samuel [1672]. De jure naturae et Gentiun libri octo, trad. C.H. e W.A. Oldfather,
Nova Iorque e Londres, 1964. Quintiliano [92-5]. TheInstitutio oratria ofQuintilian with an English Translation (4 vols.), trad.
H.E. Butler, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1921. Ramus, Peter [1549]. Arguments in Rhetoric against Quintilian, trad. Carole Newlands, Dekalb,
Illinois: Northern Illinois University Press, 1986. Reinhold, Karl Leonhard [1790-2]. Briefe ber die Kantische Philosophie, Leipzig. Ricken, Friedo [1984]. Lexicon 
der Erkenntnistheorie undMetaphysik, Munique, C.H. Beck. Riedel, Manfred [1975]. Metaphysik undMetapolitik. Frankfurt: Suhrkamp Verlag. Rose, G. [1981]. Hegel Contra 
Sociology. Londres: Athlone Press.
______[1984]. Dialectic ofNihilism. Oxford: Basil Blackwell.
______[1992]. The Broken Middle: Out ofOurAncient Society. Oxford: Basil Blackwell.
Rosenkranz, Karl [1840]. Geschichte der Kant'schen Philosophie. Berlim: Akademie-Verlag,
1987. Rousseau, Jean-Jacques [1762]. The Social Contract andDiscourses. Londres: Dent.
______[1762]. Emile or On Educaion, trad. Allan Bloom, Nova York: Basic Books.
Russell, D. A. e Winterbottom, M. [ 1978]. Ancient Literary Criticism: The Principie Texts in New
Translations. Oxford: Oxford University Press. Sartre, Jean-Paul [ 1960]. Searchfor a Method, trad. Hazel E. Barnes, Nova York: Vintage Books,
1968.
Obras citadas no texto            337
Scheler, Max [1973]. Formalism in Ethics andNon-Formal Ethics ofValues, trad. M.S. Frings e R. Funk, Evanston: Northwestern University Press.
Schelling, F.W.J. [1800]. System des transzendentalen Idealismus. Hamburgo: Felix Meiner, Verlag, 1957.
______[1809]. ber des Wesen der menschlichen Freiheit. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1975.
______[1856]. On the History of Modem Philosophy, trad. Andrew Bowie, Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
Schiller, Friedrich [1793]. On the Aesthetic Education ofMan, trad. E. Wilkinson e L.A. Wil-loughby, Oxford: Oxford University Press, 1967.
Schmid, Carl Christian Erhard [1798]. Wrterbuch zum leichtern Gebrauch der Kantischen Schriften, Norbert Hinske, org., Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 
1976.
Schneiders, Werner. org. [1983]. Christian Woljf 1674-1754: Studien zum Achtzehnten Jahrhun-dert Band 4. Hamburgo: Felix Meiner Verlag.
Schopenhauer, Arthur [1813]. The FourfoldRoot ofthe Principie ofSuffwient Reason, trad. E.F. J. Payne, La Salle: Open Court Publishing Company, 1974.
______[1819]. The World as Will and Representation, trad. E.F.J. Payne, Nova York: Dover Pu-
blications, 1969.
______[1841]. On the Basis ofMorality, trad. E.F.J. Payne, Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1965.
Shaftesbury (Anthony Ashley Cooper) [1711]. Characteristics ofMen, Manners, Opinions, Times, Nova York, 1964.
Spinoza, Benedict [1985]. The Collected Works ofSpinoza, vol.l, trad. e ed. de Edwin Curley, Princeton: Princeton University Press.
Stavenhagen, Kurt [1949]. Kant undKnigsberg, Gttingen: Deuerliche Verlagsbuchhandlung.
Strawson, P.F. [ 1966]. The Bounds ofSense: An Essay on Kant 's Critique ofPure Reason. Londres: Methuen.
Surez, Francisco [1975]. ber die Individualitt und das Individuations-prinzip, trad. Rainer Specht, Hamburgo: Felix Meiner Verlag.
Taylor, Charles [1975]. Hegel, Cambridge: Cambridge University Press.
Tonelli, Giorgio [1964]. "Das Wiederaufleben der deutsch-aristotelischen Terminologie bei Kant whrend der Entstehung der "Kritik der reinen Vernunft'", Archivfr 
Begriffsgeschichte, vol. IX, p.233-42.
Urmson, J.O. [1990]. The Greek Philosophical Vocabulary. Londres: Duckworth.
Vaihinger, H. [1911]. The Philosophy of"As-If": A Philosophy ofthe Theoretical, Practical and Religious Fictions ofMankind, trad. C.K. Ogden, Londres, 1925.
Vorlnder, Karl [1911]. Immanuel Kants Leben. Leipzig: Felix Meiner Verlag.
Walker, Mac [1971]. German Home Towns: Community, State and General Estate 1648-1871. Ithaca e Londres: Cornell University Press.
Warda, Arthur [1922]. Immanuel Kant Bcher. Berlim.
Weber, Max [1904-5]. The Protestam Ethic and the Spirit of Capitalism, trad. Talcott Parsons, Londres: Allen & Unwin.
Weber, Peter [1985]. Berlinische Monatsschrift 1783-1796. Leipzig: Verlag Phillip Reclam.
Welsch, Wolfgang [1987]. Aisthesis. Grunzge undPerspektiven der Aristotelischen Sinnenlehre, Stuttgart.
______[1990]. Aesthetisches Denken. Stuttgart: Phillip Reclam Jun.
Wittgenstein, Ludwig [1922]. Tractatus Logico-Philosophicus, trad. C.K. Ogden, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1983.
______[1953]. Philosophical Investigations, trad. G.E.M. Anscombe, Oxford: Basil Blackwell.
Wolff, Christian [1719]. Vernunftige Gedanken von Gott, der Welt und der Seele der Menschen, auch alie Dingen berhaupt, Halle.

338            Obras citadas no texto
[1720]. Vemunftige Gedanken von der Menschen Thun undLassen zu Befrderung ihrer
Glckseligkeit, Halle. ______[1721]. Vemunftige Gedanken von dem gesellschaftlichen Leben der Menschen und in-
sonderheit dem gemeinen Wesen zu Befrderung der Glckseligkeit des menschlichen Ges-
chlechts, Halle. ______[1728]. Preliminary Discourse on Philosophy in General, trad. Richard J. Blackwell, Indi-
anapolis: Bobbs-Merrill, 1963. Wolfson, Harry Austryn [1962]. The Philosophy ofSpinoza (2 vols.). Cambridge, Mass.: Harvard
University Press.
Leituras adicionais recomendadas
Histria geral alem
Behrens, C.B.A. [1985]. Society, Government and the Enlightenment: The Experience ofEighte-
enth Century France and Prssia. Londres: Thames & Hudson. Dorwart, Reinhold August [1971]. The Prussian Welfare State before 1740. Cambridge, Mass.:
Harvard University Press. Hinrichs, Carl [1971]. Preussentum und Pietismus. Der Pietismus in Brandenburg-Preussen ais
religis-soziale Reformbewegung. Gttingen, Vandenhoeck & Ruprecht. Kirby, David [ 1990]. Northern Europe in theEarly Modem Period: TheBaltic World 1492-1772.
Londres e Nova York: Longman Group. Oestreich, Gerhard [1982]. Neo-Stoicism and the Early Modem State, trad. David McLintock,
Cambridge: Cambridge University Press. Raeff, Marc [1985]. The Well-Orderd Police State - Social and Institutional Change through
Law in the Germanies and Rssia, 1600-1800. New Haven: Yale University Press. Rosenberg, Hans [1966]. Bureaucracy, Aristocracy and Autocracy: The Prussian Experience
1660-1815. Cambridge, Mass.: Harvard University Press. Vierhaus, Rudolf [ 1978]. Deutschland im Zeitalter des Absolutismus. Gttingen: Vandenhoeck &
Ruprecht. Walker, Mack [1971]. German Home Towns: Community, State and General Estate 1648-1871.
Ithaca e Londres: Cornell University Press.
Histria intelectual alem
Beck, Lewis White [1969]. Early German Philosophy: Kant and his Predecessors. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.
Blackall, E.A. [1959]. The Development of German as a Literary Language. Cambridge: Cambridge University Press.
Brunschwig, Henri [ 1974]. Enlightenment and Romanticism in Eighteenth Century Prssia, trad. Frank Jellinek, Chicago: Chicago University Press.
Cassirer, Ernst [1951]. The Philosophy of the Enlightenment. Princeton: University of Princeton Press.
Erdmann, Benno [1876]. Martin Knutzen undseine Zeit. Leipzig.
Krieger, Leonard [1657]. The German Idea ofFreedom. Boston: Beacon Press.
Petersen, Peter [1921]. Geschichte der Aristotelischen Philosophie in Protestantischen Deutschland. Leipzig.
Reill, Peter Hans [1975]. The German Enlightenment and the Rise of Historicism. Los Angeles: University of Califrnia Press.

340            Leituras adicionais recomendadas
Wolff, Hans M. [1963]. Die Weltanschauung der deutschen Aufklrung in geschichtlicher
Entwicklung. Berna e Munique: Francke Verlag. Wundt, Max [1939]. Die deutsche Schulmetaphysik des 17. Jahrhundert. Tbingen: Verlag von
J.C.B. Mohr. ______[1945]. Die deutsche Schulmetaphysik im Zeitalter der Aufklrung. Hildesheim: Georg
Olms, 1964.
Seleo de obras secundrias sobre Kant
Allison, Henry E. [1990]. Kant's Theory ofFreedom. Cambridge: Cambridge University Press.
Bartuschat, Wolfgang [1972]. Zum systematischen Ort von Kants Kritik der Urteilskraft. Frankfurt: Vittorio Klostermann.
Batscha, Zwi [1976]. Materialen zu Kants Rechtsphilosophie. Frankfurt: Suhrkamp Verlag.
Bumler, Alfred [1967]. Das Irrationalittsproblem in der sthetik und Logik das 18. Jahrhun-derts biz zur Kritik der Urteilskraft. Tbingen: Max Niemeyer.
Beck, Lewis White [1960]. A Commentaryon Kant's Critique ofPracticalReason. Chicago: Chicago University Press.
Bennett, Jonathan [1966]. Kant's Analytic. Cambridge: Cambridge University Press.
______[1974]. Kant's Dialectic. Cambridge: Cambridge University Press.
Bckerstette, Heinrich [1982]. Aporien der Freiheit und ihre Auftsung durch Kant. Stuttgart-Bad Cannstatt: Frohmann-Holzboog.
Booth, William James [1986]. Interpreting the World: Kant 's Philosophy ofHistory and Politics. Toronto: University of Toronto Press.
Buroker, Jill Vance [1981]. Space and Incongruence. Dordrecht: D. Reidel.
Cohen, Ted. e Guyer, Paul, orgs. [1982]. Essays in Kant's Aesthetics. Chicago: Chicago University Press.
Coleman, Francis X.J. [1974]. The Harmony of Reason: A Study in Kant 's Aesthetic. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press.
de Man, Paul [1986]. The Resistance to Theory. Manchester: Manchester University Press.
de Vleeschauwer, Hermann-J. [1962]. 77ie Development ofKantian Thought: The History of a Doctrne. Trad. A.R.C. Duncan, Londres, Thomas Nelson & Sons.
Deleuze, Gilles [1984]. Kant's Criticai Philosophy, The Doctrne of the Faculties, trad. Hugh Tomlinson e Barbara Habberjam, Londres: Athlone Press, 1984.
Despland, Michel [1973]. Kant on History and Religion. Montreal e Londres: McGill-Queens University Press.
Findlay, J. N. [ 1981 ]. Kant and the Transcendental Object: A Hermeneutic Study. Oxford: Oxford University Press.
Gram, Moltke S. [1967]. Kant: Disputed Questions. Chicago: Quadrangle Books.
Gregor, Mary J. [ 1963]. Laws ofFreedom: A Study ofKant 's Method ofApplying the Categorical Imperative in the Metaphysik der Sitten. Oxford: Basil Blackwell.
Guyer, Paul [1979]. Kant and the Claims ofTaste. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.
______[1987]. Kant and the Claims ofKnowledge. Cambridge: Cambridge University Press.
______ed. [ 1992]. The Cambridge Companion to Kant. Cambridge: Cambridge University Press.
Heimsoeth, Heinz [1966-71]. Transzendentale Dialektik: Ein Kommentar zu Kants "Kritikder reinen Vernunft". Erster Teil: Ideenlehre und Paralogism, Zweiter Teil: 
Vierfache Vernunf-tantinomie, Dritter Teil: Das Ideal der reinen Vernunft, Vierter Teil: Die Methodenlehre. Berlim: de Gruyter.
Hinske, Norbert [1970]. Kants Weg zur Tranzendentalphilosophie: der dreissigjhrige Kant. Stuttgart, Kohlammer.
Leituras adicionais recomendadas            341
______[1974]. "Kants neue Terminologie und ihre alten Quellen", em Kant-Studien, Sonderheft.
vol.65. Kersting, Wolfgang [1984]. Wohlgeordnete Freiheit: Immanuel Kant Rechts und Staatsphilo-
sophie. Berlim e Nova York: Walter de Gruyter. Koehnke, Klaus Christian [1991]. The Rise of Neo-Kantianism: German Academic Philosophy between Idealism and Positivism, 
trad. RJ. Hollingsdale, Cambridge: Cambridge University Press. Krner, Stephan [1955]. Kant. Harmondsworth: Penguin.
Kudielka, Robert [1977]. Urteil undEros: Errterungen zu Kants Kritikder Urteilskraft. Tbingen (dissertao).
Kulenkampff, Jens [1974]. Materialen zu Kants "Kritikder Urteilskraft". Frankfurt: Suhrkamp Verlag.
______[1978]. Kants Logik des sthetischen Urteils. Frankfurt: Vittorio Klostermann.
Lehmann, Gerhard [1969]. Beitrge zur Geschichte und Interpretation der Phosophie Kants. Berlim: Walter de Gruyter.
______[1980]. Kants Tugenden: Neue Beitrge zur Geschichte und Interpretation der Phosophie Kants. Berlim: Walter de Gruyter.
McFarland, J.D. [1970]. Kant's Concept ofTeleology. Edimburgo: Edinburgh University Press.
Marc-Wogau, Konrad [1938]. Vier Studien zu Kants Kritik der Urteilskraft. Uppsala: Lundequistka Bokhandeln.
Martin, Gottfried [ 195 5]. Kant 's Metaphysics and the Theory of Science. Manchester: Manchester University Press.
May, J.A. [1970]. KanVs Concept of Geography and its Relation 'to Recent Geographical Thought. Toronto: University of Toronto Press.
Magazine Littraire, edio especial, Kant et Ia modernit. nB 309, abril de 1993.
Mller-Lauter, Wolfgang [1964]. "Kants Widerlegung des materialen Idealismus", em Archivfr Geschichte der Phosophie, 46/1, p.60-82.
Ollig, Hans-Ludwig [1982]. Neokantianismus. Stuttgart: Phillip Reclam Jun.
Paton, H.J. [1936]. Kanfs Metaphysics ofExperience. Londres: George Allen & Unwin.
______[1965]. The Categorical Imperative: A Study in KanVs Moral Philosophy. Londres: Hut-
chinson.
Pippin, Robert B. [1982]. Kant's Theory ofForm: An Essay on the Critique ofPure Reason. New Haven: Yale University Press.
Pohlmann, Rosemarie [1973]. Neuzeitliche Natur und brgerliche Freiheit: eine sozialgeschich-tlich angeleitete Untersuchung zur Phosophie Immanuel Kants. Mnster 
(dissertao).
Riedel, Manfred [1989]. Urteilskraft und Vernunft: Kants ursprngliche Fragestellung. Frankfurt: Suhrkamp Verlag.
Riley, Patrick [1983]. KanVs Political Philosophy: Totowa: Rowman & Littlefield.
Rotenstreich, Nathan [1984]. "Legislation and Exposition: Criticai Analyses of Differences between the Philosophy ofKant and Hegel". Bonn, Hegel-studien Beiheft 
nQ 29.
Saner, Hans [1973]. KanVs Political Thought: Its Origins and Development, trad. E.B. Ashton, Chicago: Chicago University Press.
Schaper, Eva [ 1979]. Studies in Kant 's Aesthetics. Edimburgo: Edinburgh University Press.
Schlipp, Paul Arthur [1938]. Kant 's Pre-Critical Essays. Evanston e Chicago: Northwestern University Press.
Shell, Susan Meld [1980]. The Rights of Reason: A Study of KanVs Philosophy and Politics. Toronto: University of Toronto Press.
Tonelli, Giorgio [1962]. "Der historische Ursprung der kantischen Termini 'Analytik' und 'Dialektik'". Archivfr Begriffsgeschichte. vol.7, p. 120-39.

342            Leituras adicionais recomendadas
______[1975]. "Conditions in Knigsberg and the Making of Kant's Philosophy", em Alexis J.
Bacher, org., Bewusst sein: GerhardFunke zu eigen. Bonn, 1975, p. 126-44. ______[1976]. "Analysis and Synthesis in XVIIIth Century Philosophy prior to Kant". Archivfr
Begriffsgeschichte, vol.20, p. 176-213. van de Pitte, Frederick [1971]. Kant as Philosophical Anthropologist. Haia: Martinus Nijhoff. Verneaux, Roger [1967]. Le 
Vocabulaire de Kant. Paris: Editions Montaigne. Wald, Samuel Gottlieb [ 1804]. Gedchtnissrede aufKant, org. Rudolf Reicke, Knigsberg, 1860. Walsh, W. H. [ 1975]. 
Kant 's Criticism ofMetaphysics. Edimburgo: EdinburghUniversity Press. Weber, Ludwig [1976]. Das Distinktionsverfahren im mittelalterlichen Denken und Kants
skeptische Methode. Meisenheim-am-Glan, Monographien zur philosophischen Forschung. Werkmeister, W.H. [1979]. Kant's Silent Decade: A Decade of Philosophical Development. 
Tal-
lahassee: University Presses of Florida. Williams, Howard [1983]. Kant's PoliticalPhilosophy. Oxford: Basil Blackwell. Wolff, Robert Paul, org. [1968]. Kant: A Collection 
of Criticai Essays. Nova York: Doubleday
Anchor. Wood, Allen W. [1978]. Kant's Rational Theology. Ithaca: Cornell University Press. Yovel, Yirmiahu [1980]. Kant and the Philosophy of History. Princeton: 
Princeton University
Press.
ndice de filsofos
Adorno, Theodor W. 1903-69: esttica; antinomias da razo pura; determinao; Iluminismo; formalismo; liberdade.
Agostinho, Santo 354-430: afeto; mal; tempo.
Aquino, Santo Toms de 12257-74: abstrao; acidente; ao; anlise; arte; beleza; categorias; efetividade; entendimento; essncia; felicidade; gnio; idia; mal; 
metafsica, razo.
Arendt, Hannah 1906-75: ao; ajuizamento; comunicabilidade; escritos polticos; esttica; faculdade de julgar; juzo reflexivo; mal; pblico/publicidade; sentido 
comum.
Aristteles 384-321 a.C: absoluto; ao; acidente; afeto; amizade; analogia; anlise, analtico; arte; associao; beleza; cnone; categorias; conceito; conscincia; 
corpp; dialtica; direito natural; efetividade; emprico; espao; essncia; existncia; experincia; faculdade; f; felicidade; fim; forma; gnero; histria da filosofia; 
idia; infinito; intuio; lgica; mal; metafsica; paralogismo; postulados; predicveis; predicamentos; princpio; psicologia; razo; sentido comum; ser; sujeito; 
teleologia.
Arnauld, Antoine 1611-94: a priori/a posteriori; categorias; lgica.
Baumgarten, Alexander Gottlieb 1714-62: a priori/a posteriori; aparncia; beleza; clareza; conceito; dever; disputa; efetividade; emprico; essncia; esttica; imaginao; 
intuio; metafsica; ontologia; teologia.
Bocio, Ansio Mnlio Torquato Severino 480-524: analtica; categorias; dialtica.
Burke, Edmund 1729-97: disputa; emprico; esttica.
Cohen, Hermann 1842-1918: a priori/a posteriori; experincia; f; origem.
Deleuze, Gilles 1925-1995: absoluto; ao; anfibologia; "eu penso".
Derrida, Jacques 1930-: ao; acidente; anfibologia; analogia; nimo; construo; esttica; "eu penso"; faculdade de julgar; Iluminismo; sublime; sujeito; tbua 
de juzos/categorias.
Descartes, Ren 1596-1650: a priori/a posteriori; nimo; acidente; afeto; anlise; apercepo; corpo; categorias; causalidade; certeza; conscincia; deduo; entendimento; 
espao; essncia; "eu penso"; experincia; extenso; fim; fora; histria da filosofia; idia; idealismo; impenetrabi-lidade; intuio; movimento; psicologia; razo; 
realidade; sentido interno; ser; sujeito, teleologia; tempo; teologia.
Digenes Larcio c. sculo III a.C.: anlise, impresso; tempo.
Eberhard, Johann Augustus 1739-1809: clareza; fundamento; histria da filosofia; idias inatas; juzo analtico.

344            ndice de filsofos
Empdocles c. 490-430 a.C: amizade, faculdade; princpio.
Epicuro 341-270 a.C: antecipaes da percepo; cnone; conceito; disputa; emprico; finitude; histria da filosofia; lgica; mal; orientao; realidade; representao; 
sensibilidade; tempo.
Esticos: afeto; amizade; disputa; histria da filosofia; ideal; mal; virtude.
Euclides c. 400 a.C: anlise; analogia; conscincia; elementos; espao; matemtica; postulado.
Fichte, Johann Gottlieb 1762-1814: a priori/a posteriori; absoluto; abstrao; ao; acidente; antecipaes da percepo; aparncia; apercepo; arquitetnica; categorias; 
conceito; conscincia; disputa; efetividade; entendimento; espontaneidade; eu; idealismo; infinito; lgica; liberdade; princpio; reflexo; sntese.
Foucault, Michel 1926-84: corpo; "eu penso"; Iluminismo; sujeito.
Freud, Sigmund 1856-1939: ao; afeto; anlise, conscincia; eu; "eu penso"; psicologia; pulso; sexo; sujeito.
Galileu 1564-1642: causalidade; fim; teleologia.
Habermas, Jrgen 1929-: comunicao; faculdade de julgar; Iluminismo; pblico/publicidade.
Hamann, Johann Georg 1730-88: Deus; disputa; entendimento; f; filosofia crtica; formalismo.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich 1770-1831: absoluto; abstrao; ao; amor; antinomias; aparncia; arquitetnica; arte; autonomia; ser; categorias; causalidade; coisa-em-si-mesma; 
conceito; conscincia; cosmologia; cultura; determinao; dever; dialtica; direito natural; efetividade; entendimento; espontaneidade; esttica; eu; f; fenomenologia; 
filosofia crtica; fora; formalismo; imperativo categrico; infinito; justia; liberdade; limite; lgica; mal; postulado; reflexo; sistema.
Heidegger, Martin 1889-1976: ao; acroamas; analogias da experincia; nimo; antecipaes da percepo; efetividade; esperana; "eu penso"; existncia; finitude; 
fundamento; imaginao; liberdade; ontologia; princpio; princpios do entendimento puro; psicologia; sntese; ser; tempo.
Herder, Johann Gottfried 1744-1803: cultura; disputa; entendimento; filosofia crtica.
Hobbes, Thomas 1588-1679: absoluto; abstrao; acidente; categorias.
Hume, David 1711-76: a priori/a posteriori; ao; acidente; analogia; associao; causalidade; deduo; dogmatismo; emprico; esttica; experincia; Iluminismo; 
impresso; necessidade.
Husserl, Edmund 1859-1938: abstrao; antecipaes da percepo; conceito; construo; efetividade; fenomenologia; formalismo; psicologia; sntese.
Hutcheson, Francis 1694-1746: ao; beleza; direito natural; disputa; emprico; esttica.
Leibniz, Gottfried Wilhelm 1646-1716: a priori/a posteriori; acidente; anfibologia; anlise; aparncia; beleza; clareza; conceito; conceitos de reflexo; conscincia; 
corpo; disputa; emprico; entendimento; espao; esttica; experincia; extenso; fora, histria da filosofia; idias inatas; identidade; interno/externo; interpretao; 
intuio; mnada; movimento; percepo; racionalis-mo; reflexo; representao; sensibilidade; ser; tempo; teodicia.
Locke, John 1632-1704: abstrao; acidente; anfibologia; apercepo; associao; conceitos de reflexo; deduo; emprico; entendimento; espao; experincia; histria 
da filosofia; impresso; interno/externo; sensibilidade; tempo.
Lutero, Martinho 1483-1546: ao; autonomia; conscincia; f; igreja; mal.
ndice de filsofos            345
Lyotard, Jean-Franois 1924-: afeto; analogia; avaliao; comunicabilidade; construo; entusiasmo; escritos polticos; esttica; Iluminismo; impulso; juzo reflexivo; 
sentido comum; sublime.
Maquiavel, Nicolau 1469-1527: ao; autonomia; liberdade.
Malebranche, Nicolas 1638-1715: a priori/a posteriori; certeza; forma.
Marx, Karl 1818-83: abstrao; ao; antinomia da razo pura; cultura; dialtica; eu; filosofia cr-jtica.
Mendelssohn, Moses 1729-86: dogmatismo; imortalidade; sentido interno.
Newton, Isaac 1642-1727: anlise; contrapartidas incongruentes; entendimento; espao; lei; histria da filosofia; mundo inteligvel; revoluo copernicana; tempo.
Nietzsche, Friedrich 1844-1900: ao; acidente; aparncia; autonomia; causalidade; coisa-em-si-mesma; dever; entendimento; esttica; eu; "eu penso"; faculdade; f; 
filosofia crtica; formalismo; imortalidade; imperativo categrico; juzo reflexivo; liberdade; mal; postulado; psicologia; ser; sujeito; tempo; vontade.
Parmnides c. sculo VI-V a.C: infinito; opinio; ser.
Pitgoras c. 572-497 a.C: analogia; histria da filosofia; matemtica; tempo.
Plato 428/7-348/7: afeto; anlise; arte; associao; beleza, conceito; dialtica; dogmatismo; emprico; espao; felicidade; finitude, forma; gnero; histria da 
filosofia; idia; mal; noumenon; opinio; princpio; psicologia; sensibilidade; ser; tempo; verdade.
Reinhold, Karl Leonhard 1758-1823: epistemologia; essncia; princpio.
Schelling, Friedrich Wilhelm Joseph von 1775-1854: absoluto; aparncia; arquitetnica; conceito; conscincia; cosmologia; espontaneidade; esttica; eu; fora; idealismo; 
infinito; mal; sistema; vontade.
Schopenhauer, Arthur 1788-1860: absoluto; acidente, aquisio; categorias; dever; fora; imperativo categrico; impulso; vontade.
Shaftesbury, Anthony Ashley Cooper 1671-1713: ao; beleza; esttica.
Spinoza, Benedict 1632-77: absoluto; afeto; anlise; certeza; conscincia; dogmatismo; essncia; idia; intuio; racionalismo.
Wolff, Christian 1679-1754: a priori/a posteriori; ao; acroamas; beleza; clareza; conceito; conscincia; contradio; cosmologia; definio; determinao; Deus; 
dever; direito natural; dogmatismo; efetividade; emprico; entendimento; essncia; esttica; "eu penso"; faculdade; fundamento; histria; identidade; Iluminismo; 
interesse; intuio; juzo analtico; juzo sinttico a priori; matemtica; metafsica; noumenon; obrigao; ontologia; perfeio; princpio; psicologia; racionalismo; 
razo pura; sistema; tempo; teologia; mundo.

ndice de conceitos
NOTA: Os nmeros de pginas em negrito referem-se s entradas principais dos verbetes.
absoluto, x, 1-2, 29, 66, 79-80, 95, 99, 132-3,
178,272,298,315 abstrao, x, 2-4, 36, 63-4, 76, 110, 123, 130,
132-3,159,178,202,276,284 ao, 4-7,40, 71, 96-9, 105, 108, 125, 147-9, 162, 191-4,215,217, 242, 244-5, 259, 273,315,319 acidente, x, 7-10, 10, 22-3, 27, 53, 61, 
127,
299-300 acromas/acromtico, x, 10, 73, 135,225, 260 afeco, 10-1, 12-3, 202,275,280,284
auto-, 12-3,26 afeto, 10-3, 14, 25-7, 60, 104-5, 113, 119,
132,250,275,280,284,288-90 afinidade, 13-4,42,188,296 agradvel, 14-5, 46-7, 59-60, 79, 131, 220,
257 alma, 11, 22,28, 59, 79, 100, 107, 136, 137, 167, 229, 241, 265-7, 272, 288,291, 305 amizade, 15-6
amor, 16,22,16-7, 124,318 anlise, 4,17-20, 58, 64, 82, 86-7, 153, 205,
208,230,263 analtica, 19-21, 29, 50, 52, 54, 58, 75-6, 81, 84,91,99,136,206-7,218-20 de conceitos, 20, 52, 87, 88, 91, 136 de princpios, 20, 55, 87, 102, 206, 
207,
262 da beleza, 45-6, 130, 131 do sublime, 103, 131,271,298 transcendental, 20, 21-3, 54-5, 79, 87, 88, 98, 114, 206, 219, 229, 245-6, 263, 264 analogia, 9, 15, 21-2, 
22-3, 55, 59, 61, 126, 144-6, 170-1, 182, 262-3, 308, 310
analogias da experincia, 6, 7, 21, 22-4, 27, 44, 54-5, 61, 74, 102, 209, 255, 261, 262-3, 299
anfibologia, 24-5, 65, 111, 172, 200, 231, 237
nimo (Gem), 10-3, 25-7, 113,125, 142-3, 173,187,285, 286-7,280,297, 317
antecipaes da percepo, 22-3, 26-8,44, 74, 102, 255, 260, 262
antinomia da razo pura, 1, 28-30, 55, 79-80, 85, 89, 99-101, 102-3, 105, 179,197,216, 234-5,238,251,265,272,274 do gosto, 83, 131
aparncia, 1, 12, 22-3, 27, 29,31-3,44, 58-9, 64, 78,65-6, 91-2, 94,80,106-7,112,156, 149, 184, 186, 185, 203, 207, 215, 225, 234-5, 242-3, 244, 246, 252, 255, 274, 
288,314,316
apercepo, 12-3, 33-5, 65, 69, 71, 82, 86, 91-2,134, 180, 181,211, 217,218,233, 234, 239, 249, 262, 268, 276, 287, 294, 316 unidade da, 13,39, 71, 92,112,160, 161,218,243,251,267,
293,313, 314
apetio, 26, 31,49, 142, 195-6,257, 297
apreenso, 132, 186, 189, 234, 276,294
apresentao, 19, 20,35, 73-4, 126, 135, 170, 186, 188,211,310
a priorila posteriori, 19, 20, 27, 32, 35-8, 54, 61, 64, 69, 73, 91, 92, 93, 103, 110,122-3, 125, 126, 153, 158, 170, 196,201-3,207, 210-1, 212, 215, 219-20, 226, 
229-30, 254, 260, 262, 268, 285, 294, 300, 306-7, 311, 313-4,316

348            ndice de conceitos
aquisio, 38-9, 49, 76-7, 91, 103, 180, 212,
230, 253 arqutipo/ctipo, 39, 59, 151, 176, 178, 187 arquitetnica, 39-40, 127, 143, 157, 229, 231,
295,311 arte, 40-1, 45, 129-30, 166, 169, 187, 302
como techne, 5, 40 associao, 13,41-2, 188 autonomia, 6,42-3, 84, 124-5, 162,191, 193, 199, 209, 215, 216-7, 236, 244, 273,318-9 axiomas,x, 10, 73, 135, 185, 224, 
254 da intuio, 22-3, 27, 43-4, 102,234, 255, 260, 262
beleza, 14, 15, 45-6, 59, 68, 94, 105, 171,
199,213,238,256-7,297 belo, 12, 60, 117, 130, 176, 220, 289, 297 bom/bem, 14, 96, 98, 113, 131, 154,161,
146-7, 154, 162, 171, 179-80, 220, 221,
222,255,279,301,310,315-6
cnone e organon, 15, 48-9, 80, 99, 135, 173,
176, 205, 206, 220, 226, 231, 248, 311 casamento, 49-50, 77, 103, 233-4,292-3 categorias, 8, 21, 22, 23, 27, 28, 32, 34,44,
50-4, 61, 64, 65, 74, 80, 88, 91-2, 101,
127-8, 138-9, 149, 166, 178-9,180, 196,
206, 214, 220, 234, 259, 262-3, 280,299,
302,311 causalidade, 23-4, 28-9, 54-5,61, 67-8, 74,
79,80,83,92, 116, 127, 135, 154, 157,
162, 165, 179, 196, 214, 216, 235, 238-9,
241,259,299,310 ceticismo, 8, 28, 35, 56, 106-7, 152, 173-4 clareza, 57-8, 208 co-existncia, 6,23-4, 58, 61, 116 cogito ("Eu penso"), 9, 33-5, 70, 86, 88,
134-5, 220, 249, 251, 265, 267, 268, 280,
287, 299-300 coisa-em-si-mesma, 1, 29, 58-9, 181,202,
225, 243, 244 como-se, 59, 83, 191-2,278 complacncia, 59-60, 256-7 comunicabilidade, 60-1, 132, 228, 268 comunidade, 23-4, 61-2, 127, 179, 209, 259,
263 conceitos, 18-9, 20, 30, 35, 34, 38-9, 62-5,
68-9, 73-4, 76, 93, 94-5, 102, 107, 112,
117, 123, 135, 156, 165, 178, 180, 186,
202, 206-7, 210,243,246, 276,280, 294 confusos, 18, 93,208,275, 306 conceitos de reflexo, 24-5, 65-6, 158-60,
180,199,225-6,237,276 conhecimento, 25, 26,29, 31-2, 41-2, 83,91,
35-8,44, 57, 68-9, 106-7, 114, 130,138,
143, 151, 159, 200-1, 222, 280, 282, 294,
311 conscincia, 33, 35, 57-8, 60, 68,69-71, 98,
132, 133-4, 138,142, 228, 239, 267, 276,
280, 287 de si, 34,49, 70, 71,132,181 -2, 277, 287, 297 conscincia moral, 70-1 constituio, 71-2, 103, 114-5,128-9, 146-8,
167, 282 construo, 44, 72-3, 135, 224 continuidade, 13, 74-5,106, 165-6, 174 contradio, 35, 54, 56, 58-9, 69, 75-6, 94,
116, 163, 180, 196, 210, 229, 232, 240,
244,258-61,316 contrapartida incongruente, 75-6,120, 121 contrato, 49-50, 76-7, 103, 230, 292 corpo, 25-6, 63, 77-9, 106, 121, 139, 147,
156-7, 160, 225, 231, 232,263,266, 285 cosmologia, 28, 59, 79-80, 88, 89, 99-100,
108, 116, 151, 179, 186, 228-9, 234-5,
245, 265, 272, 308 cosmopolitismo, 80-1, 90 crtica, xx, 19,48-9, 67, 85-6, 106, 151, 307,
311 filosofia critica, 152-3, 183,234 cultura, 89-90, 104, 168, 169, 171, 174,223,
304
deduo, 13-4, 19, 20, 33-4, 38, 50-1, 53-4,
83, 88, 91-2,141, 189, 227, 234, 239, 254,
272, 295 democracia, 71, 115, 128-9,182 desejo, 16,94,292,307 determinao, 18,43-4, 94-5, 98,101-2, 165,
237, 240 Deus, 21-2, 28,42-3,48, 59, 71, 72, 79, 84,
85, 95-6,97-9,100,106-7, 108, 116-7,
136, 144, 155, 171, 179,221-2,241,248,
255,265,272-3,291,307-10 dever, 16-7, 61, 71, 85, 96-9, 104, 148, 161,
192, 195, 216, 223, 230, 244-5, 318-9, 320
ndice de conceitos            349
dever ser, 40 dialtica, 28, 48, 66, 85, 99-101, 117, 165, 197,218-9,231,308 da faculdade de julgar esttica, 82, 131 transcendental, 20, 28, 59, 66, 79, 88, 102, 
113, 178, 185,206,219,241, 245,261,265,271-2 diferena, 47, 65, 146, 166, 180, 276, 292 dinmica, 101-2, 225-6, 227, 232, 238, 263-4 direito/direitos, 49, 98,102-3, 
103-4, 212,
230, 245, 267 disciplina, 16, 48, 89-90,104, 105, 169, 219,
231 dogmatismo, 59,106-7, 110, 173, 270
efetividade, 4, 35, 69,108-10, 127, 135-6, 273, 290-2
elementos, 17, 20, 48, 84, 86,110, 218-9, 231
empirismo, 33, 64,110-1, 268, 270
entendimento, 14, 20, 24-5, 52, 60, 74, 81, 88, 102,111-3, 117, 136, 138, 149, 174, 188-9, 203, 207, 215, 220, 226-7, 240-1, 271-2, 275-7, 284, 296, 297, 302, 312
entusiasmo, 12,113-4, 172
espao, 28, 76, 78, 101-2, 117,118-22, 123-4, 139, 177, 185, 188, 190-1, 197, 202-3,218,288,313
espao e tempo (formas da intuio), 27, 28, 29, 36, 51, 64, 74, 88, 91, 106,123-4, 130, 137, 139, 159, 161, 167, 177, 181, 185,
188,  197, 202-3, 211,217, 232,234, 248, 262, 274, 285, 288, 307
espontaneidade, 26, 34, 37, 39, 64, 70, 112, 124-6, 139, 156, 177, 180, 185, 196, 216-7, 234, 249, 268, 275, 287,294, 318
esquema(tismo), 22, 41, 53, 61, 64, 73, 84, 88-9, 113, 123,126-7, 159, 170-1, 185-6,
189, 207, 209, 295-6, 299, 307, 310 essncia, 93,127-8, 154, 290-1
estado, 67, 72, 76-8, 103-4, 114-5,128-9,
145, 182-3,230,253,279 esttica(o), 14, 40, 41, 45, 58, 59-60, 63, 79, 129-32, 179, 186-7, 200-4, 206-7, 256-7, 283 juzo, 3, 15, 68, 81-2, 131, 159, 188-9,
206-7,286,315 transcendental, 86-7, 122, 123, 130-1, 132, 160-1,201,219,275,307,313
existncia, 29, 102, 106, 108-9, 117, 127-8, 134, 135-7, 177, 239, 243, 247, 273, 290-2, 308-9
experincia, 23, 27, 31, 36,44, 51, 54-5, 64, 74, 88-9, 91-2,102,109, 113,131, 133-5, 137-9, 156, 160,162, 177, 188, 216, 243, 244, 246, 247, 249, 255, 260, 280, 
287, 292
extenso, 78, 119, 128,139-40, 190-1, 232
faculdade, 11,31,142-3, 202, 205, 206-7,
255 f, 41, 84, 95, 124, 141,143-6, 153, 156,
279,283,308,317 felicidade, 29, 85, 124,147-9, 261, 267, 268,
318 fenmeno, 31-2,149, 235,240 filosofia, ix-x,xx, 18,40, 66, 106-7,142-3,
150-2, 153, 154-5, 211, 214, 216, 225,
295-6 histria da, 172-4, 200 prtica, 59, 76, 81, 96, 154, 161, 189,
215,288,290,296 terica, 59, 81, 131, 154, 216, 288, 290, 296 fim, 39,46,49, 83, 89-90, 124, 148,154-6,
175, 191, 192,195,199,215-7,264,
303-4,315-6 finalidade, 40, 67-8, 82-3, 154-5, 159, 192,
298, 303 finitude, 64, 119,156, 198, 218, 255, 262,
288, 295, 307 fora, 54, 101, 116,119, 139,156-8, 190-1,
231-2,248,259,263 forma, 31-2, 37, 47, 63,68, 76-7, 91, 97,
110-1, 118, 121, 127-8,158-60, 178, 195,
200-2, 203, 206,218-9, 225-6,238,273,
284, 287-8 funo, 161, 204, 207, 220, 302
gnio, 41, 131, 135,166-7,176, 187-8, 190,
207, 278 geografia, 30, 114,167, 171 geometria, 17, 121-2, 224-5, 283 gosto, 14, 82-3, 105, 111, 129-32, 199, 207,
257, 286-7 grandeza, 27, 44, 80, 263, 284, 313 guerra, 146, 152,167-8

350            ndice de conceitos
heterogeneidade, 13, 14, 102, 126, 169,
174-5,186 heteronomia, 6,43,169-70, 193, 196, 199,
215-7,268,273,289,318-9 hipotipose, 7, 9, 73,126,131,170-1, 310 histria, 72, 80, 83-4, 96, 167,171-2,230 homogeneidade, 13, 74,165,174, 224, 296 humanidade, 16, 
49, 80-1, 90, 140, 155,
174-5, 193, 228, 248,271, 292, 296
ideal, 28, 94, 151,176,310, 315
idealismo, 34
idia, 28-9, 62, 64, 102, 113-5, 166,177-9, 186,221,260,297 transcendente, 58, 79, 100, 144-5, 177, 180,265-6,272,281 identidade, 21-2, 24, 34, 56, 65, 159, 161, 
180-2,227,265,313-4 dos indiscernveis, 120, 180, 276 igualdade, 73, 129, 233 Iluminismo,", 57, 66,183-4, 257-8,267-8,
279, 293 iluso, 20, 31-2, 80, 99,101,104, 184-6, 197-8,199-200, 206, 219, 221, 316-7 imagem, 63, 126,186-7,334 imaginao, 10-3,14, 25, 31, 35, 44, 60, 65, 68,73,82,91-2,96, 
112, 113, 124-5, 127, 140, 166, 185, 186,187-9,211,216,224, 257, 262, 285, 287, 292, 294, 298 imitao, 39,135, 166, 169, 176,190 impenetrabilidade, 63-4, 78, 79, 
128, 139,
190-1 imperativo, 96-7, 156, 162,191, 217, 223-4 categrico, 1-2, 43, 59, 84, 96, 155, 161-2,170,191-4, 196, 207, 215, 223,226,240,268,319,320 hipottico, 43, 148, 
162,170, 191, 192, 196, 223, 240 inclinao, 98, 105, 191, 194-5,195-6, 304 induo, 22,196
inferncia, 28-9, 88, 100-1, 112,117, 178-9, 185-6, 196,196-7, 206, 219, 254, 265, 271-2 infinitude, 29, 156,197-8, 304 interesse, 111, 152, 169,198-9, 301 intuio, 
19, 22, 27, 32, 34, 35-6, 38-9,44, 64-5, 69, 74, 78, 102, 109, 117, 121, 123, 130, 132, 138, 156, 160-1, 170-1, 177,
186, 188,200, 200-4, 206, 210, 224, 232, 240, 262,275, 280, 294, 306
juzo, 6,15,20,22, 30,34, 48, 50-2, 63, 67, 69, 81-4,100, 112-3, 116, 130, 135-6,138, 143, 161,169,185, 187, 205-6, 208, 209, 218-9,248,258,276,290,291
analtico, 78, 196, 208-9, 258, 262, 300 determinante, 30, 35, 82, 101, 155, 206,
209,299 faculdade do, 34, 65, 81, 130,143, 206,
206-8, 271 prtico, 20, 81, 130 esttico, 15, 21, 29, 60, 68, 101, 130-1 reflexivo, 15, 30, 60, 68, 82, 101, 114, 130-1,155,169,189,206,209, 209-10, 276, 286 sinttico 
apriori, 42, 55, 69, 78, 153, 196,202,208,210-1,258,262,300 do gosto, 29, 61, 81, 83, 130, 159, 189,
206 teleolgico, 15,21,30,83, 101 terico, 15,81, 130 justia, 80-1, 103-4, 114,212-3
legislao, 42-3, 98, 104, 152-3,155,167,
214, 264-5,278 lei, 42-3,47, 50, 72, 74, 82, 84, 85, 96-9, 144,148,155, 192-4, 195,209,211, 214-5, 223-4, 226, 278, 288, 299 moral, 85, 92, 98, 105, 141, 145, 156, 
169, 190, 195, 199, 223, 245, 255, 270,281,289,310-1,318-9 liberdade, 2, 29, 37, 40,42-3,46, 55, 64, 72-3, 75,77, 81, 84, 90, 92, 98, 103,107, 124-5,131, 141, 148, 
151, 155,156, 162, 192, 193, 214-5, 216-7, 222-3, 230, 236, 238,239,254-5,265,318-9 ligao, 91,217-8, 258, 294-5, 313 limitao, 27,102,181, 218, 240,243, 273,
307 limite, 29,93, 104, 107, 118, 139, 217, 218,
229, 241 lgica, 20-1, 94-5, 99, 128, 163,177,180-1, 218-20, 259 geral, 48, 220
transcendental, 20, 58, 63-5, 86, 88, 99, 125, 180,208,219,220,260
mandamento, 191,215, 223-4
ndice de conceitos            351
matemtica, 17-8, 44, 53, 56, 73, 102, 123, 135, 158, 159, 218, 224-5, 226, 263, 264 matria, 31-2, 76, 78, 101, 108, 116, 118-9, 127-8, 150, 157, 158-60, 161, 190-1,217,
221, 225-6, 227, 230,233, 238,263, 283 divisibilidade da, 106 jnxima, 6-7, 30,43, 47, 59, 84, 85, 98, 100,
105, 159, 199, 191-3, 207, 215, 217, 222,
226-7, 232, 238, 249, 260, 261, 267, 278,
281,318-9 mecnica e mecanismo, 30, 83, 98, 101, 139,
150, 155, 191, 215, 227, 232, 233, 238,
263 mente ver nimo (Gemt), metafsica, 18, 54, 79-80, 84, 85-6, 88-9,
105, 115-6,138, 140, 151-2, 154, 158,
163, 173, 184-5, 188, 218, 228-30,242,
245-6,261,263-4,282 mtodo, 18, 51, 56-7, 60, 73, 83, 85, 86-7,
89,104,117,163,219,230-1 modalidade, categorias de, 22, 42, 52-3, 80,
85, 102, 108, 127, 131, 136, 144,237,239,
255, 262-3 motivo, 5, 16-7,148, 155, 195 movimento, 5, 54, 78, 101, 116, 150-1, 154,
156-7, 161, 225-6, 232, 237, 247-8, 263,
282, 304 mltiplo/diverso, 13-4, 34, 46, 52, 53, 82, 92,
123, 138, 161, 186, 207, 209, 214, 217-8,
220, 234, 243, 244, 272, 277, 280, 294, 313-4
mundo, 22, 30, 59, 79, 97, 100, 108, 118, 136, 216-7, 234-5, 235-6, 240-1, 248, 254-5,260,291,272
natureza, 31, 40,42, 46, 55, 73, 82, 98, 148, 151, 154, 155, 166, 169, 198,214-5,216,
221, 234-5, 238-9, 248, 253, 263, 303, 317 necessidade, 35, 37, 107, 127, 131, 154, 192,
196,214-5,239-40,309-10,315 negao, 4, 27, 75, 94, 101, 126, 218, 240,
242-3,273 noumenon, 31-2, 58, 149, 161, 203, 235,
240-1,244
objeto, 27-8, 46-7, 49, 68, 76, 89, 110-1, 136, 159, 178, 191, 199, 203, 219, 222, 242-3, 245, 274, 275, 282-3, 283-4, 289-90, 291, 317
obrigao, 16, 49-50, 76, 97-8, 244-5, 318-9 ontologia, 20,23, 66, 79-80, 88, 114, 116,
135-6, 151, 153-4, 163,211,229,243,
245-6, 259,265, 300 opinio, 41-2, 56, 141, 144-5, 246-7, 282,
317 orientao, 24, 65, 76, 84, 120,179, 199,
200, 226, 248-9, 276
paixo, 11, 194-5,250,259 paralogismo, 28, 69, 79, 89, 100, 132-3, 179, 181-2, 190, 197,250-1, 265, 266, 272, 300 paz, 114, 124, 146, 167-8, 251, 282 pensamento, 
20, 52, 58, 169, 202, 232, 244,
287, 394-5 percepo, 23, 27-8, 33, 68, 69-70, 109, 122, 137, 194, 252, 260,273-4, 276, 280, 283, 284 percepo confusa, 33, 129-30 perfeio, 39,43,45, 57, 68, 
129, 169-70,
199,201,252,261,313,318 permanncia, 9, 23, 182, 190, 225,256 personalidade, 31, 98,'174, 198,228 pietismo, xxiv, 182 pluralidade, 44, 226, 263, 313 posse, 49, 74, 
211-2, 230, 253, 253-4, 264-5
de conceitos, 38-9, 91, 254 possibilidade, 35, 73, 76, 89,108-9, 127,
128, 177,239,243,263 postulados, 254-5
do conhecimento emprico, 22-3, 27, 44, 102, 108-9, 135-6, 239, 254, 255-6, 260, 262-3 da existncia de Deus, 48, 71, 85, 144,
179,254,273,310 da moralidade, 85, 144, 190, 272 da razo pura, 85, 96, 179, 198, 254 prazer, 11-2, 14-5, 25-6, 31,45, 59-60, 78-9, 81-2, 143, 148, 159, 173, 189,199,206-7, 
222, 256-7, 261, 286, 288-90,297 predicado, 9, 94, 135, 163, 180, 208, 258,
291,309 presena, 110, 188, 194, 259, 283 princpio, 10,20,22-3,27, 30,37,43-4,53, 64, 88, 101-2, 113, 159, 192, 206,207,209, 229, 230, 234, 255, 259-60, 277, 294, 
296 constitutivos, 80, 207, 260-1, 272, 296,
315 prticos, 84

352            ndice de conceitos
da razo prtica, 91, 179, 195, 207, 261 da pura moralidade, 219-20, 289 regulativos, 59, 74, 80,100, 155, 260, 272,304,315 psicologia, 11, 28, 59, 70, 79, 85, 88, 
100, 116, 132-3,179, 186,228, 245, 265-7, 308,314 puro, 46, 110-1, 122, 151, 159, 176,202,268
qualidade, categorias de, 27, 44, 52-3, 80,
101, 102, 126,218 quantidade, 287 quantidade, categorias de, 27,44, 52-3, 80,
102,126,213
racionalismo, 34, 75, 110, 163, 183, 208,
259, 270 razo, 4, 20, 25, 29,43, 66, 74, 98,100, 106,
112, 143, 152, 162, 178, 184,206,218,
228, 260, 270-3, fato da, 141-2
prtica pura, 6, 20, 72, 84-5, 152 terica, 6
pura, 20, 106,229,260 razo suficiente, 55, 260, 309 realidade, 27, 65,109,127, 176-7, 190, 218,
240, 259, 273-5,283 receptividade, 26, 32-3, 39,112, 113, 121,
124-5, 126, 139, 194,203,216-7, 234,
244, 272, 275, 283-5, 287 reflexo, 26, 57, 63, 65, 82, 116, 126, 137-8,
169, 194, 209, 276-7, 305 regra, 15,40-1,44,55, 104, 125, 135, 166,
171, 196, 205, 207, 209, 214, 222, 238,
277-8,316 reino dos fins, 155, 226, 278, 311
de Deus, 278, 311 relao, categorias de, 8,22, 53, 55, 61, 80,
126-7, 170, 179,209, 227, 239,262-3, 299 representao, 26, 31-2, 34, 35, 58, 60, 62-3,
68-9, 112, 113-4, 134, 161, 177,187-8,
202-3, 205, 230, 234, 288, 268, 275,
280-1, 283 respeito, 16, 85, 281, 288-9,293, 318 revoluo, 72, 114, 224, 281-2
saber, 35, 41, 57, 62, 68, 73, 89, 106-7, 144-5, 251, 259-60, 273-4, 317
sensao, 14, 25,27, 59-60, 62, 109, 110,
123, 137-8, 161,195-6, 202, 212, 225,
256, 268,273-4, 280, 283, 306 sensibilidade, 25, 36, 58, 129-30, 13-4, 20,
22-3, 24, 26, 51, 69, 88, 91, 102, 112, 116,
118, 121,123,125,142,177-8,185,
188-9,194, 216,220, 233, 234, 238, 240,
272, 280, 283-5, 286-7, 288-90 sentido comum/senso comum, 60, 83, 117,
138, 183,207,248,257,286-7,315 sentido interno, 34, 266, 287-8 sentimento, 11-2, 14-5, 16,131, 170, 288-9,
297-8 ser, 31,43, 75,116,135-6, 163, 256, 258,
265, 273,290-2 sexo, 14,31, 49, 79, 233, 257, 292-3 smbolo, 46, 84, 126, 170-1, 225, 311 simultaneidade, 24, 75 sntese, 16, 17, 27, 34, 35, 36,42,44, 52,
64-5, 82, 92, 102, 109, 117, 124-5,126,
128, 138,156, 179, 186-7, 189, 216,
227-8,234, 258,262,291, 294-5, 314 sistema, 72, 103, 127, 154,165, 215, 295-6 soberania, 129, 146 sub-repo, 118,281,298 sublime, 59-60, 83, 98, 102-3, 117, 238, 
253,
281,289,297-8 substncia, x, 6, 7-10, 18,23, 25, 61, 78, 86,
106, 127-8,133, 139, 157, 179,181, 225,
243, 263, 266, 299-300 subsuno, 15,166, 205-6, 207, 209, 252,
299, 07 sucesso, 23, 55, 109, 116, 299, 305 sujeito, 7, 9,19, 52, 56-7, 70, 94, 160, 165,
181,190,197,208,217,220,223,
299-300 como eu, 132-4,181-2, 215, 237, 247-8, 256, 265-6, 283-5, 297-8 sumo bem, 290, 300-1 supra-sensvel, 22, 30,46, 84, 92, 248, 310 harmonia, 45, 92, 131
tbua de categorias, 53, 60, 83, 94, 101-2, 126, 161, 206, 227, 233, 279,302 de juzos, 53, 64, 73, 112, 161, 170, 205-6, 220, 259 tcnico/tcnica, 40, 41, 73-4, 
170, 192, 210,
302-3 teleologia, 20-1, 30, 59, 81-4, 210, 303-4
ndice de conceitos            353
tempo, 18, 22-3, 26, 74, 91-2, 116, 126-7,
167, 197, 227, 232, 249, 275, 280, 283-4,
287-8,304-7 teologia, 28, 79-8, 85-6, 88, 89, 95-6, 100,
116, 179, 186, 212, 228-9,245, 265, 280,
308-10 tpica, 189,310-1 totalidade, 44, 82, 178, 197, 209, 226, 235,
238,272,313 transcendental, 24,45, 86,133, 151,210,
236, 242, 244, 247-8, 276,291,294,
311-2,313,320 iluso, 183, 186
objeto, 110, 177, 226, 244, 275, 311 sujeito, 134, 177, 181, 197,244,267
unidade, 33,44, 45, 70, 92, 100, 112, 133, 161, 180-2, 184, 198-9, 206, 214, 217-8,
220, 226, 263, 271, 272, 276, 295-6 297 302,311,313^ universalidade, 34, 37, 83, 159, 196,214-5 226,239,261,283,315 da lei, 193
validade, 36, 56, 174, 208, 214, 239,315 valor, 19, 193, 196, 208, 317, 315-6 verdade, 20, 31-2, 56, 75, 100, 122, 180, 185,
197,206,246-7,311,316-7 vida, 25, 82, 131, 156, 174-5, 256-7, 281,
288-90, 305,317 virtude, 16, 29, 85, 99, 124, 221, 230, 286,
317-8, 320 vontade, 6, 76-7, 81, 85, 90, 97-9, 104,105,
148, 155, 171, 191-2, 195, 199,215,222,
223-4, 226, 230, 236, 238, 261, 265,272,
279,289,300,318,318-20
